Arquivo mensais:agosto 2015

O legado de Cunha

Por Tarso Genro | Via Sul 21

Sergio Lima/Folhapress

A naturalidade com que foi recebida a resposta de Eduardo Cunha pelos “formadores de opinião” da grande mídia e a passividade de boa parte da bancada governista federal -inclusive do meu Partido- a respeito das denúncias contra ele, mostra que crise não vai recuar e que o poder do Presidente da Câmara, por razões até agora desconhecidas, é muito maior do que se pensa.

Leio que dois dignos deputados federias  do Partido dos Trabalhadores, Alexandre Molon e Henrique Fontana  (certamente temos outros), em conjunto com deputados de outras extrações, lideram um movimento para a retirada de Cunha da presidência da Câmara Federal, fundados na denúncia do Procurador Janot. Como Cunha respondeu a esta denúncia? Respondeu que não vai “retaliar”.

Vejam: a resposta é que não vai “retaliar!”. Esta reação, por si só, mostra que Eduardo Cunha vai jogar o jogo até o final e que, por desespero ou segurança, está convicto que pode continuar sendo -muito além da plêiade tucana- o principal líder da oposição ao Governo da Presidenta Dilma que, atado numa base parlamentar que defende a “austeridade” (para os outros), não tem vontade política nem projeto para sair da crise, diferente daquele que o neoliberalismo defende em escala mundial: um “ajuste”  meramente orçamentário, sem tocar na política monetária, na orgia dos juros, e sem encaminhar um combate  -a curto e médio prazo- às desigualdades de renda, num país que ainda é fundamentalmente injusto.

Quando Cunha diz que não vai “retaliar”  ele está dando, na verdade, três recados, a distintas fontes de poder político e jurídico: ao Governo Federal, está dizendo que pode ”retaliar”, se quiser; à oposição demo-tucana, que continua às ordens, para sabotar qualquer iniciativa do Governo; ao Procurador Janot -que ele acusa absurdamente de estar agindo a pedido do Governo- avisa que não reconhece a sua denúncia como o cumprimento de um dever republicano, mas como mero produto de uma barganha política.

A resposta do Presidente da Câmara escancara, não a falência da Carta de 88 ou do regime de democracia política que está inscrito naquele diploma, mas sim a decadência completa de um sistema político específico, que permite que um líder da oposição seja do Partido mais forte que está Governo e que este mesmo quadro, acusado de corrupção (desta mesma oposição), seja o fiador, ao mesmo tempo, da estabilidade do Governo, e da possibilidade do seu impedimento.

Trata-se de uma situação de aparente “normalidade”, que, na verdade abre espaço para a “exceção”, já que esta sempre se apoia num certo desencanto do povo -formalmente criador e destinatário das normas de convívio político democrático-  que passa a sentir a democracia como um regime falido. E o sentimento de que a democracia está falida e que os líderes das diversas facções de opinião não se entendem para preservá-la, abre espaço para tentação fascista: a autoridade substitui a política e a burocracia substitui os partidos.

Produz-se, então, uma época triste e violenta em que, como disse recentemente Boaventura Souza Santos, o “insulto tornou-se meio mais eficaz de um ignorante ser intelectualmente superior a um sábio” e a “desigualdade tornou-se mérito”. A resposta de Cunha à denúncia do Procurador Janot foi um ataque à democracia e à República, não uma peça de defesa. Este é o seu principal legado. Devem estar celebrando aqueles que, em manifestações recentes, se apresentaram como “todos somos Cunha.”

Penso que a grande maioria de todos os partidos democráticos não é representada por Cunha e não aceitam ser confundidos com ele, pelo menos até que  sua inocência seja acatada pela Justiça, se o for. Por isso deveríamos aproveitar este momento, em que a crise política é levada ao seu ponto mais alto de maturação, para desbloquear a Câmara Federal, promovendo um movimento amplo e suprapartidário, para  que ele, Eduardo Cunha, responda o processo fora da Presidência da daquela casa parlamentar. Este  seria o único aspecto positivo do seu legado.

