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Energia em xeque

Da CartaCapital

Gerson Freitas Jr

Pane no sistema que abastece o Nordeste reforça a tese de que algo vai mal na administração do setor

O problema que deixou oito Estados do Nordeste às escuras por cerca de quatro horas no último dia 4 e a disputa fratricida pelo comando de Furnas deixaram ao menos uma coisa clara: a presidenta Dilma Rousseff terá de mostrar habilidade para proporcionar o salto necessário na qualidade da gestão do setor elétrico nacional e, ao mesmo tempo, assegurar os interesses de grupos políticos aliados.

O Brasil não sofre uma ameaça iminente de falta de energia, como em 2001, quando teve de adotar o racionamento que afundou a economia numa recessão. De acordo com o Operador Nacional do Sistema (ONS), o País tem capacidade para atender, com folga, toda a demanda por eletricidade até o fim de 2014, levando-se em conta um crescimento econômico médio de 5% ao ano.

Ao contrário do que se observou ao longo dos anos que antecederam o apagão de 2001, o País voltou a investir na geração. A previsão é de que governo e iniciativa privada invistam mais de 210 bilhões de reais até o fim da década em novas usinas e linhas de transmissão, embora o cronograma de algumas obras, como a de Belo Monte, ainda esbarre em questões ambientais.

Contudo, a pane no sistema que abastece o Nordeste reforçou a tese de que algo vai mal na administração do setor. Segundo a ONS, os registros de apagões dobraram nos últimos dois anos, saltando de 48, em 2008, para 91, em 2010. “Os números apenas indicam uma deterioração da gestão, manutenção e operação automática do sistema interligado, bem como das linhas de transmissão. Trata-se de um cenário preocupante”, afirma Ildo Sauer, ex-diretor de Gás e Energia da Petrobras e um dos diretores do Institulo de Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo, que também critica a atual estrutura do setor elétrico. “Há uma multiplicidade de órgãos e agências para cuidar do setor e uma grave indefinição de responsabilidades. O quadro institucional montado por FHC fracassou, e o ajuste feito em 2004, sob a liderança de Dilma Rousseff, se mostrou insuficiente.”

O ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, tratou de minimizar o episódio. Para ele, o que aconteceu no Nordeste não foi um “apagão”, mas uma “interrupção temporária de energia” provocada pela falha num cartão de segurança na subestação de Luiz Gonzaga, administrada pela Chesf. Mais do que isso, assegurou que o sistema elétrico brasileiro é “robusto e moderno” .  Apenas quatro dias depois, outra pane deixou vários bairros de São Paulo sem eletricidade, como se teimasse em contradizer o ministro.

Lobão se limitou a repetir o discurso feito em dezembro de 2009, quando uma pane nas linhas de transmissão que levam a energia de Itaipu para o Sudeste deixou 18 Estados sem luz. À época, Lobão disse que o “desconforto temporário” apenas atestava a “excelência do sistema, que se autoprotegeu, desligando-se”, após a ocorrência de três curtos-circuitos em Itaberá, no interior de São Paulo.

Apesar de toda “excelência” e “robustez” do sistema, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) multou Furnas em 53,7 milhões de reais – pena reduzida nas últimas semanas para 43,3 milhões – pelo apagão de 2009. Sua explicação para a pane também foi menos complacente que a de Lobão. Segundo a agência, foram diagnosticadas diversas falhas de manutenção em equipamentos, falhas no processo de recomposição do sistema e uma “desconformidade” de Furnas em relação aos procedimentos de rede previstos pela Aneel, responsável pela fiscalização do setor. “Transformador queimar é normal, cartão falhar é normal, mas isso não pode causar danos desta proporção”, afirma Sauer.

Especialistas afirmam que os problemas no sistema elétrico estão diretamente associados à falta de critério na distribuição de cargos no setor e à predominância de interesses políticos na administração do sistema. “A meritocracia passa longe da gestão do aparato estatal do sistema elétrico. Houve um engalfinhamento de grupos partidários e políticos para disputa de cargos, abandonando-se completamente os critérios técnicos”, critica Sauer. Para ele, uma das conseqüências é a dificuldade de se investir em obras que não tenham visibilidade, como manutenção, treinamento e atualização dos softwares que comandam o sistema.

