Arquivo do autor:Desenvolvimentistas

Há agora uma nova corrida imperialista nos países da África

da Folha

PARA CIENTISTA POLÍTICO, NORTE-AMERICANOS E EUROPEUS PODEM VOLTAR A COGITAR UM SISTEMA RENOVADO DE COLONIALISMO NESTA DÉCADA

ELEONORA DE LUCENA
DE SÃO PAULO

A guerra na Líbia é parte de uma nova corrida imperialista que se aprofundará, diz José Luis Fiori, coordenador da pós-graduação em economia política internacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
“Não é improvável que as potências, envolvidas na disputa pelos recursos estratégicos, voltem a pensar na conquista e dominação colonial de alguns dos atuais países africanos”, diz ele.
Nesta entrevista, Fiori fala também sobre o poder dos EUA, que ele enxerga vivendo uma crise de crescimento.


Folha – Como o sr. analisa a guerra na Líbia?
José Luís Fiori
– É evidente que não se trata de uma discussão sobre o direito à vida dos líbios, os direitos humanos, a democracia. Nesta, como em todas as demais intervenções de europeus e dos EUA, jamais se esclarece a questão central de quem tem o direito de julgar e arbitrar a existência ou não de desrespeito aos direitos humanos em algum país em particular.
As potências do “diretório militar” jamais intervêm contra um país ou governante aliado, por mais autoritário e antidemocrático que ele seja. Do ponto de vista das relações entre Estados, os direitos humanos são sempre esgrimidos e utilizados como instrumento de legitimação das decisões geopolíticas das grandes potências.

A guerra é sobre o petróleo?
O que está em jogo na Líbia não é apenas petróleo. Nem tudo no mundo da luta de poder entre as grandes e médias potências tem a ver com economia. Neste caso está em jogo o controle de uma região fronteiriça da Europa, parte importante do Império Romano e território privilegiado do alterego civilizatório da “cristandade”.
Foi onde começou o colonialismo europeu, no século 15 e, depois, no século 19. Estamos assistindo a uma nova corrida imperialista na África, e não é impossível que se volte a cogitar alguma forma renovada de colonialismo.

Como explicar essa corrida imperialista?
A África não é simples nem homogênea, com seus 53 Estados e quase 800 milhões de habitantes. O atual sistema estatal africano foi criado pelas potências coloniais europeias e só se manteve, até 1991, graças à Guerra Fria.
Após a Guerra Fria e o fracasso da intervenção norte-americana na Somália (em 1993), os EUA redefiniram sua estratégia para o continente, propondo globalização e democracia. Até o fim do século 20, a preocupação dos EUA com a África se restringiu à disputa das regiões petrolíferas e ao controle das forças islâmicas e dos terroristas do Chifre da África.
Mas deverá ocorrer uma mudança radical do comportamento norte-americano e europeu, graças à invasão econômica da China, Rússia, Índia e Brasil. A África será de novo um ponto central da nova corrida imperialista, que deverá se aprofundar na próxima década.
Não é improvável que as potências, envolvidas na disputa pelos recursos estratégicos, voltem a pensar na possibilidade de conquista e dominação colonial de alguns dos atuais países africanos que foram criados pelos próprios colonialistas europeus.

Os Estados Unidos estão ameaçados de perder poder no Oriente Médio?
Não vejo este risco. Pelo contrário. São os mesmos de sempre que estão redistribuindo as cartas e manipulando as divisões internas dentro dos governos e dos envolvidos nas rebeliões. Quando houver risco real, reprimirão como fizeram no Bahrein. Sempre que possível através de terceiros.

Para o sr. não há perda da hegemonia americana?
Os Estados Unidos estão enfrentando os problemas, contradições e incertezas produzidas pela sua mudança de status -de potência hegemônica do mundo capitalista (até a década de 1980), para potência imperial. Poderia até se chamar de uma crise de crescimento e não uma crise terminal.
Os EUA devem mudar sua forma de administrar o seu poder global. O jogo será este: de um lado, os EUA atuando como cabeça de império, distanciando-se e só intervindo em última instância; de outro, as demais potências regionais tentando escapar do cerco americano.

Não há limites para esse poder americano?
É óbvio que esse novo poder imperial não é absoluto nem será eterno. Esse novo tipo de império não exclui a possibilidade de derrotas ou fracassos militares localizados dos EUA. Pelo contrário: é a própria expansão vitoriosa dos EUA -e não o seu declínio- que vai promovendo os conflitos e as guerras. Do ponto de vista estritamente militar, o essencial para os EUA é impedir alguma potência regional de ameaçar sua supremacia naval em qualquer lugar do mundo.

A China não é uma ameaça?
A nova engenharia econômica mundial transformou a China numa economia com poder de gravitação quase igual ao dos EUA. Isso intensifica a competição capitalista na África e na América do Sul. Mas é certo que a simples ultrapassagem econômica dos EUA não transformará automaticamente a China em líder do sistema mundial.

Quais as consequências políticas do dinamismo chinês?
O mais provável é que a China se restrinja à luta pela hegemonia regional, mantendo-se fiel à sua estratégia de não provocar nem aceitar confrontos fora dessa sua zona de influência. Mas, em algum momento futuro, terá que combinar a sua nova centralidade com algum tipo de projeção do seu poder político e militar para fora da sua própria região imediata. Há que se considerar que a China tem uma posição geopolítica desfavorável, com um território amplo e cercado e uma fronteira marítima muito extensa. E não conta ainda com um poder naval capaz de se impor ao controle americano do Pacífico Sul.

