Arquivo do autor:Redação

Saturação e projeto

por Saul Leblon na Carta Maior

A rapidez e a abrangência dos acontecimentos em marcha turvam a compreensão mais geral do que se passa no país.

Sentenças frívolas e ligeirezas interessadas tentaram instrumentalizar o aluvião desregrado, comprimindo-o entre as margens de uma canaleta estreita.

Foram atropeladas.

A mídia conservadora encabeça a série dos revezes.

Movida inicialmente pelo indisfarçável objetivo de desgastar gestões progressistas – na esfera municipal e federal— os veículos conservadores foram rapidamente desalojados da carona desautorizada.

Da sofreguidão convocatória partiram para o linchamento dos ‘vândalos’.

Em seguida, foram atropelados pela truculência repressiva, acobertada, no caso de São Paulo, pelo governo estadual que apoiam.

Recuaram, entre estupefatos e perplexos.

O que se viu nas últimas horas espraiou essa mesma perplexidade nas diferentes dimensões da vida política e partidária.

Em 11 capitais, milhares foram às ruas.

Os 20 centavos que motivaram a mobilização original em São Paulo , no dia 6 de junho, tornaram-se ainda mais irrisórios diante da abrangência e da intensidade do que se vê, 12 dias depois.

O que está em jogo é muito mais do que caraminguás.

As ruas requisitam uma nova agenda política para o Brasil.

Não significa desqualificar conquistas e avanços preciosos dos últimos anos.

Mas a história apertou o passo. Talvez até porque a musculatura do percurso agora o permite.

A verdade é que as engrenagens e canais disponíveis não souberam interpretar o vapor acumulado nessa marcha batida.

Um viés economicista pretendeu resolver na macroeconomia – à frio – aquilo que pertence ao escrutínio permanente da democracia: as escolhas do futuro e os sacrifícios do presente.

Restritas, em grande parte, à negociação parlamentar, essas escolhas foram blindadas com o ferrugem dos interesses consolidados.

Com os desvios sabidos e as consequências conhecidas.

As ruas requisitam um aggiornamento da agenda política brasileira.

A inauguração de um novo ciclo histórico depende de programas e projetos que reflitam esse sentimento difuso que brota de norte a sul.

Saturação diante do caos urbano.

Angústia coletiva com o definhamento da dimensão pública da vida.

Opressão da existência individual, sobrecarregada de demandas coletivas ainda não contempladas.

Insensibilidade da representação política tradicional diante do grito entalado no fundo do peito de milhões que sacolejam diariamente nos ônibus e metrôs lotados.

Tudo isso e muito mais que isso.

No capitalismo globalizado não temos mais o ‘privilégio’ do sofrimento exclusivamente local.

A ordem neoliberal tornou-se uma usina de desordem urbi et orbi.

Líderes não lideram.

Mercados mandam. Governantes obedecem.

A soberania nacional tornou-se intrinsecamente subversiva e disfuncional. Ao mesmo tempo e com igual intensidade.

Os instrumentos convencionais de escrutínio coletivo não respondem aos estímulos.

As urnas decidem; o dinheiro desautoriza. A mídia abjura.

Os fundamentos do sistema perderam a aderência da sociedade.

Como um trem fora dos trilhos, o que seria o fim da História forma hoje um comboio desgovernado, que marcha ora na inércia, ora fora dos trilhos.

Mas não cai. E não cairá por si.

A liderança do processo brasileiro está em aberto.

Mais que isso.

A ausência de uma plataforma capaz de dar unidade e coerência a aspirações fragmentadas e avulsas pode asfixiar o que as ruas tentam dizer.

Vem da Espanha reluzente de protestos na Praça do Sol um alerta desconcertante.

Madri e Barcelona consagraram-se como o epicentro da indignação global.

Desde 15 de maio de 2011, quando o ‘Democracia Já’ convocou uma manifestação na Praça do Sol, até os protestos em 92 países, em 15 de outubro de 2011, passaram-se fulminantes cinco meses de ascensão linear das ruas.

A passeata original deu lugar a um acampamento formado por um mar de indignados.

A ocupação na Praça do Sol resistiria por 79 dias.

O termo ‘indignado’ globalizou-se.

Surgiu o ‘Ocupe Wall Street’, que mirou com argúcia o alvo da indignação: o dinheiro sem pátria e a pátria rentista sem fronteira, mas detentora de governos e Estados.

Em outubro de 2011, o sentimento nascido na Praça do Sol tornou-se o novo idioma político global, compartilhado por um milhar de cidades em todos os continentes.

Mas nem por isso imune às sombras.

No momento em que as praças rugiam a insatisfação de milhares de vozes, o voto popular consagrava nas urnas o Partido Popular, de Aznar.

A cepa herdeira do franquismo obteve uma vitória esmagadora nas eleições espanholas de 20 de novembro de 2011.

A votação recebida pelo conservadorismo, que hoje esfola e sangra o povo espanhol, estendendo o desemprego a 52% de sua juventude, garantiu-lhe, ainda, maioria folgada no Parlamento.

O paradoxo do ‘sol e da escuridão’ não pode ser esquecido, nem minimizado pelo frescor da indignação que ecoa agora de uma dezena de capitais do país.

Hoje, ninguém é de ninguém.

Em política, como dizem, com razão, suas ‘raposas’, não existe vácuo.

Na Espanha, a vitória eleitoral do ultra-conservadorismo, em 2011, só foi possível porque a abstenção, sobretudo jovem, atingiu proporções epidêmicas no berço mundial dos indignados.

A exemplo do que ocorreu na Espanha, nos EUA e, mais recentemente, na Itália , em algum momento os indignados brasileiros serão chamados a refletir – talvez precocemente – sobre as escolhas do poder.

O poder de Estado.

Os compromissos que a luta pelo poder impõe.

A impossibilidade de ignorá-la; e, sobretudo, a escolha da melhor estratégia para pautar o seu exercício, a cada movimento da história.

 

Sete cidades anunciam redução das tarifas ônibus

Mudanças ocorrem após protestos terem levado 230 mil às ruas em diferentes cidades do País na segunda-feira 17

Por Mariana Tokarnia na Agência Brasil

Brasília – Com as manifestações em todo o país, pelo menos sete cidades vão reduzir as passagens do transporte público até o mês que vem: João Pessoa (PB), Recife (PE), Cuiabá (MT), Porto Alegre (RS) Pelotas (RS), Montes Claros (MG) e Foz do Iguaçu (PR). As reduções vão de R$ 0,05 a R$ 0,15 no valor das tarifas. Os governantes utilizarão reduções nos impostos para baixar os valores.