O caso de Furnas, principal empresa do sistema Eletrobrás, é o mais notório. Entregue ao grupo político comandado pelo deputado Eduardo Cunha, do PMDB do Rio de Janeiro, tornou-se um foco de denúncias e objeto de chantagem explícita nas últimas semanas. A mais grave delas consta em um dossiê enviado ao Planalto pelo petista Jorge Bittar. O documento acusa o comando de Furnas de beneficiar a Companhia Energética Serra da Carioca II, supostamente ligada a Eduardo Cunha, na construção da hidrelétrica Serra do Facão, em Goiás, em 2008.

As duas companhias eram sócias no empreendimento. Furnas era então presidida pelo ex-prefeito do Rio de Janeiro, Luiz Paulo Conde, indicado por Cunha.  Em julho daquele ano, a estatal adquiriu as ações da Serra da Carioca na hidrelétrica por quase 80 milhões de reais. Só que as mesmas ações foram adquiridas pela Serra da Carioca por 6,9 milhões de reais, apenas seis meses antes, junto a outra companhia, chamada Oliver Trust. Furnas justificou o aporte, alegando que a Serra da Carioca fez aportes de 75 milhões de reais na hidrelétrica, “obra concluída antes do prazo previsto e em plena operação comercial”.

Eduardo Cunha, que nega qualquer ingerência sobre o comando da estatal, revidou as acusações com ameaças: “É impressionante o instinto suicida desses caras [os petistas]. Quem não se lembra dos aloprados? Quem com ferro fere com ferro será ferido”. Com Furnas envolvida em denúncias, Dilma Rousseff resolveu destituir o antigo comando e nomear o engenheiro Flávio Decat para a presidência da companhia, o que enfureceu os peemedebistas da Câmara. A promessa é de que a estatal tenha uma gestão técnica.

Flávio Decat é um funcionário de carreira e já ocupou postos importantes no sistema elétrico. É também um homem da confiança de Dilma, que originalmente pretendia colocá-lo no comando da Eletrobras. Isso não quer dizer que sua nomeação esteja alheia a qualquer interesse político. Embora seja considerado um técnico competente, Decat foi citado como afiliado político de José Sarney, que há anos dá as cartas nas estatais do setor elétrico.

Luiz Pinguelli Rosa, diretor da Coppe-UFRJ e presidente da Eletrobrás no início do governo Lula, afirma que a influência política nas indicações não é, em si, um problema. “Uma coisa é a política enquanto interesse nacional, outra é a política corriqueira, do dia a dia, que está em toda a parte. As duas inevitavelmente se encontram em algum ponto. Não há democracia sem política.”

Mesmo assim, afirma Rosa, o governo não pode abrir mão de critérios técnicos nas indicações. “Há uma diferença grande entre distribuir cargos para gente que tem mérito e identificação partidária e gente que tem apenas identificação partidária. Em Furnas, a gestão foi péssima. Mas há também bons exemplos no setor.” Para ele, este é um desafio a ser enfrentado por Dilma nas próximas nomeações: conciliar os interesses políticos, necessários para assegurar a governabilidade, e os critérios meritocráticos, imprescindíveis para o bom funcionamento das estatais. Não será uma tarefa fácil.

Heloisa Villela: Wisconsin canta que o povo não é bobo

por Heloisa Villela, de Washington, para o VioMundo

O vídeo que está aqui me lembrou os tempos de “O povo não é bobo…”, na Candelária, no Rio de Janeiro. Eu trabalhava no jornal O Globo naquela época. Não levava laudas com o logotipo do jornal para as assembléias de sindicatos de jeito nenhum. Se me perguntassem, dizia que era de outro jornal qualquer. A Fox, aqui nos Estados Unidos, já está tão associada com os radicais de direita, com as idéias defendidas por Sarah Palin e seus colegas do Tea Party, com a insistente distorção dos fatos até que virem verdade (como chamar a reforma da saúde proposta por Obama de socialista) que os manifestantes, em Wisconsin, gritaram durante quase toda a transmissão ao vivo do repórter da Fox, dizendo que a rede mente. E por que o protesto?

