Ciro Gomes põe o diabo no redemoinho

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Por Moisés Mendes | Via Zero Hora

Ciro Gomes na cerimônia de filiação ao PDT.

O cearense retornou ao palco da política chamando os golpistas para o embate.

Políticos vão e voltam, como golfinhos, cupins e andorinhas, às vezes nem se sabe por quê. O cara que está de volta agora é Ciro Gomes. Foi deputado, governador, ministro e candidato à Presidência por duas vezes. Foi tucano, foi do PPS, depois do PSB e do PROS e agora se filiou ao PDT. Por isso virou notícia. Pode-se dizer, pelo que andou falando desde que se anunciou trabalhista, que Ciro voltou só para pôr o diabo no redemoinho.

Ninguém aguenta mais Aécio golpeando, Dilma e Lula se defendendo, e o PT e as esquerdas encaramujadas. Ciro vai revigorar o debate. Já chegou avisando que encara Aécio como um golpista e que Dilma é atacada também por ser mulher e viver sozinha.

Faltava o homem da peixeira, o cearense nascido em São Paulo, para fazer com que a retórica da crise fique mais pop. Vejam o que ele já disse sobre as tentativas de impeachment:

— Eles querem torrar a Dilma para torrar o Lula junto.

Sobre as agressões sofridas pelo ex-ministro Guido Mantega em um restaurante de São Paulo, quando dois empresários o insultaram como ladrão, palhaço e sem-vergonha:

— Ai de mim se entro numa situação daquela. O cara levava um tapa ali na hora.

Sobre os deputados:

— A maioria da Câmara é corrupta.

Ciro diz ter voltado para defender a democracia dos “grupos de interesses golpistas” (o núcleo do golpe seria paulista). E para atacar os ex-parceiros de ninho tucano, os petistas que teriam abandonado Dilma e o presidente da Câmara, Eduardo Cunha.

Ciro volta ao acaso, como o sujeito aquele do faroeste que passava pela cidade na hora do tiroteio. Em março, o irmão Cid Gomes enfrentou o Congresso, como ministro da Educação de Dilma. Disse que os deputados eram “uns 400 ou 300 achacadores” do governo, incluindo Cunha. Foi para o confronto e virou ex-ministro.

Um juiz decidiu que ele deve pagar R$ 50 mil por dano moral a Cunha. No mesmo dia em que a Justiça anunciava a sentença, Ciro noticiava a filiação ao PDT e atacava Cunha, “o maior vagabundo de todos”.

Dilma ganha um aliado inesperado. Ciro estava quieto em Fortaleza, como secretário da Saúde do Estado. Parecia condenado a ser um ex-quase tudo. Volta e anuncia-se como possível candidato à Presidência, de novo.

E isso muda o quê? Parece que não muda nada. Parece. Ciro tem a vitalidade para o ataque das esquerdas de antigamente. Já fez a defesa de Dilma (com críticas ao governo), que o PT não consegue mais fazer, ou porque perdeu as forças, ou porque pretende usá-las mais adiante.

Chega a ser constrangedor, para quem vem acompanhando o esforço quase diário da presidente para rebater — em discursos de eventos — a ameaça de impeachment, que Ciro Gomes já fale mais alto do que muitos petistas históricos para defendê-la.

Quem está de volta é um homem mais maduro? Em 2002, acompanhei como repórter a caravana de Brizola, Antônio Britto e Ciro pela Fronteira. Ciro namorava Patrícia Pillar. Alguns podem ter votado nele só para ver Patrícia como primeira-dama do Brasil. Ficou atrás de Lula, Serra e Garotinho.

Pode ter voltado para fazer a terceira e última tentativa. Mas pode também estar aí só para ver o olho arregalado dos que já enxergaram o diabo no redemoinho. Será leviano quem continuar admirando a crise dos terraços da Avenida Paulista e não perceber que há muito a política no Brasil acontece também no agreste.

Ah, se Glauber Rocha estivesse por aí para ver a polvadeira que poderá ser erguida pelo homem da peixeira do Ceará. O diabo vai se divertir.

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