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Nova política industrial sai em até 60 dias

Do Estadão

15 de fevereiro de 2011 | 0h 00

Paula Pacheco – O Estado de S.Paulo

A presidente Dilma Rousseff deu um prazo entre 45 e 60 dias para a apresentação da nova versão da Política de Desenvolvimento Produtivo, a PDP 2, disse ontem o ministro Fernando Pimentel, do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, em encontro na Confederação Nacional da Indústria (CNI), em São Paulo.

“Vamos trabalhar com o setor privado ao longo do mês de março, no máximo até meados de abril, e teremos as definições da segunda etapa da PDP”, disse Pimentel. Uma das ferramentas será a reativação do Conselho Nacional de Desenvolvimento Industrial, criado no governo Lula. “Será o principal canal de interlocução com o setor privado.” Na sua composição estão 14 representantes do setor industrial e 15 do governo.

Um dos focos, segundo Pimentel, será a inovação e a qualificação de mão de obra, com a criação de centros técnicos de especialização. O ministro sugeriu no encontro com representantes de associações que, ao mesmo tempo que se recolha sugestões com o setor produtivo para a estruturação da PDP, que se discuta uma estratégia de comércio exterior. “Não tem sentido fazer uma política de desenvolvimento produtivo se não definirmos quais cadeias produtivas e os produtos que serão tratados com prioridade num primeiro momento”, afirmou.

Paralelamente a essa proposta, ainda neste mês está programada uma reunião da Câmara de Comércio Exterior (Camex) para definir os produtos que entrarão numa lista de proteção do governo com o aumento das alíquotas de importação. “Nós vamos defender as nossas indústrias dos ataques que fogem à regra da Organização Mundial do Comércio, ativando os mecanismos comerciais”.

Pimentel trabalha com uma previsão de saldo na balança comercial em 2011na casa dos US$ 10 bilhões. “Temos de avançar na direção de defender a nossa indústria e recuperar o espaço que tínhamos na exportação de manufaturados.”

O ministro também confirmou, conforme antecipou o Estado, que o Programa de Sustentação de Investimento (PSI), com previsão para terminar em 31 de março, será renovado e passará a ser uma política definitiva do governo federal, não mais sujeita a renovações. A medida provisória que detalha as condições do programa será publicada até amanhã.

Pelas regras atuais, o programa possibilita a compra de máquinas e equipamentos a juros fixos de 5,5% ao ano, financiada em 10 anos e com carência de dois anos. A pequena e média empresa pode pegar 30% do valor e usar como capital de giro. Ainda não se sabe qual será a nova taxa de juros, apenas que será maior do que a atual.

“Dilma vai se impor ao Congresso com a rua”

Entrevista: Governador mais próximo da presidente diz que perderá quem apostar que ela vai brincar com a crise.

Pelo poder que acumulou nos governos do PT, o governador da Bahia, Jaques Wagner, já pode ser chamado de vice-rei do Nordeste. Assim era chamado outro poderoso baiano, Antonio Carlos Magalhães, o ACM, cujo ocaso foi apressado pela primeira vitória do “Galego” ao governo baiano, em 2006. “Galego” era como o chamava o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva; agora ele é “Jaquinho”, forma carinhosa como o chama a presidente Dilma Rousseff, em cujo governo ele emplacou nada menos do que três ministros de Estado, além de manter o presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, a maior estatal brasileira.

“Jaquinho” não gosta de comparações com ACM, símbolo de um tempo em que, segundo ele, “o limite da autoridade não era a lei, era a vontade da autoridade”. A rigor, ele só reconhece ter indicado Gabrielli. Wagner diz que o aumento da violência no Nordeste, evidente na Bahia, é também resultado do crescimento econômico e se declara um “torcedor de Dilma”. Segundo “Jaquinho”, não existe o menor risco de Dilma evitar medidas duras – como o anunciado corte de R$ 50 bilhões no Orçamento – necessárias para impedir a volta da inflação. “Não apostem, em nenhuma hipótese, dessa mulher brincar com isso”, diz.

Abaixo, trechos da conversa com o governador, em um jantar com o Valor, em Brasília:

Valor: O senhor é o novo vice-rei do Nordeste?

Jaques Wagner: Não, eu apenas sou disciplinado, sou homem de projeto. Trabalho pelo projeto. Foi assim com o presidente [Luiz Inácio] Lula [da Silva], a quem servi diretamente. Tenho projeto político, tenho lealdade. Essa invenção de que eu nomeei tudo não é verdadeira.

Valor: Mas sua ligação com a presidente é realmente especial?

Wagner: Eu tenho uma bela relação com ela, construída nos momentos mais difíceis do primeiro governo do presidente Lula. Na chamada crise do mensalão, ela ficou fazendo a gestão na Casa Civil e fui fazer a coordenação política. Fomos construindo uma relação. Na transição, trouxe o Gabrielli [José Sérgio, presidente da Petrobras] e apresentei a ela, o presidente Lula já a conhecia de trabalhos para o Instituto de Cidadania. Depois ela virou ministra das Minas e Energia, eu ministro do Trabalho. Depois virei coordenador político e ela ministra da Casa Civil. Passamos várias noites no Palácio do Planalto apanhando bastante da oposição.

Valor: A crise de 2005, do mensalão, os aproximou ainda mais?

Wagner: Naqueles momentos mais difíceis criou-se relação de amizade que considero, hoje, uma relação de amizade dentro de casa: eu, ela, a filha dela, minha mulher Fátima, várias vezes que ela foi à Bahia dormiu com a gente lá em casa, fui ao casamento da filha dela. É uma relação forte.

Valor: Então estão certos os que atribuem ao senhor muito poder…

Wagner: É uma avaliação equivocada. Amigo, nessas horas, é mais chamado para o sacrifício: ‘só você, amigo, para aguentar isso aqui’.

Valor: O apadrinhado é muito fiel, dá vantagens ao padrinho?

Wagner: Eu não faço briga de posições. Um ministro aqui não resolve minha vida. Preciso do Guido [Mantega, ministro da Fazenda], do [Fernando] Haddad [ministro da Educação], do [José Eduardo] Cardozo [ministro da Justiça], da Miriam [Belchior, ministra do Planejamento], de todos.

Valor: Mas um que lhe deve o cargo, ajuda mais…

Wagner: Governador de um Estado do meu tamanho, com um orçamento péssimo, o pior orçamento per capita do país, com o tipo de negócio que temos, muita isenção, muita coisa é de commodities para exportação, meu orçamento total, ano passado, é de R$ 23 bilhões. Para 14 milhões de habitantes, 570 mil quilômetros quadrados, a segunda malha rodoviária do país, só perde para Minas Gerais. Com um problema social que é próprio do Nordeste, próprio do Brasil, é até agudizado.

Valor: Que características esta questão social apresenta na Bahia?

