Arquivo mensais:outubro 2015

Governo e PSDB se unem pela aprovação da Lei Antiterrorismo

Por Najla Passos | Via Carta Maior

O projeto que criminaliza a ação dos movimentos sociais está na pauta de votação do Senado desta terça (20).

Está na pauta de votação do Senado desta terça (20) o Projeto de Lei Complementar (PLC) 101/2015, que tipifica o crime de terrorismo. De autoria do Executivo, o projeto prevê prisão de até 30 anos para a pessoa ou grupo que promova “atitude que possa provocar terror social ou generalizado” e que “coloque em risco as pessoas ou o patrimônio público”. Por conta do texto subjetivo, o projeto é rechaçado por organizações sociais de defesa dos direitos humanos e movimentos sociais.

“Fica claro que este dispositivo, caso seja aprovado, será utilizado pelos setores conservadores contra manifestações legítimas dos diversos movimentos sociais, já que tais lutas são realmente capazes de trazer indignação para quem há muito sobrevive de privilégios sociais”, afirmam, em manifesto, dezenas de organizações sociais como o MST, MTST, CUT e CSP-Conlutas, além de intelectuais e acadêmicos.

No documento, os signatários também criticam o fato do projeto ter sido encaminhado pelo governo da presidenta Dilma Rousseff, já que ela própria integrou uma organização clandestina que visava combater a ditadura via luta armada. “A presidenta Dilma Rousseff, que já foi acusada da prática de terrorismo pela Ditadura Militar, não deveria ter enviado este projeto ao Congresso e, caso aprovado no Senado, deverá ter a dignidade de vetá-lo. É o mínimo que se espera” defendem.

Pressões internacionais

O projeto do executivo atende à pressão internacional do Grupo de Ação Financeira contra a Lavagem de Dinheiro e o Financiamento do Terrorismo (GAFI), o organismo internacional que, desde o 11 de Setembro, articula a aprovação de leis similares em vários países do mundo. Nas conversas de corredores do Senado, a informação é que seu principal embaixador dentro do governo federal é o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, que já deixará como legado ao país o mais neoliberal de todos os planos econômicos dos governos petistas.

Para as organizações sociais, a legislação brasileira atual já penaliza os crimes de terrorismo e, por isso, não há necessidade de se criar uma norma nova para atender às pressões do GAFI. “A Lei sobre organizações criminosas – e todos seus instrumentos tais como colaboração premiada e infiltração — já se aplica às organizações terroristas internacionais cujos atos de suporte, de preparação ou de execução ocorram ou possam ocorrer em território nacional”, contrapõem no manifesto.

Tal como o ajuste fiscal de Levy, o projeto não é consenso nem mesmo dentro do PT. O senador Lindemberg Farias (PT-RJ) tem afirmado que a norma está muito mais para um projeto de criminalização dos movimentos sociais do que para um que tenha como objetivo a tipificação dos crimes de terrorismo. O senador Humberto Costa (PT-RE) já admite que a melhor estratégia seja derrota-lo para que o governo reencaminhe uma nova versão.

Aliança incomum

Para garantir que a norma passe pelo Senado, o governo articulou uma aliança incomum: deixou a relatoria da norma na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) com o senador Aloysio Nunes (PSDB-SP), autor de projeto de lei de conteúdo bastante parecido. Nunes, tal como Dilma, participou da luta armada na ditadura militar. Porém, ao contrário dela, afirma hoje que não se orgulha do fato.

“Desde 2013, o senador Aloysio Nunes vem defendendo a aprovação de uma lei antiterrorismo e até já apresentou ao Senado um projeto de lei com teor bastante semelhando ao do Executivo. Portanto, com ele não há nem negociação para aprovação de uma versão menos danosa aos movimentos sociais, como ocorreu na Câmara”, explica a ativista Kerolin Andresa Machado Gonçalves Porto, coordenadora de advocacia da Rede Justiça Criminal.

De fato, no texto aprovado pela Câmara, a pressão das organizações da sociedade civil conseguiu introduzir uma emenda que excluiu da definição de terrorismo as manifestações políticas, sociais, sindicais e religiosas, além de protestos em defesa de direitos e liberdades constitucionais. “Se você criar essa ressalva, não existe mais a possibilidade de você condenar ninguém por terrorismo. Não existe terrorismo do bem”, justificou o relator à TV Senado.

De acordo com a coordenadora da Rede Justiça Criminal, por conta do caráter de urgência requisitado pelo governo, toda a tramitação do projeto no Senado vem sendo feita no afogadilho. “Na Comissão de Relações Exteriores  (CRE), quando a relatoria ainda era do senador Romero Jucá (PMDB-RR) não houve nem apresentação do parecer, nem debate do teor da proposta”, denuncia.

Parlamentares e economistas se opõem a texto de Serra que limita endividamento da União

Por Hylda Cavalcanti | Via RBA

Matéria prevê engessamento das contas públicas por 15 anos. Apreciação está prevista para amanhã (20) na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado.

Mais de cem economistas, acadêmicos e representantes da sociedade civil assinaram documento contra a iniciativa. EBC/MEMÓRIA

Brasília – Parlamentares e o Planalto mantêm estado de alerta para mais uma matéria polêmica, prevista para ser apreciada amanhã (20), na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado. Trata-se da proposta de resolução apresentada pelo senador José Serra (PSDB-SP) que estabelece limites duros para o endividamento público da União por aproximadamente 15 anos, com o argumento de que objetiva regulamentar a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). A matéria tinha sido retirada de pauta por conta de um pedido de vista em setembro passado e retorna, agora, à CAE. Está sendo criticada por economistas, sindicalistas e profissionais diversos que a veem como uma forma de “engessar” ainda mais as contas públicas. Por isso, também é alvo de abaixo-assinado contra a sua apreciação.

Na prática, estabelece que dívida bruta da União não poderá exceder 4,4 vezes a receita corrente líquida (RCL). Ao mesmo tempo, a dívida líquida não poderá ser superior a 2,2 vezes a RCL. Assim, a razão entre a Dívida Consolidada Bruta e a Receita Corrente Líquida deve subir a 7,1 nos próximos cinco anos. E ser reduzida a 4,4 nos dez anos seguintes, até 2030 – o que, na opinião de especialistas, representaria cerca de 30% do PIB em apenas dez anos.

