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Brasil está se tornando uma potência científica, diz relatório

Estudo afirma que há avanços em áreas específicas da ciência em alguns países, como a de biocombustíveis no Brasil

BBC Brasil29/03/2011 16:36

Um relatório divulgado na Grã-Bretanha indica que o Brasil e outros países emergentes, liderados pela China, estão despontando como grandes potências na área de produção de estudos científicos, capazes de rivalizar com países que têm tradição nessa área, como os Estados Unidos, nações da Europa Ocidental e o Japão.

De acordo com o estudo feito pela Royal Society, a academia nacional de ciência britânica, São Paulo subiu para do 38º para o 17º lugar na lista de cidades com mais publicações científicas no mundo, o que “reflete o rápido crescimento da atividade científica brasileira”.

A representatividade dos estudos brasileiros teve leve aumento: entre 1999 e 2003, eles equivaliam a 1,3% do total de pesquisas científicas globais. Entre 2004 e 2008, essa porcentagem subiu para 1,6.

Mas “as reduções significativas no orçamento de ciência em 2011 levantam preocupações”, diz o relatório. Em meio aos cortes de R$ 50 bilhões,anunciados pelo governo no orçamento federal, o Ministério de Ciência e Tecnologia deve perder R$ 1,7 bilhão.

China
O relatório, chamado Conhecimento, Redes e Nações: A Colaboração Científica no Século 21,  analisa a publicação de trabalhos científicos por país no período entre 1996 e 2008.

Segundo o levantamento, o desempenho da China é ”particularmente notável” – a publicação de documentos científicos do país superou as do Japão e da Europa nos últimos anos.

O país asiático só é ultrapassado pelos Estados Unidos, mas deve superá-los antes de 2020, se a atual tendência continuar.

Em 1996, os Estados Unidos tinham produção científica dez vezes maior que a chinesa; hoje, sua produção, com crescimento menor, não chega a ser o dobro da do país asiático.

No entanto, o relatório diz que ”ainda demorará algum tempo para que a produção dessas nações emergentes esteja à altura de ser uma referência para a comunidade científica internacional”, ressalta a pesquisa.

Áreas específicas

O estudo diz que há avanços em áreas específicas da ciência em alguns países, entre eles o Brasil.
”Existe diversificação de alguns países demonstrando lideranças em setores específicos, como a China em nanotecnolgia, e o Brasil em biocombustíveis, mas as nações avançadas do ponto de vista científico continuam a dominar a contagem de citações”.

A pesquisa também identificou nações emergentes no campo da ciência que não costumam ser associadas a uma base científica forte, como o Irã, a Tunísia e a Turquia.

As projeções feitas pelo relatório “sugerem que o sistema científico global está se desvencilhando de seu padrão anterior”.

“China e Coreia do Sul cumprem com suas ambiciosas metas de investimento em pesquisa e desenvolvimento, enquanto economias como Brasil e Rússia também prometem recursos substancialmente maiores para pesquisas.”

Com isso, é possível que nações emergentes – Brasil incluído – superem os investimentos de países como Japão e França no setor.

 

 

Urânio empobrecido, uma estranha forma de proteger os civis líbios

Carta Maior

Nas primeiras 24 horas de bombardeios a Libia, os aliados gastaram 100 milhões de libras esterlinas em munição dotada de ponta de urânio empobrecido. Trata-se de um resíduo do processo de enriquecimento de urânio que é utilizado nas armas e reatores nucleares, sendo uma substância muito valorizada no exército por sua capacidade para atravessar veículos blindados e edifícios. Esse urânio empobrecido pode causar danos renais, câncer de pulmão, câncer ósseo, problemas de pele, transtornos neurocognitivos, danos genéticos em bebês e síndromes de imunodeficiência, entre outras doenças. O artigo é de David Wilson.

David Wilson – Stop the War Coalition

Data: 27/03/2011

Stop the War Coalition

“Os mísseis que levam pontas dotadas de urânio empobrecido se ajustam à perfeição à descrição de uma bomba suja…Eu diria que é a arma perfeita para assassinar um monte de gente”.
Marion Falk, especialista em física e química (aposentada), Laboratório Lawrence Livermore, Califórnia (EUA).

Nas primeiras vinte e quatro horas do ataque contra a Líbia, os B-2 dos EUA lançaram 45 bombas de 2 mil libras de peso cada uma (um pouco menos de uma tonelada). Estas enormes bombas, junto com os mísseis de cruzeiro lançados desde aviões e navios britânicos e franceses, continham ogivas de urânio empobrecido.