Wagner: O maior volume de ligações do Luz para Todos é lá, o maior volume de Bolsa Família é lá. São R$ 2,1 bilhões anuais de Bolsa Família e benefícios de prestação continuada. É o que entra líquido no mercado, e quem tem Bolsa Família não faz como nós da classe média, que vai botando no banco. Gasta sandália havaiana, remédio, roupa, comida. Roda a economia lá embaixo, no fundão da Bahia. Imagina o que são R$ 2,1 bilhão. Isso é 10% do meu orçamento, entra na veia da economia. Por isso mudou a realidade. As pessoas olham para o Bolsa Família, a meu ver equivocadamente, como um programa social. Ele é um belíssimo programa de microeconomia.

Valor: O que mudou da Bahia de ACM para a de Jaques Wagner?

Wagner: Eu não sou de falar do passado. Afinal, ele não está aqui para se defender [Antonio Carlos Magalhães morreu em 2007]. Agora, eles deixaram 2,1 milhões de analfabetos e 70% da população rural sem acesso à água. Eu alfabetizei 790 mil, e agora em abril estou completando 1 milhão. É o maior programa, reconhecido pelo MEC, de alfabetização do país.

Valor: Mas a violência cresceu.

Wagner: Agora, em janeiro, os números começaram a decrescer de novo. Cresceu o número de homicídios, muito ligado a drogas.

Valor: … e no entanto a violência…

Wagner: Cresceu a economia, cresceu o mercado, cresce o mercado de tudo, inclusive o de drogas.

Valor: Com as medidas de segurança no Rio e São Paulo os chefes do tráfico não podem correr para outros Estados, piorando a situação?

Wagner: Os chefes podem ir até para os Estados Unidos. E comandar o tráfico de lá. Agora, a logística dele tem que estar onde está o mercado. O mercado de cocaína, de crack, não se mudou, por obra das UPPs [Unidades de Polícia Pacificadora], do Rio para Salvador.

Valor: Mercado tem em todo lugar.

Wagner: Nós já temos o mercado da Bahia, que é infinitamente menor que o do Rio e de São Paulo. Se fosse assaltante de banco eu até concordaria, porque assaltante de banco assalta bancos, não precisa de mercado. Se tem desenvolvimento, você tem os problemas do desenvolvimento: ambientais, sociais e do tráfico.

Valor: O esquema de segurança de ACM não era mais enérgico?

Wagner: A briga de segurança é uma briga prolongada. Nós temos que melhorar muito. Eu aumentei mil vagas de presídio, tenho que aumentar mais 2 mil. Mudei a frota de veículos, tem 7 mil policiais novos. Havia uma cultura que ninguém sabia quem prendia e quem soltava, porque lá o limite da autoridade não era a lei, era a vontade da autoridade. Isso desconstroi a lógica de funcionamento de Estado. É preciso quebrar essa cultura. Mas fazer isso em quatro anos é difícil. Não culpo ninguém, a culpa é minha.

Valor: A Bahia deu também, no seu período de governo, um retorno eleitoral forte a Dilma.

Wagner: Todos reconhecem o trabalho que fizemos para a vitória da presidente. A Bahia deu o maior contingente de votos de frente para ela, em todo o país: ela ganhou do [José] Serra [candidato do PSDB] por 12 milhões. Da Bahia ela saiu com uma frente de 2,7 milhões. Eu trouxe para ela dois senadores, cinco deputados federais, um governador que se dispõe a ajudá-la politicamente, porque financeiramente é o contrário. Ela chora comigo, eu choro com ela.

Valor: O senhor não pediu nada em troca dessa vitória?

Wagner: Eu achei que era hora de a gente ter o Ministério da Integração Nacional, que tem uma simbologia muito forte para o Nordeste. Mas antes do PMDB o ministério fora ocupado pelo PSB, e o Eduardo Campos, governador de Pernambuco, também tinha pedido. Aí quem cede é o amigo.

Valor: Em troca do quê?

Wagner: Quando quem de direito falou que precisava compor com Eduardo, eu disse: não tem problema, não quero mais nada. Eu quero manter a relação. Isso para mim é mais importante do que ter um ministro. O Eduardo é presidente de um partido que tem trinta e tantos deputados, seis governadores de Estado, e por aí vai. Eu sou só um governador. O presidente do meu partido não sou eu. Eu parei de pedir, saí da disputa.

Valor: Houve um momento que o senhor liderou uma bancada de PT do Nordeste?

Wagner: Como sabia que a presidente tinha interesse em fazer um gesto na minha direção, o PT do Nordeste veio me pedir para ser o condutor dessa negociação. Aí eu fiquei capitaneando essa “tendência”, que não existe, do PT nordestino. Reunimos com o Eduardo, mostrei que não tínhamos porque brigar, o governo queria atender a ele, propus compormos, facilitar a vida dela. Conseguimos fazer uma coisa desse tipo. Aí começaram a pedir o MDS [Ministério do Desenvolvimento Social], o MDA [Ministério do Desenvolvimento Agrário], quando eu vi que a coisa estava ficando complicada eu disse, estou fora. Eu não vou esgarçar a minha relação em função desse negócio. E caí fora.

Valor: Mas três baianos viraram ministros de Dilma.

Wagner: Mário Negromonte [Cidades] foi uma apresentação da bancada do PP. Um baiano. Eu apoiei. A Luiza Bairros [Promoção e Igualdade Racial] foi chamada por Dilma. Ela seria minha secretária na Bahia. Alguém lembrou dela em uma reunião. A presidente me ligou: ‘Jaquinho, a sua secretária, como é o trabalho dela?’ Eu disse: ‘Eu adoro, vou mantê-la’. E ela: ‘Você me cederia para vir fazer um trabalho no governo?’ Eu digo: ‘Claro’. É um ministério muito importante, porque pode não ter orçamento, mas tem uma simbologia muito grande. Política não se faz só com dinheiro, faz-se também com simbologia.

Valor: E o ministro do Desenvolvimento Agrário, Afonso Florence, não é indicação sua?

Wagner: Era para ser a Lúcia Falcão, uma baiana que era secretária do governo de Sergipe. Aí veio a questão natural do PT. A DS [Democracia Socialista, tendência petista] reclamou que estava sendo excluída da participação [do PT no governo]. Puxa daqui, estica dali, tenta compor e o pessoal impôs que fosse alguém que viesse do Nordeste, porque sabia que não havia o equilíbrio petista Nordeste, Sul e Sudeste. A DS indicou o Afonso. Eu apoiei.

Valor: E o Gabrielli?

Wagner: É um grande quadro da academia, bom caráter, foi candidato a governador, deputado federal e aí veio para cá [diretoria da Petrobras]. O mercado reagiu: ‘um absurdo’. Com um ano ele já estava sendo elogiado pelo mercado. Hoje é adorado pelo pessoal da Petrobras e pela presidente.