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Tarso Genro foi governador do Estado do Rio Grande do Sul, prefeito de Porto Alegre, Ministro da Justiça, Ministro da Educação e Ministro das Relações Institucionais do Brasil.

Organizações populares articulam jornada de mobilizações em defesa da Petrobras

Por Guilherme Weimann | Via Brasil de Fato

Durante o Seminário Nacional: Energia, Educação e Indústria no Brasil, diversos movimentos populares definiram os próximos passos para as ações em defesa do petróleo brasileiro.

Representantes de 30 sindicatos, federações, confederações e movimentos populares rurais e urbanos definiram o dia de fundação da Petrobras, 3 de outubro, como a data de mobilização nacional em defesa da estatal. No mesmo período, a União Nacional dos Estudantes (UNE) também estará realização a Caravana dos Estudantes da UNE, em Brasília (DF).

Reunidas no Seminário Nacional: Energia, Educação e Indústria no Brasil, nesta terça (18) e quarta-feira (19), representantes de organizações sociais e populares de dezoito estados brasileiros debateram o atual modelo energético e os próximos desafios nesse setor.

O principal encaminhamento do encontro, organizado pela Plataforma Operária e Camponesa da Energia, foi a necessidade de articular forças sociais em todos os estados e municípios brasileiros nas próximas semanas para barrar o Projeto de Lei (PLS) 131, de autoria do senador José Serra (PSDB), que pretende retirar a obrigatoriedade de participação da Petrobras como operadora única do pré-sal.

Passado neoliberal

Durante a atividade, o integrante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Gilberto Cervinski, traçou um paralelo entre a produção de petróleo e de energia no país. Segundo ele, a cadeia produtiva do petróleo pode sofrer as mesmas consequências da política adotada na eletricidade durante a década de 1990. “O futuro neoliberal do petróleo é a atualidade do setor elétrico. Atualmente, o setor elétrico brasileiro é um centro de especulação muito parecido com um paraíso fiscal”, comparou.

Os efeitos desse tipo de medidas são refletidos diariamente nos bolsos da população brasileira, apontaram os debatedores. Para a diretora do Sindicato dos Urbanitários do Distrito Federal (Stiu-DF), Fabíola Antezana, o setor elétrico está refém da privatização. “Não adianta a Eletrobras vender energia a R$ 33 por MW/h, se no mercado livre as empresas estão vendendo a R$ 284 por MW/h. No final, o prejuízo vai ser repassado de qualquer forma para o consumidor residencial”, explicou.

De acordo com o diretor do Sindicato dos Engenheiros do Paraná (Senge-PR), Ulisses Kaniak, esta onda de privatizações orientadas pelo governo do PSDB durante a década de 90 também afetou diretamente as condições de trabalho dos eletricitários. “A terceirização é precarização e significa morte, mutilação, perda funcional. Isto acontece porque estas empresas apenas querem sua parte do lucro e não se preocupam com a saúde do trabalhador”, relatou.

Defender a Petrobrás é defender a educação

Uma das maiores conquistas populares dos últimos anos foi a aprovação da Lei 12.858, no final de 2013. Após uma série de mobilizações, uma ampla articulação composta de setores populares asseguraram, através dessa lei, a destinação de 50% do montante do Fundo Social e a totalidade dos royalties do pré-sal para a saúde e educação.

No ano seguinte, em mais uma extensa disputa dos movimentos populares e sindicais contra a iniciativa privada, o Congresso Nacional aprovou o Plano Nacional de Educação (PNE), que destina 10% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil para a educação nos próximos anos, além de uma série de outras medidas.

Entretanto, o presidente da Federação Única dos Petroleiros (FUP), José Maria Rangel, afirmou que a realização do PNE só será garantido com a manutenção da Lei de Partilha, que garante à Petrobras a exclusividade nas pesquisas e o mínimo de 30% na produção de jazidas de petróleo e gás natural do pré-sal.

