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Brasil se torna em quinto maior credor dos EUA, com US$ 186,1 bi

CORREIO BRAZILIENSE

País só perde para China, Japão, Reino Unido e grupo de exportadores de petróleo

Vânia Cristino

O Brasil tornou-se o quinto maior financiador da dívida do governo dos Estados Unidos. Dados divulgados pelo Tesouro norte-americano mostram que, em dezembro do ano passado, o país detinha US$ 186,1 bilhões em títulos da nação mais rica do mundo, atrás apenas da China, com US$ 1,16 trilhão, do Japão (US$ 882,3 bilhões), do Reino Unido (US$ 272,1 bilhões) e dos países exportadores de petróleo, como a Arábia Saudita e a Venezuela — esses, com investimentos de US$ 211,9 bilhões.

Somente em 2010, o Brasil aumentou os investimentos na dívida dos EUA em US$ 16,9 bilhões, apesar das baixíssimas taxas de juros pagas pelos papéis. A alegação do Banco Central, que administra os recursos oriundos das reservas internacionais do país, é a de que a compra de títulos do governo norte-americano é muito segura. Além disso, é preciso manter um colchão em dólares, uma vez que o grosso do endividamento brasileiro no exterior está na mesma moeda. É o que o mercado chama de hedge.

Pelos registros do BC, com as reservas internacionais do país na casa dos US$ 300 bilhões, mais da metade dos recursos hoje está financiando o governo dos Estados Unidos. “Trata-se de um importante seguro contra crises”, disse o diretor de Administração do BC, Anthero Meirelles, na reunião da semana passada do Conselho Monetário Nacional (CMN). A afirmação foi uma resposta às críticas de uma corrente de economistas, que acha exagerado o custo das reservas, já que elas rendem, em média 2% ao ano, mas o Tesouro do Brasil paga 11,25% anuais para se financiar. No ano passado, o BC registrou prejuízos de R$ 26 bilhões com essa diferença de taxas.

“Já vimos, no passado, o que aconteceu no país quando enfrentamos crises internacionais. O Brasil teve que puxar a taxa de juros para mais de 40% ao ano porque não tinha reservas suficientes para se defender”, observou o diretor do BC. Ele garantiu que, mesmo com as queixas, a política de acumulação de reservas continuará a mesma. Desde janeiro último, a autoridade monetária comprou quase US$ 15 bilhões para reforçar o seguro anticrise.

Fatura da bolha


Nos Estados Unidos, confortável com o financiamento da dívida de seu país, o secretário do Tesouro norte-americano, Timothy Geithner, admitiu que o mercado imobiliário local, responsável pela crise que levou o mundo à recessão em 2008 e 2009, ainda levará pelo menos dois anos para se recuperar. “A situação do mercado imobiliário continua difícil. Há muitos prejuízos a serem absorvidos pelo sistema. Portanto, será preciso um tempo para a recuperação”, disse.

Mão amiga
Veja quais são os maiores financiadores da dívida norte-americana

Países – Total (Em US$ bilhões)
China – 1.160,1
Japão – 882,3
Reino Unido – 272,1
Exportadores de petróleo – 211,9
Brasil – 186,1
Países do Caribe – 168,6
Taiwan – 155,1
Rússia – 151,0
Hong Kong – 134,2
Suíça – 107,0

Fonte: Tesouro dos Estados Unidos.

Manual prático do Tea Party

da CartaCapital

Em meio à euforia que acompanhou a queda do regime de Hosni Mubarak, um jovem engenheiro egípcio manifestava seu júbilo na já lendária Praça Tahrir. Abriu uma faixa de solidariedade aos funcionários públicos de Wisconsin: “O Egito apoia os trabalhadores de Wisconsin – Um só mundo, um só sofrimento”.

A grande recessão provocada pelos abusos da finança desregulada e fraudulenta deixou a maioria dos estados americanos na tanga, como haveria de dizer minha saudosa avó Dona Hermelinda. Nos últimos dois anos, as receitas caíram vertiginosamente e as despesas com os direitos assegurados por lei cresceram rapidamente. Proibidos de se endividar para financiar as despesas correntes, item no qual se abrigam funções públicas como saúde, educação e segurança, talvez desimportantes na opinião dos falcões dos déficits. Os estados continuaram a receber transferências do governo federal para o Medicaid e outros programas sociais.

