Arquivo do autor:Pedro Nogueira

Sobre Pedro Nogueira

Blogueiro, Estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte, MG.

As ideias de Márcio Holland – “Sou um desenvolvimentista fiscalista”

Sergio Lamucci | De São Paulo
16/12/2010, Do Valor
Escolhido para o cargo estratégida de secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, o economista Márcio Holland se define como “um desenvolvimentista fiscalista, se é que isso existe”. Segundo ele, é fundamental que o país estimule os setores da indústria que fabricam manufaturados e produtos intensivos em tecnologia, para não se tornar excessivamente dependente da exportação de commodities. Evitar a valorização do câmbio é uma tarefa importante, disse Holland, ressaltando, contudo, que a perda de espaço da indústria de transformação na economia não se deve apenas ao real forte – problemas de educação, do baixo investimento em pesquisa e desenvolvimento e a deficiência da infraestrutura também atrapalham.
Professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) de São Paulo, Holland afirmou que os gastos públicos deverão ter que se desacelerar em 2011, num cenário de menor expansão das receitas e em que há a intenção de se elevar o superávit primário. Ao mesmo tempo, deixou claro que não gosta do termo ajuste fiscal, insistindo na importância de se avaliar melhor a qualidade dos gastos do governo, um dos pontos aos quais deve dar prioridade na Fazenda.
Mineiro, formado pela Universidade Federal de Uberlândia, Holland tem mestrado pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), doutorado pela Unicamp e pós-doutorado pela Universidade da Califórnia, em Berkeley, nos EUA. A seguir, os principais trechos da entrevista, concedida ao Valor no começo da noite de ontem:
Valor: Em entrevista ao Valor em janeiro deste ano, o senhor disse: “Não podemos perpetuar essa discussão centrada em Copom, metas de inflação e taxas de juros. Precisamos discutir se queremos continuar crescendo como uma economia primária exportadora.” Esse continua um dos grandes desafios do país?
Márcio Holland: Continua. O Brasil já tem dez anos de regime de metas de inflação, nos quais o BC tem mostrado alta credibilidade em controlar a inflação. Mas o Brasil tem que ir além da discussão “copomista”. Oito vezes por ano, só se fala de juros. Temos que ir além de intensificar as exportações de produtos primários. Se você estudar os países mais e menos vulneráveis a choques internacionais, verá que os menos sujeitos a eles têm menor concentração de exportações. As exportações de commodities são importantes e muito bem vindas, mas os preços são mais voláteis que os preços de manufaturados. É importante ficar menos exposto a essa volatilidade, estimulando setores que produzem manufaturados e intensivos em tecnologia. O governo deve promover políticas de indução à inovação tecnológica e políticas educacionais bem direcionadas.
Valor: Boa parte dos analistas defende desaceleração do ritmo de alta dos gastos públicos em 2011 para ajudar no controle da inflação. Como o senhor vê essa questão?
Holland: O Brasil pode fazer isso, mas não deve cair na velha linha de que o ajuste fiscal por si só é suficiente. Não deve haver um corte linear de gastos. Alguns podem ser adiados e a sociedade tem que escolher, dada as restrições, o que se deve manter e o que se deve cortar. Eu prefiro não falar em ajuste fiscal, mas sim na questão da qualidade dos gastos. É importante avançar nesse sentido, de avaliar a qualidade da gestão pública.
Valor: Mas não é necessário reduzir o ritmo de gastos em 2011?
Holland: Se no ano que vem haverá mais dificuldade de arrecadação, já que a economia não deverá crescer 8% como neste ano, por definição contábil terá que haver uma desaceleração dos gastos para ter superávit primário.
Valor: Muitos economistas dizem que o país já passa por um processo de desindustrialização. O senhor concorda?
Holland: A hipótese da desindustrialização está colocada na mesa. A participação da indústria de transformação no valor adicionado está em queda no Brasil. Ao mesmo tempo, com o desenvolvimento e a urbanização, é natural o aumento da participação do setor de serviços. Mas o Brasil é um país de renda per capita ainda baixa, e é importante um emprego industrial forte, que tem um efeito multiplicador na economia.
Valor: Essa perda de participação da indústria de transformação se deve ao câmbio valorizado?
Holland: Não é só o câmbio que conta. Há também as questões da educação, do baixo volume de investimento em pesquisa e desenvolvimento, dos problemas de infraestrutura. O país também ficou muitos anos sem crescer. O tecido industrial fica comprometido, tendo que ser recomposto. O câmbio é importante, mas se se restringir o problema a ele, você pode dar incentivos perversos no tempo. E não dá para desatar sozinho o nó do câmbio, o do juro, da dívida, o da conta corrente. A concertação da política econômica é um grande desafio. É um passo a mais importante que precisa ser dado. É fundamental um maior diálogo entre os gestores da política fiscal e da política monetária.
Valor: O senhor já escreveu artigos com Edmar Bacha, mais ortodoxo, e com Luiz Carlos Bresser Pereira, de linha desenvolvimentista. O senhor é ortodoxo ou desenvolvimentista?
Holland: Eu sou um desenvolvimentista fiscalista, se é que isso existe A economia tem ser tratada sem princípios previamente estabelecidos. Eu digo que sou desenvolvimentista porque não consigo imaginar deixar o Brasil crescer menos que 5% ao ano. Temos que ter criatividade para conseguir isso. Também acho que é importante evitar a apreciação cambial e convergir os juros reais para o nível internacional. Ao mesmo tempo, acredito que o Banco Central tem feito um trabalho excelente e que o regime de metas de inflação tem sido muito importante, assim como as metas fiscais. Sou fiscalista porque sou a favor de se mensurar a qualidade do gasto e também acho que é importante ter superávit primário para alongar a dívida. Eu acredito em restrições.