“A gente só viabiliza o Plano Nacional da Educação explorando o pré-sal pela Petrobras. Um dos seus pilares fundamentais é o financiamento, que está alicerçado no pré-sal. Por isso precisamos unir forças para combater o projeto de José Serra”, afirmou.

A secretária de assuntos municipais da Confederação Nacional dos Trabalhadores da Educação (CNTE), Selene Michielin, concorda com Rangel. Recentemente, a confederação lançou a campanha Defender a Petrobras é Defender a Educação, como resposta aos ataques sofridos pela estatal. “Para que esse Plano se viabilize é necessário garantir os 10% do PIB para a educação, que ainda é pouco. Quando se fala nos 10% já se supõe o dinheiro dos royalties do pré-sal”, explicou.

Caso se confirme a estimativa de 176 bilhões de barris de petróleo no pré-sal, levantada pelo Instituto Nacional de Óleo e Gás da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), o Fundo Soberano poderá destinar R$ 8,8 trilhões à saúde e educação, caso mantido o valor atual do barril do petróleo. Isso demonstra que o Brasil atingiu um novo patamar na geopolítica mundial.

O secretário de assuntos internacionais da FUP, João Antônio Moraes. “Nós petroleiros nos consideramos herdeiros da campanha ‘O petróleo é nosso’. Na época foi fundamental a participação dos estudantes, porque nesse período ainda não existiam petroleiros, mas já existiam estudantes e professores. Por isso, nós precisamos nos unir em defesa do petróleo brasileiro”, afirmou.

Jango, o governador socialista e o general afrontado

Por Luiz Cláudio Cunha | Via Blog do Mário Magalhães

Maquete do Memorial da Liberdade e Democracia, com a seta que afronta os generais – Reprodução internet

A segunda cassação de Jango

O índice de boçalidade nacional cresceu assustadoramente na quarta-feira, 19, com a surpreendente decisão do governador socialista de Brasília, Rodrigo Rollemberg, declarando nula a cessão de um terreno no Eixo Monumental para a construção do Memorial da Liberdade e Democracia, dedicado ao presidente João Goulart.

É o último projeto desenhado pelo arquiteto Oscar Niemeyer e parecia caminhar bem, até trombar numa aliança hostil formada pelos ex-governadores Joaquim Roriz e José Roberto Arruda e pelo empreiteiro Paulo Octávio Pereira.

Rollemberg atropelou um abaixo-assinado de 45 senadores que corre pelo Senado Federal contra a ‘segunda cassação’ de João Goulart.

A paranoia sobrevive

O governador de Brasília espana a responsabilidade com argumentos técnicos e difusos do Ministério Público, mas existem pressões militares que ele não tem coragem de revelar e que mostram a persistência da paranoia anticomunista.

Dias atrás, a senadora Vanessa Graziottin (PCdoB-AM) teve a prova disso pela boca da maior autoridade militar do País: o general Eduardo Dias da Costa Villas Boas, comandante do Exército.

— Este memorial não pode ser construído ao lado do Quartel-General. Isso é uma afronta ao Exército! — bufou o general, ao visitar com a senadora o terreno no Eixo Monumental reservado para o memorial, num espaço entre a Praça do Cruzeiro e o Memorial JK.

A seta do susto

O terreno fica a um quilômetro de distância, em linha reta, do QG do Exército onde trabalha o comandante Villas Boas e sua assustada tropa de generais.

No final de 2014, pouco antes de deixar o Ministério da Defesa, na transição entre o primeiro e o segundo mandato de Dilma Rousseff, o então ministro Celso Amorim explicou ao perplexo filho de Jango, João Vicente Goulart, a razão da bronca militar contra o memorial:

— Esta seta já provocou alguns problemas. Ela está apontada para o QG e seria melhor colocar do outro lado da avenida — apontou o ministro Amorim.

A infiltração de Niemeyer

A seta que incomoda os generais é uma cunha vermelha, com a ostensiva inscrição do ano de 1964, encravada na cúpula branca da construção ondulada de 1.200 metros quadrados.