O presidente Barack Obama, também às voltas com os falcões republicanos, não encontrou meios para socorrer de forma mais efetiva os estados mergulhados numa crise fiscal. Mas em meio ao festival de grana curta, não faltou inspiração aos falcões, ao presidente e aos governadores para promover mais uma rodada de redução de impostos federais e estaduais aos ricos e às empresas.

Definida essa exibição de generosidade, as bordoadas sobraram para os de sempre. Desta vez, os escolhidos para bode expiatório do desarranjo provocado pela finança desvairada foram os sindicatos de funcionários públicos de Wisconsin. O projeto de lei enviado ao Legislativo pelo governador republicano Scott Walker, entre outras “benfeitorias”, elimina a negociação coletiva do rol de direitos dos trabalhadores. Para barrar a investida dos republicanos que, ademais têm maioria no Legislativo do estado, cerca de 70 mil professores, bombeiros e enfermeiras, apoiados por outras categorias de trabalhadores, manifestaram sua inconformidade com a lei diante da sede do Capitólio, em Madison, capital de Wisconsin.

No sábado 19 de fevereiro, a coisa engrossou: o deputado republicano Robin Voss menosprezou a força dos manifestantes e proclamou “o apoio maciço dos que não estavam na praça”. Um punhado de sequazes do governador Walker, gente sabidamente civilizada e cultivada do Tea Party, tentou uma contramanifestação gritando, “passem a lei, passem a lei”. Foram rapidamente cercados pela maioria que gritava “matem a lei, matem a lei” (kill the bill, kill the bill).

Walker joga pesado. Não aceita negociar com os funcionários. Sua intransigência incomoda muita gente no próprio Partido Republicano. Duro na queda, o governador mantém a recusa, a despeito dos sinais emitidos pelos sindicatos de que estão dispostos a fazer concessões. Argumenta o governador que nada tem na mão para ceder. “Assim como quase todos os estados americanos, nós estamos quebrados.” Depois de favorecer as empresas com uma redução de impostos de 117 milhões de dólares, Walker propôs, para cobrir o prejuízo, dobrar o valor da contribuição dos funcionários aos planos de saúde e um aumento substancial no pagamento dos planos de aposentadoria. Isso, naturalmente, além da supressão do direito à negociação coletiva. Os cálculos do Budget Office de Wisconsin asseguram que essas medidas vão proporcionar uma receita de 300 milhões de dólares em dois anos.

Os déficits que assolam os estados americanos nasceram, vou repetir, da forte recessão. Até os lêmures sabem que quando o nível de atividade afunda, o gasto privado sofre forte contração e a receita fiscal desmorona, como aconteceu nos Estados Unidos. A queda das receitas fiscais é acompanhada de aumento das despesas decorrentes de programas de proteção social que ainda conseguiram escapar à sanha antissocial dos conservadores americanos.

Bem disse Warren Buffett que os Estados Unidos atravessam um período de intensa luta de classes. “Só que os ricos estão ganhando”, concluiu o bilionário. A revista The American Prospect publicou uma edição especial sobre o declínio da classe média dos Estados Unidos e a descrença crescente da população na realização do sonho americano.

Há poucas dúvidas entre os especialistas a respeito da razão central da escalada- dos remediados para as camadas inferiores da pirâmide social: a perda de substância industrial da economia. A desindustrialização (palavra maldita para os conservadores) queimou milhões de postos de trabalho na manufatura e na malha de serviços que dá apoio aos complexos industriais. O transplante de fábricas para a China e outros rincões asiáticos destruíram o que Ian Fletcher chamou de ecossistema manufatureiro, isto é, as cadeias de fornecedores, as relações de clientela, os investimentos de longo prazo. “Desindustrialização”, diz ele, “não significa apenas despedir trabalhadores e derrubar edifícios. As indústrias ficam doentes e morrem de uma forma muito mais complicada”.