“Sou um desenvolvimentista fiscalista”
Sergio Lamucci | De São Paulo16/12/2010, Do Valor
Escolhido para o cargo estratégida de secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, o economista Márcio Holland se define como “um desenvolvimentista fiscalista, se é que isso existe”. Segundo ele, é fundamental que o país estimule os setores da indústria que fabricam manufaturados e produtos intensivos em tecnologia, para não se tornar excessivamente dependente da exportação de commodities. Evitar a valorização do câmbio é uma tarefa importante, disse Holland, ressaltando, contudo, que a perda de espaço da indústria de transformação na economia não se deve apenas ao real forte – problemas de educação, do baixo investimento em pesquisa e desenvolvimento e a deficiência da infraestrutura também atrapalham.
Professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) de São Paulo, Holland afirmou que os gastos públicos deverão ter que se desacelerar em 2011, num cenário de menor expansão das receitas e em que há a intenção de se elevar o superávit primário. Ao mesmo tempo, deixou claro que não gosta do termo ajuste fiscal, insistindo na importância de se avaliar melhor a qualidade dos gastos do governo, um dos pontos aos quais deve dar prioridade na Fazenda.
Mineiro, formado pela Universidade Federal de Uberlândia, Holland tem mestrado pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), doutorado pela Unicamp e pós-doutorado pela Universidade da Califórnia, em Berkeley, nos EUA. A seguir, os principais trechos da entrevista, concedida ao Valor no começo da noite de ontem:
Valor: Em entrevista ao Valor em janeiro deste ano, o senhor disse: “Não podemos perpetuar essa discussão centrada em Copom, metas de inflação e taxas de juros. Precisamos discutir se queremos continuar crescendo como uma economia primária exportadora.” Esse continua um dos grandes desafios do país?Márcio Holland: Continua. O Brasil já tem dez anos de regime de metas de inflação, nos quais o BC tem mostrado alta credibilidade em controlar a inflação. Mas o Brasil tem que ir além da discussão “copomista”. Oito vezes por ano, só se fala de juros. Temos que ir além de intensificar as exportações de produtos primários. Se você estudar os países mais e menos vulneráveis a choques internacionais, verá que os menos sujeitos a eles têm menor concentração de exportações. As exportações de commodities são importantes e muito bem vindas, mas os preços são mais voláteis que os preços de manufaturados. É importante ficar menos exposto a essa volatilidade, estimulando setores que produzem manufaturados e intensivos em tecnologia. O governo deve promover políticas de indução à inovação tecnológica e políticas educacionais bem direcionadas.
Valor: Boa parte dos analistas defende desaceleração do ritmo de alta dos gastos públicos em 2011 para ajudar no controle da inflação. Como o senhor vê essa questão?
Holland: O Brasil pode fazer isso, mas não deve cair na velha linha de que o ajuste fiscal por si só é suficiente. Não deve haver um corte linear de gastos. Alguns podem ser adiados e a sociedade tem que escolher, dada as restrições, o que se deve manter e o que se deve cortar. Eu prefiro não falar em ajuste fiscal, mas sim na questão da qualidade dos gastos. É importante avançar nesse sentido, de avaliar a qualidade da gestão pública.
Valor: Mas não é necessário reduzir o ritmo de gastos em 2011?
Holland: Se no ano que vem haverá mais dificuldade de arrecadação, já que a economia não deverá crescer 8% como neste ano, por definição contábil terá que haver uma desaceleração dos gastos para ter superávit primário.
Valor: Muitos economistas dizem que o país já passa por um processo de desindustrialização. O senhor concorda?
Holland: A hipótese da desindustrialização está colocada na mesa. A participação da indústria de transformação no valor adicionado está em queda no Brasil. Ao mesmo tempo, com o desenvolvimento e a urbanização, é natural o aumento da participação do setor de serviços. Mas o Brasil é um país de renda per capita ainda baixa, e é importante um emprego industrial forte, que tem um efeito multiplicador na economia.
Valor: Essa perda de participação da indústria de transformação se deve ao câmbio valorizado?
Holland: Não é só o câmbio que conta. Há também as questões da educação, do baixo volume de investimento em pesquisa e desenvolvimento, dos problemas de infraestrutura. O país também ficou muitos anos sem crescer. O tecido industrial fica comprometido, tendo que ser recomposto. O câmbio é importante, mas se se restringir o problema a ele, você pode dar incentivos perversos no tempo. E não dá para desatar sozinho o nó do câmbio, o do juro, da dívida, o da conta corrente. A concertação da política econômica é um grande desafio. É um passo a mais importante que precisa ser dado. É fundamental um maior diálogo entre os gestores da política fiscal e da política monetária.
Valor: O senhor já escreveu artigos com Edmar Bacha, mais ortodoxo, e com Luiz Carlos Bresser Pereira, de linha desenvolvimentista. O senhor é ortodoxo ou desenvolvimentista?
Holland: Eu sou um desenvolvimentista fiscalista, se é que isso existe A economia tem ser tratada sem princípios previamente estabelecidos. Eu digo que sou desenvolvimentista porque não consigo imaginar deixar o Brasil crescer menos que 5% ao ano. Temos que ter criatividade para conseguir isso. Também acho que é importante evitar a apreciação cambial e convergir os juros reais para o nível internacional. Ao mesmo tempo, acredito que o Banco Central tem feito um trabalho excelente e que o regime de metas de inflação tem sido muito importante, assim como as metas fiscais. Sou fiscalista porque sou a favor de se mensurar a qualidade do gasto e também acho que é importante ter superávit primário para alongar a dívida. Eu acredito em restrições.

