Arquivo mensais:agosto 2015

Termômetro da conjuntura política #1

Por Rennan Martins | Vila Velha, 10/08/2015

A partir de hoje o Blog dos Desenvolvimentistas publicará, toda segunda, uma análise da conjuntura política, com fatos e interpretações do cenário político nacional e/ou internacional, traçando uma perspectiva da semana que inicia.

1- Prossegue a guerra de Eduardo Cunha contra o Planalto, verdadeira cortina de fumaça que cria instabilidade para, de alguma maneira obscura, forçar a PGR a recuar da denúncia da Lava Jato. Dilma confirmou a recondução de Janot, enquanto a AGU entrou com estranha representação pela anulação das provas conseguidas com o recolhimento dos registros de requerimentos do Congresso, procedimento autorizado pelo STF. O presidente da Câmara considerou atrasada e estranha a iniciativa, acrescentando, via Twitter, que não precisa da União para fazer sua defesa.

2- A pauta da Câmara promete: Serão votados a redução da maioridade penal, o financiamento de campanhas políticas por empresas, as novas regras de correção dos depósitos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e os destaques à proposta que trata da remuneração dos advogados públicos, além da instalação da CPI dos Fundos de Pensão.

3- A correlação de forças deu uma acentuada mudança depois que a FIESP, FIRJAN, o presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco, e a Globo, cerraram fileiras pela governabilidade. Pragmaticamente, constataram que Dilma está aplicada no ajuste fiscal, o qual é prontamente sabotado no Congresso. Outro motivo de preocupação para os Marinho é o fato de Cunha ser umbilicalmente ligado aos grupos de mídia evangélicos, o que certamente se traduziria em perdas de receitas publicitárias estatais após a derrubada da presidente.

4- Os ministros próximos a Dilma e o ex-presidente Lula aventam a possibilidade de uma reforma ministerial que traria figuras de maior peso político, capazes de trazer a unidade nas votações. Ministros como Kassab, Manoel Dias e Armando Monteiro estão na mira por não conseguir, nem mesmo tentar, fazer com que seus correligionários sejam fiéis ao governo. Dilma resiste a ideia.

5- PLS 131. A última sessão que discute o projeto de Serra que revoga a condição de operadora única da Petrobras no pré-sal terminou num impasse pois os senadores discordavam que o senador entreguista e capixaba, Ricardo Ferraço (PMDB-ES), fosse o relator. Senadores peemedebistas reclamam de ter que aderir a defesa da partilha enquanto o líder do governo Delcídio Amaral (PT-MS) trabalha pela aprovação do projeto. Este fato reforça a suspeita de que o Planalto trabalha pela mudança do regime, o que pode ter sido acertado com Obama na viagem aos EUA e eventualmente auxiliar o governo a cumprir superavit.

6- Vendine. O conselho de administração da Petrobras aprovou o projeto de abertura do capital da BR Distribuidora, subsidiária altamente lucrativa da estatal, os petroleiros prometem resistir e se veem obrigados a batalhar em duas frentes, tanto contra Serra quanto contra o presidente da companhia. O resultado operacional da Petrobras foi extraordinário, como informou o companheiro Paulo César Ribeiro Lima, mas alijado por conta de adiantamentos de tributos para auxiliar o governo na meta fiscal. Interpreto esse abatimento nos resultados como necessário também para reforçar a impressão de que a companhia precisa dos desinvestimentos e do plano de negócios recentemente aprovado, que orienta a estatal para uma posição mercadista e de mera exportadora de óleo.

Um governo à beira do abismo

Geniberto Paiva Campos | Brasília, agosto de 2015

As forças subterrâneas, que Vargas denunciou em sua carta-testamento, mais uma vez prevalecerão?

“essa joça pode ir pro  brejo” – ( George W. Bush, setembro, 2008, em conversa com auxiliares)

1. Essa frase profética do ex-presidente Bush foi anunciada aos seus assessores, a propósito da crise do Capitalismo que então se iniciava e a qual se desdobra até o presente. Certamente poderia ser aplicada a outras circunstâncias históricas.

A dúvida que se coloca nos dias que correm, substrato do embate político atual, é sobre quem vai pagar a conta de mais uma crise cíclica, previsível, do Sistema Capitalista. Afinal, nenhum país deseja passar pela amarga experiência da Grécia neste início de século.

Por motivos a serem ainda analisados da forma mais isenta e correta possível, o Brasil, sob o comando de governos assumidamente progressistas, vinha conseguindo atravessar, aparentemente incólume, a crise. Uma “marolinha” e não o tsunami previsto, como falou o ex-presidente Lula (2003/2010), de forma provocativa e desafiadora. Talvez confiando nas políticas de distribuição de renda e consequente criação de um novo e surpreendente mercado consumidor interno. Entre outras medidas chamadas anticíclicas colocadas em prática com êxito, maior ou menor, pelos economistas do Governo. Por exemplo a redução dos juros bancários. Que deixou a elite brasileira furibunda. Inconsolável.

