Arquivo do autor:Jênifer Rosa

Sobre Jênifer Rosa

Uma foca. Só.

O motor da industrialização brasileira gira em velocidade muito baixa, diz Wilson Cano

Docente investigará determinantes da vida econômica
do país a partir de meados dos anos 2000

MANUEL ALVES FILHO

A questão regional brasileira é um dos temas caros ao economista Wilson Cano, pro- fessor colaborador voluntário do Instituto de Economia (IE) da Unicamp. Há vários anos, ele tem se debruçado sobre o assunto, buscando compreender melhor, entre outros, aspectos relacionados à regionalização da produção capitalista no Brasil. Um dos seus livros, Desconcentração Produtiva Regional do Brasil 1970- 2005, lançado em 2008 pela Editora da Unesp, trata justamente das profundas mudanças nos determinantes da vida econômica do país no período. Agora, Cano prepara-se para iniciar uma nova pesquisa acerca da temática. Sua disposição é investigar o que ocorreu nesse campo entre meados dos anos 2000 e os dias atuais. “Estou desenhando o projeto de pesquisa, que deverá envolver um grande número de pesquisadores e diversas instituições. O trabalho ainda não foi concluído porque estou aguardando a publicação completa do Censo de 2010”, revela. Na última semana, o docente fez uma pequena pausa nos seus afazeres para falar sobre o novo estudo ao Jornal da Unicamp. Na entrevista que segue, ele afirma que o motor da industrialização brasileira está “murcho” e adverte para o risco de o país continuar apostando todas as fichas na exportação de commodities.

Jornal da Unicamp – Como o senhor começou a trabalhar com o tema da desconcentração produtiva?

Wilson Cano – Eu tenho trabalhado com diversos temas ao longo da minha carreira acadêmica. Na Unicamp, me pediram para examinar a questão regional brasileira e também a questão da urbanização. Já escrevi alguns livros sobre essas matérias. Nós temos que entender que o Brasil, entre os anos de 30 e 80, teve toda a força e a direção do seu crescimento voltado e centrado para o processo de industrialização. Foi isso que trouxe progresso e modernizou o país. Graças à política econômica, principalmente a adotada por Getúlio Vargas, houve a integração do mercado nacional. Ou seja, antes você tinha ilhas, uma chamada Nordeste, outra Sul, outra Sudeste e assim por diante. A partir desse processo, o arquipélago foi unificado em um só território. O mercado nacional foi integrado. A industrialização, por sua vez, estava fortemente concentrada em São Paulo, que detinha em 1980, 53% da produção industrial brasileira. Depois de 80, aconteceu uma série de coisas. O Brasil levou diversos tropeções. De 80 para cá, esse processo mudou radicalmente.

JU – Foi a tal década perdida…

Cano – Os anos 80 foram marcados pela crise da dívida. Foram anos de baixíssimo crescimento. Nesse período, a indústria apenas rastejou, não cresceu. De 1989 até hoje, houve a manutenção de uma política macro-econômica de corte neoliberal. Que diabo de coisa é essa? É algo que trabalha com a abertura comercial do país. Antes nós tínhamos um protecionismo à indústria nacional. Hoje, não. Desregulamentamos a entrada e a saí- da de capitais, tanto o nacional quanto o internacional. Antes, havia controle. Além disso, privatizamos muitas empresas estatais, algumas delas importantíssimas nessa questão regional, como é o caso da Vale do Rio Doce. A ação do Estado encolheu bastante. Desde então, nunca mais fizemos planejamento econômico de nada.

JU – E o que ocorreu nos anos subsequentes?

Cano – Com o processo de abertura comercial, nós passamos dos anos 90 até 2003 também rastejando. Nosso crescimento foi simplesmente medíocre no período. Até os anos 80, o Estado Brasileiro e mais as estatais respondiam por mais da metade do investimento total do país. Quando veio a crise dos anos 80, e isso arrebentou com as finanças públicas, o peso do Estado caiu violentamente. Então, o investimento ficou praticamente nas mãos do setor privado. Ocorre que o setor privado, para investir, quer ter horizonte promissor, quer certas garantias, precisa de taxa de juros razoável. Nos anos 80, tudo isso foi muito incerto, e a partir do Plano Real, nossa taxa de juros tornou-se cavalar, a maior do mundo, e, assim, o empresário pensa dez vezes antes de fazer qualquer investimento. Ele fica entre aplicar em títulos da dívida pública, que lhe garante 12%, contra os 5% que ganharia abrindo ou incrementando um negócio. Então, de 80 para cá, os determinantes do crescimento econômico nacional mudaram radicalmente. Esse crescimento baixou de 7% para menos de 2% entre 80 e 2003. De 2004 para cá, crescemos um pouquinho mais, mas também não foi lá essas coisas.

JU – Quais as implicações dessas mudanças para as regiões brasileiras?

Cano – Isso tudo resultou no seguinte: as regiões estavam se integrando e o crescimento delas estava envolvido no processo de industrialização. Ao mesmo tempo, o governo federal olhava as regiões e tinha uma política de desenvolvimento para elas. Depois de 80, essas coisas mudam radicalmente. O motor do desenvolvimento deixa de ser a industrialização. Como o governo não tem mais recursos, porque precisa pagar a dívida, a política nacional de desenvolvimento regional foi suprimida. Surge então a exportação de commodities. Estas, mesmo quando crescem e envolvem uso de tecnologia, contribuem para um tipo diferente de modernização. A modernização da indústria é contagiante, penetra em todos os segmentos da sociedade. Já a modernização da agricultura não tem grande capilaridade. Além disso, a agricultura é muito mecanizada e emprega pouca gente. Então, quem vai empregar o pessoal na economia urbana do país? É o setor de serviços. Ocorre que no setor de serviço, em um país como o nosso, predominam as atividades simples, que não reque- rem elevada qualificação de mão de obra e que, portanto, pagam baixos salários. Essa mudança esgarçou os nexos que existiam entre as regiões brasileiras. Alguns foram até partidos.