O marco regulatório do petróleo no governo Dilma

O ambiente político que envolve o setor de petróleo e gás natural ganhou visibilidade em dezembro. O Congresso concluiu a votação do marco regulatório do pré-sal. E o Palácio do Planalto finalmente regulamentou a Lei do Gás.
O protagonismo governamental em óleo e gás continuará sendo decisivo após a posse da nova administração. A presidente Dilma Rousseff terá que fazer três nomeações para a diretoria da Agência Nacional do Petróleo (ANP) logo no seu primeiro ano de governo. E provavelmente também caberá a ela a assinatura do decreto de criação de uma nova empresa estatal para o setor.
Tamanho ativismo do governo federal em petróleo e gás teve início com a confirmação das descobertas da camada do pré-sal. Por conta disso, o presidente Lula enviou ao Congresso, em setembro de 2009, quatro projetos de lei instituindo um novo marco regulatório para o setor de petróleo. As primeiras duas propostas foram rapidamente convertidas em lei. As outras duas precisaram aguardar o encerramento do ciclo eleitoral.
O primeiro item da agenda legislativa do pré-sal era a proposta de capitalização da Petrobras. O projeto autorizava a União a fazer uma cessão onerosa de 5 bilhões de barris de petróleo à estatal e permitia a capitalização da empresa por meio de uma mega-oferta de ações no mercado. A proposta foi aprovada na Câmara em março e no Senado em junho, tendo sido convertida na Lei Federal nº 12.276 (de 30/06/2010). A bem-sucedida operação de capitalização da Petrobras ocorreu em setembro.
O segundo item do novo marco regulatório também teve uma tramitação legislativa acelerada. O projeto autorizava o governo a criar uma empresa estatal para representar a União nos consórcios criados para gerir a exploração e produção de petróleo e gás na camada do pré-sal. A criação da PPSA (ex-Petro Sal) foi aprovada na Câmara em novembro de 2009, e no Senado em julho desse ano – e promulgada como a Lei Federal nº 12.304 (de 03/08/2010).
Principal desafio do novo governo será lidar equilibradamente com a distribuição dos royalties do pré-sal
No entanto, a implantação efetiva da PPSA ainda aguarda a publicação de um decreto governamental. Ao que tudo indica, Lula deixará essa tarefa para a presidente eleita – que teve o petróleo como uma de suas grandes bandeiras eleitorais no segundo turno da campanha eleitoral.
Mas o êxito final de todo o novo marco regulatório dependia da aprovação do projeto que gerou o maior número de impasses políticos e federativos. No entanto, após um banho-maria que durou um semestre inteiro, o restante da agenda legislativa do pré-sal foi aprovado em definitivo pelo Congresso no início de dezembro.
Unificados em um único projeto, o terceiro e o quarto itens da agenda oficial foram aprovados em definitivo pelo Congresso no início do mês. Um deles é o projeto que introduz o regime de partilha da produção nas futuras rodadas de licitação promovidas pela ANP na área do pré-sal. O modelo também garante à Petrobras uma participação mínima de 30% nos novos consórcios. O outro item era a proposta de criação do Fundo Social – uma poupança pública, financiada pela parcela governamental na receita do pré-sal, destinada a desenvolver políticas sociais e regionais.
A unificação dos dois projetos originais ocorreu em junho, no Senado. Mas a proposta precisou retornar à Câmara por conta das mudanças feitas pelos senadores. Uma delas foi a incorporação ao projeto do Fundo Social da íntegra do projeto do regime de partilha. A outra foi a revisão da legislação sobre os “royalties”, em detrimento dos estados produtores.
O presidente Lula deve agora sancionar a nova legislação nas próximas semanas. As expectativas são de que o governo vete (total ou parcialmente) apenas a revisão dos royalties – talvez enviando ao Congresso uma proposta alternativa.
Não deve ter sido mera coincidência o fato de que, na mesma semana em que o Congresso terminou de votar o novo marco regulatório do pré-sal, a equipe da presidente eleita tenha sinalizado que o senador reeleito Edison Lobão (PMDB) assumirá novamente o Ministério das Minas e Energia.
Tal diagnóstico também foi reforçado pela recente regulamentação (Decreto nº 7.382, de 02/12/2010) da chamada “Lei do Gás”, aprovada pelo Congresso há quase dois anos, a qual deve ampliar a participação privada na construção de gasodutos.
Tudo indica, portanto, que a presidente eleita assumirá o poder com uma recentíssima legislação setorial recebida de presente do governo anterior. Na verdade, as maiores incertezas passaram a ser como ficará a distribuição do comando político do setor. No segundo mandato de Lula, as indicações para os principais cargos da área de petróleo estiveram sob o controle do PMDB, do PT e do PCdoB.
Até o momento, os indícios são de que esse equilíbrio partidário irá permanecer no governo Dilma. A “prova dos nove” será a definição dos novos membros da diretoria colegiada da ANP ao longo do próximo ano.
Além da cadeira que já está desocupada desde junho, outras duas vagas (inclusive a do atual diretor-geral) na ANP serão abertas em 2011. Para manter a correlação de forças herdada do governo Lula, Dilma teria que indicar pelo menos um nome de perfil técnico para essas três posições. As outras duas vagas foram preenchidas politicamente pela atual administração.
Seja como for, o cenário político em torno do setor de óleo e gás deve continuar “aquecido” no governo Dilma. No âmbito legislativo, o principal desafio da nova presidente será lidar equilibradamente com a distribuição dos royalties gerados pelo pré-sal entre os estados produtores e os não produtores. Por outro lado, Dilma também estará permanentemente ocupada com as demandas por espaço político no MME, na ANP, na Petrobras e, muito em breve, na PPSA.
Rogério Schmitt é consultor de relações governamentais da Prospectiva Consultoria, e doutor em ciência política pelo IUPERJ
16/12/2010
Tim Rue/Bloomberg