A paranoia dos militares, apesar da queda da ditadura há 30 anos, vai além do Memorial JK.

No passado, eles encrencaram com outros dois projetos ‘subversivos’ de Niemeyer, um comunista assumido: a torre de controle do aeroporto internacional Juscelino Kubitschek e o pórtico do Memorial JK, ambos na capital federal.

Para os generais, antes e agora, tudo aquilo não passa e clara alusão à foice e ao martelo, símbolos do comunismo internacional que Niemeyer implantou no horizonte de Brasília. Um horror!

 

A imprensa que alega informar

Por Reinaldo Del Dotore | Via Brasil 247

Há alguns dias, houve outro trágico acidente automobilístico em que mais uma pessoa perdeu a vida. Na cidade do Rio de Janeiro, um cidadão atropelou um pedestre com resultado fatal. O motorista também teve ferimentos, e está em estado grave, embora estável. As manchetes normais para um caso como este seriam algo como “Motorista atropela e mata pedestre na rua Tal”.

Ocorre, porém, que o motorista, neste caso, é filho de um famosos cirurgião plástico brasileiro (um dos mais aclamados do mundo, aliás), e a vítima é apenas mais um anônimo, desimportante. O pai do motorista, é Ivo Pitanguy, que tem, em função de décadas de serviços prestados (e fartamente remunerados, a ponto de ele ter “comprado” uma ilha em Angra dos Reis), uma rede de contatos extremamente influentes. Então, o título da matéria publicada na Globo News foi: “Filho de Ivo Pitanguy está internado em estado grave após acidente com morte”.

Ainda que sutis, as inversões e omissões presentes nesta manchete são eloquentes. Ao ler o título da notícia – e uma grande parcela de brasileiros, independentemente do grau de instrução, lê apenas os títulos -, a ideia que surge é: “o filho de Ivo Pitanguy envolveu-se em um acidente em que foi ferido gravemente e outra pessoa morreu, acidente possivelmente causado por um terceiro”. Note-se que a manchete não afirma que o filho de Pitanguy teria sido apenas mais uma vítima ou teria sido o causador do acidente. No fundo, a manchete pouco informa, além do fato de o motorista estar gravemente ferido.

O que ocorreu: Ivo Nascimento de Campos Pitanguy, 59 anos, empresário, atropelou e matou um pedestre, José Fernando Ferreira da Silva. O empresário teve, nos últimos cinco anos, 70 multas, sendo 14 por embriaguez ao volante, e acumulou 240 pontos na carteira de habilitação, sendo 27 nos últimos doze meses. Ele, portanto, é contumaz em dirigir embriagado e, diga-se, nem sequer poderia dirigir, mesmo sóbrio, ante a legislação do trânsito.

Aí é que entra o papel da imprensa. O filho de Ivo Pitanguy, que faz parte do seleto universo dos efetivamente privilegiados e respectivo entorno, se não poderia ser diretamente protegido (as circunstâncias do caso não dão essa brecha), não deve ser atacado nas manchetes. Na pior das hipóteses, é providenciada uma manchete omissa como a que foi publicada na Globo News, que mais confunde do que esclarece.

Este caso é emblemático, e remete a diversas outras ginásticas anaeróbicas gramaticais que temos testemunhado por parte da imprensa. Recentemente, o Instituto Lula, em São Paulo, foi alvo de bomba caseira, que causou estragos materiais e só por muita sorte não causou ferimentos graves ou mesmo a morte de alguém. Esse ataque se deu no auge do surto de intolerância que assola o país contra membros e símbolos do PT. A manchete de um dos principais veículos de comunicação de São Paulo foi: “Instituto Lula alega ter sofrido atentado a bomba”. Mais uma vez, a manchete direciona o leitor para uma interpretação parecida com “o Instituto Lula diz que foi bombardeado, logo, pode não ser verdade”. Não é coincidência que, na esteira do episódio, tenham surgido diversos cidadãos com a “certeza” de que a bomba foi detonada por membros do próprio PT para angariar simpatia. (E é fantástico como em momentos como este pululam brasileiros que têm certeza absoluta a respeito de tudo, e, mais do que isso, são verdadeiros especialistas em tudo.)