A crise financeira recente não expôs fragilidades dos EUA?
O dólar flexível e a desregulação dos mercados financeiros transferiu para os EUA um poder monetário e financeiro sem precedentes.
Isso simplesmente porque, segundo as novas regras que não foram consagradas por nenhum tipo de acordo internacional, os EUA passaram a arbitrar simultaneamente o valor da sua moeda, que é nacional e internacional a um só tempo.
Arbitram também o valor dos seus títulos da dívida, que absorvem a poupança de todo o mundo e servem de âncora para o próprio sistema liderado pelo dólar. Os EUA podem redefinir a cada momento o valor das suas próprias dívidas, sem que seus credores possam reclamar sem sair perdendo.
As crises se repetirão, mas elas não são necessariamente um sinal de fragilidade e, às vezes, podem ser até um sinal de poder e o início de um novo ciclo expansivo. As crises não deverão alterar a hierarquia econômica internacional, enquanto o governo e os capitais americanos puderem repassar os seus custos para as demais potências econômicas do sistema.

Como o sr. observa a posição europeia nesse jogo de poder?
A União Europeia está cada vez mais fraca e dividida sobre como conduzir seus assuntos internos. Não dispõe de um poder central unificado e homogêneo. A Alemanha reunificada se transformou na maior potência demográfica e econômica do continente e passou a ter uma política externa mais autônoma, centrada nos interesses nacionais. É uma estratégia que recoloca a Alemanha no epicentro da luta pela hegemonia dentro da Europa, ofusca o papel da França e desafia o americanismo da Grã-Bretanha.

As crises capitalistas têm muitas vezes desaguado em guerras de grandes proporções. O sr. enxerga essa possibilidade?
Acho que devem se multiplicar os conflitos localizados dentro do sistema mundial, envolvendo sempre os EUA, de uma forma ou outra. Mas não vejo no horizonte a possibilidade de uma grande guerra hegemônica do tipo das duas grandes guerras mundiais do século 20.

Leia a íntegra da entrevista
folha.com.br/mu896777

O amor aos rebeldes líbios

do PatriaLatina.com.br

Em 1953 a CIA e os serviços ecretos britanicos arregimentaram o lumpen proletariado de Teerã para derrubar o governo democrata de Mossadegh atraves de um golpe de estado. A historia se repete hoje na Libia, com a mobilização de marginais pago para figurarem como “rebeldes” anti-Kadafi

por Yoshie Furuhashi [*]

O império multinacional montou um grande negócio para si próprio: utilizar o próprio dinheiro da Líbia para financiar rebeldes líbios a combaterem contra a Líbia. Ali Tarhouni, economista formado nos EUA que acaba de ser nomeado “ministro das finanças” do “Conselho Nacional Interno de Transição” (rebelde), explica o negócio: “Neste momento não há crise imediata de falta de dinheiro. Temos alguma liquidez que nos permite fazer as coisas básicas”, disse ele, tais como pagar salários e necessidades imediatas.

Ele acrescenta que muitos países concordaram em conceder crédito com a garantia do fundo soberano líbio e o governo britânico também concordou em dar aos rebeldes o acesso aos 1,4 mil milhões de dinares (US$1,1 mil milhões) que Londres não transferiu para Kadafi.

Deste modo, as despesas do império serão limitadas aos custos do bombardeamento, etc, os quais são de qualquer forma partilhados entre os seus membros. Se tudo correr bem, a administração Barack Obama, por exemplo, pode mesmo conseguir evitar ter de pedir um [orçamento] suplementar a curto prazo [isto é, se os altamente suspeitos líderes rebeldes não embolsarem grande parte do dinheiro para si próprios, deixando de pagar seus empregados, como tem acontecido muitas vezes em casos como este). Uma esplêndida pequena guerra perfeita para a era da austeridade.

Mas por agora o membro do império que está a obter mais com esta guerra provavelmente não é a elite do poder dos Estados Unidos mas sim a classe dominante dos estados do Golfo. A Líbia é ouro imediato para eles: fazer a Líbia agrada o ocidente; mas o mais importante é que ajuda a desviar a atenção da sua repressão conjunta de intifadas internas, especialmente aquela grande no Bahrain . E acima de tudo, alguns deles aparentemente estão em posição de ganhar algum dinheiro. “Rebeldes dizem que o Qatar está pronto para comerciar petróleo do Leste da Líbia” , segundo a Reuters. Doce petróleo em retorno da propaganda de guerra da Al Jazeera e da participação do próprio Qatar na guerra. Não há melhor negócio do que o negócio da guerra.

Que os rebeldes líbios amam o império e vice-versa já é bem claro. É assim que Nicholas D. Kristof descreve quando os rebeldes líbios amam os americanos por bombardearem o seu próprio país.

Isto pode ser sem precedentes no mundo árabe: um piloto americano caído de paraquedas sobre a Líbia foi resgatado do seu esconderijo num curral de ovelhas por aldeões que o abraçaram, serviram-lhe refresco e agradeceram-lhe efusivamente por bombardear o seu país.

Apesar de alguns aldeões terem sido atingidos por estilhaços americanos, um deles disse entusiasticamente a um repórter que não guardava rancor. No mesmo momento, na quarta-feira em Bengazi, a principal cidade da Líbia oriental em cujas ruas quase certamente agora estaria a correr sangue se não fosse a intervenção liderada pelos EUA, residentes organizaram um “comício de agradecimento”.

O que permanece misterioso é porque tanta gente de esquerda, árabes e iranianos , leigos ou religiosos , reformistas ou revolucionários, no ocidente ou no eixo de resistência caíram profunda e cegamente em amor pelos rebeldes líbios. Não importa quanto amem os rebeldes (que permanecem “revolucionários” aos olhos dos escravos do amor), não há sombra de evidência de que os rebeldes os amem ou de que eles correspondam . Não houve de facto nem mesmo um mínimo indício de namoro nessa direção. Sem dúvida, o casamento dos rebeldes líbios com o império pode finalmente acabar num amargo divórcio, mas, se o Afeganistão e outros precedentes correspondem a alguma indicação, tal divórcio é improvável que leve a um caso de ressurgimento com qualquer coisa remotamente do interesse dos amantes não correspondidos dos rebeldes líbios.