O governador Scott Walker é republicano. Foi eleito em novembro. Durante a campanha, nunca falou em combater os sindicatos ou pagar as contas do estado com a ajuda compulsória dos funcionários públicos. (Detalhe: Wisconsin não está no vermelho como tantos outros estados. E acaba de dar corte de impostos de presente aos pequenos empresários). Mas o governador propôs mudanças que provocaram reação violenta. O que está em jogo: reduzir, e muito, o poder de barganha dos sindicatos que representam o funcionalismo público estadual  e aumentar o percentual de desconto em folha para programas de saúde e aposentadoria. Scott Walker tomou posse em janeiro e, com ele, uma câmara estadual dominada pelos republicanos. Juntos, eles decidiram botar em prática, no estado, a plataforma republicana para o país.

O ex-presidente Teddy Roosevel  costumava se referir a Wisconsin como laboratório da democracia. Foi em Wisconsin que nasceu, em 1930, a AFSCME, maior central sindical de funcionários públicos e profissionais de saúde do país. O sindicato dos professores do estado é dos mais fortes dos Estados Unidos. E Wisconsin está entre os dez estados do país onde o sindicalismo é mais ativo. Não é coincidência. Se os republicanos conseguirem enfraquecer os sindicatos de Wisconsin, o efeito dominó é certo. O que está acontecendo em Wisconsin pode dar uma ideia do que vem por aí. Das iniciativas republicanas e da resposta popular.

Para combater a recessão, os republicanos pregam redução de impostos (para empresas e pessoas físicas), cortes nos programas sociais e ataque aos sindicatos, para impedir que conquistem aumentos salariais.

Em Wisconsin, a primeira tentativa de votar a mudança proposta pelo governador foi adiada e os manifestantes foram até o parlamento local, em passeata, no dia 14, segunda-feira. Daí em diante, a manifestação só aumentou. Mais e mais gente está se juntando ao protesto. Os democratas, que são minoria, cruzaram a fronteira do estado. Estão em um hotel, em Illinois, para obrigar o adiamento da votação. E dizem que só voltam a Wisconsin quando os republicanos oferecerem algum tipo de acordo que leve em conta as reivindicações dos manifestantes. Eles aceitam o aumento das contribuições, mas são contra o ataque aos sindicatos.

É uma luta que está apenas começando, mas já reflete o que pode acontecer em Washington. O presidente Barack Obama enviou uma proposta de orçamento bastante conservadora ao Congresso. Ainda assim, a Câmara, agora dominada pelos republicanos, cortou 60 bilhões de dólares do projeto. Mas no Senado, quem tem maioria são os democratas. Eles devem barrar as mudanças. E o Presidente, que tem poder de veto, já prometeu usar a prerrogativa. Acontece que o orçamento precisa ser aprovado nas duas casas para entrar em vigor. Se não houver acordo, Obama pode se ver na mesma situação que o ex-presidente Bill Clinton enfrentou no primeiro mandato: a paralisação do governo. Por falta de orçamento, as atividades públicas param.

Na época, o Congresso culpou o presidente pela paralisação e Clinton culpou o Congresso. E foi ele que saiu ganhando. A popularidade de Clinton subiu e os republicanos tiveram que ceder. Mas Barack Obama não é Bill Clinton. E a conjuntura é bastante diferente. O atual governo tomou posse no momento em que o país já estava mergulhado em uma crise econômica da qual ainda não saiu. O desemprego aumentou, o medo do amanhã é grande, muita gente perdeu a casa em que morava…

Existe muita desilusão e raiva no ar. Os índices de popularidade do Congresso e do Presidente continuam caindo. Se mantiver uma postura firme, Obama ainda pode sair ganhando. Mas se Wisconsin é mesmo o grande laboratório da democracia americana, é bom ficar de olho em Russ Feingold. Depois de passar 18 anos no Senado, ele perdeu a eleição em novembro passado.

Feingold contrariou a regra. Ao contrário de se tornar consultor de Wall Street, lobista ou algo que o valha, como todos os ex-políticos fazem, ele foi dar aula na universidade, está escrevendo um livro sobre política externa e, na semana passada, lançou um novo movimento político chamado Progressistas Unidos. Feingold tem um grande inimigo na mira: a decisão da Suprema Corte, chamada Citizens United, que autorizou o investimento das corporações nas campanhas eleitorais sem que os políticos tenham que listar de quem receberam dinheiro. E foi assim que ele explicou, ao Huffington Post, a decisão:

“Na minha visão – e na de muitas outras pessoas – foi uma das decisões mais ilegais da história do nosso país. A idéia de permitir que as corporações tenham influência ilimitada na nossa democracia é muito perigosa, obviamente. As coisas eram assim há 100 anos, nos Estados Unidos, com um grande poder das coporações, dos negócios, das empresas de petróleo e outras. Mas agora, é a Era do Ouro turbinada com esteróides”.