Em Pernambuco, Eduardo Campos reduziu o preço da passagem de ônibus no Grande Recife. A redução será R$ 0,10 para todos os anéis – categorias em que são divididas as linhas de ônibus. Os novos preços começarão a valer no próximo dia 20. Os valores atuais variam de R$ 1,50 a R$ 3,35.

Em João Pessoa, o prefeito Luciano Cartaxo anunciou a redução de R$ 0,10 na tarifa de ônibus na capital paraibana. O valor passará de R$ 2,30 para R$ 2,20 a partir do dia 1º de julho.

Cuiabá vai reduzir em R$ 0,10 a tarifa do transporte coletivo. O novo valor, R$ 2,85, passará a valer a partir da meia-noite de quarta-feira (19).

Em Pelotas haverá redução de R$ 0,15 e o novo valor R$ 2,60. A redução ocorreu por meio de decreto assinado pelo prefeito, Eduardo Leite.

O prefeito de Montes Claros, Ruy Muniz, tomou a decisão de reduzir a tarifa em R$ 0,10. A partir de domingo (23), a redução passa a valer na cidade e a passagem passará de R$ 2,40 para R$ 2,30.

Nas cinco cidades, a redução foi possível devido à Medida Provisória (MP) 617, de 31 de maio de 2013, do governo federal, que zera o Programa de Integração Social e de Formação do Patrimônio do Servidor Público (PIS/Pasep) e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins) incidentes sobre a receita da prestação de serviços de transporte coletivo de passageiros.

Já em Porto Alegre, o prefeito José Fortunati, disse que vai enviar à Câmara Municipal um projeto de lei para reduzir a tarifa para R$ 2,80. A tarifa na capital gaúcha era R$ 3,05 e atualmente está fixada em R$ 2,85 por decisão liminar da Justiça.

O projeto é para isenção do Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISSQN) e será encaminhado em regime de urgência. Além disso, Fortunati informou que vai apresentar ao governador do estado, Tarso Genro, um pedido de redução do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) sobre o óleo diesel do transporte coletivo para de reduzir ainda mais a tarifa. O prefeito também vai aplicar a isenção do PIS/Pasep e Cofins prevista na MP 617.

A redução em Foz do Iguaçu será R$ 0,05, segundo publicação no portal da prefeitura. Na última sexta-feira (18), prefeito Reni Pereira, anunciou durante a visita do governador Beto Richa (PSDB) à cidade o novo preço da passagem, que passa a valer ainda esta semana. Para o passageiro que usa o cartão eletrônico e que atualmente paga R$ 2,60, vai gastar R$ 2,55. Já para quem paga a tarifa com dinheiro, o valor será rebaixado de R$ 2,90  para R$ 2,85.

A redução na cidade se deve a isenção da cobrança do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) sobre o óleo diesel, anunciada pelo governo do estado em maio. Também serão contabilizadas as reduções das alíquotas previstas na MP 617.

Internet favorece rearranjo de movimentos sociais

No Blog do Luis Nassif
Por Marco Antonio L. 

A Geração Facebook e a nova classe trabalhadora chegaram às ruas do Brasil! – por Marcos Doniseti!

No Guerrilheiro ao Entardecer

As redes sociais, em especial o Facebook, tornaram-se um importante instrumento de mobilização e de organização de grupos e segmentos da sociedade que não encontram espaço para atuar organizações de perfil mais tradicional, como partidos políticos, igrejas, sindicatos e outros tipos mais antigos de associação. 

O jornalista Leonardo Sakamoto escreveu, em seu blog, um ótimo texto a respeito dos atuais protestos e manifestações que estão se espalhando pelo Brasil e que começaram como uma luta, liderada pelo MPL (Movimento Passe Livre), pela redução do valor das tarifas do transporte coletivo em inúmeras cidades do país, mas que já se transformaram em muito mais do que isso.

Embora eu discorde de alguns pontos do texto do Sakamoto, principalmente quando ele diz que a chamada ‘Esquerda’ não soube transformar o país (na verdade, entendo que o aparecimento dessa Geração Facebook é fruto das mudanças promovidas no país principalmente pelo governo Lula e às quais o governo de Dilma deu continuidade e, em certos aspectos, aprofundou) o seu artigo levanta algumas questões que são, a meu ver, muito pertinentes.

Esta luta, agora, adquiriu um caráter de defesa da liberdade de expressão, principalmente em função da brutal e violentíssima repressão promovida pela Polícia Militar do governo do governo do estado de São Paulo, comandado pelo PSDB desde 1995., contra a manifestação que se realizou nesta quinta-feira na capital paulista.

Mas este movimento também se tornou algo mais, que é o desejo da população das grandes e médias cidades brasileiras de desfrutar de uma qualidade de vida melhor e não apenas no aspecto do transporte coletivo urbano (que é, inegavelmente, caro e de péssima qualidade em praticamente todo o país), mas também nas áreas da habitação, saneamento básico, saúde, educação, segurança pública (que se tornou um problema crônico na capital paulista e na Grande São Paulo), enchentes, poluição, lazer, esporte e cultura, principalmente nas periferias das cidades brasileiras, que são extremamente carentes de virtualmente tudo isso.

Assim, é mais do que evidente que há uma grande demanda reprimida por qualidade de vida, principalmente nas cidades brasileiras, onde vivem cerca de 85% dos habitantes do país. Isso é óbvio.

Neste aspecto, não há nenhuma novidade nisso que o Leonardo Sakamoto escreveu (ver link abaixo), pelo menos para mim e, creio eu, para milhões de outras pessoas.

Essa demanda por serviços públicos de qualidade existe há muitos anos, é claro.

Inclusive, escrevi nos meus blogs (neste e no Guerrilheiro do Entardecer), durante a campanha eleitoral de 2012, que os resultados das eleições municipais, pelo Brasil afora, mostravam, claramente, uma coisa:  Os novos prefeitos (ou aqueles que foram reeleitos) teriam que, prioritariamente, melhorar a qualidade do serviços públicos em geral (educação, saúde, transporte coletivo, saúde, saneamento básico, moradia, etc).

Sem isso, eles iriam fracassar.

A questão das redes sociais, principalmente o Facebook, que permite que novos atores sociais possam se mobilizar, se organizar e, daí, promover manifestações que atingem e reúnem milhares de pessoas, é que me parece ser a grande novidade desse movimento de protesto que se desenvolve atualmente e ao qual o Sakamoto dedicou boa parte do seu texto.

O presente movimento se organiza ‘por fora’ dos partidos políticos, sindicatos, igrejas e associações de perfil mais tradicional, embora haja pessoas das mais variadas tendências políticas, econômicas, sociais, partidárias, não partidárias, religiosas, não religiosas, étnicas, de gênero e comportamento individual participando do mesmo.

