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Plano Nacional de Desenvolvimento: uma conversa com Carlos Lessa

Leandro Aguiar

Já faz décadas que o Brasil parece passar por um “momento único” em sua história. Os recordes de exportação de commodities são quebrados ano após ano, recursos naturais escondidos em rincões até então desconhecidos são encontradas, a exemplo do pré-sal, que colocou o Brasil em uma posição de extremo conforto no momento em que as previsões do fim do petróleo se tornam alarmantes. Como se fosse pouco, o nosso país tem quantidades tão fabulosas de água que para grande parte da população a idéia de que ela possa acabar, como dizem alguns cientistas, é absurda ao ponto de o nosso consumo ser quatro vezes maior que o recomendado pela OMC: 200 litros diários.

Se por um lado esse momento inspira confiança e otimismo, por outro ele preocupa uma legião de economistas brasileiros. Segundo eles, o país pode estar deixando escorrer pelos dedos a chance de se modernizar derradeiramente, diferente dos “vôos de galinha” anteriores, como são chamados os picos de crescimento não acompanhados por um desenvolvimento contínuo e consistente. Ainda de acordo com estes economistas, falta ao Estado uma política firme e séria de organização e fomento: o famoso e sempre pedido PND, Plano Nacional de Desenvolvimento.

Um desses economistas é Carlos Lessa. Ex-reitor da UFRJ, ele esteve à frente do BNDES em 2003, quando defendeu o desenvolvimentismo e um Estado com maior controle sobre a economia. Suas idéias, no entanto, divergiam muito das do governo, que sempre combatia a inflação com uma alta nos juros e conduzia a economia de modo tão neoliberal quanto o fez Fernando Henrique Cardoso. Por isso, ele foi, em suas palavras, “obrigado a retroceder”, e já em novembro de 2003 foi afastado do cargo, apesar do protesto de várias entidades, como a OAB e a CUT, que queriam sua permanência à frente do BNDES.

Carlos Lessa conversou com o Desenvolvimentistas, e esclareceu o porque de ser tão difícil se implantar um PND no Brasil.

“A circunstância é tensa”, explica o professor Lessa: parte do empresariado brasileiro, que na teoria seriam um dos grandes beneficiados por uma política desenvolvimentista, é rentista, comemoram a alta dos juros. Portanto, reitera, “qualquer política que vá contra isso não os interessa”. Outros que também investem nos títulos públicos e por isso se beneficiam dos juros são os gigantescos fundos de pensão, alguns inclusive vinculados a empresas estatais, que normalmente são as que mais clamam por baixas na SELIC, mas que nos bastidores não se portam bem assim. Ou seja, de certo modo, a empresa nacional não é nacional.

Outro problema é a ausência de uma classe trabalhadora coesa. Para Lessa, “não há classe trabalhadora brasileira”, e o Pleno Emprego, conceito abstrato da economia que segundo a mídia já foi atingido no Brasil, “é uma balela”. O professor lembra que grande parte da classe trabalhadora, ou “povão”, como ele prefere, apenas “se vira em trabalhos informais, bicos, sem carteira assinada”. Assim, o crescimento que deveria se dar preferencialmente em consonância com a classe trabalhadora, é prejudicado em qualidade.

Ao trabalhador, na atual conjuntura, cabe a parte mais amarga. Isso porque o crescimento econômico brasileiro, assinala Lessa, “se dá baseado principalmente no endividamento do povo, enquanto o empresariado sempre tem liquidez”. Uma verdadeira inversão da lógica keynesiana.

Outros dois contra-exemplos de gestão citados por Lessa foram a “estagnação da máquina estatal promovida por Dilma”, que suspendeu concursos públicos e contratações de concursados, além de realizar um corte bilionário no orçamento do Estado, e o modo como o BNDES têm incentivado a criação de “campeões nacionais” na área industrial. Lessa é favorável a esse incentivo, e afirma que alguns setores “precisam de gigantes”, mas acredita que o fomento é feito de maneira pouco regulamentada; exemplos como o da AMBEV, que recebeu toda espécie de subsídios para se tornar grande e hoje é controlada por um grupo belga, ou a Gerdau, que depois de apoiada pelo BNDES se internacionalizou, levando benefícios para outros lugares que não o Brasil, sustentam o ponto de vista de Carlos Lessa.