JU – Poderia explicar melhor esse fenômeno?

Cano – Vamos tomar como exem- plo a indústria automobilística, que se fixou originalmente em São Paulo. Antes, nós fabricávamos a maior parte das autopeças necessárias. Todo o esforço produtivo era interno. Com a abertura, cresceu a importação de carros e peças. E depois, com a guerra fiscal e a abertura comercial, ocorreu uma grande desconcentração dessa indústria automobilística. As fábricas foram para o Ceará, Minas Gerais, Bahia, Paraná, Rio Grande do Sul e Goiás. E todas elas aumentaram a importação de insumos e de carros prontos. Então, o esgarçamento se dá no sentido de que os nexos de mercado vão sendo rompidos ou fragilizados. Se você fosse fabricar tudo aqui, seria uma coisa. Mas não é isso que está sendo feito. Hoje, estão fazendo muita montagem. No campo da eletrônica foi pior ainda. O nosso déficit comercial na importação de componentes eletrônicos é gigantesco. Além disso, a guerra fiscal acelerou o esgarçamento. Como o governo federal não tem recursos para transferir para as periferias, ele fecha os olhos e deixa o pessoal fazer a guerra fiscal. Ou seja, cada um tenta defender o seu prato, mas no final todos perdem.

JU – E em termos de urbanização, quais as consequências?

Cano – A urbanização também decorreu do processo de industrialização. Hoje está diferente. O que cresce na periferia do país é soja, boi, minério de ferro. Essas atividades contribuem pouco para a urbanização. Explicando melhor: a industrialização exige um operariado que tem certa qualificação, exige um nível de educação, requer sistema de saúde mais eficiente para dar conta da demanda. Exige também infraestrutura: energia elétrica, comunicações, estradas etc. Ou seja, requer uma modernização muito maior do que a da agricultura. Então, não somente os determinantes do desenvolvimento da economia regional foram mudados, mas também os da própria urbanização. As cidades passaram a ter um metabolismo diferenciado.

JU – Os problemas decorrentes da urbanização também sofreram alterações?

Cano – A despeito dessas diferenças no processo de urbanização, o novo modelo trouxe as mesmas mazelas do modelo anterior. Antes, as grandes cidades ficaram entupidas. De 80 para cá, as cidades médias passaram a crescer mais que as grandes. A taxa de crescimento populacional foi caindo ao longo das décadas. Estávamos com 1,6% e agora perto de 1%. Lembrando que chegamos a atingir a taxa de 3% perto década de 60. Cheguei a Campinas em 1967. A cidade tinha 300 mil habitantes. Isso aqui era o paraíso, você estacionava o carro em qualquer lugar, andava de noite sem medo de ser assaltado. A cidade tinha escolas excelentes, bons hospitais, o ar era limpo etc. Hoje a cidade é completamente diferente. Então, a mesma deterioração urbana registrada em São Paulo e no Rio de Janeiro vai grassando pelo país todo. Hoje, você não precisa mais ir a uma cidade de 1 milhão de habitantes para ser sequestrado, para encontrar gente fumando crack na esquina, para encontrar mendigo pelas ruas. Isso é encontrado no Brasil inteiro. A urbanização se espalhou, mas se espalharam também todos os efeitos nocivos desse processo.

JU – E o que ocorreu do início dos anos 2000 para cá, a situação se agravou em termos de desenvolvimento?

Cano – Estou desenhando um projeto de pesquisa para investigar justamente os acontecimentos desse período. O trabalho ainda não está pronto porque estou aguardando a publicação dos dados completos do Censo de 2010. Vai ser um estudo de fôlego, que envolverá muitos pesquisadores e diversas instituições. A idéia é fazer uma abordagem multidisciplinar, visto que a questão envolve uma série de fatores, como demografia, urbanização, meio ambiente etc.

JU – Mas há uma tendência que o senhor já tenha detectado em relação ao desenvolvimento econômico nacional?

Cano – De 2003 para cá, houve outra mudança. Os otimistas acham que foi algo que veio para ficar. Eu penso que não. Penso que é um cenário altamente suscetível de ser alterado. Estou falando do efeito China. Como a China acelerou ainda mais o seu crescimento, a demanda do país passou a ser qualquer coisa em torno de 25% de tudo o que possamos imaginar no mundo, de parafuso a comida. Além disso, também tivemos a questão da especulação no mercado financeiro internacional. Esses dois fatores jogaram o preço das commodities para cima. Então, nós estamos nadando de braçada em termos de exportação de commodities. Só que isso está se casando com problemas que não foram resolvidos. Com a abertura comercial e financeira, esse país ficou de janela escancarada. Como aqui se paga a maior taxa de juros do mundo, o capital internacional entra aqui por essa janela. Ou seja, esse capital está ganhando o maior juro do mundo. E isso, face aos saltos juros, contamina as contas públicas, que é muito alta. O que ocorreu nesse período: valorizou-se a taxa de câmbio, barateando-se sobremodo o dólar. Com isso, a indústria nacional perdeu competitividade lá fora. Se você olhar a pauta de exortações do Brasil, de 95 para cá, o peso dos produtos industriais mais nobres, classificados como manufaturados, caiu de 55% para 40%.