O grande problema para discussão da matéria é que, como se trata de um projeto de resolução do Senado e não projeto de lei, caso seja aprovada pela CAE e depois pelo plenário da Casa, não precisará ser discutida pela Câmara dos Deputados e tampouco ser vetada pela presidenta Dilma Rousseff. Por isso, está sendo chamada de “golpe”, por vários senadores da base aliada e mesmo de partidos com postura independente da do governo.

“A proposta significa o mesmo que perenizar a crise econômica, porque estabelece limites draconianos para a dívida pública da União”, criticou hoje (19) o senador Lindbergh Farias (PT-RJ), um dos integrantes da comissão (que já chegou a presidir, na legislatura anterior). Para Farias, além de estar fundamentada em dados técnicos equivocados, a proposta tramita sem qualquer debate que envolva a sociedade.

‘Golpe fiscal na democracia’

“Esse seria um verdadeiro golpe fiscal na democracia brasileira, que engessaria as nossas políticas fiscais, cambiais e monetárias, assim como o crescimento econômico do país”, ressaltou o senador. “O prazo de 15 anos é muito extenso”, reclamou o senador Fernando Bezerra Coelho (PSB-PE) – que não se opõe à limitação do endividamento público propriamente, mas defende um período mais curto para este prazo.

“São necessárias a mobilização e participação de todos na missão de impedir a aprovação dessa medida”, destacou Lindbergh Farias, ao enfatizar manifesto assinado por diversos especialistas contrários ao texto. A proposta, que hoje faz parte da chamada Agenda Brasil (grupo de matérias que têm como intuito incentivar a retomada do crescimento econômico do país), é de autoria da própria comissão.

A matéria foi apresentada ao Congresso em 2000, quando o então presidente Fernando Henrique Cardoso encaminhou ao Legislativo duas propostas de limites para os montantes das dívidas dos entes da federação: uma para a União e outra para estados, Distrito Federal e municípios.

De acordo com informações da CAE, parte da mensagem presidencial transformou-se na Resolução do Senado Federal 40/2001, que define os limites globais da dívida pública consolidada e da dívida pública mobiliária dos estados, Distrito Federal e municípios – teve como relator, na época, o senador Romero Jucá (PMDB-RR). A outra parte voltou a ser discutida apenas este ano.

Conforme a explicação dada por Serra (PSDB-SP) no seu parecer, a proposta atende a uma determinação da LRF no sentido de estabelecer limites para a dívida da União. Para o senador, a alteração feita por ele ao projeto original se deu porque o texto só previa limite para a dívida líquida e ele considerou importante que também se atingisse a dívida bruta. Uma vez que, a seu ver, o governo utilizou nos últimos anos o que chamou de “contabilidade criativa” – numa referência a operações realizadas entre instituições financeiras controladas pela União e o Tesouro para financiar despesas, sem que isso aparecesse nas estatísticas de dívida líquida.

Serra afirmou, ainda, que considera que “o espírito da responsabilidade fiscal anda perdido no Brasil”, motivo pelo qual o seu projeto seria uma forma de auxiliar na transição do atual patamar para um patamar “mais razoável” de equilíbrio fiscal e incentivar condutas fiscais mais austeras.

Estudo refutado pelo BC

O grupo de mais de 100 economistas, acadêmicos e representantes de entidades da sociedade civil, que assinou documento se manifestando contra a iniciativa – e que já foi endossado por mais de 2.400 pessoas – aponta como um dos grandes problemas da matéria o fato de o senador relator ter adotado como base para seu texto dados do Banco Central sobre empréstimos tomados para reduzir a liquidez da economia.

Segundo esses dados, as operações compromissadas, que estavam em torno de R$ 50 bilhões entre 2002 e 2006, saltaram para R$ 902 bilhões em julho de 2015. Só que tais números são de um estudo feito pela consultoria Tendências que foram desmentidos logo após a sua divulgação, por meio de nota pública do Banco Central.

“O projeto engessaria as políticas fiscal, monetária e cambial do país, a partir da compreensão tecnicamente equivocada das relações entre o Tesouro Nacional e o Banco Central. Muito provavelmente, engessaria o crescimento econômico necessário, não apenas para gerar empregos de que a sociedade brasileira carece, mas até mesmo para pagar a dívida pública”, diz a nota.

O grupo pede que o assunto seja discutido amplamente, por meio de audiências públicas e debates e os que endossam o documento acusam a matéria de “manobra” para impedir a discussão pública sobre a regulamentação da Lei de Responsabilidade Fiscal do país, num “debate antimonocrático”. Esta manhã, a economista Ceci Juruá, doutora em políticas públicas, acusou o texto de ser inconstitucional e “um atentado ao desenvolvimento e à própria soberania nacional”.

“Além de seus efeitos deletérios, sobre as possibilidades de utilização do crédito nacional por entidades públicas e pelo próprio governo, a emenda Serra poderia impor a necessidade, inadiável, de restringir a livre circulação de capitais estrangeiros no espaço econômico nacional e, provavelmente, o retorno imediato da lei de limitação da remessa de lucros. Afinal de contas, as operações compromissadas do Banco Central, um elemento da dívida pública que o senador gostaria de limitar, entre outros, são o reverso, a outra face da brutal invasão do Brasil por capitais estrangeiros em voo livre à procura de campos onde se possam multiplicar prazerosamente”, afirmou Ceci, em artigo de sua autoria.

Por conta de toda essa polêmica, a matéria promete ser alvo de discussão intensa na reunião da CAE. O líder do PT no Senado, senador Humberto Costa (PE), que retorna a Brasília esta tarde, deve atuar contra a aprovação da matéria na comissão, ao lado dos senadores Lindbergh Farias e Gleisi Hoffmann (PT-PR), além dos demais integrantes da base aliada. Defendem a proposta, juntamente com Serra e todo o PSDB, o senador Romero Jucá e o presidente da CAE, senador Otto Alencar (PSD-BA). A reunião está prevista para começar às 10h.

Termômetro da conjuntura política #7

Por Rennan Martins | Vila Velha, 19/10/2015

Ascensão e queda. A semana passada iniciou com o então soberbo presidente da Câmara anunciando que decidiria sobre a abertura do procedimento de impeachment contra Dilma Rousseff, tendo definido um rito que não observava a lei competente, mas o regimento interno, de forma a dar-lhe mais poder. O STF, notando a evidente paraguaiada armada pelo peemedebista, deferiu três liminares que impediam Eduardo Cunha de seguir pelo caminho, entendido como ilegal. Alguns dias se passaram e o vazamento dos documentos e assinaturas referentes as contas na Suíça simplesmente enterraram Cunha e qualquer pretensão de se manter frente a Câmara. Esta semana se inicia com a discussão sobre sua sucessão, que até mesmo o PMDB vê como inevitável.