Aliás, entendo que não são esses fatores que os unem.

Penso que aquilo que mais aproxima e promove a sua união, de fato, é essa determinação em cobrar dos governantes, independente do partido a qual pertençam, uma sensível melhora dos serviços públicos, que devem se tornar acessíveis, de fato, a todos e, é claro, de boa qualidade.

Pelo menos é isso que alguns dos principais porta-vozes do movimento denominado MPL (Movimento Passe Livre), que se pretende não hierarquizado e que não possuiria líderes definidos que diriam aos outros o que fazer ou não fazer, dizem.

Geração Facebook se manifesta em Belo Horizonte.

Esta é a ‘Geração Facebook’ chegando às ruas do Brasil, se manifestando, apresentando as suas demandas, desejos, ambições, o que é algo muito saudável sob o aspecto da construção de uma sociedade mais justa, igualitária e democrática e na qual todos possam trabalhar, estudar, se divertir, se informar e viver dignamente.

Mas vejam que mesmo isso somente foi possível em função das inegáveis melhorias econômicas e sociais e da ampliação muito forte do acesso à Internet que tivemos nos últimos anos no Brasil e pelos quais os governos Lula e Dilma tem uma grande responsabilidade.

Inclusive porque foram os seus governos que baratearam o preço do computador, reduzindo os impostos cobrados sobre o mesmo (vide link abaixo), aumentaram o poder de compra dos salários (que aumentaram cerca de 30% em termos reais desde 2003), reduziram o custo do crédito (a oferta de crédito na economia passou de 22% do PIB, em 2002, para 53,9% do PIB em Março deste ano; eu comprei o meu atual notebook, e o anterior também, em 12 suaves prestações mensais que não pesaram no meu salário) e os juros para o consumidor também tiveram uma queda sensível. O número de trabalhadores com carteira assinada aumentou em 19 milhões entre 2003-2012, enquanto a taxa de desemprego atual é a menor da história. E o poder de compra do salário mínimo atingiu o seu maior nível desde 1979.

Entendo que sem a ascensão de 50 milhões de brasileiros em termos econômicos e sociais, durante o período 2003-2012 (governos Lula e Dilma), nada disso estaria acontecendo e esta Geração Facebook sequer existiria ou seria tão reduzida, uma  pequena elite, que a sua atuação teria pouco ou virtualmente nenhum impacto sobre a sociedade brasileira.

Não vejo como negar que essa Geração Facebook, que também incluir milhões de jovens das periferias das grandes e médias cidades brasileiras, em especial, seja criação das políticas de distribuição de renda e pró-crescimento econômico adotadas pelos governos Lula e Dilma.

Sakamoto faz isso em seu artigo, mas penso que, neste aspecto, ele está inteiramente equivocado.

Assim, não existiria uma ‘Geração Facebook’ no Brasil sem o acesso facilitado para a aquisição do computador, seja porque os preços dele diminuíram ou porque os salários tiveram um significativo aumento no seu poder de compra, o desemprego diminuiu fortemente desde 2004, os juros ao consumidor baixaram de maneira significativa (embora ainda sejam muitos elevados) e a oferta de crédito mais do que dobrou no país de 2003 até hoje.

E essa população (jovens, em grande parte) passou a ter maior poder de compra e a se informar melhor pela Internet (onde as fontes de informação são infinitamente mais diversificadas do que as oferecidas pela Grande Mídia tradicional), trocando idéias, informações e opiniões.

E isso levou a que tivessem a oportunidade de criar novas formas de mobilização e de organização, permitindo que se manifestassem de uma maneira não-tradicional, por fora das organizações tradicionais da sociedade civil (partidos políticos, igrejas, sindicatos, etc), pois estas, de certa maneira, já tem os seus donos, sejam líderes políticos tradicionais ou movimentos sociais organizados e estabelecidos já há muito tempo.

E agora essa ‘Geração Facebook’ está indo às ruas para cobrar o atendimentos a velhas e tradicionais demandas(educação, saúde, transporte coletivo de qualidade, entre outros) bem como a novas (respeito à diversidade de comportamento, liberdade e autonomia individual).

Exemplos disso foram declarações feitas por jovens participantes do protesto que aconteceu em Belo Horizonte, neste Sábado (dia 14/06/2013).

Entre outras, selecionei estas duas declarações:

1) Cansei de ficar em casa sem fazer nada. A questão do ônibus é um ponto, é apenas o lema. Os governantes precisam olhar e melhorar saúde e educação – afirma o estudante Luiz Gustavo, de 17 anos.

2) Luana Máximo, do Colégio Tiradentes, também se queixa do preço da passagem.

- Faço pré-vestibular, uso o ônibus todo o dia e valor da passagem é um absurdo se comparado a precariedade do serviço oferecido. A população precisa sair da inércia – disse.
E esses novos atores sociais não demonstram muito respeito pelas lideranças e organizações tradicionais, mesmo que estas tenham tido um papel importante na construção de uma realidade na qual os jovens atuais possam atuar e se manifestar.

Já vi, por exemplo, um membro simpatizante do MPL que está sendo beneficiado pelo programa ‘Ciência Sem Fronteiras’, criado pelo governo Dilma, ofender a presidenta em sua página no Facebook. É como se eles estivessem dizendo: ‘Vocês lutaram contra a Ditadura? Geraram milhões de novos empregos com carteira assinada? Aumentaram o poder de compra dos salários? Legal. Mas agora eu quero mais!’.

Em seu livro ‘A Política do Precariado’, o sociólogo Ruy Braga reconhece que tivemos avanços econômicos e sociais no Brasil nos últimos 10 anos, mas diz que os mesmos não acabaram com a situação de precarização de grande parte dos trabalhadores brasileiros e que 94% dos novos empregos criados entre 2002 e 2010 pagam até 1,5 salário mínimo, o que é muito baixo, sem dúvida alguma.

E é claro que isso gera uma frustração e levam estes trabalhadores (muitos deles jovens) a ter o desejo de acelerar o processo de melhoria das suas condições de trabalho e de vida. Afinal, ninguém quer ficar ganhando 1,5 salário mínimo durante a vida toda, né?

E daí para sair ás ruas e fazer reivindicações por mudanças neste sentido não demora muito, não. Ainda mais que mesmo no caso destes milhões de jovens trabalhadores e que recebem baixos salários, acessar a Internet e o Facebook a fim de se conectar com milhares de outros jovens em situação parecida com a sua é algo que já faz parte da sua vida há alguns anos.

Portanto, entendo que essas manifestações refletem uma inquietação social real na sociedade brasileira por parte deste segmento, os jovens trabalhadores pobres, em especial, que manifestam o desejo de desfrutar de uma qualidade de vida superior.