Não encarar uma política econômica de incentivo a indústria nacional como inconciliável ao combate da inflação, não se conformar como mero exportador de commodities, diminuir importações. Para o professor Carlos Lessa, é com esse pensamento que o Brasil deve olhar para o futuro, e, perseguindo esse objetivos, traçar suas prioridades.

DITADURA BRANDA, UMA FALSA IDÉIA

Brasília, 05 de Abril de 2011. Flavio Lyra

Adeptos da ditadura instalada no país em 31 de Março de 1964, que durou 21 anos, e certos órgãos da imprensa, propõem-se a impingir aos que não vivenciaram aquele período difícil da vida política do país, a idéia de que tivemos aqui um governo autoritário manso.  Para tanto, se apóiam em comparações com o número de prisioneiros, de torturados e de mortes de opositores ao governo em outros países, no mesmo período, com destaque para o Chile e Argentina. Efetivamente, nesses países os números conhecidos de mortes são assustadores, situando-se na faixa dos trinta mil, enquanto no Brasil ficaram muito aquém das aludidas cifras.

De fato, com base no número de violência explícita com resultados mortais comprovados ficamos muito aquém de nossos parceiros regionais. Porém, o indicador assinalado, não obstante sua contundência, não é de modo algum suficiente para avaliar o grau de violência geral em que incorreram tais governos. Há uma vasta gama de outros tipos de violência, de difícil computação, envolvidos na ação de governos ditatoriais, que tornam praticamente impossível chegar a um “ranking” de violência geral, comparável entre países.

A vida das pessoas não é destruída somente quando os cadáveres servem de comprovação. Há formas de violência, ligadas à opressão e à perseguição política, que geram traumas para toda a vida e, até mesmo, encurtam os anos de existência das pessoas e de seus familiares, seja por que afetam suas condições materiais de existência, seja por que produzem transtornos psíquicos.

Além dos mortos e torturados, a máquina de repressão e controle social instalada no Brasil prejudicou um número incomensurável de pessoas compreendendo desde trabalhadores que eram obrigados a aceitar calados a opressão de patrões e os efeitos perniciosos da política econômica que destruía o poder de compra de seus salários, passando pelas formas arbitrárias de prisões e achaques à dignidade humana por parte de autoridades dos diferentes escalões de governo, à proibição de ocupar postos de trabalho,  à expulsão de centros de ensino, até a proibição ao acesso à informação.

Quem não se recorda do sinistro Serviço Nacional de Informações (SNI), que começou com um órgão restrito de inteligência do governo e acabou dominando todo o cenário da vida social do país, com seus extensos tentáculos que penetraram até as estranhas da administração pública. Cada órgão público tinha na sua cúpula dirigente um prolongamento do SNI, que se encarregava do controle ideológico dos seus funcionários.

Com o passar do tempo o SNI, em estreita associação com os órgãos de inteligência do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, ao lado dos órgãos de repressão do nível estadual, passaram a realizar cada vez mais operações de combate direto aos opositores. Incluem-se nessas operações atos de terrorismo como a explosão de bombas em estabelecimentos públicos e privados. O famoso caso do Rio Centro-Centro, em 1981, que somente agora vem tendo maior divulgação, nada mais foi do que um atentado terrorista comandado por setores extremistas das Forças Armadas, destinado a impedir a retomada do processo democrático.  Foi uma ação planejada que se não tivesse falhado teria produzido centenas de mortes em um espetáculo realizado por artistas de oposição ao regime e com forte presença de jovens.

Conforme sabemos da Física a força necessária para deslocar um corpo é proporcional ao peso desse corpo. O mesmo ocorre com a força e a intensidade da energia mobilizada para combater o inimigo num confronto. No Brasil, a violência dos militares que aparece em alguns indicadores foi proporcional à resistência encontrada na sociedade, que certamente foi muito menor do que nos outros países da região.

