Termômetro da conjuntura política #6

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Por Rennan Martins | Vila Velha, 29/10/2015

Charge de Renato Aroeira.

Crise (in)conveniente. Diante do histórico julgamento em que o STF, por 8 votos a 3, considerou inconstitucional o financiamento empresarial de campanhas políticas, o presidente do senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), deu uma cartada bastante curiosa. Disse ele que o erário não tem condições de arcar com as campanhas do ano que vem, preparando um subterfúgio para retomar o financiamento por pessoas jurídicas, principal causa da corrupção. Ora, tal guinada ocorre justamente no ano em que o Congresso aprovou a triplicação do fundo partidário, que foi de 289,5 para 867,5 milhões. Tal surto de responsabilidade fiscal tem um timing bem intrigante.

Confuso. O também peemedebista e ex-ministro do governo Dilma, Moreira Franco, prestou entrevista a Folha de S. Paulo, na qual entre uma fala e outra, admite que a atual crise econômica global é gravíssima, em sua visão pior que a de 1929, para logo depois dizer que foi um erro do governo enviar o orçamento deficitário para 2016. Se o experiente político estudasse mais um pouco história econômica veria que a crise de 29 teve o deficit público como um dos principais instrumentos para reversão de expectativas e indução da retomada do crescimento.

Tomar caju. O presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) – que há poucos dias se gabou dizendo receber aplausos nos restaurantes que frequenta – foi hostilizado pelo público do Rock In Rio 2015. Em vídeo disponível no YouTube se vê ele sendo mandado ir tomar naquele lugar por diversas vezes. Isso continuará acontecendo em todo local não controlado que resolver visitar, visto ser uma das figuras mais nefastas de nossa República.

Aliados”. Ainda no PMDB, oficialmente base aliada, temos esta semana um embate decisivo. O Congresso apreciará, em sessão conjunta, os vetos da presidente referentes a gastos aprovados no legislativo os quais anulariam o esforço fiscal até agora praticado. Na pauta temos principalmente o modesto aumento de até 78% que os judiciários quer conceder a si próprio. Será que Eduardo Cunha e Renan Calheiros – que tanto falam da necessidade de cortes e enxugamento do Estado – barrarão a dita pauta bomba? Ou será que a austeridade que pretendem é só no lombo do trabalhador humilde mesmo?

De volta. O cearense Ciro Gomes, que já ocupou diversos cargos públicos, desde deputado estadual, federal e até mesmo ministro da Fazenda, retornou ao cenário político nacional em cerimônia de filiação ao PDT, seu sétimo partido. Chutando a porta, Gomes afirma que o empresariado de São Paulo está armando um golpe contra a presidente em conluio com os tucanos e setores do PMDB. Alegou também que Eduardo Cunha é o “maior vagabundo de todos”, e em discurso ao PDT avisou que chega para batalhar e não para festejos. Bem, com tal postura se vê que o embate será duro e aberto. Bom para nossa democracia tão carente de figuras públicas que não fogem ao debate.

Foi mesmo. O papa Francisco, responsável por uma guinada progressista do Vaticano e fortemente atuante na diplomacia internacional, atendeu aos pedidos dos macartistas. Visitou a ilha cubana e lá proferiu missa na Plaza de la Revolución, com a imagem de Che Guevara ao fundo. Aconselhou os cubanos a não se deixarem levar pelo deus dinheiro, abrindo mão da solidariedade duramente construída pelo regime revolucionário, que levou a ilha a patamares de primeiro mundo em termos de educação e saúde. A viagem também teve direito a um encontro em particular com Fidel Castro, de quem ganhou um livro do teólogo Frei Betto, uma compilação de entrevistas prestadas por Fidel ao escritor brasileiro.

Guinada neoliberal. O Syriza e seu líder Alexis Tsipras se reelegeram governo nas eleições da Grécia no último fim de semana, com um total de 35,5% dos votos. Inicialmente contra as políticas de austeridade, agora Tsipras é um fiel defensor delas, tendo aprovado no parlamento grego um pacote de “reformas” ainda mais duro que o anteriormente proposto por Berlim. Considerando este triste desfecho da batalha grega, seria possível que Tsipras fosse desde sempre um cavalo de Troia?

Só agora. Depois de décadas de intervenção e fomento a sectarismos e o desencadeamento de inúmeras guerras civis e da crise migratória no Oriente Médio, os Estados Unidos finalmente adotaram uma posição mais consequente na questão da Síria, em guerra civil desde 2011. Agora, o secretário de Estado John Kerry alega que é possível uma solução negociada junto a Rússia e o presidente Assad. Parece que finalmente Washington notou que todos sabem que o Estado Islâmico nasceu do financiamento norte-americano e sunita aos jihadistas que saíram do controle de seus patrocinadores.

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