Golpe fiscal. O senador José Serra (PSDB-SP) apresentou emenda ao Projeto de Resolução do Senado nº 84/2007 que, se aprovada, tem o potencial de devastar a já combalida economia e até a própria soberania nacional. O texto estabelece metas de superavit primário que nos transformariam numa colônia da dívida, submetendo o país a ajustes consideravelmente mais profundos que o atual – algo equivalente a 30% do PIB em dez anos. Tal medida se daria sem qualquer debate e com base em dados e conceitos falaciosos. Atenção, a banca não dorme e tem em Serra um obediente e aplicado serviçal, se você se opõe a este projeto, assine esta petição eletrônica e faça barulho nas redes.

Gravou ou não? A Lavajato tem recebido excepcional cobertura do repórter investigativo Marcelo Auler, que em seus últimos artigos expôs um imbróglio que ameaça a legalidade de boa parte da operação: o dos grampos não autorizados na cela do doleiro Alberto Yousseff. A escuta foi tida como inoperante, tendo a Polícia Federal alegado que ali estava quebrada desde os tempos em que Fernandinho Beira-Mar esteve preso no mesmo local. Hoje se sabe que esta versão não se sustenta e que os grampos gravaram em torno de 100 horas ilegalmente. Caso os advogados consigam comprovar que a força-tarefa fez uso desse material a anulação de diversas provas será inevitável.

Óbvio esquecido. O colunista do New York Times e nobel em economia, Paul Krugman, deu entrevista à Folha de São Paulo, e nela nos lembrou mais uma vez que o cenário recessivo global não é inexorável e que os livros de economia mais básicos indicam a solução que anteriormente já deu certo, mas que agora é ignorada: deficit público e investimento em infraestrutura. A economia é uma ciência humana que dispõe de inúmeras abordagens e soluções que variam conforme as circunstâncias, mas o debate econômico foi interditado pela escola de Chicago e o que temos agora são somente ajustes que ampliam as crises e trazem seríssima degradação social.

Teimosia. Nesse sentido, é incompreensível a obstinação da presidenta em manter o ultraortodoxo Joaquim Levy à frente da Fazenda. Desde que assumiu a pasta seus cortes somente derrubaram a atividade e definharam a arrecadação, o que por sua vez requer ainda mais cortes que aprofundam a recessão, verdadeiro cão correndo atrás do rabo. Sem uma mudança na política econômica a perspectiva é de aumento do desemprego e continuação da crise política.

Humanistas”. Os Estados Unidos permanecem desafiando os limites da hipocrisia. No mesmo mês em que bombardearam um hospital dos Médicos Sem Fronteiras conseguem levantar objeções as operações russas na Síria, únicas que têm conseguido combater de fato o Estado Islâmico. Ocorre que desta vez a OTAN está tão desmoralizada que nem mesmo seus próprios habitantes creem na narrativa corporativa dos conflitos. Pesquisa de opinião pública feita pelo tabloide Daily Express atesta que mais de 70% dos cidadãos britânicos apoiam a operação russa contra o Estado Islâmico.

Irã. O presidente norte-americano, Barack Obama, determinou que a administração do Estado tome as medidas cabíveis para levantamento das sanções impostas ao Irã há décadas. Tal decisão é fruto do acordo nuclear costurado entre os países e ocorreu 90 dias após a ratificação do mesmo por parte do Conselho de Segurança da ONU. A expectativa é de que Teerã abarcará mais petróleo na oferta global, o que pressionará o preço do óleo para baixo.

Contra o golpe fiscal na democracia brasileira

Via Carta Maior

O senador José Serra, fundamentado em dados técnicos completamente equivocados, propõe um projeto antinacional sem qualquer debate público.

Um projeto de resolução do Senado Federal (PRS nº 84/2007), da maior gravidade para a democracia brasileira, pode ser aprovado brevemente, sem qualquer debate público. O senador José Serra é o responsável por emenda a esse projeto que pretende definir limites draconianos para a dívida pública da União, de modo a forçar a obtenção de superávit fiscais primários em torno de 3% do PIB por vários anos.

Assine aqui o manifesto contrário ao projeto

A manobra regulamenta a Lei de Responsabilidade Fiscal sem discussão pública e passa por cima das leis orçamentárias futuras, inutilizando o debate democrático sobre o valor dos recursos que devem ser transferidos dos impostos dos brasileiros para os portadores da dívida pública. Tais credores assegurariam, por pelo menos os próximos quinze anos, uma política econômica caracterizada por uma austeridade ainda mais profunda do que a realizada em 2015.

As consequências sobre o crescimento econômico, a justiça social e a própria arrecadação de impostos são deletérias. Significaria perenizar a crise econômica por que hoje passamos.

O próprio impacto recessivo da austeridade atual já obrigou a uma mudança no projeto de resolução. Há apenas um mês, propôs-se a definição de um limite muito menor para a dívida pública do que o valor verificado atualmente: uma razão de 4 vezes entre a Dívida Consolidada Bruta e a Receita Corrente Líquida, que estava, em julho de 2015, em cerca de 5,6 vezes. A diferença exigiria, considerando o valor da arrecadação tributária atual, a realização de um esforço fiscal de R$ 1,05 trilhão (um pouco mais de um trilhão e cinquenta bilhões de reais) ou 18% do PIB!

Assine aqui o manifesto contrário ao projeto

Em 15 de outubro, o projeto passou a admitir que a razão entre a Dívida Consolidada Bruta e a Receita Corrente Líquida deve subir a 7,1 nos próximos cinco anos. No entanto, exige que se reduza a 4,4 nos dez anos seguintes até 2030. Apenas para dar uma ideia do esforço em valores atuais, a redução envolveria cerca de 30% do PIB em apenas dez anos!

A enormidade desse valor representaria um peso insuportável para a política fiscal e para a própria economia: a elevação abrupta da meta de superávit primário impediria o crescimento econômico. De nada adianta diluir o esforço fiscal em 15 ou 10 anos como propõe o projeto. Um esforço fiscal bastante inferior a esse valor foi planejado para 2015, o que agravou a recessão e levou a uma queda da arrecadação tributária em termos reais.