Vínculos fortes e vínculos fracos: riscos políticos e redes sociais na internet

Trechos do artigo de Malcolm Gladwell (A Revolução não será twitada), no caderno Ilustríssima da Folha de SP (12).
1. A luta pelos direitos civis que engolfou o sul dos Estados Unidos nos anos 60 aconteceu sem e-mail, mensagens de texto, Facebook ou Twitter. Dizem que o mundo passa por uma revolução. As novas ferramentas de redes sociais reinventaram o ativismo social. Com Facebook, Twitter e que tais, a relação tradicional entre autoridade política e vontade popular foi invertida, o que facilita a colaboração mútua e a organização dos desprovidos de poder e dá voz às suas preocupações.  Se antes os ativistas eram definidos por suas causas, agora são definidos pelas ferramentas que empregam. E esses inovadores tendem ao solipsismo.
2. Como escreveu Robert Darnton, “as maravilhas da tecnologia de comunicação no presente produziram uma falsa consciência sobre o passado -e até mesmo a percepção de que a comunicação não tem história, ou nada teve de importante a considerar antes dos dias da televisão e da internet”.  Mas há mais um fator em jogo nesse desproporcional entusiasmo em relação às redes sociais. Parece que esquecemos o que é ativismo. Ativismo que desafia o status quo -e ataca problemas profundamente enraizados- não é para bundas-moles.
3. O que leva uma pessoa a esse tipo de ativismo?  O fator decisivo é o grau de conexão pessoal entre a pessoa e o movimento que participa. O ativismo de alto risco é um fenômeno de “VÍNCULOS FORTES”.
4. VÍNCULOS FRACOS.  O ativismo associado às redes sociais nada tem em comum com isso. As plataformas dessas redes são construídas em torno de vínculos fracos. O Twitter é uma forma de seguir (ou ser seguido por) pessoas que talvez nunca tenha encontrado cara a cara. O Facebook é uma ferramenta para administrar o seu elenco de conhecidos, para manter contato com pessoas das quais de outra forma você teria poucas notícias. É por isso que se pode ter mil “amigos” no Facebook, coisa impossível na vida real.  Sob muitos aspectos, isso é maravilhoso. Há força nos vínculos fracos, como observou o sociólogo Mark Granovetter. Nossos conhecidos -e não nossos amigos- são a nossa maior fonte de novas ideias e informações. A internet nos permite explorar a potência dessas formas de conexão distante com eficiência maravilhosa.
5. É sensacional para a difusão de inovações, para a colaboração interdisciplinar, para integrar compradores e vendedores e para as funções logísticas das conquistas amorosas. Mas vínculos fracos raramente conduzem a ativismo de alto risco.  ”As redes sociais são especialmente eficazes para reforçar a motivação”, escreveram Aaker e Smith. Mas NÃO é verdade. As redes sociais são eficazes para ampliar a participação, mas reduzindo o nível de motivação que a participação exige.  Em outras palavras, o ativismo no Facebook dá certo não ao motivar pessoas para que façam sacrifícios reais, mas sim ao motivá-las a fazer o que alguém faz quando não está motivado o bastante para um sacrifício real.
6. ALTO RISCO. O movimento dos direitos civis (anos 60) era ativismo de alto risco. Era também, e isso é importante, ativismo estratégico: um desafio ao establishment, montado com precisão e disciplina. “Cada grupo tinha uma missão definida e coordenava suas atividades por meio de estruturas de autoridade”, escreve Morris. “Os indivíduos eram responsáveis pelas tarefas que lhes eram designadas e conflitos importantes eram resolvidos pelo pastor, que em geral exercia a autoridade final sobre a congregação.”
7. HIERARQUIA. Essa é a segunda distinção crucial entre o ativismo tradicional e sua variante on-line: as redes sociais não se prestam a esse tipo de organização hierárquica.  O Facebook e sites semelhantes são ferramentas para a construção de redes e, em termos de estrutura e caráter, são o oposto das hierarquias. Ao contrário das hierarquias, com suas regras e procedimentos, as redes não são controladas por uma autoridade central e única. As decisões são tomadas por consenso, e os vínculos que unem as pessoas ao grupo são frouxos.  Essa estrutura torna as redes imensamente flexíveis e adaptáveis a situações de baixo risco.
8. Carecendo de uma estrutura centralizada de liderança e de linhas de autoridade claras, as redes encontram dificuldades reais para chegar a consensos e estabelecer metas. Como fazer escolhas difíceis sobre táticas, estratégias ou orientação filosófica quando todo mundo tem o mesmo poder?  De forma semelhante, a Al Qaeda era mais perigosa quando mantinha uma hierarquia unificada. Agora que se dissipou em rede, vem se mostrando bem menos eficaz. As desvantagens das redes pouco importam, quando não estão interessadas em mudança sistêmica -caso desejem apenas assustar, humilhar ou fazer barulho-, ou quando não precisam pensar estrategicamente. Mas, se o objetivo é combater um sistema poderoso e organizado, é preciso uma hierarquia.
9. PODER DE ORGANIZAÇÃO. Clay Shirky, professor na Universidade de Nova York, procura demonstrar o poder de organização da internet. Na opinião de Shirky, ilustra “a facilidade e rapidez com que um grupo pode ser mobilizado para o tipo certo de causa” na era da internet. Na opinião de Shirky, esse modelo de ativismo é superior. Mas, na verdade, NÃO passa de uma forma de organização que favorece as conexões de vínculo fraco que nos dão acesso a informações, em detrimento das conexões de vínculo forte que nos ajudam a perseverar diante do perigo.
10. Transfere nossas energias das entidades que promovem atividades estratégicas e disciplinadas para aquelas que promovem flexibilidade e adaptabilidade. Torna mais fácil aos ativistas se expressarem e, mais difícil, que essa expressão tenha algum impacto.  Os instrumentos de redes sociais estão aptos a tornar a ordem social existente mais eficiente. Não são inimigos naturais do status quo. Se, na sua opinião, o mundo só precisa de um ligeiro polimento, isso não deve lhe causar preocupação. Mas se você acredita em mudança essa tendência deveria incomodá-lo.

