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Nova classe média vai pautar eleições, afirmam analistas

A “nova classe média”, trazida ao centro do debate político pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, na semana passada, e namorada pelo PT, que vê na presidente Dilma Rousseff a figura talhada para conquistá-la, chegou para mudar o cenário eleitoral do País, admitem analistas, marqueteiros e estudiosos.

O tema apareceu no artigo O Papel da Oposição, divulgado por FHC, e reforçou a condição desse grupo como objeto de desejo do mundo político. É um vasto universo de 29 milhões de pessoas – pobres que, nos últimos seis anos, subiram da classe D para a C e carregam consigo novos comportamentos e expectativas.

Analistas, líderes partidários, comunicólogos e marqueteiros já se esforçam para entender como atuará, diante das urnas, esse segmento que, ao subir, fez da classe média o maior grupo social do País, com 94 milhões de pessoas (51% da população).

“Não se trata de gente sem nada, que aceite qualquer coisa. É gente que trabalhou duro, subiu, sabe o que quer, tem mais informação e se torna mais exigente”, resume Marcia Cavallari, diretora executiva do Ibope. “Isso merece um discurso novo e FHC acertou ao mandar a oposição ir atrás dela”, disse.

Não por acaso, o economista Marcelo Néri, da Fundação Getúlio Vargas – primeiro a detectar esse fenômeno, num estudo de 2010 – considera essa iniciativa de Fernando Henrique “a segunda ideia mais inteligente da oposição em anos, depois do plano de estabilização dos anos 1994-2002″. Esse brasileiro, diz ele, “quer sonhar, e não apenas diminuir seus pesadelos”.

O impacto desse cenário já se faz sentir no mundo político, que ainda procura entender a enorme votação da candidata Marina Silva (PV) nas eleições presidenciais de 2010. “Mas é perda de tempo tentar adivinhar se é um grupo de esquerda ou de direita”, observa Antonio Prado, sócio-diretor da Análise, Pesquisa e Planejamento de Mercado (APPM), em São Paulo. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Governo monta ”rede de proteção” entre economistas

Estadão

O Planalto e as equipes do BC e da Fazenda buscam o apoio de formadores de opinião para a defesa da estratégia anti-inflação

Segunda, 17 de Abril de 2011, 00h00

Adriana FernandesO Planalto e a equipe econômica têm procurado, nas últimas semanas, ampliar o diálogo com segmentos dos mercados financeiro e empresarial em busca de apoio para a estratégia de combater a inflação sem precisar aumentar muito a taxa Selic. A coordenação das expectativas é essencial para a travessia da fase atual, de divulgação de indicadores desfavoráveis, como o IPCA em 12 meses que se aproxima do teto da meta (6,5%).

O ex-ministro Delfim Netto, interlocutor frequente do Palácio do Planalto, é um dos nomes com quem o governo já reforçou o diálogo – esteve com a presidente Dilma Rousseff antes de ela embarcar para a China. Em artigos e entrevistas recentes, Delfim tem dito que é “coisa do passado” a ideia de que a taxa de juros (Selic) pode controlar a inflação, dando respaldo teórico às chamadas medidas macroprudenciais pelo presidente do BC, Alexandre Tombini.

A lista de apoios e elogios públicos também inclui o economista-chefe do Bradesco, Octávio de Barros – que classificou de “estupendo” o trabalho do BC. O ex-secretário do Tesouro Nacional, Joaquim Levy, e o sócio da Mauá Investimentos e ex-diretor de Política Monetária do BC durante o governo FHC, Luiz Fernando Figueiredo, são outros dois nomes que dialogam com a equipe econômica.

São economistas de destaque no cenário nacional, que têm saído em defesa do governo, numa espécie de “rede de proteção das políticas diferenciadas” que o BC e a Fazendo têm adotado. A rede serve de contraponto às críticas de analistas que veem o governo “patinando em gelo fino” na condução econômica.

Sangue frio. O argumento do governo tem sido o mesmo: mostrar que não há nenhum país combatendo a inflação e enfrentando a guerra cambial com os instrumentos que o Brasil está usando. O momento agora, na visão do governo, “é de sangue-frio e calibragem de ações de curto prazo”, como a alta do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para capital externo e empréstimos de pessoas físicas, até a consolidação de uma agenda de médio prazo.

A mobilização dos governo justifica-se porque o Brasil é um dos países “queridinhos” dos investidores internacionais, mas, internamente, a equipe econômica enfrenta um decisivo teste de credibilidade na condução das políticas de combate à inflação, cambial e fiscal, o que não é visto desde 2002, quando o País passou por uma crise econômica às vésperas da eleição do presidente Lula.

Esse mix de sucesso e desconfiança tem causado um clima de “estranheza no ar”. O sucesso é evidenciado pela nova elevação do grau de investimento dado pela agência Fitch de classificação de risco e pelo volume recorde de investimentos estrangeiros diretos que ingressam no País.

Uma das preocupações da equipe econômica é com o risco de deterioração do cenário o internacional, a começar pela pressão altista do preço do petróleo.

Segundo uma fonte de uma instituição financeira estrangeira, a estratégia do governo brasileiro tem sido bem compreendida pelos investidores externos. A maior desconfiança estaria na política fiscal, após dois anos de manobras contábeis para cumprimento das metas.