Nos últimos dias, contudo, tenho notado que a máquina de propaganda da República Islâmica do Irão começou a mudar de direção em relação à Líbia. Talvez o establishment iraniano tenha finalmente percebido que os rebeldes líbios não são pró iranianos. Em contraste, os de esquerda e o Hezbollah, talvez mais abnegadamente idealistas do que responsáveis iranianos, ainda têm de perguntar aquela questão crucial da solidariedade internacional, a qual ao contrário da caridade é sempre uma rua de duas mãos: Estão os rebeldes por nós ou contra nós?

________________________________________

Post scriptum

Khalifa Hifter , escolhido pelo “Conselho Nacional” rebelde para liderar o exército rebelde, revelou-se agora ser um desertor transformado em operacional da CIA , um homem que estava errado quando era pró Kadafi e desde então mais errado ainda.

[*] Editor da MRZine

 

A Frente Parlamentar, o governo Dilma, o FUST e a mídia

do VioMundo

por Luiz Carlos Azenha

Fui ao evento de sexta-feira à noite que marcou o pré-lançamento da Frente Parlamentar pela Liberdade de Expressão e o Direito à Comunicação com Participação Popular.

O lançamento mesmo acontece no próximo dia 19 de abril, em Brasília, às 14 horas, no auditório Nereu Ramos do Congresso.

O objetivo inicial é lotar o auditório naquela data, o que nos leva desde já a estender o convite a todos os brasilienses que se interessam pelo assunto, especialmente aos blogueiros progressistas da Capital federal e seus leitores.

Os últimos dados, de ontem à noite, indicavam que havia 171 assinaturas de adesão à frente, mas por motivos óbvios a gente prefere falar em 170.

Do debate, na sede do Sindicato dos Bancários, participaram os deputados federais (atenção, anotem os nomes deles para as próximas eleições) Brizola Neto (PDT-RJ), Ivan Valente (PSOL-SP), Jandira Feghali (PCdoB-RJ) e Emiliano José (PT-BA). A deputada Luisa Erundina (PSB-SP) não pôde comparecer por motivos pessoais.

De qualquer forma, ficou claro que pelo menos na esquerda existe um consenso de que é preciso fazer avançar o debate sobre a questão da comunicação no Brasil.

O evento serviu também para lançar “Jornalismo de Campanha e a Constituição de 1988″, de Emiliano José, autor também de “Imprensa e Poder, Ligações Perigosas”,  ambos editados pela Editora da Universidade Federal da Bahia.

Houve durante o debate apelos urgentes para que se impeça a aprovação do projeto que modifica a lei do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (FUST), conforme denúncia feita pelo coletivo Intervozes publicada, entre outros, pelo Viomundo (aqui).

Houve apelos para que o governo Dilma, que financia com milhões e milhões de reais o que se convencionou chamar de PIG, aprofunde a pulverização das verbas publicitárias oficiais e que faça isso não apenas por critérios de mercado, mas que visem a incentivar o pluralismo na produção de conteúdo.

Houve apelos — corretos, em minha modesta opinião — para que a Frente Parlamentar receba o reforço dos movimentos sociais. Ou seja, que a questão da comunicação esteja presente em todas as demais conferências nacionais setoriais promovidas no país.

O próprio deputado Emiliano José disse que, se a esquerda parece unida no Congresso em relação ao tema, é preciso agregar outras forças políticas, especialmente do centro, ao debate.

Movimentos sociais + centro político + Frente Parlamentar + blogueiros progressistas me parece uma combinação mínima para fazer avançar o debate, além da escolha de uma agenda mínima que seja consensual (Plano Nacional de Banda Larga, regulamentação da mídia eletrônica, propriedade cruzada e por aí vai).

Levantou-se a dúvida sobre o destino que seria dado ao projeto deixado pelo ministro Franklin Martins: será descartado por personagens que estão “costeando o alambrado”, como dizia Leonel Brizola?

O deputado Emiliano José voltou a dizer, conforme já havia escrito em artigo publicado pela CartaCapital e reproduzido aqui, que o namoro do PIG com o governo Dilma tem data para terminar: depois que forem concluídas as tentativas de desconstruir a imagem de Lula.

No particular, houve discordâncias em relação ao atual governo.

Por exemplo, no lamento “em off” de um dos participantes a respeito do poder de primeiro-ministro que Antonio Palocci tem no governo Dilma (que se estende até mesmo à Biblioteca Nacional).

Porém, se está claro que há divergências na avaliação que se faz do governo Dilma até aqui, não há dúvida de que a dura tarefa de modificar o panorama do setor midiático no Brasil exigirá uma ampla coalizão de forças em torno de uma agenda mínima.

Não nos resta outra alternativa, a não ser começar lotando o Nereu Ramos.

 

De olhos opacos no turbilhão do mundo

do JB

Mauro Santayana

O engenheiro baiano José Carlos Aleluia enviou carta ao Reitor da Universidade de Coimbra, protestando contra a concessão do título de Doutor Honoris-Causa ao operário Luis Inácio da Silva, que, com o apelido afetivo de Lula, presidiu ao Brasil durante oito anos. Sem mandato, Aleluia mantém contatos com seus eleitores, mediante um site na Internet.

Ele foi um oposicionista inquieto, ocupando, sempre que podia, a tribuna, no ataque ao governo passado, dentro da linha sem rumo e sem prumo do DEM. Aleluia considera uma ofensa às instituições acadêmicas o titulo concedido a Lula, e faz referência elogiosa à mesma homenagem prestada ao professor Miguel Reale. Esqueceu-se, é certo, de outros brasileiros honrados pela vetusta universidade, como Tancredo Neves. Não é preciso conhecer a teoria de Freud para compreender a escolha da memória de Aleluia.

O título universitário é, hoje,  licença profissional corporativa. O senhor Aleluia está diplomado para exercer o ofício de engenheiro. A Universidade o preparou para entender das ciências físicas, e é provável que ele seja  profissional competente, tanto é assim que ministra aulas. O título universitário certifica que o graduado estudou tal ou qual matéria, mas não faz dele um sábio. O conhecimento adquirido na universidade é importante, mas não é tudo. Volto a citar, porque a idéia deve ser repetida, os versos de um escritor mais identificado com a direita do que com a esquerda, T.S. Elliot, nos quais ele mostra a diferença entre ser informado, conhecer e saber: Where is the wisdom we have lost in knowledge? Where is the knowledge we have lost in information?