O emprego ele já tem, mesmo que precário, mas ele quer e deseja MAIS. E quem poderá lhe negar o direito de lutar por isso? Ninguém, a não ser os fascistas, é claro.

Logo, tais manifestações não são resultado, apenas e tão somente, como pensam alguns, das ações levadas adiante apenas por parte dos filhos de uma classe média mais tradicional, bem de vida no aspecto material e que estuda em caros colégios particulares durante o ensino fundamental e médio e que são os que cursam as melhores universidades públicas do país.

Longe disso.

No entanto, entendo que esse caráter de luta demonstrado pelos jovens da Geração Facebook enterram, de certa maneira, aquela tese do caráter ‘conservador’ do lulismo. Segundo os defensores dessa ideia, o lulismo teria meio que anestesiado a população brasileira, fazendo com que ela desistisse de lutar pela ampliação dos seus direitos e de suas conquistas.

Agora, estas manifestações da Geração Facebook que se espalham por grande parte do país, e que contam, sim, com uma participação significativa de jovens trabalhadores pobres das periferias das grandes e médias cidades brasileiras e que foram beneficiados pelas políticas de distribuição de renda e favorável ao crescimento econômico adotadas pelos governos Lula e Dilma, enterram com esta ideia.

Afinal, que raio de conservadorismo é esse que não impediu que essas manifestações acontecessem e se espalhassem por grande parte do Brasil?

Isso me lembra a velha história de que Getúlio Vargas tinha sido ‘Pai dos Pobres’ e que isso impediria os trabalhadores de se mobilizarem de forma autonôma. Até que, em 1953, tivemos o maior movimento grevista da história do Brasil até aquele momento, que foi a ‘Greve dos 300 mil’, e que aconteceu, portanto, em pleno governo democrático de Vargas.

Essas manifestações que se espalham pelo Brasil, atualmente, são a ‘Greve dos 300 mil’ de nossa época.

O livro de Marcio Pochmann demonstra como se formou uma Nova Classe Trabalhadora no Brasil dos governos Lula e Dilma.
Neste aspecto, estes jovens da Geração Facebook me fazem recordar os Punks que, quando apareceram no cenário do rock, lá por volta de 1975-1977, na Grã-Bretanha, que também não demonstravam nenhum respeito pelos grandes grupos e artistas consagrados de Rock do passado e tampouco pela Rainha (‘God Save the Queen’, lembram?).

Lembram-se de Paul Cook e Johnny Rotten, dos Sex Pistols, usando a camiseta onde se lia ‘I Hate Pink Floyd’? E Johnny Rotten vivia dizendo ‘Eu não sei o que eu quero, mas sei como conseguir. Eu quero destruir’.

Talvez a Geração Facebook seja parecida com isso, demonstrando desprezo pelos ‘Heróis do Passado’, como por aqueles que lutaram contra a Ditadura Civil-Militar (como é o caso da Presidenta Dilma) e, ao mesmo tempo, desejando mudanças e transformações rápidas para atender aos seus desejos de mudança e de transformação.

A questão é: esse movimento veio para ficar ou não? Eles conseguirão manter o mesmo pique e energia que demonstram atualmente ou tudo não terá passado de uma onda passageira? Surgirão líderes ou os movimentos manterão esse caráter anárquico?

O acesso à Internet e às redes sociais como o Facebook podem facilitar a vida desta geração, mas isso somente poderá transformar a realidade se o desejo de mudança e de transformação não esmorecer. Essa geração possui os instrumentos para continuar agindo e intervindo no cenário político e social do país, sem dúvida. Resta saber se continuará tendo a energia e a determinação necessárias para isso ou se acabará se esvaziando.

De uma coisa é certa: os governantes do país terão que se ver com as novas demandas, desejos e ambições da Geração Facebook e desta Nova Classe Trabalhadora, sim, mesmo que o movimento não mantenha o seu pique atual por muito tempo.

Esta vontade de transformação que se manifestou na sociedade brasileira, com estas manifestações, está diretamente conectada com os desejos de transformação de dezenas de milhões de brasileiros que compraram TV de LCD, computadores, celulares, notebooks, tablets, smartphones, iphones, carros, casa, geladeira, sim.

Mas, agora, eles desejam desfrutar de uma qualidade de vida muito melhor também fora de casa, com acesso à serviços públicos de qualidade e acessíveis em todas as áreas: transporte coletivo, educação, saúde, segurança pública, moradia, saneamento básico, cultura, esportes, lazer.

Agora, penso que essa vontade de transformação desta nova geração também está relacionada com outros aspectos, de princípios, valores e de comportamento, em especial.

Entendo que eles também querem ser donos de seu destino, sem que nenhum líder político ou religioso lhes diga o que fazer, como pensar ou ainda em como viver as suas vidas, sobre o que desejam beber, fumar ou como querem se divertir.

Desta maneira, penso que estes protestos são, também, uma demonstração de revolta e de indignação e uma manifestação de resistência de milhares de pessoas que reagiram a estes ‘Felicianos e Malafaias’ que apareceram no cenário social e político do país nos últimos anos e que se utilizam de um discurso brucutu, troglodita e reacionário, típico de uma teocracia medieval, principalmente no aspecto do comportamento individual.

Estatuto do Nascituro? Registrar o nome do estuprador como se fosse o pai da criança e por quem a mãe foi violentada brutalmente?

Vão se f…, diz a Geração Facebook.

E há também um certo repúdio às velhas práticas políticas, como a dos partidos fazerem coligações com todos os outros partidos. Daí, muitos destes jovens devem se perguntar: Mas se todos os partidos se aliam a todos os outros, então quais são as reais diferenças entre eles?

Até o PSOL, que anteriormente repudiava tais alianças, já começou a fazê-las até mesmo com lideranças e partidos conservadores, como Sarney, o PSDB, DEM e PTB (ver link abaixo), tal como ocorreu na eleição em Macapá, no ano passado.

É claro que tais diferenças existem, mas vá tentar explicar isso para eles…

Então, caso esses governantes não se preocupem ou não consigam atender aos desejos de mudança, e que são reais (tanto no aspecto material, social, econômico, bem como em questão de princípios, valores e de comportamento), e de continuidade de melhorias apresentadas pela Geração Facebook (e com grande parte desta sendo também integrante da nova classe trabalhadora criada pelos governos Lula e Dilma), então eles que se preparem para enfrentar a ‘fúria das ruas’, pois estas pessoas já descobriram que tem o poder de se mobilizar, de se organizar e de fazer com que as suas vozes sejam ouvidas.

Quem quiser ouvir a voz das ruas, que ouça.

E aqueles que não conseguirem descobrir para qual direção o vento está soprando correrá o sério risco de perder o trem-bala da história .

