Leandro Aguiar
Desde o sucesso, em plena Grande Depressão, e logo nas primeiras semanas de mandato de Franklin Roosevelt como presidente dos Estados Unidos, convencionou-se que os partidos de oposição dariam uma trégua de 100 dias aos governantes recém-empossados. A idéia é elegante e republicana, e como várias outras provenientes da América, foi rapidamente absorvida pelo Brasil.
Os 100 dias de Dilma já estão próximos do fim, e a oposição deixa anotadas todas suas observações, para quando a lua de mel da presidenta acabar. A principal delas é provavelmente o corte bilionário no orçamento da União, que ultrapassa a casa dos 50 bilhões. Nada mais normal e saudável, claro, que uma oposição que discorde da situação; o curioso é que, agora, são os eleitores de Dilma que têm as críticas mais duras a fazer.
Aumentos sucessivos da taxa Selic, real sobrevalorizado, indústria nacional desprotegida, preocupação exagerada em atender aos anseios do “mercado”, falta de planejamento e de um projeto nacional consistente. A lista é extensa, e a preocupação dos chamados “progressistas” pode ser sentida principalmente na internet, nos vários blogs que, como este, discutem política e economia. A maioria, inclusive, nem esperou os protocolares 100 dias para anunciar seu desespero ante os rumos do governo atual.
O Desenvolvimentistas escolheu um dos temas da lista acima para debater: o projeto nacional. É consensual a importância de o governo se aprofundar nesse ponto, que, para todos os participantes da discussão, tem sido esquecido há anos, e por vários partidos que já estiveram no poder. Acompanhe as opiniões e impressões dos desenvolvimentistas:
“Afinal, onde está o projeto nacional? Há algum sendo discutido no governo da Dilma ou mesmo na sociedade civil?
O que dizer da política monetária praticada pelo BCB? Ela é claramente anti-industrializante. Com a entrada do pré-sal, o que se pode esperar do câmbio?”
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“A tal independência do BCB é de lascar. Independência em relação a quem? Certamente que não em relação ao “mercado”. Daí o dólar abaixo de R$1,70. Para que se tenha apenas uma idéia do tamanho dessa encrenca, o Índice Big Mac da The Economist aponta para o dólar a R$2,31, aproximadamente.”
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“Lula, por sua vez, não alterou os fundamentos da política econômica que herdou, embora pudesse ter utilizado a crise de 2008 para realizar uma inflexão. Alguns dizem que faltou estudo e “luzes” ao ex-metalúrgico. Pode ser, mas penso que faltou mesmo foi coragem e audácia.”
Rodrigo Medeiros, professor adjunto da UFES e sócio da Associação Keynesiana Brasileira (AKB)
“sem um Plano Nacional de Desenvolvimento e, insisto, de Estado, vamos continuar desperdiçando recursos sem sair do lugar. Precisamos ter foco, veja o exemplo recente (ainda em andamento) da China, que está criando uma espécie de “cluster” por setor (nuclear, aeroespacial, nano e biotecnologia, etc), no qual todos os agentes públicos e instituições envolvidas com o tema estão concentrados (organizacionalmente), isto é, há uma esforço conjunto e otimizado na execução dos objetivos estabelecidos pelo governo.”
Carlos Ferreira
“O exemplo mais concreto dessa ausência total de planificação é o caso das usinas hidroelétricas no Brasil. Aqui, a cabeça mercantil do governo trata usinas como fábricas de kWh. Tudo é visto pela ótica do mercado competidor. O absurdo chegou a tal ponto que, no início do governo Lula, chegou-se a fazer leilão onde hidráulicas concorriam com outras formas de geração através de um complicado Índice Custo Benefício que só via aspectos energéticos. A ideologia predominante é a talibanesca “o mercado decide”. Uma dessas experiências mimetizadas deu no que deu: Muita usina a óleo e diesel!
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A necessidade de um PND é gritante, mas, sinceramente, sob a ideologia mercantil dominante, não vamos ter isso nunca. Na minha área, setor elétrico, eu pergunto: Para que ter empresas públicas se elas se comportam como se privadas fossem? Nem área de atuação existe mais!”
Roberto D’Araújo, engenheiro eletricista
“Acho que a maioria de nós concorda quanto à necessidade dos PNDs e dos planos regionais previstos na Constituição. O problema, a meu ver, é pararmos nessa concordância. Daí a sugestão de construirmos coletivamente esboços de diretrizes para esses instrumentos de planejamento. Passarmos da reivindicação para a ação.”
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“sobre os Planos Plurianuais (PPA’s) a minha avaliação hoje é que não adianta forçar a barra para que eles cumpram o papel de planos nacionais de desenvolvimento ou de planos de desenvolvimento regional. A meu ver, por mais que se façam esforços neste sentido, a tendência é eles se consolidarem como orçamentos plurianuais. e acho bom que assim seja. A minha sugestão é que se façam ajustes legais para que o PPA passe a ter a mesma vigência do mandato do presidente eleito, sendo assim um plano de governo na forma de orçamento plurianual.”
Márcio Oliveira, analista político