Nos últimos cinco anos, o comércio exterior da indústria de transformação passou de um superávit para um déficit de US$ 65 bilhões! Ou seja, estamos perdendo oportunidades. Ao mesmo tempo, o motor forte da industrialização está murcho, girando em velocidade muito baixa. Eu não acredito que essas commodities vão manter esse mesmo patamar de preço para o resto da vida. Mesmo porque, a própria China está cuidando de atenuar o fenômeno. Hoje, cerca de 150 mil chineses estão trabalhando na África. Eles foram para lá para produzir grãos, explorar a pecuária, produzir petróleo etc. O país está abrindo frente de fornecedores de matéria-prima para ele próprio, como estratégia de bloquear a elevação dos preços. Por outro lado, manter essa enxurrada de dólar entrando no país é arriscado. Isso vai explodir as contas externas brasileiras. Não adianta nada o governo falar que as reservas do país estão na casa dos 350 bilhões de dólares. Ocorre que as dívidas brasileiras, que não estão relacionadas à dívida externa, cresceram assustadoramente. Além disso, há na Bolsa de Valores, em aplicações de títulos em carteira, cerca de 300 ou 400 bilhões de dólares. Esse é um dinheiro que pode sair do país de madrugada. Como a crise financeira internacional não está resolvida, as medidas saneadoras não estão sendo adotadas. Ou seja, estamos vivendo um período de incertezas. Parte da minha futura pesquisa discutirá essa questão e fará uma reflexão de que caminhos poderemos seguir.

JU – O governo federal anunciou que parte dos recursos do pré-sal serão investidos para fortalecer a indústria nacional. Como o senhor analisa esse compromisso?

Cano – Embora as estimativas sejam otimistas – algumas são da ordem de 150 bilhões de barris –, o petróleo do pré-sal ainda não está jorrando. Ainda vai levar quatro ou cinco anos para o país começar a produzir. A presidente Dilma deve estar imbuída do mesmo espírito do presidente Lula, ou seja, de não exportar tanto petróleo bruto, e tentar exportar mais subprodutos com valor agregado. Mas amanhã, com a eventual posse de um governo mais liberal, essa política pode mudar de rumo. E aí podemos nos transformar em um país exportador de petróleo e ficarmos suscetível à chamada doença Holandesa. O controle disso tem que estar na mão do Estado.

O único país capitalista que precisou fazer isso foi a Noruega. Ela criou toda uma institucionalidade estatal para o petróleo e controla o seu fundo soberano. Se o pré-sal for promissor, nós teremos recursos adicionais para dar conta dos nossos problemas, que são imensos. Desde 80 o Brasil está atrasado. Nós chegamos a investir 25% do PIB. Hoje, esse índice está em 19%. Nós deixamos de realizar muita coisa, como portos, moradias, saneamento, etc. Para restaurar o país, segundo próprio governo, o investimento teria que passar de 19% do PIB para algo em torno de 26%. Hoje, porém, o país não tem esses recursos.

JU – O país tem condições de voltar a se desenvolver a taxas menos tímidas?

Cano – A resposta é muito difícil. É preciso consultar os empresários e perguntar a eles se estão dispostos a investir no país. Perguntar se eles querem retomar as fábricas antigas ou construir algo novo. A resposta provavelmente vai ser: depende. Certamente o empresariado vai querer saber quais as condições, quanto poderão ganhar e que garantias de longo prazo poderão ter. Atualmente, estamos financiando empresários que dão emprego lá fora. O BNDES deu mais de 10 bilhões de reais para um frigorífico. E deu um dinheirão para outros grupos nacionais que investem lá fora. Nós precisamos criar emprego aqui dentro. Não é um problema trivial de ser enfrentando.

Ganhos dos parlamentares na livre iniciativa

José Pastore – O Estado de S.Paulo

Partindo da educação, sabe-se que a grande maioria dos eleitos tem nível universitário, o que os coloca bem acima da população, cuja instrução média é de só 7,5 anos de escola. Isso, em si, explicaria um ganho mais alto. E mais. Durante a campanha e o exercício do mandato, os parlamentares têm despesas que os profissionais do setor privado não têm. Isso justificaria uma retribuição mais elevada.

Mas há o outro lado da moeda. Os parlamentares têm ganhos futuros que inexistem na iniciativa privada, como são os casos do domínio de informações privilegiadas que são acumuladas durante o mandato e a formação de uma rede de contatos e de empregadores potenciais.

Em pesquisa recente, os parlamentares eleitos para o Congresso Nacional foram estudados em suas biografias para captar o seu perfil educacional e a sua preparação profissional. Em seguida, foram comparados com a população de eleitores em geral e com a dos que ocupam cargos de gestão nas empresas privadas – do mesmo nível educacional.

Os ganhos dos parlamentares, sem contar as verbas de representação e outros benefícios, são 90% superiores aos da média dos eleitores em geral e 60% superiores aos dos gestores. Os resultados da pesquisa se referem aos parlamentares que integram o Bundestag, o Parlamento da Alemanha. Os ganhos dos parlamentares foram comparados com médias de uma amostra de 21 mil eleitores e 7 mil gestores. A média de ganhos dos parlamentares alemães é de 105 mil/ano; a dos eleitores que trabalham em tempo integral é de 39 mil; e a dos gestores, de 64 mil. São diferenças enormes e a favor dos parlamentares.

Analisando os dados de educação e experiência profissional dos três grupos, a pesquisa concluiu que a aludida superioridade não é devida a diferenças de educação dos integrantes desses grupos ou de sua experiência profissional. Ou seja, não há base para dizer que os ganhos dos parlamentares seguem os critérios do setor privado. As diferenças encontradas indicam que eles constituem uma elite especial que usufrui do privilégio de fixar seus próprios ganhos – independentemente de mecanismos de mercado e acima das médias da iniciativa privada (Andreas Peichl, Nico Pestel e Sebastian Siegloch, The politicians wage gap: insights from German members of Parliament, Bonn: Institute for the Study of Labor, fevereiro de 2011).