O pior é que o projeto se fundamenta em argumentos tecnicamente equivocados. O projeto acusa o Banco Central de financiar o déficit público, cometendo crime de responsabilidade através de uma “pedalada” proibida pela Lei de Responsabilidade Fiscal. Isso supostamente ocorreria através das operações compromissadas realizadas pelo Banco Central para garantir o alcance da meta para os juros SELIC definida pelo Comitê de Política Monetária, o COPOM.

Assine aqui o manifesto contrário ao projeto

Isso é uma acusação grave, que repete equívoco de estudo feito pela Tendências Consultoria em 2013, já cabalmente refutado em nota pública do Banco Central. Se a justificativa técnica envolve uma denúncia de crime de responsabilidade, ela não deveria estar melhor fundamentada tecnicamente e envolver amplas audiências públicas sobre o tema?

Como o projeto inclui os títulos públicos usados pela política monetária e pela política de aquisição de reservas cambiais na definição do limite da dívida pública, sua aprovação forçaria o Banco Central a resgatar os títulos públicos com emissão de moeda, e vender reservas cambiais, com consequências tenebrosas sobre a inflação e a taxa de câmbio.

Em suma, o projeto engessaria as políticas fiscal, monetária e cambial do país, a partir de uma compreensão tecnicamente equivocada das relações entre o Tesouro Nacional e o Banco Central. Muito provavelmente engessaria o crescimento econômico necessário não apenas para gerar os empregos de que a sociedade brasileira carece, mas até mesmo para pagar a dívida pública.

Tamanha irresponsabilidade não pode resultar de um simples projeto de resolução que não será discutido pela Câmara dos Deputados nem poderá ser vetado pela Presidência da República, e que não foi sequer debatido pela sociedade brasileira. É urgente realizar esse debate para evitar a tragédia anunciada.

Assine aqui o manifesto contrário ao projeto

ASSINAM:

Maria da Conceição Tavares – UNICAMP/UFRJ

Carlos Lessa – Economista – UFRJ

Vagner Freitas – Presidente da CUT

Paul Israel Singer – Economista – USP

Marcio Pochmann – Economista – UNICAMP, Presidente da Fundação Perseu Abramo e membro do Fórum21

Niemeyer Almeida Filho – UFU – Presidente da Sociedade Brasileira de Economia Política (SEP)

Pedro Paulo Zahluth Bastos – Economista – UNICAMP e membro do Fórum 21

Ricardo Bielschowsky – Economista – UFRJ

Eduardo Fagnani – Economista – UNICAMP e membro do Fórum21

Ceci Vieira Juruá – Economista e membro do Fórum21

Pedro Rossi – UNICAMP e membro do Fórum21

Carlos Pinkusfeld Monteiro Bastos Economista – UFRJ

Mayra Juruá – Economista e membro do Fórum21

Paulo Kliass – Economista – EPPGG e membro do Fórum21

Julio Gomes de Almeida – Economista – UNICAMP

Raul Pont – Economista e membro do Fórum 21

Hildete Pereira de Melo – Economista – UFF

Celia de Andrade Lessa Kerstenetzky – Economista – UFF

Jaques Kerstenetzky – Economista  - UFRJ

Maria de Lourdes Rollemberg Mollo – Economista – UNB

Esther Bemerguy de Albuquerque – Economista e membro do Fórum21

Francisco Lopreato – Economista – UNICAMP

Fernando Monteiro Rugitsky – Economista – USP

Carlos Aguiar de Medeiros – Economista – UFRJ

Lena Lavinas – Economista – UFRJ

Valéria Moraes – economista e Jornal Brasil Popular

Rodrigo Octávio Orair – Economista e pesquisador do IPEA e PNUD

Alfredo Saad Filho – Economista – SOAS – Universidade de Londres

João Sicsú – Economista – UFRJ

José Carlos de Assis – Economista UFRJ

Ladislau Dowbor – Economista – PUC/SP e membro do Fórum21

Jorge Mattoso – Economista – Unicam

Róber Itturiet Ávila – Economista – UNISINOS/RS e membro do Fórum21

José Luís Fiori – Cientista Político, Pesquisador e Professor – UFRJ

Venicio A. de Lima – UNB e CEBRAS-UFMG e membro do Fórum21

José Gomes Temporão – Médico sanitarista – Ex-Ministro da Saúde do Governo Lula

Fernando Morais – Escritor e jornalista

José Carvalho de Noronha – Médico Sanitarista, consultor do CEBES – RJ

Alfredo Bosi – Universidade de São Paulo

Marilena Chauí – Universidade de São Paulo

Celso Amorim – Embaixador

Andre Singer – USP

Maria Victoria de Mesquita Benevides – Socióloga e professora da USP

Saturnino Braga – Presidente do Centro Celso Furtado

Rosa Furtado – Diretora do Centro Celso Furtado

Tarso Genro – Ex-governador RS e membro do Fórum 21

Samuel Pinheiro Guimarães – Embaixador e membro do Fórum 21

Anivaldo Padilha – Presidente do Fórum 21

Altamiro Borges – Jornalista e Secretario Geral do Fórum 21

Joaquim Ernesto Palhares – Advogado e Secretario Geral do Fórum 21

Wagner Nabuco – Jornalista e membro do Fórum 21

Francisco Fonseca – Professor da FGV-SP e PUC-SP

Lincoln Secco – Professor de História da USP

Reginaldo Nasser – Departamento de Relações Internacionais da PUC/SP

Ricardo Musse – Sociólogo da Universidade de São Paulo

Gilberto Bercovici – advogado – USP

Jacques Távora Alfonsin – Advogado – UNISINOS/RS

Sebastiao Velasco e Cruz – UNICAMP e membro do Fórum21

Juarez Tavares – Professor Titular da UERJ, Professor Visitante de Frankfurt e Subprocurador-Geral da República

Reginaldo Moraes – Filosofia na Universidade de São Paulo

Francisco Carlos Teixeira da Silva – Professor titular da UFRJ

Walquíria Leão Rego – UNICAMP – e membro do Fórum21

Rubem Murilo Leão Rego – UNICAMP e membro do Fórum21

Leonardo Avritzer – Cientista Social – Universidade Federal de Minas Gerais

Antonio Lassance – Cientista Político, pesquisador do IPEA e DIEST e membro do Fórum21

