Por Ivo Pugnaloni

O Relatório Técnico 003/14, publicado pela Associação Brasileira de Fomento às Pequenas Centrais Hidrelétricas, sob o título “Origens da Crise de Energia 2013-2015” deixará muita gente de cabelo em pé.
Como seria possível um governo que estivesse no poder por quase 14 anos tenha deixado acontecer o que está ali relatado?
Como é possível que um país que disponha de 155 gigawatts remanescentes em estudos e projetos pequenas, médias e grandes hidrelétricas para construir, tenha entrado numa crise de oferta de energia que quase o levou a um apagão?
Como é possível que com essa enorme riqueza natural disponível, já estudada e projetada, tenhamos deixado de usá-la e duplicado nossas tarifas de eletricidade em menos de 3 anos, usando mais e mais termoelétricas fósseis, sem que ninguém no governo tivesse questionado nada, nem mudado nada no estranho planejamento que acumula tantos equívocos?
Como é possível que alguns órgãos do setor elétrico permaneçam incólumes e intocados, imunes a qualquer erro, sem mudar sua direção por 14 anos, na mais longeva e duradoura administração da República, superando ministros do STF em vitaliciedade e capacidade de sobrevivência em cargo público?
E mais: como teria sido possível que isso tudo acontecesse sem que, ninguém, dentro do partido do governo, tenha dito nada, percebido nada?
Como é possível que algo tão essencial como energia elétrica duplica suas tarifas em menos de 3 anos e tal fato não tenha motivado instancia alguma do partido do governo a se interessar a estudar o caso, realizar uma discussão, produzir algum documento?
Mesmo considerando que seria normal que no ministério de minas e energia, atribuído ao PMDB, como parte da aliança político-eleitoral, não exista nenhuma crítica ao que vem acontecendo, não há o menor sentido que, no partido do governo, tudo isso não desperte nenhuma atenção, nenhum debate, nenhuma crítica.
E nem mesmo, nenhum debate. Nem mesmo interno.
Nenhum desconforto.
Nenhuma dúvida ou questionamento.
E mais ainda, que não exista nenhum espaço institucional para realizar esse debate.
O Brasil quase chegou a um apagão, passa a depender em 28% de seu consumo, de energia sete vezes mais cara e isso não merecesse nem mesmo curiosidade dentro do próprio partido do governo, é muito difícil de acreditar…
Não existir dentro da estrutura partidária, nem mesmo uma Secretaria de Energia, há mais de 14 anos, é incrível também, pois isso faz com que não disponha o partido do governo hoje de qualquer instância ou espaço institucional para discussão desse importante tema.
Parece até que “energia elétrica” ou mesmo “energia” seja um tema proibido. Reparem bem nesse fato: vocês já viram um só evento promovido pelo PT para discutir esse tema importantíssimo, decisivo, fundamental?
Alguém já viu o PT fazer um curso sobre energia?
Um seminário?
Uma simples palestra? .
Falar de Energia dentro do partido do governo parece até que virou tema proibido.
Mesmo considerando que devido à aliança que fez, tivesse um partido do governo que abster-se de fazer alguma crítica pública à política energética, isso já seria muito errado. Afinal, a direção nacional do PT faz criticas publicas e contundente até à política econômica do ministro Levy…o principal ministro do governo hoje…
Então, por que motivo, o partido deveria abster-se até internamente, de discutir o importante tema da energia?
A proposta de realizar-se a primeira conferencia nacional da energia no Brasil, como já existem a mais de 70 anos, as da saúde, da educação, entre outras seria uma saída válida, que obrigaria a sociedade a refletir e discutir mais o que ela quer nessa área.
O Relatório da ABRAPCH levanta e detalha essa bandeira. Afinal se existem na agenda do governo federal mais de 67 conferencias nacionais, estaduais e municipais de quase todas as principais atividades, como assistência social, economia solidária, habitação, comunicação social, etc, por que não convocar-se a primeira conferencia nacional de energia?
Ou será que existe alguma proibição, de alguém, para que os brasileiros, nós mesmos, discutamos quais são as políticas públicas que nossos governantes devam seguir nessa área?