Há centenas de casos semelhantes. Chefes de executivos estaduais e municipais ligados a partidos vinculados ao seleto grupo que citei no início são solenemente poupados pela imprensa nacional, por mais barbaridades que cometam à frente de seus estados e municípios. Acusações assacadas em processos investigativos são tratadas como provas definitivas, desde que, é claro, os acusados não sejam vinculados ao grupo acima, ou, pior, que representem alguma ameaça, ainda que tênue, a algum dos privilégios que têm.

Salvo raríssimas e honrosas exceções, quase todas elas habitando o mundo virtual ainda que haja boas publicações no papel, a imprensa (ao lado do Poder Judiciário) cumpre o papel que foi intuído já no século XIX: é mais uma das ferramentas criadas e geridas pelos muito privilegiados para a manutenção de seus privilégios.

A imprensa alega que informa, e o brasileiro médio acredita que está bem informado.

Belluzzo: o Brasil pode voltar à Série A

Via Carta Maior

Belluzzo acredita que o Brasil pode voltar à série A se investir em infraestrutura adotando políticas fundadas na formação de ‘redes de produtivas’.

A crítica conservadora ao governo atribui a crise atual à herança ‘desenvolvimentista’ do ‘Dilma 1’, período em que, no entender do vulgo ortodoxo, um indevido intervencionsimo estatal atropelou a harmoniosa condução da economia pelas forças de mercado, desregulou a matriz de crescimento e comprometeu a estabilidade do país.

O diagnóstico suscita controvérsias. A lógica terapêutica que o acompanha recomendaria entregar a nação a um spa de restauração dos fundamentos neoliberais, ‘a supostamente infalível, atemporal e insuperável “velha matriz macroeconômica”, aquela que levou o mundo à crise financeira de 2008’, fuzila o economista Luiz Gonzaga Belluzzo em artigo (abaixo) reproduzido por Carta Maior.

Os desafios acumulados na engrenagem econômica brasileira são sérios, de fato. Mais grave, porém, como sugere e a redobrada atualidade desse texto, é a incapacidade de enxergar suas causas por entre a neblina de preconceitos e platitudes ideológicas que pretendem acomodar a doença ao medicamento disponível no estoque dos interesses estabelecidos.

A falta de ar do metabolismo econômico do país remonta a desequilíbrios estruturais que precedem o pico atual, mostra Belluzzo.

O colapso origina-se, na verdade, segundo ele, no “desmanche” da estrutura produtiva criada ao longo das cinco décadas inauguradas nos anos 30 do século XX.  ‘Depois de liderar – até meados dos anos 70 – a “perseguição” industrial entre os países ditos periféricos, com forte atração de investimento direto na manufatura, o Brasil caiu para a Série B do torneio global das economias “emergentes”, explica o professor da Unicamp.

Palmeirense, que já viveu a crise do seu time como dirigente quando lançou as bases da arena que hoje emerge como poderoso alicerce financeiro do clube, Belluzzo acredita que o Brasil pode voltar à série A.

Neste artigo, o amigo sincero –e por isso crítico— da Presidenta Dilma, explica como. Usar de forma inteligente as vantagens que possui e as promessas nas áreas de petróleo e gás; bem como o investimento em infraestrutura –ambos ancorados  na adoção de políticas industriais fundadas na formação de “redes de produtividade” com seus fornacedores, é a chave, no seu entender, cujo acionamento –cada dia fica mais claro– depende de uma repactuação política do país.

Longe de se acomodar ao carimbo de desenvolvimentista, o professor cujo último livro ‘O capital e suas Metamorfoses’ discute justamente a incapacidade do sistema capitalista para atender demandas e urgˆncias do desenvolvimento no século XXI, relembra aos esquecidos: ‘No Brasil dos anos 50, 60 e 70 –quando o país liderou o crescimento mundial–  havia sinergia entre o investimento público, então comandado pelas empresas estatais, e o setor privado’. Leia a seguir o artigo de Luiz Gonzaga Belluzzo.