Diálogos Desenvolvimentistas: Classe Média

Mulheres, afrodescendentes, com taxa de crescimento de 9% ao ano entre 2003 e 2009, tendo o nordeste enquanto seu celeiro e registrando crescimento de 2% acima da média nacional, ao ano. Esse é o perfil básico da Classe média brasileira, apresentado pelo Professor Marcelo Nery, epsecialista da FGV. a idéia foi apresentada na ultima quarta feira, em seminário organizado pelo  professor da Harvard Law School e ex-ministro de Assuntos Estratégicos Mangabeira Unger, na última quarta feira, na Escola de Direito da FGV-Rio. Além do Professor Mangabeira Unger, ex-Ministrdo da Secretaria de Assuntos Estratégicos, outros dois especialistas estavam presentes no seminário: Márcio Pochmann, presidente do IPEA, e Marcelo Nery, especialista da FGV. Rudá Ricci, também participante do seminário, contribuiu com suas observações pessoais para as reflexões dos Desenvolvimentistas.
Rudá Ricci observou que o economista Márcio Pochmann não acredita em uma mudança na estrutura de classe brasileira, ou, mas sim em mera mobilidade social, ou seja, os brasileiros transitando entre os estratos de classe. “Essa mobilidade social é o charme do capitalismo brasileiro.” Pochmann destacou ainda que nossa estrutura fiscal regressiva penaliza os mais pobres, além de chamar atenção para o esgotamento do modelo  de transferência de renda, e Ricci considerou-se mais próximo à leitura do presidente do IPEA.
Já o Professor Mangabeira Unger sugeriu uma nova divisão de classes no país. São quatro, de acordo com o relato de Ricci:
- a classe média tradicional, branca, que sugere cópia do modelo europeu ou norte-americano de sociedade, agente política decisivo para a história do país, baseada no emprego público e profissões liberais;
- classe média emergente: negra ou parda, que sustenta a auto-salvação individualista, empreendora, baseada no mercado formal e também informal;
- massa pobre: “ralé”, cuja maioria é composta por mulheres;
- os “batalhadores”: pobres e empreendedores, que possuem dois ou três empregos, subjetivamente vinculada à classe média emergente e objetivamente vivendo como ralé.
Essa divisão foi questionada por Ricci, que considerou que a expressão política das classes médias (tradicional e emergente) é absolutamente individualista e ressentida. “Não há expressão de empreendedorismo, mas de manutenção do status adquirido.” O relato de Ricci sobre o seminário se encerrou com um comentário sobre a exposição de Marcelo Neri. fez uma exposição baseada no Critério Brasil e na PNAD. Rudá diz que “O que me pareceu insólito foi sua sugestão de entender a nova classe média como um ‘estado de espírito’, fundada na intenção de subir na vida. E, a partir daí, sugeriu a adoção do índice de felicidade futura como indicador importante de medida do desenvolvimento. Fiquei surpreso com a proposta.”
A visão do presidente do IPEA foi bem recebida entre os Desenvolvimentistas. Mauro Patrão concordou com Pochmann ao reconhecer avanços do governo Lula, mas destacar também “o distante horizonte de uma sociedade brasileira mais justa socialmente e mais emancipada politicamente”, nas palavras do analista. Mauro lembrou que Pochmann defende mudanças no regime trabalhista, como a redução progressiva da jornada de trabalho e uma idade mínima para entrada no mercado de trabalho, 20 anos. mudanças estruturais na sociedade e no funcionamento do capitalismo também são condições necessárias para alçar uma alteração nesta distribuição de classes. Mauro Patrão destacou quatro delas: a democratização do Judiciário, como eleições diretas para ministros dos tribunais superiores. Democratizar também a ciência, que “deveria se iniciar já no sistema educacional básico, com professores mais críticos e bem informados de como se dá de fato a construção do conhecimento científico e tecnológico”, explica Mauro. Ele defende também a democratização do serviço público e das empresas privadas.
A economista Ceci Juruá junta-se ao coro da democratização, mas discorda, por exemplo, da redução da jornada de trabalho. “Para mim a redução do tempo de trabalho é mais uma medida que só favorece elites. Se, ao invés disso, melhorássemos o sistema de transporte urbano, poderíamos reduzir de 5-6 horas para 2-3 horas o tempo de deslocamento de todos os trabalhadores. Seria uma medida de caráter universal, democrática.  E olhem que não é tão dificil assim, custaria muito menos que a redução de horário”, defende a economista.
Ainda na tônica da democratização, Paulo Metri destaca a comunicação de massas. ” ‘Democratização’ vem acompanhada da idéia do povo expressando sua vontade. Mas, povo que vota desinformado pode votar contra seus próprios interesses – e o marketing eleitoral serve principalmente para isso”. Metri lembra o esforço de Fábio Konder Comparato, partidário da democracia direta, com iniciativas como plebiscitos e referendos.Será que não merecia existir um plebiscito sobre a construção de usinas nucleares? Ou a permissão para empresas estrangeiras atuarem no pré-sal? Ou o aborto? Ou a definição da maioridade? Obviamente, com reais campanhas de esclarecimento antes das votações.” Explicou Metri. Mauro Patrão considerou, ainda, que é preciso ter objetivos ousados, mas com estratégias adequadas. “Por isso afirmei que a condição básica para os futuros avanços são as reformas da Comunicação (incluindo o plano de banda larga) e a reforma Macro-econômica (incluindo a queda da taxa de juros).As condições políticas para a realização dessas reformas foram gestadas pelo governo Lula. Cabe ao governo Dilma o trabalho de parto!”