O título de Doutor Honoris-Causa, sabe bem disso o engenheiro Aleluia, não é  licença profissional, mas o reconhecimento de um saber, construído ao longo do tempo, tenha o agraciado ou não freqüentado a universidade. O papel da Universidade não deveria ser o que vem desempenhando – o de conferir certificados de preparação técnica -, mas o de abrir caminho à busca do saber. O Senador Christovam Buarque, com a autoridade de quem foi reitor da UNB, disse certa vez que a Universidade ideal será aquela que não expeça diplomas.

Lula, com os seus defeitos, e não são poucos, é um doutor em política. Um chefe de Estado não administra cifras, não faz cálculos estruturais, não prolata sentenças, nem deve escrever seus próprios discursos. Cabe-lhe liderar os povos e conduzir os estados, e isso dele exige muito mais do que qualquer formação escolar:  exige a sabedoria que desconfia do conhecimento, e o conhecimento que se esquiva das informações não confiáveis.

A universidade é uma instituição relativamente nova na História. Ela não foi necessária para que os homens, com Demócrito, intuíssem a física atômica; com Pitágoras e Euclides, riscassem no solo  figuras geométricas e delas abstraíssem os teoremas matemáticos; e muito menos para que Fídias fosse o genial arquiteto e  engenheiro das obras da Acrópole e o escultor que foi. Mais ainda:  as maiores revoluções intelectuais e sociais do mundo não dependeram das universidades, embora nelas se tenham formado grandes pensadores – e sua importância, como centro de reflexões e pesquisas, seja insubstituível. O preconceito de classe contra Lula sela os olhos de Aleluia e os torna opacos.

Solidário o meu autodidatismo com o de Lula, quero lembrar o grande escritor norte-americano Ralph Waldo Emerson: um talento pode formar-se na obscuridade, mas um caráter só se forma no turbilhão do mundo.

É no turbilhão do mundo que se forma o caráter dos grandes homens.

 

Polícia executa mais uma criança no Rio

Por Revista Consciência.Net em 31/03/2011

Desta vez foi Caíque da Mata dos Santos, de 5 anos, que foi internado nesta quarta (30) à noite no Hospital Getúlio Vargas, na Penha, mas não resistiu. Morreu hoje (31) pela manhã. Ele levou um tiro na barriga durante uma operação do 16º BPM (Olaria) no Morro do Pica-Pau, localizado em Cordovil, bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro.

O pai, Rogério Batista dos Santos, de 27 anos, declarou à pouco em entrevista à Rádio Bandnews que somente os policiais atiraram: “Só teve tiro deles. De ninguém mais. Depois, eles deram a volta e colocaram os uniformes”. Os policiais, então uniformizados, entraram num carro modelo Gol da Polícia Militar, cuja placa foi identificada durante entrevista do pai a Ricardo Boechat, da Bandnews, ao vivo.

Segundo a versão de dezenas de testemunhas, três PMs entraram na comunidade do Pica-Pau à paisana vestidos de sorveteiros. Após a fuga de dois suspeitos, os policiais atiraram a esmo e acertaram Caíque, que agora está morto.

PM muda versão sobre incursão

A incursão, segundo a própria PM (informações da quarta-feira), foi ilegal. O batalhão da Polícia Mililtar da região, o 16º BPM, informou desconhecer qualquer operação da unidade na comunidade na tarde da quarta-feira (30).

Depois, a PM mudou a versão do ocorrido. Os agentes teria sido “recebidos a tiros”. O comandante da unidade, o tenente-coronel José Macedo, disse que “não houve revide por parte dos policiais”.

Quase todos os meios, como o portal iGjornal O Globo,jornal O Dia e o portal G1, se limitaram a dar a versão oficial. Apenas o jornalista Ricardo Boechat, da BandNews FM, procurou o pai. Ele questionou, após relatar detalhadamente o caso: “Que merda de operação é essa?”

jornal Extra registrou a entrevista do pai à BandNews. Durante a entrevista, um integrante da Polícia Civil correu para o telefone para informar à BandNews que não tem envolvimento com o caso. O relações públicas da PM, tenente-coronel Henrique de Lima Castro, também ligou para a BandNews para informar que abriu processo investigativo. O jornalista Ricardo Boechat questionou a necessidade de a comunidade ter de ligar para a imprensa para, só então, se instaurada a investigação. “Dá um desconforto, coronel. Dá um desconforto que o Senhor nem imagina”, afirmou Boechat.

Policiais viram criança atingida e não socorreram

A PM afirmou que os policiais “não sabiam” que havia um garoto ferido. Depoimentos de todas as testemunhas da comunidade afirmam justamente o contrário: os PMs ainda puderam olhar o corpo, sem prestar qualquer ajuda, conformou mostrou a TV Record. A mãe afirmou: “Eles entraram na favela, de roupa comum, já dando tiro. Não queria saber se tinha criança, meu filho tava na porta da casa da vó dele, brincando, três policiais disfarçados vieram e deram tiro”.

Após a perícia do Instituto Médico Legal (IML), os familiares organizarão o enterro de Caíque, que dever ocorrer na manhã de sexta-feira (1º).

Vídeo da Record: http://www.consciencia.net/policia-executa-mais-uma-crianca-no-rio/

 

Torturador faz revelações pavorosas sobre repressão no Araguaia

Lucena afirmou ter visto de dez a 15 execuções de guerrilheiros do PC do B no Araguaia, entre elas, a morte de uma jovem identificada por ele como “Sônia”, que foi assassinada pelo hoje major reformado do Exército Sebastião Curió.

O advogado João Lucena Leal, radicado em Rondônia há trinta anos, chocou o Brasil na noite desta quarta-feira, durante entrevista a uma emissora nacional de televisão, com um depoimento frio sobre mortes e torturas durante o regime militar.