Valor: Mas é indicação sua.

Wagner: É óbvio que eu pedi. Agora, a manutenção dele não dependeu nem um pouco do meu pedido. Dependeu fundamentalmente do desempenho dele.

Valor: Em geral, os presidentes da Petrobras são acusados de corporativismo. Gabrielli é visto como um defensor do interesse do governo na empresa.

Wagner: Quem nomeia, em nome da sociedade brasileira, é o acionista majoritário da companhia. Pela legitimidade de 54 milhões de votos, gostando ou não, a presidente Dilma é a acionista majoritária, representa a sociedade brasileira. Se eu for um privatista, eleito pelo voto, eu boto a companhia para ser privatizada. Se eu não tiver essa visão, eu faço uma empresa eficiente, mas pública. Como ela é. Então essa é uma falsa dicotomia que se coloca. Por exemplo: as sondas da Petrobras. Nós vamos fazer um tremendo investimento de alguns bilhões de dólares, e um grupo técnico da Petrobras diz assim: ‘nós compramos mais barato em Cingapura’. Mas eu que sou acionista majoritário digo ‘calma lá, tenho interesse de instalar uma indústria naval aqui dentro. Nós já tivemos, e foi rifada. E eu não vou comprar lá fora. Quem quiser vem fazer aqui dentro’.

Valor: Gabrielli fica só até a eleição para o governo da Bahia, a carreira dele agora é política?

Wagner: Hoje ele está apaixonado pela atividade que está exercendo lá. Então é o roteiro dele. Mas a vida é assim. Meu roteiro não era este, deputado, ministro, governador. Eu era sindicalista. É legítimo, não é obrigatório, que o PT pretenda ter o meu sucessor. O [senador] Walter Pinheiro [que foi secretário de Planejamento da Bahia, em 2009] é um nome. O Gabrielli é um nome, assim como são os prefeitos de Camaçari [Luiz Carlos Caetano] e a de Lauro de Freitas [Moema Gramacho]. É cedo.

Valor: O início do governo mostra que há problemas na relação da presidente com o PMDB, por causa dos cargos. Não é um risco?

Wagner: Ela viveu oito anos ao lado do presidente Lula, dois como ministra das Minas e Energia e seis na Casa Civil, que era o posto de organização da gestão. Então ela sabe o quanto ajuda e o quanto não ajuda uma indicação não bem feita de um aliado. Não que ela rejeite indicações, que isso é da vida da política. Eu não vejo nada de criminoso em quem ajudou a construir ajudar a dirigir. Mas tem que combinar os dois critérios. Ministério ou secretaria não é lugar de cabo eleitoral. Secretaria é lugar de “político gestor”. Para sentar numa cadeira de governador ou ministro, tem que ser bom de entrega de serviço, tem de ser bom de política. Tem que conversar com os Poderes, tem que conversar com os deputados. É uma falsa dicotomia. Eu acho que ela pode estar dizendo ‘moçada, vocês têm o direito, mas eu também tenho o direito de exigir determinado tipo de qualidade’. O presidente Lula vem da política, e se apropriou da gestão; ela vem da gestão e vai se apropriar da política. São dois caminhos diferentes mas igualmente possíveis.

Valor: Como o senhor está vendo o início do governo Dilma?

Wagner: Eu sou suspeito porque sou torcedor. Entre os que não são torcedores eu tenho ouvido também avaliações positivas. Agora não há como os governos serem iguais. Porque ela não é igual a ele e ele não é igual a ela. Que bom que ela é mais recatada, porque o outro era mais saído. Não era isso o que vocês falavam?

Valor: Mas está dando resultado?

Wagner: Ela está organizando o governo, mudando o ministério, se assenhorar da máquina.

Valor: E a questão do salário mínimo já não mostra uma mudança em relação ao governo Lula, que sempre cedia à pressão das centrais sindicais?

Wagner: Em 2004, Lula não foi nem para o Primeiro de Maio. Não foi porque deu um reajuste que achava aquém do que merecia. Eu estava lá, era ministro do Trabalho. Ela está vivendo o primeiro ano de governo dela. Ela tem que fazer cortes.

Valor: A história recente mostra que para a inflação saltar de 6% para 12%, basta piscar os olhos.

Wagner: Nós estamos passando bem pela crise, mas não podemos brincar com a crise. Não apostem, em nenhuma hipótese, que essa vá mulher brincar com isso. Em nenhuma hipótese. Quem veio da política para a gestão não brincou, imagine ela. Na crise de 2005, Lula foi aconselhado a resolver tudo com uma canetada no Orçamento. Se ele quisesse ser populista, em 2005, jogava dinheiro para o alto, estourava com tudo que estava sendo feito, mas controlava o momento. Ele foi para a rua se defender.

Valor: A relação da presidente com o Congresso não está ficando perigosa, diante do corte de emendas, reajuste pequeno do salário mínimo, insatisfação por causa de cargos?

Wagner: A relação da presidente com o Congresso dependerá da relação dela com a rua. Se o país estiver bem, o Congresso estará bem. O Congresso tem um “feeling” perfeito e não joga contra quem está bem com a sociedade.

Por que uma nova crise financeira é certa

A regulação se estabelece para assegurar que o sistema funcione adequadamente e para proteger as pessoas contra fraudes. Mas a atividade bancária é mais lucrativa quando não há regras, razão pela qual os líderes do setor e seus grupos de pressão seguem tentando impedir os esforços para introduzir reformas. E, em geral, tem conseguido. Os bancos seguem concedendo hipotecas a pessoas desempregadas com alta possibilidade de inadimplência, da mesma forma que faziam antes da crise. Obama sabe onde está o problema, mas também sabe que não será reeleito sem o apoio de Wall Street. É uma questão tempo até que haja outro crack. O artigo é de Mike Whitney.

Mike Whitney – SinPermiso

No dia 9 de agosto de 2007, houve um episódio em um banco francês que desencadeou uma crise financeira que acabaria dissolvendo mais de 30 trilhões de dólares em capital, envolvendo o planeta na maior recessão desde os tempos da Grande Depressão. O evento em questão foi descrito em um discurso do diretor executivo da Pimco (administradora de fundos de investimento), Paul McCulley, na 19° edição da Annual Hyman Minsky Conference on the State of the U.S. and World Economies (Conferência Anual Hyman Minsky sobre o estado das economias dos EUA e do mundo).