O ex-senador está na rua, com os manifestantes de Wisconsin.

Notas sobre Jobim, Ana de Holanda, Marina, Pochmann, Lula, Garotinho

Da CartaCapital

Mauricio Dias

Alta infidelidade

Carlos Lupi, ministro do Trabalho, subiu no telhado. Não se sabe por quanto tempo se aguentará por lá após o comportamento dissidente na votação do salário mínimo. Sugere-se que Brizola Neto, secretário do Trabalho de Sérgio Cabral, fique de plantão.

Cena mínima

Do blog do deputado e ex-governador Anthony Garotinho: “O que se viu no plenário da Câmara dos Deputados foi um verdadeiro teatro, gente que sempre votou contra o trabalhador (…) defendendo “os velhinhos”. Irônico, comparou o que presenciou na votação do salário mínimo a uma forma de “penitência dos pecados” da oposição.

Agenda Lula

Assim que decidir terminar o período de férias, o ex-presidente Lula terá três prioridades de trabalho: o Memorial do Povo Brasileiro, o Instituto da Cidadania e a criação de um portal.

Sinal de alerta

Cresce a insatisfação com a ministra da Cultura, Ana de Hollanda. Ela foi alertada pelo ministro Gilberto Carvalho de que deve abrir as portas do ministério para o diálogo.

Lição dos “hermanos”

Nelson Jobim, ministro da Defesa do Brasil, defendeu o uso das Forças Armadas na segurança pública em conversa com ministros argentinos, em Buenos Aires. Falou o que quis e ouviu o que não queria. O ministro Arturo Puricelli, com função similar à de Jobim, disse que a Argentina não poderia seguir esse caminho sem, antes, “reformar as leis internas”.Isso também precisaria ser feito no Brasil, onde, no entanto, há pouco respeito aos ritos constitucionais. É possível que Jobim, na ocasião, tenha corado as bochechas.

Estratégico

Moreira Franco, ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), acaba com a inquietação dos petistas sobre os boatos de demissão de Marcio Pochmann do Ipea. “Eu nunca discuti a saída do Marcio. Ele fica”, diz. Moreira explica os boatos: “Todo início de governo é como caminhão que transporta porcos. No começo reagem. Depois se acomodam”.

Ilusões perdidas

O PV saiu animado da eleição presidencial com a votação de Marina Silva, no Rio de Janeiro.  Ela obteve mais de 2 milhões e 600 mil votos (31%). A concentração do apoio dela na capital acalenta o sonho do partido de, eventualmente, lançar a candidatura de Marina à prefeitura, em 2012. Pesquisa Ibope entre os cariocas pode ter jogado água na fervura.Marina ficou com 5% das intenções de voto na sondagem. Superou Índio da Costa (DEM), que obteve modestíssimos 2% e foi superada por Cesar Maia com 10%. Candidato à reeleição, Eduardo Paes (PMDB) alcançou 40%.

PMDB versus PT

Já foi diagnosticado, para temor dos corações aflitos, o aumento da representação da esquerda entre os deputados. Esse crescimento  é sustentado pela bancada do que, pela primeira vez, superou numericamente a do PMDB, partido que nas duas últimas décadas teve preeminência na Câmara. Os peemedebistas saíram da eleição de 1986 com 131 representantes e, em 1990, caíram para 109. Nesse mesmo período, o PT, em alta, saltou de 17 para 35 deputados (tabela).  Essa competição eleitoral acirra a disputa entre os dois maiores aliados da base governista.

Diálogos Desenvolvimentistas Nº 19: O Brasil e a crise

Leandro Aguiar

Apesar dos números da economia brasileira em 2010, que apontaram para o aumento de 11% das vendas no comércio, elevação estimada de 7,8% do PIB e recorde no crescimento da produção industrial, que foi de 10,5%, economistas e analistas políticos andam preocupadíssimos com o que nos espera num futuro próximo. Nas previsões mais nefastas destes especialistas, se a crise dos mercados financeiros de 2008 foi uma bala que nos acertou de raspão, nos próximos anos o tiro poderá ser certeiro.