É fato que alguns imaginavam: “ – governos de Esquerda não têm competência econômica e política para enfrentar crise de tal magnitude”. Não foi, entretanto, o que aconteceu. A eleição da presidente Dilma Roussef em 2010, apoiada pelo ex-presidente Lula, e sua reeleição subsequente em 2014, mostrou que os eleitores brasileiros estavam satisfeitos e queriam a continuidade dos “governos de esquerda”. O qual vinha conseguindo conter, com êxito, e muita tranquilidade, o tsunami da crise do Capitalismo.

2. Após a quarta derrota eleitoral consecutiva nas eleições presidenciais, a Oposição mudou as estratégias políticas até então adotadas. Em contrapartida, nas eleições legislativas, as forças oposicionistas conseguiram eleger um Congresso Nacional bastante descaracterizado politicamente. E o mais grave, obedecendo a um comando único, visceralmente anti-governista, votando em bloco. Disposto a tumultuar o jogo político. Com o indisfarçado objetivo de criar sérias dificuldades para o Governo condução dos seus projetos.

E a responsabilidade quanto ao pagamento da conta da crise capitalista, provocada pela sede insaciável de lucro e acumulação do  Sistema, está sendo gradativamente transferida para os pobres, ou seja, ao andar de baixo do estrato socioeconômico.

Enfim, a Oposição percebeu que, para ganhar eleições, não era suficiente demonizar e criminalizar o Partido dos Trabalhadores. Colocar as suas lideranças na prisão. Condenar sem provas: pelo “domínio do fato”. E, na falta de evidências claras, incontestes, condenar baseada na “literatura jurídica”.  Tudo isso em um processo criminal. O julgamento popular, expresso periodicamente nas urnas foi sendo substituído pela formação de uma opinião pública movida pelo ódio e pelo preconceito habilmente semeados por um “jornalismo” totalmente desprovido de escrúpulos. Uma classe média apoiadora da Elite, que bate panelas  e vai às ruas exibir, sem nenhum pudor, palavras de ordem outrora apenas  um sussurro, ou um pensamento fugaz,  nos seus jantares elegantes. Uma Imprensa que entende como legítimo – repetindo os padrões éticos de segmentos do Judiciário – acusar sem provas, forjar delações e  fraudar provas materiais, desde que direcionadas a um determinado grupo político. Tudo isso é aceito, naturalizado, sem que haja quase nenhum protesto. E mais recentemente, o país chegou à fase das prisões políticas. Também aceitas com naturalidade e com o silêncio (cúmplice?) de instituições, que por dever de ofício, deveriam zelar pelas normas legais e constitucionais, quando não, pelos Direitos Humanos e pela Justiça.

3. Tornou-se, então, uma obsolescência, um exercício de inutilidade, falar no golpe que vai acontecer. O Golpe está acontecendo em toda sua liturgia. Em todas as etapas previsíveis de um Golpe de Estado. Agora no novo modelo recomendado para a América Latina.

Há uma lógica perversa nesse incurável viés autoritário, antidemocrático, que está no DNA latino-americano.

O atual governo, legitimamente eleito pelo voto popular, foi desidratado, emparedado e, finalmente, colocado à beira do abismo. Resta saber como será o ato final:

- se vai usar o elevador da renúncia, para uma descida, até certo ponto, tranquila;

- se desce ao abismo pela escada íngreme da diminuição de poderes, numa espécie de parlamentarismo de fato, ou o “impeachment” suave;

- ou será empurrado para o fundo do precipício, bem mais ao gosto e ao estilo sul americano.

O JOGO ESTÁ FEITO. FAÇAM SUAS APOSTAS.

Cunha pauta temas polêmicos para tirar atenção da denúncia de propina que teria recebido

Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Redução da maioridade penal e correção do FGTS são prioridades da Câmara

Por Iolando Lourenço | Via Agência Brasil

A segunda semana de trabalhos da Câmara neste semestre não será menos movimentada do que a primeira. A pauta de votações prevê a apreciação de temas considerados polêmicos, como a redução da maioridade penal, o financiamento de campanhas políticas por empresas, as novas regras de correção dos depósitos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e os destaques à proposta que trata da remuneração dos advogados públicos, além da instalação da CPI dos Fundos de Pensão.

Para terça-feira (11), está prevista na sessão ordinária a votação do projeto do Executivo que altera a lei que trata das organizações criminosas (12.850) para dispor sobre organizações terroristas. O parecer, já apresentado pelo relator, deputado Arthur Oliveira Maia (SD-BA), e discutido pelos deputados disciplina ações de terrorismo, condutas congêneres e reformula o conceito de organização criminosa. A proposta estabelece penas que variam de 20 a 30 anos de reclusão, além de outras sanções para os atos de terrorismo. O texto também determina penas diferentes para delitos de menor grau.

Ainda na sessão ordinária de terça-feira, os deputados deverão apreciar projeto de lei que autoriza o Executivo a criar a Região Integrada de Desenvolvimento do Distrito Federal e Entorno (Ride) e instituir o Programa Especial de Desenvolvimento do Entorno do DF.  Em seguida, será iniciada a discussão e votação do projeto de lei que estabelece que a remuneração dos depósitos feitos nas contas vinculadas (FGTS) não poderá ser inferior à inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC). Mais cinco projetos constam da pauta de votações da semana.

