A encruzilhada de Cunha

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Por Rennan Martins | Brasília, 13/10/2015

Cunha sabe que cairá com ou sem Dilma, somente procura um cenário em que teria alguma condição de se safar da justiça. Doce ilusão. As provas contra ele pululam e são vigorosas.

Deputado, e as contas na Suíça?

A capital iniciou a semana pós-feriado em polvorosa. De um lado a oposição conspira abertamente contra uma presidente legitimamente eleita. De outro temos o governo em constantes reuniões de cúpula, montando uma frente anti-impeachment, que nas condições atuais – desprovido de qualquer materialidade – não passa de um golpe baseado em cooptação do jurídico, que atuaria como agente da exceção, não do direito.

Até mesmo o rito já estava definido. O morto-vivo presidente da Câmara, Eduardo Cunha, se manifestaria rejeitando os pedidos de impeachment, contando com a discordância dos demotucanos, o que levaria a questão a plenário onde seria admitido por maioria simples. Tudo estava encaminhado até que, num lampejo de lucidez, o ministro Teori Zavascki deferiu liminar que suspende o procedimento de impeachment baseado no regimento interno, desmontando a tática inicial do golpismo.

A decisão, no entanto, não extingue o risco da admissibilidade do impeachment por parte do presidente da Câmara, que agora pode somente aceitar ou rejeitar os pedidos de forma monocrática. Este quadro concentra um poder de decisão enorme nas mãos de uma figura que a cada hora menos tem a perder. Analistas, repórteres e toda sorte de observadores perguntam se Cunha terá coragem de chamar para si o impeachment, enquanto o próprio se pergunta quais das opções lhe dão mínimas chances de escapar da justiça, que certamente não será nada leniente, visto a fartura de provas do seu envolvimento nos roubos a Petrobras.

Uma figura como Eduardo Cunha jamais pensou além de benefícios materiais, imediatos e egoístas, sendo o retrato abominável do político carreirista que vê na vida pública somente um meio de acumular poder e patrimônio. Tendo avisado que até amanhã despachará todos os pedidos de impeachment, nesse momento calcula que decisão lhe dá alguma sobrevida, sabendo inclusive que a demora desgasta continuamente seu poder de influência sobre os aliados. Aliados estes que só não o degolam por dele depender para o impedimento de Dilma Rousseff.

Sua pretensão de salvar a própria pele passa ao largo de qualquer efeito deletério ao país e ficou ainda mais evidente quando, por exemplo, declarou que caso o vice-presidente e seu colega de partido, Michel Temer, assumisse o ministério da Justiça, não existiria perigo de impeachment. Tal proposta tem como objetivo pôr como chefe da justiça um aliado que trataria de esmagar a Procuradoria-Geral da República, que obstinou-se em conseguir a devida punição ao chefe da Câmara depois de ser por ele atacada reiteradas vezes.

O tempo corre e se esvaem as possibilidades de Cunha se safar da Lava-Jato. Seu poder de decidir sobre o impeachment é justamente o que impede os demotucanos e o próprio governo de se juntar ao coro por sua queda. Tão logo definida esta questão rapidamente se procederá seu fim. A questão é, portanto, se cai Dilma e Cunha ou se cai Cunha somente, não havendo cenário que ele se mantenha.

Temos então que Cunha decidirá pelo seu fim, se servindo de kamikaze e serviçal de Aécio Neves, Carlos Sampaio e companhia, ou se fazendo ao menos uma coisa razoável em sua carreira, que seria não usar dos poderes de seu cargo para fins particulares que atentam contra as instituições.

Encerro a análise ressaltando que Eduardo Cunha cavou sua própria cova. Caso houvesse permanecido nos bastidores, limitado as propinas e achaques discretos, jamais teria chamado para si os olhos da lei, mantendo assim a blindagem que dispunha, até ceder a delírios megalomaníacos.

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