Eis um trecho da exposição de McCulley:

“Se tivesse que escolher um dia para assinalar o Momento Minsky, seria o 9 de agosto de 2007. E, de fato, não ocorreu aqui nos EUA. Ocorreu na França, quando o Paribas Bank (BNP) disse que não podia valorar os pacotes de ativos hipotecários tóxicos em três de seus produtos de investimento fora de balanço, e que, em função disso, os investidores, que acreditavam poder sair a qualquer momento, estavam presos. Lembro desse dia tão bem quanto do aniversário do meu filho. E este último ocorre uma vez por ano. Porque o desastre em cadeia começou neste dia. Foi um pouco mais tarde, neste mesmo mês, que cunhei o termo “Sistema Bancário paralelo” durante o simpósio anual do Federal Reserve, em Jackson Hole. Era só o segundo ano que eu assistia ao simpósio. Estava um pouco sobressaltado e basicamente me dediquei a escutar a maior parte dos três dias. Ao final, me levantei e (parafraseando) disse: o que está ocorrendo é bem simples. Temos uma fuga no Sistema Bancário Paralelo e a única dúvida é o quão rápido ela vai se retroalimentar a medida que seus ativos e suas obrigações vão regressando aos balanços do sistema bancário convencional”.

O BNP estava realizando atividades de intermediação creditícia, ou seja, trocava ativos que se constituíam com garantias de pacotes hipotecários (MBS, em sua sigla em inglês) por empréstimos de curto prazo nos mercados de derivativos. Soa tudo muito complicado, mas não é algo distinto do que fazem os bancos quando tomam os depósitos de seus clientes e os investem em ativos de longo prazo. A única diferença neste caso é que estas atividades não estavam reguladas, de modo que não havia nenhum órgão governamental encarregado de determinar a qualidade dos empréstimos ou assegurar que as distintas entidades financeiras estavam suficientemente capitalizadas para cobrir eventuais perdas. Esta falta de regulação acabou por gerar consequências catastróficas para a economia mundial.

Passou quase todo um ano desde que o calote das hipotecas subprime começasse a se propagar em massa, até que o mercado secundário (onde se trocam estes ativos “tóxicos”) colapsou. O problema era simples: ninguém sabia se essas hipotecas eram ou não seguras, de modo que era impossível fixar um preço para os ativos. Isso criou o que o professor de Yale, Gary Gorton chama um problema de e. coli (nome genérico para as bactérias que produzem enfermidades como a salmonela), ou seja, ainda que só uma pequena quantidade de carne seja contaminada, milhões de libras em hamburguers têm que ser retirados do mercado. A mesma regra se aplica aos MBS. Ninguém sabia quais delas continham os maus empréstimos. Assim, o mercado inteiro foi paralisado e trilhões de dólares em garantias começaram a perder valor.

As subprime foram a faísca que acendeu o fogo, mas o mercado das subprime não era suficientemente grande para atingir todo o sistema financeiro. Isso exigir tremores no sistema bancário paralelo. Eis um trecho de um artigo de Nomi Prins que fala de quanto dinheiro está envolvido aqui:

“Entre o ano de 2002 e o início de 2008, aproximadamente 1,4 trilhões de dólares em hipotecas subprime correspondiam a emprestadores que tinham quebrado como New Century Financial. Se esses empréstimos fossem nosso único problema, no papel a solução poderia ter sido que o governo subsidiasse essas hipotecas até um custo máximo destes 1,4 trilhões de dólares. No entanto, e segundo Thomson Reuters, outros 14 trilhões de dólares em produtos financeiros complexos se criaram a partir dessas hipotecas, precisamente porque os fundos de investimento estimularam tanto sua produção quanto sua dispersão. Desde modo, quando se chegou ao máximo de desembolso público em julho de 2009, o governo tinha sido obrigado a gastar 17,5 trilhões de dólares para sustentar a pirâmide de Ponzi de Wall Street, ao invés dos iniciais 1,4 trilhões (Shadow Banking, Nomi Prins,The American Prospect)”.

O sistema bancário paralelo foi criado para que as grandes instituições financeiras que dispunham de muita liquidez tivessem algum lugar onde colocar seu dinheiro no curto prazo com a máxima rentabilidade. Por exemplo, digamos que a Intel tem “sobrando” 25 bilhões de dólares. Pode entregar o dinheiro a um intermediário financeiro como Morgan Stanley em troca de uma garantia (os MBS ou os ABS), e obter em troca um rendimento razoável por seu empréstimo. Mas se aparece algum tipo de problema e se questiona a qualidade da garantia, então os bancos (neste caso, o Morgan Stanley) se vê forçado a realizar cortes e mais cortes que podem acabar colapsando o sistema inteiro. Isso é o que aconteceu no verão de 2007. Os investidores descobriram que muitas das subprimes eram fraudulentas, de modo que bilhões de dólares foram retirados rapidamente dos mercados financeiros e o Federal Reserve teve que intervir para evitar que o sistema entrasse em colapso.

A regulação se estabelece para assegurar que o sistema funcione adequadamente e para proteger as pessoas contra fraudes. Mas a atividade bancária é mais lucrativa quando não há regras, razão pela qual os líderes do setor e seus grupos de pressão seguem tentando impedir os esforços para introduzir reformas. E, em geral, tem conseguido. A lei Dodd-Frank (de reforma do sistema financeiro) está repleta de lacunas e não resolve realmente os problemas cruciais da qualidade dos empréstimos, da disponibilidade de capital e da diminuição dos riscos. Os bancos seguem podendo conceder tranquilamente hipotecas a pessoas desempregadas com muitas possibilidades de não poder pagá-las, da mesma forma que faziam antes da crise. E seguem utilizando-as para produzir complexos instrumentos de dívida sem manter nem sequer 5% do valor original do empréstimo (esta questão segue em disputa, de fato). Além disso, as agências governamentais não poderão forçar as instituições financeiras a incrementar sua capitalização apesar de seguir existindo o perigo de que uma pequena turbulência no mercado possa quebrá-las, colocando em sério perigo o resto do sistema. Wall Street saiu ganhando de novo e agora a oportunidade para um novo impulso regulador já passou.

O presidente Barack Obama entende onde radica o problema, mas também sabe que não será reeleito sem o apoio de Wall Street. É por isso que há apenas duas semanas prometeu no Wall Street Journal que seguiria reduzindo a “gravosa” regulação que afeta a Wall Street. Sua coluna tratava de antecipar-se à publicação do informe final da Comissão de Investigação da Crise Financeira (FCIC, Financial Crisis Inquiry Commission), que possivelmente fará recomendações em defesa da regulação pública do setor. Obama torpedeou esse esforço ao ser colocar ao lado da grande finança. Agora é uma questão tempo até que haja outro crack.

Este é um trecho de um informe especial do Banco Federal de Nova York sobre o sistema bancário paralelo:

“Na véspera da crise financeira, o volume de crédito intermediado pelo sistema bancário paralelo era próximo aos 20 trilhões de dólares, ou seja, quase o dobro dos 11 trilhões que o sistema bancário tradicional intermediava. Hoje, essas mesmas cifras são de 16 trilhões e 13 trilhões, respectivamente. A debilidade dos administradores de fundos não surpreende quando só se dispõe de muito pouco capital para respaldar suas carteiras de ativos e, em troca, os investidores têm tolerância zero em relação às perdas (“Shadow Banking”, Federal Reserve Bank of New York Staff Report)”.