Na pauta das sessões extraordinárias de terça e quarta-feira (12), estão previstas as votações de propostas de emendas à Constituição (PECs) que tratam de assuntos polêmicos. A primeira votação será de um único destaque apresentado à PEC da reforma política. Para ser aprovado em segundo turno, o dispositivo que estabelece na Constituição que o financiamento das campanhas políticas poderá ser feito por pessoas físicas e jurídicas, precisará de 308 votos favoráveis. As pessoas jurídicas só podem doar para os partidos políticos.

Concluída a votação da reforma política, que deverá ser encaminhada à apreciação do Senado, os deputados iniciarão a discussão e votação, em segundo turno, da PEC 171/93, que reduz a maioridade penal dos atuais 18 anos para 16 anos. Se for concluída essa votação, a PEC da maioridade penal será enviada ao Senado para discussão e votação também em dois turnos. Outra PEC que deverá ter a votação concluída nesta semana é a que fixa parâmetros para a remuneração dos advogados públicos. O texto principal da proposta foi aprovado na semana passada e ficou para esta semana a votação de dois destaques que visam a alterar o texto.

Está marcada para as 11h desta terça-feira reunião da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) destinada a investigar os crimes cibernéticos. Na reunião, serão eleitos o presidente e os vices e indicado o relator dos trabalhos. Com o encerramento dos trabalhos da CPI do Sistema Carcerário na semana passada, o presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), criou a CPI para investigar os fundos de pensão. Ele deu prazo até as 20h de amanhã para que os partidos indiquem os integrantes na comissão. A instalação e a eleição da Mesa Diretora da comissão estão marcadas para a tarde de quarta-feira (12).

Indústria armamentista investe forte no lobby sobre o Congresso Nacional

Por Fábio Góis | Via Congresso em Foco

Do total repassado, R$ 1,019 milhão seguiu para candidatos a uma vaga na Câmara nas últimas eleições. Deputados favoráveis à revisão do Estatuto do Desarmamento estão a serviço de empresas que monopolizam mercado armamentista, diz Instituto Sou da Paz.

Bancada da bala domina discussões sobre Estatuto do Desarmamento. EBC/Brianbgv/Flickr

Dados atualizados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) revelam que as doações da indústria armamentista nas eleições gerais de 2014 chegaram a R$ 1,91 milhão, com valores distribuídos a 21 candidatos ao cargo de deputado federal (veja tabela abaixo), 12 ao cargo de deputado estadual, dois pleiteantes ao posto de governador e um aspirante a senador. Todos os candidatos à Câmara financiados pelo setor foram eleitos ou ao menos conseguiram vaga de suplente (quatro ocorrências, nesse caso). As informações constam de levantamento do Instituto Sou da Paz, organização não governamental (ONG) de combate à violência, e foram repassadas com exclusividade ao Congresso em Foco.

Quem mais recebeu doações do setor foi o deputado estadual paranaense Pedro Deboni Lupion Mello (DEM), que foi contemplado com R$ 149,8 mil das duas empresas (R$ 74,9 mil de cada). O segundo maior beneficiário foi o deputado federal Arnaldo Faria de Sá (PTB-SP), que ficou com R$ 130 mil, mas apenas da CBC. Declaradamente favorável à flexibilização do Estatuto do Desarmamento (Lei nº 10.826/2003), Faria de Sá compõe uma comissão instalada na Câmara justamente para apreciar o Projeto de Lei 3722/2012, que promove mudanças na legislação citada.

O parlamentar é um dos que foram financiados pela indústria da bala com o intuito de promover a elaboração e a aprovação de proposições que interessam ao setor, como o próprio PL 3722 – em resumo, o texto permite a posse de armas em casa, no local de trabalho (se for dono do estabelecimento) ou em propriedades rurais, aumentando o número de armas e munições por cidadão. Entre os pontos polêmicos da proposta está o que garante ao cidadão, sob certas condições, o direito de adquirir e portar na rua até nove armas de fogo. O texto também aumenta o número de munição para portadores de armamento: de 50 balas por ano para 50 balas por mês.

As campanhas foram custeadas por apenas duas das maiores empresas de armas e munições do país: a Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC) e a Forjas Taurus S.A., que detêm o monopólio do setor. Segundo o levantamento do Sou da Paz, apenas a CBC repassou R$ 1,04 milhão, enquanto a Taurus desembolsou R$ 870 mil no pleito de 2014. Do valor total repassado, R$ 1,019 milhão foi reservado a candidatos a uma cadeira na Câmara.

No ano passado, 84% dos deputados federais e estaduais financiados pela chamada “indústria da bala” foram eleitos. Dos 36 pleiteantes a cargo eletivo, apenas três não conseguiram se eleger: o ex-deputado Vieira da Cunha (PDT), que disputou a vaga de governador do Rio Grande do Sul; Paulo Skaf (PMDB), que tentou o mesmo cargo em São Paulo; e Moreira Mendes (PSD), que disputa uma vaga no Senado. Eles receberam, respectivamente, R$ 40 mil, R$ 100 mil e R$ 50 mil.