 

Físico defende competitividade da energia nuclear

Por Lilian Milena, no Brasilianas.org
Da Agência Dinheiro Vivo

Rex Nazaré Alves, 73, diretor de Tecnologia da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ), é um dos físicos mais importantes para a história do desenvolvimento da energia nuclear brasileira.

Na década de 60 se especializou em engenharia nuclear pelo Instituto Militar de Engenharia (IME) e mais adiante se formou doutor em física pela Universidade de Paris, Sorbonne. Foi presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) e chefe do Departamento de Tecnologia da Agência Brasileira de Inteligência (ABIN).

O físico defende a continuidade da política nacional de energia nuclear e a aplicabilidade dessa matriz na medicina. E acredita que os recentes acidentes ocorridos nas usinas de Fukushima, no Japão, não irão frear o crescimento dessa matriz no mundo. Confira o porquê na entrevista a seguir.

Como nasceu o seu interesse pessoal em estudar física nuclear?

Em 1961 ganhei uma bolsa da Comissão Nacional de Energia Nuclear, que estava nascendo, para estudar engenharia nuclear no Instituto Militar de Engenharia, como civil. Essa era a fonte de energia que mais impressionava porque percebíamos aplicações de toda a ordem. Para se ter ideia, a espessura da folha de papel que você deve ter em mãos é controlada por mecanismos de energia nuclear. O nível de água ou de óleo que se coloca dentro dos vasilhames para se controlar os motores, é controlado por processos de energia nuclear.

Naquele momento, o Brasil tinha um problema que começava a me preocupar porque éramos ricos em matéria prima e tínhamos que aprender por conta própria a desenvolver nossa própria tecnologia. Por esses motivos o interesse foi crescendo, especificamente voltado para essas duas coisas: a necessidade nacional de desenvolver esse setor e aplicação dos meios que a gente dispõe no Brasil.

Por que a fissão nuclear é tão manipulada para a produção de energia se existem tantas fontes no mundo que são bem mais seguras?

Os primeiros marca-passos cardíacos tinham bateria de plutônio 238 porque era uma bateria que não precisava ser trocada todos os dias. Todos esses dispositivos que são enviados para o espaço, por exemplo, para Marte para captar informações e remeter para a Terra precisam de uma fonte de energia constante. Sem dúvida nenhuma são movidos a fontes nucleares.

Cada tipo de energia e cada utilização em particular no nuclear tem sua importância e aplicação. A energia nuclear vem sendo usada pela necessidade e em muitos casos por ser a melhor opção. Quando não for a melhor opção ainda assim será utilizada por muito tempo por ser mais competitiva do ponto de vista econômico.

Esse é o mesmo motivo de investirem em submarinos a propulsão nuclear, porque, dentre outras razões, ficam carregados por muito mais tempo?

Exatamente. A vida útil do combustível nos reatores dos submarinos nucleares é uma das causas principais de seu emprego.

Em dezembro de 1945 o físico nuclear Alvin Weinberg disse à comissão sobre energia atômica do Senado norte-americano que a força atômica pode tanto curar quanto matar. Pode adubar e enriquecer uma região bem como destruí-la. Qual tem sido o papel dos cientistas brasileiros nesse sentido?

É válido o que o Weinberg mencionou em 1945, que a energia nuclear tanto pode servir para curar, quanto para matar. E é importante lembrar que uma das primeiras fontes de energia nuclear utilizadas da natureza, foi a separação dos elementos químicos rádio e polônio, realizada pela Madame Marie Curie. Esse rádio permitiu fazer agulhas de rádio que eram utilizadas em radioterapia e foi, sem dúvida alguma, uma das primeiras formas de uso da radioterapia junto com o raio-X dermatológico. A Madame Curie veio ao Brasil, em agosto de 1926, para visitar o Instituto do Radium, um hospital de oncologia, primeiro no Brasil na luta contra o câncer, em Belo Horizonte, que usava rádio 226 que ela mesmo tinha separado.  Isso mostra que desde a origem a energia nuclear vem sendo utilizada na medicina.

Hoje as técnicas de medicina nuclear para diagnóstico permitem efetivamente ter acesso à informação de tumores numa fase muito inicial. Então, sem dúvida nenhuma, a física nuclear tem uma influencia grande para o bem. Ao mesmo tempo, é verdade que pode haver acidentes graves. Um exemplo típico foi o que tivemos com o césio 137, em Goiânia.

O mesmo ocorre com a produção de energia. Ainda assim, de todas as fontes de energia do mundo, se compararmos a produção de megawatts por hora, a fonte com menor número de acidentes e vítimas fatais é a nuclear. As pessoas se esquecem de rompimento de barragens, acidentes nas usinas térmicas, minas de carvão.

Qual será a formação da matriz energética do Brasil em 2030? O PDE 2030 [Plano Decenal de Expansão de Energia] acerta ao propor que 3% dela seja composta por energia nuclear?

O Brasil aprendeu três coisas fundamentais, na década de 1970, com as duas crises do petróleo e que devem jamais ser esquecidas. Primeiro, que precisávamos ter combustível necessário, ou seja, só investir na produção de certa matriz se tiver acesso à fonte. Nesse caso temos água, para hidrelétricas, sol para produção de energia solar, ventos para produção de energia eólica, petróleo, gás, álcool e temos urânio.

