Arquivo mensais:setembro 2015

Uma frente para disputar as ruas

Por Guilherme Boulos | Via Le Monde Diplomatique

As relações desfavoráveis devem ser enfrentadas, e não servir de argumento para mais recuos. Não foi essa a escolha do governo Dilma. Mas precisa ser a dos movimentos sociais e da esquerda brasileira, se não quisermos ser levados pelo governo ao abismo.

O sinal de alarme soou. Com o avanço das pautas conservadoras – nas instituições e nas ruas – e a crise do governo petista, unir forças tornou-se uma questão de sobrevivência para a esquerda brasileira. Daí as diversas iniciativas de “frentes de esquerda”.

Que num momento como este precisamos organizar uma frente, parece claro. O que não é tão evidente é qual seriam o caráter e os objetivos dela. E, ainda, se a resposta a esses temas possibilitam a formação de uma única frente ou não.

Esse é o debate que temos hoje e que precisa ser encarado sem receios. Definir para onde queremos ir passa por entender como chegamos até aqui e os impasses que estão colocados para as forças populares hoje no Brasil.

Esgotamento de uma estratégia

O Partido dos Trabalhadores caminha para completar treze anos no comando do governo federal. Durante os dois mandatos de Lula e os cinco anos de Dilma Rousseff vimos o apogeu e o esgotamento de uma estratégia política: o projeto de avanços sociais sem reformas estruturais.

É verdade que os governos petistas melhoraram as condições de vida dos mais pobres, seja por meio da facilitação do crédito para o consumo, seja pela geração de novos empregos e pelo aumento gradual do salário mínimo, seja ainda por meio de programas sociais como o Bolsa Família, o ProUni e o Minha Casa, Minha Vida (com todos os seus limites e contradições). E a esquerda erra se não for capaz de reconhecer isso, estabelecendo sinal de equivalência com o neoliberalismo tucano.

É igualmente verdade, porém, que esses governos mantiveram intocadas as estruturas arcaicas da sociedade brasileira. Não tocaram no tema distributivo, não ousaram mexer em privilégios e não pautaram nenhuma das reformas populares tão necessárias aos trabalhadores. Além disso, conservaram o modelo de governabilidade conservadora que tem sido eficaz em garantir que tudo fique como está desde o fim da ditadura militar.

A perspectiva de limitar-se às mudanças possíveis sem conflito nem mobilização circunscreveu o projeto petista a manejos no orçamento federal e ao uso dos bancos públicos para estimular a economia. Isso foi suficiente para gerar crescimento econômico enquanto a maré internacional estava favorável. Com o crescimento, aumentava-se a arrecadação, o que permitia a reprodução do modelo.

No entanto, a maré virou após 2008 e as condições para manter a estratégia foram sendo minadas ano a ano. A margem para conciliação de interesses foi se reduzindo na sociedade brasileira. Com o avanço da crise econômica, o véu do consenso rasgou-se e o conflito social reapareceu numa cena de polarização. A partir de junho de 2013, a política transbordou para as ruas e abriu-se o período de disputa pelas saídas estratégicas.

Ao final das eleições de 2014 ficou claro que as coisas não podiam mais permanecer iguais. As condições econômicas não permitiam mais o “ganha-ganha” e as condições políticas estavam bem mais deterioradas para o governo petista.

A saída é pela esquerda

A direita brasileira foi rápida e eficiente em construir sua própria narrativa para a crise do petismo e apresentar suas saídas. O mantra – repetido sem limites pela grande mídia – foi desmoralizar o PT como partido da corrupção e associar a crise fiscal à ideia de que o governo “gastou demais” ou aos “roubos na Petrobras”. O discurso pegou.

A saída política oferecida foi um pacote de medidas e reformas regressivas e a fragilização do poder do Executivo. Essa agenda ganhou força com a eleição de Eduardo Cunha para a presidência da Câmara e as manifestações de 15 de março.

Entre os projetos que passaram a pautar a agenda nacional estão a ampliação da terceirização, uma contrarreforma política, a redução da maioridade penal e a revisão do modelo de partilha do pré-sal.