Igor Felippe – Jornalista e membro do Fórum21

Luis Nassif – Jornalista

José Luiz Del Roio – Militante Político e membro do Fórum21

Laurindo Leal Filho – USP e membro do Fórum21

Rodrigo Vianna – Jornalista e membro do Fórum21

Flavio Wolf Aguiar – escritor, jornalista e professor da USP

Guilherme Boulos – MTST

Maria Inês Nassif – Jornalista e membro do Fórum21

Breno Altman – Jornalista

Fábio Sá e Silva – Advogado e membro do Fórum21

Gonzalo Berrón – Cientista Político e membro do Fórum21

Laymert Garcia dos Santos – Comunicação – Universidade de São Paulo

Kiko Nogueira – Jornalista

Ricardo Maciel Kobaiachi – Ativista de Direitos Humanos e membro do Fórum21

Ana Melo Moraes – Coordenadora Nacional do MST e membro do Fórum21

Beto Almeida – TV Cidade Livre, Jornal Brasil Popular

José Augusto Valente – Engenheiro, Jornal Brasil Popular e membro do Fórum21

Osvaldo Maneschy – Jornalista, Jornal Brasil Popular

Elton Faxina – Jornalista – UFPR e Jornal Brasil Popular

Maria Auxiliadora César – Assistente Social e socióloga – Jornal Brasil Popular

Romário Schettino – Jornalista, Jornal Brasil Popular e membro do Fórum21

Jacy Afonso de Melo – Federação dos Bancários e membro do Fórum21

Valter Xéu – Jornalista, diretor e editor de Pátria Latina

Maria Luiza Franco Busse – Instituto Casa Grande

Maria Rita Loureiro – Professora da FEA e FGV/SP e membro do Fórum21

Helena Iono – Editora e produtora de TV

Erick Vargas da Silva – Historiador

Joaquim Soriano – Diretor da Fundação Perseu Abramo

Laura Carvalho – Economista

Pedro Estevam Serrano – PUC/SP

Rosa Maria Marques – Economista – PUC/SP e membro do Fórum21

Marcos Dantas – Comunicação URFJ

Gilberto Maringoni – Professor de Relações Internacionais da UFABC

Tania Bacelar – Cientista Social – Universidade de Paris I

Bernardo Cotrim – Secretário de Formação do PT/RJ e membro do Fórum21

Laura Tavares – Clacso Brasil e membro do Fórum 21

Ignorância ou má fé na avaliação da Petrobrás

Por J. Carlos de Assis, Paulo César Ribeiro Lima e Fernando Siqueira

O Correio Braziliense publicou no último 14 de outubro uma reportagem na qual supostos especialistas em petróleo – Demetrius Borel Lucindo, da DMBL, e Adriano Pires, do Centro Brasileiro de Infraestrutura – sustentam com base em dados e conceitos totalmente equivocados a tese de que a Petrobrás, “se não tivesse o Governo por trás”, estaria falida ou teria de ser vendida. Não fosse a situação caótica por que passa o país, no qual prolifera o besteirol técnico com propósito de manipulação política, a reportagem seria irrelevante.

Contudo, os leitores do “Correio” merecem saber que não há absolutamente nada na reportagem que reflita a realidade da Petrobrás. Desde o título – Dívida da Petrobrás passa de meio trilhão de reais – até a aritmética que compara essa dívida à geração de caixa, tudo não passa de ilações grosseiras com números manipulados ou ignorados. É verdade que a Petrobrás tem uma dívida elevada – R$ 324 bilhões de dívida líquida no primeiro semestre, segundo dados oficiais -, o que é perfeitamente compatível com a geração de caixa.

A receita líquida (EBITDA ajustado) no mesmo semestre foi de R$ 41 bilhões. Admitindo-se que se tenha o mesmo resultado operacional no segundo semestre, chega-se a um valor anual de R$ 82 bilhões. Em consequência, caso a Petrobrás suspendesse seus investimentos – algo que não deve fazer de forma alguma -, ela teria capacidade de pagar sua dívida em cerca de quatro anos. Será essa a empresa que os “especialistas” Lucindo e Pires querem quebrar, talvez pretendendo entregá-la aos grandes abutres internacionais?

Em relação à dívida, contudo, o mais importante nem é o potencial de pagamento a curto prazo – na medida em que a empresa tem fontes de financiamento disponíveis a prazos muito mais longos, inclusive na China -, mas a contrapartida dela, ou seja, o gigantesco ativo criado com os empréstimos tomados. Foi graças em grande parte à dívida que a Petrobrás descobriu e está desenvolvendo as reservas petrolíferas do pré-sal. E o montante recuperável dessas reservas colocam a Petrobrás na vanguarda da produção petrolífera no mundo.

De fato, a empresa detém 65% das reservas provadas de cerca de 10 bilhões de barris do campo Tupi, 100% de 10 bilhões de reservas de Búzios (cessão onerosa), 100% de 6 bilhões de barris de Carcará (também cessão onerosa), 40% de 15 bilhões de reservas de Libra, 60% das reservas de 4 bilhões de barris de Iara, 60% de 2 bilhões de barris de Sapinhoá, 70% de 6 bilhões de barris de reservas na área das Baleias no Espírito Santo. Assim, considerando outros campos menores, as reservas da empresa se elevam, conservadoramente, a 48 bilhões de barris.

O que significa, em dinheiro, 48 bilhões de barris de petróleo retirados de reservas brutas com um fator de recuperação de 35% – que é conservador, dado que a Petrobrás já opera com um fator de recuperação acima disso no pré-sal? Com o barril do petróleo a 50 dólares, dado que ninguém prevê um preço abaixo disso no futuro, são 2 trilhões e 400 bilhões de dólares, algo que, comparado à dívida da Petrobrás, a coloca numa situação patrimonial invejável, e perfeitamente administrável do ponto de vista operacional e de solvência.

Os investimentos da Petrobrás, parte por geração de recursos próprios, parte por empréstimos, fizeram com que suas reservas de petróleo – dela e não da União – ultrapassassem, em muito, as reservas de importantes petrolíferas mundiais como Shell, Exxon Mobil e BP. O indicador mais relevante para as empresas petrolíferas é justamente a relação entre a dívida e as reservas de petróleo. Atualmente, apenas a Exxon Mobil apresenta uma relação entre dívida e reserva menor do que a Petrobrás. Isso demonstra o equívoco da análise apresentada no artigo quando considera apenas o valor absoluto da dívida.