Até agora a “regressão” socioeconômica da classe média secretou mais ressentimentos do que reações políticas, o que engordou as legiões do conservadorismo fanático. Mas nem o fanatismo dos fundamentalistas cristãos americanos consegue sobreviver ao desemprego elevado, à raquítica criação de empregos de baixos salários, para não falar das famílias – milhões de pessoas – despejadas das residências retomadas pelos bancos. Os desalojados vivem em condições precárias. Alguns refugiaram-se na casa de parentes. Uma fração não desprezível sobrevive em trailers ou até mesmo nos automóveis, onde os desditosos dormem e fazem as refeições.

A sensação de que há algo de podre na Terra das Oportunidades começa a movimentar as frações mais atingidas pela crise. As pesquisas de opinião sobre o movimento dos trabalhadores de Wisconsin, realizadas no sábado 19, mostram que a opinião pública, mesmo os republicanos moderados, não só repudia majoritariamente a subtração de direitos como volta sua ira contra os verdadeiros responsáveis pela crise, os senhores do universo entrincheirados em Wall Street.

Em seu concorrido blog, Chris Weigand faz previsões tão sinistras quanto prováveis: “Estamos chegando muito próximos de uma situação em que os serviços públicos que cuidaram dos americanos por muitas gerações estão perto de desaparecer”.

PS: Usurpando a função dos repórteres, passei a indagar de conhecidos e outros nem tanto se, por acaso, tinham notícia do que ocorria no estado norte-americano de Wisconsin. “Provavelmente uma forte nevasca”, respondeu um cidadão que mastigava uma coxinha junto ao balcão da confeitaria. Esse, ao menos, sabia das condições climáticas da região.

À maioria esmagadora dos brasileiros, inclusive às classes médias e às abastadas, sempre presunçosas da excelência de sua formação e informação, foram subtraídas incompreensivelmente as notícias sobre os acontecimentos em Wisconsin, Indiana e Ohio. Nem fale da suspeita do risco iminente do movimento de protesto transbordar para outros estados americanos.

NIÓBIO, METAL ESTRATÉGICO

(esta é uma versão modificada e atualizada do artigo “Nióbio a Preço de Banana”, publicado em A Nova Democracia, nº 74, Ano 9, fevereiro de 2011.)                                                     

Adriano Benayon – 21.02.2011

Está em nosso País a quase totalidade das jazidas conhecidas no Planeta do nióbio, minério essencial para as indústrias aeronáutica e aeroespacial, para  a indústria nuclear, inclusive armas e seus mísseis. A atual tecnologia faz o nióbio, graças à sua superioridade substituir metais, como molibdênio, vanádio, níquel, cromo, cobre e titânio, em diversas outros setores industriais.

2. Embora a maioria das pessoas nem saiba o que é nióbio ou para que serve, esse mineral mostra emblematicamente,  como  o País, extremamente rico em recursos naturais, permanece pobre, além de perder, sem volta, esses recursos, e de se estar desindustrializando, sobre tudo nos setores de maior conteúdo tecnológico.

3. A primarização da economia brasileira é fato confirmado até nas estatísticas oficiais. O Brasil está cada vez mais importando produtos de elevado valor agregado e exportando, com pouco ou nenhum valor agregado, seus valiosos recursos naturais.

4. Isso acarreta baixos níveis salariais no País e também a gestação de crises nas contas externas, cujo equilíbrio sempre dependeu de grandes saldos (que agora estão definhando) no balanço das mercadorias, para compensar o déficit crônico nas contas de “serviços” e de “rendas”  do Balanço de Pagamento. 

5. O que está por acontecer de novo já ocorreu antes, quando  a oligarquia financeira mundial atirou o Brasil na crise da dívida externa de 1982/1987. Os prejuízos decorrentes dessa crise foram grandemente acrescidos com o privilegiamento do “serviço da dívida” no Orçamento Federal, instituído por meio de fraude, no texto da Constituição de 1988. Esse “serviço” já acarretou despesa, desde então, de 6 trilhões (sim, trilhões) de reais, com a dívida pública externa e interna, esta derivada daquela.