WikiLeaks: Serra queria entregar pré-sal para americanos

Os documentos vazados pelo sítio WikiLeaks continuam desmascarando muito gente pelo mundo a fora. No Brasil, só foram divulgados menos de dez dos quase 3 mil memorandos da embaixada e consulados dos EUA no país.
Por Altamiro Borges, em seu blog
Ele já causaram constrangimento a Nelson Jobim – que foi ministro de FHC, ministro de Lula e deverá continuar ministro no governo Dilma Rousseff. Em vários papéis, ele aparece prestando serviços ao império, inclusive com críticas ao Itamaraty e à política externa altiva do atual governo.
Agora surgem documentos que comprovam que José Serra mentiu na eleição presidencial. O tucano garantiu que não privatizaria o pré-sal e jurou defender a Petrobras. Mas os memorandos do serviço diplomático dos EUA mostram que o candidato se reuniu com as multinacionais do petróleo e prometeu rever o modelo de exploração do pré-sal.
A reportagem da Folha de S.Paulo de hoje, reproduzida abaixo, é bombástica. Confirma o entreguismo dos demotucanos.
Petroleiras foram contra novas regras para pré-sal
Segundo telegrama do WikiLeaks, Serra prometeu alterar regras caso vencesse. Assessor do tucano na campanha confirma que candidato era contrário à mudança do marco regulatório do petróleo.
Juliana Rocha, de Brasília
Catia Seabra, de São Paulo
As petroleiras americanas não queriam a mudança no marco de exploração de petróleo no pré-sal que o governo aprovou no Congresso, e uma delas ouviu do então pré-candidato favorito à Presidência, José Serra (PSDB), a promessa de que a regra seria alterada caso ele vencesse.
É isso que mostra telegrama diplomático dos EUA, de dezembro de 2009, obtido pelo site WikiLeaks (www.wikileaks.ch). A organização teve acesso a milhares de despachos. A Folha e outras seis publicações têm acesso antecipado à divulgação no site do WikiLeaks.
“Deixa esses caras [do PT] fazerem o que eles quiserem. As rodadas de licitações não vão acontecer, e aí nós vamos mostrar a todos que o modelo antigo funcionava… E nós mudaremos de volta”, disse Serra a Patricia Pradal, diretora de Desenvolvimento de Negócios e Relações com o Governo da petroleira norte-americana Chevron, segundo relato do telegrama.
Um dos responsáveis pelo programa de governo de Serra, o economista Geraldo Biasoto confirmou que a proposta do PSDB previa a reedição do modelo passado.
“O modelo atual impõe muita responsabilidade e risco à Petrobras”, disse Biasoto, responsável pela área de energia do programa. “Havia muito ceticismo quanto à possibilidade de o pré-sal ter exploração razoável com a mudança de marcos regulatórios que foi realizada.”
Segundo Biasoto, essa era a opinião de Serra e foi exposta a empresas do setor em diferentes reuniões, sendo uma delas apenas com representantes de petroleiras estrangeiras. Ele diz que Serra não participou dessa reunião, ocorrida em julho deste ano. “Mas é possível que ele tenha participado de outras reuniões com o setor”, disse.
Senso de urgência
O despacho relata a frustração das petrolíferas com a falta de empenho da oposição em tentar derrubar a proposta do governo brasileiro.
O texto diz que Serra se opõe ao projeto, mas não tem “senso de urgência”. Questionado sobre o que as petroleiras fariam nesse meio tempo, Serra respondeu, sempre segundo o relato: “Vocês vão e voltam”.
A executiva da Chevron relatou a conversa ao representante de economia do consulado dos EUA no Rio.
A mudança que desagradou às petroleiras foi aprovada pelo governo na Câmara no começo deste mês.
Desde 1997, quando acabou o monopólio da Petrobras, a exploração de campos petrolíferos obedeceu a um modelo de concessão.
Nesse caso, a empresa vencedora da licitação ficava dona do petróleo a ser explorado -pagando royalties ao governo por isso.
Com a descoberta dos campos gigantes na camada do pré-sal, o governo mudou a proposta. Eles serão licitados por meio de partilha.
Assim, o vencedor terá de obrigatoriamente partilhar o petróleo encontrado com a União, e a Petrobras ganhou duas vantagens: será a operadora exclusiva dos campos e terá, no mínimo, 30% de participação nos consórcios com as outras empresas.
A Folha teve acesso a seis telegramas do consulado dos EUA no Rio sobre a descoberta da reserva de petróleo, obtidos pelo WikiLeaks.
Datados entre janeiro de 2008 e dezembro de 2009, mostram a preocupação da diplomacia dos EUA com as novas regras. O crescente papel da Petrobras como “operadora-chefe” também é relatado com preocupação.
O consulado também avaliava, em 15 de abril de 2008, que as descobertas de petróleo e o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) poderiam “turbinar” a candidatura de Dilma Rousseff, então ministra da Casa Civil.
O consulado cita que o Brasil se tornará um “player” importante no mercado de energia internacional.
Em outro telegrama, de 27 de agosto de 2009, a executiva da Chevron comenta que uma nova estatal deve ser criada para gerir a nova reserva porque “o PMDB precisa de uma companhia”.
Texto de 30 de junho de 2008 diz que a reativação da Quarta Frota da Marinha dos EUA causou reação nacionalista. A frota é destinada a agir no Atlântico Sul, área de influência brasileira.
http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=143585&id_secao=6

Os documentos vazados pelo sítio WikiLeaks continuam desmascarando muito gente pelo mundo a fora. No Brasil, só foram divulgados menos de dez dos quase 3 mil memorandos da embaixada e consulados dos EUA no país.
Por Altamiro Borges, em seu blog
Ele já causaram constrangimento a Nelson Jobim – que foi ministro de FHC, ministro de Lula e deverá continuar ministro no governo Dilma Rousseff. Em vários papéis, ele aparece prestando serviços ao império, inclusive com críticas ao Itamaraty e à política externa altiva do atual governo. Agora surgem documentos que comprovam que José Serra mentiu na eleição presidencial. O tucano garantiu que não privatizaria o pré-sal e jurou defender a Petrobras. Mas os memorandos do serviço diplomático dos EUA mostram que o candidato se reuniu com as multinacionais do petróleo e prometeu rever o modelo de exploração do pré-sal.
A reportagem da Folha de S.Paulo de hoje, reproduzida abaixo, é bombástica. Confirma o entreguismo dos demotucanos.    Petroleiras foram contra novas regras para pré-sal Segundo telegrama do WikiLeaks, Serra prometeu alterar regras caso vencesse. Assessor do tucano na campanha confirma que candidato era contrário à mudança do marco regulatório do petróleo.
Juliana Rocha, de BrasíliaCatia Seabra, de São Paulo  As petroleiras americanas não queriam a mudança no marco de exploração de petróleo no pré-sal que o governo aprovou no Congresso, e uma delas ouviu do então pré-candidato favorito à Presidência, José Serra (PSDB), a promessa de que a regra seria alterada caso ele vencesse. É isso que mostra telegrama diplomático dos EUA, de dezembro de 2009, obtido pelo site WikiLeaks (www.wikileaks.ch). A organização teve acesso a milhares de despachos. A Folha e outras seis publicações têm acesso antecipado à divulgação no site do WikiLeaks. “Deixa esses caras [do PT] fazerem o que eles quiserem. As rodadas de licitações não vão acontecer, e aí nós vamos mostrar a todos que o modelo antigo funcionava… E nós mudaremos de volta”, disse Serra a Patricia Pradal, diretora de Desenvolvimento de Negócios e Relações com o Governo da petroleira norte-americana Chevron, segundo relato do telegrama. Um dos responsáveis pelo programa de governo de Serra, o economista Geraldo Biasoto confirmou que a proposta do PSDB previa a reedição do modelo passado. “O modelo atual impõe muita responsabilidade e risco à Petrobras”, disse Biasoto, responsável pela área de energia do programa. “Havia muito ceticismo quanto à possibilidade de o pré-sal ter exploração razoável com a mudança de marcos regulatórios que foi realizada.” Segundo Biasoto, essa era a opinião de Serra e foi exposta a empresas do setor em diferentes reuniões, sendo uma delas apenas com representantes de petroleiras estrangeiras. Ele diz que Serra não participou dessa reunião, ocorrida em julho deste ano. “Mas é possível que ele tenha participado de outras reuniões com o setor”, disse. Senso de urgência O despacho relata a frustração das petrolíferas com a falta de empenho da oposição em tentar derrubar a proposta do governo brasileiro. O texto diz que Serra se opõe ao projeto, mas não tem “senso de urgência”. Questionado sobre o que as petroleiras fariam nesse meio tempo, Serra respondeu, sempre segundo o relato: “Vocês vão e voltam”. A executiva da Chevron relatou a conversa ao representante de economia do consulado dos EUA no Rio. A mudança que desagradou às petroleiras foi aprovada pelo governo na Câmara no começo deste mês. Desde 1997, quando acabou o monopólio da Petrobras, a exploração de campos petrolíferos obedeceu a um modelo de concessão. Nesse caso, a empresa vencedora da licitação ficava dona do petróleo a ser explorado -pagando royalties ao governo por isso. Com a descoberta dos campos gigantes na camada do pré-sal, o governo mudou a proposta. Eles serão licitados por meio de partilha. Assim, o vencedor terá de obrigatoriamente partilhar o petróleo encontrado com a União, e a Petrobras ganhou duas vantagens: será a operadora exclusiva dos campos e terá, no mínimo, 30% de participação nos consórcios com as outras empresas. A Folha teve acesso a seis telegramas do consulado dos EUA no Rio sobre a descoberta da reserva de petróleo, obtidos pelo WikiLeaks. Datados entre janeiro de 2008 e dezembro de 2009, mostram a preocupação da diplomacia dos EUA com as novas regras. O crescente papel da Petrobras como “operadora-chefe” também é relatado com preocupação. O consulado também avaliava, em 15 de abril de 2008, que as descobertas de petróleo e o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) poderiam “turbinar” a candidatura de Dilma Rousseff, então ministra da Casa Civil. O consulado cita que o Brasil se tornará um “player” importante no mercado de energia internacional. Em outro telegrama, de 27 de agosto de 2009, a executiva da Chevron comenta que uma nova estatal deve ser criada para gerir a nova reserva porque “o PMDB precisa de uma companhia”. Texto de 30 de junho de 2008 diz que a reativação da Quarta Frota da Marinha dos EUA causou reação nacionalista. A frota é destinada a agir no Atlântico Sul, área de influência brasileira.