É importante assinalar que o verdadeiro valor referente ao volume recuperável de reservas da Petrobrás de, pelo menos, 48 bilhões de barris não está lançado nos registros contábeis da empresa. Dessa forma, o patrimônio líquido está subavaliado. Estão lançados apenas os custos de exploração e produção desse volume, que são muito baixos em relação ao valor real do ativo. Além disso, é óbvio que esse grande volume a ser produzido fará com que a geração de caixa da empresa seja maior que os R$ 353 bilhões estimados no próprio artigo.

Considere-se ainda que mesmo esse baixo valor de R$ 353 bilhões é muito maior que o valor dos financiamentos que vão vencer até 2018, da ordem de R$ 160 bilhões. A conclusão dos dois “especialistas” deveria, portanto, ser outra: a Petrobrás tem, sim, geração de caixa suficiente para pagar suas dívidas, e até fazer outras. Outro equívoco do artigo é mencionar que os custos administrativos, como a folha de pagamentos, não estão considerados no valor de R$ 355 bilhões. Isso é um erro grosseiro dos “especialistas”, já que tais custos são considerados no cálculo da receita (EBITDA).

Também não é verdade que o custo de capação da Petrobrás está em 13% em dólar. Em junho de 2015, a empresa captou US$ 2,5 bilhões em notas globais com prazo de 100 anos no mercado internacional. Esse papéis saíram com um rendimento para o investidor de 8,45% ao ano e um cupom de 6,85% ao ano. Registre-se que a demanda pelos títulos chegou a US$ 13 bilhões, o que indica que o rendimento poderia ter sido até menor. Também é importante notar que a taxa interna de retorno dos projetos de exploração e produção da Petrobrás é de cerca de 25%, algo que justifica plenamente a tomada de dívida para investimentos.

A Petrobrás foi e continua sendo a empresa mais lucrativa do Brasil. Assim, não fazem sentido as alegações dos dois “especialistas” segundo as quais a empresa só não entrou em recuperação judicial porque tem o governo brasileiro por trás; ou, ainda, que se fosse privada teria falido. De fato, de 2006 a 2013 os lucros médios da Vale e da Petrobrás foram, respectivamente, de R$ 17,9 bilhões e R$ 27,8 bilhões, com ampla vantagem para a Petrobrás.

Além disso, no ano de 2015, a empresa conquistou o mais importante prêmio internacional na área da indústria petrolífera mundial.

Portanto, confundir a Petrobrás com os bandidos que ocuparam parte de sua governança por um tempo, suscitando a investigação-espetáculo da Lavajato que a fragilizou sem necessidade, é um insulto à inteligência do povo brasileiro que não pode se deixar manipular pelos oportunistas, internos e externos, que querem assaltá-la, assim como às reservas de petróleo do Brasil, cobiçadas mundialmente. As alternativas de engavetamento do pré-sal e da venda de ativos citadas pelos dois “especialistas” para contornar a crise circunstancial a empresa são meros pretextos para a entrega dos recursos naturais do país a empresas estrangeiras.

Certo, a Petrobrás passa por uma crise, mas ela não se deve primariamente a suas condições econômicas. É uma crise de liquidez, que se resolve com relativa facilidade. Isso pode ser feito, por exemplo, dentro das linhas do projeto Requião sobre a reestruturação do setor petróleo, que está sendo relatado no Senado pelo senador Marcelo Crivella. De acordo com esse projeto, o Tesouro, repetindo um expediente adotado em 2009 e 1010, injetaria na Petrobrás os recursos necessários para que volte ao nível de investimento em outubro de 2014. Outra alternativa seria recorrer ao Banco dos BRICS ou, mesmo, a um empréstimo direto da China.

Em qualquer hipótese, será necessário uma faxina em regra na governança da Petrobrás.
Recorde-se que quando o Primeiro Ministro chinês, Li Keqiang, esteve recentemente no Brasil foi anunciado que a China disponibilizaria uma linha de crédito para o país, através da Caixa Econômica Federal, de US$ 50 bilhões de dólares. Acho que o Governo, mergulhado na crise política, esqueceu-se desse dinheiro, não tendo proposto, que eu saiba, um único projeto para mobilizá-lo. Creio que não há hora mais apropriada para direcioná-lo para a Petrobrás a fim de que ela recupere sua capacidade de investimento e irrigue financeiramente a cadeia produtiva do petróleo, salvando nesse mesmo movimento os fornecedores, as construtoras contratadas e as prefeituras das áreas petrolíferas que estão quebrando Brasil afora.

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J. Carlos de Assis é economista, doutor pela Coppe/UFRJ, autor de mais de 20 livros sobre economia política brasileira.

Paulo César Ribeiro Lima é ex-engenheiro da Petrobrás, atual assessor legislativo do Congresso Nacional.

Fernando Siqueira é engenheiro aposentado da Petrobrás, vice-presidente da AEPET e diretor do CREA-RJ.

Gestores da Petrobrás aceleram desmonte da empresa: Resposta é greve

Via FUP

Enquanto os gestores da Petrobrás ignoram a Pauta pelo Brasil e tentam impor goela abaixo da categoria um acordo de trabalho rebaixado, o desmonte da empresa segue a pleno vapor. No último dia 14, a direção da estatal comunicou ao mercado que “autorizou a busca de parceiro estratégico” para a BR Distribuidora.

Na semana anterior, a mídia divulgou que a Petrobrás pretende colocar à venda 180 campos maduros, ou seja mais da metade das atuais áreas em produção, a maioria delas em terra. Soma-se a isso a suspeita negociação de 49% da Gaspetro para a multinacional Mitsui, uma das controladoras da Vale, que é presidida por Murilo Ferreira, que até há bem pouco tempo estava no comando do Conselho de Administração da estatal.

Em depoimento à CPI da Petrobrás, no último dia 14, o presidente da empresa, Aldemir Bendine, tornou a defender a redução da companhia. “Para trazer o endividamento da empresa a um patamar condizente, teremos que vender ativos”, declarou. Para os gestores da empresa, o que vale é satisfazer as demandas insaciáveis do mercado. Mesmo que seja às custas de milhares de empregos, ataque a direitos e perda da soberania.

Para responder à altura a esses ataques, os petroleiros precisam avançar na construção de uma greve forte em todo o país.

“O Grande Jurista”

Por Juliano Zaiden Benvindo | Via Crítica Constitucional

Bem, às vezes é importante ser direto. No âmbito do direito, em especial, parece que vivemos fantasias construídas. Mas a academia deveria ser o palco para dizer umas boas verdades. Os norte-americanos, por exemplo, fazem isso o tempo todo, como também aqui os alemães.