Ele também revelou detalhes das operações de que participou para prender a hoje presidente da República, Dilma Rousseff, e o então estudante José Genoíno, que viria a ser presidente nacional do Partido dos Trabalhadores e atualmente é assessor do Ministério da Defesa.

Segundo Lucena, Genoíno não precisou ser torturado. “Fez um acordo com o Exército e entregou, delatou todos os seus companheiros”, disse.

Lucena falou ao jornalista Roberto Cabrini, do programa Conexão Repórter, do SBT. Cabrini veio a Porto Velho para entrevistar aquele que é considerado um dos maiores torturadores ainda vivos do tempo da repressão no Brasil .

Agente da repressão a serviço dos militares que tomaram o poder no País com o golpe de março de 1964, João Lucena Leal foi descrito como o típico homem dos porões da ditadura.

Na entrevista, Lucena descreveu, com tranqüilidade e frieza, o que viu e o que fez com os adversários políticos do regime. “O sujeito amarrado, algemado e o executor puxava o gatilho e matava”, disse ele ao narrar uma das cenas entre as inúmeras das quais presenciou e participou.

Torturava “com nobreza”

Para Lucena, a tortura se justifica “para extrair uma informação ardente”. Fazia parte de seu “trabalho” extrair tais informações dos ativistas políticos. “Eu executava com nobreza”, acrescentou.

Ex-delegado da Polícia Federal, Lucena também é descrito como um torturador profissional. A Roberto Cabrini ele relatou torturas, prisões e mortes das quais diz ter participado.

Mesmo acusado de cometer atrocidades, Lucena disse estar orgulhosos de tudo o que fez.
Com a saúde severamente abalada após um ataque cardíaco e acusado de ser um torturador impiedoso, mesmo assim o homem da repressão diz ter a consciência e um sono tranquilos.

Na entrevista, informou ter apenas um remorso. Foi quando viu o corpo de uma moça de 17 anos morta pelos militares. “Peguei no corpo dela e ainda estava quente. A moça não tinha ideologia nenhuma”.

Em Rondônia, Lucena ficou rico como advogado de traficantes e de notórios assassinos, como o fazendeiro Darli Alves, que matou a tiros, no Acre, o líder seringueiro Chico Mendes.

Ao falar sobre o que considera tortura, Lucena disse que “é um ato de violência contra o próprio irmão”, e acrescentou :”a tortura é praticada em larga escala nas polícias militar e civil do País”.

Mostrando profundo conhecimento no assunto, o advogado disse que, na sua época, o método mais utilizado era o pau de arara, nas suas palavras “um instrumento cruel, devastador, que deixa sequelas. Tem muita gente que não resiste meia hora e conta tudo. Às vezes, é só mostrar o instrumento e ‘ele” (a vítima) abre”.

Sete vítimas vivas

Cearesne, João Lucena Leal estava lotado na Superintendência da Polícia Federal do Ceará quando era agente da repressão. Lá, entre suas incontáveis vítimas, o SBT localizou sete pessoas que dizem ter sido torturadas pelo advogado.

O hoje professor José Auri Pinheiro, professor na época, foi torturado barbaramente por dois dias. Ele reconheceu Lucena durante a entrevista a Roberto Cabrini, que lhe mostrou uma foto do advogado quando ainda era mais novo. “O Lucena é um torturador conhecido aqui no Ceará. Em 1973 fui torturado por ele, que é um sujetio explosivo, impulsivo e malvado, que só falava em matar, em destruir as pessoas”, contou Auri. Segundo ele, Lucena torturava as vítimas “com sadismo, com convicção”.

O hoje arquiteto José Tarcísio Prata foi outro que também relatou sua experiência dolorosa nas mãos de João Lucena Leal. “É um torturador profissional, perverso”, disse.

PCdoB

Lucena afirmou ter visto de dez a 15 execuções de guerrilheiros do PC do B no Araguaia, entre elas a morte de uma jovem identificada por ele como “Sônia”, que foi assassinada pelo hoje major reformado do Exército Sebastião Curió.

No meio da entrevista, João Lucena disse que, no Araguaia, foi preso o então estudante José Genoíno, que viria a ser presidente do Partido dos Trabalhadores e atualmente é assessor do Ministério da Defesa.

Segundo Lucena, Genoíno não foi torturado e fez um acordo para delatar os companheiros de guerrilha. O major Sebastião Curió confirma a afirmação de Lucena sobre o ex-dirigente petista. “O Genoíno não foi torturado e entregou todo mundo”.

Prisão de Dilma

Tanto Curió quanto Lucena participaram das investigações e prisão da hoje presidente Dilma Rousseff. “Ela (Dilma) era uma menina de 17 ou 18 anos de idade que foi presa e levada para a Operação Bandeirantes e entregue ao delegado Fleury (Sérgio Paranhos Fleury, notório torturador”.

Fonte: Tudorondonia.com

 

Perguntas e respostas sobre o programa nuclear brasileiro e a catástrofe que atingiu o Japão

eletronuclear.gov

O acidente ocorrido nas usinas nucleares japonesas suscitou questões sobre os impactos deste evento no programa nuclear brasileiro. Para responder as dúvidas mais freqüentes sobre o tema, a Eletrobras Eletronuclear preparou uma lista de perguntas e respostas, abordando tópicos como a segurança das usinas nucleares no Brasil, as medidas preventivas que poderão vir a ser tomadas em Angra, a perspectiva da energia nuclear na matriz elétrica nacional e a construção de novos reatores. Informações adicionais podem ser encontradas no Guia de Pronta Resposta, disponível em nosso site.

1) Que lições podem ser tiradas do acidente nuclear do Japão? Diante disso, o Brasil vai manter o seu programa nuclear?

Das 54 usinas nucleares em operação no Japão, 14 estão localizadas na região afetada pela catástrofe: 1 na central de Tokai, 3 na central de Onagawa, 4 usinas na central de Fukishima Daini e 6 na central de Fukushima Daiichi.