Bancada da bala

O repasse de cifras milionárias a candidatos a cargos eletivos não é mera questão de filantropia ou afinidade ideológica entre empresas e políticos. Por trás da ajuda financeira, como atestam os mais recentes movimentos da chamada “bancada da bala”, que reúne os parlamentares – financiados ou não pelo setor – simpáticos à ideia de armar a população. E a ação é recorrente e sistemática: dos 21 postulantes financiados em 2014, dez já haviam recebido doações do setor nas eleições de 2010.

Além de figuras como o próprio Arnaldo Faria de Sá, estão nessa lista de beneficiários costumeiros nomes como Onyx Lorenzoni (DEM-RS), com R$ 100 mil em doações (R$ 50 mil de cada empresa); Alberto Fraga (DEM-DF), com R$ 80 mil da Taurus; e Pompeo de Mattos (PDT-RS), que recebeu R$ 70 mil ao todo (R$ 50 mil da CBC e R$ 20 da Taurus). Não por coincidência, todos eles compõem a comissão que discute a revisão do Estatuto do Desarmamento.

O investimento traz frutos. Desde o início desta legislatura (2015-2018), intensificaram-se os trabalhos da comissão especial do PL 3722, de autoria do deputado Rogério Peninha Mendonça (PMDB-SC). O colegiado já realizou diversos debates e audiências públicas desde sua instalação. O mais recente ato da comissão foi formalizado na última quinta-feira (6), quando o deputado João Rodrigues (PSD-SC) apresentou requerimento para realização de mesa redonda, na Assembleia Legislativa de São Paulo, para discutir o projeto “com diferentes setores da sociedade”. Em tempos de discussão sobre a maioridade penal e os crescentes índices de criminalidade no país, deputados favoráveis ao projeto têm conseguido impor a pauta do colegiado.

As empresas armamentistas emplacaram oito “representantes” da comissão especial. Um deles está estrategicamente acomodado no posto de presidente do colegiado, o deputado Marcos Montes (PSD-MG), a quem cabe definir pauta e ritmo dos trabalhos. O instituto lembra que um dos membros da comissão, Alberto Fraga, recebeu os recursos da Taurus por meio do comitê de campanha do DEM, o que dificulta a identificação desse registro.

Fraga é um dos mais assíduos e atuantes no colegiado. “Não surpreende que seja dele o requerimento para ouvir o representante da indústria de armas e munições, uma forma clara de devolver o apoio que recebeu para se eleger”, observa o diretor-executivo do Sou da Paz, Ivan Marques, lembrando que o deputado já protocolou três propostas, apenas em 2015, “para ampliar o mercado de armas”.

Na linha de Fraga atua o presidente da comissão, Marcos Montes. Contemplado com R$ 40 mil para sua campanha em 2010 e R$ 30 mil para o pleito do ano passado, o parlamentar mineiro é autor de três projetos de lei que beneficiam a indústria de armas e munições: o PL 633/2015, que autoriza porte de arma a fiscais do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) e dos órgãos do trabalho; o PL 805/2015, que concede o porte a agentes socioeducativos; e o PL 1102/2015, que estende a prerrogativa a deputados federais e senadores.

Estratégia

Como lembra o Sou da Paz, a indústria da bala visa ampliar seu leque de possibilidades ao investir no máximo de partidos e localidades possíveis. Em 2014, 13 legendas distribuídas em 15 estados receberam doações para as respectivas campanhas. PMDB e DEM, informa o instituto, concentram 54% do volume de verbas destinados às siglas. Candidatos e partidos de São Paulo e do Rio Grande do Sul, estados que abrigam as principais fábricas de armas, receberam 50% das doações.

“Este tema ganha especial relevância quando o projeto de reforma política em discussão no Congresso Federal, em sua versão atual, já aprovada pela Câmara dos Deputados, prevê a doação de empresas unicamente aos partidos, o que dificultará ainda mais a identificação dos parlamentares cujas campanhas foram financiadas por indústrias e interesses específicos”, diz Marques, acrescentando que o retorno dado às empresas pelos parlamentares financiados é rápido.

Na justificativa de seu projeto, Rogério Peninha critica a tramitação do atual estatuto. “A par do grande impacto que causaria na sociedade brasileira, o Estatuto do Desarmamento ingressou no mundo jurídico sem a necessária discussão técnica sobre seus efeitos ou, tampouco, sua eficácia prática para a finalidade a que se destinava: a redução da violência. Fruto de discussão tênue e restrita ao próprio Congresso, sua promulgação ocorreu bem ao final da legislatura de 2003, ou, como identifica o jargão popular, no ‘apagar das luzes’”, diz o deputado.

Renitência

O Instituto Sou da Paz lembra que já havia realizado uma primeira versão do levantamento em novembro passado, após prestação final de contas dos candidatos junto ao TSE. Segundo a entidade, a atualização foi necessária porque, mesmo ao fim de cinco meses após as eleições, atualizações referentes ao acompanhamento de doações ainda estavam em curso no portal da corte eleitoral.