Então, esse é o primeiro item, disponibilidade do combustível. O segundo item é dominar a tecnologia, para não ficarmos como muitos países que produzem petróleo, exportam a matéria bruta e importam o produto refinado. Dominamos tecnologia em todas essas matrizes que mencionei seja em menor ou maior profundidade.

A terceira coisa que aprendemos com as crises do petróleo foi incorporar as lições dentro de todo esse quadro histórico. Antes das crises tínhamos uma matriz que dependia fortemente do petróleo. Em 1979 consumíamos aproximadamente 1 milhão de barris de petróleo/dia e produzíamos em torno de 180 mil. Nessas condições, quando vieram as altas repentinas do preço do barril do petróleo, vimos nossa economia praticamente quebrar. Isso nos incentivou a investir, por exemplo, no Pró-álcool.

Em conseqüência disso, diria que é difícil afirmar se a participação da energia nuclear vai ficar em 3% ou 4%, porque sem dúvida nenhuma a nossa fonte prioritária é água, e continuará sendo por muito tempo água. O que acontece é que precisamos ter alguma coisa que atenda a demanda quando houver falta de hidroeletricidade. Essa alguma coisa tem que ser de fontes térmicas, alimentadas por carvão, petróleo, gás ou urânio. A energia eólica ainda terá que se desenvolver muito para alcançar o grau de competitividade das usinas de grande porte.

Os acidentes em Fukushima abalaram a opinião pública. Diante disso, vale à pena continuar investindo ainda nessa matriz sabendo dos riscos?

Sem dúvida nenhuma os fenômenos naturais devem ser considerados num projeto de usina nuclear, prevendo-se ocorrências com grau de intensidade superior ao estimado pelos cientistas. O Japão fez isso, mas o caso de Fukushima foi atípico. A região passou pelos terremotos e ainda assim as usinas continuaram operando inicialmente. O problema foi que uma hora depois do terremoto vieram às águas do tsunami que inviabilizaram o processo de resfriamento dos reatores.

É obvio que a simultaneidade de fenômenos deve ser considerada uma vez que o tsunami é fruto do terremoto que ocorreu em alto mar, o problema foi a intensidade do tremor, uma das maiores já registradas pelo homem.

Voltando-se para o Brasil, vemos que aqui as características geológicas são diferentes, pelo menos até hoje tudo indica que estamos longe de ameaças equivalentes. Ainda assim, os fenômenos naturais e a simultaneidade deles devem ser considerados. Qualquer projeto de central nuclear tem reforços contra terremotos e mecanismos redundantes para um desligamento seguro caso esse fenômeno venha ocorrer.

O Japão, assim como a França e até a Alemanha, não possui muitas opções de matrizes, por isso mesmo seria difícil para o país desenvolver outros tipos de produção de energia. No caso brasileiro é um pouco diferente, temos como explorar outras fontes…

Estamos numa condição curiosa que é a interrupção de obras de hidroeletricidade. Não podemos abandonar nenhum processo de geração de energia. Temos que ser responsáveis pela implementação de todas. Não temos necessidade de construir dez ou vinte centrais de qualquer que seja sua origem, mas, para podermos ter garantia que no futuro vamos usá-las de maneira confiável, temos que manter uma continuidade no nosso programa energético. Essa continuidade implica na constância de construirmos uma usina de dois em dois anos ou em quatro em quatro anos, em função do crescimento econômico-social do país.

Após o acidente no Japão, alguns países propuseram repensar seus investimentos para construção de usinas nucleares, como os Estados Unidos. Se isso ocorrer nos demais estados que tradicionalmente dependem da nuclear como principal fonte, a exemplo da França, como essas nações serão capazes de suprir a demanda nas próximas décadas?

Quando houve o acidente em Chernobyl [na Ucrânia, em 1986], de imediato alguns países pensaram em abandonar o programa nuclear. Porém, muitos que efetivamente deixaram de investir na produção nuclear dentro de seus territórios continuaram a comprar energia nuclear de países vizinhos. A maioria dos países europeus, pequenos em extensão, não tem grandes reservas de fontes energéticas e não irão poder abrir mão da energia nuclear.

Para botar uma usina nuclear de 1 mil MW para funcionar, do tipo TWR, durante 30 anos, precisa-se de 5 mil toneladas de yellow cake, que é o composto de urânio concentrado não enriquecido. Eu posso armazenar isso em qualquer lugar, fazer uma reserva estratégica e não ficar na dependência de um combustível que, de repente, pode me ser negado.

E sobre as novas energias que tanto se fala, não teríamos capacidade de com elas substituir as principais fontes?

Sem dúvida as fontes solar e eólica ganharão um espaço muito importante nos próximos anos, mas elas, na minha maneira de ver, não serão substitutivas das fontes carvão, gás, nuclear e hidrelétrica. Essas quatro serão os grandes percentuais dentro da matriz no mundo.

Por que são mais baratas?