O DU (urânio empobrecido, na sigla em inglês) é um resíduo do processo de enriquecimento de urânio que é utilizado nas armas e reatores nucleares. Trata-se de uma substância muito pesada, 1,7 vezes mais densa que o chumbo, muito valorizada no exército por sua capacidade para atravessar veículos blindados e edifícios. Quando uma arma que leva uma ponta de urânio empobrecido golpeia um objeto sólido, como uma parte de um tanque, penetra através dele e depois explode formando uma nuvem quente de vapor. Esse vapor se transforma em um pó que desce ao solo e que é não só venenoso, mas também radioativo.

Um míssil com urânio empobrecido quando impacta algo sólido queima a 10.000°C. Quando alcança um objetivo, 30% dele fragmentam-se em pequenos projéteis. Os 70% restantes se evaporam em três óxidos altamente tóxicos, incluído o óxido de urânio. Este pó negro permanece suspenso no ar, e dependendo do vento e das condições atmosféricas pode viajar a grandes distâncias. Se vocês pensam que Iraque e Líbia estão muito distantes, lembrem-se que a radiação de Chernobyl chegou até Gales.

É muito fácil inalar partículas de menos de 5 micra de diâmetro, que podem permanecer nos pulmões ou em outros órgãos durante anos. Esse urânio empobrecido inalado pode causar danos renais, câncer de pulmão, câncer ósseo, problemas de pele, transtornos neurocognitivos, danos genéticos, síndromes de imunodeficiência e estranhas enfermidades renais e intestinais. As mulheres grávidas expostas ao urânio empobrecido podem dar à luz a bebês com deformações genéticas. Uma vez que o pó se vaporiza, não cabe esperar que o problema desapareça. Como emissor de partículas alfa, o DU tem uma vida média de 4,5 milhões de anos.

No ataque da operação “choque e pavor” contra o Iraque foram lançadas, somente sobre Bagdá, 1.500 bombas e mísseis. Seymour Hersh afirmou que só o terceiro comando de aviação dos Marines dos EUA lançou mais de “quinhentas mil toneladas de munição”. E tudo isso carregava pontas de urânio empobrecido.

A Al Jazeera informou que as forças invasoras estadunidenses dispararam 200 toneladas de material radioativo contra edifícios, casas, ruas e jardins de Bagdá. Um jornalista do Christian Science Monitor levou um contador Geiger até zonas da cidade que sofreram uma dura chuva de artilharia das tropas dos EUA. Encontrou níveis de radiação entre 1.000 e 1.900 vezes acima do normal em zonas residenciais. Com uma população de 26 milhões de habitantes, isso significa que os EUA lançaram uma bomba de uma tonelada para cada 52 cidadãos iraquianos, ou seja, uns 20 quilos de explosivos por pessoa.

William Hague, Secretário de Estado de Assuntos Exteriores britânico, disse que estávamos indo a Líbia “para proteger os civis e as zonas habitadas por civis”. Vocês não têm que olhar muito longe para ver a quem e o que está se “protegendo”.

Nas primeiras 24 horas, os aliados gastaram 100 milhões de libras esterlinas em munição dotada de ponta de urânio empobrecido. Um informe sobre controle de armamento realizado na União Europeia afirmava que seus estados membros concederam, em 2009, licenças para a venda de armas e sistemas de armamento a Líbia no valor de 333.357 milhões de euros. A Inglaterra concedeu licenças às indústrias bélicas para a venda de armas a Líbia no valor de 24,7 milhões de euros e o coronel Kadafi pagou também para que a SAS (sigla em inglês do Serviço Especial Aéreo) para treinar sua 32ª Brigada.

Eu aposto que nos próximos 4,5 milhões de anos, William Hague não irá de férias ao Norte da África.

 

O apetite chinês

da CartaCapital

Delfim Netto

O mercado interno de consumo chinês é hoje o mais apetitoso do mundo e, provavelmente, continuará nessa condição por toda a presente década e, quiçá, pelos 20 anos adiante. As decisões de política econômica e da geopolítica chinesas têm demonstrado agilidade em aproveitar as possibilidades de competição que uma economia “de mercado” (assim mesmo, entre aspas) oferece e as vantagens que a centralização do poder permite em certas escolhas estratégicas.

Num comentário recente, lembrei o resultado de uma disputa com os Estados Unidos há mais de 30 anos, quando a China soube usar aquelas vantagens para dominar a produção de terras raras e a comercialização mundial desse insumo, fundamental nas pesquisas de novas tecnologias da comunicação e de desenvolvimento dos processos para produção de energia alternativa ao petróleo.

Não importa qual o modelo que organiza nossas economias, o desenvolvimento é basicamente alimentado pelas inovações, e todos devem poder apropriar-se dos benefícios resultantes do seu trabalho. As regras dentro das quais o jogo se realiza são definidas pela Constituição do Estado onde ele ocorre. Elas devem propiciar um ambiente institucionalmente amigável para atender às condições anteriores.