Essas 14 usinas foram projetadas para esforços provocados por uma aceleração correspondente a 0,3 vezes a aceleração da gravidade, o que corresponderia a um terremoto de 8,2 na escala Richter no local onde ocorreu essa recente catástrofe no Japão, e uma onda tsunami de 5,7 metros.

As usinas sofreram os terríveis efeitos de um terremoto de 9 graus na escala Richter seguido de um tsunami de mais de 10 metros de altura, muito superiores àqueles eventos naturais severos considerados no seu projeto. Apesar disso, 10 das 14 unidades resistiram adequadamente.

Os problemas enfrentados por 4 das 6 usinas da central de Fukushima Daiichi foram originados por danos aos prédios dos diesel-geradores de emergência provocados pelo tsunami, que fizeram com que as unidades perdessem totalmente a alimentação elétrica que garantia o funcionamento dos sistemas auxiliares de resfriamento do reator após seu desligamento.

A primeira lição já aprendida pela catástrofe natural do Japão é que as usinas nucleares são as construções humanas melhor adaptadas a resistir a eventos naturais de severidade milenar, como mostram as 8 unidades das centrais de Onagawa, Fukushima Daini e Tokai, e de 2 das 6 unidades da central de Fukushima Daiichi.

Entretanto, os problemas nas 4 usinas de Fukushima Daiichi indicam ser necessária a aplicação de critérios de projeto mais rigorosos para os prédios auxiliares dessas unidades, similares àqueles aplicados ao prédio do reator.

Essa foi uma recomendação feita pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen) já em meados de 2010, ou seja, bem antes do acidente no Japão, para o licenciamento de Angra 3, e que foi prontamente acatada pela Eletrobras Eletronuclear.

Outra lição aprendida é que os critérios de projeto para usinas nucleares localizadas em áreas de alto risco sísmico, especialmente aquelas em zonas costeiras sujeitas a tsunamis, devem ser reavaliados e, eventualmente, reforçados.

Note-se, entretanto, que dentre os 442 reatores em operação no mundo, muito poucos estão localizados em regiões sujeitas a esses riscos elevados: no Japão, há alguns além das 14 unidades afetadas pela catástrofe; 2 ou 3 localizados no sul da Califórnia (EUA); um número reduzido na Bulgária e Romênia; e a usina de Busher, no Irã, que ainda não entrou em operação.

Este, entretanto, não é o caso das usinas brasileiras, que se encontram em locais de baixo risco sísmico e não sujeitos a tsunamis, devido às características geológicas de localização de nosso território.

O Brasil está distante das bordas da placa tectônica em que está localizado e, diferentemente do caso do Japão, a borda da nossa placa que está sob o oceano se afasta da que está adjacente. O fato de as placas do Oceano Atlântico Sul se afastarem, diferentemente das placas do Pacífico Norte, que se chocam, torna fisicamente inviável que, mesmo no caso de um forte terremoto no local, venha a ser formada uma onda tsunami.

Certamente, passada a fase acidental que ainda vivemos, a análise técnica profunda do evento levará a muitas outras lições aplicáveis a todas as 440 usinas nucleares em operação no mundo, bem como às 52 que se encontram em construção e àquelas centenas que estão em projeto, aperfeiçoando a segurança num processo de melhoria contínua. Isso acontece sistematicamente na indústria nuclear toda vez que há acidentes graves, como foi no caso de Three Miles Island, em 1979, nos EUA, e de Tchernobyl, em 1986, na ex-URSS.

Demandas por ações imediatas no sentido de desligar usinas nucleares em operação ou interromper as obras das unidades em construção e os planos para novas usinas são precipitadas. Motivações de natureza política e ideológica, as quais, ainda que legítimas nas sociedades democráticas, não encontram fundamento técnico que as suportem e são reforçadas pelo uso oportunista da forte emoção provocada na sociedade.

O custo em vidas humanas decorrentes dos acidentes ocorridos dentro das casas, edifícios, refinarias de petróleo, indústrias químicas e demais instalações também severamente afetadas de imediato pelo terremoto e depois agravadas pelo tsunami – que já chega à casa das dezenas de milhares, sendo muito superior às conseqüências do acidente nuclear – não tem provocado demandas similares por mudar os hábitos de moradia e de trabalho das pessoas, nem interromper as demais atividades industriais.

Isso, entretanto, tem sido feito insistentemente por alguns grupos de pressão política com relação à indústria nuclear, que até o momento (30/03/2011) somente provocou 35 acidentes de trabalho, tendo somente 1 caso de morte, e 22 casos de contaminação de trabalhadores das usinas, sendo somente 2 considerados graves, conseqüências mínimas quando se compara o pesado custo humano decorrente da catástrofe com um todo.

Mesmo no contexto de toda essa tragédia que se abateu sob o Japão, 10 das 14 usinas localizadas na região afetada permanecerem em condição segura, não implicando em nenhuma conseqüência adicional às populações já atingidas pela catástrofe natural.

Aquelas 4 usinas que não resistiram plenamente tiveram suas consequências mitigadas pelo acionamento de um plano de emergência externo que está protegendo as populações evacuadas das liberações limitadas ocorridas e as protegeria mesmo para as condições em que viesse a ocorrer o pior caso possível de liberação de material radioativo. Vale ressaltar que isso não aconteceu até o presente (30/03/2011), e as informações atuais indicam claramente que não ocorrerá.

A maior demonstração de que demandas por desligamento de usinas em operação ou suspensão de obras de usinas em construção e de projetos novos têm motivações exclusivamente políticas é dada pelo próprio Japão.

Mesmo diante da grande crise que atravessam, o governo e a sociedade civil japonesa não se posicionaram no sentido de desligar as demais 40 usinas nucleares que o país tem em operação (são 54 no total), suspender as obras das 3 usinas que estão em construção, nem cancelar as 12 usinas que estão planejadas, já com contratos firmados. Muito provavelmente, a geração elétrica nuclear permanecerá como uma das mais importantes contribuições à matriz energética japonesa.