Juros altos, real sobrevalorizado, desindustrialização, inflação. São esses problemas – que se alimentam mutuamente – que tiram o sono de 8 a cada 10 economistas que eu conheço.

Bruno Galvão, Gustavo Santos e Ceci Juruá, todos economistas, discutiram os rumos do Brasil nos próximos anos, e expressaram seu pessimismo moderado, de quem acredita que a situação não é irreversível, contanto que tenhamos lideranças inteligentes e capazes de ler a atual situação em que nos encontramos. Acompanhe as principais aspas:

“qual é o futuro de um país que dá mais importância para a inflação ser 4,5% e não 5,9% do que impedir a completa destruição da competitividade da indústria nacional? Que (considera) mais importante ouvir elogios do mercado financeiro internacional do que traçar uma estratégia de desenvolvimento nacional?”       

“É impressionante que depois de uma valorização nominal de 100% em relação ao dólar e de uma valorização real de 150%, a inflação não consegue convergir para a taxa dos EUA. Isso demonstra que há algo muito errado com a economia brasileira. Os preços no Brasil estão muito mais elevados do que no resto do mundo e o diferencial dos preços do Brasil e do resto do mundo continua a aumentar.”

Mas, o mais desanimador foi o BC ter aumentado a taxa de juros. Estamos caminhando para uma taxa de juros real de 7% a.a., enquanto não há qualquer país no mundo com taxa de juros real maior do que 2% a.a. Mas, e a inflação? O Brasil é um dos únicos países que cumpriu as metas de inflação nos últimos anos. Não há justificativa para choque de juros, quando a inflação está dentro do intervalo das metas. Muito menos quando o câmbio está tão valorizado.”

Bruno Galvão

 

“O desafio que está colocado para nós – partidários do desenvolvimento soberano – é saber se é possível avançar no programa nacionalista de Lula sem desmontar integralmente as armadilhas do Plano Real, articuladas com propósitos de recolonizarão e desenvolvimento não-soberano. Pessoalmente tenho dúvidas, e se me fosse dado montar uma estratégia, eu daria prioridade a desmontar a questão do endividamento público, reduzindo abruptamente, com audácia, a taxa de juros para o teto da inflação – 6% – acrescentando apenas 1% na taxa real. Uma SELIC de 7% pode ser a nossa reivindicação.”

“Continuaremos nossa luta e venceremos, no nosso passo e no nosso tempo. Invasões (neoliberais) como a que tem ocorrido desde 1990 foram muitas. Tentativas de aculturação também. Pilhagem foram inúmeras. Mas nós sempre vamos, e sempre continuaremos a ir em frente.”

Ceci Juruá

 

“O Pimentel foi encarregado de resolver esse problema e de evitar que essa crise aconteça. Mas o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, sozinho, jamais será capaz de resolver isso. O Ministério da Fazenda e o Banco Central precisam cooperar muito para isso! Tenho poucas esperanças que mudem a tempo. Por mais que a Dilma tenha feito várias coisas melhor do que o Lula, tem que fazer muitíssimo mais.”

Gustavo Santos

 

“(A crise) Deve vir lá para 2013. E aí, o bicho pega. O modelo é baseado na expansão do crédito privado (mais endividamento e problema de alavancagem). E maiores serão os passivos externos do Brasil. Solução:

1) Usar os limites superiores da meta de inflação, como qualquer país usa.

2) Inflação deve ser combatida de outras maneiras que não a valorização do câmbio.

3) Temos que desvalorizar a moeda. Desvalorização mesmo: R$2,30/US$. Isso, aliás, é pouco. Vender reservas só a partir de determinado ponto, ao contrário do que o BC faz hoje.”  

Bruno Galvão

EUA veem Brasil ingênuo e hesitante na ONU

do O Globo

José Meirelles Passos

RIO – A julgar pelo conteúdo de uma série de documentos confidenciais do governo dos Estados Unidos, o Brasil não vai contar com o apoio – e o voto – dos americanos para realizar um sonho que persegue com determinação: conseguir um assento permanente no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas. As autoridades americanas consideram o Brasil “cauteloso regionalmente, e hesitante globalmente”.

