A terceira guerra mundial começa na Síria – Parte I – Das alianças da Guerra Fria ao conflito atual

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Por Thomas de Toledo | Via thomasdetoledo.blogspot

Desde 2011, a Síria sofre uma cruel e sangrenta guerra civil. Uma guerra que se originou de uma “operação de mudança de regime”, visando derrubar o presidente Bashar Al-Assad por tropas de mercenários, financiados por Estados Unidos, França, Inglaterra, Israel, Arábia Saudita, Qatar e Turquia. Esta gigantesca coalizão internacional preparou um tipo de guerra suja, na qual forneciam armas e dinheiro para terroristas pagos para promover massacres deliberados à população civil, enquanto a mídia controlada por Estados Unidos e União Europeia invertia os fatos acusando o governo Assad. Contudo, esta coalizão encontrou resistência. Primeiro do povo, do governo e das Forças Armadas síria. Segundo, da Rússia, que voltou a assumir um protagonismo mundial em aliança com o Irã, Iraque, Líbano e agora com a própria China. Assim, a Guerra Civil na Síria abriu um novo conflito mundial em seu próprio território, que definirá uma futura ordem geopolítica internacional. Será uma Terceira Guerra Mundial ou uma Segunda Guerra Fria? Isso só a história dirá…

Parte I – Das alianças da Guerra Fria ao conflito atual

Alguns historiadores costumam dizer que a I e a II Guerra Mundial foi uma única guerra em dois tempos. Se usarmos do mesmo critério para analisar o que ocorre na Síria, estamos vivendo uma II Guerra Fria, ou segundo tempo de uma Guerra Fria que na prática não acabou. Independente do critério que se use no futuro para classificar a guerra mundial atual, o fato é que ela já começou e o primeiro campo de batalha está dando-se exatamente na Síria.

O conflito na Síria tem origem em como o colonialismo britânico, francês e turco partilharam os territórios da região do Oriente Médio até o fim da II Guerra Mundial, de forma caótica para o futuro dos países, mas eficiente para que eles conseguissem manter seu domínio regional, particularmente sobre as reservas de petróleo. Na Guerra Fria, mais dois sujeitos passaram a influir decisivamente no futuro da região: Estados Unidos e União Soviética.

Na disputa ideológica entre capitalismo e socialismo, a posição histórica da União Soviética sempre foi apoiar os movimentos anticolonialistas e anti-imperialistas. Com isto, a influência soviética no Oriente Médio foi decisiva para que países como a Síria tornassem-se independentes. Uma herança russa na Síria desde o período soviético é o porto de Tartus, o único que a Rússia ainda preserva no Mediterrâneo. A União Soviética apoiava o nacionalismo árabe de Nasser no Egito e o Irã de Mossadeq, e fornecia armas aos movimentos de libertação nacional.

O que veio para mudar o equilíbrio de forças foi a criação do Estado de Israel, com o consequente começo da invasão e colonização das terras palestinas. Inicialmente, Israel tinha apoio tanto soviético quanto estadunidense. Contudo, o avanço do poder sionista no sistema político e econômico dos Estados Unidos fez com que estes países fundissem seus interesses. O trauma das derrotas dos países árabes em 1948, 1956, 1967 e 1973 consolidou o Estado teocrático judeu de Israel, dando ao sionismo condições geopolíticas de implantar um regime de apartheid com ondas progressivas de anexação de terras palestinas. Dada à proteção estadunidense, Israel passou a ter um significativo arsenal nuclear, o único de um ator local em toda a região.

Ao contrário da União Soviética, os Estados Unidos rejeitavam apoiar os movimentos de libertação nacional. Em vez disso, financiava movimentos ultraliberais e fundamentalistas religiosos. As duas principais alianças dos Estados Unidos no Oriente Médio são com a Arábia Saudita e Israel. Como mencionado o poder financeiro do sionismo nos Estados Unidos é gigantesco, mas há também uma aliança com a família Saud, que garante a existência do petrodólar. O quarteto é completado pela União Europeia, que reúne antigas potências imperialistas que voltaram às suas políticas colonialistas na região.

A Arábia Saudita tem em seu arco mais amplo de aliados, as monarquias abolutistas do Golfo, com destaque para Qatar, além de países como Jordânia. Israel, em tese é isolado regionalmente pelos países árabes. Em tese, pois hoje Israel, Arábia Saudita, Estados Unidos e União Europeia, em particular França e Inglaterra, trabalham unidos pelos mesmos objetivos, e contam em sua aliança com o apoio da Turquia, que tem o atual governo fundamentalista. Ou seja, esta é uma aliança do Ocidente com o fundamentalismo religioso no Oriente Médio para derrotar o último vestígio de nacionalismo árabe no Oriente Médio: a Síria.

Para os Estados Unidos, os maiores inimigos regionais nunca foram os fundamentalistas religiosos, mas sim o nacionalismo árabe. Afinal, tal movimento buscava a independência e controle nacional sobre o petróleo e os recursos naturais. Os fundamentalistas religiosos sempre serviram aos interesses estadunidense e há uma obscura história de financiamento a tais grupos, desde antes de Bin Laden no Afeganistão.

O governo Sírio de Bashar Al-Assad segue desde seu pai a trilha do nacionalismo árabe. Isto significa, antes de tudo, ser um país laico em meio a Estados teocráticos muçulmanos sunitas, xiitas e judeu sionista. Também significa ter um projeto de país, onde havia acesso à educação, cultura e saúde. A Síria sempre destacou-se por ter boas universidades, escolas e por ser um dos poucos países onde havia uma convivência religiosa pacífica.

Contudo, mesmo com o fim da URSS os Estados Unidos continuaram investindo contra os regimes inspirados no nacionalismo árabe. Exemplos como o Iraque de Saddam Hussein, a Líbia de Muomar Khadaffi mostram os alvos preferenciais das guerras para forçar mudança de regime. Além disto, a chamada “primavera árabe”, hoje desmentida como “espontânea” e reconhecida como intervenções dos Estados Unidos visaram extamente mudar os regimes laicos e nacionalistas da Tunísia, Egito, Líbia e Síria. No lugar deles, tentou-se instalar regimes religiosos do assim chamado “islã político moderado”. Contudo, apesar do caos imperar na Líbia e de certo modo na Tunísia, o Egito rejeitou o regime da Irmandade Muçulmana e o povo nas ruas pediu a volta dos militares ao poder. Já na Síria, o conflito internacionalizou-se e já vai para mais de 4 anos, agora com a presença da Força Aérea russa.

Em suma, a guerra civil na Síria é internamente uma disputa entre o Estado laico e o nacionalismo árabe apoiado pela Rússia, contra o fundamentalismo religioso muçulmano apoiado pelos Estados Unidos. Mas muito mais do que isto, é um conflito que envolve pesados interesses de outros aliados regionais e extrarregionais, cada qual interessado em partilhar o território sírio da forma que melhor interesse para saquear seus recursos.

Continua…

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