6. Tudo isso concorreu para  agravamento da situação gerada pelo defeito original do modelo: ter, desde 1954, favorecido os investimentos diretos estrangeiros com subsídios e vantagens maiores que os utilizáveis por empresas de capital nacional. Estas foram sendo eliminadas em função da política econômica governamental. As que restaram tornaram-se caudatárias das transnacionais e de interesses situados no exterior.  Vê-se, pois, a conexão entre os grandes vetores de empobrecimento e de primarização da economia nacional

7. O niobio é tão indispensável quanto o petróleo para as economias avançadas e provavelmente ainda mais do que ele. Além disso, do lado da oferta, é como se o Brasil pesasse mais do que todos os países da OPEP juntos, pois alguns importantes produtores não fazem parte dela.

Números

8. Cerca de 98% das reservas da Terra estão no Brasil. Delas, pois,  depende o consumo mundial do nióbio. A produção, cresceu de 25,8 mil tons. em 1997 para 44,5 mil tons., em 2006. Chegou a quase 82 mil tons. em 2007, caindo para 60,7 mil tons., em 2008, com a depressão econômica (dados do Departamento Nacional de Produção Mineral). Estima-se atualmente 70 mil toneladas/ano. Mas a estatística oficial das exportações brasileiras aponta apenas 515 toneladas do minério bruto, incluindo “nióbio, tântalo ou vanádio e seus concentrados”!

9. Fontes dignas de atenção indicam que o minério de nióbio bruto era comprado no garimpo a 400 reais/quilo, cerca de U$ 255,00/quilo (à taxa de câmbio atual e atualizada a inflação do dólar).

10. Ora, se o Brasil exportasse o minério de nióbio a esse preço, o valor anual seria US$ 15.300.000 (quinze bilhões e trezentos milhões de dólares). Se confrontarmos essa cifra com a estatística oficial, ficaremos abismados ao ver que nela consta o total de US$ 16,3 milhões (0,1% daquele valor), e o peso de 515 toneladas ( menos de 1% do consumo mundial). Observadores respeitáveis consideram que o prejuízo pode chegar a US$ 100 bilhões anuais.

11. Mesmo que o nióbio puro seja cotado a somente US$ 180 por quilo, como indica o site chemicool.com, ainda assim, o valor nas exportações brasileiras do minério bruto correspondia a apenas 1/10 disso. O nióbio não é comercializado nem cotado através das bolsas de mercadorias, como a London Metal Exchange, mas, sim, por transações intra-companhias.

12. Há, ademais, um item, ligas de ferro-nióbio, em que o total oficial das exportações alcança US$ 1,6 bilhão, valor mais de 100 vezes superior à da exportação do nióbio e de minérios a ele associados, em bruto. O mais notável é que o nióbio entra com somente 0,1% na composição das ligas de ferro-nióbio. Vê-se, assim, o enorme valor que o nióbio agrega num mero insumo industrial, de valor ínfimo em relação aos produtos finais das indústrias altamente tecnológicas que o usam como matéria-prima.

13. Note-se também que a quantidade oficialmente exportada do ferro-nióbio em 2010 foi 66.947 toneladas. O nióbio entrando com 0,1% implicaria terem saído apenas 67 toneladas de nióbio, fração ínfima da produção mundial quase toda no Brasil e do consumo mundial realizado nas principais potências industriais e militares.

Campanha nacional

14. As discrepâncias e absurdos são enormes e têm de ser elucidados e corrigidos. Para isso, há que expô-los em grande campanha nacional, que leve a acabar não só com o saqueio do nióbio, mas também com a extração descontrolada de metais estratégicos e preciosos, sem qualquer proveito para o País, o qual, ainda por cima, fica com as dívidas aumentadas.

15. O desenvolvimento dessa campanha deverá também fazer o povo entender que a roubalheira dos recursos minerais só poderá cessar se forem substituídas as atuais estruturas de poder.

* Adriano Benayon é Doutor em Economia. Autor de “Globalização versus Desenvolvimento”, editora Escrituras. abenayon@brturbo.com.br

Ivan Valente: O debate interditado sobre os juros da dívida

do VioMundo

por Luiz Carlos Azenha

O deputado Ivan Valente (PSOL-SP) resume a situação, grosseiramente, assim: os bancos mandam no governo, os bancos mandam na oposição, os bancos mandam na mídia.

Por isso, o debate sobre a dívida pública brasileira (de 2 trilhões de reais) e os juros e amortizações pagos em função dela (380 bilhões de reais em 2009) inexiste.