A começar pela saída do Presidente Goulart que se recusou a adotar qualquer providência para contrarrestar a ação dos militares rebelados.  As organizações de esquerda existentes no país, mesmo depois que resolveram recorrer à luta armada, por sua fragilidade e falta de apoio popular, nunca chegaram nem de leve a representar uma ameaça ao controle do governo pelos militares.  Eis, portanto, uma explicação razoável, para que a ditadura no Brasil tenha assumido uma face branda em termos de mortes, tortura e prisão de opositores.

Episódios isolados em que ocorreram tentativas abertas de confrontar a ditadura tiveram desfecho com alto teor de violência por parte de agentes do governo, que nada ficam a dever ao ocorrido em outros países.  A diferença que torna os nossos números bem menores trata-se apenas de uma questão de extensão do fenômeno. No Brasil, os opositores que realmente representaram ameaça ou confrontaram a ditadura foram em número reduzido e muito débeis em termos organizacionais.  Entretanto, a intensidade da violência contra opositores em situações específicas foi de grau parecido entre os países, o que variou foi a extensão da resistência real ou potencial dos opositores.

Como conclusão, caberia afirmar que a aparente mansidão de nossa ditadura tem mais a ver com a baixa resistência apresentada pela sociedade em geral ao governo estabelecido.  Os episódios localizados de alta violência praticados pela ditadura servem muito bem para mostrar que se a resistência da população tivesse sido ampla e difundida poderia ter havido aqui um banho de sangue de igual proporção as do Chile e da Argentina. Os agentes da ditadura brasileira não eram, nem mais nem menos, preocupados com os direitos humanos. As ditaduras, nesse aspecto, são todas iguais, não têm respeito à dignidade humana.

 

MATARAM BIN LADEN, ACABOU A VIOLÊNCIA!

Brasília, 02 de Abril de 2011. Flavio Lyra

A frase que serve de título a este artigo é verdadeira e falsa ao mesmo tempo. Verdadeira por que afirma a morte de Bin Laden e falsa por que afirma que a violência acabou. Na realidade, pode até ser que o efeito do ocorrido seja mais violência. Depois do triste episódio da destruição das torres gêmeas em Setembro de 2001, dificilmente alguma pessoa sensata do mundo Ocidental deixou de repudiar a maligna ação de Bin Lader e seus liderados, tornando-o um ser odiado.

Mas será que o crime que ele cometeu, altamente condenável, justifica a montagem de um espetáculo macabro transmitido pela televisão para a Casa Branca, no qual são trucidados Bin Lader e seus familiares e no qual aparecem as camas de dormir destroçadas e manchadas de sangue? Essa cultura de faroeste que transforma as relações humanas numa disputa entre mocinhos e bandidos, em que a morte do bandido é motivo de palmas e contentamento e o mocinho que o assassina transformado em herói, em nada contribui para diminuir a violência no mundo.

O bombardeio do Iraque há alguns atrás, também foi um espetáculo transmitido pelas televisões. Parecia uma comemoração de Ano Novo pelo esplendor luminoso dos mísseis cruzando os céus naquela noite escura. Certamente que, para os milhares de iraquianos que tinham seus corpos estilhaçados pelas bombas não havia mais que o horror de sentir na própria carne e na dos semelhantes o peso da agressão iníqua da maior potência do mundo, cujo governo forjou os argumentos para justificar sua conduta agressiva e voltada para outros interesses. Quem sabe o petróleo?

Mais uma vez reproduz-se o erro metodológico de confundir as causas com as conseqüências. Bin Lader e sua terrível Al Qaeda, não seriam muito mais uma conseqüência da violência com que as grandes potências ocidentais têm secularmente impingido aos povos árabes modalidades nefandas de exploração econômica e mesmo de sofrimento físico?

O caldo de cultura para o terrorismo desde há muito está em seus recipientes e pronto para dar origem a outros iguais a Bin Lader. Sem atacar as causas, tudo faz crer que os problemas atuais que geram o terrorismo podem fomentá-lo mais ainda no futuro. O terrorismo não seria um ato de desespero extremo dos que se sentem injustiçados e não conseguem vislumbrar uma saída pacífica?