Suspeito que os mesmos resultados seriam encontrados no Brasil, e com uma agravante. A distância entre os ganhos dos nossos parlamentares e da população em geral é muito maior que entre os alemães. O eleitor se recorda de que, no apagar das luzes de 2010, em só 8 minutos, os parlamentares do Brasil passaram seus salários para R$ 26.700 mensais. Como eles recebem 15 salários, seu ganho anual é de cerca de R$ 400 mil, ou 175 mil, 67% acima do que ganham seus colegas da Alemanha.

Na outra comparação os resultados são ainda mais dramáticos. R$ 400 mil/ano estão a anos luz de distância dos R$ 20 mil, que é a média dos salários dos eleitores comuns, e dos R$ 234 mil, a remuneração média dos gestores do País – todos com 13 salários, e não 15.

No estudo examinado há uma recomendação dos autores para que a Alemanha reveja o critério de remuneração dos parlamentares, por estar muito distante do setor privado. No Brasil estamos na contramão. A Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados acaba de aprovar uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC 5/2011) que equipara os vencimentos dos parlamentares aos dos ministros do Supremo Tribunal Federal, que, por sua vez, pleiteiam um salário mensal de R$ 30.700, ou seja, R$ 460 mil ou 201 mil por ano – quase o dobro dos alemães.

PROFESSOR DA FEA-USP, MEMBRO DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS, É PRESIDENTE DO CONSELHO DE EMPREGO E RELAÇÕES DO TRABALHO DA FECOMÉRCIO DE SÃO PAULO. SITE: WWW.JOSEPASTORE.COM.BR

O motor da industrialização brasileira gira em velocidade muito baixa, diz Wilson Cano

Jornal da Unicamp

Manuel Alves Filho

A questão regional brasileira é um dos temas caros ao economista Wilson Cano, professor colaborador voluntário do Instituto de Economia (IE) da Unicamp. Há vários anos, ele tem se debruçado sobre o assunto, buscando compreender melhor, entre outros, aspectos relacionados à regionalização da produção capitalista no Brasil. Um dos seus livros, Desconcentração Produtiva Regional do Brasil 1970- 2005, lançado em 2008 pela Editora da Unesp, trata justamente das profundas mudanças nos determinantes da vida econômica do país no período. Agora, Cano prepara-se para iniciar uma nova pesquisa acerca da temática. Sua disposição é investigar o que ocorreu nesse campo entre meados dos anos 2000 e os dias atuais. “Estou desenhando o projeto de pesquisa, que deverá envolver um grande número de pesquisadores e diversas instituições. O trabalho ainda não foi concluído porque estou aguardando a publicação completa do Censo de 2010”, revela. Na última semana, o docente fez uma pequena pausa nos seus afazeres para falar sobre o novo estudo ao Jornal da Unicamp. Na entrevista que segue, ele afirma que o motor da industrialização brasileira está “murcho” e adverte para o risco de o país continuar apostando todas as fichas na exportação de commodities.

Jornal da Unicamp – Como o senhor começou a trabalhar com o tema da desconcentração produtiva?

Wilson Cano – Eu tenho trabalhado com diversos temas ao longo da minha carreira acadêmica. Na Unicamp, me pediram para examinar a questão regional brasileira e também a questão da urbanização. Já escrevi alguns livros sobre essas matérias. Nós temos que entender que o Brasil, entre os anos de 30 e 80, teve toda a força e a direção do seu crescimento voltado e centrado para o processo de industrialização. Foi isso que trouxe progresso e modernizou o país. Graças à política econômica, principalmente a adotada por Getúlio Vargas, houve a integração do mercado nacional. Ou seja, antes você tinha ilhas, uma chamada Nordeste, outra Sul, outra Sudeste e assim por diante. A partir desse processo, o arquipélago foi unificado em um só território. O mercado nacional foi integrado. A industrialização, por sua vez, estava fortemente concentrada em São Paulo, que detinha em 1980, 53% da produção industrial brasileira. Depois de 80, aconteceu uma série de coisas. O Brasil levou diversos tropeções. De 80 para cá, esse processo mudou radicalmente.

JU – Foi a tal década perdida…

 
Cano - Os anos 80 foram marcados pela crise da dívida. Foram anos de baixíssimo crescimento. Nesse período, a indústria apenas rastejou, não cresceu. De 1989 até hoje, houve a manutenção de uma política macro-econômica de corte neoliberal. Que diabo de coisa é essa? É algo que trabalha com a abertura comercial do país. Antes nós tínhamos um protecionismo à indústria nacional. Hoje, não. Desregulamentamos a entrada e a saí- da de capitais, tanto o nacional quanto o internacional. Antes, havia controle. Além disso, privatizamos muitas empresas estatais, algumas delas importantíssimas nessa questão regional, como é o caso da Vale do Rio Doce. A ação do Estado encolheu bastante. Desde então, nunca mais fizemos planejamento econômico de nada.

JU – E o que ocorreu nos anos subsequentes?

