Publicada em www.torres-rs.tv _ dossiê politica industrial
Salvador, 22 de Abril de 2011. Flavio Lyra
Política industrial tem sido um tema recorrente da vida econômica do país, com uma disputa constante entre os defensores de uma postura liberal frente ao que propõem maior intervencionismo estatal em favor da industrialização. O acirramento do debate está na ordem do dia atualmente à medida que se configura uma verdadeira ameaça de desindustrialização diante da penetração de importações estimuladas pela apreciação do Real, a chamada “doença holandesa”.
Já há algum tempo estou convencido de que se não fosse a escassez de moeda estrangeira, que a maior tempo caracterizou nossa realidade econômica, nossa industrialização não teria atingido o grau em que se encontra atualmente. Foi de fato um fator externo à economia do país, o principal responsável por sua industrialização. A política industrial foi um instrumento de adaptação a essa situação. No passado, sempre que melhoravam as condições da balança comercial ou país acumulava capacidade para importar, a primeira vítima era a produção industrial. As reservas acumuladas durante a II Guerra Mundial foram dilapidadas em muito pouco tempo, durante o governo Dutra, em detrimento da produção industrial.
A aceleração do processo de industrialização durante o governo de Juscelino Kubistchek esteve estreitamente associada à abertura do mercado interno para empresas totalmente estrangeiras, como no caso da indústria automobilística, que ainda hoje controlam integralmente a produção nacional. Nunca se pleiteou a co-participação de empresas nacionais, como tem feito a China. Aliás, com muito sucesso na atração de capital estrangeiro.
Durante os primeiros meses do governo de Jânio Quadros 1961, foram reduzidas as tarifas aduaneiras e várias empresas industriais em processo de consolidação, como na indústria de fertilizantes, foram imoladas em função do aumento das importações.
Nos anos 70, com governos militares, foi realizado um importante esforço de industrialização e explicitamente admitiu-se a necessidade de dar tratamento privilegiado à empresa privada nacional, com a execução de programas de substituição de insumos e bens de capital. Lamentavelmente, a produção de petróleo foi deixada de lado e com o aumento violento dos preços desse produto em 1973 e 1978, o país enveredou por um processo de endividamento externo que o condenou a duas décadas de estagnação econômica.
Com o governo de Fernando Collor (1990), evidenciou-se com toda força o desinteresse por qualquer política industrial. O que recebeu naquela oportunidade o nome de “Política Industrial e de Comércio Exterior”, nada mais foi do que uma política de abertura comercial e de liberalização dos mercados.
O governo de Fernando Henrique Cardozo desarticulou de vez os mecanismos de proteção da indústria nacional na expectativa de que as grandes corporações internacionais, em sua ânsia globalizante, iriam consolidar a industrialização do país. Por iniciativa desse governo, foi eliminado o dispositivo constitucional que favorecia a empresa nacional na concessão de financiamentos oficiais e foi executado um intenso processo de privatização que, entre outros malefícios, desorganizou o conglomerado da PETROQUISA, dispersando o controle das empresas e destruindo a capacidade de desenvolvimento tecnológico que vinha sendo estruturado. Graças à ação do BNDES vem sendo reconstituído o complexo petroquímico. Outra empresa estatal importante que vinha contribuindo para o avanço da industrialização, a Cia Vale do Doce, foi privatizada e concentrou-se exclusivamente na exportação de minérios e realização de investimentos no exterior, até os dias atuais.
A tentativa de elaborar uma política industrial pelo Ministério da Indústria e Comércio no ano de 1995 foi ignorada pelo Ministério da Fazenda e pelo Banco Central e o documento preliminar sobre o assunto, cuja coordenação estive a frente, foi parar no fundo da gaveta.
A partir do Governo Lula, voltou-se a falar em Política Industrial e foram adotadas medidas concretas nessa direção, com a recuperação do BNDES como banco de desenvolvimento; com a execução do programa de recuperação da indústria naval com o apoio da Petrobras; e com o estímulo do crédito através do BNDES à criação de grandes empresas nacionais.