Se da ótica do observador ocidental as guerras que os Estados Unidos vêm promovendo no Afeganistão, no Iraque e agora na Líbia, têm alguma justificação humanitária, é de todo improvável que os povos que estão sendo invadidos e bombardeados pensem do mesmo modo.  Os crimes cometidos pela Al Qaeda, sob a liderança de Bin Laden, serão maiores e mais terríveis do que as centenas de milhares de vidas sacrificadas nos países invadidos pelas tropas norte-americanas e da OTAN?   George Bush e as forças armadas dos Estados Unidos, provavelmente fizeram mais mal à Humanidade em seu conjunto do que Bin Laden e a Al Qaeda.

O que estamos assistindo é apenas mais um episódio da violência que está instalada no mundo e que somente servirá para estimular os comportamentos destrutivos em relação aos semelhantes, a indiferença frente à morte de adversários e o desejo de vingança dos que se sentiram derrotados.

Há outro aspecto de extrema relevância que o episódio trás às relações internacionais: o desprezo pela soberania das nações. Vi no noticiário que os Estados Unidos não deram conhecimento ao governo de Paquistão da operação militar que levaram a cabo em seu território.

Repete-se, assim, uma conduta agressiva e desrespeitosa para com os direitos das outras nações. É um precedente perigoso, na medida em que o país mais poderoso mundo atribui-se o direito de invadir o território de outros países para fazer o que considera justo em relação a seus inimigos, especialmente sabendo-se que fica a critério de seus dirigentes escolherem quem são os inimigos.

 

Riqueza mundial: o claro avanço da periferia

Por Daniela Fabrasile, colaboradora de Outras Palavras
Os sinais empíricos de que os países da periferia do capitalismo recuperaram-se economicamente nos últimos anos; e de que o fizeram por abandonar as políticas neoliberais acabam de tornar-se mais claros. O site do Centro de Pesquisas Econômicas e Políticas (CEPR, em inglês) publicou há dias um estudo comparativo ambicioso (embora provisório) sobre a evolução de índices econômicos e das condições de vida, em 191 nações e ao longo dos últimos 50 anos. Rebecca Ray, a pesquisadora que conduziu o trabalho, demonstra que houve, no período, duas claras inversões de tendências. Nas décadas marcadas pela hegemonia das ideias neoliberais (1980-2000), o crescimento econômico dos países “em desenvolvimento” cai pela metade e os avanços sociais foram medíocres. A partir da virada do século, quando o antigo paradigma começou a ceder, deu-se uma clara recuperação.
Rebecca considerou os indicadores próximos aos que compõem o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da ONU: Renda (expressa, na pesquisa, em PIB per capita), Saúde (mortalidade infantil) e Educação (matrículas no ensino fundamental). Ao analisar cada indicador, dividiu os 191 países em quintis – cinco grupos de igual tamanho, separando-os por desempenho. No quesito PIB per capita, por exemplo, o primeiro quintil reúne os 20% de países mais pobres.
As curvas estão traçadas no gráfico abaixo. Comparando-se os períodos 1960-80 aos 1980-2000, verifica-se que, na segunda etapa, o crescimento do PIB cai pela metade em todos os quintis – do mais rico ao mais pobre. A partir de 2000, porém, dá-se algo curioso. Em todos os quintis que reúnem os países da periferia, retomam-se as taxas de crescimento do período pré-neoliberal. Os dois grupos mais pobres superam, inclusive, o desempenho de 1960-80. Quem não volta a atingir o desempenho anterior é o grupo dos países mais ricos: as taxas de crescimento do quintil 5 praticamente não se alteram no período 2000-2010.

