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O capitalismo voltou a internet contra a democracia

Os capitalistas localizam constantemente novos lugares para gerar lucros e, às vezes, isso implica pegar o que já foi muito e torná-lo escasso. É assim com a internet

Por James Orbesen, tradução de Jô Amado, edição de Leticia Nunes, no Observatório da Imprensa. Informações de James Orbesen [“When capitalismo consumed the Internet”, Salon, 14/4/13].

“Vamos agarrar essa nova tecnologia de novo e transformá-la num filão para a publicidade.” As palavras são do diretor-presidente da Procter & Gamble, Edwin Artzt. Famoso por sua perspicácia nos negócios, Artzt, sempre guiado pelo lucro, disse a seus colegas capitães da indústria para voltarem suas atenções para algo novo, algo inédito, algo que precisava ser conquistado.

(http://www.flickr.com/photos/shanepope/)

No início, a internet era um lugar diferente. Parecia um tempo de potencial ilimitado, quando se dizia que os velhos obstáculos à comunicação e à informação se derreteriam como manteiga no micro-ondas. As pessoas poderiam usar links de maneiras nunca vistas e tudo isso num espaço estritamente público e não comercial. Os analistas dessa época previam que os conglomerados da velha mídia seriam varridos pela chegada da Era Digital. Para os que olhavam para o futuro, a internet seria o espaço democrático, uma vez que seu princípio fundamental, o compartilhamento de dados pela rede, era intrinsecamente nivelador, livre e transparente.

Para muita gente que foi criança nas décadas de 80 e 90 – inclusive eu –, essa seria uma época para além da memória. Mas Robert W. McChesney lembra-se dela. Seu último livro, Digital Disconnect: How Capitalism Is Turning the Internet Against Democracy, olha para o desenvolvimento da internet, a estupefação inicial das empresas de mídia e telecomunicações diante de um espaço descoisificável, a provável conquista do ciberespaço e como a promessa inicial da internet não só foi subvertida, como se voltou contra o funcionamento de uma sociedade aberta e democrática.

Quantidade assustadora de dados

Apesar de todos os visíveis erros do capitalismo norte-americano – que McChesney assinala ao leitor, caso este tenha passado os últimos cinco anos dormindo –, o próprio sistema é, em grande parte, uma vaca sagrada. Na verdade, o capitalismo está tão entrelaçado com a sociedade norte-americana que, para muita gente, é quase um sinônimo da democracia. Numa época em que as corporações são pessoas legais e o dinheiro é equiparado à livre expressão, não é necessário um grande salto para compreender a intenção do autor. Como diz McChesney:

“E são poucos os que duvidam que o poder concreto, nos Estados Unidos, está nas mãos dos que têm mais dinheiro. É claro que os Estados Unidos contemporâneos não são um Estado policial e não têm gulags, mas têm uma variedade de poderosos estímulos materiais e culturais para incentivar uma política de não intervenção rumo ao capitalismo. Um hino ritualizado ao gênio do livre mercado é um bom lugar por onde começar.”

Talvez um dos ganchos mais irresistíveis do livro de McChesney seja seu projeto de se dissociar irremediavelmente da noção de que o capitalismo é essencial à democracia. Na realidade, poderia ser completamente antiético. McChesney cita a experiência ateniense, quando a democracia precedeu o capitalismo em quase 2 mil anos. Os dois não são um único nem o mesmo, apesar do que apregoam muitos arautos do livre mercado. Não exige um esforço tão grande dizer que o capital está sempre procurando o próximo grande negócio, algo que propiciaria um retorno prodigioso. Foi só uma questão de tempo até que interesses monetários fossem atrás de uma das áreas que cresciam mais rapidamente no final do século 20.

Poucas inovações tecnológicas provocaram ondas tão grandes quanto a internet. O simples acesso à informação é por si só notável, para não falar do aumento de conectividade entre indivíduos. O acesso à banda larga, o Wi-Fi e a proliferação de dispositivos móveis apenas aceleraram essa tendência. Os norte-americanos estão cada vez mais conectados por períodos cada vez mais longos de tempo. E essa tendência produziu uma quantidade de dados assustadora. McChesney cita Eric Schmidt, do Google. Schmidt avaliou que, se você registrasse digitalmente todos os documentos, textos e dispositivos culturais produzidos pelo ser humano desde o início dos tempos até 2003, precisaria de um computador com 5 bilhões de gigabytes de armazenagem. Em 2010, os humanos produziam esta mesma quantidade de dados a cada dois dias.

Ganância sem fim

É muita coisa para acompanhar. Infelizmente, não é de graça. A manutenção, o espaço do provedor e o desenvolvimento do software são apenas alguns dos custos para manter a massa absoluta da internet. McChesney conta uma história triste, mas cada vez mais comum. Aquilo que já foi aberto, público e, em grande parte, não comercial, tornou-se a fronteira do moderno capitalismo. Veja a internet como ela é, hoje. Parece extremamente distante dos sonhos utópicos de seus primeiros usuários e pioneiros, pessoas como o próprio McChesney. Não era para ser assim, diz o autor. Então, o que aconteceu?

Aconteceram os lucros. Depois de anos se alimentando de interesse público e sem fins lucrativos, a internet foi entregue a empreendimentos privados devido a intensos lobbies e em pouco tempo a coisa degringolou. A palavra-chave: rentabilizar. Manter a internet como um luxo, e não como uma utilidade. Convença os políticos a apoiarem uma legislação draconiana para direitos autorais. Acumule patentes. Anuncie por toda parte. Transforme a internet numa série de circuitos fechados, privados. Junto com as inúmeras infrações de privacidade pessoal, que os anunciantes pagam na hora – o que pede a pergunta cui bono? Dê apenas uma olhada nos lucros brutais registrados pela internet – empresas de telecomunicações e de tecnologia: Google, Apple, AT&T, Microsoft, Facebook et al.

A iniciativa privada não estava interessada em fornecer bens públicos porque, como diz McChesney:

“Esta situação não é necessariamente decorrente de uma conspiração, e, sim, de uma lógica perfeitamente visível e desavergonhada do próprio capitalismo. O capitalismo é um sistema baseado em pessoas que tentam obter lucros infindáveis por quaisquer meios que sejam necessários. Você nunca pode ter demais. A ganância sem fim – comportamento ridicularizado como insanidade em todas as sociedades não capitalistas – é o sistema de valores daqueles que estão no alto da economia. O ethos rejeita, explicitamente, quaisquer preocupações com complicações sociais, ou ‘externalidades’.”

