Por Vinicius Neder e Idiana Tomazelli | Via Estadão

Levy era mesmo necessário?
Para Kupfer, não havia uma emergência no País que tornasse necessário um “cavalo de pau” na economia.
O ajuste na política econômica no segundo mandato da presidente Dilma Rousseff produziu “desajustes” na economia, contribuindo, ao lado da turbulência política, para a recessão e para a perda do grau de investimento do Brasil pela agencia de classificação de risco Standard & Poor’s (S&P), afirma o professor David Kupfer, recém-empossado diretor do Instituto de Economia da UFRJ, um dos principais polos do pensamento econômico heterodoxo no Brasil. Ele defende que o ajuste poderia ter sido feito gradualmente. A seguir, os principais trechos da entrevista.
Como o sr. viu o rebaixamento da nota do Brasil pela S&P?
O rebaixamento surpreendeu, não pelo fato em si, mas pelo timing. Não era esperado para agora. Era uma morte anunciada, que vai colocar mais movimento na situação econômica. Agora, se será para o bem ou para o mal, não sei.
Quais as consequências?
As consequências mais profundas da perda do grau de investimento não são essas que vão aparecer nos próximos dias, na taxa de câmbio ou no movimento de capitais. É no financiamento à balança de pagamentos brasileira. A gente tem de olhar se vai ter um impacto mais firme na entrada de capitais ou se esse impacto será de menor monta e, de algum modo, compensado pela retomada do saldo comercial, que está acontecendo. Sabemos que uma parcela dos investimentos de portfólio dos fundos de pensão internacionais vai sair, mas essa não é a parcela mais expressiva da conta de capitais do Brasil. Outras decisões de investimento poderão ser mantidas, porque há muita oportunidade de investimento no Brasil e os preços dos ativos brasileiros estão baixos.
O ajuste fiscal contribuiu para esse quadro?
Acho que sim. O ajuste produziu desajustes, porque existia um fio de navalha para ele seguir, que era, no meu modo de ver, a base em um governo recém-eleito, que teria legitimidade dada pelo processo eleitoral. Esse ajuste, se rápido e cirúrgico, iria apontar as variáveis macroeconômicas para suas direções corretas, colocar o gasto para baixo, reduzir a relação da dívida pública sobre o PIB e liberaria a economia para retomar uma determinada trajetória (de crescimento). O que aconteceu, na verdade, é que aquela força política não só não existia como se revelou muito frágil. Não vejo cenário de disrupção da nossa democracia, nada disso, mas aquele ajuste cirúrgico e rápido já não aconteceu. E, do ponto de vista do ajuste, a gente não avançou absolutamente nada. A direção pós-ajuste é cada vez mais fundamental, porque percebo que é isso que vai nos tirar desse impasse.
Quais “desajustes” o ajuste provocou?
Todo ajuste, se começa a demorar, coloca a economia em recessão. Ele provoca mais perda de receita (pública) do que a capacidade de economizar gastos. A queda da receita faz com que seja inviável você avançar na direção do ajuste, então é um gelo que se tenta enxugar. E cada vez mais a gente está entrando numa espiral.
O ajuste poderia ser menor?
Poderia ter sido feito gradualmente, num horizonte de quatro anos, em que você teria metas fiscais graduais, administraria o retomo da inflação à meta com mais lentidão, outras variáveis também adeririam a esse gradualismo e teríamos, num futuro mais longo, a economia crescendo pouco. Não havia uma emergência econômica, as variáveis não estavam tão ruins assim (em 2014). Economicamente, o quadro não sugeria uma emergência que exigisse um cavalo de pau, mas, politicamente, parece que sim.
A “nova matriz econômica” é culpada pela recessão ou responsabilizá-la faz parte da disputa política?
O discurso político está na rotulagem da “nova matriz econômica”. Não percebi que tenha havido tal proposição. Agora, a tentativa de mudar o mix macroeconômico (nível de juros e câmbio), da forma como foi feita – que, nitidamente, não foi adequadamente preparada, pois o governo entendeu que aquilo ia funcionar por si só é responsável por um monte das mazelas que a economia brasileira enfrentou em 2013 e, posteriormente, em 2014, com o ciclo político. Você tentou reduzir os juros e aumentar o câmbio, mas não conseguiu sustentar isso. Esse movimento, que mudou o mix para lá e depois devolveu, foi bastante custoso em termos de desorganização econômica.
Por que as medidas consideradas desenvolvimentistas, como desoneração de bens de consumo e da folha de pagamentos, ou juros baixos do Programa de Sustentação dos Investimentos (PSI), não surtiram efeito?
Por que não surtiu efeito de longo prazo, sustentável, é a pergunta que tem de ser feita. Os bens de consumo duráveis são o elástico, os primeiros a explodirem e os primeiros a capotarem, por uma razão que é trivial. A principal parcela da demanda por bens duráveis é, no caso brasileiro, de pessoas que estão renovando seus produtos. Essa demanda de reposição é muito administrável pelo consumidor. Então, o cara pode antecipar e adiar. Se você dá estímulo, o cara antecipa. Só que, ao antecipar, ele consome hoje o que consumiria amanhã. Ele produz o buraco amanhã.
E as desonerações da folha?
O objetivo era tomar isonômica (a cobrança de impostos entre produtos nacionais e importados), restaurar a competitividade, e acabou se tomando uma medida de melhoria de rentabilidade. Acabou se tornando um gás adicional para as empresas. Se essa rentabilidade tivesse virado investimento, ela talvez entregasse um resultado positivo. Mas, num quadro de expectativas pouco animadoras, ela não gerou investimentos, ela gerou entesouramento.