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O Brasil da Série B – Luiz Gonzaga Belluzo, na Carta Capital – publicado em 27/04/2014

A boa entrevista do ministro Mangabeira Unger concedida ao jornal Valor expõe o caráter mesquinho e limitado da controvérsia travada nos arraiais dos economistas. A mesquinharia denuncia a pobreza das indagações e a miséria dos pressupostos.

Exemplo do gênero é o empenho da opinião dominante em deplorar o que não existiu: a herança “desenvolvimentista” do primeiro mandato Dilma. Insistem, ademais, na baboseira da “nova matriz macroeconômica”, argumento esgrimido pela tropa que reverencia a supostamente infalível, atemporal e insuperável “velha matriz macroeconômica”, aquela que levou o mundo à crise financeira de 2008.

Ao sacudir o espantalho do desenvolvimentismo, os simpáticos economistas embaralham as cartas, mas não sabem jogar. Suas abstrações de má qualidade lembram as observações de Einstein a respeito da tentativa de Schroedinger de formular um modelo que teria superado a Teoria da Relatividade: “A última tentativa do professor Schroedinger deve ser julgada apenas por suas qualidades matemáticas, mas não do ponto de vista da ‘verdade’ e congruência com os fatos da experiência”.

A papagaiada sobre o desenvolvimentismo começa por atropelar os fatos da experiência, leia-se a história dos fenômenos sociais e econômicos. O “desenvolvimentismo”, enquanto projeto econômico e social nos países da periferia, é uma experiência histórica singular. Nasceu nos anos 30, no mesmo berço que produziu o keynesianismo nos países centrais. A onda desenvolvimentista e a experiência keynesiana tiveram o seu apogeu nas três décadas que sucederam o fim da Segunda Guerra Mundial. O ambiente político e social estava saturado da ideia de que era possível adotar estratégias nacionais e intencionais de crescimento, industrialização e avanço social.

Comparada a qualquer outro período do capitalismo, anterior ou posterior, a era desenvolvimentista e keynesiana apresentou desempenho muito superior em termos de taxas de crescimento do PIB, criação de empregos, aumentos dos salários reais e ampliação dos direitos sociais e econômicos.

opus magnum das concepções que se lambuzam na crítica do desenvolvimentismo inexistente foi o “desmanche” da estrutura produtiva criada ao longo das cinco décadas inauguradas nos anos 30 do século XX. Depois de liderar, até meados dos anos 70, a “perseguição” industrial entre os países ditos periféricos, com forte atração de investimento direto na manufatura, o Brasil caiu para a Série B do torneio global das economias “emergentes”.

A vitória do Plano Real sobre a hiperinflação não impediu que a execução do plano cobrasse uma conta salgada. Insufladas pelo primitivismo das “aberturas” comercial e financeira dos anos 90, a taxa Selic real média de 24% ao ano e a valorização cambial ministraram extrema-unção à indústria brasileira. A infeliz agoniza.

A desdita foi agravada pela escalada chinesa e seu “anacrônico” projeto nacional de integração à economia global. A integração chinesa à economia mundial em transformação – o sinoaberturismo – desrespeitou os cânones das novas e ridículas teorias do desenvolvimento ensinadas nas universidades americanas. Apoiados no investimento direto estrangeiro, em suas empresas estatais, em seus bancos idem e no câmbio administrado (argh!), os chineses sustentaram taxas elevadas de investimento e alcançaram em três décadas o almejado adensamento das cadeias produtivas, primordialmente articuladas no espaço intra-asiático. O feito resultou na redistribuição do valor agregado manufatureiro global para o colo do Império do Meio e de seus vizinhos. O México do Nafta e das “maquiladoras” realizava a façanha de elevar a sua participação nas exportações mundiais de manufaturas e reduzir a sua parte no valor agregado global.