Filtragem indireta da informação

Esta revelação não é inteiramente nova. Mas McChesney torna-a mais irresistível por ser tão recente. Talvez o verdadeiro impacto de seu livro seja detalhar um trajeto de eventos que ainda estão acontecendo. Descobrir que a AT&T, deliberadamente, cobra mais por seus serviços de dispositivos móveis e pela internet – fornecendo um produto de qualidade inferior – nos Estados Unidos do que pelos serviços prestados no exterior, é inquietante. É ainda mais inquietante por parecer que a construção dos aparelhos é tão desimportante que pouco, ou nada, ela é discutida por nossos líderes políticos. A ironia da coisa é que eu podia saber disso sem a trabalheira de McChesney. A internet, com todos os seus recursos, está logo ali.

Porém, espantosamente, o jogo parece já estar viciado contra a liberdade da internet: “…Os seres humanos conseguem visitar de modo significativo apenas um pequeno número de sites de uma maneira constante. O mecanismo de busca do Google incentiva a concentração porque os sites que não terminam na primeira ou segunda página de uma busca simplesmente não existem. Como disse Michael Wolff, na Wired, ‘os primeiros 10 websites responderam por 31% das visitas de página nos Estados Unidos em 2001, 40% em 2006 e cerca de 75% em 2010’. Em 2012, segundo o medidor de tráfego Experian Hitwise, 35% das visitas à internet vão para o Google, Microsoft, Yahoo! e Facebook.”

Esse tipo de estatística lembra-me uma passagem de Final Crisis, de Grant Morrison: “Já ganhamos. E eles ainda nem sabem!” Tornamo-nos ferramentas involuntárias de nosso confinamento. Essa filtragem indireta da informação é perigosa e leva ao ponto fundamental de McChesney sobre o potencial da internet para sabotar a democracia.

“Jornalismo retrospectivo”

Poucas profissões têm sofrido nas entranhas com a ascensão da internet como o jornalismo. A cada duas semanas, parece que surge uma história sobre demissões em massa numa redação ou a consolidação da mídia em empresas maciças, monopolísticas. McChesney enfatiza muito o papel que os jornalistas têm ao proteger o público da invasão dos interesses privados. Um povo informado, diz McChesney canalizando o apoio de Thomas Jefferson a uma imprensa livre e publicamente subsidiada, é a alma de uma sociedade democrática. No entanto, a internet veio e deixou os jornalistas esperando, justamente quando o público norte-americano mais precisava deles. Embora o declínio da imprensa escrita tradicional já viesse de décadas antes da internet, McChesney pretende que a confluência da consolidação da mídia e o enfraquecimento dos publishers independentes, através do declínio precipitado da receita publicitária, talvez seja a maior ameaça a uma sociedade democrática.

Os capitalistas localizam constantemente novos lugares para gerar lucros e, às vezes, isso implica pegar o que já foi muito e torná-lo escasso. É assim com a internet. A informação na internet é virtualmente livre, mas os interesses comerciais estão trabalhando para torná-la escassa.

Isto é preocupante porque se manifesta pela atual tendência das publicações fazerem menos investigação e mais reportagem. Devido aos profundos cortes de orçamento e ao controle pelos interesses das corporações – com seus dedos em muitos, mas muitos negócios diferentes –, as redações são forçadas a jogar o jogo. Ao invés de ir atrás da notícia para informar o povo, como deveria ser, os jornalistas só podem escrever a reportagem depois que os fatos aconteceram. Isto pode significar consequências trágicas. Quando uma mina de carvão afundou em 2010, na Virgínia Ocidental, causando a morte de 29 mineiros, descobriu-se a violação flagrante de inúmeros padrões de segurança. Duas denúncias foram feitas, pelo Washington Post e pelo New York Times, destacando a abrangência do crime. Entretanto, esse escândalo só veio à luz do dia depois que a mina já tinha afundado. McChesney cita Josh Stearns: “Estamos entrando numa era de ‘jornalismo retrospectivo’, quando algumas das matérias mais importantes da nossa época emergem depois do fato.”

Para os poderosos continuarem poderosos

Esta falta de vigilância jornalística sobre as atividades de autores e agitadores da internet é espantosa. Basta simplesmente avaliar os casos de Julian Assange, Aaron Swartz e outros ativistas pela liberdade da internet para ver como a internet se tornou fortemente controlada. A cumplicidade entre grandes empresas de tecnologia, telecomunicações e internet e políticos corruptos é óbvia. Está ocorrendo e, segundo McChesney, ainda sobraram algumas escassas fontes capazes de expor esse fato – de reverter o rumo, nem se fala.

Um exemplo deslumbrante pode ser visto na China e sua menina dos olhos, a “grande muralha digital”. O bloqueio da informação e o monitoramento de dissidentes ajuda a suprimir reformas para um regime genuinamente democrático. Mesmo nos Estados Unidos, informações pessoais são compradas e vendidas, sem consentimento, por terceiros não identificados. A maioria dos usuários nem sabe se ou quando está sendo rastreada. Seria um crime. Mas faz sentido para quem faz as regras da web porque irá gerar lucros. Diz McChesney: “Resumindo, o caminho racional para essas empresas – mesmo aquelas que atualmente não trabalham junto com os militares e as agências de segurança – é cooperar com o estado de segurança nacional. Qualquer outro rumo de ação seria uma ameaça à sua lucratividade. É óbvio.”

Portanto, quando McChesney denuncia que “as provas são claras: para as corporações da internet, a prioridade de direitos humanos e da força da lei está abaixo da prioridade de lucros” – e não se trata do emaranhado de uma teoria conspiratória. O contexto informal, fácil de abordar, que ele proporcionou, reforça sua percepção, não o desmerecendo como um acadêmico atípico. A internet, que já foi considerada um motor democratizante, poderia, na verdade, ser uma ferramenta indispensável para que os poderosos continuem sendo poderosos.

A opção de mudança

A internet chegou para ficar. Ninguém duvida disso. É útil demais, entretém demais, está enredada demais na vida diária para ser extinta. Mas já não parece ser uma dádiva dos deuses, como antigamente. “Em 1935, o editor da New Republic, Bruce Bliven, se descreveu como alguém que ‘considera a publicidade tão detestável que deseja que o rádio nunca tivesse sido inventado’. Cabe perguntar se a internet irá produzir ‘blivenistas’ modernos – ou se, como com as emissoras, as pessoas acabam aceitando sua degradação como uma coisa natural e quase não reconhecem, muito menos questionam, o que está acontecendo.” Considerando a quantidade de perversão que acontece por trás da cortina da internet, este não é um sentimento puramente descartável.