Nesse cenário, a posição do governo Dilma foi a pior possível. O governo não apenas deixou de estabelecer agendas progressivas, como também fortaleceu as regressivas, com a aplicação de (e insistência em) um ajuste fiscal antipopular.

Editou medidas provisórias que atacam o seguro-desemprego e as pensões, aumentou compulsivamente os juros e cortou investimentos nos principais programas sociais. Se tinha com isso a pretensão de garantir a governabilidade junto à banca e à direita, tudo indica que fracassou: a instabilidade política só cresce. O que o governo conseguiu com essa política foi reduzir sua popularidade a 10% e fortalecer as saídas à direita.

Que alternativas teria? Encampar uma agenda política de reformas populares, ajustando as contas por meio de tributação progressiva aos ricos e assumindo de fato temas cruciais, como a democratização das comunicações e uma reforma do sistema político. Criar uma pauta que mobilizasse setores populares.

A situação estava dada: ou se retrocedia ou se avançava, não havia muita margem para o meio-termo. Insistir em recompor um pacto quando não havia mais condições para isso, visando evitar o conflito, apenas repôs este último num terreno mais desfavorável.

Alguns devem estar pensando: “Está bem, mas e as relações de força? O governo não faz o que quer, mas o que as circunstâncias permitem”. É verdade, ninguém faz política nas condições que escolhe. Mas também ninguém é apenas refém das relações de força, podendo sempre intervir para alterá-las. O governo é uma ferramenta poderosa para incidir nas relações de força. Encarar relações desfavoráveis como um impeditivo para enfrentamentos só fortalece e consolida ainda mais essas relações. Se diante de um avanço da direita o governo só cede à direita, quem ele está fortalecendo?

Que há outras possibilidades, a história nos mostra. Em nossa América Latina, nos últimos tempos, vários governos enfrentaram condições desfavoráveis e responderam a elas apostando na mobilização popular e no enfrentamento político. Conseguiram avançar em reformas que pareciam impossíveis, criaram novas relações de força.

Aqui mesmo, em abril deste ano, vimos algo nessa direção. A aprovação do projeto da terceirização parecia assegurada até que mobilizações nas ruas e nas redes reverteram o quadro e devolveram o projeto para a gaveta no Senado.

As relações desfavoráveis devem ser enfrentadas, e não servir de argumento para mais recuos. Não foi essa a escolha do governo Dilma. Mas precisa ser a dos movimentos sociais e da esquerda brasileira, se não quisermos ser levados pelo governo ao abismo.

Desafios de uma frente

A esquerda brasileira precisa apresentar uma saída para a situação política que não seja mais do mesmo. Que não seja tentar recuperar uma estratégia e uma tática que já demonstraram sinais de esgotamento.

Ante o bloqueio de avanços sociais precisamos responder com um projeto de reformas populares que seja capaz de representar saídas claras para a crise.

Ante a impermeabilidade do sistema político à participação popular precisamos responder com a retomada de amplas mobilizações, fazendo das ruas palco principal de um projeto político de esquerda.

Esse deve ser o maior objetivo de uma frente hoje no Brasil: retomar a capacidade de mobilização social, impulsionando um novo ciclo de ascensão das lutas populares. É nas ruas que alteraremos as relações de força.

O caráter da frente que defendemos é essencialmente de mobilização, capaz de canalizar as insatisfações populares para um projeto de esquerda.

Isso implica garantir um equilíbrio difícil, mas necessário. De um lado, a frente precisa ser um bastião contra a ofensiva conservadora e as saídas regressivas para a crise. De outro, ser capaz de enfrentar as políticas antipopulares desse governo com igual decisão.

É possível que não consigamos enfrentar todos esses desafios numa única frente, dada a diferença de posições que ainda persistem na esquerda brasileira. Há aqueles que estão dispostos a enfrentar o golpismo e a ofensiva conservadora, mas não têm a mesma disposição para combater as políticas do governo. E há outros que, identificando de forma simplista a direita com o governo, flertam com a onda antipetista, acreditando ilusoriamente que podem tirar algum saldo à esquerda.