O problema é que, como inúmeros exemplos históricos comprovam, as decisões tomadas pelo setor privado apenas olhando as condições presentes tendem, frequentemente, quando não estimuladas por um Estado-Indutor adequado, a ignorar os benefícios futuros de atividades que não parecem eficientes no curto prazo. Os mercados e seus agentes costumam ser míopes e oportunistas, por conta da própria opacidade do futuro. É claro que as inovações não podem ser antecipadas nem por eles nem pelo Estado-Indutor. Essa incerteza explica por que é difícil para o mercado coordenar com eficácia as decisões de longo prazo.

Um dos exemplos mais marcantes dessa falha, quando o mercado é deixado a si mesmo para escolher o futuro, talvez seja o que aconteceu na questão das terras raras. Há 30 anos, os EUA eram os maiores produtores do mundo, mas não havia mercado para acolher a produção e, logo, estímulos a novos investimentos em pesquisa e desenvolvimento. Os chineses, usando mão de obra barata, métodos primitivos e incentivos apropriados, aproveitaram a oportunidade.

Aumentaram a sua oferta a preços que eliminaram a produção americana. O mercado revelou sua miopia e oportunismo: transferiu toda a sua demanda para a China! Os chineses aperfeiçoaram a tecnologia da sua produção, organizaram-na e mantiveram seus incentivos. Hoje, representam 97% da oferta mundial. Controlam a sua exportação, reservando-as para uso doméstico, o que lhes dá vantagem competitiva nas tecnologias de última geração.

Olhado superficialmente, o fato parece sugerir que os dois (os agentes competitivos nos EUA e o Estado chinês) agiram racionalmente. Os primeiros reduziram seus custos. O segundo deu emprego à sua mão de obra excedente. Logo, tudo parece ter terminado no melhor dos mundos. A não ser que, entre seus inegáveis talentos, Deng Xiao Ping tivesse, também, o de conhecer o futuro, é difícil explicar por que ele disse, em plena crise do petróleo nos anos 80, “os senhores têm o petróleo, mas a China tem as terras raras”…

Não há dúvida sobre as virtudes da competição e dos mercados (a história mostra que elas existem e são imensas) nas economias fechadas. Quando se trata de economias abertas, o mínimo que se exige para a sobrevivência daquelas virtudes, é que o comércio se faça em condições isonômicas. É absolutamente legítimo e economicamente correto estimular atividades em que a dimensão do mercado interno permite ou permitirá a absorção de tecnologia capaz de, usando na margem o mercado externo, construir num prazo razoável vantagens comparativas para que seus produtos possam competir no exterior sem a ajuda do Estado-Indutor.

O fundamental é a existência da capacidade para absorver a tecnologia, de ambientá-la no estado da arte e, principalmente, ter a perspectiva de segura demanda interna futura. Sem essa última, o incentivo necessário para o início do processo tem pouca probabilidade de sobreviver. Deveria ser óbvio que os estímulos chineses (taxa de câmbio desvalorizada, taxa de juros muito baixa e amplo crédito para exportação), oferecidos a quem investir localmente e transferir tecnologia, têm funcionado com sucesso porque eles são o mais apetitoso mercado interno do mundo.

 

 

Nove bilhões de bocas

The Economist

O campo Broadbalk, de 1,6 hectare, fica no centro da fazenda Rothamsted, a cerca de 40 quilômetros ao norte de Londres. Em 1847, o fundador da fazenda, Sir John Lawes, descreveu o solo ali como limoso, pesado, repousando sobre uma camada de greda e capaz de produzir um bom trigo quando bem adubado. A colheita de 2010 não pareceu
fazer jus ao seu parecer. No centro do campo, o trigo é abundante, produzindo 10 toneladas por hectare, uma das taxas mais altas do mundo para um cultivo comercial. Mas, a extremo oeste, perto da casa senhorial, a produtividade é de apenas 4 ou 5 toneladas por hectare; em outras partes, pés ainda mais magros rendem somente 1 ou 2 toneladas.

Broadbalk não é um campo comum. O primeiro cultivo experimental de trigo no inverno foi semeado lá no outono de 1843, e nos últimos 166 anos o campo, que é parte da estação de pesquisa Rothamsted, foi palco do experimento agrícola contínuo mais duradouro do mundo. Agora, diferentes partes do campo são semeadas usando-se técnicas diferentes, fazendo de Broadbalk um microcosmo do estado atual da agricultura mundial.