Como este site mostrou em novembro de 2014, com base nos levantamentos do instituto, mais de 70% dos candidatos que receberam legalmente doações de campanha da indústria da bala se elegeram em outubro. Dos 30 nomes beneficiados pelo setor, 21 saíram vitoriosos das urnas: 14 deputados federais e sete deputados estaduais. Na ocasião, com o trabalho de aferição das doações ainda inconcluso, a reportagem mostrou que os fabricantes de armas e munições destinaram R$ 1,73 milhão para políticos de 12 partidos em 15 estados.

Confira a tabela geral sobre o financiamento da indústria de armas em 2014:

Candidato Cargo disputado Partido UF Recebeu em 2010? Valor (R$) Eleito?
Alberto Fraga deputado federal DEM DF SIM 80 mil SIM
Alceu Moreira deputado federal PMDB RS SIM 20 mil SIM
Arnaldo Faria de Sá deputado federal PTB SP NÂO 130 mil SIM
Arthur Maia deputado federal SD BA NÃO 69,9 mil SIM
Anderson Benevides suplente PSC SP NÃO 30 mil suplente
Daniel Vilela deputado federal PMDB GO NÃO 70 mil SIM
Édio Lopes deputado federal PMDB RR NÃO 30 mil SIM
Fábio de Almeida deputado federal PMDB SE NÃO 30 mil NÃO
Ronaldo Benedet deputado federal PMDB SC SIM 20 mil SIM
Efraim Morais deputado federal DEM PB NÃO 50 mil SIM
Onyx Lorenzoni deputado federal DEM RS SIM 100 mil SIM
Ênio Bacci deputado federal PDT RS SIM 20 mil SIM
Guilherme Campos deputado federal PSD SP SIM 50 mil NÃO
Marcelo Borges suplente PT RJ NÃO 20 mil suplente
Marcos Montes deputado federal PSD MG SIM 30 mil SIM
Misael Varella deputado federal DEM MG NÂO 30 mil SIM
Moreira Mendes senador PSD RO SIM 50 mil NÃO
Carlos Zarattini deputado federal PT SP SIM 30 mil SIM
Nelson Marchezan deputado federal PSDB RS SIM 30 mil SIM
Gonzaga Patriota deputado federal PSB PE SIM 30 mil SIM
Pompeo de Mattos deputado federal PDT RS SIM 70 mil SIM
Wilson Santiago deputado federal PTB PB NÃO 30 mil SIM
Sandro Avelar suplente PMMDB DF NÃO 20 mil suplente
Jerônimo Goergen deputado federal PP RS SIM 30 mil SIM

Marinha rebate matéria enviesada do Estadão sobre o PROSUB

Via Revista Operacional

Em relação às matérias do jornalista Fábio Fabrini publicadas em 8 de agosto, último, na página A8 da edição impressa do jornal “Estado de São Paulo”(clique aqui e veja a matéria), a Marinha do Brasil, além de reiterar que o TCU acompanha a execução do PROSUB, desde 2009, a pedido da própria Marinha, presta as seguintes informações adicionais:

A solicitação de esclarecimentos sobre um possível “excedente de preço” de que trata a matéria refere-se a um acórdão do Tribunal de Contas da União (TCU) datado de 8 de outubro de 2014, sobre o qual a Marinha submeteu suas considerações, em análise por aquele Tribunal. O artigo “TCU aponta sobrepreço em base naval” dá a entender, desde seu título, que o assunto é atual, fruto de supostas investigações em curso da qual a Marinha do Brasil não tenha conhecimento.

Além disso, conforme consta do referido Acórdão, o que está sendo tratado são indícios de possível “excedente de preço”, conforme já havia sido informado anteriormente. Cabe destacar que a inspeção do TCU, a qual deu origem ao Acórdão, foi realizada durante período de duas semanas, nos meses de março e abril de 2014, com acesso a todo o processo Contrato/Termo Aditivo, recebendo toda a documentação solicitada, sem nenhuma restrição.

Para assegurar a acurácia do controle de custos, a MB conta com o Instituto Brasileiro de Custo (IBEC) que auxilia na verificação dos critérios de medição e dos respectivos custos e com a Fundação Getúlio Vargas (FGV), que apoia na verificação da quantidade e da qualidade dos serviços medidos na obra.

Ao contrário do que faz parecer na mesma matéria, o PROSUB não tinha o Vice-Almirante (Reformado) Othon Luiz Pinheiro da Silva como uma “espécie de supervisor”, estando o mesmo na reserva desde 1994. Destaca-se que o gerenciamento desse projeto naval de grande envergadura cabe à própria Marinha do Brasil.

Ressalta-se que muitas das informações apresentadas pela Marinha do Brasil em resposta ao jornalista, em 6 de agosto último, não foram utilizadas em sua íntegra, nem no jornal impresso, nem na matéria do sítio eletrônico divulgada pela Agência Estado em 7 de agosto, último e replicada por diversos órgãos da mídia, o que pode ter prejudicado a compreensão dos fatos pelos leitores. Portanto, reenviamos, abaixo, as respostas encaminhadas ao jornalista Fábio Fabrini, em 6 de agosto, último.