Assim que, quando o Lehman Brothers se desintegrou, entre 4 e 7 trilhões de dólares simplesmente viraram fumaça. Quantos milhões de empregos foram perdidos em função de uma má regulação? Quando se reduziu o PIB, a produtividade e a riqueza nacional? Quantas pessoas vivem agora dos cheques de alimentação estatais, ou dormem ao relento, ou tratam de evitar a falência de seus negócios porque algumas instituições financeiras desreguladas puderam dedicar-se à intermediação do mercado de crédito sem que o governo as supervisionasse?

Ironicamente, o Federal Reserve de Nova York nem sequer tenta negar a origem do problema: a desregulação. Eis o que dizem em seu informe: “Manejar a regulação foi a razão última da existência de muitos bancos no sistema paralelo”. O que isso quer dizer. Quer dizer que Wall Street sabe perfeitamente que é mais fácil ganhar dinheiro sem regras…as mesmas regras que protegem o público da depredação por parte de especuladores e gananciosos.

A única forma de arrumar o sistema é submeter à necessária regulação a qualquer instituição que atue como um banco. Sem exceções.

(*) Mike Whitney é um analista político independente que vive no estado de Washington e colabora regularmente com a revista norteamericana
CounterPunch.

Tradução: Katarina Peixoto

As razões da desigualdade no Brasil. Entevista com o cientista social Jessé Souza

O cientista social Jessé Souza afirma que acreditar que a pobreza será decifrada pela análise economicista é um erro. À frente do Centro de Pesquisas sobre Desigualdade (Cepedes), da Universidade Federal de Juiz de Fora (MG), o cientista social desenvolve estudos empíricos e teóricos sobre a reprodução de um modelo, que mantém boa parte do Brasil à margem de si mesmo.

 Jessé Souza é autor do recém lançado livro A Invisibilidade da Desigualdade Brasileira (UFMG, 2006) e concedeu uma entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo, 12-11-06.

Eis a entrevista.

Pelo PNUD, soubemos que o IDH brasileiro caiu. Em compensação, o relatório diz que o País melhorou a distribuição de renda. Como entender estes resultados?

 Isso tem a ver com o fato de que o Brasil melhorou a partir dos critérios do índice, que são em si criticáveis. É o Brasil em comparação com ele mesmo. Mas o Brasil piorou na comparação com outros países.

A metodologia de cálculo do IDH, que leva em conta basicamente três variáveis (educação, expectativa de vida e renda per capita) não tem sido eficaz?

É certamente mais eficaz do que índices anteriores, que apenas mediam a renda e outros agregados econômicos. Mas o IDH não mede e sequer atenta para fatores que condicionam a desigualdade em todas as suas dimensões. Esses fatores começam na socialização familiar. O que eu quero dizer é o seguinte: uma criança de quatro ou cinco anos, quando chega à escola, dependendo da estrutura familiar ou da ausência dela – por exemplo, presença ou ausência do pai, estímulo ou não à leitura, existência ou não de bases para a construção da auto-estima – ela já entra como perdedora ou vencedora.

Esse tipo de raciocínio não culpabiliza a família?

 Não é esse o ponto. A escola não é o início do processo de competição social, como muitos pensam. Ao contrário. Encarada isoladamente, ela sanciona e legitima uma desigualdade formada muito antes dela! Não perceber essa dimensão equivale a não ver como a desigualdade é constituída no seu fundamento e sua base primeira.

Mas Marx não recorreu à família para definir classe social.

O conceito moderno de classe social não se restringe a renda ou a determinantes econômicos, como no feitio marxista clássico. O maior sociólogo contemporâneo para mim é o francês Pierre Bourdieu (morto em 2002) precisamente por haver mostrado, como nenhum outro, que a classe social se transmite por herança familiar através de sinais invisíveis. Sinais como o medo e a insegurança transmitida na tenra infância, dos pais para os filhos, em famílias pobres, contrapondo-se ao estímulo da coragem e iniciativa dos bem nascidos. São sinais invisíveis, assim como invisível é a desigualdade que a nossa percepção comum produz e reproduz continuamente. Desigualdade tornada invisível e naturalizada.

Como assim naturalizada?

Porque justamente esse fenômeno da naturalização é o que nos permite legitimar a desigualdade como se ela fosse culpa dos próprios excluídos.

Voltando ao IDH, existem outros fatores da desigualdade que não são levados em conta?

 Concentrar a atenção do problema na renda ou na escola, como faz a esmagadora maioria dos estudiosos, equivale a manter e aprofundar uma percepção superficial de um fenômeno importante, com uma chancela supostamente científica. Isso acontece na dimensão do debate público de gente educada. A invisibilidade dos fatores que determinam e explicam por que as pessoas possuem renda tão discrepante, em sociedades como a brasileira, e por que alguns têm sucesso escolar e outros não, tudo isso é mantido à sombra das abordagens unilaterais. Significa, nada mais nada menos, que mutilar e esconder o principal, já que apenas tentamos explicar a desigualdade pelos seus efeitos mais visíveis.

Temos muitos pobres porque somos um país injusto ou somos um país injusto porque temos muitos pobres?

Certamente somos pobres porque somos injustos. O processo de modernização no Brasil se deu de modo apenas econômico. É um contra-senso falar da necessidade de um choque de capitalismo neste País, como fazem políticos e especialmente a imprensa de mentalidade liberal. O Brasil aceitou, desde o início, toda a concepção de mundo do capitalismo liberal e econômico. Isso também explica por que crescemos economicamente de 1930 até 1980, com taxas semelhantes às da China ou Índia hoje em dia. Fomos, naqueles 50 anos, campeões em desenvolvimento econômico em todo o planeta, o que não é pouco. Passamos de um dos países mais pobres do globo para o oitavo lugar economicamente.

E por que involuímos para essa tremenda desigualdade?

Porque nosso problema é outro. O que nunca tivemos, nem desenvolvemos, foi uma mentalidade pública de responsabilidade social, como nos países da social-democracia européia. O que Alemanha, Suécia ou Holanda fizeram foi precisamente limitar e regular o mercado, que é uma instituição ambígua: o mercado competitivo moderno produz riquezas como nenhuma outra forma de produção econômica. Mas produz também miséria, sofrimento e desespero para aqueles que não logram se adaptar aos seus imperativos. O que fez a social-democracia européia? Retirou do mercado a regulação de esferas como educação, saúde e previdência, em favor de uma regulação por valores compartilhados socialmente e estranhos ao próprio mercado.

 Como se explica a baixa responsabilidade social no Brasil?