O Movimento dos Trabalhadores Sem Teto e vários outros movimentos e organizações da esquerda têm se empenhado desde o fim de 2014 em construir um espaço de frente que faça esse duplo enfrentamento, focando a construção de uma agenda de mobilizações nacionais. Essa frente foi importante para a construção de dias de luta, como o 15 de abril, o 29 de maio e o 15 de junho. Agora convocou a mobilização de 20 de agosto.

Esperamos que, mesmo nessa diversidade de frentes e posições, a esquerda brasileira tenha a capacidade de estar unida nas ruas para enfrentar os desafios da conjuntura.

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Guilherme Boulos é membro da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST).

Votações da reforma política opõem Câmara e Senado

Via Congresso em Foco

Proibição das doações empresariais, aprovada pelo Senado, é o principal ponto de discórdia. Eduardo Cunha diz que Câmara vai manter liberação. Acesso de pequenos partidos a horário na TV também divide deputados e senadores.

Texto da minirreforma eleitoral deve ser alvo de disputa entre Senado e Câmara

O Senado deve concluir, nesta terça-feira (8), a votação do Projeto de Lei Complementar 75/2015, que muda regras da Lei das Eleições, do Código Eleitoral e da Lei dos Partidos Políticos. A proposta, também conhecida como “minirreforma eleitoral”, foi aprovada pela Câmara no início de julho. Inicialmente, o texto estipulava limite de R$ 20 milhões para doações privadas direcionadas exclusivamente aos partidos, não aos candidatos. Mas os senadores aprovaram uma emenda da senadora Vanessa Grazziottin (PCdoB-AM) que veda completamente as doações empresariais.

A mudança acirra a disputa do Senado com a Câmara. O presidente da Casa, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), já avisou que os deputados pretendem restabelecer as doações privadas por meio de uma das propostas de emenda à Constituição (PEC 182/07) da reforma política. O texto foi encaminhado ao Senado, mas segue na gaveta, sem a designação de relator.

“Se a Câmara, em dois turnos, manteve [o tema] na Constituição [PEC da Reforma Política], e tinha aprovado na infraconstitucional, não tenho a menor dúvida de que a Câmara vai restabelecer o texto, pelo menos em relação a esse ponto. Os outros pontos, eu não sei. Mas, com relação a esse ponto, a maioria da Casa está consolidada. Tranquilamente vai restabelecer o texto”, disse Cunha.

Apesar de todas as matérias abrangidas na proposta já terem sido aprovadas na quarta-feira (2), os senadores preferiram deixar para concluir a redação final do projeto de lei complementar nesta semana. Assim que a redação for aprovada, a versão será enviada à Câmara.

A cautela dos senadores com a matéria se deve à grande quantidade de emendas acrescentadas ao projeto durante a votação. A intenção dos parlamentares é que o texto reflita exatamente o que foi abordado e aprovado em plenário.

Além da exclusão da doação de empresas a partidos políticos, outra mudança feita pelo Senado refere-se ao acesso dos partidos ao tempo de propaganda. O Senado propôs que os partidos com até quatro deputados federais eleitos tenham direito a um programa semestral de cinco minutos. O texto da Câmara estipula esse direito somente às siglas com um mínimo de nove deputados.

Repatriação de bens

Outro destaque na pauta do Senado é a votação do projeto de lei que pretende repatriar dinheiro remetido ao exterior sem a devida declaração à Receita Federal. Pronta para ser apreciada pelos senadores, a medida pode amenizar os efeitos negativos ao orçamento, provocados tanto por itens da pauta-bomba como por excesso de gastos governamentais, já previstos no projeto da lei orçamentária de 2016.

Estima-se que o total não declarado no exterior chegue a US$ 200 bilhões, dez vezes mais do que o governo espera angariar com as medidas do ajuste fiscal.