Com face nesta declaração o CCSM, por via de seu Diretor, responde a algumas perguntas pertinentes neste momento:

1) “O Tribunal de Contas da União (TCU) detectou sobrepreço de R$ 406 milhões nas obras. O que a Marinha, que está apresentando suas alegações em processo em curso na corte, tem a dizer a respeito?”

A Marinha do Brasil (MB) tem cumprido todas as orientações do TCU, que acompanha a execução do Programa de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB) desde o início de 2009, por meio da realização de diversas auditorias.

O TCU, em acórdão datado de 8 de outubro de 2014, encaminhou demanda à MB, para que, por meio de oitiva, apresentasse o posicionamento em relação a um “possível excedente de preço” na execução das obras civis do programa. As informações solicitadas já foram submetidas e encontram-se em análise por aquele Tribunal, cumprindo-se a recomendação de se manter a salvaguarda das informações constantes do processo.

2) “Qual é o orçamento da obra?”

Esta pergunta está respondida na resposta 6.

3) “Quanto já foi pago, no total, e em especial à Construtora Norberto Odebrecht (CNO)?”

Em preços atuais, R$ 6.145.520.268,46.

4) “Qual foi a modalidade de contratação da CNO (dispensa de licitação, inexigibilidade de licitação) e a justificativa para a contratação nessa modalidade? Por que, afinal, não houve nenhum tipo de concorrência?”

Não houve processo licitatório, tendo em vista as características de sigilo de que, necessariamente, reveste-se a obra: tratam-se de plantas de instalações nucleares militares, envolvendo características que não podem ser objeto de divulgação pública. Em que pesem esses fatos, a lei no 8.666/93 foi cumprida, mediante termo de dispensa de licitação aprovado pela Advocacia Geral da União. O TCU acompanha todo o desenvolvimento do PROSUB desde o primeiro momento, a pedido da Marinha do Brasil.

5) “Por quais motivos a Odebrecht foi escolhida, e não outra empresa?”

A escolha da ODEBRECHT não coube à Marinha. Como as obras civis de construção do estaleiro e da base seriam realizadas no Brasil, somente uma empresa nacional poderia fazê-lo. Daí resultou a necessidade de a Direction dês Construtions Navales et Services Societé Anonyme (DCNS) se associar a uma empresa brasileira de grande porte que pudesse fazê-lo.

A seleção da Odebrecht como parceira na empreitada foi de livre escolha da DCNS, que, para tanto, empregou critérios próprios. Evidentemente, pesou nessa decisão o fato de a Odebrecht, nos anos 1980, ter construído a Base Naval de Mocanguê e ter participado, ainda, da construção das usinas nucleares de Angra dos Reis, além de ser reconhecida internacionalmente como capaz de executar obras civis e atividades industriais complexas.

6) “Houve um aditivo contratual que elevou o valor da obra em cifra bilionária. Qual foi a justificativa para esse aditivo e qual foi o valor exato dele?” 7) “Quem aprovou o aditivo?”

Dentre as cláusulas do contrato inicial, pode ser verificado que o preço do estaleiro e da base naval era estimado, bem como a razão para esse fato, como parte do Contrato Principal podemos citar algumas transcrições: “Preço Básico da Unidade de Fabricação de Estruturas Metálicas (UFEM) e Estaleiros e Base Naval. (EBN).

Tendo em vista a natureza especialíssima e a complexidade inerente ao objeto, e ainda, considerando que a elaboração do Projeto Básico e do Projeto Executivo do Estaleiro Naval e da Base Naval dependem da consecução de certas obrigações das Partes, não é possível fixar, neste momento, o Preço Básico para a Construção e instalação do Estaleiro Naval, que somente poderá ser fixado após a elaboração do Projeto Básico e do Projeto Executivo do Estaleiro Naval e da Base Naval [...]”, “[...] O preço estimado, referido à descrição preliminar do Estaleiro Naval e da Base Naval (Anexo D ao Contrato Principal), é de R$ 4.997,998.215,00”.

Esse contrato para a construção do estaleiro e da base foi celebrado com preço estimado com base em 2008 e previsão de atualização monetária.
À época não havia como considerar o redimensionamento necessário para atender os impactos dos requisitos para área nuclear que sofreu alteração significativa no projeto inicial, com reposicionamento da “ilha nuclear”, por exigência de segurança nuclear e da transferência de Tecnologia.

Em razão do processo de transferência de tecnologia francesa não havia, também, na época todas as informações necessárias à elaboração de um projeto básico capaz de fornecer os elementos para formação do preço certo e ajustado, conforme aceito pelo TCU, com base em sua jurisprudência (Acórdão 479/2007 TCU Plenário).

Quanto ao valor não houve um termo aditivo de acréscimo, mas sim termos aditivos quanto à implementação das fases com seus projetos básicos, aprovados pela AGU. Em função desses aditivos, o custo do estaleiro e da base naval foi atualizado de R$ 4.997,998.215,00 para R$ 7.880.000,00, a preços de 2008.