O trigo que rende uma tonelada por hectare se parece com o de um campo africano, e pela mesma razão: ele não recebeu fertilizantes, pesticidas ou qualquer outra coisa aplicada a ele. Às vezes, os fazendeiros africanos são tidos como os responsáveis pela sua baixa produtividade, mas a culpa está na tecnologia disponível para eles. Com a mesma tecnologia, europeus e americanos obteriam os mesmos resultados.

*Confira este conteúdo na íntegra da edição 638 da CartaCapital, já nas bancas.

 

Twitter: a nova via da revolução?

Envolverde

Por Redação IHU

Entrevista especial com Sandra Montardo, Pollyana Ferrari, Adriana Amaral e Matheus Lock dos Santos.

No Egito, os manifestantes derrubaram Hosni Mubarak depois de 30 anos no poder. As organizações dos movimentos se deram através do Twitter e do Facebook. Antes disso, na Tunísia, a população usa o Facebook e o Twitter para organizar manifestações que resultaram na destituição do presidente Ben Ali. Este episódio ficou conhecido como “revolução na Tunísia foi tuitada”, numa menção ao documentário “A revolução não será televisionada”, que apresenta os acontecimentos do golpe contra o governo do presidente Hugo Chávez, em abril de 2002. Na Líbia, o Conselho Nacional transitório, órgão criado pelos rebeldes, abriu uma conta no Twitter para se comunicar com os meios de comunicação nacionais e estrangeiros de forma direta. Após o terremoto que vitimou mais de dez mil pessoas no Japão, o povo usa o microblog para buscar informações sobre parentes e vítimas.

Não há como negar que o Twitter se tornou o meio de comunicação mais democrático da atualidade. “Não podemos dizer que, no caso da Líbia, Egito e Tunísia, foram as redes sociais que revolucionaram o movimento. O movimento já existia, a insatisfação popular já existia, só que as redes sociais potencializam a forma de atuação. Então, elas permitem que mais pessoas postem mais coisas, mesmo em regimes ditatoriais cujo controle é de ordem máxima”, explica a professora Pollyana Ferrari durante a entrevista que concedeu à IHU On-Line. Ela é complementada pela professora Adriana Amaral, que diz: “O poder revolucionário está nas pessoas, mas as redes potencializam e redistribuem esse poder, para o bem ou para o mal. Houve uma demanda que as mídias massivas de repente não estavam conseguindo contemplar”. Na mesma entrevista, a professora Sandra Montardo afirma que o papel do Twitter é importante porque está sendo utilizado em busca da democracia. Porém, ainda que o potencial do microblog esteja em alta, ele ainda sofre controle. O próprio Egito bloqueou o acesso ao sítio (twitter.com) quando percebeu seu potencial. “A internet e as plataformas que vieram com ela funcionam muito para ajudar a comunicação, a circulação de informação, mas ainda são fortemente controladas”, aponta Matheus Lock dos Santos. As quatro entrevistas foram concedidas por telefone à IHU On-Line.

Sandra Montardo é doutora em Comunicação Social pela PUCRS e professora de Ambientes Digitais na Feevale.

Pollyana Ferrari é doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo. É autora de A força da mídia social: interface e linguagem jornalística no ambiente digital (São Paulo: Factash, 2010).

Adriana Amaral é doutora em Comunicação Social pela PUCRS e professora de Jornalismo Online na Universidade do Vale do Rio dos Sinos.

Matheus Lock dos Santos é mestrando em Comunicação e Informação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul onde apresentará a pesquisa intitulada Manifestações em 140 caracteres: a mobilização popular e a formação de redes sociais no Twitter para o debate e confronto político.

Confira as entrevistas.

IHU On-Line – Como você avalia o uso das redes sociais em conflitos recentes, como no Egito, na Líbia e, até em desastres naturais, como no Japão?

Sandra Montardo – Parece-me fundamental o uso de tais ferramentas até para, de certa forma, determinar alguns destes acontecimentos. Por exemplo, li em uma reportagem que primeiro houve uma revolução na Tunísia e que os tunisianos avisaram via Facebook sobre os acontecimentos. Eles colocavam formas de se proteger em protestos, de escapar de bombas de gás lacrimogêneo, divulgando formas de como se organizar. Houve, então, uma troca de informações entre os tunisianos e os egípcios. Este é um belo exemplo de como a rede está sendo utilizada para a democracia.

Pollyana Ferrari – Esse é um excelente uso. Sempre falei que as redes sociais, principalmente Twitter e Facebook, tinham muita capacidade de uso político e para ajuda humanitária. A Cruz Vermelha, por exemplo, está fazendo um excelente trabalho no caso do Japão. O Greenpeace, na questão do vazamento nuclear, também está fazendo uma excelente cobertura utilizando as redes sociais. Porém, não podemos dizer que no caso da Líbia, Egito e Tunísia foram as redes sociais que revolucionaram o movimento. O movimento já existia, a insatisfação popular já existia, só que as redes sociais potencializam a forma de atuação. Então, elas permitem que mais pessoas postem mais coisas, mesmo em regimes ditatoriais cujo controle é de ordem máxima.

