Leandro Aguiar
Economista e ex-Ministro da Fazenda do governo Sarney, Maílson de Nóbrega, contrariando os que o consideram ortodoxo, é um desenvolvimentista. Ou ao menos é o que ele escreveu em seu artigo quinzenal para a revista Veja, aonde ele questiona a validade do termo. Para o ex-ministro o rótulo não faz sentido algum, e recorrendo a uma espécie de estudo semântico da palavra, ele alega que todos, inclusive ele, seriam desenvolvimentistas, já que ninguém no mundo é contra o desenvolvimento.
E o ex-ministro prossegue. Ainda seguindo a lógica de “o-que-seria-o-contrário-de-desenvolvimentista”, ele pergunta retoricamente:
“Como denominar os que duvidam das suas propostas? Seriam contra o desenvolvimento? Já se viu alguém levantar a bandeira do atraso? Poderia ser chamado “atrasadista”, algo igualmente extravagante.”
Por isso, ele acusa de arrogantes os que assim se consideram. Mais a frente, talvez com um pouco de arrogância, ele desautoriza toda a teoria Marxista e Rousseauniana:
“Ao contrário do que pensavam filósofos como Marx e Rousseau, a propriedade não é a causa de todos os males. Ela é inerente ao ser humano.”
Para defender tal idéia, ele listou as primeiras palavras que os bebês aprendem a falar, e “meu” ocupou o terceiro lugar no ranking, no encalço de “papai” e “mamãe”. Sob esse forte embasamento, o economista segue teorizando sobre a sorte de o Brasil não ter elegido Lula em 89, quando venceu Fernando Collor, e a respeito dos “crimes” do MST, cometidos com o consentimento de um Estado que não respeita a propriedade, segundo ele.
Intrigados com as colocações do economista, os colaboradores do Desenvolvimentistas.com fizeram sua leitura crítica do artigo.
O jornalista Rogério Lessa sugeriu que, para que se evitem mal-entendidos como esse, deve-se demarcar qual o tipo de desenvolvimento é interessante aos desenvolvimentistas, que certamente é bem diverso daquele que interessa ao ex-ministro, diz Rogério. Ele aponta o exemplo sul-coreano, que têm se desenvolvido rapidamente nos últimos anos fazendo exatamente o contrário do que diz Maílson de Nóbrega.
No dia em que Bruno Santos, economista, compartilhar de alguma opinião com Maílson, esse será um “neoliberal fã de Hayek”, conforme o próprio. Apesar de ter poupado palavras ao comentar o artigo, Bruno parece concordar que as idéias do ex-ministro passam longe das dos desenvolvimentistas.
Um dos pontos em que Maílson de Nóbrega se apóia para sua auto-classificação como desenvolvimentista foi a falta de um termo melhor, já que o oposto seria “atrasadista”. Uma das integrantes do grupo dos Desenvolvimentistas deu algumas idéias: anti-trabalhista, privatista, varejista… com bom humor, ela, que preferiu não se identificar, disse que até neologismos valem, contanto que ele não seja um desenvolvimentista. Para ela, “Desenvolvimentista mesmo, é aquele que busca o desenvolvimento do país para todos, visando uma melhoria das condições de vida em geral, visando o desenvolvimento de todas as regiões, a distribuição da renda”.
Buscando um contraponto à opinião do ex-ministro, entrevistei o professor Carlos Lessa. Economista e ex-reitor da UFRJ, que esteve à frente do BNDES em 2003, ele respondeu a questões referentes ao texto do Maílson. Acompanhe:
Quais as principais diferenças do novo desenvolvimentismo em relação à ortodoxia convencional?
As diferenças conceituais são enormes, nascem já no significado de Economia. O conceito de desenvolvimento é a história como projeto, enquanto a economia convencional faz a abstração do tempo e do espaço, a chamada “análise econômica”. Então, entre a visão de um economista, utilizando-se da análise econômica, e a visão de um economista, ou de qualquer outra pessoa preocupada com o desenvolvimento das forças produtivas, há um corte epistemológico profundo.
Aquele que está preocupado com o desenvolvimento lança mão de uma visão de economia totalmente diferente daquela convencional. Na verdade ele imagina a economia como o desenvolvimento das forças produtivas. Ou seja, desenvolvimento é um processo pelo qual você logra alterar a forma de produzir e a forma de repartir as coisas entre as pessoas. A expressão (desenvolvimentista), portanto, divide duas vertentes de economistas.
Como o senhor interpreta a atual articulação entre a Fazenda e o Banco Central? Ela existe de fato, da maneira como é comentada pelo governo?
Eu tenho ouvido comentários sobre essa suposta articulação entre a Fazenda e o Banco Central… Na verdade, por definição, nas condições brasileiras, o Ministério da Fazenda não comanda nem câmbio, nem juros, e, por conseguinte, o Ministério da Fazenda não comanda instrumentos centrais da política econômica. Na verdade a política macroeconômica é formulada pelo Banco central. E é executada pelo Banco Central. A Fazenda tem um papel subordinado, secundário. Agora, o que significa estar em articulação? Eu confesso que não entendo. Na organização brasileira, o Ministério da Fazenda não tem comando da política econômica.
Qual a avaliação o senhor faz dos primeiros dias de Tombini à frente do Banco Central? Concordou com as medidas de contenção cambial, acredita que elas serão efetivas?
Olha, vou ser absolutamente sincero. As medidas que o Banco Central assumiu, até agora, não mostram inovação relevante. Pura e simplesmente ele adotou um procedimento, que estão chamando agora de “atitudes prudenciais”, que dificulta o crédito a prazo para os consumidores, que estavam se endividando muito. É uma medida certamente restritiva, e é extremamente relevante para o desempenho geral da economia. E a outra coisa que ele fez foi um Swap (troca feita entre moedas diferentes e efetuada entre bancos), uma medida mais ou menos clássica para segurar a cotação do câmbio, segurar o dólar. Na verdade, não vi nenhuma grande novidade na atuação (de Tombini).
O ex-ministro Maílson da Nóbrega escreveu, em seu artigo quinzenal à Veja, que “para muitos (partidários do desenvolvimentismo), a redução dos juros depende apenas de coragem do Banco Central ou de uma ordem do presidente da República”. No atual momento da economia brasileira, do que depende uma redução dos juros?
O Maílson da Nóbrega, que obviamente tem culpa no cartório, porque como Ministro da Fazendo ele foi quem inaugurou a moda de juros estupidamente elevados no Brasil. Na verdade os bancos devem ao Maílson da Nóbrega esse serviço, não é? Ele é o brasileiro que lançou mão de juros elevados como forma de… tocar a economia, digamos assim. Então ele vai dizer que provavelmente juros altos se fazem necessários, e vai dizer também uma bobagem do tipo “é muito baixa a poupança brasileira”.