Geração Facebook manifesta desprezo pelas lideranças e organizações políticas e sociais tradicionais, tal como os Punks demonstravam pelas bandas de rock consagradas de antigamente, como o Pink Floyd.
Texto Complementar:

No texto abaixo (que escrevi e publiquei em Novembro de 2012) no qual contestei a tese defendida pelo Vladimir Safatle (na época da campanha) de que a eleição paulistana tinha manifestado uma tendência mais ‘conservadora’ e comentei os resultados das eleições municipais.

Neste artigo, já apontava para a emergência de novas demandas e desejos por parte da população e que os novos governantes do país (os prefeitos, naquela ocasião) precisariam atender às mesmas se quisessem se manter no poder.

Assim, irei reproduzir alguns trechos mais significativos do mesmo, pois entendo que ele já antecipava, de certa maneira, e mesmo que de forma parcial, esse movimento que está acontecendo neste momento e que tem, como uma das suas grandes bandeiras, a melhoria da qualidade dos serviços públicos, o transporte coletivo em especial, mas também o da educação, saúde, segurança pública, entre outros:

“Vitória e votação de Haddad no 2o. turno colocam em xeque tese sobre suposta ‘ascensão conservadora’ em São Paulo! – por Marcos Doniseti!
“Agora, essa população que ascendeu social e economicamente durante os governos Lula-Dilma tem nova ambições e desejos.

E penso que ela, agora, quer mais do que simplesmente comprar um aparelho novo de TV ou de celular. Isso ela, em grande parte, já possui. Agora, o que essa parcela da população mais deseja é ter acesso a serviços públicos de qualidade, como os de educação, saúde, transportes coletivos, segurança pública.

Alguns especialistas, como é caso do economista Marcelo Neri, se referem a essa camada como sendo uma ‘nova classe média’, enquanto que outros, como é o caso do também economista Marcio Pochmann, preferem denominá-la de ‘nova classe trabalhadora’.Independente disso, o fato é que esse segmento da população quer continuar melhorando de vida e deixou isso bem claro nestas eleições municipais.

Como disse a campanha de Fernando Haddad, a vida desta parcela mais pobre da população melhorou bastante da porta de casa para dentro. Agora ela deseja que a sua vida melhore da porta de casa para fora.

E é bom que fique bem claro uma coisa: Os governantes que não entenderem esse recado que a população deixou nas urnas  nestas eleições, podem começar a se preparar para desfrutar de uma longa aposentadoria, pois não vencerão mais eleição alguma. E isso vale, inclusive, para os prefeitos recentemente eleitos.

Quem viver, verá.”.

Haddad se elegeu apontando para uma melhoria da qualidade de vida dos paulistanos, principalmente os da periferia. Tal como outros dos mais de 5500 prefeitos eleitos em 2012, ele terá que cumprir com esse compromisso caso queira fazer um governo bem avaliado pela população da capital paulista.

Links:

Jovens vão às ruas e nos mostram que desaprendemos a sonhar – por Andre Borges Lopes:

 

http://www.sul21.com.br/jornal/2013/06/jovens-vao-as-ruas-e-nos-mostram-que-desaprendemos-a-sonhar-por-andre-borges-lopes/

 

 

Leonardo Sakamoto: O poder público não consegue entender as  manifestações de São Paulo

http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2013/06/15/o-poder-publico-nao-consegue-entender-as-manifestacoes-de-sao-paulo/

Vitória e votação de Haddad no 2o. turno colocam em xeque tese sobre suposta ‘ascensão conservadora’ em São Paulo! – por Marcos Doniseti!

 

http://guerrilheirodoanoitecer.blogspot.com.br/2012/11/vitoria-e-votacao-de-haddad-no-2o-turno.html

Jovens protestam contra o Estatuto do Nascituro no RJ:

http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2013/06/15/protesto-contra-estatuto-do-nascituro-reune-jovens-em-copacabana.htm

Computadores de até R$ 4 mil tem redução de imposto:

http://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u113916.shtml

Oferta de crédito atinge 53,9% do PIB em Março de 2013:

http://guerrilheirodoentardecer.blogspot.com.br/2013/04/oferta-de-credito-atinge-539-do-pib-em.html

Número de internautas cresceu 10 milhões entre 2009 e 2011 no Brasil:

http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=194530&id_secao=6

Salário Mínimo tem o maior poder de compra desde 1979:

http://sindjuf-pa-ap.jusbrasil.com.br/noticias/100278422/dieese-relacao-entre-minimo-e-cesta-basica-e-a-maior-desde-1979

Cerca de 8 mil manifestantes fecham o trânsito e descumprem decisão judicial em BH:

http://oglobo.globo.com/pais/cerca-de-8-mil-manifestantes-fecham-transito-descumprem-decisao-judicial-em-bh-8700194

Ruy Braga: Condição de insegurança é a regra do mundo do trabalho hoje:

http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=article&id=4920&secao=416

Em Macapá, o PSOL se alia a Sarney, o PSDB, DEM e PTB:

http://www.pstu.org.br/conteudo/em-macap%C3%A1-psol-vence-mas-com-apoio-do-dem-ptb-e-psdb

Conservadorismo – O filho bastardo do lulismo:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/64413-o-filho-bastardo.shtml

A ascensão conservadora – por Vladimir Safatle:

http://www.youtube.com/watch?v=ZjiQQlgkBVM

A Greve dos 300 mil de 1953:

http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/Jango/artigos/NoGovernoGV/Trabalhadores_movimento_sindical_e_greves

Jovens vão às ruas e nos mostram que desaprendemos a sonhar

Por Andre Borges Lopes

AOS QUE AINDA SABEM SONHAR

O fundamental não é lutar pelo direito de fumar maconha em paz na sala da sua casa. O fundamental não é o direito de andar vestida como uma vadia sem ser agredida por machos boçais que acham que têm esse direito porque você está “disponível”. O fundamental não é garantir a opção de um aborto assistido para as mulheres que foram vítimas de estupro ou que correm risco de vida. O fundamental não é impedir que a internação compulsória de usuários de drogas se transforme em ferramenta de uma política de higienismo social e eliminação estética do que enfeia a cidade. O fundamental não é lutar contra a venda da pena de morte e da redução da maioridade penal como soluções finais para a violência. O fundamental não é esculachar os torturadores impunes da ditadura. O fundamental não é garantir aos indígenas remanescentes o direito à demarcação das suas reservas de terras. O fundamental não é o aumento de 20 centavos num transporte público que fica a cada dia mais lotado e precário.

O fundamental é que estamos vivendo uma brutal ofensiva do pensamento conservador, que coloca em risco muitas décadas de conquistas civilizatórias da sociedade brasileira.