Câmara

O plenário da Câmara poderá votar esta semana o projeto de lei complementar (PLP 366/13) do Senado que fixa em 2% a alíquota do ISS (Imposto sobre Serviços), de competência municipal e do Distrito Federal, na tentativa de acabar com a guerra fiscal entre os municípios.

Para tentar acabar com a disputa entre municípios por empresas atraídas pela redução do ISS, o PLP 366 especifica que esse imposto não poderá ser objeto de isenções, incentivos e benefícios tributários ou financeiros, inclusive redução da base de cálculo ou crédito presumido.

Os estados e o DF terão um ano a partir da publicação da futura lei para revogar os dispositivos que concedem as isenções. A vigência está prevista para o mesmo prazo, um ano após a publicação.

Também está na pauta a votação do Projeto de Lei 2455/15, do Poder Executivo, que repassa a estados, municípios e Distrito Federal R$ 1,95 bilhão a título de fomento às exportações, como tem ocorrido em anos anteriores, desde 2004.

A agenda do ajuste e o cavalo de Tróia

Por Jeferson Miola | Via Carta Maior

A agenda falida do ajuste pariu resultados desastrosos. Enquanto isso, 71 mil brasileiros, com patrimônio de R$1,2 trilhões, são isentados de tributação.

A crise econômica de hoje é uma profecia que foi finalmente cumprida. Ela é produto mais da retórica obsessiva da “necessidade de ajuste” do que da realidade macroeconômica do país.

É incorreto dizer que o Brasil já estava em crise desde 2013, porque efetivamente não era essa a realidade. O país enfrentava o problema da redução da eficácia dos remédios anticíclicos empregados para contrarrestar os efeitos da crise capitalista mundial iniciada em 2008 na Europa e nos EUA.

Eram, apenas, dificuldades econômicas importantes, agudizadas no segundo semestre de 2013; ainda assim, algo menos sério que uma crise. Para preservar os empregos e garantir o crescimento econômico no contexto internacional adverso, o governo manteve os gastos orçamentários, estimulou investimentos e aumentou a disponibilidade de crédito público para manter a economia aquecida.

Cabe recordar que em outubro de 2014 a dívida pública equivalia a 34% do PIB; as reservas cambiais de 376 bilhões de dólares; superávit primário; o desemprego de 4,8% confirmava uma trajetória de pleno emprego, e os programas sociais estavam em expansão – não somente os gastos discricionários, como também os obrigatórios.

Em outras palavras: a saúde macroeconômica do Brasil fazia inveja à França, Itália, Japão, EUA, Espanha, Inglaterra, Portugal, Rússia, Índia – países que enfrentam situações bem mais críticas em termos de endividamento, déficits, desemprego e reversão de direitos sociais.

Desde que a “retórica do ajuste” passou a dominar a arena pública como “pensamento único ressuscitado”, a economia começou a degringolar de fato. A crise ganhou corpo e forma com o anúncio do retorno da ortodoxia econômica.

Com a recessão provocada e a economia no congelador, instalou-se definitivamente a crise e o ciclo vicioso conhecido: paralisia e contração da atividade econômica, desemprego, queda de arrecadação, suspensão de investimentos, juros pornográficos e cortes de programas sociais. Os indicadores começaram a mudar drasticamente, apontando para o céu a taxa de juros e a inflação; e embicando para o chão os de crescimento e emprego.

Os nove meses de gestação da agenda [falida] do ajuste pariram resultados desastrosos e de consequências funestas para o país: crescimento negativo do PIB, explosão do dólar, perda de 150 bilhões de reais de arrecadação, orçamento deficitário e desemprego beirando os 8% – um milhão e quinhentos mil postos de trabalho [metade da população uruguaia] terão se esfumaçado em 2015. Por conta dessa trajetória, se especula o rebaixamento da nota de classificação de crédito do Brasil na orgia financeira mundial.

O projeto distributivo inaugurado por Lula em 2003 está em xeque. Durante o ciclo de expansão econômica, a fórmula “ganha-ganha” foi exitosa: os pobres ficaram menos pobres e os ricos ficaram mais ricos.