 Certamente, a base de religiosidade ética daqueles países avançados ajudou-os na passagem de uma ética universalista de caráter religioso para uma ética comunitária secular, também de caráter universalista. Nós, em compensação, tivemos uma ética mágica do catolicismo familiar, tão pragmática, instrumental e economicista quanto a própria discussão pública dessas questões. Mas uma sociedade pode sempre mudar, apesar de suas heranças históricas. O problema é que, na relativa pobreza do nosso debate público, sequer chegamos a identificar o que mantém o nosso atraso social, sempre confundido com atraso econômico. O fato do Brasil ter sido o campeão de crescimento, sem ter alterado radicalmente seu padrão de desigualdade, deveria ser uma prova empírica irrefutável da necessidade de considerar outras variáveis.

Já não terá mudado a percepção social da pobreza? Ou ainda somos repetidores do Brasil dividido em casa grande e senzala?

Não existe pergunta mais importante do que esta para compreender o Brasil moderno. Creio que a nossa percepção social não mudou radicalmente desde a escravidão. Porque as pessoas só pensam em crescimento econômico. Com esta crítica não estou aqui dizendo que este dado seja pouco importante. Mas não pode ser o único. As razões disso são em parte históricas, no que toca à peculiaridade brasileira, e em parte produto do racionalismo moderno, que tende apenas a perceber o que é visível e quantificável.

É correto dizer que o Brasil ainda não conhece o Brasil?

O Brasil moderno, de uma classe média que é tão européia, no essencial, quanto a sociedade alemã ou italiana de classe média, não sabe nada sobre o Brasil atrasado, Brasil da ralé estrutural e das favelas. Na arte e no cinema encontramos belas obras como o recente Amarelo Manga, filme do diretor Cláudio Assis, ou Justiça, filme de Maria Augusta Ramos. Pois esse é o Brasil esquecido, das pessoas que só têm estômago e sexo, como diz Assis em seu filme. Pessoas que só possuem corpo e o vendem pelo melhor preço, que por sinal é sempre baixo. Falo de prostituição e trabalho doméstico para as mulheres, de trabalho muscular e tração animal, para os homens. Essas pessoas são excluídas daquelas dimensões que constroem a sociedade moderna, tais como mercado, Estado e esfera pública. Porque não incorporam conhecimento.

Há ou não democratização do conhecimento?

 Conhecimento é recurso social escasso, que o capitalismo moderno democratiza em alguma medida. Valeria à pena frisar que, em todas as sociedades tradicionais, o acesso ao conhecimento sempre foi guardado a sete chaves. E hoje, ainda, a propriedade econômica continua a ser transmitida por herança, como em qualquer sociedade tradicional. Nós, todos nós historicamente construímos uma sociedade onde uma parcela significativa dela só possui o próprio corpo e está excluída de qualquer acesso ao mundo moderno e suas benesses. A compreensão artística do problema é muito bonita, como nos filmes citados, mas insuficiente.

 Por quê?

 Porque a arte, embora nos toque na alma, tem caráter metafórico. A compreensão de um processo social tão complexo tem que identificar os por quês e as razões.

O senhor diz que análises economicistas não explicam a complexa trama da desigualdade. E que a visão artística, apesar de bonita, é insuficiente. Como desenvolver uma compreensão mais ampla?

 No caminho que venho trilhando nos últimos dez anos, dedicados exclusivamente ao tema da desigualdade entre nós, venho alternando pesquisas empíricas e teóricas sobre a sociologia contemporânea e brasileira. Fui muito influenciado pelos trabalhos de Maria Sylvia de Carvalho Franco (especialmente no livro Homens Livres na Ordem Escravocrata) e pelo trabalho de Florestan Fernandes (em Integração do Negro na Sociedade de Classes e A Revolução Burguesa). Nesses autores existe a preocupação de compreender os mecanismos invisíveis dos quais falei anteriormente, que se manifestam depois em resultados econômicos visíveis. Meu trabalho tem sido recuperar essa dimensão esquecida nas últimas décadas, pela dominância das análises economicistas. Procurei acrescentar, ao trabalho dos autores citados, desenvolvimentos da teoria sociológica de vanguarda que não existiam à época em que Maria Sylvia ou Florestan produziram aquelas obras. Além de Pierre Bourdieu, procurei utilizar criticamente autores como Charles Taylor e Axel Honneth, os dois maiores nomes internacionais da filosofia e da sociologia do reconhecimento. Suas teorias procuram mostrar como o móvel do comportamento humano é também moral, cultural e emocional.

Dá para colocar na balança o lado moral da desigualdade brasileira?

Novamente a questão é correta. Permite discutir o ponto principal. O Brasil é um país moderno, apesar de desigual. Sociedades modernas possuem um núcleo próprio de moralidade. O valor diferencial das pessoas no mundo moderno depende de duas fontes de valor moral que podemos chamar, como faz o canadense Charles Taylor, de dignidade e autenticidade. A dignidade das pessoas no mundo moderno tem a ver com pressupostos psicossociais do trabalho produtivo em condições capitalistas, ou seja, com a presença de disciplina, auto-controle, pensamento prospectivo, etc. Foi a generalização desses pressupostos que tornaram países como Alemanha, Suécia ou França mais igualitários e avançados em termos de aprendizado moral e político, e não em termos de simples desenvolvimento econômico. Mas continua a existir uma esfera de desigualdade importante nas sociedades avançadas. Falo daquela forma de distinção que, por exemplo, separa o indivíduo de classe média de bom gosto do trabalhador com gosto supostamente rude. Esse tipo de racismo de classe existe em todo lugar.

E como se manifesta aqui ?

O que separa uma sociedade como a brasileira de uma sociedade como a alemã, para falar de um lugar estrangeiro onde morei durante sete anos, é a produção, no Brasil, do que chamo provocativamente em meus livros de uma ralé estrutural. Ou seja, de toda uma classe de pessoas, algo como um 1/3 da população brasileira, excluída de qualquer acesso à possibilidade de trabalho produtivo nas condições de competitividade do mercado capitalista. Isso também implica a ausência dessas pessoas no Estado e na esfera pública, pela impossibilidade de ter voz própria e percepção dos seus efetivos interesses de longo prazo. Falo dessa classe de despreparados, gente que se reproduz entre nós há séculos, sem que jamais se tenha feito o esforço cívico e republicano de sua redenção. Essas pessoas são o lixo numa sociedade que jamais se importou com elas e jamais lhes conferiu requisitos objetivos para que consigam o respeito dos outros e a auto-estima de si mesmos.

Afinal, a quem responsabilizar pela manutenção desse Brasil de excluídos, que existe desde sempre?

 Não se trata de culpar governos. O fato é que nunca houve um consenso social no sentido de transformar tal questão em tema público de relevância. A culpa, se esta é a palavra certa, deve ser de todos nós e do tipo de sociedade excludente que cotidianamente contribuímos para manter.