O fundamental é que sob o manto protetor do “crescimento com redução das desigualdades” fermenta um modelo social que reproduz – agora em escala socialmente ampliada – o que há de pior na sociedade de consumo, individualista ao extremo, competitiva, ostentatória e sem nenhum espaço para a solidariedade.

O fundamental é que a modesta redução da nossa brutal desigualdade social ainda não veio acompanhada por uma esperada redução da violência e da criminalidade, muito pelo contrário. E não há projeto nacional de combate à violência que fuja do discurso meramente repressivo ou da elegia à truculência policial.

O fundamental é que a democratização do acesso ao ensino básico e à universidade por vezes deixam de ser um instrumento de iluminação e arejamento dos indivíduos e da própria sociedade, e são reduzidos a uma promessa de escada para a ascensão social via títulos e diplomas, ao som de sertanejo universitário.

O fundamental é que os políticos e grandes partidos antigamente ditos “libertários” e “de esquerda” hoje abriram mão de disputar ideologicamente os corações e mentes dos jovens e dos novos “incluídos sociais” e se contentam em garantir a fidelidade dos seus votos nas urnas, a cada dois anos.

O fundamental é que os políticos e grandes partidos antigamente ditos “sociais-democratas” já não tem nada a oferecer à juventude além de um neo-udenismo moralista que flerta desavergonhadamente com o autoritarismo e o fascismo mais desbragados.
O fundamental é que a promessa da militância verde e ecológica vai aos poucos rendendo-se aos balcões de negócio da velha política partidária ou ao marketing politicamente correto das grandes corporações.

O fundamental é que os sindicatos, movimentos populares e organizações estudantis estão entregues a um processo de burocratização, aparelhamento e defesa de interesses paroquiais que os torna refratários a uma participação dinâmica, entusiasmada e libertária.

O fundamental é que temos em São Paulo um governo estadual que é francamente conservador e repressivo, ao lado de um governo federal que é supostamente “progressista de coalizão”. Mas entre a causa da liberação da maconha e defesa da internação compulsória, ambos escolhem a internação. Entre as prostitutas e a hipocrisia, ambos ficam com a hipocrisia. Entre os índios e os agronegócio, ambos aliam-se aos ruralistas. Entre a velha imprensa embolorada e a efervescência libertária da Internet, ambos namoram com a velha mídia. Entre o estado laico e os votos da bancada evangélica, ambos contemporizam com o Malafaia. Entre Jean Willys e Feliciano, ambos ficam em cima do muro, calculando quem pode lhes render mais votos.

O fundamental é que o temor covarde em expor à luz os crimes e julgar os aqueles agentes de estado que torturaram e mataram durante da ditadura acabou conferindo legitimidade a auto-anistia imposta pelos militares, muitos dos quais hoje se orgulham publicamente dos seus crimes bárbaros – o que nos leva a crer que voltarão a cometê-los se lhes for dada nova oportunidade.

O fundamental é que vivemos numa sociedade que (para usar dois termos anacrônicos) vai ficando cada vez mais bunda-mole e careta. Assustadoramente careta na política, nos costumes e nas liberdades individuais se comparada com os sonhos libertários dos anos 1960, ou mesmo com as esperanças democráticas dos anos 1980. Vivemos uma grande ofensiva do coxismo: conservador nas ideias, conformado no dia-a-dia, revoltadinho no trânsito engarrafado e no teclado do Facebook.

O fundamental é que nenhum grupo político no poder ou fora dele tem hoje qualquer nível mínimo de interlocução com uma parte enorme da molecada – seja nas universidades ou nas periferias – que não se conforma com a falta de perspectivas minimamente interessantes dentro dessa sociedade cada vez mais bundona, careta e medíocre.

Os mesmos indignados que se esgoelam no mundo virtual clamando que a juventude e os estudantes “se levantem” contra o governo e a inação da sociedade, são os primeiros a pedir que a tropa de choque baixe a borracha nos “vagabundos” quando eles fecham a 23 de Maio e atrapalham o deslocamento dos seus SUVs rumo à happy-hour nos Jardins.

Acuados, os políticos “de esquerda” se horrorizam com as cenas de sacos de lixo pegando fogo no meio da rua e se apressam a condenar na TV os atos de “vandalismo”, pois morrem de medo que essas fogueiras causem pavor em uma classe média cada vez mais conservadora e isso possa lhes custar preciosos votos na próxima eleição.

Enquanto isso a molecada, no seu saudável inconformismo, vai para as ruas defender – FUNDAMENTALMENTE – o seu direito de sonhar com um mundo diferente. Um mundo onde o ensino, os trens e os ônibus sejam de qualidade e gratuitos para quem deles precisa. Onde os cidadãos tenham autonomia de decidir sobre o que devem e o que não devem fumar ou beber. Onde os índios possam nos mostrar que existem outros modos de vida possíveis nesse planeta, fora da lógica do agribusiness e das safras recordes. Onde crenças e religião sejam assunto de foro íntimo, e não políticas de Estado. Onde cada um possa decidir livremente com quem prefere trepar, casar e compartilhar (ou não) a criação dos filhos. Onde o conceito de Democracia não se resuma à obrigação de digitar meia dúzia de números nas urnas eletrônicas a cada dois anos.

Sempre vai haver quem prefira como modelo de estudante exemplar aquele sujeito valoroso que trabalha na firma das 8 da manhã às 6 da tarde, pega sem reclamar o metrô lotado, encara mais quatro horas de aulas meia-boca numa sala cheia de alunos sonolentos em busca de um canudo de papel, volta para casa dos pais tarde da noite para jantar, dormir e sonhar com um cargo de gerente e um apartamento com varanda gourmet.

Não é meu caso. Não tenho nem sombra de dúvida de que prefiro esses inconformados que atrapalham o trânsito e jogam pedra na polícia. Ainda que eles nos pareçam filhinhos-de-papai, ingênuos em seus sonhos, utópicos em suas propostas, politicamente manobráveis em suas reivindicações, irresponsavelmente seduzidos pelos provocadores de sempre.

Desde a Antiguidade, esses jovens ingênuos e irresponsáveis são o sal da terra, a luz do sol que impede que a humanidade apodreça no bolor da mediocridade, na inércia do conformismo, na falta de sentido do consumismo ostentatório, nas milenares pilantragens travestidas de iluminação espiritual.

Esses moleques que tomam as ruas e dão a cara para bater incomodam porque quebram vidros, depredam ônibus e paralisam o trânsito. Mas incomodam muito mais porque nos obrigam a olhar para dentro das nossas próprias vidas e, nessa hora, descobrimos que desaprendemos a sonhar.