Hoje, com o impasse distributivo provocado pelo desaquecimento da economia mundial [que causa a queda do preço das commodities e dos minérios – itens fundamentais da pauta exportadora brasileira], o poder econômico quer transferir aos trabalhadores e à maioria da sociedade o ônus da crise. O alvo são os salários – via desemprego –, e a renda pública nacional – via juros e fim do crédito subsidiado.

Enquanto isso, 71 mil pessoas [entre 204 milhões de brasileiros] com patrimônio líquido de 1,2 trilhões de reais são isentados de tributação que permitiria ao erário arrecadar 80 bilhões de reais anualmente. E metade do orçamento brasileiro é destinada a pagar os compromissos [sic] com a dívida pública.

A crise econômica agrega complexidade a esta conjuntura de instabilidade política e institucional; é fator que desestabiliza o governo e lhe retira legitimidade social. A agenda do ajuste, nesta perspectiva, é o cavalo de Tróia no governo.

A recomposição do campo de sustentação progressista e de esquerda depende, em grande medida, das escolhas do governo no plano econômico. A continuidade da política de ajuste que desajusta o país poderá acentuar a perda da legitimidade social da Presidente Dilma nesta circunstância de dramático impasse político. E, neste caso, poderá significar o descarte do principal fator capaz de neutralizar a marcha golpista.

De “pedaladas” e déficits orçamentários

Por J. Carlos de Assis

O bombardeio que se faz no Congresso contra a proposta de orçamento deficitário enviada pelo Executivo, assim como a ameaça de impeachment de Dilma pelo TCU por conta do que chamam de “pedaladas” orçamentárias não passam de iniciativas fúteis, frutos exclusivos da imbecilidade ou da má fé. Ganham manchetes de jornais mal informados mas não tem qualquer substância. Ambos os eventos fiscais são plenamente justificáveis e em nenhum deles há, por parte do Executivo, qualquer sentido de irregularidade real.

A Lei de Responsabilidade Fiscal proíbe que o Governo recorra aos bancos públicos, notadamente Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil, para cobrir despesas, mesmo que eventuais e temporárias. Por quê? Por causa da camisa de força do pensamento neoliberal que acha bonito estrangular financeiramente o setor público, em qualquer circunstância. Claro que usar recursos desses bancos para financiar despesas públicas indefinidamente é incorreto. Levaria a sua descapitalização. Mas como expediente temporário não há nenhum mal.

Uma vez fixada uma meta de superávit primário – receitas menos despesas públicas, fora juros  da dívida pública-, o besteirol neoliberal não aceita qualquer variação para baixo. Caso o contrário, alegam, o Brasil perde seu grau de investimento. Perdido o grau de investimento, investidores e credores encarecem imediatamente o crédito para o Brasil. Por quê? Porque as agências de risco exercem atualmente sobre a economia brasileira o mesmo tipo de fiscalização que o FMI exercia no passado, no caso dele sob ameaça de suspender seus financiamentos para sustentação de nossa dívida externa.

A chamada pedalada consistiu em pagar algumas despesas públicas, inclusive bolsa família, com recursos dos bancos públicos. Foi um expediente temporário, pois logo o Tesouro cobriu a dívida correspondente. A rigor, foi mesmo uma bobagem do ministro da Fazenda anterior, Guido Mantega, porque teria sido mais lógico pagar diretamente as despesas com recursos do Tesouro, reconhecendo um pequeno aumento na despesa pública. Para sair bem na foto dos neoliberais, que sempre querem o máximo de superávit primário, Mantega cometeu uma irregularidade formal, longe, porém, de qualquer irregularidade real.

Quanto à proposta de orçamento deficitário, o festival de besteira chega ao infinito. Todo país, em qualquer época, pode recorrer a déficit. Os EUA tiveram um de 1,7 trilhão de dólares em 2009 e desde então tem tido déficits médios de 1 trilhão de dólares por ano. Sem déficit não haveria dívida pública, pois a dívida é uma acumulação de déficits. Claro que há déficits ruins e déficits bons. Ruim é o déficit que não se converte em investimento ou bem estar social. Os financistas, naturalmente, não gostam deles porque podem prenunciar aumento de impostos ou juros mais baixos manejados pelo BC.

