Tem início o fim do capitalismo (III)

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Por Paul Mason | Via The Guardian

Sem alarde, estamos adentrando a era pós-capitalista. No coração das mudanças estão as tecnologias de informação, as novas formas de trabalho e a economia compartilhada. As velhas formas ainda levarão um longo tempo para desaparecer, mas a hora é de abrir espaço a utopia. Acesse aqui a parte I, e aqui a parte II.

Idealização de uma sociedade de economia compartilhada. Ilustração de Phil Wrigglesworth

Estamos cercados não somente por máquinas inteligentes, mas por uma nova realidade centrada na informação. Considere, por exemplo, um avião: um computador o comanda; este por sua vez foi projetado, testado e “manufaturado virtualmente” milhões de vezes; está enviando informação em tempo real aos seus fabricantes. A bordo estão pessoas ligadas às suas telas, em alguns países de sorte, conectadas a internet.

Visto do chão, este pássaro branco de metal é o mesmo que na era de James Bond. No entanto, atualmente se trata de uma máquina inteligente e um ponto de trabalho. Possui seu próprio conteúdo de informação e está adicionando “valor informativo”, assim como valor físico ao mundo. Num avião de negócios onde todos estejam trabalhando no Excel ou no Powerpoint, a cabine dos passageiros é melhor compreendida como uma fábrica de informação.

É utópico imaginarmos que estamos próximos de superar o capitalismo? Ilustração de Joe Magee.

Quanto vale toda esta informação? Você não achará a resposta nas contas tradicionais: a propriedade intelectual é valorada na contabilidade moderna por métodos meramente especulativos. Estudo promovido em 2013 pelo Instituto SAS concluiu que para valorar dados, nem os métodos de custo, nem os de valor de mercado, nem tampouco os de rendimento futuro conseguiam cálculos adequados. Somente numa forma onde se levava em conta benefícios não econômicos e riscos as companhias conseguiam explicar aos seus acionistas o quanto valiam seus dados. Algo está quebrado na lógica usada para calcular quanto vale a mais importante coisa do mundo moderno.

O grande avanço tecnológico do século XXI consistiu não somente nos novos objetos e processos, mas também em tornar os antigos inteligentes. O conhecimento contido nas mercadorias está se tornando mais valioso que os objetos físicos usados para produzi-las. Tal valor, no entanto, é mensurado por sua utilidade, não pelo potencial de troca ou como patrimônio. Na década de 90 os economistas e cientistas ligados a tecnologia começaram a constatar a mesma coisa: que esta nova modalidade de informação estava criando um “terceiro” tipo de capitalismo – diferente do capitalismo industrial assim como o industrial é diferente do capitalismo mercantilista e escravagista dos séculos XVII e XVIII. Os estudiosos tiveram grande dificuldade em descrever a dinâmica deste novo “capitalismo do conhecimento” por uma simples razão. Sua dinâmica é profundamente não-capitalista.

Durante e logo após a Segunda Guerra Mundial, os economistas viam a informação simplesmente como um “bem público”. O governo dos EUA inclusive achava que não se deveria auferir lucros por meio das patentes, mas somente pela produção em si. Depois, começamos a entender a propriedade intelectual. Em 1962, o guru da economia ortodoxa Kenneth Arrow postulou que numa economia de livre mercado a razão de se inventar coisas se dava ao criarmos os direitos de propriedade intelectual. Disse ele: “quanto mais bem-sucedido é o uso da informação, mais ocorre sua subutilização.”

É possível observar a validade do acima descrito em todos os modelos de negócios online já construídos: monopólio e proteção de dados, captura dos dados de fluxo social gerados pelas interações, levando as forças comerciais para áreas de produção de dados antes não-comerciais, uma verdadeira atividade de mineração de dados presumivelmente valiosos, de forma a garantir que sempre e em todo lugar ninguém além da corporação possa utilizar estes resultados.

A partir disso, se refizermos o princípio de Arrow em reverso, suas implicações revolucionárias são óbvias: se uma economia de livre mercado com propriedade intelectual leva a “subutilização da informação”, então uma economia baseada na ampla utilização dos dados não pode tolerar o livre-mercado ou qualquer direito de propriedade. Ao mesmo tempo, os modelos de negócios de todas as gigantes digitais são projetados para prevenir a abundância de informação.

Ainda assim, a informação é abundante. Bens de informação são perfeitamente replicáveis. Uma vez feitos, podem ser copiados/colados indefinidamente. Uma faixa musical ou a base gigantesca de informações necessárias para produzir um avião possuem seu custo de produção, mas uma vez realizada a produção, o custo de reprodução cai para próximo de zero.

Nos últimos 25 anos a economia batalha com este problema: todos os procedimentos ortodoxos baseiam-se na escassez, enquanto isso a mais dinâmica força do mundo contemporâneo é abundante, como o gênio hippie Stewart Brand uma vez constatou, “deseja ser livre”.

Temos então, paralelo ao mundo da informação monopolizada e da vigilância criado pelas corporações e governos, algo de diferente crescendo em torno da informação: a própria informação como um bem socializado, livre para uso e incapaz de ser explorada, precificada, ou se tornar propriedade. Pesquisei por gurus dos negócios e economia algum que construísse um panorama que permitisse compreender a dinâmica de uma economia baseada na informação abundante e socializada. De fato, tal modelo foi pensado por um economista da era do telégrafo e do motor a vapor. Seu nome? Karl Marx.

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Esse texto é parte do artigo original em inglês, “The end of capitalism has begun”, que o Blog dos Desenvolvimentistas traduzirá por inteiro, publicando em 6 partes.

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