Por J, Carlos de Assis

O mais importante acontecimento para a América do Sul em sete décadas, o acordo entre o Governo colombiano, considerado de direita, e a guerrilha das FARC, de extrema esquerda, está passando praticamente despercebido da Grande Mídia brasileira, e portanto da sociedade como um todo, a despeito da presença em Bogotá da Presidenta Dilma. É que os governos Lula e Dilma tiveram importante papel no estímulo a esse acordo, que foi coroado agora com a cobertura física da Abimaq-Associação Brasileira da Indústria de Máquinas.
Numa conversa por telefone ontem, o presidente da Abimaq, Carlos Pastoriza, estava exultante. Como parte do acordo, indústria brasileira de máquinas fornecerá os equipamentos necessários para que a antiga guerrilha se transforme em bases de agricultura familiar nos territórios antes sob seu controle. Algo semelhante, no Governo Lula, foi feito com países africanos, numa base subsidiada. No caso colombiano, um país mais rico, os termos se aproximarão mais das condições de mercado em taxas de juros.
É um resultado espetacular da diplomacia presidencial brasileira. Estamos contribuindo para o fim de uma guerrilha de 70 anos, que teve momentos críticos de banho de sangue e que em outros momentos parecia insolúvel. Claro, o presidente Santos desempenhou um papel crucial nisso por desconsiderar o conselho anacrônico dos abutres de seu próprio sistema militar que, sob conselho norte-americano, queriam uma saída exclusivamente militar para o conflito. Diga-se de passagem, saída impossível.
Estive na Colômbia em 2011 a convite de uma universidade da Noruega que teve participação decisiva no equacionamento posterior do conflito armado. Meu tema, para uma plateia de 35 generais das três Armas, era integração da América do Sul. Fiz o discurso óbvio segundo o qual não haveria efetiva integração sul-americana sem solução do conflito das FARC, sendo que, a meu juízo de não especialista, não haveria solução militar para o conflito da guerrilha. Encontrei um público militar surpreendentemente receptivo. Embora, claro, desconfiado de Hugo Chavez, na época, pelo radicalismo que consideravam anticolombiano.
O fato é que o processo de paz progrediu, e temos um resultado espetacular que transcende em muito o acordo de normalização das relações entre Cuba e Estados Unidos. Neste caso, tivemos um movimento de cúpula no nível diplomático. No caso das FARC, significa um compromisso pelas bases, um desarmamento físico de milhares de guerrilheiros e uma atitude negociadora de suas lideranças dispostas a um acordo de interesse comum com o Governo. Em uma palavra, o pacto social. Só quem não está vendo a dimensão histórica desse acontecimento é a Grande Mídia brasileira. Ela só se emociona quando os EUA estão interessados, e este, como se trata de acordo de paz, e não de guerra, não lhes interessa.
No rápido telefonema que troquei com Pastoriza, concluímos que, para além do acordo de exportação de equipamentos, de interesse objetivo para as FARC e para a indústria brasileira, talvez o significado político maior do que acontece na Colômbia é o exemplo de coroamento de um longo processo negociador que culminou com um grande pacto social entre correntes inicialmente ultra divergentes. Isso é um exemplo para nós, na medida em que, embora sem guerrilha, estamos num estado de pré-convulsão social, no qual as instituições centrais do Estado já não se entendem entre si e se derretem perante o povo, o que exige um esforço de acordo nos níveis mais básicos da sociedade, entre as classes empresariais e de trabalhadores.
Nas discussões que tenho tido com cientistas políticos, economistas políticos, líderes trabalhistas, líderes empresariais, parlamentares, encontro grande convergência com essa análise. O que a Colômbia está ganhando depois de um longo processo de guerra civil, nós podemos ganhar sem guerra civil. No plano teórico, essa análise é muito bem aceita. No plano emocional, ainda não. A maioria das pessoas, independentemente do nível social, acredita no surgimento de um avatar, um salvador da pátria que venha no resgatar do caos institucional em que vivemos. É uma ilusão. Quando esse derretimento institucional geral descer para o nível das classes sociais, em luta direta entre si e desconfiada uma da outra inicialmente, só restarão duas saídas: ou o pacto social entre elas, reordenando o Estado, ou uma convulsão social que levará à guerra civil, à volta dos militares e à ditadura.
P.S. Voltarei ao tema crucial da moeda e do controle de capitais oportunamente.
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*José Carlos de Assis é jornalista, economista, doutor pela Coppe/UFRJ, autor, entre outros livros de economia política, de “Os Sete Mandamentos do Jornalismo Investigativo”, Ed. Textonovo, SP.