A partir da CPI da Dívida Pública, que teve baixíssima repercussão na mídia brasileira, Valente produziu um relatório de 870 páginas que apresentou ao Ministério Público Federal, propondo que haja uma auditoria das irregularidades e ilegalidades. “A grande mídia não tinha interesse nesse debate”, afirmou.

Motivo? Qualquer debate sobre o assunto pode causar “instabilidade no consenso conservador” que se formou entre o governo Lula e a oposição.

Valente também acha importante que se debata o custo que as reservas internacionais de cerca de 300 bilhões de dólares tem para o Brasil. Três quartos delas são em títulos do Tesouro americano que pagam juros baixíssimos, quando pagam. Em compensação, os títulos públicos que o Brasil emitiu para sustentar as reservas custam “até 14% de juros”. É como reservar o salário pagando com cheque especial.

O deputado diz que a dívida pública é “o grande gargalo” que impede os investimentos em saúde, educação e infraestrutura.

Na educação, diz que o PT “absorveu ideologias do tucanato”: o papel do governo, via ENEM, por exemplo, seria apenas o de avaliar, não de investir maciçamente em educação pública para todos, em todos os níveis.

Ele lembra que o Congresso aprovou em 2001 o investimento mínimo de 7% do PIB na educação, projeto vetado pelo então presidente FHC. O veto foi mantido ao longo de todo o governo Lula, com a taxa de investimento na educação chegando aos 5% apenas agora, em 2010.

Marta quer apoio ao projeto que torna crime a discriminação de homossexuais

Redação Carta Capital 3 de março de 2011 às 14:35h

A senadora Marta Suplicy (PT-SP), foi confirmada como relatora da matéria que torna crime a discriminação de homossexuais pelo senador Paulo Paim (PT-RS), presidente da Comissão de Direitos Humanos (CDH). Ela afirmou nesta quarta-feira 2, que “não podemos mais admitir situações de homicídio – no limite do que temos presenciado -, de humilhação, de xingamento e de espancamento de homossexuais”, ressaltando ainda que a aprovação do projeto terá repercussão nacional e internacional.

O texto havia sido arquivado com o fim da última legislatura, mas foi desarquivado por iniciativa da senadora, que reuniu as assinaturas necessárias para que a matéria voltasse a tramitar no Senado. O projeto em exame na CDH é um substitutivo aprovado pela Comissão de Assuntos Sociais (CAS).

Além da CDH, a proposição tem que ser examinada ainda pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) antes de ir ao Plenário. Caso seja aprovada pelo Senado, a proposta volta à Câmara, por ter sido modificada.

O projeto, que define penas de prisão para variadas situações consideradas discriminatórias, tramita no Congresso há dez anos e não há consenso sobre ele. Seus defensores afirmam que sua aprovação ajudará a reduzir a violência e a discriminação contra homossexuais. Aqueles que se opõem ao texto argumentam que ele restringirá as liberdades de expressão e de culto.

Eleito por unanimidade presidente da Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH), o senador Paulo Paim (PT-RS) afirmou que pretende fazer do colegiado um espaço voltado para o conjunto da população brasileira, onde a sociedade possa encaminhar demandas e dialogar com os senadores. Esta é a segunda vez que o parlamentar vai presidir a comissão – a primeira vez foi no biênio 2007-2008. Ainda na reunião desta quarta-feira, a senadora Ana Rita (PT-ES) foi eleita vice-presidente da comissão.

Líbia: O que a mídia esconde

do site Pátria Latina

Miguel Urbano Rodrigues

Transcorridas duas semanas das primeiras manifestações em Benghazi e Tripoli, a campanha de desinformação sobre a Líbia semeia a confusão no mundo. Antes de mais uma certeza: as analogias com os acontecimentos da Tunísia e do Egito são descabidas. Essas rebeliões contribuíram, obviamente, para despolitizar os protestos nas ruas do país vizinho de ambos, mas o processo líbio apresenta características peculiares, inseparáveis da estratégia conspirativa do imperialismo e daquilo que se pode definir como a metamorfose do líder.

