Nesse ritmo, o Brasil cresce menos do que a média mundial. Foi o que aconteceu no ano passado; é o que pode acontecer este ano outra vez. Dos Brics, o Brasil foi o que teve a menor taxa de expansão em 2011 – um pouco inferior à da África do Sul.
O que explica esse desempenho decepcionante? O cenário mundial adverso atrapalhou, sobretudo no segundo semestre. Mas a explicação primordial é interna: desde o fim de 2010, o governo brasileiro adotou diversas medidas de contenção no campo das contas públicas, da moeda e do crédito. A austeridade fiscal, combinada com aperto monetário e creditício, derrubou o ritmo de expansão da demanda doméstica e da atividade econômica. Além disso, a sobrevalorização cambial prejudicou gravemente a indústria e outros setores expostos à competição internacional.
Foi demais? Em retrospecto, parece que sim. Até aqui no FMI economistas já se perguntam se o aperto não teria sido excessivo no Brasil.
Evidentemente, é a fácil sabedoria “ex post”. No momento em que as decisões foram tomadas reinava, como sempre, a incerteza. Como dizia Keynes, “the expected never happens; it is the unexpected, always” (o esperado nunca acontece; é o inesperado, sempre).
Ex ante, no início de 2011, o quadro econômico e as percepções eram completamente diferentes. A economia brasileira estava aquecida demais e todos se preocupavam com o risco de que uma expansão excessivamente rápida da demanda gerasse desequilíbrios internos e externos que se tornariam, com o passar do tempo, muito difíceis de administrar. Era recomendável aproveitar o capital político de início de mandato para dar uma “freada de arrumação”.
Tampouco se poderia imaginar que a crise da área do euro fosse se agravar tão dramaticamente a partir de meados de 2011. A turbulência externa veio se somar ao ajuste interno para instalar um quadro de crescimento medíocre.
Agora o governo está correndo atrás do prejuízo. A Fazenda adotou incentivos fiscais seletivos; o Banco Central afrouxou os controles sobre o crédito e reduziu a taxa básica de juros em dois pontos percentuais desde agosto.
É possível reverter o quadro? Creio que sim. O governo não usou nem metade da munição de que dispõe. O Banco Central pode, por exemplo, reduzir os compulsórios sobre passivos bancários ou adotar outras medidas de estímulo ao crédito. As taxas de juros continuam muito altas e podem ser gradualmente reduzidas.
Apesar da redução dos últimos meses, os juros básicos ainda são elevados para padrões internacionais. A taxa básica real ex ante, isto é, a taxa nominal ajustada pela inflação esperada, ainda está em quase 5% no Brasil. Levantamento da corretora Cruzeiro do Sul, que abrange os 39 principais países avançados e em desenvolvimento, além de Hong Kong, indica que a média dos juros básicos reais é negativa em 0,9%. Só 13 países praticam juros básicos positivos em termos reais e destes apenas três (Hungria, China e Indonésia) têm taxas entre 2 e 3%.
Como a dívida pública é relativamente elevada no Brasil, o espaço para uma política fiscal anticíclica é menor. Mas há espaço para reduzir os juros, sem dúvida. Juros mais baixos, além de estimular a demanda interna, favorecem o equilíbrio das contas públicas e uma taxa de câmbio mais depreciada.
O caminho mais promissor parece ser o de combinar diminuição gradual dos juros e dos controles de crédito com preservação da disciplina fiscal. É por essa via que o Brasil deve procurar reativar a economia, sobretudo se o quadro mundial continuar se agravando.