7) “Qual foi a participação do almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva na concepção e na execução da obra e do Prosub?”

Não houve a participação do Almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva no processo de tomada de decisão da Marinha. Da mesma forma, o gerenciamento dos projetos navais, caso do PROSUB, é da inteira responsabilidade das autoridades navais às quais esses programas estejam afetos.

Em determinada ocasião, o Almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva encaminhou à Marinha algumas sugestões relativas à estrutura de governança que, no seu entender, deveriam ser adotadas, mas a Marinha, então, já atendia a recomendações do TCU, para o aperfeiçoamento daquela estrutura.

8) “Qual foi a participação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na concepção e na execução da obra e do Prosub?”

O PROSUB é o resultado da decisão do Brasil em projetar e construir um Submarino com Propulsão Nuclear, pautada em diretriz estabelecida na Estratégia Nacional de Defesa (END), assinada, em 18 de dezembro de 2008, pelo Presidente Luiz Inácio Lula da Silva. As tratativas do PROSUB foram efetuadas durante o governo do Presidente Lula. Em 23 de dezembro de 2008, foram assinados pelos Presidentes do Brasil e da França documentos de alto nível, estabelecendo uma parceria estratégica entre os dois países.

Atenciosamente,

FLÁVIO AUGUSTO VIANA ROCHA Contra-Almirante

Diretor do Centro de Comunicação Social da Marinha

Grandes criminalistas confirmam previsão do Blog sobre a Lava Jato

Por Rennan Martins | Vila Velha, 10/08/2015

Quem vigia os vigilantes?

No último dia 24, o Blog dos Desenvolvimentistas publicou artigo intitulado O arbítrio da Lava Jato reforça seus objetivos políticos, no qual levanta uma série de vícios e arbitrariedades praticadas pela força tarefa da Polícia Federal e procuradores do Ministério Público Federal, os quais até rendem audiência e aplausos por parte do público leigo, mas que podem, justamente por desrespeitar garantias básicas do Estado de Direito, resultarem no anulamento da operação. No texto, lemos que:

“Somente descrever o enviesamento e violações, no entanto, não é o suficiente para crer que os agentes investigadores do esquema tem objetivos políticos. O que, então, faz essa hipótese ser suficientemente plausível? O simples fato de que o desrespeito ao devido processo e direitos podem culminar na anulação de provas importantes, ou até mesmo de toda a operação. Mas, até lá, os efeitos políticos dos vazamentos terão sido atingidos.”

Eis que, passados alguns dias, a grande imprensa abordou o tema, convidando advogados de peso para comentar o instituto da delação premiada e a forma com que ela está sendo aplicada pela Lava Jato. O criminalista Antônio Carlos de Almeida Castro, conhecido como Kakay e representante de alguns dos acusados no caso, sustenta que:

“A forma com que esses acordos estão sendo usados, em que há uma séria pressão para as pessoas fazerem a delação, além de usá-las como provas produzidas independentemente de qualquer investigação, levará fatalmente à anulação da maioria das delações.”

As prisões preventivas são usadas pelos procuradores de forma a coagir o suspeito a delatar. Outro desrespeito grosseiro ao devido processo legal é quando prende-se sem culpa formada ou flagrante, com base em ilações, demandando em seguida provas de inocência. Ora, os cidadãos que vivem sob uma democracia não necessitam provar inocência, a justiça que deve provar culpa, o ônus da prova sempre recai sobre o acusador, e inverter este princípio é abrir margem para o autoritarismo.

Corrobora com essa visão o procurador-geral da Ordem dos Advogados do Brasil e advogado criminalista, Pedro Paulo Medeiros, sem clientes no caso. Taxativo, Medeiros alega:

“O jeito que está sendo feito é a própria tortura. Uma tortura moderna. Na época da inquisição e do regime militar, eles faziam exatamente isso. Pegavam um cara, prendiam e ele só saia depois que falasse o que queriam ouvir.”

Ficam as análises e a reflexão sobre os caminhos do judiciário brasileiro. Seria também corrupto o acusador que prende o suspeito até que ele diga algo o qual já se espera? A sociedade deseja, de fato, abrir mão da presunção de inocência e estar sujeita a esse tipo de prisão? Que garantias teremos de que nossos homens da lei se manterão íntegros com tanto poder?

O desenvolvimento não é um caso de polícia

Por Saul Leblon | Via Carta Maior

A suposição de que existe um ‘mercado puro’ ignora a realidade dos cartéis e oligopólios coordenados pela voragem da dinâmica financeira mundial.

Deltan Dallagnol.

Em sua cruzada contra a corrupção, o juiz Moro anunciou que ademais do setor petrolífero, ilícitos detectados na área elétrica passarão também a ser de sua conta.

Em breve, o mesmo fio condutor poderá leva-lo a práticas e protagonismos semelhantes ramificados em um outro setor, depois em outro e outro, até roçar a área financeira.

Desse mirante privilegado do dinheiro, poderá vislumbrar um amplo hortizonte de malfeitos encadeados agora na esfera global.