Porém, algo de muito importante deixou de ser feito: priorizar a política industrial frente à política macroeconômica. Esta continua dando as cartas e a valorização do real que está ameaçando seriamente a base industrial do país nada mais é do que o resultado do alto nível da taxa de juros interna; do insuficiente controle efetivo das entradas de capital especulativo; e da indefinição quanto ao aumento do imposto de importação e de políticas anti-dumping. Todos, fundamentais para frear o aumento das importações de produtos industriais.
O governo recém-empossado vem realizando algumas mudanças na política macroeconômica com vistas a desmantelar a armadilha referente ao controle da inflação com a elevação da taxa de juros e a conter a entrada de capitais especulativos, mas conta com oposição dentro da própria equipe de governo de simpatizantes da visão neoliberal.
A lição dos países atrasados que conseguiram avançar industrialmente, como Japão, Coréia, China e Índia está disponível para quem queira dela tomar conhecimento. Com abertura comercial e sem forte proteção à indústria e ao desenvolvimento tecnológico e sem política industrial prioritária em relação às políticas de curto-prazo, não teria sido possível consolidar o processo de industrialização desses países.
A partir dos anos 90, quando a China e a Índia executavam as políticas industriais que sentaram as bases de sua expansão atual, o Brasil estava eliminando a proteção a sua atividade industrial. Os relatórios do FMI e do Banco Mundial estão cheios de críticas a ação daqueles países por não liberalizarem seus mercados nos termos propostos pelo “Consenso de Washington”. O Brasil aceitou, sem maior resistência, “fazer o dever de casa” recomendado pelo FMI, pelo Banco Mundial e pela OMC. Nessa mesma época o Brasil aceitou alterar sua política de propriedade industrial para atender as pressões dos países desenvolvidos para aumentar os prazos de concessão de patentes e para incluir setores industriais, como o farmacêutico, no regime internacional de patentes, conforme as regras da Organização Mundial de Propriedade Intelectual.
Durante o governo FHC os segmentos indústriais de componentes mecânicos e eletrônicos, que atendiam parte expressiva da demanda interna das indústrias metal-mecânicas foram totalmente desmantelados pela abertura das importações e as poucas empresas que restaram passaram ao controle do capital estrangeiro.
Portanto, a desestruturação do parque industrial brasileiro já vem do passado, com as políticas de cunho neoliberal. Somente agora seus efeitos tornam-se mais concretos na hora em que é preciso competir, especialmente com a China que, sabiamente, não se deixou levar pelo canto de sereia do neoliberalismo.
Aos críticos da ação do BNDES que visa constituir “campeões” na indústria nacional, que estão ocupando diariamente as páginas dos jornais e a mídia eletrônica, resta responder que o que o país está necessitando de mais e não de menos política industrial. Está na hora de o país deixar no passado os temores que levaram a adoção de políticas industriais envergonhadas, como ocorreu tantas vezes, e assumir uma política industrial deliberada, mobilizando todos os recursos e instrumentos disponíveis para protegerem o mercado interno, favorecerem o desenvolvimento tecnológico e levarem a crescente participação no mercado internacional.
O Brasil tem perdido muito tempo respeitando compromissos internacionais aos quais os países centrais não dão a mínima importância quando seus interesses nacionais estão em jogo. É exemplo disto, o protecionismo que adotam no caso dos produtos agrícolas.
É preciso acabar com a ilusão de que as grandes corporações internacionais, as pequenas empresas, a baixa prioridade para a inovação tecnológica, o respeito estrito às regras dos organismos internacionais e a subordinação da política industrial à política macroeconômica, vão permitir a consolidação do processo de industrialização do país
O órgão que cuida do desenvolvimento industrial do país e do comércio exterior, o MDIC, sempre foi um ministério de segunda classe e o Ministério de Ciências e Tecnologia não tem maior influência sobre o processo de inovação tecnológica nas empresas, dedicando-se principalmente a pulverizar os poucos recursos em projetos, as vezes mirabolantes, concebidos por “cientistas” mais comprometidos em publicar artigos em revistas internacionais do que em contribuir para o desenvolvimento tecnológico do país.
Entre os dois ministérios citados, praticamente não existe diálogo. Que diferença do MITI do Japão, seu principal ministério depois da Segunda Guerra Mundial, que reunia sob seu comando todas as ações de política industrial, de comércio exterior e de tecnologia!