Para a sociedade como um todo, um déficit indica que o Estado retira da economia menos do que lhe devolve em compras de bens e serviços. O déficit favorece, pois, o crescimento da circulação da riqueza desde que não haja inflação alta e o Governo não tenha a má ideia de pretender pagá-lo com aumento de impostos, como anunciam líderes governistas muito mal aconselhados por economistas neoliberais. O imposto, quando absorvido na ciranda financeira, contribui para a contração da economia. Assim, a forma canônica keynesiana de reduzir ou eliminar os déficits é pelo crescimento econômico, que aumenta a receita pública sem aumentar as taxas de impostos.

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José Carlos de Assis é economista, doutor pela Coppe/UFRJ, autor do recém-lançado “Os Sete Mandamentos do Jornalismo Investigativo”, ed. Textonovo, SP.

Inquérito que investiga Anastasia na Lava Jato pode ser contra Aécio

Via Jornal GGN

Uma nova denúncia em email diz que a casa destino do montante de R$ 1 milhão não é de Anastasia, mas, na verdade, da prima do senador Aécio Neves.

O motivo que sustentaria arquivar a investigação contra o senador Antonio Anastasia (PSDB-MG), de envolvimento no esquema de corrupção da Petrobras, seria a falta de provas de que o policial federal Jayme Oliveira Filho, conhecido como Careca, teria levado a quantia de R$ 1 milhão ao parlamentar. Em depoimento, Careca descreveu uma casa onde teria levado a quantia, a pedido do doleiro Alberto Youssef. Agora, está em investigação um e-mail denunciando que a casa descrita é a de Tânia Guimarães Campos, prima de Aécio Neves.

A informação foi divulgada, inicialmente, em reportagem da Folha de S. Paulo. Contudo, o jornal não menciona a prima do senador e candidato derrotado à presidência da República. Há apenas dados de que o e-mail poderia desfazer o pedido do procurador-geral, Rodrigo Janot, de arquivar a investigação contra Anastasia.

Nesta terça (01), a Polícia Federal enviou ofício ao ministro do STF, Teori Zavascki, relator dos processos da Lava Jato, afirmando que recebeu novas informações que antes não eram de conhecimento de Janot. Apesar de o email não ser conclusivo sobre o envolvimento de Anastasia, a PF ressaltou que as dúvidas precisavam ser esgotadas.

No arquivo, a autora que se identificou como “moradora de Minas Gerais” contou sobre a residência descrita na investigação contra Anastasia.

“O e-mail aponta qual seria a casa de Belo Horizonte em que o policial federal Jayme Oliveira Filho, o Careca, homem ligado ao doleiro Alberto Youssef, teria entregue R$ 1 milhão, em 2010″, restringiu-se a publicar a Folha. “Inicialmente, Careca não soube dizer para qual político entregou o dinheiro. (…) Youssef não confirmou a informação e, em depoimentos posteriores, Careca permaneceu em silêncio”, completou o jornal.

Foi o colunista Lauro Jardim, da Veja, que divulgou que a denunciante afirmou que a casa é da prima de Aécio Neves.

“Os tucanos estão estranhando o pedido da PF para que avance a investigação contra Antonio Anastasia, conforme mostrou hoje a Folha de S. Paulo. A estranheza é causada por um fato objetivo: a nova casa em que o policial Careca teria levado dinheiro é de uma prima de Aécio Neves, Tânia Guimarães Campos”, publica.

Agora, a Polícia Federal aguarda a decisão do ministro Teori Zavascki, se continua ou não com as investigações sobre o inquérito que envolvia Anastasia, mas que em um segundo momento, pode envolver Aécio Neves.

O deficit e a crise como oportunidades

Por Rennan Martins | Vila Velha, 04/09/2015

Deficit não é o bicho de sete cabeças como vem sendo retratado, podemos usá-lo pra sair da espiral de depressão econômica.