Adriana Amaral – As redes sociais estão mostrando que são artefatos que estão presentes cada vez mais presentes no cotidiano das pessoas. E as pessoas vão se apropriando delas conforme suas experiências culturais, suas relações.

Matheus Lock dos Santos – Vejo a utilização das redes sociais mais como uma plataforma de engajamento político que vai ajudar movimentos sociais populares, como aconteceu no Irã em 2008, como uma forma de complemento em relação à comunicação.  Várias pessoas estão falando que as redes sociais estão explodindo essas formas de movimentação e protesto. Mas, na verdade, é necessário ter um ambiente social muito mais em ebulição do que uma ferramenta para fazer um movimento social.

As redes sociais são muito importantes, sim, porque facilitam muito a circulação de informações. Elas não são, todavia, o foco principal. No Iêmen, por exemplo, a população é muito pobre, praticamente não tem acesso à internet. Mesmo assim a população está se articulando de forma incrível com as condições possíveis. Acho que elas são extremamente importantes, mas não podem levar o crédito todo.

IHU On-Line – Podemos dizer que as redes sociais foram a base das revoltas árabes?

Sandra Montardo – Elas tiveram um papel importante. Li outra matéria falando que um jornalista estava preso, mas ninguém sabia de seu paradeiro. Como tinha acesso ao celular, ele tuitou sobre sua condição e rapidamente as pessoas do seu país foram atrás de informações e conseguiram soltá-lo. São coisas deste tipo, ele só colocou uma hashtag “#arrested”, e as pessoas conseguiram se mobilizar para libertá-lo.

Pollyana Ferrari – Como plataforma de mídia, digo que sim; como movimento social, não, porque nem tudo ocorreu no virtual. Se formos pensar como mídia, o papel das redes sociais foi revolucionário, sem dúvida alguma.

Adriana Amaral – Diria que elas foram um facilitador desse “troféu”.

Matheus Lock dos Santos – Elas não foram a base. Os conflitos têm uma construção muito mais histórica de problemas de emprego, de dominação, de coação. Os fatores históricos são muito mais profundos que as redes sociais. Essas são plataformas que tiveram um grande êxito por serem rápidas; são formas mais dinâmicas de comunicação.

IHU On-Line – Você acredita que as redes sociais têm um poder revolucionário?

Sandra Montardo – Acredito sim. As redes, por si só, não fazem nada, mas possibilitam que as pessoas, de uma maneira mais fácil e mais rápida, consigam se conectar e se organizar mais rapidamente para alguma coisa.

Pollyana Ferrari – Não chamaria de poder revolucionário. A palavra é um pouco apoteótica demais. Podemos dizer o seguinte: as redes sociais potencializam qualquer manifestação e movimento, seja ajuda humanitária, movimentos políticos, causas trabalhistas. O caso dos ciclistas, em Porto Alegre, que foram atropelados é um exemplo disso. É uma evolução, não uma revolução. Se tivéssemos, em maio de 1968, o Twitter, a situação teria sido muito diferente. São movimentos sociais ancorados pelas redes sociais. Essas ferramentas dão força, capacidade de dizer para muita gente o que você quer rapidamente.

Tenho um pé atrás de dizer que foi essa plataforma que revolucionou todas as manifestações. O povo do Egito estava, por exemplo, há mais de um ano fazendo denúncias via Twitter. Este país tem muitos blogueiros; usava o Facebook com bastante propriedade. Quando resolveram ir para a rua, estavam muito organizados. A pessoa encontra no microblog um canal para viabilizar suas manifestações; não é a ferramenta que faz a revolução. Há o desejo das pessoas de contar. Um paralelo é Cuba. Com todas a efervescência e manifestações contra governos ditatoriais. por que Cuba não usa o Twitter? Há tantos blogueiros no país… Falta força popular, nesse caso.

Adriana Amaral – Prefiro acreditar que o poder revolucionário está nas pessoas, mas as redes potencializam e redistribuem esse poder, para o bem ou para o mal. Houve uma demanda que as mídias massivas de repente não estavam conseguindo contemplar. Desta forma essas ferramentas acabam sendo apropriadas de outras maneiras, como aquela de, digamos assim, dar conta dessa faceta de conflito.