No Brasil, contudo, infelizmente, a cultura constitucional é voltada para bajular o que temos. Nossa cultura ainda é fortemente marcada pela personalização das relações, não se construindo uma possível percepção de que criticar um trabalho, uma decisão, um texto, entre tantas outras atividades, possa ser algo diverso do que uma crítica pessoal. Toda crítica se torna, assim, uma crítica à pessoa que realizou aquela atividade e, não, à própria atividade. E, portanto, ninguém critica um trabalho, porque fica com receio de que o outro fique triste, magoado, raivoso e também que o contra-ataque se dê no âmbito pessoal. Projeta-se uma bola de neve de questões pessoais, que pouco contribui para o debate.

Questões estratégicas caminham também nessa direção. Historicamente, as faculdades de direito são estruturadas pelo jurista profissional, aquele que é advogado e professor, juiz e professor, promotor e professor e assim vai. Não se construiu, assim, uma cultura de independência crítica, até por questões naturalmente explicáveis da natureza humana. Um advogado, afinal, não vai ficar muito confortável tecendo críticas a juízes, porque não é mesmo inteligente, sob o viés estratégico, fazê-lo. E assim vai.

Logicamente, uma coisa não significa a outra (há vários acadêmicos que exercem profissões jurídicas tradicionais que são bastante críticos da realidade, como também há vários acadêmicos típicos que nada o fazem), mas esse é um diagnóstico importante. Aqui mesmo na Alemanha, há uma discussão a respeito da independência dos professores em relação às pretensões de assumirem posição no Tribunal Constitucional, na medida em que, devido às questões políticas, especialmente na área do direito público, a crítica à prática jurídica tem sido mais suave do que em outras áreas.

Enfim, independência acadêmica é algo importante, exatamente para termos liberdade de fazermos as devidas críticas, quando reputamos relevante. Esse é o papel da academia.

Pensando nisso, hoje resolvi fazer uma crítica acadêmica direta sobre o que tanto falamos a respeito do “grande jurista”. Reparem que não é uma crítica pessoal – lembrem-se da minha observação acima -, mas uma opinião de alguém que pesquisa e trabalha na área a respeito da qualidade acadêmica da produção de outrem. Naturalmente, divergências existem e são saudáveis. O debate, portanto, está aberto. Mas é preciso dar início a esse tipo de reflexão. É fundamental pararmos de bajular a realidade jurídica. Devemos exercer mais nossa independência. Eis a crítica:

Depois de lermos constitucionalistas e teóricos do direito do porte de um Jack Balkin, Daryl Levinson, Sanford Levinson, John Rawls, John Hart Ely, Ronald Dworkin, Mark Tushnet, Cass Sunstein, Bruce Ackerman, Christoph Möllers, Laurence Tribe, Marcelo Neves e tantos outros, dói demais ouvir de pessoas o seguinte comentário: “apesar de tudo, Gilmar Mendes é um grande autor do direito e um jurista respeitado”.

Bem, minha opinião: é um dogmático, compilador de jurisprudência e de alguma doutrina, mas não tem nada de especial. Como teórico, fica bem a desejar. Seu raciocínio tende mais para uma perspectiva “manualesca” do que efetivamente acadêmica. O propósito também parece ser mais construir obras que dão lucro (aliás, muito lucro), do que aprofundar temáticas complexas do constitucionalismo. Vende seus livros como água, mas que pouco agregam a nossa cultura constitucional. Quando tenta fazer algo, muitas vezes parece ligado a uma estratégia de poder, com uma ênfase clara em dar ao STF poderes que nem de longe tem ou deveria ter. Aliás, em várias passagens, há falácias históricas e teóricas que, para um bom entendedor, doem na alma. Verdades construídas e bem longe de serem constatadas. Traduções fora de contexto. Autores fora de contexto. Cansei de ver exemplos, já escrevi artigos a respeito e até mesmo orientei trabalhos nessa linha.

Muitos vão dizer que ele é o grande autor do controle de constitucionalidade brasileiro. Não nego que ele tenha uma relevância a partir de seus estudos nessa área e trouxe uma certa projeção do assunto no âmbito do direito constitucional. Escreveu, afinal, sobre esse tema em praticamente todos seus livros e na grande maioria de seus artigos. Do mesmo modo, esse tem sido o foco de suas orientações já há algum tempo.

Mas, vamos examinar cuidadosamente seus textos. Eles partem de uma lógica que se repete: 1) uma abordagem histórica do controle de constitucionalidade; 2) uma análise comparada do controle de constitucionalidade; 3) algumas observações sobre como poderia ser nosso controle de constitucionalidade. Com algumas leves variações entre seus textos, é esse o desenhar de seus estudos. Não se tem aqui muito mais do que uma descrição histórica (com saltos argumentativos e anacronismos problemáticos, na minha opinião), uma descrição do sistema de controle que serve de paradigma comparativo (também com algumas verdades altamente contaminadas por uma vontade de dar grandes poderes à Suprema Corte), e conclusões que caminham para esse mesmo objeto: é importante que o STF assuma uma postura tão forte como a do paradigma.

Fora os atentados teóricos a várias metodologias de direito comparado, que ressaltam bem os riscos da transposição de conceitos e métodos entre realidades jurídicas bastante diversas, existe um problema de lógica em várias das conclusões. As premissas adotadas são questionáveis, a forma de se interpretar o paradigma também e, naturalmente, a conclusão não poderia ser muito diferente. E essa lógica se repete em seus textos. Quando vai para outros temas, normalmente – aqui ainda mais evidentemente -, o seu grande trabalho é de compilação de jurisprudência e julgados.

As abordagens sobre direitos fundamentais normalmente não entram nos grandes debates que hoje se encontram a respeito do tema e, em algumas passagens, chegam a ser uma mera transposição de alguns conceitos que são muito utilizados aqui na Alemanha nos livros destinados aos alunos da graduação para fazerem o Exame de Estado. Porém, aqui mesmo na Alemanha, sabe-se que se preparar para o Exame de Estado é uma atividade estratégica de quem está definindo seu futuro naquele momento. Para quem já está no doutorado ou no âmbito da pesquisa, aquelas premissas são altamente questionáveis e problemáticas.