Muamar Kadhafi, ao contrário de Ben Ali e de Hosni Mubarak, assumiu uma posição antiimperialista quando tomou o poder em 1969. Aboliu uma monarquia fantoche e praticou durante décadas uma política de independência iniciada com a nacionalização do petróleo. As suas excentricidades e o fanatismo religioso não impediram uma estratégia que promoveu o desenvolvimento econômico e reduziu desigualdades sociais chocantes. A Líbia aliou-se a países e movimentos que combatiam o imperialismo e o sionismo. Kadhafi fundou universidades e indústrias, uma agricultura florescente surgiu das areias do deserto, centenas de milhares de cidadãos tiveram pela primeira vez direito a alojamentos dignos.

O bombardeamento de Trípoli e Benghazi em l986 pela USAF demonstrou que Reagan, na Casa Branca identificava no líder líbio um inimigo a abater. Ao país foram aplicadas sanções pesadas.

A partir da II Guerra do Golfo, Kadhafi deu uma guinada de 180 graus. Submeteu-se a exigências do FMI, privatizou dezenas de empresas e abriu o país às grandes petrolíferas internacionais. A corrupção e o nepotismo criaram raízes na Líbia.

Washington passou a ver em Kadhafi um dirigente dialogante. Foi recebido na Europa com honras especiais; assinou contratos fabulosos com os governos de Sarkozy, Berlusconi e Brown. Mas quando o aumento de preços nas grandes cidades líbias provocou uma vaga de descontentamento, o imperialismo aproveitou a oportunidade. Concluiu que chegara o momento de se livrar de Kadhafi, um líder sempre incômodo.

As rebeliões da Tunísia e do Egito, os protestos no Bahrein e no Iêmen criaram condições muito favoráveis às primeiras manifestações na Líbia.

Não foi por acaso que Benghasi surgiu como o pólo da rebelião. É na Cirenaica que operam as principais transnacionais petrolíferas; ali se localizam os terminais dos oleodutos e dos gasodutos.

A brutal repressão desencadeada por Kadhafi após os primeiros protestos populares contribuiu para que estes se ampliassem, sobretudo em Benghazi. Sabe-se hoje que nessas manifestações desempenhou um papel importante a chamada Frente Nacional para a Salvação da Líbia, organização financiada pela CIA. É esclarecedor que naquela cidade tenham surgido rapidamente nas ruas à antiga bandeira da monarquia e retratos do falecido rei Idris, o chefe tribal Senussi coroado pela Inglaterra após a expulsão dos italianos. Apareceu até um “príncipe” Senussi a dar entrevistas.

A solidariedade dos grandes meios de comunicação dos EUA e da União Européia com a rebelião do povo da Líbia é, porem, obviamente hipócritas. O Wall Street Journal, porta-voz da grande Finança mundial, não hesitou em sugerir em editorial (23 de Fevereiro) que “os EUA e a Europa deveriam ajudar os líbios a derrubar o regime de Kadhafi”.

Obama, na expectativa, manteve silêncio sobre a Líbia durante seis dias; no sétimo condenou a violência, pediu sanções. Seguiu-se a reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU e o esperado pacote de sanções.

Alguns dirigentes progressistas latino americanos admitiram como iminente uma intervenção militar da NATO. Tal iniciativa, perigosa e estúpida, produziria efeito negativo no mundo árabe, reforçando o sentimento antiimperialista latente nas massas. E seria militarmente desnecessária porque o regime líbio aparentemente agoniza.

Kadhafi, ao promover uma repressão violenta, recorrendo inclusive a mercenários tchadianos (estrangeiros que nem sequer fala árabe), contribuiu para ampliar a campanha dos grandes media internacionais que projeta como heróis os organizadores da rebelião enquanto ele é apresentado como um assassino e um paranóico.

Os últimos discursos do líder líbio, irresponsáveis e agressivos, foram alias habilmente utilizados pelos media para desacreditá-lo e estimular a renúncia de ministros e diplomatas, distanciando Kadhafi cada vez mais do povo que durante décadas o respeitou e admirou.

Nestes dias é imprevisível o amanhã da Líbia, o terceiro produtor de petróleo da África, um país cujas riquezas são já amplamente controladas pelo imperialismo.

Diálogos Desenvolvimentistas Nº 22: 0% de crescimento?