E o que McChesney oferece como solução? Existe esperança? Para ele, sim, e é uma mistura de inciativas democráticas que deve trabalhar dentro do sistema de forma a fazer retroagirem as preocupações capitalistas, assim como os subsídios públicos para um jornalismo proativo. A solução parece ideal, mas para mim é quase impossível imaginá-la acontecendo no ambiente hiper-partidarizado de hoje. Afinal, McChesney é um otimista auto-identificado. Como alguém que já cresceu com a internet, ao invés de ser testemunha de seu nascimento, acho que o fundamental não é o establishment, que já está nas mãos das corporações, e sim os pioneiros digitais, como Aaron Swartz, indivíduos ou grupos que estejam dispostos a virar as ferramentas da internet contra seus donos.

E McChesney admite que a internet continua sendo desenvolvida. Quem sabe o que será no futuro? Suas observações poderiam ser o último alerta do capitalismo tardio, e não a criação de uma Nova Ordem Digital.

Porém, uma vez que a internet ainda está em curso, o simples tamanho dela poderia, um dia, funcionar contra os interesses das corporações. Não é preciso ser um usuário excessivamente conhecedor para saber como superar os obstáculos entre os usuários e a informação. Embora um povo informado seja essencial ao funcionamento da democracia, talvez a maneira de avançar seja um povo informado sobre como a internet funciona, capaz de navegar na rede de uma maneira mais significativa e independente. O fundamental para a democratização da internet talvez seja uma geração de usuários que conheçam as regras do jogo, apoderando-se dela através do uso diário e das opções online. A empresa Kickstarter, apesar de monetizada, é um exemplo de democracia do tipo digital.

Só podemos esperar que todas aquelas horas incontáveis online compensem. Com o tempo, justamente aquelas pessoas consideradas intrusas, hackers ou escravas de seus laptops talvez venham a ser a melhor opção da internet para uma mudança significativa e democrática.

O pacote de maldades na comunicação

Por Miguel do Rosário, do blog O Cafezinho

Quando o tema é comunicação, o governo Dilma, tão progressista em algumas áreas, converte-se no Dr.Jekyll de si mesmo. Se a metáfora de “O Médico e o Monstro” pode ser aplicada a qualquer indivíduo ou instituição, em virtude da inevitável dialética do ser, o problema das políticas públicas de comunicação social é que elas agem sobre o que há de mais nobre e mais duradouro numa sociedade: o espírito, a cultura, os valores, a moral.

Grande ironia da história: o capitalismo brasileiro emula regime stalinista e caminha para “imprensa única” (Foto: Reprodução/blog O Cafezinho)

A noção de que o Estado não deve participar do complexo processo político da comunicação embute a grande farsa liberal do Ocidente, que protege (hoje, nem tanto) as liberdades domésticas mas patrocina guerras e golpes em outros países para impor sua própria agenda de comunicação.

É o caso do Brasil.

O golpe de Estado de 1964 foi preparado com recursos financeiros, apoio logístico, suporte político e diplomático, do governo americano. Os estudos sobre seus preparativos junto à opinião pública, como o que fez René Armand Dreifuss (em “1964, A Conquista do Estado”), incluem sempre, além disso, as agências de publicidade norte-americanas.

Terminado o golpe, as empresas de mídia, pequenas, médias e sobretudo, as grandes, que o apoiaram, estavam mais fortes, mais ricas, mais influentes, e com grande público. As que se insurgiram contra a ditadura, destruídas. A mesma coisa vale para o concentrado setor de publicidade. As agências que protegiam os interesses norte-americanos expandiram-se durante a ditadura. As que não o defenderam, deixaram de existir.

Daí vem a democracia, trazendo com ela uma profunda crise econômica. Os anos 80 foram chamados, no Brasil, de década perdida. Os anos 90, por sua vez, começam num pesadelo e terminam com uma ilusão. A “estabilidade” do Plano Real vem junto com explosão dos juros, da dívida pública, da carga tributária, do desemprego; redução brutal das exportações; e desmantelamento da indústria. Um ambiente não muito propício, como se vê, para o florescimento de novos empreendimentos de mídia.

Em virtude desse histórico, é uma afronta ao bom senso que a Secretaria de Comunicação da Presidência da República (Secom) pretenda instaurar critérios puramente “técnicos” na distribuição dos recursos federais. Ou seja, todos aqueles gigantes que se deram bem na ditadura, silenciaram sobre a tortura e sambaram sobre o cadáver da nossa democracia, ganham um troféu do governo.

É como se, terminada a II Guerra, o governo alemão resolvesse distribuir suas verbas publicitárias para o canal com maior público, ou seja, independente se fosse nazista ou não.

Não quero rechaçar os critérios técnicos. Entendo perfeitamente que a Secom precise deles. Mas eles precisam ser equilibrados pelo bom senso, pela compreensão das circunstâncias históricas, e pelo princípio do pluralismo. É preciso entender qualquer órgão de mídia como um agente político. O mito da imparcialidade deve ser enterrado bem fundo, porque é a maior mentira do pós-modernismo brasileiro.

Não é justo que o governo direcione mais da metade dos recursos publicitários para as Organizações Globo. E não só isso. É uma questão de acúmulo. Se uma empresa recebe R$ 500 milhões num ano, isso a ajuda a se fortalecer e se posicionar no mercado, facilitando a captação de anúncios privados. Se a mesma empresa recebe R$ 500 milhões durante um longo período de tempo, ela se torna uma potência, com poder de engolir seus concorrentes menores. A própria Secom informa que a Globo recebeu mais de R$ 6 bilhões em publicidade federal apenas nos últimos 10 anos.

Eu moro no Rio de Janeiro, onde o Globo, além de quebrar seus concorrentes locais, também engoliu todos os jornais de bairro. Ou seja, a segunda maior cidade do país vive o mais absoluto monopólio midiático no segmento de jornalismo de opinião, o que evidentemente nos causa um enorme dano cultural. Mesmo São Paulo vive uma situação melhor, porque tem dois jornais. Os dois são conservadores, mas são dois, concorrentes entre si, e um sempre pode divulgar uma atividade cultural com receio de que o outro o faça antes. Aqui no Rio, nem isso.