Obviamente, esses poucos argumentos não encerram o debate. Nas sociedades democráticas, como a brasileira, ele está apenas se iniciando e deverá resultar numa indústria nuclear ainda mais segura.

Até o momento (30/03/2011), nenhuma nuvem radioativa que pudesse representar ameaça real à população saiu de Fukushima Daiichi, mas a nuvem política e econômica já alcançou todos os países.

Devemos, portanto, nos precaver de decisões precipitadas, tomadas pelo calor da emoção ou por oportunismo, que venham a prejudicar as próprias sociedades às quais se pretende defender, como seria o caso de uma “proscrição” da geração elétrica nuclear, com paralisação de usinas em operação, interrupção de unidades em construção e de projetos em planejamento.

Logo, podemos afirmar que o acidente nuclear no Japão não implica em elementos objetivos que possam alterar os rumos atuais do Programa Nuclear Brasileiro, a não ser a incorporação das lições técnicas que estão sendo aprendidas, que aperfeiçoarão sua segurança num processo de melhoria contínua.

2) Nossas usinas são seguras?

As usinas brasileiras, bem como as demais 440 usinas que operam em 31 países são provavelmente tão seguras quanto as 10 das 14 usinas japonesas localizadas na região afetada pela catástrofe, que foram submetidas a um terremoto seguido de tsunami com severidade muito superior ao que elas foram projetadas e resistiram a essas forças titânicas da natureza.

As usinas nucleares brasileiras são projetadas para resistir esforços provocados por uma aceleração correspondente a 0,1 vezes a aceleração da gravidade, o que corresponderia a um terremoto de 6,5 Richter, e uma onda de 4 metros. Esses valores excedem em muito os piores cenários que poderiam ocorrer no Brasil e sabe-se, pela experiência japonesa, que as usinas na prática podem resistir a esforços muitas vezes superiores àqueles para qual foram projetadas.

Outro ponto relevante refere-se à cota de implantação das usinas em relação ao nível do mar. As usinas brasileiras são implantadas em elevações superiores às unidades 1, 2, 3 e 4 da central de Fukushima Daiichi (3.5 metros), justamente aquelas que foram afetadas pelo tsunami.

Note-se que as unidades 5 e 6, localizadas um pouco distantes das outras 4 e em cotas mais elevadas (4,8 metros), resistiram plenamente à catástrofe. Angra 1 e Angra 2 são implantadas a 5 metros e Angra 3, a 6 metros. Além disso, o quebra-mar de nossas usinas atinge a cota de 8 metros.

Outro aspecto importante refere-se às tecnologias das usinas. As 14 usinas japonesas localizadas na região afetada pela catástrofe natural são do tipo BWR, ou seja reator a àgua fervente (boiling water reactor). As usinas brasileiras são do tipo PWR, ou seja, reator de água pressurizada (pressurized water reactor).

A tecnologia BWR compõe somente 21% da frota mundial de usinas nucleares, enquanto a PWR corresponde a 61% desta frota mundial. Os restantes 18% da frota são compostos por reatores a água pesada (10%) e a grafite (8%), tecnologias cuja aplicação industrial está em acelerada decadência, sem novas construções em andamento.

Os PWR são dotados de dois circuitos independentes e fisicamente isolados para resfriamento do reator e geração de vapor. Neles é possível promover o resfriamento do reator em circulação natural, sem necessidade de bombas, por algumas horas após uma perda total de alimentação elétrica, que foi o problema que ocorreu em 4 das 14 usinas afetadas pela catástrofe natural no Japão.

A excelência da segurança operacional dos PWR é reafirmada pelo fato dele ser a opção tecnológica preferencial para a propulsão de submarinos nucleares, cujos critérios de projeto adotados para atender aos requisitos operacionais militares são muito mais exigentes.

As marinhas de todos os países que operam ou estão projetando submarinos nucleares, inclusive o Brasil, adotam a tecnologia PWR. A tecnologia BWR é totalmente descartada para essa aplicação, que implica submeter a instalação nuclear a severos carregamentos decorrentes de seu uso em combate naval.

3) Que medidas adicionais o Brasil após a tragédia do Japão em relação a Angra?

A Eletrobras Eletronuclear, empresa responsável pela operação das usinas Angra 1 e Angra 2, pela construção de Angra 3 e pelos estudos para novas usinas, acompanha atentamente as medidas adicionais que já estão sendo propostas por diversos organismos nacionais e internacionais e implementando-as onde elas se mostram aplicáveis.

No momento, a Eletrobras Eletronuclear está executando uma série de verificações de segurança requeridas pela Associação Mundial de Operadores Nucleares (Wano), à qual ela faz parte, que serão concluídas até 13 de maio, dentro do prazo estabelecido.

Isto equivale ao chamado “teste de estresse” ao qual serão submetidas as usinas nucleares de países da Europa por determinação da Comunidade Europeia, conforme vem sendo divulgado pela mídia.

Independente e previamente ao acidente no Japão, a Eletronuclear já vinha desenvolvendo estudos de melhoria da segurança das usinas e do Plano de Emergência Externo nos últimos anos.

Como exemplo dessas melhorias, que com o acidente passarão a ser tratadas com elevada prioridade, são estudos para implantação de uma pequena central hidrelétrica (PCH) na região de Angra dedicada à alimentação elétrica das usinas no caso de perda total de todos os 12 diesel-geradores já existentes, hipótese improvável, mas que ocorreu no Japão devido à catástrofe natural inédita, mesmo para um país de elevado risco (o que não é o caso do Brasil).

Outro exemplo são estudos para implantação de 4 cais marítimos e diversas quadras polidesportivas que possam vir a servir como helipontos, dentro da Zona de Planejamento de Emergência, o permitirá complementar o processo de evacuação da população local por mar e das pessoas com necessidades especiais por ar, agilizando e dando maior flexibilidade ao plano de emergência.

4) Como a energia nuclear está sendo considerada no planejamento energético brasileiro? Ela deve ganhar mais espaço na matriz energética do país?