IHU On-Line – Pela poderosa rede social que é, o Twitter se converteu no que podemos chamar de protagonista dessas revoltas no mundo árabe, pela ascensão e queda de personagens. Cinco anos depois da ferramenta, ela continua crescendo. O que isso significa para a comunicação?

Sandra Montardo – Significa várias coisas. As pessoas têm uma forma rápida de se comunicar e fazer suas mensagens chegarem a muitas outras. Cada vez mais a ferramenta vai se adequando aos usos que são dados a ela. Por exemplo, aplicativos como o Tweetdeck possibilitam que nós possamos buscar por colunas as hashtags que nos interessa. O próprio twitter, com sua atual interface, facilita a função Retweet (retuitar). No começo não existia essa função; foram os usuários que inventaram o retuite. A história trending topics foi surgindo depois que os usuários criaram e passaram a usar as hashtags. O interessante é isso: a ferramenta vai ter vida longa se conseguir ir se adaptando às necessidades dos usuários que vão se alternando no decorrer do tempo e também a partir do uso que elas fazem das próprias ferramentas.

Pollyana Ferrari – Acredito que, neste momento, é a principal ferramenta para esse tipo de ação. O Facebook está crescendo. Este possui o Facebook Causes para quando se quer fazer doações. Mas ainda não superou o Twitter. Por que essa ferramenta deu tão certo? Porque é muito fácil mexer nela. Não requer grandes habilidades, não requer flash, nenhuma parafernália.

Matheus Lock dos Santos – O Twitter veio de uma forma muito forte para agregar a questão da circulação da informação. Fica cada vez mais difícil a relação entre controle e censura. Essa relação de luta pelo poder simbólico da informação é ainda disputada por jogadores muito fortes e ainda vai continuar dessa forma. Seria uma ingenuidade de nossa parte achar que o Twitter – e ferramentas desse tipo – veio para democratizar a informação maravilhosamente bem. Tanto isso é verdade que está aí a luta fervorosa contra o WikiLeaks por parte dos Estados Unidos e da China. Controle e censura sempre vão haver. Nos EUA existem centros de informação e inteligência do governo que seguem tuiteiros que seriam ditos “revolucionários”. A internet e as plataformas que vieram com ela funcionam muito para ajudar a comunicação, a circulação de informação, mas ainda são fortemente controladas. Elas vieram para agregar, e espero que outras plataformas continuem sendo criadas para expandir cada vez mais as forças da resistência.

EUA e aliados cometem crimes monstruosos na Líbia

por Miguel Urbano Rodrigues

Os EUA e os seus aliados repetem na Líbia crimes contra a humanidade similares aos cometidos no Iraque e no Afeganistão.

A agressão ao povo líbio difere das outras apenas porque o discurso que pretende justificá-la excede o imaginável no tocante à hipocrisia.

A encenação prévia, pela mentira e perfídia, traz à memória as concebidas por Hitler na preparação da anexação da Áustria e das campanhas que precederam a invasão da Checoslováquia e da Polónia.

Michel Chossudovsky, James Petras e outros escritores progressistas revelaram em sucessivos artigos – citando fontes credíveis – que a rebelião de Benghazi foi concebida com grande antecedência e minúcia e alertaram para o papel decisivo nela desempenhado pelos serviços de inteligência dos EUA e do Reino Unido.

A suposta hesitação dos EUA em apoiar a Resolução do Conselho de Segurança da ONU que criou a chamada zona de “Exclusão Aérea”, e posteriormente, em assumir a “coordenação das operações militares” foi também uma grosseira mentira. Farsa idêntica caracterizou o debate em torno da transferência para a NATO do comando da operação dita “Amanhecer de Odisseia”, titulo que ofende o nome e a epopeia do herói de Homero.

O Pentágono tinha elaborado planos de intervenção militar na Líbia muito antes das primeiras manifestações em Benghazi, quando ali apareceram as bandeiras da monarquia fantoche inventada pelos ingleses após a expulsão dos italianos. Tudo isso se acha descrito em documentos (alguns constantes de correspondência diplomática divulgada pela Wikileaks) que principiam agora a ser tornados públicos por webs alternativos.

OS CRIMES ENCOBERTOS

Os discursos dos responsáveis pela agressão ao povo líbio e a torrencial e massacrante campanha de desinformação montada pelos grandes media ocidentais, empenhados na defesa e apologia da intervenção militar, são diariamente desmentidos pela tragédia que se abateu sobre a Tripolitania, ou seja o ocidente do país controlado pelo Governo.

Hoje não é mais possível desmentir que o texto da Resolução do CS – que não teria sido aprovado sem a abstenção cúmplice da Rússia e da China – foi desafiadoramente violado pelos Estados agressores.