Leandro Aguiar

O capitalismo que vivemos hoje se baseia em grande parte no aumento contínuo dos níveis de consumo. Foi esse aumento que ajudou os EUA a retomar, mesmo que timidamente, suas taxas de crescimento econômico, e parece ser o consumo das famílias, também, que puxou a alta nada tímida do PIB brasileiro, estimado em 7% para o ano de 2010.  

Para alguns economistas, entretanto, a idéia de que crescimento econômico e consumo são inerentemente bons deve ser revista imediatamente.

Quanto ao consumo, nada de novo. Filmes, festivais de música e candidatos a presidente já defenderam a idéia de um consumo mais consciente. Todos sabemos que a água deve ser usada com parcimônia, que eletrodomésticos com o selo do Inmetro são preferíveis aos que não possuem o selo, e não há quem não seja a favor da diminuição dos níveis de gases estufa expelidos pela indústria.

O que esses economistas chamados de “economistas ecológicos” defendem, no entanto, é bem mais polêmico que o politicamente-correto “crescimento sustentável”. Para alguns desses estudiosos, como o canadense Peter Victor, a solução para o problema ambiental é o crescimento zero, além de uma mudança radical no modo como as pessoas encaram o consumo, que hoje é visto como fator indispensável para bem estar social. (leia a matéria da Época sobre crescimento zero).   

O Desenvolvimentistas discutiu a necessidade de se remodelar a economia para atingir a sustentabilidade. Foi chamada a atenção para o fato de que os países desenvolvidos são aqueles que possuem maiores níveis de consumo insustentável, ambientalmente falando, e de que eles dificilmente estariam dispostos a diminuir tal ritmo. Sobraria, portanto, para os países em desenvolvimento, como Brasil, Índia e China, brecar seu crescimento. Alternativas também foram apontadas: o desenvolvimento tecnológico, por exemplo, pode ser uma forma de contornar o problema ambiental.

A seguir, os principais momentos do debate:

“(…) Trata-se de um debate bem polêmico. Ouso, entretanto, dizer que se John M. Keynes estivesse vivo ele provavelmente acrescentaria no capítulo 24 da sua ‘Teoria geral’ os problemas ambientais.

Para quem não se recorda da famosa citação de Keynes: “Os dois principais defeitos da sociedade econômica em que vivemos são a sua incapacidade para proporcionar o pleno emprego e a sua arbitrária e desigual distribuição da riqueza e das rendas”. (cap. 24, I).”

(…)

“A aposta no desenvolvimento tecnocientífico é uma mitologia do tipo Prometeu. Pode ajudar na eficiência energética com certeza, porém o desenvolvimento econômico busca elevar o padrão de vida médio de uma sociedade, que, por sua vez, irá consumir mais energia per capita.”

Rodrigo Medeiros, professor adjunto da UFES e sócio da Associação Keynesiana Brasileira (AKB)

(…) Quem vai pagar o preço?: 1) o pobres vão continuar relativamente mais pobres e ou desinteressados em se reproduzir até sua população decrescer (como querem os conservadores e já está tendendo a acontecer em muitos países, inclusive o Brasil, Índia, China e boa parte da áfrica subsaariana)? 2) ou os países ricos vão reduzir sua renda até se igualar aos atuais pobres em um ponto médio? 3) ou é melhor apostar no desenvolvimento tecnológico?”

Gustavo Santos, economista

“Acredito que o desenvolvimento passa por aumento do consumo nos países mais pobres simultaneamente com a diminuição do consumo nos países mais ricos. Provavelmente há países com nível de consumo per capita sustentável, ainda que desigual e injusto internamente. O Brasil deve ser um exemplo desse tipo de país.

Desenvolvimento tecnológico é sem dúvida necessário, mas é evidente que há limites para o consumo total no planeta. A aposta que o desenvolvimento tecnológico é a resposta para todos os problemas é a aposta do Capital, que não conhece limites e quer continuamente se expandir na sua lógica competitiva.”

Mauro Patrão, professor do departamento de matemática da UNB

Em termos globais, depois dos fracassos das convenções internacionais, parece evidente que as lideranças mundiais são insensíveis ao problema. Agora, aqui no Brasil, a questão é tratada de forma equivocada há muito tempo. O fato de termos uma matriz mais renovável não nos deveria “isentar” do problema.”

Roberto Pereira D´Araújo, engenheiro eletricista