O aumento das passagens, o caos urbano e o oportunismo rasteiro

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Por Rennan Martins | Vila Velha, 13/01/2016

Abuso de poder tem objetivos políticos. Foto: Jornalistas Livres

A política institucional ainda está em banho-maria por conta do recesso parlamentar. As ruas, no entanto, já deixam evidente que este ano continuará de alta conflituosidade e polarização. O aumento das passagens do transporte público traz à tona mais uma vez a caixa-preta que esconde da sociedade os verdadeiros custos e lucros de um setor fundamental a vida nas cidades, cujas deficiências afetam não somente aos usuários, mas a dinâmica social como um todo.

De pouco ou nada adianta os argumentos de setores governistas e afins demonstrando que em alguns locais, São Paulo por exemplo, as passagens subiram menos que a inflação depois de 2013. Apelar para isso é diversionismo quando se sabe que as planilhas de custo das empresas de ônibus são insondáveis. Há casos em que os próprios órgãos reguladores admitem que não possuem subsídios para auditá-las. Ora, é absurdo e inadmissível que os exploradores de uma concessão pública se neguem a prestar contas. Os indícios de falcatruas pululam. O exemplo do empresário Jacob Barata, que apareceu listado no inconveniente escândalo do HSBC-Wikileaks, é somente um dos inúmeros.

Chegamos nesta surreal e autoritária situação, em que prefeituras e governos de todo o país são incapazes de submeter os interesses das concessionárias, depois de gerações e gerações em que a política se baseou em relações pouco republicanas de financiamento a campanhas e loteamento do Estado aos interesses destas mesmas empresas.

Somando isto a especulação imobiliária e supremacia (outra vez!) dos ditames das empreiteiras na ordenação do território urbano e temos como resultante uma cidade de rotina extremamente opressiva onde a maioria da população está submetida a jornadas crescentes de deslocamento e paulatina expulsão dos centros para as periferias, onde a infraestrutura e serviços marginalizam o cidadão lhe negando acesso a serviços e direitos elementares. Tais fatores alienam, segregam e estimulam o individualismo selvagem nos cidadãos, componentes condizentes num mundo onde impera o neoliberalismo.

No caso específico de São Paulo, abro parênteses para apontar elementos que alteram os acontecimentos e explicam o espetáculo de brutalidade da Polícia Militar do governador Geraldo Alckmin. O tucano fez um cálculo político rasteiro, e por isso consentiu com o massacre aos manifestantes ocorrido ontem, visando o desgaste do prefeito e candidato a reeleição Fernando Haddad, e quiçá alimentar a fogueira do impeachment, o que ocorrerá somente se os protestos ganharem energia e se expandirem para outros estados, exatamente como em 2013, quando o que gerou indignação nacional e solidariedade foram os vídeos das chuvas de bombas de gás lacrimogêneo. O episódio se repete como farsa e a desproporcionalidade foi tamanha que os repórteres da Globo News tossiam ao vivo na cobertura, mesmo estando consideravelmente longe do miolo dos conflitos. A ironia da situação reside no fato de que Haddad foi o único prefeito que enfrentou o caos urbano em diversas frentes, sendo incapaz, no entanto, de democratizar e tornar transparente o transporte público de fato. Fecha parênteses.

A agressividade do Estado na proteção aos interesses das empresas concessionárias tende a aumentar, visto que o tema está definitivamente em pauta e voltará a cada centavo e minuto a mais de jornada que for submetida a população. O desmantelamento das máfias do transporte público urge e acontecerá independente da repressão, simplesmente porque a vida do cidadão médio de cidades como Rio e São Paulo se torna cada dia mais insuportável. A geração de políticos responsável por desfazer esta trincheira oligárquica marcará a história do país.

Uma ideia sobre “O aumento das passagens, o caos urbano e o oportunismo rasteiro

  1. Rennan Martins Autor do post

    Abrimos espaço para publicar o comentário do senhor Ivo Pugnaloni sobre este artigo, enviado para o autor via e-mail e desta forma compartilhado com os leitores e amigos do Blog!

    Ivo Pugnaloni diz:

    Tive que abrir um tempo para elogiar esse artigo pelo pequeno tamanho, linguagem direta e grande síntese, digna de um jornal popular impresso, de baixo custo.
    Mas que mereceria ser lido por todos os que acessassem a internet, mas que infelizmente, não conhecem o nome dos sites onde artigos assim, sobre esses temas, são publicados.

    Razão pela qual, insisto, um projeto de divulgação coletiva do nome dos blogs “sujos” em outdoors com dezenas deles seria fundamental para dar maior numero de acessos a eles.

    E garantindo maior e crescente efetividade ao exaustivo trabalho que todos fazemos voluntariamente todos os dias ( e principalmente noites) enquanto os Marinho, os Civita, os Frias e outros manipuladores da opinião pública estão dormindo.

    Muito tranquilos, afinal, com o dinheirão que amanhã, com certeza, algum órgão de governo que enxovalham estará depositando em suas contas.
    Sabendo que, quanto mais mentirem, maior será o volume de publicidade vendida por eles….
    Etcha lelê….

    Responder

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