As maldades na área de comunicação, porém, vão além do cínico tecnicismo da Secom. Um amigo que trabalha no Senado me liga para pedir auxílio numa quixotesca luta para salvar a Voz do Brasil, o programa radiofônico público mais antigo do país. Senado e Câmara aprovaram a flexibilização do seu horário, o que, na prática, o jogará para as horas mais vazias da noite, esvaziando-o completamente. Mais uma vez, o lobby dos grandes grupos de mídia venceu. O meu amigo informa, contudo, que há uma chance: a equipe do senador Roberto Requião (sempre ele) escreveu um Projeto de Lei “tombando” a Voz do Brasil, incluindo aí o seu horário. Essa lei anularia a outra. O projeto foi parar nas mãos da senadora Ana Rita (PT-ES), mas esta foi orientada, segundo meu amigo, pelo Ministério das Comunicações, a bloquear o projeto como inconstitucional. A equipe do Requião insiste com ela de que o projeto é perfeitamente constitucional, e a situação agora está nesse impasse. Segundo minha fonte, a maioria dos deputados, sobretudo do baixo clero, é a favor da Voz do Brasil, porque é o único meio pelo qual podem expor seus projetos ao grande público nacional, mas têm medo de se manifestar em virtude do lobby dos grandes grupos. Mas se o projeto – de tombamento da Voz do Brasil – for a votação, ele tem chances de ser aprovado, e teremos salvo um bem público.

Por fim, há ainda uma outra “maldade” em curso: o Ministério das Comunicações tenta acabar com as rádios AM. Como todas as rádios serão digitalizadas, Paulo Bernardo defende a conversão de todas para FM, ao invés de criar também uma faixa digitalizada para AM, como existe em tantos lugares do mundo. A medida, porém, significaria o fim da maioria das pequenos rádios AM, em função da necessidade de equipamentos mais caros. Será mais um golpe contra a pluralidade informativa no país.

Marcelo Freixo: a luta por direitos humanos é a essência da nova luta de classes

Confira abaixo trechos da entrevista do deputado estadual e ex-candidato a prefeito do Rio de Janeiro Marcelo Freixo (Psol), que faz parte da edição 121 de Fórum, em bancas. Na conversa, ele fala sobre o saldo político da sua campanha, rememora sua trajetória de militância e analisa a atuação do Estado na área da Segurança Pública.

Por Glauco Faria e Igor Carvalho na Revista Fórum Fotos de Guilherme Perez

Fórum – Como o senhor vê a formação da Rede Sustentabilidade, da Marina Silva?

Freixo – A minha relação com a Marina é pequena, nos conhecemos pouco, mas tenho muito respeito pela história dela, belíssima, é uma pessoa importante para a política e acho que tem espaço para um partido que propõe o que a Rede propõe. Não é o que proponho, particularmente não gosto, não me encaixo nesse negócio de dizer que não sou nem de direita, nem de esquerda; nem situação, nem oposição, mas isso não quer dizer que o partido não tenha espaço. O nosso inimigo político não é a Rede.

Fórum – Quem é esse inimigo político?

Freixo – No debate das cidades, por exemplo, quero gastar energia para enfrentar o que o PMDB representa hoje no Brasil, não com a Rede. Posso não concordar, mas enquanto projeto de país, projeto político, quero enfrentar a lógica do PMDB expressa por figuras como Henrique Alves, Renan Calheiros, e tantos e tantos outros, como Sérgio Cabral e Eduardo Paes. Enfrentar a Rede não faz sentido para a vida real das pessoas e para as bandeiras que a gente sempre defendeu. Enfim, acho que a Rede é bem-vinda, tenho grandes amigos que são simpatizantes, como o Luiz Eduardo Soares, que fez minha campanha. Imagina se eu vou brigar com ele…

O problema que vejo na Rede é que a única coisa que liga todas essas pessoas é a candidatura da Marina, uma candidatura que não será igual ao que foi em 2010, mas que é interessante porque traz temas importantes. Nesse sentido, acho perigoso um projeto nacional partidário que só tenha como liga uma pessoa, uma figura e uma candidatura. Isso não me agrada, mas é por isso que estou no Psol, que é difícil, tem seus próprios problemas – que não são pequenos –, mas tem a possibilidade de um programa.

Fórum – O senhor falou da lógica política do PMDB. E o PT, do qual saiu boa parte do Psol? Há setores do partido que têm o PT como esse principal inimigo, outros são mais próximos… Qual a sua posição?

Freixo – Nunca fui antipetista. É um erro do Psol se fizer isso. Na minha candidatura à prefeitura, tinha um setor do PT fazendo a campanha, no lançamento tinha bandeiras do partidos. Imagina se isso não é bom? É ótimo.

Conversei com o Lindbergh [Farias] sobre a possível candidatura dele ao governo do Rio, falei pra ele: “Antes de qualquer coisa, você precisa me dizer se vai ser um candidato do Cabral ou contra o Cabral. Isso você ainda não pode me dizer”. Hoje, aparenta ser um candidato contra os interesses do Cabral, mas se ele [Cabral] costurar e conseguir ser vice da Dilma, que é o que ele deseja, pode ser que o Lindbergh seja o candidato do Cabral e reforce esse projeto PT-PMDB que acho que, para o PT, foi a cova.

Fórum – E o que ele respondeu?

Freixo – Enfim… Deixa pra depois a resposta. Neste momento, as forças do PMDB se movem contra a candidatura do Lindbergh. Mas a gente sabe que há conversas que podem mudar esse cenário.

Nunca me tornei antipetista, e acho que o Psol não pode ter como projeto ser antipetista. Vivemos ali 20 anos ou mais, imaginar que não sobrou nada… Acho que o PT fez uma opção de governabilidade que não foi a nossa, e por isso estamos em outro partido, que se contrapõe a essa lógica política que o PT adotou, representada pelo PMDB, desde os tempos de Sarney pra cá. Se o PT está junto com o PMDB, tem de ser enfrentado, porque representa a mesma política hoje, por exemplo, no Rio de Janeiro. Tanto é que tem muito choque entre o Lindbergh e o Pezão, mas não largaram os cargos. Os arranjos de poder são mais fortes que esses compromissos.

Fórum – Hoje, o senhor pensa só na prefeitura ou pode sair candidato a governador em 2014?

Freixo – Não saio candidato a governador em 2014 porque não podemos dar um passo errado nessa hora, e o projeto não é eleitoral somente, a eleição é um instrumento de um projeto de cidade. Sou um militante de direitos humanos muito antes de ser parlamentar, se deixar de ter mandato, vou voltar a ser militante como sempre fui. Eleição é meio, não é fim. A gente não tem estrutura para fazer essa campanha para o governo e tem uma possibilidade de fazer um debate para 2016, que é muito concreto. Em 2014, temos de consolidar esses comitês, o partido como instrumento dessas lutas. O meu desejo é sair para deputado estadual porque não quero sair da cidade.

Fórum – Como começou sua militância na área dos direitos humanos, mais especificamente nos direitos dos presos? Essa área está um pouco abandonada, devido, por exemplo, à escolha do Marco Feliciano (PSC) para presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara?