Os empresários brasileiros em sua maioria estão longe de preencher as características inovadoras do “empresário Schumpteriano”, pois tem grande aversão ao risco, não sendo atraídos por projetos de longo prazo; preferindo muitas vezes aplicar seus lucros nos mercados financeiro e imobiliário, do que investir na indústria. Não raramente, também, preferem abocanhar o lucro fácil da comercialização de produtos importados do que inovar para continuar produzindo produtos sujeitos a forte competição externa.
Também não é infreqüente o desvio para os patrimônios particulares de créditos subsidiados e isenções tributárias destinadas a fomentar o investimento produtivo. Costumam gastar muita energia e recursos combatendo a carga tributária, ao invés de se mobilizarem para defender políticas em favor do fortalecimento da base industrial do país.
Por seu turno, parte importante da elite intelectual brasileira está embebida do pensamento neoliberal até a medula e dedica-se: a formar pessoal nessa concepção; a assessorar o hipertrofiado sistema financeiro para aumentar seus lucros em detrimento do investimento produtivo; e a influenciar a opinião pública contra a atuação do Estado para promover o desenvolvimento industrial e melhorar as condições de vida da população.
Não é de estranhar, pois, a oposição que governo encontrou para aprovar o regime de partilha na exploração do petróleo do Pre-Sal, que estabelece o controle da produção por parte de empresa estatal. Os partidos de oposição e a grande imprensa defenderam com todo vigor a manutenção do regime de concessão, que daria às empresas internacionais o controle da produção e da exportação do produto, o que poderia vir em detrimento da industrialização do país.
Em síntese, ainda falta muito para o país ter uma política industrial capaz de lhe permitir acompanhar o que já fizeram, e continuam aprofundando em matéria de industrialização, outras economias, até agora exitosas, como China, Índia e Coréia. Este artigo é o depoimento de quem dedicou a vida inteira ao estudo e à formulação de política industrial e que conheceu de perto as dificuldades e limitações com que sempre se defrontaram os defensores de uma autêntica política industrial para o país.
POLÍTICA INDUSTRIAL ENVERGONHADA
Salvador, 22 de Abril de 2011. Flavio Lyra
Política industrial tem sido um tema recorrente da vida econômica do país, com uma disputa constante entre os defensores de uma postura liberal frente ao que propõem maior intervencionismo estatal em favor da industrialização. O acirramento do debate está na ordem do dia atualmente à medida que se configura uma verdadeira ameaça de desindustrialização diante da penetração de importações estimuladas pela apreciação do Real, a chamada “doença holandesa”.
Já há algum tempo estou convencido de que se não fosse a escassez de moeda estrangeira, que a maior tempo caracterizou nossa realidade econômica, nossa industrialização não teria atingido o grau em que se encontra atualmente. Foi de fato um fator externo à economia do país, o principal responsável por sua industrialização. A política industrial foi um instrumento de adaptação a essa situação. No passado, sempre que melhoravam as condições da balança comercial ou país acumulava capacidade para importar, a primeira vítima era a produção industrial. As reservas acumuladas durante a II Guerra Mundial foram dilapidadas em muito pouco tempo, durante o governo Dutra, em detrimento da produção industrial.
A aceleração do processo de industrialização durante o governo de Juscelino Kubistchek esteve estreitamente associada à abertura do mercado interno para empresas totalmente estrangeiras, como no caso da indústria automobilística, que ainda hoje controlam integralmente a produção nacional. Nunca se pleiteou a co-participação de empresas nacionais, como tem feito a China. Aliás, com muito sucesso na atração de capital estrangeiro.
Durante os primeiros meses do governo de Jânio Quadros 1961, foram reduzidas as tarifas aduaneiras e várias empresas industriais em processo de consolidação, como na indústria de fertilizantes, foram imoladas em função do aumento das importações.
Nos anos 70, com governos militares, foi realizado um importante esforço de industrialização e explicitamente admitiu-se a necessidade de dar tratamento privilegiado à empresa privada nacional, com a execução de programas de substituição de insumos e bens de capital. Lamentavelmente, a produção de petróleo foi deixada de lado e com o aumento violento dos preços desse produto em 1973 e 1978, o país enveredou por um processo de endividamento externo que o condenou a duas décadas de estagnação econômica.