O estudo, apresenta algumas possíveis explicações para esses fatos. Rebecca fala na adoção generalizada de políticas econômicas neoliberais no período 1980-2000. Também aponta que, em diversos países, as reformas fracassadas foram abandonadas após esse fase. O FMI, que exigia, como contrapartida a seus empréstimos, a adoção de políticas como redução dos gastos públicos e arrocho dos salários, tornou-se menos poderoso. Para não ter de recorrer ao Fundo, os países em desenvolvimento começaram a acumular reservas. O concedidos pela instituição caíram em 80% entre 2003 e 2007. Porém, enquanto a periferia modificou suas políticas econômicas, os países centrais, como Estados Unidos e os membros da União Europeia, adotaram políticas “de austeridade” que reproduzem políticas neo-liberais. Para Rebecca, pode estar aí a explicação para sua estagnação atual.
Ao contrário do que ocorreu em outras épocas, é interessante notar que a melhora econômica da periferia refletiu-se em indicadores sociais, como a mortalidade infantil (gráfico abaixo). O gráfico assume forma muito similar ao anterior, mas nesse caso é invertido uma vez que a meta é a diminuição do índice — não seu aumento. No período 1960-80 os dois quintis com maiores taxas de mortalidade infantil reduziam essa taxa em 4,9% (quintil 1) e 3,7% (quintil 2) ao ano. Nas décadas seguintes, os números tornam-se sofríveis. A redução da mortalidade cai para 3,1%(quintil 1) e 2,4%(quintil 2). É a época das políticas de “Estado mínimo”. A recuperação vem a partir da virada do século, quando a mortalidade infantil volta a recuar no mesmo ritmo de 1960-80.

Os quintis 3 e 4 praticamente mantiveram a redução da mortalidade infantil nos dois primeiros períodos, mas em 2000-2009 o quintil 3 apresentou uma melhora acentuada, enquanto o quintil 4 não mostrou melhora significativa, assim como o quintil 5, que pouco modifica a taxa de redução da mortalidade entre os dois últimos períodos. No período 1960-80, não há a curva do quintil 5 uma vez que nenhum país que se qualificasse.
Os progressos na educação já mostram um gráfico um pouco diferente dos anteriores. Os dois grupos com menos matrículas viram uma diminuição acentuada do progresso no período 1980-2000, mas tiveram uma grande aceleração no período 2000-2008, e as taxas de aumento das matrículas eram superiores ao primeiro período. O quintil 3 teve uma pequena piora em 1980-2000, mas em 2000-2008 recuperou e superou as taxas de 1960-80. O quintil 4 obteve uma pequena melhora entre 1960-80 e 1980-2000, e as taxas mantêm-se estáveis no último período; enquanto o quintil 5, que manteve a mesma taxa nos dois primeiros períodos apresentam uma leve piora em 2000-2008.

O crescente desenvolvimento dos países periféricos, assim como a estagnação dos países centrais pode ser vista nos três gráficos mostrados, sob a ótica de diferentes indicadores sociais e econômicos. Ainda não é possível determinar se a tendência vista na última década continuará. Mas segundo, Rebecca Ray, “os últimos anos marcaram uma importante ruptura do longo período de políticas econômicas fracassadas que a maior parte dos países periféricos experimentou de 1980 a 2000”.

A desigualdade regional na mão-de-obra

Do Valor

Polêmico, Ipea não vê falta de qualificação no país

De São Paulo
29/04/2011

O Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea) introduziu ontem uma tese polêmica no debate sobre a qualificação profissional como entrave no crescimento econômico – este ano terminará com um contingente pouco superior a 1 milhão de pessoas desempregadas com qualificação. Segundo o economista Marcio Pochmann, presidente do Ipea e especialista em mercado de trabalho pela Unicamp, o excedente de pessoas qualificadas não é aproveitado porque elas estão “na região errada”. Isto é, o déficit de 2,8 mil trabalhadores qualificados na construção civil em Alagoas, estimado pelos técnicos do Ipea para este ano, poderia ser suprido pelo saldo de três mil trabalhadores qualificados no setor que serão gerados no Acre ao longo de 2011.

No estudo, divulgado ontem em São Paulo, os técnicos do Ipea estimam que 19,3 milhões de pessoas serão demitidas ao longo do ano, número superior aos 17,8 milhões que perderam emprego em 2010. O órgão de estudos federais avalia que todos eles são qualificados para trabalhar em suas respectivas funções. De acordo com Pochmann, as empresas demitem “porque é fácil demitir”, e as razões por detrás dessas demissões se concentram nos altos salários. “Quando o trabalhador atinge seu pico de produtividade e seu salário já está alto, a empresa demite e contrata outro, com salário maior. O demitido, no entanto, tem qualificação para trabalhar em qualquer outra companhia de seu setor”, avalia.