http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=143585&id_secao=6

Jânio de Freitas: Os meios e os fins

quinta-feira, 09 de dezembro de 2010
por Jânio de Freitas, Na Folha de S. Paulo
ESTAVA MUITO esquisito. Precisar fazer estupro, logo na Suécia de tão dourada generosidade? Ainda se fosse na Suíça, nada a estranhar. E reclamação contra assédio masculino? Na Bélgica ainda podia ser.
As coisas, porém, afinal voltam à sua natureza nos lugares apropriados. E fica-se sabendo que a acusação a Julian Assange de “estuprar uma mulher sueca e molestar sexualmente outra”, como os meios de comunicação repetem mundo afora há duas semanas, foi não usar preservativo, pode-se supor que com proveito mútuo, e, no outro caso, um ensaio compartilhado.
Mas a conduta dos meios de comunicação não deixou de atingir a reputação de Assange e, com isso, contribuir para a sufocação que governos poderosos buscam aplicar à divulgação que esse valente australiano faz de documentos sigilosos, pelo seu site WikiLeaks.
Não estamos só diante de muitos gatos graúdos e um ratinho que lhes roubou pedaços do melhor queijo escondidos com cuidado. É de liberdade de informação que se trata. É do direito dos cidadãos de saber o que seus governos dizem e fazem sorrateiramente, no jogo em que as peças são as comunidades nacionais.
É de jornalismo que se trata. E os meios de comunicação jornalística estão ficando tão mal quanto os países, governos e personagens desnudados pelo Wikileaks. Era a hora de estarem todos em campanha contra os governantes que querem sufocar as revelações. Ou seja, em defesa da liberdade de informação, da própria razão de ser que os jornais, TVs, rádios e revistas propagam ser a sua.
Com escassas exceções, que se saiba, os meios de comunicação estão muito mais identificados com os governos e governantes do que com os cidadãos-leitores e com a liberdade de informação. A união e a contundência que têm na defesa da sua liberdade de empresas, dada como liberdade de imprensa, não se mostra: segue, nos Estados Unidos, o aprendizado imposto pela era Bush e, no restante do Ocidente, os reflexos desse aprendizado sob a paranoia do terrorismo.
Os jornalistas profissionais não estão melhor do que os meios de comunicação. Poucos são os seus recursos de expressão, mas, ao que se deduz do noticiário rarefeito, as manifestações de repúdio à pressão contra as revelações do Wikileaks são feitas por leitores/espectadores. Os jornalistas apenas as registram, pouco e mal.
A VÍTIMA
Forçado a demitir-se da relatoria do Orçamento da União para 2011, sob acusação de destinar verbas a entidades fantasmas de suas proximidades, o senador Gim Argello se diz vítima de injustiça. Tem alguma razão.
O que se poderia esperar do suplente de Joaquim Roriz? Apesar disso, foi-lhe entregue a seleção, distribuição e criação de verbas para a governança do país. E, quando faz o que lhe é próprio, forçando-no a sair. Tratamento injusto, sem dúvida.

Reduzir juros teria mais efeito sobre o câmbio do que ajuste fiscal, alerta Pochmann