 
Cano - Com o processo de abertura comercial, nós passamos dos anos 90 até 2003 também rastejando. Nosso crescimento foi simplesmente medíocre no período. Até os anos 80, o Estado Brasileiro e mais as estatais respondiam por mais da metade do investimento total do país. Quando veio a crise dos anos 80, e isso arrebentou com as finanças públicas, o peso do Estado caiu violentamente. Então, o investimento ficou praticamente nas mãos do setor privado. Ocorre que o setor privado, para investir, quer ter horizonte promissor, quer certas garantias, precisa de taxa de juros razoável. Nos anos 80, tudo isso foi muito incerto, e a partir do Plano Real, nossa taxa de juros tornou-se cavalar, a maior do mundo, e, assim, o empresário pensa dez vezes antes de fazer qualquer investimento. Ele fica entre aplicar em títulos da dívida pública, que lhe garante 12%, contra os 5% que ganharia abrindo ou incrementando um negócio. Então, de 80 para cá, os determinantes do crescimento econômico nacional mudaram radicalmente. Esse crescimento baixou de 7% para menos de 2% entre 80 e 2003. De 2004 para cá, crescemos um pouquinho mais, mas também não foi lá essas coisas.
JU – Quais as implicações dessas mudanças para as regiões brasileiras?
Cano – Isso tudo resultou no seguinte: as regiões estavam se integrando e o crescimento delas estava envolvido no processo de industrialização. Ao mesmo tempo, o governo federal olhava as regiões e tinha uma política de desenvolvimento para elas. Depois de 80, essas coisas mudam radicalmente. O motor do desenvolvimento deixa de ser a industrialização. Como o governo não tem mais recursos, porque precisa pagar a dívida, a política nacional de desenvolvimento regional foi suprimida. Surge então a exportação de commodities. Estas, mesmo quando crescem e envolvem uso de tecnologia, contribuem para um tipo diferente de modernização. A modernização da indústria é contagiante, penetra em todos os segmentos da sociedade. Já a modernização da agricultura não tem grande capilaridade. Além disso, a agricultura é muito mecanizada e emprega pouca gente. Então, quem vai empregar o pessoal na economia urbana do país? É o setor de serviços. Ocorre que no setor de serviço, em um país como o nosso, predominam as atividades simples, que não reque- rem elevada qualificação de mão de obra e que, portanto, pagam baixos salários. Essa mudança esgarçou os nexos que existiam entre as regiões brasileiras. Alguns foram até partidos.
JU – Poderia explicar melhor esse fenômeno?

 
Cano - Vamos tomar como exem- plo a indústria automobilística, que se fixou originalmente em São Paulo. Antes, nós fabricávamos a maior parte das autopeças necessárias. Todo o esforço produtivo era interno. Com a abertura, cresceu a importação de carros e peças. E depois, com a guerra fiscal e a abertura comercial, ocorreu uma grande desconcentração dessa indústria automobilística. As fábricas foram para o Ceará, Minas Gerais, Bahia, Paraná, Rio Grande do Sul e Goiás. E todas elas aumentaram a importação de insumos e de carros prontos. Então, o esgarçamento se dá no sentido de que os nexos de mercado vão sendo rompidos ou fragilizados. Se você fosse fabricar tudo aqui, seria uma coisa. Mas não é isso que está sendo feito. Hoje, estão fazendo muita montagem. No campo da eletrônica foi pior ainda. O nosso déficit comercial na importação de componentes eletrônicos é gigantesco. Além disso, a guerra fiscal acelerou o esgarçamento. Como o governo federal não tem recursos para transferir para as periferias, ele fecha os olhos e deixa o pessoal fazer a guerra fiscal. Ou seja, cada um tenta defender o seu prato, mas no final todos perdem.
JU – E em termos de urbanização, quais as consequências?

 
Cano - A urbanização também decorreu do processo de industrialização. Hoje está diferente. O que cresce na periferia do país é soja, boi, minério de ferro. Essas atividades contribuem pouco para a urbanização. Explicando melhor: a industrialização exige um operariado que tem certa qualificação, exige um nível de educação, requer sistema de saúde mais eficiente para dar conta da demanda. Exige também infraestrutura: energia elétrica, comunicações, estradas etc. Ou seja, requer uma modernização muito maior do que a da agricultura. Então, não somente os determinantes do desenvolvimento da economia regional foram mudados, mas também os da própria urbanização. As cidades passaram a ter um metabolismo diferenciado.
JU – Os problemas decorrentes da urbanização também sofreram alterações?