Com o governo de Fernando Collor (1990), evidenciou-se com toda força o desinteresse por qualquer política industrial. O que recebeu naquela oportunidade o nome de “Política Industrial e de Comércio Exterior”, nada mais foi do que uma política de abertura comercial e de liberalização dos mercados.
O governo de Fernando Henrique Cardozo desarticulou de vez os mecanismos de proteção da indústria nacional na expectativa de que as grandes corporações internacionais, em sua ânsia globalizante, iriam consolidar a industrialização do país. Por iniciativa desse governo, foi eliminado o dispositivo constitucional que favorecia a empresa nacional na concessão de financiamentos oficiais e foi executado um intenso processo de privatização que, entre outros malefícios, desorganizou o conglomerado da PETROQUISA, dispersando o controle das empresas e destruindo a capacidade de desenvolvimento tecnológico que vinha sendo estruturado. Graças à ação do BNDES vem sendo reconstituído o complexo petroquímico. Outra empresa estatal importante que vinha contribuindo para o avanço da industrialização, a Cia Vale do Doce, foi privatizada e concentrou-se exclusivamente na exportação de minérios e realização de investimentos no exterior, até os dias atuais.
A tentativa de elaborar uma política industrial pelo Ministério da Indústria e Comércio no ano de 1995 foi ignorada pelo Ministério da Fazenda e pelo Banco Central e o documento preliminar sobre o assunto, cuja coordenação estive a frente, foi parar no fundo da gaveta.
A partir do Governo Lula, voltou-se a falar em Política Industrial e foram adotadas medidas concretas nessa direção, com a recuperação do BNDES como banco de desenvolvimento; com a execução do programa de recuperação da indústria naval com o apoio da Petrobras; e com o estímulo do crédito através do BNDES à criação de grandes empresas nacionais.
Porém, algo de muito importante deixou de ser feito: priorizar a política industrial frente à política macroeconômica. Esta continua dando as cartas e a valorização do real que está ameaçando seriamente a base industrial do país nada mais é do que o resultado do alto nível da taxa de juros interna; do insuficiente controle efetivo das entradas de capital especulativo; e da indefinição quanto ao aumento do imposto de importação e de políticas anti-dumping. Todos, fundamentais para frear o aumento das importações de produtos industriais.
O governo recém-empossado vem realizando algumas mudanças na política macroeconômica com vistas a desmantelar a armadilha referente ao controle da inflação com a elevação da taxa de juros e a conter a entrada de capitais especulativos, mas conta com oposição dentro da própria equipe de governo de simpatizantes da visão neoliberal.
A lição dos países atrasados que conseguiram avançar industrialmente, como Japão, Coréia, China e Índia está disponível para quem queira dela tomar conhecimento. Com abertura comercial e sem forte proteção à indústria e ao desenvolvimento tecnológico e sem política industrial prioritária em relação às políticas de curto-prazo, não teria sido possível consolidar o processo de industrialização desses países.
A partir dos anos 90, quando a China e a Índia executavam as políticas industriais que sentaram as bases de sua expansão atual, o Brasil estava eliminando a proteção a sua atividade industrial. Os relatórios do FMI e do Banco Mundial estão cheios de críticas a ação daqueles países por não liberalizarem seus mercados nos termos propostos pelo “Consenso de Washington”. O Brasil aceitou, sem maior resistência, “fazer o dever de casa” recomendado pelo FMI, pelo Banco Mundial e pela OMC. Nessa mesma época o Brasil aceitou alterar sua política de propriedade industrial para atender as pressões dos países desenvolvidos para aumentar os prazos de concessão de patentes e para incluir setores industriais, como o farmacêutico, no regime internacional de patentes, conforme as regras da Organização Mundial de Propriedade Intelectual.
Durante o governo FHC os segmentos indústriais de componentes mecânicos e eletrônicos, que atendiam parte expressiva da demanda interna das indústrias metal-mecânicas foram totalmente desmantelados pela abertura das importações e as poucas empresas que restaram passaram ao controle do capital estrangeiro.