Não. É porque eu tenho condição de conseguir uma maior quantidade de energia dentro de uma mesma geometria, numa mesma área. O Sol joga na Terra 1 mil MW por metro quadrado. Posso fazer o que quiser, e o Sol vai continuar jogando na terra, meio dia, com o céu limpinho, 1 mil MW por metro quadrado. Então eu melhoro minha geometria, uma série de coisas, porém, ele continuará mandando apenas isso.

Em entrevista concedida para a revista Istoé, edição 2159, o historiador norte-americano Richard Rhodes afirma que a bomba atômica é inútil e obsoleta e que os países não investem mais nesse tipo de arsenal. Concorda?

A história é muito curiosa. Desde que o homem parou de ser nômade e resolver se fixar em determinado lugar, começou a alimentar mais seu lado ambicioso. Quando encontrou um lugar de terras férteis, com água, e que não era excessivamente frio, foi obrigado a ter que desenvolver meios para defender seu território de outros. Os gladiadores, máquinas de ganhar guerra no braço nasceram a partir dessa ideia, ao mesmo tempo o homem passou a desenvolver meios para se tornar mais competitivo, como a pólvora. Com isso a tendência natural foi fazer armamentos que gerassem um impacto de destruição maior. E, no limite que estamos hoje, é sem dúvida nenhuma a da energia atômica, e suas aplicações militares o instrumento de maior impacto.

Já dizia Charles de Gaulle [ex-presidente da França], ‘não lançam contra a França uma bomba porque ela tem a possibilidade de mandar outra de volta’. Nesse quadro lhe diria que, sem dúvida nenhuma, eles reduziram a quantidade de armamento, mas ainda as reservam em estoque extraordinariamente grandes.

Há um discurso em relação ao encerramento das aplicações para fins militares de energia atômica. Mas eu acho que ainda é apenas um discurso das grandes potencias militares.

A CNEN [Comissão Nacional de Energia Atômica] deve deixar de acumular a função de fiscalização do setor? Por que não conseguimos criar, até hoje, uma agência reguladora para o setor nuclear, assim como existe para o setor elétrico?

A energia nuclear no Brasil teve diferentes velocidades de desenvolvimento. Em alguns momentos se acoplou mais a dependência externa, em outros momentos se desenvolveu de forma autônoma.

Quando se fala em fiscalizar é preciso identificar quem realmente tem condições para isso, atualmente. O primeiro dado que tem que ser considerado é que o fiscalizador precisa ter um elevando nível de conhecimento.

Todos os países do mundo começaram a produzir energia nuclear com as suas funções regulatórias junto com as suas funções de desenvolvimento. Eles puderam fazer essa transição de dividir as duas funções, principalmente, porque tiveram um programa contínuo nuclear, a exemplo da França e dos Estados Unidos – França separou as atividades de produção e regulação no final dos anos 1980 e Estados Unidos nos anos 1970.

O Brasil tem e precisa fazer essa separação, mas de maneira muito responsável, mas antes, necessita ter efetivamente a garantia de que ao separar as duas atividades terá condições de fazer a fiscalização. Não deve separá-las apenas para agradar a Gregos e Troianos.

Sendo assim, estaríamos no momento de efetivar essa separação, ou ainda acha que temos que amadurecer?

Temos que amadurecer, pelo menos agora, porque temos que esperar a conformação que o atual governo quer fazer sobre a energia nuclear, com que velocidade quer implementá-la. A partir daí definir em que momento se irá fazer essa separação.

O Brasil, além de possuir reservas de urânio e demais metais radioativos, domina toda a tecnologia para produção de energia nuclear. O que falta, então, para que afetivamente todo o processo seja realizado no país? Estamos perto de chegar nesse ponto?

Falta ter um programa contínuo, mesmo que cresça devagar, mas que tenha continuidade. O nosso problema hoje não é tecnologia, porque a temos, é simplesmente escala. Se fizermos Angra 3, e fizermos mais uma unidade a cada três ou quatro anos, mas que isso fique efetivamente ajustado e que a encomenda seja feita a tempo de formarmos mão de obra especializada para que a competência seja devidamente passada, dessa forma, você pode ter certeza que teremos condição total e autonomia de sermos efetivamente um país que domine inteiramente o uso pacífico de energia nuclear.

Ao longo da história as atividades humanas influenciaram as formas de consumo de energia. Hoje, as formas de consumo de energia influenciam atividades humanas?

Inicialmente o ser humano era nômade e só andava perto de onde tinha água. Depois, aprendeu a usar o fogo e se fixar, aprendeu a produzir energia da natureza melhorando sua qualidade de vida. A partir desse momento, sim, é que come

çou a condicionar suas atividades a uma demanda maior de energia.

Por exemplo, você está numa sala que garanto que tem ar condicionado. Há vinte anos seguramente não havia ar condicionado aí, mas o ser humano que está aí sobrevivia da mesma forma. Culturalmente, a gente vem optando por um modelo de qualidade de vida que é altamente dependente de energia. A atividade, em si, não mudou muito, o homem continua dormindo, comendo, trabalhando, mas tem televisão, agora tem computador, quer tem um telefone celular em sua mão para usar a qualquer momento. Então o que mudou foi o consumo criado pela evolução da cultura.