 
Cano – A despeito dessas diferenças no processo de urbanização, o novo modelo trouxe as mesmas mazelas do modelo anterior. Antes, as grandes cidades ficaram entupidas. De 80 para cá, as cidades médias passaram a crescer mais que as grandes. A taxa de crescimento populacional foi caindo ao longo das décadas. Estávamos com 1,6% e agora perto de 1%. Lembrando que chegamos a atingir a taxa de 3% perto década de 60. Cheguei a Campinas em 1967. A cidade tinha 300 mil habitantes. Isso aqui era o paraíso, você estacionava o carro em qualquer lugar, andava de noite sem medo de ser assaltado. A cidade tinha escolas excelentes, bons hospitais, o ar era limpo etc. Hoje a cidade é completamente diferente. Então, a mesma deterioração urbana registrada em São Paulo e no Rio de Janeiro vai grassando pelo país todo. Hoje, você não precisa mais ir a uma cidade de 1 milhão de habitantes para ser sequestrado, para encontrar gente fumando crack na esquina, para encontrar mendigo pelas ruas. Isso é encontrado no Brasil inteiro. A urbanização se espalhou, mas se espalharam também todos os efeitos nocivos desse processo.
JU – E o que ocorreu do início dos anos 2000 para cá, a situação se agravou em termos de desenvolvimento?
Cano - Estou desenhando um projeto de pesquisa para investigar justamente os acontecimentos desse período. O trabalho ainda não está pronto porque estou aguardando a publicação dos dados completos do Censo de 2010. Vai ser um estudo de fôlego, que envolverá muitos pesquisadores e diversas instituições. A idéia é fazer uma abordagem multidisciplinar, visto que a questão envolve uma série de fatores, como demografia, urbanização, meio ambiente etc.
JU – Mas há uma tendência que o senhor já tenha detectado em relação ao desenvolvimento econômico nacional?
Cano – De 2003 para cá, houve outra mudança. Os otimistas acham que foi algo que veio para ficar. Eu penso que não. Penso que é um cenário altamente suscetível de ser alterado. Estou falando do efeito China. Como a China acelerou ainda mais o seu crescimento, a demanda do país passou a ser qualquer coisa em torno de 25% de tudo o que possamos imaginar no mundo, de parafuso a comida. Além disso, também tivemos a questão da especulação no mercado financeiro internacional. Esses dois fatores jogaram o preço das commodities para cima. Então, nós estamos nadando de braçada em termos de exportação de commodities. Só que isso está se casando com problemas que não foram resolvidos. Com a abertura comercial e financeira, esse país ficou de janela escancarada. Como aqui se paga a maior taxa de juros do mundo, o capital internacional entra aqui por essa janela. Ou seja, esse capital está ganhando o maior juro do mundo. E isso, face aos saltos juros, contamina as contas públicas, que é muito alta. O que ocorreu nesse período: valorizou-se a taxa de câmbio, barateando-se sobremodo o dólar. Com isso, a indústria nacional perdeu competitividade lá fora. Se você olhar a pauta de exortações do Brasil, de 95 para cá, o peso dos produtos industriais mais nobres, classificados como manufaturados, caiu de 55% para 40%.
Nos últimos cinco anos, o comércio exterior da indústria de transformação passou de um superávit para um déficit de US$ 65 bilhões! Ou seja, estamos perdendo oportunidades. Ao mesmo tempo, o motor forte da industrialização está murcho, girando em velocidade muito baixa. Eu não acredito que essas commodities vão manter esse mesmo patamar de preço para o resto da vida. Mesmo porque, a própria China está cuidando de atenuar o fenômeno. Hoje, cerca de 150 mil chineses estão trabalhando na África. Eles foram para lá para produzir grãos, explorar a pecuária, produzir petróleo etc. O país está abrindo frente de fornecedores de matéria-prima para ele próprio, como estratégia de bloquear a elevação dos preços. Por outro lado, manter essa enxurrada de dólar entrando no país é arriscado. Isso vai explodir as contas externas brasileiras. Não adianta nada o governo falar que as reservas do país estão na casa dos 350 bilhões de dólares. Ocorre que as dívidas brasileiras, que não estão relacionadas à dívida externa, cresceram assustadoramente. Além disso, há na Bolsa de Valores, em aplicações de títulos em carteira, cerca de 300 ou 400 bilhões de dólares. Esse é um dinheiro que pode sair do país de madrugada. Como a crise financeira internacional não está resolvida, as medidas saneadoras não estão sendo adotadas. Ou seja, estamos vivendo um período de incertezas. Parte da minha futura pesquisa discutirá essa questão e fará uma reflexão de que caminhos poderemos seguir.
JU – O governo federal anunciou que parte dos recursos do pré-sal serão investidos para fortalecer a indústria nacional. Como o senhor analisa esse compromisso?


Cano - Embora as estimativas sejam otimistas – algumas são da ordem de 150 bilhões de barris –, o petróleo do pré-sal ainda não está jorrando. Ainda vai levar quatro ou cinco anos para o país começar a produzir. A presidente Dilma deve estar imbuída do mesmo espírito do presidente Lula, ou seja, de não exportar tanto petróleo bruto, e tentar exportar mais subprodutos com valor agregado. Mas amanhã, com a eventual posse de um governo mais liberal, essa política pode mudar de rumo. E aí podemos nos transformar em um país exportador de petróleo e ficarmos suscetível à chamada doença Holandesa. O controle disso tem que estar na mão do Estado.
O único país capitalista que precisou fazer isso foi a Noruega. Ela criou toda uma institucionalidade estatal para o petróleo e controla o seu fundo soberano. Se o pré-sal for promissor, nós teremos recursos adicionais para dar conta dos nossos problemas, que são imensos. Desde 80 o Brasil está atrasado. Nós chegamos a investir 25% do PIB. Hoje, esse índice está em 19%. Nós deixamos de realizar muita coisa, como portos, moradias, saneamento, etc. Para restaurar o país, segundo próprio governo, o investimento teria que passar de 19% do PIB para algo em torno de 26%. Hoje, porém, o país não tem esses recursos.

JU – O país tem condições de voltar a se desenvolver a taxas menos tímidas?


Cano - A resposta é muito difícil. É preciso consultar os empresários e perguntar a eles se estão dispostos a investir no país. Perguntar se eles querem retomar as fábricas antigas ou construir algo novo. A resposta provavelmente vai ser: depende. Certamente o empresariado vai querer saber quais as condições, quanto poderão ganhar e que garantias de longo prazo poderão ter. Atualmente, estamos financiando empresários que dão emprego lá fora. O BNDES deu mais de 10 bilhões de reais para um frigorífico. E deu um dinheirão para outros grupos nacionais que investem lá fora. Nós precisamos criar emprego aqui dentro. Não é um problema trivial de ser enfrentando.

STJ anula Operação Satiagraha

Débora Zampier

Repórter da Agência Brasil

Brasília

O Superior Tribunal de Justiça (STJ) anulou hoje (7) a Operação Satiagraha da Polícia Federal e seus desdobramentos, atendendo a um habeas corpus do banqueiro Daniel Dantas, do grupo Opportunity. Os ministros da Quinta Turma entenderam, por maioria de 3 votos a 2, que a operação foi comprometida devido à participação da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) na operação. O episódio resultou na condenação de Dantas a dez anos de prisão por corrupção. O julgamento começou em março, com o voto do relator, Adilson Macabu, pela anulação da Satiagraha. Ele defendeu que “as provas estão maculadas desde o início” pela participação da Abin e foi acompanhado pelo ministro Napoleão Nunes. O julgamento foi interrompido por um pedido de vista do ministro Gilson Dipp, e voltou a plenário no dia 5 de maio, com voto divergente de Dipp, que entendeu que a operação não deveria ser invalidada. Mais uma vez, o julgamento foi interrompido por um pedido de vista da ministra Laurita Vaz, que trouxe seu voto hoje e acompanhou Dipp. Coube ao ministro Jorge Mussi dar o voto de desempate. Ele lembrou que a própria Polícia Federal afirmou que Abin atuou “oculta” na operação e lembrou que o Ministério Público Federal deu parecer favorável à concessão do habeas corpus a Daniel Dantas.