Em seus textos, não são os grandes livros de doutrina alemã que ali encontramos, salvo algumas passagens (muitas vezes descontextualizadas) de um autor ou outro (Häberle, Hesse, Alexy e cia.). Os institutos trazidos, do mesmo modo, são reproduzidos como verdades.

Vejam o caso do princípio da proporcionalidade, que tem várias abordagens e complexidades nem de perto por ele abordadas, e, do mesmo modo, o controle abstrato alemão, que nem de longe tem essa dimensão que seus textos aparentam dar, já que aqui o grosso dos julgados do Tribunal Constitucional – em torno de 97% dos casos – decorre do Verfassungsbeschwerde, que é uma reclamação constitucional que tem um caso concreto por trás (e mesmo que se diga que há uma abstração em algum momento, o caso está sempre lá de algum modo).

Tampouco há aprofundamento temático, predominando o tipo de análise panorâmica em que de tudo se fala um pouco. E suas conclusões caminham normalmente para dar esse ar colorido ao papel das cortes constitucionais.

Existe também uma evidente cronologia de seus textos que parece demonstrar que, depois de ter começado a trabalhar o tema do controle de constitucionalidade, nada muito novo apareceu. Seus melhores trabalhos são sua tese de doutorado e alguns escritos posteriores. Depois desse momento, praticamente o que se tem são repetições e atualizações. Surge um novo instituto, ele vai lá e descreve. Muda-se a jurisprudência, ele vai lá e descreve.

Enfim, sua grande capacidade encontra-se na atividade de descrição, o que não é um exercício mental dos mais complexos. Aliás, não há, em seus textos, nenhuma grande discussão complexa de direito constitucional. Se fala tanto no papel do STF, pouquíssimo se encontram discussões sobre separação de poderes no sentido mais dramático do termo. Se fala tanto em direitos fundamentais, não há profundos debates sobre os principais temas que os envolvem (teorias da justiça, teorias da interpretação jurídica a partir dos estudos mais densos a respeito – e há muitos textos maravilhosos -, teorias sociológicas e econômicas que lançam olhar sobre o tema). Enfim, muito aquém de uma pesquisa de fôlego.

Há um elemento da natureza humana que deve ser lançado aqui na equação. É humanamente inviável alguém escrever textos de fôlego querendo ser tudo na vida: ser Ministro, ser sócio de faculdade, ser professor. Não dá! Uma pesquisa séria demanda tempo, dedicação e muita leitura. Normalmente, os verdadeiros “grandes juristas”, quando escrevem um livro ou mesmo um artigo de fôlego, param suas atividades paralelas por um tempo, dedicam seu tempo a explorar os meandros do objeto de pesquisa, sujeitam-se às críticas e comentários de seus colegas. Enfim, o processo de produção acadêmica de qualidade é demorado. Um bom artigo pode demorar mais de ano para ser escrito. Um livro, então, nem se fala. Então, há um critério objetivo que pode ser aplicado aqui. A não ser que estejamos falando de um gênio – o que não é o caso -, é impossível, sob qualquer ângulo, alguém escrever, em um ano, tantos artigos e livros com alguma expectativa de qualidade.

Enfim, por todas essas razões, seus trabalhos não me parecem ser uma referência relevante para qualquer pesquisador sério de direito constitucional. Por isso, não é para mim um grande jurista sob o ponto de vista acadêmico. Estudantes que se apóiam em seus textos o fazem – espero – por um cálculo estratégico de futuro e, por isso, estão perdoados. Afinal, podem vir a ser cobrados por algo na frente (especialmente em um contexto em que concursos e a prática jurídica giram em torno de um constitucionalismo pouco aprofundado). Porém, como estudantes sérios, acadêmicos mesmos, espero que procurem fontes bem mais proveitosas. Em síntese, ler tais livros é, para mim, perda de tempo.

Este é um daqueles casos em que o poder, a fama e bastante malícia argumentativa projetam um autor para um patamar que não representa a qualidade de seus trabalhos. O poder puxa a fama e a fama puxa o poder. A qualidade, nesse contexto, fica em segundo plano, porque ela acaba deixando de ser, na equação, uma variável que agrega. Não há necessidade de escrever uma grande obra jurídica, simplesmente porque qualquer coisa mediana que se escreva será reproduzida por uma cultura jurídica que não questiona.

O que importa é o poder da fala ou a fama da fala, não o texto em si. Fazendo uma analogia com a música, é que nem ouvirmos aquilo que faz sucesso, porque é reproduzido pelos canais de televisão, pelas rádios e todo mundo canta. O fato de estar representado por uma grande gravadora que tem contratos com canais de televisão traz ao músico poder. Por outro lado, a reprodução de suas músicas nesses canais lhe traz fama. E tudo gira em torno de poder, fama e muito lucro.

Mas, no fundo, para quem tem um pouco de amor pela música, sabe que não é a Ivete que fará diferença, mas o Baden Powell, o Tom Jobim, o Ernesto Nazareth, a Dolores Duran, a Mayza Matarazzo, o Luiz Bonfá e tantos outros. Pois, afinal, não basta ser afinadinho – Chet Baker que o diga. Saber, portanto, compilar jurisprudência e doutrina com algumas conclusões seria o ser “afinadinho”. Mas isso é muito pouco. Em termos diretos, quero dizer que devemos ter menos “afinadinhos” e mais Chet Bakers. Em outros palavras, queremos ter, em nossa cultura constitucional, menos Ivetes e mais Badens.

Enquanto ficarmos bajulando esse perfil de “grande jurista”, perdemos a chance de olharmos para os devidos problemas de nossa realidade constitucional e passamos a reproduzir discursos como se verdades fossem. É aquele efeito “cobertor” sobre o outro olhar. Ao fecharmos os olhos para o “outro” e ao permanecermos no discurso do mesmo, a realidade constitucional não avança. Um único caminho se apresenta e se difunde, enquanto milhares de possibilidades existem em outras frentes – e, certamente, muito mais interessantes.

Por fim, como jurista respeitado, aí meus caros, a minha opinião já registrei em outras oportunidades. Respeito se ganha com atitudes, especialmente a partir da consciência do local da fala. Não me parece, ao menos para mim, ser o caso.

Moral da história: é um jurista e Ministro do STF. Isso pode soar muito, mas, fora o poder, me diz muito pouco.

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Por Juliano Zaiden Benvindo é professor de Direito Constitucional da Universidade de Brasília, doutor em Direito Público pela Universidade Humboldt de Berlim e pesquisador em estágio pós-doutoral na Universidade de Bremen.