Por Paul Mason | Via The Guardian
Sem alarde, estamos adentrando a era pós-capitalista. No coração das mudanças estão as tecnologias de informação, as novas formas de trabalho e a economia compartilhada. As velhas formas ainda levarão um longo tempo para desaparecer, mas a hora é de abrir espaço a utopia. Acesse aqui a parte I, e aqui a parte II, e aqui a parte III.

Idealização de uma sociedade de economia compartilhada. Ilustração de Phil Wrigglesworth
O cenário é Kentish Town, Londres, fevereiro de 1858, perto das 4 da manhã. Marx é um homem procurado na Alemanha e trabalha duro em seus apontamentos e escritos. Quando finalmente os intelectuais de esquerda dos anos 60 tiveram acesso ao que Marx escrevia naquela noite, admitiriam que “isso desafia seriamente cada interpretação de Marx já concebida”. Trata-se do texto intitulado “O Fragmento sobre as Máquinas”.
Neste “fragmento” Marx imagina uma economia na qual a principal incumbência das máquinas é a produção, cabendo aos homens supervisá-las. Ele deixa bem claro que neste modelo o principal fator produtivo seria a informação. O potencial produtivo destas máquinas automatizadas tais como as de tecelaria, o telégrafo e a locomotiva a vapor não dependem da quantidade de trabalho “inserida”, mas no quão avançadas são as informações sobre o tema. Organização e conhecimento, em outras palavras, dão maior contribuição ao poder de produção do que o trabalho de administração das máquinas.
Dado o que o marxismo se tornou – uma teoria sobre a exploração baseada no roubo mediante o tempo de trabalho – este é um princípio revolucionário. Uma vez que o conhecimento se tornou uma força produtiva em si, com poder de influência maior que o próprio trabalho, a grande questão se torna não os “salários contra os lucros”, mas quem controla o que Marx chamou de “poder do conhecimento”.
Numa economia em que as máquinas fazem a maior parte do trabalho, a natureza do conhecimento inserida nas máquinas deve ser, escreve ele, socializada. No final de uma noite de projeções teóricas Marx imaginou um ponto final nesta trajetória: a criação de uma “máquina ideal”, que dura para sempre e nada custa. Uma máquina que poderia ser construída sem custo, em sua interpretação, não adicionaria qualquer valor no processo e rapidamente, depois de vários ciclos de produção, reduziria os preços, lucros e custos de trabalho de tudo que tocasse.
Uma vez entendido que a informação é física, que o software é uma máquina, e que o armazenamento, banda larga e poder de processamento veem seus preços colapsarem em taxa exponencial, o valor do pensamento de Marx fica evidente. Estamos cercados de máquinas que nada custam e que poderiam, se assim desejássemos, durar para sempre.
Nestas projeções, não publicadas até a metade do século XX, Marx imaginou que a informação passaria a ser armazenada e compartilhada em algo como um “intelecto geral” – que seria a mente de todos os habitantes da Terra conectada por meio do conhecimento socializado, onde os avanços beneficiariam a todos. Trocando em miúdos, Marx imaginara algo próximo a economia da informação que vivenciamos atualmente, considerando que esta configuração implodiria as bases do capitalismo.
Esta alteração do terreno fez perder-se o caminho de superação do capitalismo imaginado pela esquerda do século XX.
Porém, um outro caminho se apresentou. A produção colaborativa por meio da tecnologia de redes visando fornecimento de bens e serviços que somente funciona quando estes são grátis ou compartilhados define a rota para além do sistema de mercado. Será necessário que o Estado crie regulamentações – assim como regulamentou o trabalho fabril, a circulação de moeda e as trocas comerciais no início do século XIX. O setor pós-capitalista provavelmente coexistirá com o mercado por décadas, mas grandes mudanças acontecerão neste ínterim.
As redes deram “granularidade” ao projeto pós-capitalista, o que forneceu a base de um sistema não assentado nas leis de mercado que se autorreplica, que não precisa ser criado novamente todas as manhãs.
A transição envolverá o Estado, o mercado e a produção colaborativa para além do mercado. Mas, para funcionar, todo o projeto da esquerda, dos movimentos sociais a centro-esquerda institucional, precisa ser reconfigurado. De fato, uma vez que entendermos a lógica da transição pós-capitalista, estas ideias não mais serão próprias da esquerda – mas de um movimento ainda maior, para o qual precisaremos de novas denominações.
Quem poderia liderar este processo? Segundo a antiga esquerda, a classe trabalhadora industrial. Há mais de duzentos anos o jornalista radical John Thelwall alertou aos homens que construíram as fábricas inglesas de que haviam criado uma nova e perigosa forma de democracia: “Toda grande fábrica é um tipo de sociedade política que nenhum parlamento pode silenciar, que nenhum magistrado pode dispersar.”
Atualmente toda a sociedade é uma fábrica. Todos participamos da criação e recriação dos padrões, normas e instituições que nos rodeiam. Ao mesmo tempo, a comunicação, vital para o trabalho e os lucros, trabalha contra a rentabilidade por meio do conhecimento compartilhado. Hoje são as redes – como as fábricas há 200 anos – que “não podem ser silenciadas nem dispersas”.
É verdade. Os Estados podem derrubar o Facebook, Twitter e até mesmo toda a internet e rede de celulares em tempos de crise, paralisando a economia juntamente. Podem também armazenar e monitorar cada kilobyte de informação que produzimos. Não podem, no entanto, impor novamente a hierárquica, manipulada e ignorante sociedade de cinquenta anos atrás, por meio da exclusão de aspectos-chave da vida moderna. Seria como tentar “deseletrificar” um país, disse o sociólogo Manuel Castells.
Ao criar milhões de pessoas interligadas, financeiramente exploradas, mas com acesso a toda a inteligência humana, o capitalismo da informação deu espaço a um novo agente de mudança da história: a sociedade educada e conectada.