‘Jamais achei que ele fosse atirar’, diz repórter da Folha atingida durante protesto

O “TV Folha” deste domingo foi às ruas acompanhar as manifestações contra o aumento da tarifa de ônibus na cidade de São Paulo.

A jornalista Giuliana Vallone, atingida no olho direito por uma bala de borracha disparada por um policial durante manifestação na quinta-feira passada relatou como foi atingida.

“Eles já tinham mirado em mim outras vezes. Jamais achei que ele fosse atirar”, diz.

Além de Giuliana, outros 14 jornalistas foram atingidos por policiais enquanto realizavam a cobertura das manifestações –seis são da Folha.

Segundo o colunista Gilberto Dimenstein, a manifestação é uma resposta ao “vandalismo metropolitano”. Para ele, a educação, a saúde e o transporte não funcionam como deveriam. “Com a polícia não poderia ser diferente”.

Para o colunista Luiz Felipe Pondé, as manifestações estão revelando um “saudável hábito de reclamar das coisas” –processo esse, considerado lento e trabalhoso para o também colunista Contargo Calligaris, “porém é um projeto de melhoria econômica do país”, afirma.

O vereador de São Paulo e ex-capitão da Rota Conte Lopes (PTB) defendeu a ação da polícia durante os protestos. Para ele, a Tropa de Choque “não foi feita para dialogar”.

De acordo com o coronel da PM Reynaldo Simões Rossi, a atuação da PM não admite excesso de conduta de seus pares. “Não houve nenhum interesse em impedir a cobertura jornalística”, alegou.

Movimentos protestam contra leilões do petróleo

Carta à presidenta Dilma, assinada por 50 organizações, pede o cancelamento dos leilões do petróleo e da privatização de barragens à presidenta Dilma Rousseff

Do Movimento dos Atingidos por Barragens na Revista Fórum

Manifestantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Movimento Camponês Popular (MCP) e Movimento dos Atingidos por Barragem (MAB), além de quilombolas e trabalhadores da Federação Única dos Petroleiros (FUP), ocupam o Ministério de Minas e Energia (MME), contra os leilões para exploração de petróleo e privatização de barragens (Foto: Valter Campanato/ABr)

Movimentos sociais e sindicais estão preparando ações em diversas capitais brasileiras para protestar contra a 11ª rodada de licitações de blocos para a exploração de petróleo e gás natural, prevista para os dias 14 e 15 de maio, e contra a privatização de diversas barragens cujas concessões vencem até 2015. Além das mobilizações, mais de 50 organizações assinaram uma carta,  entregue à presidenta Dilma, exigindo o cancelamento do leilão do petróleo e da privatização das barragens.

Os atos acontecem no Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba e Brasília. Em São Paulo haverá distribuição de jornais nas estações dos metrôs. Com as mobilizações, os manifestantes querem demarcar posição contrária à privatização dos 289 blocos de petróleo, localizados em 11 estados brasileiros. O volume a ser leiloado poderá ultrapassar 40 bilhões de barris, o que equivale a um lucro próximo a R$ 1,16 trilhões que será apropriado por empresas transnacionais do petróleo. Ao todo 64 empresas estão disputando os blocos.

As manifestações cobram também que o governo brasileiro não faça a licitação de 12 usinas hidrelétricas e de 23 pequenas centrais que estão encerrando seus prazos de concessão até o ano de2015. A usina hidrelétrica Três Irmãos, localizada em Andradina, interior de São Paulo, será a primeira delas. Antes controlada pela estatal Companhia de Energia de São Paulo (Cesp), a usina teve seu contrato de concessão vencido em 2011 e já está sob propriedade da União.

Por lei, com o fim das concessões, o governo deveria abrir uma nova licitação para leiloar a usina. No entanto, movimentos sociais e sindicais questionam a lei de licitações, criada no âmbito das medidas neoliberais dos anos 90 e propõe que elas fiquem sob controle estatal.

Para o coordenador nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Gilberto Cervinski, estas licitações retomam o processo de privatização na energia. “Tanto os leilões do petróleo como a privatização das barragens representam uma séria ameaça à soberania energética nacional. Estaremos mobilizados em diversas capitais para cobrar o cancelamento desses leilões. É necessário que toda a população se manifeste contra essa ameaça”, apontou.

Leia abaixo a carta das organizações à presidenta Dilma Rousseff:

Excelentíssima Senhora

Dilma Vana Rousseff

Presidenta da República do Brasil.

Brasília, 10 de Maio de 2013.

Excelentíssima,

Nós, movimentos populares e sindicais abaixo assinados, vimos, por meio desta, solicitar o cancelamento dos leilões de petróleo, previstos para os dias 14 e 15 de maio de 2013, bem como o cancelamento do processo, que prevê a privatização das hidrelétricas, de Três Irmãos em São Paulo e Jaguara em Minas Gerais, além de várias outras usinas, que podem significar cerca de 5.500 MW médios. Estes leilões significarão a retomada das privatizações em um dos setores mais estratégicos ao povo brasileiro. Entregar o petróleo e as hidrelétricas, que fazem parte do patrimônio da União ao capital internacional, será um erro estratégico.

Lembramos que o povo brasileiro, com seu trabalho e suas lutas, construiu um grande setor de energia no Brasil. A luta do “PETRÓLEO É NOSSO”, juntamente com a utilização dos nossos rios para a produção de energia elétrica nos propiciou, por muito tempo, que estas riquezas estivessem, em certa medida, sob controle nacional, uma vez que o controle estava garantido pelo Estado.

Foi, sem dúvida, no período dos governos de Collor e Fernando Henrique Cardoso, que este sistema foi sendo destruído e entregue ao capital internacional, sob o pretexto de que não servia mais para o nosso país. As melhores empresas públicas foram entregues para o controle das grandes corporações transnacionais, prejudicando nosso país e os trabalhadores. 

Nessas ocasiões, os setores neoliberais se apropriaram do discurso falacioso da ineficiência do Estado, especialmente na gestão das empresas públicas, com o objetivo de iludir o povo brasileiro com falsas promessas e entregar o patrimônio público para o “mercado”.

Esta história nós já conhecemos bem. Depois da privatização, a energia elétrica aumentou mais de 400% (muito acima da inflação), trabalhadores foram demitidos e recontratados com salários menores e em piores condições e a qualidade da energia elétrica piorou muito. Quedas de energia, explosão de bueiros e apagões são consequências da privatização.

No setor do petróleo a realidade é semelhante, FHC quebrou o monopólio estatal e vendeu parte da Petrobrás, e só não fez pior, porque foram derrotados na eleição de 2002.

Não é a toa que todo este processo foi chamado de PRIVATARIA. Mais de 150 empresas públicas – das melhores – acabaram sendo entregues aos empresários, a preços irrisórios.