O Bolsa Família é apontado pelo PNUD como fator de melhoria social. Pode ter contribuído para baixar em 10% a 15% os níveis de desigualdade. E poderá ter tirado pelo menos 5 milhões de brasileiros da condição de extrema pobreza. É avanço efetivo ou só assistencialismo?

Todos os programas sociais já feitos no Brasil, e os que ainda se fazem, como o Bolsa Família, são assistencialistas porque obedecem à lógica do curto prazo. Baseiam-se, em última instância, numa visão de mundo liberal, que imagina a sociedade feita de indivíduos com as mesmas disposições de comportamento, disposições fungíveis e intercambiáveis. Vem daí a abordagem da pobreza como se fosse um fato fortuito e casual. Bastaria então uma pequena ajuda econômica, ajuda meramente tópica, para fazer as pessoas caminharem de novo com os próprios pés. Assim se percebe a desigualdade no Brasil. Assim se cria a ilusão de uma sociedade sem classes sociais, na medida em que todos pertencemos ao mesmo tipo humano. E assim nos tornamos efetivamente incapazes de pensar ações de médio e longo prazo para incluir, de fato, classes sociais que se reproduzem há séculos como excluídas. Isso não é culpa de governos. Muito menos do presidente Lula, que tem manifestado sensibilidade maior do que, inclusive, os setores mais educados de nossa sociedade. Jogar a culpa em pessoas e governos é a melhor maneira de manter a situação como está. É a versão pública de um narcisismo primitivo que nos faz ver que o problema está sempre no outro, e não em nós mesmos.

TV digital via rede elétrica é opção para o país

Regiane de Oliveira (roliveira@brasileconomico.com.br)

Tecnologia de transmissão de dados está pronta para promover inclusão em regiões distantes, mas falta interesse comercial.

Uma notícia divulgada nesta semana pela Agência USP, da Universidade de São Paulo, ganhou destaque em portais voltados para novas tecnologias: os resultados do teste com TV digital via rede elétrica no Maranhão, feitos por pesquisadores da Escola Politécnica da USP em parcerias com empresas e entidades brasileiras e europeias.

A ideia é simples e está em linha com o plano de expansão da banda larga no país. Ao invés de instalar cabos de fibra óptica para transmissão de dados, utiliza-se a rede elétrica existente para levar o sinal da televisão digital interativa – na qual o usuário tem a possibilidade de interferir com a programação – para regiões mais afastadas do país.

O projeto, batizado de Samba, sigla em inglês de sistema avançado de televisão digital interativa e serviços móveis (System for advanced interactive digital television and mobile services in Brazil) consiste na utilização do sistema de comunicações por meio de linhas de força ( PLC, na sigla em inglês de Power Line Communications) – tecnologia que transforma as redes de energia elétrica em transmissoras de dados.

Os trabalhos foram realizados durante três meses em 2009 na cidade de Barreirinhas, localizada a 272 km de São Luís, no Maranhão.

“Comprovamos que com esta tecnologia é possível disponilizar um canal de comunicação de baixo custo, que possibilita a qualquer usuário criar sua própria programação”, afirma André Hirakawa, coordenador do grupo do Departamento de Engenharia de Computação e Sistemas Digitais da Poli-USP. De acordo com o Hirakawa, em Barreirinhas, a televisão ganhou status de computador.

O custo de instalação do sistema PLC foi baixo, cerca de R$ 20 mil , enquanto a banda larga não sairia por menos de R$ 50 mil na região.

Boas ideias, pouca continuidade

Dois anos após a instalação-piloto, a cidade de Barreirinhas conta apenas com boas lembranças e promessas de continuidade. Segundo Alexandre Bagarolli, gerente de soluções de infraestrutura do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento (CPqD), o sistema de PLC é viáveis para atender regiões remotas do país e promover inclusão, especialmente no que diz respeito aos avanços técnicos e regulatórios.

Porém, a solução não apresenta viabilidade comercial em grandes centros. “A dificuldade, que não é só do Brasil, é fazer este tipo de projeto virar um negócio rentável”, afirma.

A saída deve vir de uma ação oficial. “O governo está preocupado com a questão e a nova Telebrás, por exemplo, pode ter o papel de viabilizar estes projetos”, avalia Bagarolli.

Redesenho eleitoral favorece PT, PMDB e PSDB

Levantamento mostra que os três principais partidos teriam saído ainda maiores das urnas se novas formas para eleições proporcionais, em debate na reforma política, tivessem sido adotadas

Antônio Augusto de Queiroz *

Sempre que um novo governo assume e o Congresso inicia nova legislatura, o tema da reforma política ganha destaque no debate e na agenda dos poderes Legislativo e Executivo e também na mídia e na sociedade civil organizada.O tema é recorrente e já há consenso na sociedade e no Parlamento em relação à necessidade e até a urgência de uma reforma política, mas nenhum acordo a respeito do melhor desenho para os sistemas eleitoral e partidário.

O Diap, para contribuir com o debate, fez duas simulações com os resultados da eleição para a Câmara em 2010 para mostrar como ficariam as bancadas dos partidos caso não tivesse havido coligação ou tivesse sido adotado o “distritão”, a proposta que torna a eleição para a Câmara majoritária.

A diferença entre o sistema proporcional, com ou sem coligação, e o majoritário (o “distritão”) é que na eleição proporcional as vagas são distribuídas de acordo com o quociente eleitoral (divisão do número de votos do partido ou coligação pelo número de vagas do Estado na Câmara Federal), cabendo ao partido tantas vagas quantas vezes atingir o quociente eleitoral, enquanto no sistema majoritário são considerados eleitos os mais votados, em ordem decrescente, até o limite de vagas.

A simulação, expressa na tabela abaixo, compara o resultado da eleição, com coligação, como aconteceu; com o sistema proporcional sem coligação, e com o “distritão”. Os principais beneficiários nas duas alternativas são os três maiores partidos: PT, PMDB e PSDB. 

Simulação com o resultado da eleição para a Câmara em 2010
Siglas Proporcional (com coligação) Proporcional (sem coligação) Distritão (majoritária)
PT 88 108 91
PMDB 78 109 88
PSDB 53 65 65
PP 44 37 41
DEM 43 39 50
PR 40 37 35
PSB 34 30 29
PDT 26 24 22
PTB 22 14 22
PSC 17 11 17
PCdoB 15 10 14
PV 14 15 8
PPS 12 7 12
PRB 8 3 8
PMN 4 0 4
PTdoB 4 1 1
Psol 3 3 4
PHS 2 0 0
PRP 2 0 0
PRTB 2 0 1
PSL 1 0 0
PTC 1 0 1
Total 513 513 513

Fonte: todos dados utilizados para elaboração da tabela foram extraídos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), www.tse.gov.br.

Entre os partidos médios, PP, PR, PSB e PDT perderiam nos dois cenários; o DEM ganharia com o “distritão” e perderia com o fim das coligações, e o PTB empataria no “distritão” e perderia com o fim das coligações.