 

 

Delfim e a matemática na economia

Do Valor

O pensamento mágico

Antonio Delfim Netto
19/04/2011

Tenho recebido algumas observações de economistas que respeito. Advertem-me que na minha vida profissional ativa sempre utilizei a matemática e que agora, na inatividade acadêmica, passei a “demonizá-la”. Nada mais longe da verdade. Tenho procurado chamar a atenção para o uso abusivo dessa joia do pensamento humano. Como é belo, esteticamente, um teorema bem demonstrado! O que condeno, e me incomoda, é a economia bastarda que se esconde na matemática para passar a ideia de que é “científica”. O que abomino é assistir à falta de cerimônia com que alguns economistas extraem conclusões de seus elegantes e irrelevantes modelos e as transformam em “recomendações” normativas (supostamente científicas!) para o exercício da política econômica no mundo real.

Um exemplo evidente dessa tendência é a discussão de políticas econômicas realizadas a partir da “contabilidade” do crescimento. Como é evidente, o “produto potencial” é uma variável não observável. Conhecemos inúmeros métodos diferentes de estimá-lo que produzem resultados distintos, o que não é desprezível para o custo social das políticas econômicas. Todos, não importa o grau de sofisticação (se com estatística baynesiana, filtros de toda natureza…), são apenas projeções do passado, isto é, das circunstâncias que o constituíram, dos estímulos a que foram submetidos os agentes econômicos e das contingências políticas que dominam a economia.

Economia ‘bastarda’ usa matemática para se dizer científica

O método mais pedestre e mais utilizado é o da “contabilidade” do crescimento. Neste, como é óbvio, o produto “potencial” é o limite superior de uma suposta função de produção, que tem como argumentos os fatores de produção: o trabalho (horas trabalhadas, nível de educação e de saúde do trabalhador) que pode ser estimado razoavelmente e o capital (a disponibilidade de recursos naturais, de todo o estoque do trabalho passado congelado na infraestrutura, nos equipamentos de toda sorte). Este, a rigor, é imensurável, a não ser pela somação de seus valores. Para transformar esse valor num dado físico (porque é isso que a função de produção exige) há problemas tão complexos que os economistas, sabiamente, decidiram ignorar em lugar de resolver…

As funções de produção fazem mais sentido quando referidas a uma unidade concreta de produção, onde as formas de medida são mais tratáveis. Entretanto, a agregação dessas funções para construir a função que representaria o produto potencial exige condições tão restritivas (do ponto de vista matemático) que as tornam virtualmente inexistentes, como todos sabemos desde os anos 70 do século passado. Mas por que as funções agregadas parecem fazer sentido quando estimadas estatisticamente? Pela simples e boa razão, também conhecida por todos (e sempre convenientemente ignorada), que elas são apenas manipulação da identidade: o Produto Interno Bruto (PIB), que é o valor adicionado de toda produção é, necessariamente, igual à soma dos salários mais os lucros.

Essa identidade, manipulada algebricamente, é submetida a uma operação de derivação, às quais se adicionam duas hipóteses: que a participação dos fatores é relativamente constante, e que os salários e os lucros crescem a taxas constantes. Posteriormente submetida a uma operação de integração, produz a mais famosa de todas as funções de produção agregada, chamada Cobb-Douglas. O leitor não precisa se preocupar com essa prestidigitação. Trata-se de diversão matemática do pensamento mágico exercitado por “cientistas”. Basta saber que toda função agregada de produção (da qual se extrai o conceito de produto potencial) é uma transfiguração daquela identidade. Como toda identidade, ela apenas é. Não tem qualquer poder explicativo!

Ainda agora, prestigiados economistas, preocupados com o “crescimento asiático” da economia brasileira (6,1% em 2007, 5,2% em 2008, e 7,5% em 2010) utilizaram a contabilidade do crescimento produzida por uma função Cobb-Douglas convenientemente “calibrada” pelas hipóteses: 1) que a participação dos rendimentos do trabalho no PIB é de 60% e do capital de 40%; 2) que a produtividade total dos fatores é da ordem de 1,5%; 3) que a oferta de trabalho (não as horas trabalhadas) é de 1,8%; e 4) que a taxa de investimento de 19% e uma taxa de depreciação de 25 anos produz uma taxa de expansão do capital de 4% ao ano, para chegar à “científica” conclusão que o “produto potencial do Brasil hoje é de 4,3% ao ano”. Se não tivessem esquecido no “crescimento asiático” o ano de 2009, em que o produto decresceu 0,6% verificariam que nos últimos quatro anos o Brasil cresceu em média 4,6%. Esqueceram, também, a possibilidade de usar-se incentivos para estimular o uso mais intensivo dos estoques de capital humano e físico, o que influi, também, na produtividade geral dos fatores. Mas tudo isso é irrelevante. Uma identidade transfigurada ainda é apenas uma identidade, não explica nada.

Continuamos a computar nas “nuvens” e a mostrar do que é capaz o pensamento mágico!

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento. Escreve às terças-feiras

 

Para ser parceiro estratégico da China, Brasil precisa ter projeto

Publicada na edição do final de semana do Monitor Mercantil

 

THEOTONIO DOS SANTOS/ CIENTISTA POLÍTICO

A China, na década de 90, declarou o Brasil como parceiro estratégico. Na época, o Brasil era até mais desenvolvido que o novo aliado. No entanto, o cientista social Theotonio dos Santos, professor emérito da Universidade Federal Fluminense (UFF), com seis livros traduzidos para o mandarim (idioma oficial chinês), observa que, em praticamente duas décadas, o gigante asiático deu um imenso salto qualitativo, enquanto o Brasil, fiel seguidor do receituário dos organismos multilaterais, ficou para trás.