O que Palocci não disse no Jornal Nacional

Suspeita sobre ministro da Casa Civil fragiliza governo Dilma

Eduardo Sales de Lima

da Redação

O patrimônio do ministro-chefe da Casa Civil, Antonio Palocci, passou de R$ 375 mil para cerca de R$ 7,5 milhões, entre 2006 e 2010. Seus dividendos provêm da Projeto, empresa do ministro, criada em 2006 como consultoria econômica e financeira, e transformada em administradora de imóveis em 2010.

O vertiginoso aumento patrimonial de Palocci está rodeado de suspeitas de ilegalidades. Empresas de diversos ramos teriam se aproximado da Projeto, sobretudo, pela presença de Palocci. A construtora WTorre, empresa que mantém negócios com a Petrobras e com o fundo de pensão Previ, do Banco do Brasil, foi a primeira cliente do agora ministro-chefe da Casa Civil que informou publicamente a contratação da Projeto, no dia 20 de maio, sem mais detalhes.

Em 2010, a empresa doou R$ 2 milhões para a campanha da presidenta Dilma Rousseff (PT) e R$ 300 mil para a do tucano José Serra. Há quem diga, principalmente entre a oposição, mais que um suposto tráfico de influência, Palocci encabeçaria sobretudo um esquema de captação de recursos externa à contabilidade oficial da campanha.

Para se defender, Palocci cita atuação de tucanos. A Casa Civil enviou um correio eletrônico aos senadores em que se compara a ex-integrantes de governo passados. “No mercado de capitais e em outros setores, a passagem por Ministério da Fazenda, BNDES ou Banco Central proporciona uma experiência única que dá enorme valor a esses profissionais do mercado. Não por outra razão muitos se tornaram, em poucos anos, banqueiros como (…) Pérsio Arida e André Lara Rezende (…), ou Maílson da Nóbrega”.

O ministro não disse, porém, que os nomes citados não retornaram ao governo. O deputado federal André Vargas (PT/PR), em nome do partido, tem o argumento na ponta da língua: “O Palocci não sabia que iria voltar”.

Limites tênues

“Se ele teve algum acesso de informação por sua então função parlamentar [Palocci exerceu mandato de deputado federal entre 2007 e 2010], e ele não estava usando esses dados para sua ação parlamentar e sim para tráfico de influência, é algo seriíssimo”, pondera José Antônio Moroni, integrante do colegiado de gestão do Inesc (Instituto de Estudos Econômicos).

Segundo ele, o Caso Palocci é mais um, dentre tantos fatos, que exemplifica a condição “má resolvida” no sistema político brasileiro em relação à questão da inter-relação público-privado.

Em um contexto progressista, na linha do que defende a Plataforma dos Movimentos Sociais pela Reforma do Sistema Político, mesmo que Palocci, na condição de integrante do governo federal não tivesse se preocupado em informar publicamente seus ganhos privados, seria legítimo o acesso de qualquer cidadão à evolução patrimonial do político. Contudo, de acordo com José Antônio Moroni, que integra a Plataforma, esse mesmo cidadão teria que arcar com todas as responsabilidades legais pelo uso que da informação. “Isso garante o direito à informação, a privacidade do ente público e ao não-uso instrumental dessa informação”, afirma Moroni.

De volta à realidade atual, o sociólogo Rudá Ricci considera o livre trânsito de Antônio Palocci entre as esferas pública e privada, e seus consequentes benefícios individuais, como um distanciamento cada vez maior da sociedade real. “que [o livre trânsito de Palocci entre público e privado] seja uma característica da junção da dimensão política com a econômica e o divórcio das duas com a dimensão cultural e de valores sociais”, analisa.

Refém

Cláudio Weber Abramo, da Ong Transparência Brasil, entretanto, não enxerga um futuro menos polêmico. Para ele, sobretudo em regimes republicanos e liberais, casos de tráfico de influência são riscos permanentes. “Pessoas que ocupam cargos públicos tomam decisões que têm consequências econômicas. Daí a necessidade de monitoramento, de controle. Isso no latu sensus, como imprensa, ongs e etc”, defende Abramo.

Não é assim que pensa José Antônio Moroni. Para ele não é papel da imprensa definir a pauta sobre os direitos de sigilo patrimonial de uma pessoa pública. Isso porque, de acordo com Moroni, a ação da imprensa sempre ganha um aspecto instrumental com foco a determinados grupos políticos. “Houve todo um debate no ano passado, no processo eleitoral sobre a tentativa de quebra de sigilo da filha do Serra (Mônica Serra). O tratamento dado foi totalmente diferente em relação ao Palocci. Pouco se fala em quem quebrou o sigilo dele”, pontua o membro do Inesc.

Fato é que Palocci e o próprio governo Dilma deram, mais uma vez, combustível para que setores conservadores, partidários ou não, impeçam a governabilidade de uma administração petista. De acordo com o deputado federal Ivan Valente (Psol/SP), o ministro chefe da Casa Civil é um ponto “absolutamente vulnerável” do governo.

Valente argumenta que, ao mesmo tempo em que Palocci é o credor do mercado dentro do governo, tornou-se sua peça “mais condenável”, visto que seu super-enriquecimento ainda não explicado deu margem a todo tipo de chantagem do que chama de “uma base governista extremamente reacionária”.“Está aí o Anthony Garotinho (PR/RJ), chantageando o governo por causa do kit anti-homofobia”, reforça.

http://www.brasildefato.com.br/node/6526

Palocci, o “ministro do mercado”

Sem sustentação polícia, Palocci apela para sua relação com empresários para convencer Dilma de sua permanência no cargo

06 de junho de 2011 | 23h 00
Sem sustentação política, o ministro Antonio Palocci está usando sua relação com empresários da infraestrutura e representantes do setor financeiro para convencer a presidente Dilma Rousseff a mantê-lo no cargo. Em encontro na manhã desta segunda-feira, 6, no Planalto, Dilma avaliou que as entrevistas dadas pelo ministro para derrubar as suspeitas de tráfico de influência e enriquecimento ilícito não diminuíram a crise. À presidente, Palocci tem dito que busca apoio de aliados no Congresso e aposta na interlocução com o mercado para controlar setores do PT, do PMDB e do próprio Planalto que já defendem sua demissão.