Para os pequenos partidos, com menos de 20 deputados, o fim das coligações ou a adoção do “distritão” também seria ruim. O PSC, o PPS e o PRB perderiam com o fim das coligações e empataria com o “distritão”, enquanto o PCdoB perderia nas duas hipóteses e o PV perderia com o “distritão”, mas ganharia com o fim das coligações.

Já entre os partidos muito pequenos, ou nanicos, como são conhecidos os partidos com menos de cinco parlamentares, ninguém ganharia com o fim das coligações. Perderiam nas duas hipóteses: o PTdoB, o PHS, o PRB, o PRB e o PSL. Ganharia com o “distritão” apenas o Psol. O PTC empataria. Ficariam sem representação na Câmara, nas duas hipóteses, o PHS, o PRB e o PSL.

Os atores políticos e sociais, interessados na reforma política, com a simulação consolidada na tabela acima, já têm uma idéia de quem ganharia ou perderia com o fim das coligações e com a adoção do “distritão”. Para outras hipóteses, entre as quais o voto distrital, puro ou misto, ou a lista fechada e bloqueada no sistema proporcional, não seria possível uma simulação com base nos dados da eleição de 2010.
            
O debate está aberto e deve analisar todas as hipóteses que contribuam para: 1) dar consistência ideológica e programática aos partidos, 2) combater a corrupção, e 3) promover a equidade na disputa eleitoral. Este é o desafio do novo Congresso. 
 
*Jornalista, analista político, diretor de Documentação do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap) e autor dos livros Por dentro do processo decisório – como se fazem as leis e Por dentro do governo – como funciona a máquina pública.

Diálogos desenvolvimentistas Nº18: energia nuclear, tório, China

Leandro Aguiar

Seja por apresentar taxas estratosféricas de crescimento econômico, sediar as Olimpíadas, cercear direitos humanos ou por seus recorrentes problemas com Tawain, a China está sempre em evidência. O que garantiu ao país a atenção internacional, nas últimas semanas, foi o anúncio do governo a respeito da implementação do programa nuclear chinês: a China está, oficialmente, empenhada a produzir energia nuclear a partir do Tório, pretenso substituto do Urânio.  

Segundo o Wen Hui Bao, uma espécie de Folha de São Paulo chinês, o sucesso dos reatores a base de Tório seria duplamente bom para o país: o sonho de produzir energia nuclear “limpa” seria realizado, e os EUA se tornariam dependentes dessa tecnologia. Ainda de acordo com o periódico, o Tório é um combustível mais seguro, limpo, e mais abundante que o Urânio. Além disso, tem a vantagem de não produzir Plutônio como derivado – que é a “matéria prima” das armas nucleares. Atualmente, a matriz energética chinesa é centrada no carvão, o que torna o país o maior emissor de CO2 do mundo.  

Qual o impacto estratégico disso? Essa é a indagação do economista Gustavo Santos, que se pergunta, também, se as reservas de Tório serão abundantes o bastante para substituir o carvão. O jornalista Rogério Lessa, por sua vez, disse estar bastante otimista com a possibilidade de a energia nuclear se desenvolver na China, sobretudo quando levada em conta a quantidade de carvão queimado pelo país.    

Diretor do Clube de Engenharia do Rio de Janeiro, Paulo Metri questiona os termos usados pelo jornal Wen Hui Bao. Ele lembra que a energia nuclear gerada a partir do urânio também é limpa, e portanto o Tório gerará, caso o projeto dê certo, uma energia tão limpa quanto a do urânio, na melhor das hipóteses. Para o engenheiro, a China investe na tecnologia do Tório por deter grande parte das reservas deste elemento químico, e por não ter Urânio. Ele questiona também o porquê de os Estados Unidos, que já pesquisou a aplicabilidade do Tório na geração de energia, ter abandonado tais pesquisas.       

Engenheiro, que trabalha na área de energia nuclear, Carlos afirma que esse é um passo estratégico para a China, atualmente muito dependente do carvão. Ele diz também que, apesar de a produção efetiva de energia a base de Tório ainda demandar muitos esforços, o país tem know-how para fazê-lo. Carlos exemplifica algumas práticas chinesas, que capacitaram o país a começar a desenvolver tal tecnologia:

“A China aplica, em todas as áreas tecnológicas e de produção, uma interessante estratégia, que implica basicamente em: 

1- Uma empresa para se instalar na China deverá estar associada a uma
empresa chinesa (quase sempre estatal). Assim, a tecnologia é “absorvida”.

2- Fazem contratos de aquisição milionários, sempre com a contrapartida da transferência de tecnologia, implicando no desenvolvimento e fabricação por empresas locais. Por exemplo, na área nuclear, eles compraram e estão construindo: 4 usinas modelo AP 1000 (Westinghouse – EUA) + 2 (com opção de + 2) EPR 1600 (AREVA – França) com a transferência da tecnologia e pesada fatia de fornecimento local incluída nos respectivos contratos.

Assim, isto somado ao conhecimento que eles já têm com os reatores russos e
canadenses + o que já desenvolvido pela própria China, podemos imaginar o
que poderão oferecer ao mundo, no futuro, quando toda esta tecnologia tiver
sido “absorvida”.”

No entanto, os resíduos gerados pela geração nuclear de energia, e os perigos de um desastre, levam muitos a relativizar o termo “energia limpa” que é conferido à energia nuclear. Dentre eles, Atenágoras, funcionário público, que, chineses a parte, não acha “sensato expandir esta forma de gerar energia elétrica, especialmente em um país como o Brasil, dotado de tão ampla capacidade de geração de energia elétrica a partir de fontes renováveis e não geradoras de resíduos nocivos como a energia eólica e a energia solar”. Ele lembra que falhas técnicas e humanas acontecem com relativa freqüência em hidrelétricas, mas que basta um erro numa usina nuclear para que um desastre de proporções dantescas aconteça.

Carlos, especialista em energia nuclear, diz que os riscos envolvendo a produção de energia nuclear não são tão grandes quanto se imagina. Isso porque “O projeto de uma usina nuclear contempla diversos níveis de barreiras de segurança, tornando-a intrinsecamente segura”, e quanto aos rejeitos, ele tranqüiliza os ambientalistas:

“Os chamados rejeitos de alta (elemento combustível “queimado”) ficam armazenados na própria usina, dentro da contenção metálica, em total segurança. Fiz uso da palavra “chamados” porque as novas tecnologias, em desenvolvimento, levarão a que estes elementos possam vir a ser reaproveitados.

Por outro lado, os rejeitos de baixa (filtros, ferramentas, resinas, etc) são armazenados em local seguro e sofrem permanente controle. Também aqui, novas tecnologias têm propiciado processos de reprocessamento e redução dos volumes.”