“Enquanto a China, em cinco anos, será o grande centro de publicação de pesquisa científica, superando os Estados Unidos, o Brasil ficou atrasado. Mas, se fizer o esforço de entrar na disputa por uma economia forte, em nível mundial, com distribuição de renda interna capaz de alavancar o desenvolvimento, possivelmente, os níveis dos acordos com a China poderão ser muito mais interessantes para o Brasil”, afirma, nesta entrevista exclusiva ao MONITOR MERCANTIL.

 

Que balanço podemos fazer desses 17 anos de parceria estratégica com a China?

Em 1994, foi feito o acordo aeroespacial com os chineses. Mas o Brasil não acompanhou o desenvolvimento da China nesse período. Houve uma série de incompreensões, acusações de trabalho escravo, que não existe naquele país. Pelo contrário: no Brasil é que temos.

Durante esse período, os chineses mantiveram média de crescimento de 10% ao ano e nós ficamos mais perto de zero do que de 10%. Ano passado, o PIB se expandiu em mais de 7%, mas sobre uma base zero.

A China deixou de ser apenas grande exportadora para se tornar a mais poderosa liquidez do mundo. Suas reservas ultrapassaram os U$ 3 trilhões, sendo que US$ 970 bilhões estão em títulos da dívida norte-americana, o que faz do país o maior proprietário desses papéis no mundo. E ainda sobram quase US$ 2 trilhões para montar alguns fundos soberanos, como o último que fizeram para a América Latina, de US$ 300 bilhões. Uma parte grande desses recursos vai para a África e outra para comprar empresas e fazer investimentos no Primeiro Mundo.

 

Mas o Brasil está entre os cinco proprietários da dívida pública dos EUA. Isso não o faz um parceiro forte?

O Brasil prefere usar seus recursos no pior investimento hoje, que são os títulos norte- americanos. Eles pagam taxa de juros zero, sobre uma moeda que permanente baixa. Mas para nosso Banco Central (BC), significa investimento AAA (risos). O país poderia investir no Banco do Sul, mas o Parlamento brasileiro nem sequer aprovou o capital de US 2 milhões exigido para os sócios. A diferença é brutal em termos de estratégia de desenvolvimento.

 

Em que setores se vê as maiores diferenças?

A China, desde 1994, na medida em que expande sua presença mundial, aumenta a produção interna e a renda nacional, se converteu na maior expansão de demanda do mundo. Mudou também o padrão tecnológico. Não saiu da baixa para a alta intensidade tecnológica, como pretende o Brasil, mas para a produção de altíssima tecnologia, a ponto de competir com os países de ponta.

Xangai é o primeiro lugar em educação científica. Os papers chineses já se aproximam dos norte-americanos. Em cinco anos, a China será o grande centro mundial de publicação de pesquisa científica. Se os chineses ficarem por conta de nossa capacidade de avançar, a parceria deve estar sendo avaliada como extremamente negativa. O Brasil ficou atrasado. Mas se fizer esforço para entrar na disputa por uma economia forte, em nível mundial, com distribuição de renda interna capaz de gerar uma economia realmente poderosa, possivelmente, os níveis dos eventuais acordos poderão ser muito mais interessantes para o Brasil.

 

E como vai ser a cooperação? Há quem diga que os chineses agem como neo- imperialistas.

O que o Brasil quiser a China faz. Eles não querem que o Brasil seja mero exportador de commodities. É verdade que são um importador de produtos primários, o que é outra coisa. Mas não têm condições de ser uma potência imperialista sobre o Brasil hoje, como foram os EUA. Todavia, se o Brasil continuar parado e a China mantiver essa dinâmica colossal, ficaremos fragilizados. Em vez de ficar falando de trabalho escravo, o Brasil deve avançar e compreender que a dinâmica chinesa vai na direção de novas etapas científico-tecnológicas, segmento em que o Brasil tem dificuldade.

 

Interessa aos chineses que a indústria brasileira seja mais competitiva?

Não creio que os chineses estejam preocupados com a competitividade do Brasil. Se melhorar um pouco não vai incomodar, pois ainda não estaremos disputando a ponta. Um acordo como esse firmado na visita da presidente Dilma (produção de equipamentos eletrônicos) é do interesse dos chineses. Estão embutidos acordos de exportação. Além disso, é importante desenvolver a região para que os EUA não tenham apenas vizinhos facilmente domináveis. Mas daí a dizer que a China age como um império é um exagero.

 

Por quê?

Historicamente, a China foi um império até o século XVIII e sua tendência é se reconverter em centro da economia mundial. Mas, no plano intelectual, brasileiros sequer estão interessados na China, a não ser para fazer uma exportaçãozinha. Com este enfoque, continuaremos crescendo entre 3% e 5%, acreditando nos metafísicos que dizem que não podemos crescer mais de 5%. Não há fundamento nenhum para essa tese. Precisamos de uma mudança de enfoque muito séria. Espero que a presidente conheça a China e mude.

