Por César Fonseca | Via Independência Sul-Americana

Depois da conveniente saída de Mercadante da Casa Civil, onde estava atrapalhando, chegou a hora de Levy entregar o chapéu. Xô, desastre! A intransigência do Ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, em não flexibilizar negociações políticas com o PMDB, dono do poder, no Congresso, estava levando os peemedebistas a se aproximarem da oposição, para engordar o discurso do impeachment. Se ele demorasse mais um pouco no cargo, que passará a ser ocupado pelo ministro da Defesa, Jacques Wagner, , a vaca poderia ir mais aceleradamente para o brejo. Agora, é a intransigência de Levy, que vai produzindo recessão profunda, expressa em aumento perigosíssimo do desemprego e da insatisfação social, passíveis de encherem as ruas de manifestantes exaltados, prontos a apoiarem o impeachment, fazendo, igualmente, o jogo dos oposicionistas. Nada mais vantajoso para a oposição do que a recessão levyana. Transforma ela em pule de dez nas eleições municipais do próximo ano, bem como a torna fortíssima para a disputa presidencial em 2018. O equivocado jogo político de Mercadante estava produzindo desastre para o governo Dilma, na sua relação com o Congresso. Favorecia a pregação do arquiinimigo da presidenta, o presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha(PMDB-RJ), pregador do rompimento do partido com o governo, com data marcada: convenção nacional em 15 de novembro. Felizmente, Cunha está sendo detonado por si mesmo, pelo seu envolvimento em suposta corrupção braba. Mas, se Lula não entra em campo para fazer o que fez, adeus viola. A outra barreira à viabilidade política do governo em crise econômica, que gera a crise política, que favorece a oposição, é o ministro da Fazenda, um homem dos bancos, do Bradesco, excelente contador, ordenador de despesas, mas zero à esquerda em política, tratando esta a caneladas. As informações mais abalizadas são as de que a chegada dele ao governo Dilma teve o dedo de Mercadante, muito bem relacionado com a Federação Brasileira dos Bancos(Febraban). Ou seja, a bancocracia, que se ceva numa política macroeconômica que favorece a ampla agiotagem, danosa aos interesses das forças produtivas, está no poder absoluto com esses dois, sintonizadíssimos com os interesses dos poderosos. Mercadante dançou. Até quando Levy vai ficar atravancando a produção e o consumo com o discurso de que primeiro é preciso matar o consumidor, para que antes seja salvo o produtor, colhendo, com esse discurso neoliberal, furado, contestado pela história do próprio capitalismo, apenas, a engorda monumental do especulador? A presença de Levy é a certeza dos banqueiros de que não serão jamais sacrificados no ajuste fiscal.
E depois de Mercadante e, provavelmente, Levy, chegaria ou não a vez de Alexandre Tombini, presidente do BC? Agora, até, mesmo, a comentarista global, Miriam Leitão, tão ciosa na defesa dos argumentos dos banqueiros, cai na real: 21% do total do déficit nominal vêm da especulação desenfreada com o dólar, por meio dos chamados swaps cambiais. O BC brasileiro, com a política monetária antinacionalista que prática, só serve para enxugar gelo. Virou oficee boy da Febraban. Dá razão Tombini aos cada vez mais numerosos comentaristas internacionais e nacionais que apontam a especulação financeira como a fonte essencial do déficit público. Não são os gastos orçamentários não financeiros, ou seja, os gastos sociais com educação, saúde, previdência, segurança, infraestrutura etc, que bombeiam o buraco deficitário. Esses são gastos bons que dão retorno aos cofres públicos em forma de arrecadação tributária, com a qual se realizam investimentos. Sim, os responsáveis principais pelo déficit são os gastos orçamentários financeiros, destinados ao pagamento de juros e amortizações da dívida pública. Eles consomem praticamente a metade do Orçamento Geral da União. Só esse ano deverão vazar para os agiotas cerca de R$ 500 bilhões. Quem aguenta isso? São gastos ruins, esterilizantes, não dão retorno, apenas, engordam banqueiros. Tombini só está dizendo abobrinhas, como fez da última vez que compareceu à Comissão de Economia e Finanças do Senado. Imagine se não fosse funcionário público, de carreira, mas um homem indicado pelos banqueiros, para esse cargo, como foi o caso de muitos economistas tipo banqueiro de calça curta! Sai fora, Tombini, ou muda de posição.