Enquanto isso, o Brasil dos Malans, Francos, Paloccis e Meirelles enganava a torcida com a “abertura da economia”, apontada como critério de classificação do País para disputar a Série A do torneio global. Os “aberturistas da nova matriz” expulsaram o investimento nacional e estrangeiro da manufatura e lançaram os Canarinhos na Segunda Divisão. Conseguiram a proeza da integração que desintegra.

Na segunda metade da década dos 2000, o Brasil escapou de vexame maior – capotar para a Série C – ao se valer da dotação de recursos naturais e do dinamismo do agronegócio para crescer 4% ao ano. A situação benigna das commodities ensejou a promoção de 30 milhões de brasileiros à cidadania econômica. O clima benfazejo, no entanto, atolou a indústria no câmbio valorizado, nas tarifas caras dos insumos de uso geral (energia elétrica) e na estrutura tributária kafkiana.

O Brasil tem as condições de voltar à Série A se usar de forma inteligente as vantagens que possui e as promessas que se revelaram recentemente nas áreas de petróleo e gás. Não basta concentrar os esforços na manutenção do câmbio real competitivo ou esperar a queda dos juros. O investimento “autônomo”, diz o FMI no World Economic Outlook de abril, é importante para a formação da taxa de crescimento nas economias capitalistas contemporâneas.

Coordenado pelo Estado, o investimento em infraestrutura, por exemplo, permitiria a adoção de políticas industriais fundadas na formação de “redes de produtividade” entre as construtoras e seus fornecedores. As encomendas para os provedores nacionais devem estar submetidas, à moda dos vencedores asiáticos, a critérios de desempenho para as empresas encarregadas de dar resposta à demanda de equipamentos, peças e componentes.

No Brasil dos anos 50, 60 e 70 havia sinergia entre o investimento público, então comandado pelas empresas estatais e o setor privado. O setor produtivo estatal investia à frente da demanda corrente e, assim, funcionava como um provedor de externalidades positivas para as empresas privadas.

Os três patéticos

Por Bernardo Melo | Via Folha de S. Paulo

Aécio Neves, Gilmar Mendes e Eduardo Cunha atuam como protagonistas de uma causa falida. Mesmo assim, não perdem uma oportunidade de expor em público sua estreiteza de horizontes. São golpistas declarados. Não importa a lógica, a política, a dialética ou mesmo o senso comum. Suas biografias, já não propriamente admiráveis, dissolvem-se a jato a cada movimento realizado para derrubar um governo eleito.

Presidente do PSDB, o senador mineiro-carioca pouco se incomoda com o ridículo de suas atitudes. Aécio sempre defendeu um programa de arrocho contra os pobres. Gabou-se da coragem de adotar medidas impopulares para “consertar o Brasil”.

Agora sobe em trios elétricos como porta-voz do povo. Critica medidas de ajuste, jura pensar no Brasil e usa qualquer artimanha com uma única finalidade: isolar a presidente. Convoca sabujos para atacar um jornalista que revelou o escândalo do aeroporto construído para atender a ele e à própria família. Maiores informações na página A3 desta Folha publicada ontem (23/08).

Seu ajudante de ordens, ou vice-versa, é o ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes. Sintoma da fragilidade do equilíbrio de poderes vigente no Brasil, Mendes emite toda sorte de opiniões fora de autos. Muda de ideia conforme as conveniências. De tão tendencioso e parcial, seu comportamento público seria suficiente para impugná-lo como síndico de prédio. Na democracia à brasileira, pontifica como jurista na mais alta corte do país. Quem quiser que leve a sério.

Mendes endossou as contas da campanha da presidente eleita alguns meses atrás. Coisas do passado. Esqueçam o que ele votou. De repente, detectou problemas insanáveis na mesma contabilidade e ruge ameaçadoramente contra o que ele mesmo aprovou. No meio tempo, acusa o Planalto de comandar um sindicato de ladrões financiado por empreiteiras envolvidas na roubalheira da Petrobras.