 

O que existe na China capaz de mudar a cabeça da presidente Dilma Rousseff?

Organizei uma viagem do ex-governador fluminense Anthony Garotinho à China e ele não acreditava no que via. O país lembra o Brasil da década de 50, que era um país com enorme capacidade de geração de fatos econômicos, acadêmicos e artísticos impressionantes. A China produz mil filmes por ano. Quantos desses são assistidos no Brasil? A relação com a China não é uma questão de fofoca, mas deve ser parte de uma estratégia de afirmação mundial, que passa por uma cooperação forte, que incorpore aspectos da estratégia chinesa. A China fez recentemente um projeto estratégico para a América Latina, mas aqui nenhuma discussão foi feita, nem para essa viagem da presidente.

 

Muitos creditam importância maior nessa viagem à reunião com os Brics. Existem muitos pontos de convergência no grupo?

Os Brics são um fenômeno já concreto de expansão da economia mundial Não temos que concordar sempre, mas os interesses comuns são muito grandes diante da estruturação mundial em torno de uma nova ordem plural, para impedir o mundo unipolar. Isso é interesse de todos os países do Terceiro Mundo e será, cada vez mais, interesse da Europa.

 

Mas a Europa tem tido postura extremamente pró-EUA…

Esta postura é suicida. A Europa terá de entender que precisa voltar ao mundo euro-asiático, ligando-se aos centros dinâmicos da economia mundial neste momento. Essa é a tendência no mundo inteiro e os europeus terão de seguir, apesar da classe dominante formada nos últimos 20 anos, de submissão a um projeto norte-americano que já não tem mais substância. Durante a Guerra Fria, havia certo sentido, mas quem acabou com a União Soviética foi ela própria, que se auto-dissolveu. Também não foram os EUA que derrubaram o Muro de Berlim, mas o Partido Comunista alemão.

Rogério Lessa

 


 

Diálogos Desenvolvimentistas No 32: o caso das teles

Leandro Aguiar

Nos anos 90, o Brasil voltou a eleger um presidente pela via democrática. O povo, a mídia e o congresso, apesar da controvérsia da ocasião, demonstraram força republicana derrubando esse mesmo presidente. A seleção brasileira conquistou o tetracampeonato, 24 anos depois da última conquista mundial. A Petrobrás foi transformada numa empresa global, a Vale deixou de ser exclusivamente Do Rio Doce, tornando-se a maior mineradora do mundo, e a inflação, O Grande problema dos últimos anos da década anterior, foi contida pelas amarras do Plano Real. Posto dessa maneira (nada analítica), a década de 90 soa como uma grande década para o Brasil, mas a verdade é que se por um lado o país evoluiu, por outro ele perdeu oportunidades históricas de evoluir ainda mais.

O caso da telefonia móvel é um dos exemplos mais bem acabados dessa não evolução, para não dizer atraso. Sempre que algum partidário do pensamento neoliberal pretende defender as privatizações realizadas por FHC, cita o “estupendo sucesso (…) das teles”, nas palavras do próprio ex-presidente tucano. De fato, graças à abertura ao capital externo, a telefonia móvel se desenvolveu de forma robusta no Brasil, se analisada quantitativamente. Milhões de celulares são vendidos a cada ano, número que aumenta progressivamente. No entanto, nesse ponto o Brasil não é muito mais que um consumidor, e esses milhões de celulares em muito pouco contribuem para o desenvolvimento da indústria nacional, já que os aparelhos são, no máximo, montados pelas indústrias daqui.

Quando comparado ao modelo chinês, fica óbvia a oportunidade que o governo brasileiro deixou escapar. Lá, como aqui, o Estado buscou atrair as grandes empresas de telecomunicação, mas com a ressalva de que os chineses teriam acesso à tecnologia de produção, e de que as patentes seriam compartilhadas com o governo. Hoje, graças a essa política industrial, a China tem a segunda maior empresa de telecomunicações do mundo, a Huawei, que fica atrás somente da SonyEricson.

O Desenvolvimentistas discutiu o caso das teles, e hipóteses foram levantadas sobre o que ainda pode ser feito para se reverter esse quadro. Acompanhe:

 

“Os chineses criaram a Huawei do nada em 10 anos. Poderíamos criar uma grande empresa com 20% do tamanho da Huawei, mas que  dominasse o mercado brasileiro em quatro anos, se partíssemos do grupo GENTE.

O Consorcio das empresas nacionais de tecnologia chama-se GENTE, Grupo de Empresas Nacionais de Tecnologia. A PADTEC e o CPQD são uns dos associados, mas não receberam nem um centavo de apoio do governo, nada, e juntas elas tem tecnologias quase completas para quase todos os setores da área de telecomunicações.”

Gustavo Santos, economista

“Aquela década de 1990 foi realmente a década negra do Brasil, o apagão do desenvolvimento. E FHC e sua equipe fizeram tudo meio que às escondidas, rápido para que ninguém pudesse analisar e se mobilizar, quase um fato consumado no momento em que o público tinha conhecimento. Tudo que fizeram é característico de traição à Pátria. Esta área de telecomunicações é uma em que nós tínhamos grande chance de avançar com nossas próprias pernas. Mas é preciso olhar para frente, e ver se é possível recuperar algo do que foi perdido de forma tão cruel.”