Freixo – É, a infelicidade do Feliciano… Nasci em Niterói, uma cidade vizinha do Rio de Janeiro, e comecei a militar em movimento de moradores da zona norte, Movimento Cultural Comunitário do Fonseca, que era do bairro em que eu morava, um bairro de periferia e que, naquela época não tinha cinema, teatro, nenhum equipamento de cultura. Se você olhar os equipamentos de cultura nas grandes cidades, vai observar que estão concentrados nas áreas mais privilegiadas, e não é diferente no Rio de Janeiro; na zona norte e na zona oeste quase não tem.

Tinha 17 anos, e ali foi minha primeira experiência de militância, na zona norte, com cultura. Sempre fui boleiro, gostava demais de futebol e fazia parte de um time que jogava dentro do presídio, era o único campo de futebol do bairro. A gente alugava o campo e, quando faltava alguém, um preso jogava; o juiz era sempre um preso. Aliás, brinco sempre que lá nós tínhamos o único juiz que ninguém chamava de ladrão por mais que isso pudesse fazer o mínimo de sentido [risos].

Então, presídio sempre fez parte da minha rotina. Aí fiz Economia e, depois, História. Quando fiz História, já estava com muita vontade de dar aula, ser professor, e na faculdade vi um cartaz dizendo que precisavam de professores dentro de um presídio, para estágio. Na hora, falei: “Porra, eu quero”. Meu grande desejo de dar aula pesou, mas mais ainda por ser no presídio, porque remeteu a uma imagem de presídio que não era assustadora, não me trazia medo, e fui, então, dar aula. Ali, foi minha grande aula de militância e direitos humanos. O presídio era o Edgard Costa, onde fiquei anos e depois passei a coordenar um curso de Educação baseado no método Paulo Freire, que foi algo revolucionário na minha vida e na vida de alguns presos, na época.

Depois, fui trabalhar com prevenção à Aids no complexo da Frei Caneca, mas tudo nasceu ali, no Edgard Costa, e passei a ler o sistema prisional como o grande desafio dos direitos humanos no Brasil. O presídio é o espaço da nossa amnésia, das nossas contradições esquecidas. Se você olhar hoje os presídios, é algo impressionante, estive no Edgard Costa e disse para meu assessor: “Olha para o pátio, o que você vê?”, ele me disse: “É, tá cheio.” “Mas tá cheio do quê?”, eu perguntei. Eram jovens, cada vez mais jovens, todos negros ou pardos, pobres e de baixa escolaridade, é a pena de morte social consolidada, são pessoas excluídas há muito mais tempo, supérfluas, como diz o (Zygmunt) Bauman. Sobraram, não são mais “exército de reserva”, pois não servem a esse modelo de sociedade, não servem a essa economia, e tem ali o espaço do esquecimento destinado a eles.

O crescimento da população carcerária no Brasil mostra o quanto caminhamos nessa direção. De 1995 para cá, a população carcerária cresceu 345%, já somos a quarta população carcerária do mundo. É mais fácil olhar para o presídio e pensar o que cada um fez, a culpabilização individual, que é o mito da sociologia americana. O indivíduo erra, vai para um presídio, é consertado, e volta, é o mito da ressocialização, e não é isso que está em jogo ali.

Fórum – Quanto ao Feliciano…

Freixo – A luta por direitos humanos tem no sistema prisional o maior desafio, mas não só isso. Se pegarmos o número de homicídios no Brasil nos últimos anos, você vai ver que o de brancos diminuiu, e o de negros aumentou, consideravelmente. Então, há um processo, hoje, de genocídio da população jovem, negra e pobre no Brasil. Os números são de genocídio, e esses homicídios têm cor e endereço. A luta dos direitos humanos, hoje, tem de dar conta dessas contradições, é uma agenda que tem de ter as lutas LGBT, o espaço das populações quilombolas, o debate sobre a questão racial, é o espaço em que o Estado deve atuar e onde essas lutas são fundamentais. Elas não são fundamentais apenas para as ditas minorias, são importantes para a afirmação de um espaço democrático no país, fundamentais para um projeto de democracia que envolve quem não é gay, quem não é negro e quem não é pobre, mas que, de forma republicana, pensa no processo democrático.

Por isso, não se pode ter alguém ali [na Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara] que negue e reafirme um processo de Estado violento contra essa população. Não podemos ter alguém que diz que a população negra é amaldiçoada porque vem da África, porque isso é muito grave. Não é uma questão de opinião, é você ter o braço do Estado que cuida desse processo democrático negado, ou seja, é o representante de todas as opressões no espaço de resistência a essas opressões. É inaceitável. Ele [Feliciano] é um charlatão, responde por estelionato, aparece lá com cartão de crédito pedindo senha, tem processo de sonegação… Enfim, essa é uma crítica, mas imagino que ele não seja o único que tenha esse tipo de problema no Parlamento brasileiro, o próprio presidente do Senado, há pouco tempo, foi afastado, acusado de favorecer empreiteiras. Mas Feliciano não pode representar a política que ele representa na Comissão de Direitos Humanos, não pode comandar a comissão.

Fórum – O senhor falou sobre o genocídio da população negra e pobre, que é também uma pauta dos direitos humanos em São Paulo. Há denúncias e algumas prisões que denunciam que grupos de extermínio estejam envolvidos com esses homicídios. E no Rio, quem está matando essa população?

Freixo – No Rio, tem o advento das milícias. Fui o presidente da CPI das Milícias, e sem dúvida ela contribuiu muito para o genocídio dessa população, até porque a milícia se coloca em lugares onde o Estado está leiloado. Não estamos falando do Estado paralelo, não defendo essa tese porque os paralelos não se encontram. São agentes públicos, com interesses privados, com domínio de território e agindo com os instrumentos públicos, ou seja, é um Estado leiloado a determinadas forças, não é paralelo. Tanto grupos de extermínio quanto milícias são braços de um Estado leiloado, mas tem uma tragédia no Rio de Janeiro, que é a guerra das facções, que é pobre matando esfarrapado e jovem negro matando jovem negro.

O grande debate das cidades, hoje, envolve quatro eixos: Estado, território, governança e soberania. Esses são os eixos que temos de juntar. O debate de território é crucial para mim, porque em alguns deles a barbárie é consentida.

Fórum – Em relação ao que o senhor falou da questão do encarceramento…

Freixo – O Estado penal, né? Para todo Estado mínimo, o Estado penal é necessário. O Estado que não garante direitos e se reduz no seu papel social, por outro lado, tem de ser um penal e policial, é o que vivemos hoje no Brasil. Para os setores supérfluos, dessa sociedade líquida do Bauman, o Estado penal é fundamental. Hoje, somos a quarta população carcerária mundial, só perdendo para os “libertários” americanos, a China e a Rússia.