Para chegar no saldo de 1,048 milhão de trabalhadores qualificados que terminarão o ano sem emprego, o Ipea levou em conta que 762 mil dos 1,5 milhão de trabalhadores que ingressarão na população economicamente ativa (PEA) neste ano tem qualificação para trabalhar. E por qualificação, o Ipea entende aquele trabalhador que frequentou um curso de especialização ou já trabalhou na área.

Apenas a indústria registrará déficit de vagas no país, avalia o Ipea – enquanto os Estados do Norte e Nordeste contarão com um contingente de 36,6 mil operários qualificados sem emprego, apenas a região Sul contará com déficit de 51,5 mil trabalhadores com especialização industrial. Segundo Pochmann, o sistema público de emprego, coordenado pelo Ministério do Trabalho, deve ser aprimorado de forma a dinamizar a mobilidade regional de trabalhadores. Quer dizer, metalúrgicos sem emprego no polo de Camaçari (BA), onde o Ipea estima excedente de mão de obra qualificada, poderiam ocupar vagas abertas nas metalúrgicas de Jaraguá do Sul (SC).

“O sistema público tem de fazer sua parte, seja ampliando cursos profissionalizantes, seja ampliando a coordenação entre as informações sobre desemprego e o despacho de trabalhadores qualificados ociosos para regiões onde há demanda por sua mão de obra”, diz Pochmann. (JV)

 

Trem-bala que ligará Rio a São Paulo é um barato que pode sair caro

Polêmico, projeto pode sair R$ 20 bilhões mais caro.

Jornal do Brasil-Jorge Lourenço

O custo do trem de alta velocidade (TAV) deve pular dos R$ 33 bilhões anunciados inicialmente para R$ 49 bilhões, segundo estimativas do economista e consultor legislativo do Senado, Marcos José Mendes. Segundo o especialista, o valor foi obtido graças a uma média de aumento no orçamento de obras de implantação de trens-bala pelo mundo.

– Em média, projetos semelhantes ao do TAV brasileiro tiveram um aumento de custo de 45%. Se isso acontecer, o preço da obra beiraria os R$ 50 bilhões – alertou  Mendes. – E isso tudo com a maior parte do capital, cerca de R$ 35 bilhões, bancado pelo governo. O projeto é bom, mas o debate é sobre como poderíamos investir esse dinheiro em outras áreas.

A nova estimativa de custo foi revelada durante debate, na sexta-feira, no Clube de Engenharia do Rio de Janeiro, onde especialistas discutiram os prós e contras do projeto. Durante o evento, os engenheiros, quase todos veteranos, aplaudiram com entusiasmo algumas das críticas à obra.

Fonte: JB

 


NOTA DO ENG PAULO FERRAZ

O orçamento inicial do projeto do trem bala era de 18 bilhões, valor consolidado depois de décadas de estudos.

Mais uma vez com o argumento de que o país não tem dinheiro para infraestrutura tiraram da cartola a mágica idéia das PPPs- Parceria Público Privada.

A fórmula dessas PPPs é 70 % BNDES, 10 % Fundos de Pensão de Empresas Públicas/Funcionalismo Federal e os 20 % restantes cota da iniciativa privada.

A partir daí começa a disparar o preço estimado da obra.

Se fala agora em 33 bilhões de reais ( mas existe no ar a alerta de que pode chegar a 50 bilhões ).

Na modalidade de PPP teriamos 26,4 bilhões de dinheiro público ( podendo chegar a 40 bi ).

Só com essa verba pública poderiamos fazer a obra ainda com um folga para gastar numa inesquecível festa de inauguração!

E os 20 % do investimento privado seriam dispensaveis mas eles receberiam de presente a obra para operar!

Essa fórmula suspeita já vimos ser tentada no projeto da Variante Ferroviaria Guarapuava-Ipiranga.

Não sou contra a construção do Trem de passageiros Rio São Paulo, muito pelo contrário sou um antigo defensor.

Mas o preço estimado é exorbitante!

Dá pra implantar o projeto do TAV Rio/SP e dentro desse orçamento de 50 bilhões de reais ainda construir uns 10.000 km de novos ramais de linhas férreas em áreas estratégicas para o país e para o Mercosul.