Bem, mas as mesmas empresas financiaram a campanha dos outros partidos. O que fazer? Vale lembrar: Mendes até hoje trava o julgamento favorável à proibição do financiamento empresarial de campanhas políticas. Seu pedido de vistas escancara um escândalo jurídico, legal e moral que o STF finge não existir. Ora, isso não vem ao caso, socorreria o juiz paladino Sergio Moro.

E aí aparece Eduardo Cunha, o peemedebista dirigente da Câmara. Terceiro na linha de sucessão presidencial, Cunha encenava comandar um exército invencível. Primeiro humilhou o Planalto na eleição para o comando da Casa. Depois, passou a manobrar o regimento para aprovar o que interessa a aliados nem sempre expostos. Tentou ainda se credenciar como alternativa golpista. Curto circuito total. Pego numa mentira de pelo menos 5 milhões de dólares, a acreditar no procurador geral, Cunha atualmente circula como um zumbi rogando piedade de parlamentares muito mais interessados em salvar a própria pele.

Cambaleante, o trio parece ter recebido a pá de cal com os pronunciamentos dos verdadeiros comandantes da nossa democracia. O mais recente veio do chefe do maior banco privado do país, Roberto Setubal. Presidente do Itaú Unibanco, Setubal afirmou com todas as letras não haver motivos para tirar Dilma do cargo. Tipo ruim com ela, pior sem ela “”que o digam os lucros pornográficos auferidos pela turma financeira.

Sem a banca por trás, abandonada pelo pessoal do dinheiro grosso e encrencada em acusações lançadas contra os adversários, à troupe do impeachment não resta muito mais que baixar o pano.

Dívida pública cresce 0,78% em julho, informa Tesouro Nacional

Via CdB

A Dívida Pública Federal teve elevação de 0,78% em julho, em comparação a junho: passou de R$ 2,583 trilhões para R$ 2,603 trilhões. Os dados foram divulgados nesta segunda-feira pelo Tesouro Nacional.

No mês de julho, as emissões da Dívida Pública Federal (DPF) corresponderam a R$ 51,24 bilhões.

No mês de julho, as emissões da Dívida Pública Federal (DPF) corresponderam a R$ 51,24 bilhões, enquanto os resgates alcançaram R$ 71,06 bilhões. O resultado foi um resgate líquido de R$ 19,82 bilhões.

O endividamento do Tesouro pode ocorrer por meio da oferta de títulos públicos em leilões, pela internet (Tesouro Direto) ou pela emissão direta (com destinação específica).

O aumento da dívida do Tesouro Nacional também pode ocorrer pela assinatura de contratos de empréstimo. Nesse caso, o Tesouro toma empréstimo de uma instituição financeira ou de um banco de fomento.

A Dívida Pública Mobiliária Federal interna (DPMFi) cresceu 0,52% e passou de R$ 2,462 trilhões para R$ 2,475 trilhões. A DPMFi é a dívida pública federal em circulação no mercado nacional e é captada por meio da emissão de títulos públicos. O motivo da elevação, informou o Tesouro Nacional, foi a incorporação de juros à dívida, no valor de R$ 29,54 bilhões.

A Dívida Pública Federal Externa (DPFe) registrou, em julho, elevação de 6,14%% em comparação ao resultado do mês anterior, chegando a R$ 128,72 bilhões, equivalentes a US$ 37,93 bilhões, dos quais R$ 117,69 bilhões (US$ 34,68 bilhões) referem-se à dívida mobiliária (títulos) e R$ 11,03 bilhões (US$ 3,25 bilhões), à dívida contratual. A variação deveu-se, destacam os técnicos, principalmente à desvalorização do real ante às moedas que compõem o total da dívida externa.

DPFe é a dívida pública federal existente no mercado internacional paga em outras moedas. De acordo com o Plano Anual de Financiamento (PAF), o governo estima a Dívida Pública Federal, em 2015, entre R$ 2,45 trilhões e R$ 2,6 trilhões.