Esta semana o Mercado e seus bonecos de ventríloquo, presentes em abundância tanto no Congresso Nacional quanto na imprensa corporativa, entraram em polvorosa após a divulgação da proposta orçamentária de 2016, prevendo 0,5% de deficit primário. As reações demonstraram o quão desqualificado se encontra o debate econômico no país e também o alto grau de demagogia de vários elementos da oposição de direita.

A começar pelo âmbito político, é espantoso que senadores e deputados esbravejem que não é da competência do legislativo propor formas de equilibrar o orçamento no mesmo ano em que vemos uma verdadeira rebelião na Câmara, presidida por um candidato eleito justamente com o discurso de “independência” em relação ao executivo. Diversos políticos que há pouco tempo pregavam a adoção do regime parlamentarista hoje se negam a deliberar sobre cortes e geração de receita, evidenciando que estão dispostos somente a propor aumento de gastos para sua base eleitoral.

No que se refere ao campo econômico, temos que a opção pelo ajuste no final do ano passado foi um erro crasso. Joaquim Levy e sua tesoura conseguiram derrubar a atividade econômica já cambaleante, levando junto a arrecadação de impostos, que caiu a patamares incompatíveis até mesmo com a meta fiscal projetada para este ano, que por força da realidade teve de ser revista para 0,15%, correndo risco de nem a isso chegar efetivamente.

Soma-se ao arrocho a descoordenação da política monetária, evidente num Banco Central que eleva a Selic a 14,25%, o que inibe qualquer investimento produtivo e não combate efetivamente o tipo da inflação atual, presente com mais intensidade nos serviços e alimentos. O professor Rogério Studart registrou, ainda em maio último, esta pertinente observação:

Não somos a Inglaterra. Mas pelo menos uma lição não podemos deixar de ver nessa história: nem os Tories , no alto de sua fé liberal, ousaram, frente à atual crise externa, promover a austeridade monetária, e muito menos um arrocho como programa de responsabilidade fiscal. Os conservadores britânicos sabem que esta combinação gera recessão, quebras de empresas e mais desemprego.

Adentramos então o último terço do ano da forma acima descrita e prevista inúmeras vezes pelos mais variados economistas, acadêmicos, políticos e analistas. O desemprego cresce vigorosamente, ao passo que o aprofundamento dos cortes deprime a demanda agregada, nos pondo em espiral recessiva, caminho bem conhecido por países como Grécia, Portugal e mais recentemente, Porto Rico.

A situação fiscal precisa ser levada em conta, mas não na perspectiva posta pelo mundo das finanças, o qual vê como prioridade única o pagamento aos credores, ignorando sumariamente o emprego e a renda, fatores cruciais para o bem-estar da população. Além do mais, a relação dívida/PIB nacional está em patamares menores que os da Europa ou EUA. O portal Trading Economics informa que em dezembro de 2014 estávamos em 58,5%, ao passo que a França atingiu 95%, o Reino Unido 89,4%, enquanto os EUA – de onde muitos se espelham para propagandear um suposto exemplo de austeridade – tivemos o valor de 102,98%. E pra não alegarem que a comparação é errônea temos a Índia, uma economia emergente como a nossa, que no mesmo período estava em 65,5%.

O próprio Tio Sam, para surpresa dos tolos e constrangimento dos hipócritas, recorre com frequência a orçamentos deficitários. Em setembro do ano passado as despesas estavam US$ 483 bilhões maiores que as receitas, o equivalente a 2,8% do PIB, consideravelmente maior que os 0,5% propostos pelo governo brasileiro, absoluta e relativamente. Se ainda assim há ceticismo em torno do tema, podemos recorrer ao professor Thomas Piketty, que no seu livro O Capital no Século XXI, mais precisamente no terceiro capítulo, discorre sobre a história da dívida do Reino Unido.

