Os modelos políticos, sua construção e a carga histórica

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Por Iraê Sassi

Não se pode fazer uma comparação de sistemas políticos “a seco”, sem a História por trás – se funciona melhor o parlamentarismo ou o presidencialismo, se o voto é distrital ou majoritário, se é melhor uma monarquia constitucional, ou se o deputado escandinavo lava as suas cuecas…

[Estando na Itália nos idos anos 90, uma vez Lula me deu o encargo de buscar sabão num armazém, às 10 da noite numa gelada noite de Bolonha, para que ele pudesse lavar as suas cuecas. Dizia que a Dona Lindu não aceitava que mulher devesse lavar cueca de homem, que essa era a regra na sua casa. Claro que Lula não teve mais tempo pra lavar cueca.... à diferença dos deputados escandinavos que não tem o que fazer.]

Mas falemos sério: as conquistas sociais europeias foram produto de processos históricos que remontam à Revolução Francesa e à Comuna de Paris, das guerras interimperialistas da influência da Revolução Russa, das conquistas sociais da URSS em suas melhores épocas. A Europa foi o palco desta disputa social e histórica, e teve que pagar as penas do inferno, as guerras e os fascismos, para que finalmente se fizessem reformas agrárias e se criasse o tal sistema de bem-estar social, este último em função da disputa no plano social que a URSS representava, oferecendo estabilidade no emprego, vida digna, cultura, progresso a milhões e pessoas. Entre eles, o sufrágio universal, inaugurado em 1917 da Rússia quando no resto do mundo “civilizado” era um sonho.

Falar do sistema político é outro capítulo que não cabe aqui (porque não é tão simples assim sair do maniqueísmo sistemas “democráticos” europeus versos sistema comunista “autoritário”, com ditaduras europeias ocidentais que perduraram até fins dos anos 70 (Espanha, Grécia, Portugal, só alguns exemplos). Sem falar das “ditaduras parlamentares” e da atual “ditadura dos bancos” e da ditadura da Otan.

Os sistemas “democráticos” e o “bem estar social” europeu foram historicamente determinados por lutas sociais heroicas (500 mil espanhóis morreram na guerra civil, 20 milhões foram os soviéticos, só para ficar em alguns exemplos), por uma acumulação imperial e imperialista colossal  que drenava e ainda drena riquezas de todo o mundo, e pelo perigo iminente de uma revolução social  que durou por 70 anos de existência da Urss, só atenuada por estes 20 anos de retrocessos e restauração burguesa. Essa combinação de três fatores determinou que as elites europeias concedessem muito mais – e transitoriamente – ao mundo do trabalho.

Conquistas que chegaram em determinados a paroxismos de delírio de que o capitalismo sempre daria mais e mais, este foi o momento de glória das socialdemocracias. A UE alimentou esta ilusão, que logo encontrou a decepção dos cidadãos europeus quanto ao fascínio do euro. Em proporção direta ao crescimento europeu pré-2008, houve retrocessos em tudo o que havia sido conquistado nos anos 70, em que os sindicatos, poderosos, amparados por um sistema socialista garantista aí na fronteira, que exercia poderosa concorrência com as conquistas sociais europeias (como a Europa exercia concorrência na exuberância do consumo individual, no sentido contrário).

Terminada a Guerra Fria, chegou o ajuste de contas com os sindicatos, do que a Margareth Tatcher foi o símbolo arrasador. E muito mais rolou depois da queda do muro, uma verdadeira trituração de conquistas que chegaram a ser muito avançadas. Com as diferenças típicas da Europa, dos países nórdicos, etc. que em parte preservaram aspectos importantes dos direitos sociais, embora sempre sob pressão da voracidade capitalista de desregulamentação e pirataria privada, e também por suas próprias características meio híbridas de “socialismo”.

Então, em sã consciência, não se pode fazer um paralelo ligeiro com um Brasil que recém emerge da condição de colonial, e ainda é uma grande Casa Grande e Senzala, apesar de todos os gigantescos avanços da era petista. A questão é ver os processos: este, o da América Latina, representa um enorme e rápido avanço nas conquistas sociais, que ainda exigirão décadas para chegar aos patamares conquistados nos anos 70 na Europa, mas estão avançando rapidamente; o da Europa, representa a decadência e a derrubada do que foi conquistado.

A xenofobia, mencionada, é só um reflexo disso tudo, como foram o fascismo e o nazismo. Os povos da Europa foram muito mais solidários com os do “terceiro mundo” nos anos 70, e porquê? Porque acreditavam de poder compartilhar o bem-estar, sem ver que era um estado por cima do mundo e às custas do resto do mundo. Quando você dizia a um socialista sueco que a sua riqueza dependia da exploração do trabalhador brasileiro da Scania-Vabis, ele ficava furioso, porque a riqueza europeia era somente “mérito” do laborioso europeu. Não viam causalidades. Além disso, o fim da guerra fria ajudou a jogar milhões de africanos e asiáticos na miséria, além do rescaldo do fim da Urss e do sistema socialista, criando este fluxo interminável de gente à Europa, desta feita assediada pelo Grande Capital. Como não ver que esta é a razão do regurgito fascista e xenófobo? Tudo isso acompanhado pela catastrófica crise das esquerdas europeias, elas mesmas convertidas em xenófobas e pior, militaristas!

Porque como se não bastasse, o fim da guerra fria e o mundo unipolar levou a Otan a perder sua máscara de escudo de defesa atlântica, para transformar-se, sob a batuta ianque, numa colossal máquina de guerra agressiva e conquistadora, para terminar o “trabalho sujo” que o fim da Urss ainda não permitiu. Começaram pelas beiradas, pela Iugoslávia, pelas repúblicas do Báltico, por fomentar as secessões pós-Urss, englobando a Europa oriental e estabelecendo bases; logo partiram para o Iraque, Afeganistão, depois a Líbia, a Síria, a Ucrânia…. e estamos nesta situação do Califado Islâmico por eles criado e a Rússia que reage fortemente. Nesse meio de tempo, intervenções imperiais ao atacado, ativismo militar francês na África, operações “antiterroristas” sem fronteira, agressões e golpes de estado. E eles se voltam perigosamente para a América Latina. Não fossem os Brics, as novas alianças latinoamericanas, estaríamos piores, mas o fétido hálito do império já se sente no terrorismo midiático em curso aqui por estas terras.

O cidadão europeu e suas sacras instituições, como vê tudo isso? Não vê. Não tem informação, mídia, porque está completamente militarizado e assediado. A UE e suas políticas viraram dogmas. Conseguiram sufocar a pequena rebelde, a Grécia. A campanha foi terrível: “para quem romper com o euro, a forca!”

E estão no desespero de perder o resto das conquistas sociais, o poder de compra, o emprego, a estabilidade, vêm o resto do mundo como inimigo.

E a esquerda europeia, com honrosas exceções? Aterrorizada e encurralada, ela também não vê saída. E suja as mãos seguindo atrás da Nova Cruzada europeia.

Tudo isso é preciso discutir quando falarmos de modelo político europeu. Hoje não dá mais tempo, volto à discussão para falar do Lula – infalível? E do PT, claro.

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