Eng. Paulo Ferraz

 

 

Diálogo Desenvolvimentista No 33: as sondas da Petrobrás e a mídia brasileira

Leandro Aguiar

Que a velha mídia brasileira defende interesses que nem sempre coincidem com o de seus leitores, muita gente já sabe. A sutileza com que ela o fazia no passado, porém, às vezes era digna de admiração. Ela costumava conduzir os leitores evocando valores como “desenvolvimento”, “tecnologia” e “avanço” para, por exemplo, justificar as privatizações. Através de palavras de ordem como “mensalão”, “CPIs” e “valerioduto”, liderou uma campanha midiática que tinha o claro e quase expresso objetivo de tirar Lula do Planalto. Os argumentos sempre foram inconsistentes, e nunca passariam por uma análise mais refinada, mas que eram sutis, isso eram.

Pois no dia 19 de abril o Estadão resolveu deixar toda a sutileza de lado e, na coluna de opinião (sempre ela, como que dizendo “quem falou foi o articulista, não o Jornal…”) do caderno de economia, expressou toda sua alegria em relação à possibilidade de algumas sondas que a Petrobrás precisa para perfurar poços de petróleo não serem mais compradas de empresas brasileiras. Segundo o jornal, a decisão é louvável, e é “uma demonstração prática e clara de preocupação com os interesses de seus acionistas e do País e que, à opção política de privilegiar o produtor local mesmo em detrimento de sua saúde financeira, preferiu a racionalidade empresarial.”. O grande patriota continua, e critica a medida tomada pelo governo Lula, que obrigava a Petrobrás a dar preferência para a indústria nacional.

O Desenvolvimentistas discutiu o artigo do Estadão. Acompanhe:

 

“É o lobby atuando. A Petrobrás não tem essa pressa, pois temos auto-suficiência para mais de 20 anos. Eles querem é desnacionalizar tudo. Comprar lá fora. Quando nós formamos 5.000 empresas fornecedoras de equipamentos de petróleo, tínhamos autorização de comprar até pelo dobro do preço externo. Depois, formado o parque fabril nacional, competindo no estado da arte com empresas estrangeiras, começou a derrocada. Collor abriu o mercado, baixando as tarifas de importação em 30%. Depois FHC com o decreto 3161, que isenta empresas estrangeiras de imposto e não isenta as nacionais, jogou a pá de cal e assassinou as 5.000 empresas. Mas podemos retomar a tecnologia nacional. Para isto é preciso: 1) acabar com o 3161; retomar via lei ordinária a diferença entre empresa brasileira de capital nacional e a de capital estrangeiro.”

Fernando Siqueira, membro da Associação dos engenheiros da Petrobrás (AEPET)

“Meu Deus, como um jornal que se diz brasileiro pode pregar tamanha sandice. Qualquer nação minimamente estruturada, que tivesse por objetivo buscar algum progresso efetivo para o seu povo, jamais perderia uma oportunidade única, como esta demanda da nossa Petrobrás, para alavancar o seu desenvolvimento industrial, neste caso, mais importante ainda, diversificado. Um mercado desta monta a ser suprido pela indústria nacional, asseguraria a esta o desenvolvimento das tecnologias e inovações necessárias, bem como níveis de produtividade que permitiriam, numa etapa seguinte, ser competitiva no mercado externo. Afinal, para atender às necessidades da Petrobrás, como descrito, toda a cadeia de produção industrial seria envolvida. Pergunto, hoje, que país tem uma oportunidade como esta, quase um milagre?

Não consigo entender o silêncio dos industriais brasileiros e, principalmente de suas federações e confederações, diante do absurdo defendido na matéria. Será que nosso destino será virar o país do rentismo, exportador de commodities?”

Carlos Ferreira, analista político

“O Wikileaks provou claramente, quem decide a pauta de grandes assuntos dos grandes jornais brasileiros é a diplomacia americana (obviamente i$$o não sai de graça)

Obama já disse, querem vender sonda americanas para o Pré-Sal, então o Estadão está apenas fazendo publicidade das sondas americanas (remuneradamente)”

Gustavo Santos, economista