Lula, o novo homem forte no Governo Dilma, quer dinheiro público no BNDES para emprestar às empresas.
Prega mais crédito para o consumidor a juro baixo.
Quer repetir a dose que aplicou na economia na crise mundial de 2008: consumo, mercado interno e melhor distribuição da renda.
Como perseguir essa meta, se o Bradesco está no poder, se os agiotas comandam o poder financeiro, na base da especulação desenfreada, brandindo argumentos de classe dominante que lhes interessam, como o de que não se deve fomentar economia de demanda, mas a de oferta, como se uma sobrevivesse sem a outra?
Sem consumo, como aumentar a arrecadação, como investir?
Produção ou consumo?
Produção é consumo, consumo é produção, jogo dialético, complementar, disseram os dois maiores economistas, do século 19, Marx, do século 20, Keynes.
A impaciência de Lula e do PT e, também, do PMDB, com Levy está chegando ao fim.
O papo furado neoliberal de tocar economia da oferta matando a economia da demanda joga a candidatura lulista no abismo.
Não tem conversa.
Com lógica de Levy em cena, de matar o consumidor, para salvar o investidor, quem ganha é a candidatura do senador Aécio Neves, da oposição.
Trata-se de estratégia que não deu certo em lugar nenhum do mundo, porque o capitalismo não atua na base do equilibrismo orçamentário rígido.
É jogo de poder imperialista, pois Aécio, no Planalto, entregaria o pré sal para a Chevron e cia ltda, rompendo a lei de partilha.
A natureza do imperialismo é isso aí: promover riqueza social, apropriada por minorias cada vez mais poderosas, gera crônica insuficiência de demanda global, que, no limite, joga o capitalismo na deflação.
Os livros estão cheios disso, demonstrando a ineficácia neoliberal, concernente ao padrão ouro, que já virou relíquia bárbara, como disse Keynes, há muito tempo, mais precisamente, desde a crise de 1929, decorrente, segundo o economista inglês, de sobreacumulação de capital.
O que está ocorrendo agora no Brasil por exemplo é uma tremenda sobreacumulação de capital, fundamentalmente, especulativa.
Veja os lucros estratosféricos dos bancos!
Só eles apresentam resultados positivos, na casa dos 30% a cada trimestre.
Enquanto isso, as forças produtivas fazem água.
Não há nenhuma atividade produtiva capaz de gerar lucro acima de 5%, no ambiente recessivo atual, e olhe lá.
Todos estão no vermelho, levantando empréstimos bancários a juros de agiota para tocar o dia a dia das empresas, porque Levy segura o dinheiro na boca do caixa, para sobrar mais para os seus patrões, os bancos.
E ainda tem a cara de pau de dizer que esse jogo precisa continuar até… até…., claro, até que o povo morra de fome.
Os investimentos produtivos sinalizam quedas intermitentes.
Quem vai investir se não há consumidor?
E como, no sistema capitalista, ocorrem os investimentos, que despertam o espírito animal dos empresários?
Demanda estatal = juro baixo + aumento de preços + redução de salários + perdão de dívida contraída a prazo pelo capitalista.
Por que os Estados Unidos estão voltando a crescer?
Demanda estatal.
Os gastos com guerra não pararam.
Ao contrário, cresceram mais de 12%, ao ano.
São os gastos nos setores armamentistas os responsáveis por estimularem pesquisas em tecnologias de ponta que passam a ser utilizadas nos setores produtivos em geral, especialmente, na produção de bens e serviços.
Economia de guerra é que produz aumento de produtividade.
Os comandantes das Forças Armadas estão certos: são os gastos coma modernização delas que movimentam o crescimento nas economias desenvolvidas.
Na periferia, o arrocho neoliberal tem a função de evitar essa caminhada econômica rumo à produtividade, como fator de defesa nacional.