“Se a rápida emergência do Brasil no cenário global é inquestionável, também é verdade que ele ainda é muito emergente”, diz um dos telegramas. Outro reforça: “O Brasil já falhou amplamente em assumir um papel de liderança internacional que o tornaria um forte candidato para tal posição. O seu último período (como membro temporário) no Conselho de Segurança da ONU, que terminou em janeiro de 2006, foi caraterizado pela cautela e equívocos em vez de visão e liderança”.

Um pacote de 37 telegramas produzidos pela embaixada dos EUA em Brasília, entre abril de 2004 e janeiro de 2010 – disponibilizados ao GLOBO pelo WikiLeaks – mostra essa missão diplomática sugerindo ao Departamento de Estado e à Casa Branca que o Brasil não está preparado para assumir aquela responsabilidade. Os despachos listam uma série de pontos negativos. Afirmam, por exemplo, que o governo brasileiro não tem a menor idéia do que acontece, de fato, no Oriente Médio. Suas posições ali são tidas como “ingênuas”.

Algo que influi na avaliação americana é o estilo brasileiro de preferir o diálogo ao confronto. “O Brasil frequentemente permanece reticente em tomar posições firmes em assuntos chaves globais, e geralmente procura maneiras de evitá-los. Com muita frequência o governo brasileiro evita posições de liderança que poderiam exigir que escolhesse lados abertamente”, diz outro documento, acrescentando que quando o Brasil está em posição de evidência demonstra desconforto.

O fato de o país geralmente se abster, nas votações da ONU, sobre abusos aos direitos humanos no Irã, Coréia do Norte e Sudão também é apontado como atitude que não o recomenda para o Conselho de Segurança. Os EUA ironizam o Brasil ao defini-lo como o país que acha que “pode falar com todo mundo”, devido ao estilo do Itamaraty de procurar manter-se neutro e buscar saídas via negociação.

“Esse gosto pelo diálogo, junto com o respeito pela soberania e a intervenção em assuntos internos (de outros países)”, diz um documento, “fazem com que se torne mais difícil ao país permanecer fiel a esses princípios, e fica mais difícil esconder as suas inconsistências, à medida em que o Brasil participa num crescente número de arenas internacionais”.

Um dos telegramas diz que o fato de o governo Lula ser, de muitas formas, pragmático mas “cultivar uma forte ideologia esquerdista em política externa” mostram que o país não é confiável. “Isso, junto à histórica reticência do Itamaraty em adotar posições controvertidas, e a quase obsessiva preocupação com a imparcialidade, frequentemente leva o Brasil a adotar posições em situações chaves que consideramos desapontadoras”.

Os documentos registram um claro ressentimento dos EUA em relação ao Brasil. “Grande parte da elite da política externa brasileira permanece cautelosa e desconfiada em relação aos EUA”, diz um deles. Embora ambos governos declarem que existe uma parceria estratégica entre eles, os americanos desmentem isso nos bastidores: “O engajamento (do Brasil) com os EUA tem sido pragmático, em vez de estratégico”. E se queixam: “Ao procurar por parceiros estratégicos o Brasil está mostrando clara preferência por outras forças emergentes ‘independentes’, como África do Sul, Turquia, Ucrânia, Irã, China, Índia; e uma potência mundial independente: a França”.

Submarino nuclear é chamado de baleia branca

O governo americano acha que a insistência do Brasil em produzir um submarino nuclear tem menos a ver com a proteção das plataformas de petróleo pré-sal, como argumentou oficialmente o ministro da Defesa, Nelson Jobim, e mais com o fato de que os cinco países que hoje têm assento permanente no Conselho de Segurança da ONU possuem tal equipamento. Ao mencionar o assunto, os americanos caçoam dessa pretensão.

“Essa baleia branca do Brasil pode, no final das contas, encalhar nos recifes de desafios técnicos e excesso de custos”, diz um telegrama. E completa: “Na verdade, um submarino nuclear não melhoraria a segurança do Brasil, mas serviria como um duvidoso impulso para o machismo nacional”.