Fórum – Mas tem gente que quer fortalecer esse Estado penal, temos várias iniciativas políticas de aumento de pena, mas queria que o senhor comentasse especificamente sobre o projeto de lei do deputado Osmar Terra (PMDB-RS)…

Freixo – Isso é um horror.

Fórum – Qual a sua avaliação em relação ao projeto? Por que o senhor acha que, quando temos um crime hediondo, ou midiático, aparece sempre alguém para propor aumento de pena?

Freixo – Bom, é isso, o Estado penal é fundamental para sustentar o Estado mínimo, mas todo projeto político precisa de legitimidade, por isso falo da luta político-pedagógica. Ontem, no debate com a juventude, levei uma matéria que dizia assim: “Noite de tiros e explosões na zona sul do Rio.” O subtítulo era: “Vizinhos dos morros não conseguem dormir e ao amanhecer têm medo de sair de casa.” O morro deve ter dormido bem pra cacete, né? Era o título da matéria. Todas as pessoas entrevistadas moravam perto do morro, porque não tem problema no morro, ele é o problema. A eliminação da dignidade do outro é fundamental para o processo de hegemonia e de legitimidade desse Estado penal, e a produção do medo é didaticamente fundamental para legitimá-lo, porque o medo faz com que o supérfluo não precise cometer um crime para ser tratado como criminoso.

A produção do medo é a essência da criminalização da pobreza, porque precisamos criminalizar os territórios pobres para que o Estado possa ser totalitário, para manter essa ordem sem que me incomode internamente. Porque, se não tenho compromisso ético com ele, não sou um deles, ele é o outro. Hannah Arendt disse o seguinte: “Pior do que a rivalidade e a oposição, é indiferença.” A indiferença mata, a rivalidade não; a rivalidade você pode vencer, mas você reconhece o outro; na indiferença, você anula o outro. É esse o processo pedagógico que temos de enfrentar.

A polícia entra na favela e cinco pessoas morrem, isso cria uma grande comoção? Não. Porque, na nossa cabeça, essas pessoas já foram julgadas, julgadas pelo nosso medo. “Polícia entra na USP e mata cinco”. Toda a imprensa vai para lá. Que merda é essa? A dignidade tem endereço, a decência humana tem endereço, é de classe. Por isso, a luta por direitos humanos é a essência da nova luta de classes hoje. Porque não está na relação capital e trabalho, está entre quem é humano e quem não é. Quando um sujeito diz: “Direitos humanos para humanos direitos” é porque ele está dizendo que existe uma categoria que não é humana. Há uma busca de legitimidade do extermínio, seja físico ou moral. A Comissão dos Direitos Humanos é importante por isso, não pode ter alguém que legitima essa hegemonia, que pedagogicamente reforce essa anulação do outro, por isso que é grave. Acho que esqueci de falar algo…

Fórum – O projeto de lei do Osmar Terra.

Freixo – É a mesma coisa. Hoje, você tem o crack que serve a esse papel, é a demonização das drogas. Trabalha-se na lógica da culpa individual, da responsabilização individual da droga; se você é um drogado, isso é problema seu, muitas vezes espiritual, e aí a cura é espiritual, do tratamento religioso, das OSs [Organização Social] ou dessas casas de reabilitação que, no Rio de Janeiro, fazem parcerias. Vai ver o escândalo que é aquilo.

Qual é o grande problema? O debate sai da área de Saúde, não é mais um debate de saúde pública. A partir do momento em que se trabalha na lógica de culpar o indivíduo, cria-se uma grande comoção, porque fica aquele negócio do “meu filho pode ser um deles”. Ao contrário da morte na favela, o debate da droga leva à conclusão de que isso pode acontecer com o seu filho, “o crack pode consumir o seu filho”. O crack parece uma coisa que anda por aí e pode pegar seu filho. Todo mundo sabe que isso é dramático e ninguém quer ter uma pessoa dependente, seja de álcool ou de droga em casa, isso é um drama, um horror, mas é um problema de saúde pública. Então, não se investe nos consultórios públicos, nos Caps [Centro de Atenção Psicossocial], o Rio de Janeiro tem três Caps AD [Álcool e Drogas], somente três, e isso não entra em nenhuma pauta jornalística. Mas entram as operações para matar “cracudo” na Maré.

Qual é, então, a política pública? E aí o mandato do nosso vereador no Rio de Janeiro, Renato Cinco (Psol), tem essa prioridade política e está fazendo um trabalho político excelente, pedagógico, essencial. Vá nos abrigos para onde essas pessoas são levadas, de quem é o convênio? Quem está atendendo? Qual é a política de saúde? Quantos deles voltam para as drogas? Então, não se tem responsabilidade. Esse projeto é de um retrocesso brutal no que diz respeito às políticas públicas de saúde, é movido pela vitimização coletiva da sociedade contra as drogas, por isso digo que a luta política é pedagógica. “Ah, mas vocês acham que não tem nada demais a pessoa consumir crack?” Claro que tem, mas o que é mais eficaz? Qual o debate da eficácia da política? O debate da eficácia morre, porque não se tem esclarecimento.

Privatização trouxe sacrifícios aos brasileiros e lucros fantásticos a poucos, mostra Requião

No Blog do Senador Requião

O senador Roberto Requião disse nesta terça-feira (23), no plenário do Senado, que retomada das privatizações pelo Governo Dilma traz à lembrança do país os desastres da política de venda de bens públicos praticada pelos tucanos nos anos 90. Conforme o senador, os brasileiros só perderam com a alienação de empresas estatais e citou “as tarifas estratosféricas” na telefonia como exemplos.

Requião deplorou que as lições do passado não sejam levadas em conta hoje, quando o governo privatiza aeroportos, poços de petróleo, portos. O senador desmontou ainda duas das principais argumentações dos neo-privatistas: o eficiência privada, em contraposição à administração pública; e a falta de recursos estatais para investimentos em infra-estrutura.

“Mentira que não há dinheiro. Quem financia as privatuizações, desde lá de trás, é o BNDES. E o banco é o que? Eficientes as empresas de telecomunicações? Eficiente a administração da ALL nas ferrovias privatizadas? Eficientes as empresas de pedágio, que só arrecadam? Ora, por favor!”, afirmou o senador.