Ceci Juruá, economista

“Realmente tivemos (na verdade ainda temos) todas as condições para também ter pelo menos uma marca nacional. Todos os países que o conseguiram, utilizaram suas demandas/mercados internos (somos o 5º maior mercado de celulares) para alavancar um desenvolvimento autóctone, através de forte apoio do Estado, isto não é segredo. Imagine, o PIG certamente tentaria um novo 64 caso houvesse uma decisão política do governo federal, nesta direção. Afinal, com o pungente mercado brasileiro, temos aqui o paraíso das transnacionais e seus importados.

O que mais desespera é não saber com ajudar a viabilizar a mudança de atitude dos nossos centros de decisão.”

Carlos Ferreira

 

Cuidado com os falcões do mercado

da CartaCapital

Delfim Netto

As dúvidas se dissiparam. Não há, praticamente, divergências sérias sobre as causas da crise de 2008-2009 que abalou as finanças mundiais e produziu a tragédia do desemprego para o número espantoso (calculado por baixo) de 30 milhões de honestos trabalhadores.

A crise aconteceu sob as vistas dos grandes bancos centrais que admitiram o uso de “derivativos” sobre os quais tinham muito pouco entendimento. É certo que algumas inovações financeiras ajudaram a acelerar o crescimento mundial. Economistas respeitados passaram a acreditar que tinham modelos matemáticos apoiados numa fórmula de distribuição dos riscos. Isso já existia em estudos desde o início do século XX. Eles foram evoluindo até se difundir a crença de que existia uma forma de controlar o risco, o que destruiu a concepção sob a qual a distribuição era calculada.

Hoje, tanto economistas como os bancos centrais admitem que “não entendiam como as coisas estavam acontecendo”. Um fato interessante é a reedição recente do famoso Relatório Pécora que examinou as causas da crise de 1929. Pécora foi o procurador de Justiça chamado pelo Congresso americano para “salvar” a comissão parlamentar, cujos trabalhos estavam terminando sem esclarecer grande coisa sobre as causas reais do cataclismo financeiro que derrubou a Bolsa de Nova York e produzia um rastro de destruição em toda a economia mundial.

O procurador deixou “de cuecas” os grandes banqueiros que sustentaram a especulação e levou o maior deles, JP Morgan, a confessar que tinha clientes “privilegiados” com os quais o banco fazia operações “especiais”. A história se repete. As causas da atual crise são muito semelhantes às de 1929 que desaguou na “Grande Depressão” do século passado. Quando se assiste às perturbações sociais, ao drama que estão vivendo as sociedades europeias é correto concluir que elas estão pagando o preço da salvação de seus sistemas financeiros, por parte de governos cúmplices que permitiram a “desregulação”.

A economia de mercado não vai sobreviver se insistir em aceitar as desigualdades crescentes que estão desestruturando sociedades que alcançaram bons níveis de bem-estar e se acostumaram com certa estabilidade financeira. É o caso, por exemplo, dos Estados Unidos, uma sociedade relativamente igualitária, mas onde os índices de desigualdade vêm crescendo dramaticamente. Num outro extremo, a economia chinesa desenvolve-se com grande rapidez. Em menos de 30 anos, saiu da penumbra de um regime socialista para se tornar a segunda potência global, mas a desigualdade triplicou.

A China está aprendendo a conviver com esses problemas de flutuação, que são íncitos ao desenvolvimento capitalista. As crises talvez possam ser evitadas, mas raramente são previsíveis. Uma das conclusões interessantes da recente conferência patrocinada pelo FMI envolve a confissão de seus economistas: “Nós nunca vamos saber (pelo menos não sabemos até agora) se algum dia vamos ter instrumentos para impedir as crises produzidas pelo homem, pois elas têm origem em sua própria psicologia. Ele tem fases de grande entusiasmo quando aumenta a vontade de correr riscos e vai até o momento em que algum fato o perturba e o faz perder o entusiasmo”.

Não tem solução. O sistema financeiro precisa de controles, porque está sempre tentado “a voltar ao local do crime”. O papel dos governos é não ignorar essa verdade. Na luta interna entre o “mercado” e o Estado, a conclusão é que o “Estado indutor” é peça fundamental no funcionamento do regime democrático republicano, sob controle constitucional. O Brasil tem sido um bom exemplo – e isso foi mostrado no auge da crise em 2008 – de como o Estado indutor funcionou, permitindo ao governo privilegiar o setor produtivo da economia com medidas de suporte às suas atividades vitais, garantindo o emprego industrial e a sustentação dos níveis de consumo da população, enquanto grande parte da economia mundial derretia-se ao concentrar esforços no socorro aos bancos.

Estamos outra vez em meio ao embate em que o “mercado”, pela voz de seus “falcões”, exige novas altas dos juros, para que a inflação termine 2011 no centro da meta (4,5%). Por que motivo o Brasil deve restringir-se apenas à elevação da taxa de juros (que já é a segunda maior do mundo!), derrubando o crescimento e cortando o emprego de nossos patrícios, apenas para satisfazer a ambição dos tais “falcões” do mercado financeiro? Por que não dar um voto de confiança à política monetária mais sofisticada posta em prática pelo novo Banco Central?