Presidente do Ipea critica decisão anunciada pelo governo de promover redução de despesas e de investimentos do setor público. O economista defende medidas internas mais ousadas para lidar com a situação monetária
Por: Anselmo Massad, Rede Brasil Atual
Publicado em 07/12/2010, 12:20
Última atualização às 12:46
Pochmann sugere retrocesso na discussão sobre ajuste fiscal depois de uma década em que o desenvolvimento foi colocado como prioridade (Foto: Elza Fiúza/Agência Brasil)
São Paulo – O economista Marcio Pochmann critica a decisão do governo federal de promover corte de gastos públicos anunciada na segunda-feira (6) pelo ministro da Fazenda Guido Mantega. Em entrevista à Rede Brasil Atual, o presidente do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea) sustenta que a redução da taxa de juros permitiria um alívio maior e mais rápido sobre as contas públicas sem riscos de produzir retração econômica.
Para Pochmann, o Brasil fez uma escolha política de colocar o desenvolvimento nacional como tema central. Isso significou substituir a “monotemática que perdurou nos anos 1990 do arrocho fiscal – ou ajuste fiscal”, diz ele. A volta do discurso de que é necessário reduzir as despesas – incluindo investimentos em obras de infraestrutura do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e eventualmente de programas sociais – pode ter efeitos ruins no longo prazo.
“A questão central do Brasil diz respeito a enfrentar os nós do desenvolvimento que não são apenas de ordem fiscal”, constata o presidente do Ipea. “Questões importantes são os riscos da situação cambial e monetária que fazem o Brasil perder competitividade em setores de maior valor agregado. Assim, empurra o país a ser cada vez mais uma economia de bens primários, ancorada em produtos de menor valor agregado”, critica.
Pochmann reconhece que há um “espaço permanente” para melhorar a qualidade dos gastos públicos e da arrecadação – abandonando o padrão regressivo em que os mais pobres pagam proporcionalmente mais tributos. Porém, ele teme cortes verticais e seus impactos sobre o nível de investimento em relação ao Produto Interno Bruto (PIB).
Confira os principais trechos da entrevista.
Rede Brasil Atual – Como o sr. vê a decisão anunciada pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, de se promover cortes de gastos públicos?
Marcio Pochmann – O Brasil fez uma escolha nesta década de colocar como tema central o desenvolvimento nacional, substituindo a monotemática que perdurou nos anos 1990 do arrocho fiscal – ou ajuste fiscal. E demonstrou, a nosso modo de ver, que a busca do crescimento econômico foi fundamental para a reversão das fragilidades em termos de financas públicas. Quando o crescimento tornou-se um compromisso político, houve melhoras generalizadas sobretudo no quadro fiscal, de endividamento do setor público e ao mesmo tempo um fortalecimento dos investimentos públicos. Isso não encerra as dificuldades de arrecadação e de gasto públicos. De um lado, pode-se melhorar a arrecadação, porque infelizmente a tributação é regressiva, são os pobres que mais impostos pagam imposto no país. De outro lado, há espaço permanente para melhorar o gasto, porque há ineficiências. Mas não me parece o mais acertado colocar o ajuste fiscal como questão central do Brasil.
Rede Brasil Atual – Qual seria a questão central?
Marcio Pochmann – A questão central do Brasil diz respeito a enfrentar os nós do desenvolvimento que não são apenas de ordem fiscal. Questões importantes são os riscos da situação cambial e monetária que fazem o Brasil perder competitividade em setores de maior valor agregado. Assim, empurra o país a ser cada vez mais uma economia de bens primários, ancorada em produtos de menor valor agregado.
Rede Brasil Atual – Mantega prometeu cortes de um modo diferente dos ajustes fiscais que frearam a economia na década de 1990, apesar de incluir obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Há algum tipo de corte que evitaria retração?
Marcio Pochmann – O procedimento de cortes de gastos podem ser inteligentes. Sempre há espaço para isso, não sendo um corte vertical – digamos, 10% de tudo. Há rubricas que poderiam ser limitados com um manejo mais inteligente, mas todo corte de investimento é uma dificuldade a mais para o crescimento a médio e longo prazos. Especialmente em um país cuja taxa de investimento é ridiculamente baixa, inferior a 20% (do PIB). O Brasil precisa aumentar sua taxa de investimento (em relação ao volume do PIB), não me parece uma decisão acertada cortar investimento. Pode ajudar no curto prazo, mas comprometer no longo prazo. Em relação ao custeio, houve aumento, mas proporcionalmente ao PIB não foi significativo. Cortar o gasto social seria também um problema. Um dos êxitos do Brasil é ter colocado os investimentos sociais como indutores do próprio desenvolvimento nacional. É a distribuição da renda que fortalece a expansão do mercado interno brasileiro.
Rede Brasil Atual – O corte de despesas e investimentos contribuiria para redução de juros?
Marcio Pochmann – Por que os juros são altos no Brasil? A hipótese novamente recuperada é de que há problemas de ordem fiscal que fazem com que o Brasil precise de juros mais altos para atrair recursos para pagar o déficit público. Por outro lado, toda vez em que o juros são altos, há um custo fiscal maior, que onera demasiado os títulos públicos, impondo um custo de gestão da dívida além do necessário. A experiência recente do Brasil demonstrou que ajuste fiscal nos moldes dos anos 1990 não permitiram reduzir a taxa de juros. A redução real foi feita sem esse tipo de ajuste fiscal, justamente na opção pelo crescimento da economia nacional.
Rede Brasil Atual – Mas para definir o nível de juros, se leva em conta a inflação…
Marcio Pochmann – Cortar investimento é uma decisão que pode significar justamente perder uma forma de administrar a inflação. A melhor maneira de enfrentá-la é aumentar a capacidade produtiva do país. Ao cortar investimento, a capacidade cresce menos e, portanto, a possibilidade de o país continuar crescendo fica limitada.
Rede Brasil Atual – Mas há margem para cortes de despesas públicas?
Marcio Pochmann – A maior eficiência do gasto público é no pagamento do serviço da dívida. A melhor forma de fazer ajuste fiscal é reduzir a taxa de juros. Assim, precisa de menos receita pública para comprometer com a dívida.
Rede Brasil Atual – O sr. menciona o câmbio e situação monetária como questões centrais para o Brasil enfrentar. Como isso poderia ser feito?
Marcio Pochmann – Esse é um dos constrangimentos que os países não desenvolvidos estão vivendo. Países que não conseguem controlar sua moeda estão submetidos a essa divisão internacional do trabalho que faz com que países que manejam melhor suas moedas sejam mais competitivos em bens de maior valor agregado. Os demais sofrem um processo de valorização tornam-se menos capazes de exportar produtos de maior valor agregados (como os industriais), permitindo competitividade apenas em setores historicamente garantidos. É um problema colocado hoje e que se manterá para os próximos anos e exigirá uma estratégia de médio e longo prazos. Parte diz respeito à própria política monetária. Quanto maior o diferencial no Brasil em relação à taxa de juros internacional, maiores os atrativos de recursos estrangeiros virem para cá, forçando uma valorização do real. Há espaço de manejo e experiências internacionais que poderiam ser adotadas. Vizinhos como o Chile adotam mecanismos que tornam burocraticamente mais difícil a entrada e saída de capital especulativo. O Brasil tem possibilidade de incrementar a política macroeconômica com o objetivo de evitar a valorização da nossa moeda.
Por outro lado, há acertos internacionais que vão demandar mais tempo, que diz respeito ao quadro de decadência que os Estados Unidos estão vivendo. Mas aí é a concertação internacional. Precisaria reunir mais força de países que sofrem com isso, mas há oportunidade de medidas mais ousadas no campo interno.