O feitiço de Dilma Rousseff

Do blog da cidadania

Quem diria. O dito “poste” da campanha eleitoral de 2010 vai se revelando uma estrategista política tão astuta que operou um milagre. Inauguramos, no Brasil, a feitiçaria política. Dilma Rousseff está presidindo o primeiro governo federal petista que, após um mês e meio de existência, não tem sido alvo de bombardeio midiático. Muito pelo contrário, Dilma tem recebido elogios e sido apresentada como vítima de uma absurda “herança maldita” deixada por Lula.

Em 2007, na aurora do segundo governo Lula, um mês e meio após a posse, o “caos aéreo” já fustigava o governo federal em manchetes bombásticas da grande imprensa. Em 2003, no primeiro mandato, o ex-presidente mal começara a governar e já era alvo de acusações da mídia de que o caos econômico do último ano de FHC – apenas mais intenso que nos três anos anteriores – era culpa sua.

A inflação, que chegara a quase oito por cento em 2001, em 2002 chegaria a doze – segundo o IPCA, do IBGE. A fuga de capitais se arrastava desde 1999, quando o Brasil teve que desvalorizar o real na marra, sem choro nem vela, porque terminava a farra cambial que reelegera FHC em um processo de mudança das regras do jogo que, nos últimos anos, a mídia vem dizendo antidemocrático, de um presidente alterar a Constituição para se permitir nova candidatura com vistas a permanecer no cargo.

No primeiro governo federal do PT ou no segundo, o início já foi de guerra. Nem o período de trégua que seria sensato conceder a quem iniciava o primeiro mandato em uma administração desmontada por forte crise financeira que se arrastara pelos últimos quatro anos, foi respeitado. Com Dilma, no entanto, está sendo diametralmente diferente.

Elogios. Vários e freqüentes. Como sempre, todos os colunistas no mesmo tom, repetindo a mesma tese de que o “estilo” de Dilma “agrada mais” – não dizem a quem, só que agrada mais –, e ela os vem recebendo tanto da mídia tucana quanto do seu maior ídolo político, aquele que lhe tem dado o tom nos últimos dezessete anos, Fernando Henrique Cardoso, que vem dividindo o amor midiático com José Serra, o outro queridinho da direita midiática.

E nem o feroz Serra tem sido antagônico com Dilma, limitando-se a resmungos comedidos, talvez por estar ciente de que não há ímpeto midiático de fustigá-la, falta de ímpeto que se vê, também, na maior parte da oposição, no baixo clero conservador, satisfeito com declarações sobre política externa e com o silêncio dela sobre os ataques incessantes a Lula em janeiro, ataques que têm arrefecido em fevereiro, por mais que persistam.

Tensa, a mídia espera reações de Lula, mas não de Dilma, que já se percebe que não baterá boca com os meios de comunicação, deixando ao padrinho político a missão de saciar-lhes a sede de manchetes e a fúria ideológica, no âmbito de uma derradeira tentativa dessa mídia de demonstrar poder de destruir quem a desafia, pois a resistência do eterno desafeto furta seu principal trunfo de “negociação” com a classe política.

De certa forma, é bom para todos, Lula, Dilma e mídia.

Lula, de seu lado, não tem nada a perder. Sua carreira política chega ao fim e os registros históricos lhe serão amplamente favoráveis, fora do calor da política partidária midiática. Não haverá historiador bom dos miolos que deixe de reconhecer o que ele representou para que ocorresse o salto histórico que o Brasil deverá dar na segunda década do século XXI. E, como ele disse, o êxito de Dilma será o seu êxito. Os brasileiros só querem que a indicada por ele não os decepcione.

Dilma, simplesmente porque está podendo governar sem sabotagem, ao menos até aqui.

A direita midiática, por sua vez, foge do desgaste de se mostrar intolerante com os governos petistas, depois de ter sido ignorada pela terceira vez em uma eleição presidencial, e pode deixar a impressão de que sua diferença com Lula não era partidária, mas produto de seus erros como governante, concentrando-se no lado histórico, no que ficará registrado para a posteridade sobre a atuação da imprensa na primeira década do novo século.

Dirão que o plano pode ser de Lula. Mais uma de suas estratégias brilhantes. Até pode ser, mas é Dilma que está sabendo não despertar a fúria midiática. Aliás, ao enfrentar os sindicatos na questão do mínimo fez um afago na mídia que não lhe custou nada porque Lula teria feito o mesmo, não teria cedido no valor do novo piso salarial do país. A política econômica é a mesma, tudo continua como dantes. Nem na tão propalada diplomacia há mudança de relevo.