Portanto, a desestruturação do parque industrial brasileiro já vem do passado, com as políticas de cunho neoliberal. Somente agora seus efeitos tornam-se mais concretos na hora em que é preciso competir, especialmente com a China que, sabiamente, não se deixou levar pelo canto de sereia do neoliberalismo.
Aos críticos da ação do BNDES que visa constituir “campeões” na indústria nacional, que estão ocupando diariamente as páginas dos jornais e a mídia eletrônica, resta responder que o que o país está necessitando de mais e não de menos política industrial. Está na hora de o país deixar no passado os temores que levaram a adoção de políticas industriais envergonhadas, como ocorreu tantas vezes, e assumir uma política industrial deliberada, mobilizando todos os recursos e instrumentos disponíveis para protegerem o mercado interno, favorecerem o desenvolvimento tecnológico e levarem a crescente participação no mercado internacional.
O Brasil tem perdido muito tempo respeitando compromissos internacionais aos quais os países centrais não dão a mínima importância quando seus interesses nacionais estão em jogo. É exemplo disto, o protecionismo que adotam no caso dos produtos agrícolas.
É preciso acabar com a ilusão de que as grandes corporações internacionais, as pequenas empresas, a baixa prioridade para a inovação tecnológica, o respeito estrito às regras dos organismos internacionais e a subordinação da política industrial à política macroeconômica, vão permitir a consolidação do processo de industrialização do país
O órgão que cuida do desenvolvimento industrial do país e do comércio exterior, o MDIC, sempre foi um ministério de segunda classe e o Ministério de Ciências e Tecnologia não tem maior influência sobre o processo de inovação tecnológica nas empresas, dedicando-se principalmente a pulverizar os poucos recursos em projetos, as vezes mirabolantes, concebidos por “cientistas” mais comprometidos em publicar artigos em revistas internacionais do que em contribuir para o desenvolvimento tecnológico do país.
Entre os dois ministérios citados, praticamente não existe diálogo. Que diferença do MITI do Japão, seu principal ministério depois da Segunda Guerra Mundial, que reunia sob seu comando todas as ações de política industrial, de comércio exterior e de tecnologia!
Os empresários brasileiros em sua maioria estão longe de preencher as características inovadoras do “empresário Schumpteriano”, pois tem grande aversão ao risco, não sendo atraídos por projetos de longo prazo; preferindo muitas vezes aplicar seus lucros nos mercados financeiro e imobiliário, do que investir na indústria. Não raramente, também, preferem abocanhar o lucro fácil da comercialização de produtos importados do que inovar para continuar produzindo produtos sujeitos a forte competição externa.
Também não é infreqüente o desvio para os patrimônios particulares de créditos subsidiados e isenções tributárias destinadas a fomentar o investimento produtivo. Costumam gastar muita energia e recursos combatendo a carga tributária, ao invés de se mobilizarem para defender políticas em favor do fortalecimento da base industrial do país.
Por seu turno, parte importante da elite intelectual brasileira está embebida do pensamento neoliberal até a medula e dedica-se: a formar pessoal nessa concepção; a assessorar o hipertrofiado sistema financeiro para aumentar seus lucros em detrimento do investimento produtivo; e a influenciar a opinião pública contra a atuação do Estado para promover o desenvolvimento industrial e melhorar as condições de vida da população.
Não é de estranhar, pois, a oposição que governo encontrou para aprovar o regime de partilha na exploração do petróleo do Pre-Sal, que estabelece o controle da produção por parte de empresa estatal. Os partidos de oposição e a grande imprensa defenderam com todo vigor a manutenção do regime de concessão, que daria às empresas internacionais o controle da produção e da exportação do produto, o que poderia vir em detrimento da industrialização do país.
Em síntese, ainda falta muito para o país ter uma política industrial capaz de lhe permitir acompanhar o que já fizeram, e continuam aprofundando em matéria de industrialização, outras economias, até agora exitosas, como China, Índia e Coréia. Este artigo é o depoimento de quem dedicou a vida inteira ao estudo e à formulação de política industrial e que conheceu de perto as dificuldades e limitações com que sempre se defrontaram os defensores de uma autêntica política industrial para o país.