Palocci tenta vender a imagem de “ministro do mercado”, disse um interlocutor do governo. No encontro desta segunda, Dilma considerou que Palocci se colocou de forma “técnica” na entrevista dada ao Jornal Nacional, na sexta-feira, mas não diminuiu a crise.

Representantes da construção civil, dos bancos e da mineração fizeram chegar a auxiliares diretos de Dilma sinais de que mantêm a confiança em Palocci. Por telefone, empresários fizeram elogios ao ministro pela decisão de não apresentar a lista dos clientes do escritório de consultoria mantido por ele até o final do ano passado. O silêncio do ministro foi justamente o que deixou a presidente mais incomodada. Assessores do Planalto informaram que o ministro não apresentou para a presidente a lista dos clientes para quem teria prestado consultoria. Dilma, por sua vez, não cobrou os nomes. Os assessores não escondem que a tática é evitar que ela se envolva em um problema futuro.

Ao mesmo tempo que ressalta sua boa relação com o mercado, Palocci tenta convencer colegas de governo de que conseguirá recompor os laços rompidos com o PMDB e vencer a queda de braço dentro do PT. Ele tem tentado o apoio do vice-presidente Michel Temer, do senador Romero Jucá (PMDB-RR) e do deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN). No PT, recorre ao presidente da sigla, Rui Falcão, e aos deputados Cândido Vaccarezza (SP) e Paulo Teixeira (SP). Enquanto a crise envolvendo Palocci se estende, o nome que ainda se mantém como alternativa é o da ministra do Planejamento, Miriam Belchior.

 

Ganhos dos parlamentares na livre iniciativa

José Pastore - O Estado de S. Paulo

Quanto ganharia um parlamentar, se trabalhasse na iniciativa privada?

 

Partindo da educação, sabe-se que a grande maioria dos eleitos tem nível universitário, o que os coloca bem acima da população, cuja instrução média é de só 7,5 anos de escola. Isso, em si, explicaria um ganho mais alto. E mais. Durante a campanha e o exercício do mandato, os parlamentares têm despesas que os profissionais do setor privado não têm. Isso justificaria uma retribuição mais elevada.

Mas há o outro lado da moeda. Os parlamentares têm ganhos futuros que inexistem na iniciativa privada, como são os casos do domínio de informações privilegiadas que são acumuladas durante o mandato e a formação de uma rede de contatos e de empregadores potenciais.

Em pesquisa recente, os parlamentares eleitos para o Congresso Nacional foram estudados em suas biografias para captar o seu perfil educacional e a sua preparação profissional. Em seguida, foram comparados com a população de eleitores em geral e com a dos que ocupam cargos de gestão nas empresas privadas – do mesmo nível educacional.

Os ganhos dos parlamentares, sem contar as verbas de representação e outros benefícios, são 90% superiores aos da média dos eleitores em geral e 60% superiores aos dos gestores. Os resultados da pesquisa se referem aos parlamentares que integram o Bundestag, o Parlamento da Alemanha. Os ganhos dos parlamentares foram comparados com médias de uma amostra de 21 mil eleitores e 7 mil gestores. A média de ganhos dos parlamentares alemães é de 105 mil/ano; a dos eleitores que trabalham em tempo integral é de 39 mil; e a dos gestores, de 64 mil. São diferenças enormes e a favor dos parlamentares.

Analisando os dados de educação e experiência profissional dos três grupos, a pesquisa concluiu que a aludida superioridade não é devida a diferenças de educação dos integrantes desses grupos ou de sua experiência profissional. Ou seja, não há base para dizer que os ganhos dos parlamentares seguem os critérios do setor privado. As diferenças encontradas indicam que eles constituem uma elite especial que usufrui do privilégio de fixar seus próprios ganhos – independentemente de mecanismos de mercado e acima das médias da iniciativa privada (Andreas Peichl, Nico Pestel e Sebastian Siegloch, The politicians wage gap: insights from German members of Parliament, Bonn: Institute for the Study of Labor, fevereiro de 2011).

Suspeito que os mesmos resultados seriam encontrados no Brasil, e com uma agravante. A distância entre os ganhos dos nossos parlamentares e da população em geral é muito maior que entre os alemães. O eleitor se recorda de que, no apagar das luzes de 2010, em só 8 minutos, os parlamentares do Brasil passaram seus salários para R$ 26.700 mensais. Como eles recebem 15 salários, seu ganho anual é de cerca de R$ 400 mil, ou 175 mil, 67% acima do que ganham seus colegas da Alemanha.

Na outra comparação os resultados são ainda mais dramáticos. R$ 400 mil/ano estão a anos luz de distância dos R$ 20 mil, que é a média dos salários dos eleitores comuns, e dos R$ 234 mil, a remuneração média dos gestores do País – todos com 13 salários, e não 15.

No estudo examinado há uma recomendação dos autores para que a Alemanha reveja o critério de remuneração dos parlamentares, por estar muito distante do setor privado. No Brasil estamos na contramão. A Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados acaba de aprovar uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC 5/2011) que equipara os vencimentos dos parlamentares aos dos ministros do Supremo Tribunal Federal, que, por sua vez, pleiteiam um salário mensal de R$ 30.700, ou seja, R$ 460 mil ou 201 mil por ano – quase o dobro dos alemães.