Os ataques aéreos não estavam previstos. Mas foram imediatamente desencadeados pela força aérea francesa e pelos navios de guerra dos EUA e do Reino Unido que dispararam em tempo mínimo mais de uma centena de mísseis de cruzeiro Tomahwac sobre alvos muito diferenciados.

Têm afirmado repetidamente os governantes dos EUA do Reino Unido, da França, da Itália que a “intervenção é humanitária” para proteger as populações e que “os danos colaterais” por ela provocados são mínimos.

Mentem consciente e descaradamente.

As “bombas inteligentes” não são cegas. Têm atingido, com grande precisão, depósitos de combustíveis e de produtos tóxicos, pontes, portos, edifícios públicos, quartéis, fábricas, centrais eléctricas, sedes de televisões e jornais. Reduziram a escombros a residência principal de Muamar Khadafi.

Um objectivo transparente foi a destruição da infra-estrutura produtiva da Líbia e da sua rede de comunicações.

Outro objectivo prioritário foi semear o terror entre a população civil das áreas bombardeadas.

Afirmaram repetidas vezes o secretário da Defesa Robert Gates e o secretário do Foreign Ofice, William Haggue que as forças daquilo a que chamam a «coligação» mandatada pelo Conselho de Segurança, não se desviaram das metas humanitárias de “Odisseia”. Garantem que o número de vítimas civis tem sido mínimo e, na maioria dos bombardeamentos cirúrgicos, inexistente.

Não é o que informam os correspondentes de alguns influentes media ocidentais e árabes.

Segundo a Al Jazeera e jornalistas italianos, o “bombardeamento humanitário” de Adhjedabya foi na realidade uma matança sanguinária, executada com requintes de crueldade.

Outros repórteres utilizam a palavra tragédia para definir os quadros dantescos que presenciaram em bairros residenciais de Tripoli.

Generais e almirantes norte-americanos e britânicos insistem em negar que instalações não militares ou afins tenham sido atingidas. É outra mentira. As ruínas de um hospital de Tripoli e de duas clínicas de Ain Zara, apontadas ao céu azul do deserto líbio, expressam melhor do que quaisquer palavras a praxis dos “bombardeamentos humanitários”. Jornalistas que as contemplaram e falaram com sobreviventes do massacre, afirmam que em Ain Zara não havia um só militar nem blindados, sequer armas.

Numa tirada de humor negro, no primeiro dia da agressão, um oficial dos EUA declarou que a artilharia anti aérea líbia ao abrir fogo contra os aviões aliados que bombardeavam Tripoli estava a “violar o cessar-fogo” declarado por Khadafi.

Cito o episódio por ser expressivo do desvario, do farisaísmo, do primarismo dos executantes da abjecta agressão ao povo líbio, definida como “nova cruzada” por Berlusconi, o clown neofascista da coligação ocidental.

Khadafi é o sucessor de Ben Laden como inimigo número um dos EUA e dos governantes que há poucos meses o abraçavam ainda fraternalmente.

O dirigente líbio não me inspira hoje respeito. Acredito que muitos dos seus compatriotas que participam na rebelião da Cirenaica e exigem o fim do seu regime despótico actuam movidos por objectivos louváveis.

Mas invocar a personalidade e os desmandos de Muamar Khadafi no esforço para apresentar como exigência de princípios e valores da humanidade a criminosa agressão ao povo de um país soberano é o desfecho repugnante de uma ambiciosa estratégia imperialista.

O subsolo líbio encerra as maiores reservas de petróleo (o dobro das norte-americanas) e de gás da África. Tomar posse delas é o objectivo inconfessado da falsa intervenção humanitária.

É dever de todas as forças progressistas que lutam contra a barbárie imperialista desmascarar a engrenagem que mundo afora qualifica de salvadora e democrática a monstruosa agressão à Líbia.

A Síria pode ser o próximo alvo. Isso quando não há uma palavra de crítica às monarquias teocráticas da Arábia Saudita, do Bahrein, dos Emirados.

Uma nota pessoal a terminar. Os líderes da direita europeia, de Sarkozy e Cameron à chanceler Merkel, cultivam nestes dias – repito – o discurso da hipocrisia. Nenhum, porém, consegue igualar na mentira e na desfaçatez a oratória de Barack Obama, que, pelos seus actos, responderá perante a História pela criminosa política externa do seu país, cujo povo merecia outro presidente.

Vila Nova de Gaia, 26/Março/2011

O original encontra-se em http://www.odiario.info/?p=2022

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

 

Diálogos desenvolvimentistas No 28: Direita, vol-ver!