(…) imagine um governo que incorre em deficit da ordem de 5% do PIB todo ano durante 20 anos (para pagar, digamos, os salários de um grande número de soldados, no período entre 1795 a 1815) sem aumentar impostos num montante equivalente. Após 20 anos, a dívida pública adicional acumulada será da ordem 100% do PIB. Suponhamos ainda que o governo não pague a parte principal, mas simplesmente os juros inerentes da dívida. (…)

Em linhas gerais foi isso que fez o Reino Unido no século dezenove. E eis que a partir de 1815 até 1914 as contas fecharam continuamente em superavit: em outras palavras, o recolhimento de impostos excedeu os gastos em considerável porcentagem em relação ao PIB – um montante maior, por exemplo, que o orçamento da educação para o período. Foi somente o crescimento do PIB e renda nacional (em torno de 2,5% por ano de 1815 a 1914) que, depois de um século de penúria, permitiu o Reino Unido reduzir significativamente sua dívida pública em relação a renda nacional (tradução livre).

Temos então que o debate a se fazer com seriedade é sobre o caminho para retomada do crescimento, aliado a uma política econômica que ao menos amenize a dependência do mercado internacional de commodities, visto que a crise econômica que se arrasta desde 2008 atingiu até mesmo a China, nos ensinando outra vez que não podemos desenvolver adequadamente com uma inserção global subalterna e dependente.

O caminho pelo qual podemos adentrar já foi aberto. O real perdeu sua antiga condição de alta artificial frente ao dólar, promotora da deletéria desindustrialização da estrutura produtiva. É hora de discutir alternativas concretas as quais prevejam o deficit de forma inteligente, com espaço para investimentos estratégicos na indústria, na infraestrutura e na educação. A dívida crescerá num primeiro momento, mas a retomada do crescimento nos proporcionará as condições necessárias para fazer frente a esta questão, visto que numa economia aquecida que emprega, produz e avança, teremos espaço orçamentário para pagar tais compromissos.

Operação Zelotes: PF cumpre mandados em escritórios de contabilidade

Via CbB

Em nova fase da Operação Zelotes, a Polícia Federal cumpriu, nesta quinta-feira, em parceria com a Receita Federal, com o Ministério Público Federal (MPF) e com a Corregedoria do Ministério da Fazenda, mandados de busca e apreensão em nove escritórios de contabilidade que funcionam no Distrito Federal, São Paulo e Rio Grande do Sul.

Deflagrada em março, a operação investiga suspeitas de manipulação de julgamentos no Carf

Deflagrada em março, a operação investiga suspeitas de manipulação de julgamentos no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf). De acordo com a Receita Federal, os escritórios alvos da nova fase da Zelotes prestam serviços às empresas já investigadas.

Após análise do material apreendido na primeira etapa da operação, os investigadores identificaram discrepâncias entre os valores efetivamente movimentados pelos suspeitos e os declarados ao fisco. Agora, esperam ter acesso a informações que possam comprovar o envolvimento de 12 empresas e 11 pessoas físicas no esquema fraudulento que lesou os cofres públicos em mais de R$ 6 bilhões. A fraude, no entanto, pode chegar a $ 19 bilhões, conforme cálculos da MPF.

Segundo a força-tarefa da Operação Zelotes, os investigados utilizavam empresas de fachada para dissimular ações fraudulentas. O dinheiro depois retornava em forma de patrimônio para as companhias. Além dos mandados de busca e apreensão, a Justiça autorizou a quebra de sigilo fiscal, bancário e telemático de todo o material apreendido hoje.

De acordo com a Receita Federal, a expectativa é que sejam recolhidos documentos, anotações, mídias de armazenamento, computadores, contratos e recibos referentes à contabilidade dos envolvidos no esquema.

Ao todo, estão sendo investigados cerca de 70 julgamentos realizados pelo Carf, última instância administrativa na esfera tributária, entre de 2005 a 2013. As suspeitas são de que ex-conselheiros, servidores públicos e empresas de consultoria montaram um esquema para negociar o resultado desses julgamentos. Os investigados responderão pelos crimes de formação de quadrilha, advocacia administrativa, lavagem de dinheiro e tráfico de influência.