TEXTO DISCURSO

Alimento para o cérebro

Por Rogério Tuma na Carta Capital
Nutrição. Estudo relaciona desempenho de premiados no Nobel à dieta rica em leite. Foto: IstockPhotoNutrição. Estudo relaciona desempenho de premiados no Nobel à dieta rica em leite. Foto: IstockPhoto

Desde os primórdios dos tempos, nossos ancestrais procuravam na natureza alimentos que pudessem turbinar o cérebro. Assim foi com a história do café, do chá de coca e do guaraná, entre muitos. Até os hominídeos, há 2 milhões de anos nas savanas africanas, utilizaram-se de dietas ricas em proteína baseadas na caça de hipopótamos e crocodilos para desenvolver seus cérebros mais rapidamente.

Segundo o pesquisador David Braun, antropologista da Universidade de Cape Town, na África do Sul, uma população de hominídeos no Quênia se alimentava de grande quantidade de animais, o que permitiu que pudessem desenvolver cérebros maiores e mais poderosos. Na região foram encontrados vestígios de verdadeiros açougues da época.

O leite também é considerado um alimento completo para o cérebro, rico em proteína e cálcio. Parece ser ingrediente necessário para se conquistar um Prêmio Nobel. Um estudo publicado em janeiro na revista New England Journal analisou o consumo per capita de leite e derivados em 22 países e somou dados de outra pesquisa publicada no ano passado na revista Practical Neurology sobre o consumo de chocolate. O resultado foi uma forte associação entre a ingestão dos dois alimentos e a existência de ganhadores do prêmio mais importante do mundo. A Suécia tem o maior consumo de leite per capita por ano, são 340 quilos, e o maior número de Prêmios Nobel, ou seja, 33. A Suíça vem em segundo lugar com consumo de 300 quilos de leite ao ano e 32 Nobéis. Em compensação, a China, o país que menos consome leite – apenas 25 quilos per capita por ano, tem o menor número proporcional de “Nobéis”.

O consumo de chocolate possui a mesma distribuição geográfica. Qual a razão? Não é porque os premiados do Nobel comemoram o mérito com chocolate quente, mas porque o leite é rico em vitamina D, importante para a memória, e os flavonoides do chocolate aumentam o desempenho cerebral, melhorando o humor e a atenção das pessoas.

O que fazem os chineses, se não consomem leite? Tomam chá-verde, que, segundo uma pesquisa do nutricionista Yun Bai, da Universidade Militar de Chongqing, possui a substância epigalocatequina-3- galato (EGCG), potente antioxidante que melhora as funções cerebrais. O pesquisador e colaboradores descobriram com um estudo do doutor Bai publicado na revistaMolecular Nutrition and Food Research que o chá-verde turbina a produção de células-tronco neuronais, melhorando a memória e a capacidade de reconhecer objetos.

Se você quiser escolher alguns dos alimentos que podem ajudar a lembrar das coisas, aqui estão algumas sugestões: grãos são uma boa fonte de energia. Como têm índice glicêmico baixo, liberam o açúcar que possuem lentamente, proporcionando energia estável para o cérebro por longo tempo. Peixes são ricos em vitamina D e ômega 3 tipo EPA e DHA, ambos importantes para preservar neurônios e prevenir a doença de Alzheimer. Mirtilo é grande fonte de vitamina C e um estudo da Universidade Tufts demonstrou que melhora a memória de eventos recentes.

Na salada, adicione tomates, ricos em licopenos, potentes antioxidantes que podem evitar a morte celular por oxidação. Semente de abóbora, importante fonte de zinco, que melhora o raciocínio, e de sálvia, que auxilia a memória.

Brócolis e outros verdes são fontes fartas de vitamina K, associada à melhora das funções cognitivas. A família de vitaminas B (tipo B1, B6 e B12) e o ácido fólico reduzem a atrofia cerebral e reduzem o risco de doenças cerebrovasculares.

Castanhas são ricas em vitamina E, que é antioxidante. Um punhado de castanhas ao dia ajuda na prevenção do Alzheimer, principalmente entre as mulheres.

Se ficar difícil para escolher entre essas opções, a saída é consumir um produto industrializado criado para turbinar seu cérebro. Atualmente, a indústria alimentícia tem desenvolvido drinques com alta concentração de vitaminas e precursores de neurotransmissores com o intuito de melhorar a cognição das pessoas e até melhorar a memória de quem sofre de Alzheimer.

Em SP, Jean Wyllys e Laerte se unem em ato anti-Feliciano

Por Marcelo Pellegrini na Carta Capital

Liderados pelo cartunista Laerte Coutinho e pelo deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ), manifestantes contrários à atuação do pastor Marco Feliciano (PSC-SP) na Comissão de Direitos Humanos da Câmara realizam nesta quinta-feira 19, em São Paulo, a primeira sessão da comissão extraordinária em defesa das minorias, espécie de contraponto ao colegiado “oficial”. O grupo paralelo foi criada para discutir publicamente alguns dos temas engavetados por Feliciano na Casa.

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Cartaz de divulgação da Comissão

Organizada por um conjunto de entidades civis e coletivos, o ato irá funcionar como um “espelho avesso da CDHM”. Discutirá abertamente temas como união civil homoafetiva, regulação das profissionais do sexo e aborto. “Nós queremos propor uma agenda positiva que trabalhe o verdadeiro conceito de Direitos Humanos, sem distorcê-lo com os embates entre religiosos e laicos”, afirma Bruno Torturra, um dos organizadores do movimento Existe Amor em SP.

“A importância do ato é tentar ampliar a mobilização, demonstrando que o ataque aos direitos de uma parte da população, chamadas de ‘minorias’, significa um ataque à sociedade inteira”, afirmou Laerte, que estará presente no ato. “Não existem minorias, do ponto de vista de direitos civis. Trata-se sempre de todos”.

O local escolhido para abrigar a primeira sessão é a Praça Roosevelt, no centro de São Paulo. A escolha não foi aleatória. Enquanto a CDHM, por ordem de Feliciano, realiza sessões fechadas aos cidadãos, a de São Paulo vai no sentido oposto, convocando todos os interessados a participarem do debate.

Guinada. De acordo com o deputado Jean Wyllys, o debate em torno dos Direitos Humanos é o grande evento político brasileiro do século XXI. “Existe uma crescente participação e politização da sociedade em torno do tema”, afirma.

Para ele, a situação crítica pela qual se encontra a CDHM “oficial” colaborou para colocar lado a lado movimentos que nem sempre foram colaborativos entre si, como o movimento negro e das mulheres, por exemplo. “Graças ao deputado Marco Feliciano veio à tona um discurso antirrepublicano e fundamentalista que corria no subterrâneo”, argumenta Wyllys. “Agora, podemos unir os diversos movimentos sociais e combatê-lo publicamente”.