Leandro Aguiar

Deputado, ele é a favor da legalização do porte de armas, e, em alguns casos, da tortura; apóia amplamente a redução da maioridade penal, acha que o Brasil deveria pensar na possibilidade de desenvolver a Bomba Atômica e fala com saudosismo e entusiasmo sobre a ditadura, ou, como prefere chamar, revolução de 64. O deputado em questão não é o Enéias, que Deus o tenha, mas sim Jair Bolsonaro, do PP do Rio de Janeiro.

As semelhanças com Enéias, inclusive, param nas suas inclinações belicistas. Diferente de seu barbudo ex-colega, Bolsonaro é comedido, calmo, e possui inegável bom humor. Suas preocupações com a aparência também são o contrário das do falecido deputado: aos 56 anos, possui pouquíssimos cabelos brancos, o que aponta para a possibilidade de estes estarem sendo tingidos; o cabelo, aliás, está sempre em perfeita ordem, e o deputado nunca é visto sem trajar um terno absolutamente alinhado, salvo nas ocasiões em que está fardado.

Há 20 anos no poder, Bolsonaro foi eleito agora pela 6ª vez consecutiva, com mais de 120 mil votos, muitos deles provenientes de militares. No congresso, foi um crítico duríssimo de FHC, sugerindo inclusive -segundo ele era apenas uma força de expressão- que o ex-presidente fosse executado por ter privatizado as teles e a Vale do Rio Doce.  De 2002 pra cá, o tom da sua crítica não abrandou: ele tem repulsa ao PT, que considera um partido de corruptos e esquerdistas com tendências pró-cubanas; diz não ter a mínima saudade de Lula, pois ele só sentiria falta de um presidente sério, como, de acordo com o deputado, o eram Geisel, Médici e Figueiredo, todos militares e ditadores. Quanto a Dilma, ele a taxa de seqüestradora e ladra, referindo-se aos supostos crimes por ela cometidos durante o regime de exceção.

O que deslocou os holofotes para o deputado Bolsonaro, que é também capitão do Exército brasileiro, foi sua recente aparição no programa CQC, aonde ele foi questionado pelos telespectadores sobre temas polêmicos. Sempre sorrindo, assegurou que jamais beijaria a presidenta Dilma Roussef, pregou respeito aos antigos valores da família, religião e ordem, relativizou o conceito de tortura (“agir com energia é torturar?”), falou sobre o quão detestável é Cuba e teceu um ou dois comentários homofóbicos.

O Desenvolvimentistas debateu o fenômeno Jair Bolsonaro, deputado que, por definição do cargo, é representante de uma parcela da população brasileira. Acompanhe:

 

“Ele precisa respeitá-los (aos homossexuais) ao menos no espaço público, e não foi o que fez ao misturá-los com “promiscuidade”. Além disso, ele comprometeu a causa que (…) ele considera prioritária, que é a causa nacional (=popular), pois a constituição brasileira e as regras de conduta social brasileira hoje respeitam os gays e consideram esse respeito critério fundamental para avaliação da civilidade. Se ele compartilha conosco da prioridade da causa nacional, deveria ter ficado calado e não ter pisado na casca de banana. Sinceramente, ainda que ele possa ser considerado nacionalista em algum sentido, é muito menos do que nós, porque a civilização brasileira que tem força, identidade própria, auto-estima, coesão e senso de nacionalidade autêntica é essencialmente tolerante e muito zelosa com sua origem racial miscigenada e cada vez mais respeitosa à sexualidade individual”

(…)

“A repressão moralista é cada vez mais distante da identidade nacional brasileira e não pode nos unir, apenas nos dividir, como o Serra tentou nas últimas eleições. Divididos somos uma nação em frangalhos. Autênticos e Unidos somos uma Nação maravilhosa. espero que o Bolsonaro volte atrás, porque essa perspectiva moralista e preconceituosa machuca as pessoas e divide o país.”

Gustavo Santos, economista.

“Assim, defendo que, apesar de o dejeto humano Bolsonaro defender confusamente interesses pátrios, sua homofobia, racismo, anti-secularismo, imbecilismo (como chamo o amor a imbecilidade), belicismo, fanatismo, e vários outros ismos que impedem o desenvolvimento da sociedade que eu desejo pro nosso Brasil, trabalhemos pela sua completa nulificação política; nunca para legitimá-lo. Bolsonaro representa o que ha de mais atrasado na nossa sociedade!”

Daniel Conceição

“Ele faz campanha dizendo que é de direita e procura ser coerente ao defender o que considera serem os bons valores morais etc. Pergunto: ele é ladrão? Hipócrita? Não concordo com suas posições intransigentes sobre essas questões comportamentais (drogas, homossexualidade, obsessão anti-comunista), mas está no direito dele defender seus pontos de vista em um sistema de democracia representativa, ou não?”

Márcio Oliveira, analista político