O povo brasileiro votou em Lula duas vezes e em Dilma no ano de 2010, ciente de que aquilo que foi feito nos governos anteriores não era bom para o Brasil. A esperança vencia o medo e exigia que as privatizações tivessem um basta.

A extraordinária descoberta de petróleo na área chamada pré-sal, as enormes reservas de água, nosso território e nossas riquezas naturais exuberantes e, fundamentalmente, a capacidade de trabalho dos trabalhadores brasileiros, acenam para a construção de um país com enormes potencialidades, com possibilidades de usar e bem distribuir estas riquezas. E é isto que vemos ameaçado nesse momento.

Se as riquezas são tantas e boas para o país, por que entregar para as grandes empresas transnacionais as riquezas do povo brasileiro?

São as empresas do Estado Brasileiro, entre elas a Eletrobrás e a Petrobrás, que impulsionam o setor de energia em nosso país. É o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social-BNDES, quem financia as demandas do setor. São as empresas de pesquisa do Estado que fazem os estudos. São as empresas estatais, em especial, o Sistema Eletrobrás que está ofertando eletricidade a preços mais baratos. Então, por que não discutir com nosso povo, unir forças e buscar soluções para que, tanto o petróleo quanto a energia elétrica, fiquem nas mãos do Estado, com soberania nacional, distribuição de riquezas e controle popular?

É fundamental que todos nós tomemos posição neste momento tão importante para o destino da nação. Defendemos o cancelamento dos leilões, que irão privatizar o petróleo e as usinas hidrelétricas, que estão retornando para a União.

Não temos dúvida de que, se consultado, o povo brasileiro diria: Privatizar não é a Solução.

Certos de que seremos atendidos em nossas proposições, nos dispomos a discutir, mobilizar nosso povo, buscar a união de todos para que estas riquezas sejam do povo brasileiro e com controle do Estado. Nos colocamos à disposição para discutir com Vosso governo e com o povo brasileiro.

Sem mais, aguardamos resposta.

 

Articulação de Empregados Rurais do Estado de Minas Gerais – ADERE/MG

Assembléia Popular

Barão de Itararé – Centro de Estudos de Mídia Alternativa

Central de Movimentos Populares – CMP

Central de Movimentos Sociais – CMS/PR

Central Única dos Trabalhadores – CUT Brasil

Central Única dos Trabalhadores – CUT MG

Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG

Conselho Indigenista Missionário – CIMI

Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas - CONAQ

Coordenação Nacional de Entidades Negras – CONEN

Federação dos Trabalhadores nas Indústrias Urbanas do Estado de São Paulo – FTIUESP

Federação Estadual dos Metalúrgicos – CUT/MG

Federação Interestadual de Sindicatos de Engenheiros – FISENGE

Federação Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura Familiar – FETRAF

Federação Nacional dos Urbanitários – FNU

Federação Única dos Petroleiros – FUP

Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação – FNDC

Levante Popular da Juventude

Marcha Mundial das Mulheres – MMM

Movimento Camponês Popular – MCP

Movimento de Mulheres Camponesas – MMC

Movimento dos Atingidos pela Mineração – MAM

Movimento dos Atingidos por Barragens – MAB

Movimento dos Pequenos Agricultores – MPA

Movimento dos Trabalhadores Sem Terra – MST

Pastoral da Juventude Rural – PJR

Plataforma Operária e Camponesa para Energia

Sindágua MG

Sindicato dos Camponeses de Ariquemes e Região

Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná – SENGE/PR

Sindicato dos Metalúrgicos de Erechim/RS

Sindicato dos Metalúrgicos de Passo Fundo/RS

Sindicato dos Petroleiros do Estado de São Paulo – SINDIPETRO/SP

Sindicato dos Trabalhadores Energéticos do Estado de São Paulo – SINERGIA CUT

Sindicato dos Trabalhadores na Indústria de Energia de Florianópolis e Região – SINERGIA

Sindicato dos Trabalhadores Urbanitários  – STIU/DF

Sindicato Intermunicipal dos Trabalhadores na Indústria Energética de Minas Gerais – SINDIELETRO/MG

Sindicato Unificado dos Trabalhadores de Minas Gerais – Sind-UTE MG

Sind-Saúde MG

Stop the Wall

União Brasileira de Mulheres – UBM

União Brasileira dos Estudantes Secundaristas – UBES

União da Juventude Socialista – UJS

Via Campesina Brasil

AL e Caribe têm investimento estrangeiro recorde

Em 2012, aportes diretos chegaram a US$ 173,4 bilhões, valor 6,7% superior ao registrado em 2011, segundo estudo

Mesmo com a crise internacional nos países desenvolvidos, a América Latina e o Caribe receberam, em 2012, um valor recorde de investimento estrangeiro direto (IED): 173,4 bilhões de dólares. O resultado é 6,7% maior que em 2011, conforme anunciou nesta terça-feira 14, no Chile, a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe das Nações Unidas (Cepal).

Segundo o relatório Investimento Estrangeiro Direto na América Latina e Caribe 2012, o desempenho aconteceu devido ao crescimento econômico da região, altos preços de matérias-primas e elevada rentabilidade dos investimentos ligados à exploração de recursos naturais.

A Cepal apontou que, com isso, o IED não demonstrou indícios de contribuição relevante à geração de novos setores ou “à criação de atividades de alto conteúdo tecnológico na região”. O investimento se direciona com peso cada vez maior para a exploração de commodities. A representatividade da manufatura é limitada no IED da região, com exceção do Brasil e do México.

Explorando bens naturais, o lucro das empresas transnacionais que operam na América Latina e no Caribe aumentou 5,5 vezes em nove anos. Subiu de 20,4 bilhões de dólares em 2002 para 113,1 bilhões de dólares em 2011. E essas companhias, em média, enviam de volta às matrizes 55% de seus lucros e reinvestem 45% do valor nos países onde atuam.

Segundo a Cepal, o crescimento acentuado dos lucros tende a neutralizar o efeito positivo do IED sobre o balanço de pagamentos. Entre 2006 e 2011, a renda do IED na região ficou em 92 bilhões de dólares anuais, 92% do valor das entradas de investimento estrangeiro direto no mesmo período.

Para 2013, estima a Cepal, as entradas de IED na região ficarão entre uma queda de 3% e um aumento de 7%.

IED e o mercado de trabalho

Segundo o órgão da ONU, as atividades de comércio e de construção criam mais emprego em relação ao investimento, com sete vagas para cada milhão de dólares aportado. Em seguida aparecem a indústria manufatureira e os serviços, com três postos de trabalho gerados. As atividades de mineração, como o petróleo, abrem apenas um posto a cada dois milhões de dólares.