Tratam os neoliberais o setor de defesa como se fosse algo existente no exterior da realidade econômica, e não intrínseco a ela.
Por acaso, ter-se-iam os americanos descoberto água em Marte, se os gastos públicos, no setor de produção bélica e espacial, tivessem sido cortados, na linha de sugestão feita, por exemplo, por Joaquim Levy, o ministro da Fazenda brasileiro, para conter déficits?
Nos Estados Unidos, a cadeia produtiva da indústria bélica e espacial permeia toda a economia, a exemplo do que acontece, no Brasil, com a cadeia produtiva atrelada à produção de automóveis, caminhões, tratores etc.
Fazer ajuste fiscal para paralisar essa cadeia, como está acontecendo, entupindo os pátios de carros, para conter o consumo em nome da economia da oferta, seria, do ponto de vista americano, ou seja, capitalista, ir na contramão do interesse nacional.
Os americanos saíram do impasse a que chegaram na indústria de bens duráveis, em 1929( o mesmo em que se encontra a economia brasileira), abrindo espaço para a produção bélica, nuclear e espacial, com dinheiro estatal.
É o caminho do progresso tecnológico sem o qual o desenvolvimento é brecado por colapsos deflacinários.
O Banco Central dos Estados Unidos está sustentanto taxa de juro zero ou negativa, justamente, para conter, relativamente, expansão sem limite da dívida pública, que os gastos governamentais em produção bélica e espacial promovem.
Segura a dívida, mas não, totalmente, os gastos, favorecendo-os ao manter juro zero ou negativo incidente sobre endividaamento governamental.
A dívida, diz Lauro Campos, é a forma que a inflação adquire na economia keynesiana.
Soltar os juros é implodir a dívida, ou seja, a inflação, algo que não entra na cabeça mecanicista neoliberal.
Os americanos agem nesse para sustentar gastos necessários à produção armamentista, para não desativar a cadeia produtiva que a indústria bélica e espacial mantém, aquilo que Eisenhower denominou, em 1960, de ESTADO INDUSTRIAL MILITAR NORTE AMERICANO.
Sem eles, caso sejam submetidos a ajuste fiscal, à moda neoliberal levyana, o império de Tio Sam desaba.
Mais: juro zero ou negativo, junto com o desbastamento do endividamento público, reduz custos das empresas e desvaloriza o dólar.
Confere essa estratégia de política monetária competitividade interna e externa às empresas americanas.
Eis a razão do porque do crescimento do PIB americano nesse momento na casa dos 3% ao ano em 12 meses corridos.
Que ajuste fiscal fizeram os americanos?
Obama não conseguiu.
O que propôs não passou no Congresso.
E o que passou foi flexibilização da capacidade de endividamento governamental.
É essa política macroeconômica do império capitalista.
Ela é que possibilita Obama fazer aquilo que Lula, agora, como coordenador geral do governo Dilma, quer, também, colocar em prática, mais uma vez: apostar no consumo.
Sem essa opção, não haverá saída capaz de tirar a economia do buraco.
Quem está defendendo o ajuste?
Somente as forças antinacionais.
Diretor do Banco Mundial, nessa quarta feira, diz que o aperto fiscal é fundamental.
Voz dos banqueiros.
Ex-diretora do FMI, na Era FHC, dando rolé no Brasil, nesses dias, idem: o ajuste precisa acontecer de qualquer jeito.
Porta-voz de banqueiro.
Por aqui, a mesma coisa.
Loyola, ex-presidente do BC, na Era FHC, sintonizado com o Consenso de Washington, consultor de bancos, considera perigo de colapso implementação de proposta alternativa de retomada do crescimento, elaborada por mais de 100 economistas da Fundação Perseu Abramo.
Economistas de prestígio dos setores industriais, como Yoshiaki Nakano, Bresser Pereira etc, já enxergaram o óbvio ululante, como diria Nelson Rodrigues: o déficit não é produzido pelas forças produtivas, mas pelas forças especulativas, que dominam o poder midiático, para dizer mentiras ao povo na Rede Globo.
É o juro alto, bombado pela agiotagem, estúpido!