Mas a forma como Dilma conduz as coisas dá uma diferença de tom, permite à mídia dizer que há diferença, que assim é que se faz e não como Lula fazia. A mídia, em seu entender – e, talvez, no de quem escreve esta análise –, fica por cima, como não tendo sido intolerante, mas, simplesmente, crítica de uma forma de governar e de se portar inadequada, a forma do ex-presidente.

Para um “poste”, Dilma não está se saindo nada mal. Ao menos do ponto de vista político. Isso, claro, ainda terá que ser confirmado por pesquisas sobre sua popularidade que, em algumas semanas, começarão a surgir. Porém, tudo indica que não haverá sobressalto, haja vista que não se tem notícia de piora no bem-estar social. Esse é o feitiço de Dilma: conseguir paz para governar. Que não se torne, porém, a paz dos cemitérios.

Os desafios da siderurgia brasileira

Enviado por luisnassif, qui, 17/02/2011 – 11:54

Coluna Econômica

Nos últimos meses, a Usiminas colocou o pé no freio do projeto de investimentos em Santana do Paraíso, uma usina de placas para produzir 5 milhões de toneladas ano. No Rio de Janeiro, a Companhia Siderúrgica do Atlântico (CSA) – sociedade dos gigantes Vale e da alemã ThyssenKrupp – patina, sem conseguir fechar as contas.

É um conjunto de fatores que está tirando a competitividade de um dos poucos setores da economia nacional.

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primeiro erro ocorreu na privatização.

Na ocasião o país tinha um conjunto de siderúrgicas estatais de bom porte, reunidas debaixo da Siderbras. Assim como na petroquímica, ganhos de escala e sinergia eram elementos centrais de competitividade. O correto teria sido privatizar a própria Siderbras e, depois, proceder à reestruturação competitiva do setor.

Em vez disso decidiu por picar o setor, para atender aos jogos políticos e financeiros da época.

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O segundo problema foram o aumento gradual do custo Brasil ao longo das décadas seguintes, uma política cambial desastrosa, a estagnação do mercado interno e a internacionalização da economia em um momento em que a estabilidade inflacionária (felizmente) tirou o poder de reajustes de preços do setor.

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Hoje em dia, o setor teria condições de voltar a se tornar um dos grandes players mundiais, uma imensa cadeia que sai da mineração, passa pela siderurgia e se desdobra na construção civil, na indústria automobilística, de máquinas e equipamentos.

Em 2010, o consumo aparente de produtos siderúrgicos chegou a 26,8 milhões de toneladas, 44% a mais do que em 2009 e 11% acima do período pré-crise de 2008. Só que desse total, 5,9 milhões de toneladas provieram de importações – 123% a mais do que em 2008. As exportações foram de 8,7 milhões de toneladas, apenas 1% a mais do que o ano da crise de 2009.

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Nos próximos anos, haverá investimentos pesados na Copa de 2014, nas Olimpíadas 2016, em óleo e gás, Minha Casa Minha Vida.

Mas aí entram os fatores conjunturais. No mundo, hoje em dia, há 554 milhões de toneladas de excesso de produção, dos quais 185 milhões da China, 64 do Japão, 126 da Europa, 33 dos Estados Unidos.

Mesmo com o câmbio defasado, a produção brasileira é relativamente competitiva. Considerando apenas custos de produção para bobina a quente e vergalhão, o Brasil tem o terceiro menor custo de produção para bonina a quente, superado apenas pela Rússia (12% a menos) e China (3% a menos), e quarto menor custo para vergalhão (atrás de Rússia, Estados Unidos e China).

Se incluir impostos sobre produção, investimentos e comercialização, o custo final sobe 51contra 22% da Alemanha. Desse total, 39% são produtos sobre valor adicionado. No caso das exportações, restam 12,7% de impostos contra média de 7,2% dos tributos sobre bobina quente.

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De sobra, há uma guerra fiscal que faz com que alguns estados do sul – como Santa Catarina – praticamente isentem as importações, para rentabilizar seus portos.

Nos próximos anos, o setor terá que se esmerar em ganhos de produtividade, de eficiência e de inovação.