Espera-se que da discussão em praça pública seja elaborado um documento a ser encaminhado para a Câmara dos Deputados. O documento será entregue ao presidente da Câmara, Henrique Alves (PMDB), e poderá ser levado adiante pela Frente Parlamentar de Direitos Humanos e Minorias, criada há pouco mais de um mês. O grupo conta com a participação de 178 deputados, entre eles Jean Wyllys.

A Sessão da Comissão Extraordinária é organizada por um coletivo de indivíduos em torno do movimento Existe Amor em SP, com a participação dos grupos Pedra no Sapato e Conectas – organização internacional de direitos humanos fundada em São Paulo, com status consultivo no Conselho de Direitos Humanos da ONU.

‘Eleições no Paraguai foram um remendo, mas não uma solução’

A avaliação é de Gustavo Codas, jornalista, economista paraguaio e analista internacional, que conversou com o ‘Blog do Zé’ diretamente de Assunção. Para ele, as eleições que deram a vitória ao Partido Colorado no Paraguai mostram que a democracia do país tem limites muito estreitos e que as forças conservadoras têm mecanismos para bloquear a vontade popular de mudança.
No Blog do Zé

As eleições que deram a vitória ao Partido Colorado no Paraguai mostram que a democracia do país tem limites muito estreitos e que as forças conservadoras têm mecanismos para bloquear a vontade popular de mudança. A avaliação é de Gustavo Codas, jornalista, economista paraguaio e analista internacional, que conversou com o Blog do Zé diretamente de Assunção.

Ele associa a vitória dos colorados ao golpe que derrubou o presidente Fernando Lugo no ano passado. O golpe enfraqueceu os liberais, que apoiaram a queda de Lugo. E agora eles pagam o preço. “É possível que o PLRA [partido dos liberais] enfrente uma crise profunda. Sua representação no Senado caiu de 14 para 12 cadeiras. Perdeu alguns bastiões regionais. Se desmoralizou com o golpe, com seu governo ilegítimo e corrupto e com o resultado eleitoral”.

Leia a seguir a nossa conversa com Gustavo Codas, que também trata do avanço da esquerda no Senado nestas eleições:

Em que medida o golpe que tirou Lugo do poder contribuiu para esse retorno dos colorados ao poder? 
A decisão do Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA) de dar o golpe de Estado parlamentar junto com o Partido Colorado (também conhecido como Associação Nacional Republicana, ANR) e outras forças conservadoras menores provocou uma ruptura profunda dos setores de esquerda e setores independentes com os liberais. Além disso, os liberais, depois do golpe, perseguiram a esquerda com um discurso anticomunista e demissões em massa de funcionários públicos. O golpe também provocou descontentamento em alas liberais que estavam fechados com a aliança com Lugo. Tudo isso enfraqueceu inevitavelmente o PLRA para disputar com condições de ganhar dos colorados. Para piorar, o governo liberal surgido depois do golpe, com o ex-vice-presidente Federico Franco como novo titular, em pouco tempo mostrou uma faceta de corrupção e sinecurismo [algo próximo do nepotismo; quando se emprega alguém no poder público para ganhar apoio] que desgastou sua política eleitoral. Paralelamente, a ANR fez dois movimentos combinados. Lançou como candidato presidencial um empresário “bem-sucedido” que permitiu angariar votos independentes. E com uma ordenada disputa interna de candidaturas proporcionais e regionais, organizou sua unidade. O PRLA trocou a chance de governar junto com a esquerda e independentes legitimamente por um governo ilegítimo “puro sangue” de pouco mais de um ano. Os colorados sabiam o que faziam. Os liberais acreditavam que dessa maneira impediriam o crescimento da esquerda e a subordinar a seu projeto.

Os liberais pagaram o preço pelo apoio à queda de Lugo?
É possível que o PLRA enfrente uma crise profunda. Sua representação no Senado caiu de 14 para 12 cadeiras. Perdeu alguns bastiões regionais. Se desmoralizou com o golpe, com seu governo ilegítimo e corrupto e com o resultado eleitoral. Não descarto que o bipartidarismo se rompa pela decadência do PLRA.

Ao mesmo tempo temos um avanço da esquerda, chegando à terceira força política do país, pelos dados que temos até agora. Foi surpresa? Já dá para traçar alguma perspectiva para a esquerda, já pensando em 2018?

As esquerdas chegam em condições de ocupar um terceiro espaço que dispute o bipartidarismo conservador de mais de cem anos. Não é a primeira vez. No fim da ditadura Stroessner (1954-1989), no começo dos anos 90, houve um forte avanço progressista (chegou a ter 23% dos votos para presidente em 1993). Não prosperou. O lugar foi ocupado por dois projetos conservadores, o partido do recentemente falecido general Lino Oviedo e o partido Patria Querida, de empresários católicos conservadores que trataram de construir uma nova direita. Esses dois partidos estão em via de extinção de acordo com os resultados desta eleição. Mas o progressismo destas eleições apareceu dividido em duas ofertas. A Frenta Guasú, cujo principal referência é Fernando Lugo. Teve 10% dos votos para senadores. E Avança País, cujo principal referência é seu candidato presidencial, Mario Ferreiro. Pelo sistema de distribuição de vagas, Frente Guasú elegeu cinco senadores, e o Avança País, dois. Por outro lado, para presidente, o desempenho da AP foi maior que o da FG, com Anibal Carrillo. Somadas “matematicamente”, as esquerdas tiveram algo como 15% dos votos. Se tivessem se juntado, provavelmente teriam tido mais, já que parte do eleitorado progressista rechaçou a divisão ocorrida e se absteve. Agora há duas vertentes do progressismo, FG e AP, com representação parlamentar. Também há uma terceira que não conseguiu votos suficientes, mas que tem presença em organizações sociais e civis, o movimento socialista feminista Kuña Pryenda (Plataforma de Mulheres). Termos que esperar para ver se haverá vontade e condições de trabalharem juntos na luta social e na luta institucional, o que não se conseguiu na disputa eleitoral.

Agora o Paraguai deve voltar ao Mercosul. Mas fica a pergunta: as eleições foram suficientes para apagar essa “mancha” da queda de Lugo?
Estas eleições foram um “remendo”, mas não uma solução. O golpe mostrou que a democracia paraguaia tem limites muito estreitos. Que as forças conservadoras têm mecanismos para bloquear a vontade popular de mudança. Aceita, que haja alternância de “cores” no governo, mas não alternância de “projetos” de governo. Isso somente um fortalecimento dos setores progressistas e uma Constituinte poderiam mudar. Agora, Cartes foi o primeiro candidato conservador que já no fim do ano passado dizia que tinha de voltar para o Mercosul sem impor condições. Creio que buscam saídas pragmáticas de um lado e de outro.