As necessidades de geração de emprego e renda e as carências em educação, saúde, moradia, saneamento básico e transporte de massa da sociedade brasileira, que é 80% urbana, são bem conhecidas e se refletem no nosso PIB e IDH. Todas as políticas públicas para vencer estes grandes desafios requerem aumento no consumo de eletricidade.

Nosso consumo atual é de pouco mais de 2.000 kWh/ano por brasileiro e é menor que a média mundial. Está muito abaixo do patamar de 4.000 kWh/ano que caracteriza o mínimo dos países desenvolvidos, cujo IDH é superior a 0,9. É bem menor do que Chile e Argentina e menos da metade dos países de desenvolvimento recente, como Portugal (4.500), Espanha (5.600) e Coréia do Sul (6.400).

Este é um sintoma da imensa demanda reprimida do nosso povo, que não existe nos países desenvolvidos. Para eles, o grande desafio é a eficiência energética e a renovação do parque gerador para cumprir metas de redução de CO2.

O esforço de gerações de brasileiros construiu um formidável parque hidrelétrico. A maior parte desta energia limpa, barata e renovável foi construída em regiões onde a topografia era favorável a grandes reservatórios, minimizando o risco devido às sazonalidades do clima.

O progressivo aumento da demanda e condicionantes socioambientais cada vez mais restritivas têm feito com que o estoque de água nos reservatórios tenha se mantido quase constante desde meados dos anos 90, trazendo a crescente necessidade de complementação térmica para garantir a segurança do abastecimento, lição duramente aprendida no apagão de 2001.

Poderíamos dobrar nossa potência hidrelétrica atual tratando com muita racionalidade a questão socioambiental. Mas essa potência adicional não irá gerar a mesma quantidade de energia do parque existente, pois será composta por usinas a fio d’água, com pequenos reservatórios.

Para atingir o patamar mínimo de país desenvolvido, precisaremos aproveitar todo este potencial e expandir muito o parque eólico e de biomassa. Entretanto, só isso não será suficiente. Complementar a geração continua na base do sistema e regular as sazonalidades intrínsecas às renováveis irá requerer algo como 15 usinas térmicas de 1.000 MW adicionais.

Para a parcela desta complementação que operará na base, a geração nuclear e a carvão são aquelas de menor custo. Porém a nuclear é a única que não implica emissão de CO2 e cujo combustível pode ser 100% nacional. Para a outra parcela que regula sazonalidades, o gás natural e o petróleo continuarão sendo indispensáveis.

A experiência obtida no projeto, construção e operação de Angra 1, 2 e 3 e uma das maiores reservas de urânio do mundo, com potencial energético comparável ao pré-sal, somadas ao domínio tecnológico do ciclo do combustível, fazem com que a energia nuclear no Brasil seja uma contribuição para a matriz energética brasileira difícil de ser descartada.

Isto torna do maior interesse nacional uma ampla discussão no seio da sociedade, similar à do pré-sal, para definição das modalidades adequadas de exploração do urânio e da geração nuclear que permitam garantir auto-suficiência e retorno social sustentável ao país.

Com investimento, planejamento, tecnologia e adequada gestão de todas as reservas nacionais, renováveis e não renováveis, nelas incluída a energia nuclear, nosso país poderá desfrutar neste século XXI de ampla segurança energética, gerando excedentes exportáveis, e finalmente atingir o nível de desenvolvimento que todos desejamos.

5) Como está o processo de aprovação das construções de novas usinas nucleares anunciadas pelo senhor no início do ano? Onde elas seriam instaladas?

A partir das diretrizes de planejamento estabelecidas pelo Plano Nacional de Energia 2030 (PNE 2030), que considera a expansão da oferta nuclear neste horizonte em 4.000 MW, sendo 2.000 MW na Região Nordeste e 2.000 MW na Região Sudeste, a Eletrobras Eletronuclear deu início ao procedimento de seleção de locais candidatos para as futuras centrais nucleares brasileiras.

Inicialmente o foco foi na região compreendida pelo litoral entre Recife e Salvador, dois maiores centros de carga da Região Nordeste e o vale dos grandes rios que desembocam nesse litoral, conforme orientação do PNE 2030 e a atual configuração da rede básica do Sistema Interligado Nacional (SIN).

A metodologia de seleção de local é organizado em 3 etapas, sendo a primeira a identificação de áreas candidatas, ou seja, aquelas que passam pelos 20 critérios de exclusão e evitação estabelecidos.

Essa primeira etapa foi concluída para a região inicialmente estudada e posteriormente, os trabalhos dessa etapa, já totalmente informatizados através do desenvolvimento de um sistema de informações geográficas, foram estendidos a todo o território nacional, como subsídio aos estudos de revisão para o Plano Nacional de Energia 2035, em execução pela EPE.

No momento, a Eletrobras Eletronuclear, em conjunto com a EPE, está finalizando um atlas do potencial nuclear brasileiro, onde são identificadas 40 áreas em todo o território nacional que poderiam vir a localizar futuras centrais nucleares. Esse atlas será apresentado ao Ministério de Minas e Energia (MME) para aprovação e divulgação em breve.

Com base no atlas, que identifica as áreas potenciais em todo território nacional, e na revisão do PNE 2035, que identificará o atual planejamento de expansão da oferta nuclear (potência nuclear adicional, subsistema elétrico regional onde essa potência será incluída e cronograma de implantação), serão selecionadas as áreas que passarão à segunda etapa do procedimento de seleção de local.

Nesta segunda etapa serão aprofundados os estudos de local e identificados sítios específicos tecnicamente adequados para localização das futuras centrais nucleares brasileiras. Finalizada esta segunda etapa, a Eletrobras Eletronuclear apresentará cardápio de opções de localização tecnicamente otimizadas, que deverá ser objeto de avaliação e escolha pelo governo.

 

Sugiro também a leitura do artigo disponível no endereço: http://www.eletronuclear.gov.br/noticias/integra.php?id_noticia=1022