Incansável, a esquadra do Paraná navegará seu fervor missioneiro por entre acordos e associações cada vez mais complexos, emaranhados e cartelizados, que poderá avocar igualmente como de sua intrínseca alçada…

Em algum momento desse périplo, o juiz Moro poderá invadir a seara da Alta Corte inglesa, onde o juiz Cooke, calçado em investigações do Serviço de Fraudes Sérias, acaba de condenar o primeiro réu do escândalo da Libor.

Tom Hayes, o sentenciado, criou um cartel para fixar a taxa de juro de referência na correção de trilhões de dólares em ativos no mundo.

Hayes manipulou dados para coloca-la a serviço dos lucros de seu banco, o UBS.

Fez isso em conluio com outros bancos e operadores em diferentes praças do mundo.

No merito e no metodo, nada muito diferente do que armaram os empreiteiros da Petrobrás; ou os executivos da Siemens, Alstom e assemelhados no metrô de São Paulo; ou o que fazem, e sempre fizeram, bancos e endinheirados nativos, parte deles flagrados no escândalo do HSBC, que ungiu a plutocracia brasileira no topo do ranking mundial de lavagens e sonegação…

Colosso.

Com todo esse caminho pela frente, o meritíssimo de Curitiba corre o risco sério de repetir na esfera jurídica o mapa inútil de Borges: aquele que se auto anula ao adquirir, finalmente, a escala da realidade.

A escala do capitalismo em nosso tempo é composta da grande geografia dos carteis e oligopólios amalgamados e coordenados pela voragem da dinâmica financeira.

Hoje eles abarcam da produção de cerveja a de sucrilhos, passando pela de lâmpadas, aviões, navios, plataformas de petróleo, vagões de metrô, tarifas de bancos, spreads (especialidade do sindicato dos bancos brasileiros, a Febraban) e taxas de juros, como mostra o escândalo da vetusta praça de Londres.

Estudos do economista francês, François Morin indicam que um núcleo formado por 28 megabancos globais funciona como uma espécie de fígado do aparelho circulatória da finança no seculo XXI: todo o sistema passa por eles de alguma forma.

O cartel de bancos que manipulou a Libor durante anos, com implicações na estrutura de custos global, evidencia o quanto o mito da livre iniciativa tem de propaganda enganosa (Leia o especial de Carta Maior)

Essa constatação não deve ser confundida com um endosso à corrupção como se fosse uma fatalidade.

O que a cartografia capitalista do século XXI argui, porém, é a centralidade no método, nas referências e consequências de bisonhos exércitos de brancaleones que se propõem a faxinar o capitalismo, como se o desafio estrutural do desenvolvimento no século XXI fosse um caso de polícia.

Não é.

Há mais coisas entre o céu e a terra do que a vã filosofia da república de Curitiba consegue enxergar.

No rastro dos depuradores do captalismo, alguns dotados de indisfarçável escovão ideológico, pavimenta-se frequentemente o oposto: o fortalecimento de lógicas, estruturas e interesses que convalidam justamente o que se afirma combater.

Tudo bem se isso fosse um probema de juizes megalomaniacos e de promotores que se consideram nomeados por Deus.

Porém é mais que uma ópera bufa de salvadores da pátria.

É uma tragédia que a encruzilhada do desenvolvimento brasileiro nesse momento seja escrutinada por critérios tão bisonhos, incensados por uma mídia mediocridade ímpar, empenhada acima de tudo em agilizar o abate do ‘Cecil’ que desde 2002 estorva as suas preferências eletivas na savana local.

A suposição de que existe um mercado puro –como o Deus com quem o procurador Dallagnol se comunica– enfrenta colisões apreciáveis com a realidade do capitalismo em nosso tempo.

Não é só a Libor ou a Petrobras.

Vivemos um tempo em que a supremacia dos oligopólios e a deriva da sociedade e do seu desenvolvimento não são realidades antagônicas.

Antes, exprimem uma racionalidade do capitalismo impossível de se combater sem uma intervenção política que credencie o Estado para isso.

Eis o drama da Lava Jato.

Seu afã conduz justamente ao avesso do que pregam, executam e propagandeiam os interesses embarcados na sulforosa cruzada de Moro e seus procuradores.

No capitalismo do nosso tempo, o cartel planeja a sociedade.

Quem não se lembra do exemplo pedagógico flagrado no esquecido escândalo do metrô de SP?

Protagonista da engrenagem que há 20 anos ‘adequa’ as licitações do sistema, a multinacional francesa Alstom, avocou-se em 2005 a prerrogativa de alterar o traçado de uma linha e incluir uma nova estação no trajeto.

A notícia, embora tenha merecido editorial da Folha, não motivou o colunismo da indignação seletiva a denunciar o desembaraço nas relações entre cartel e governo tucano.

Aos poucos o assunto morreu, com investigações circunscritas a escalões inferiores.

Mas o caso deixa marcadores sugestivos.

Eles evidenciam o quão profunda pode ser a ingerência do interesse privado na esfera pública, quando esta jaz imobilizada por um torniquete feito de Estado fraco, incapacidade de planejamento público e crispação da ganância privada expressa na fusão entre política e mercado.

Ademais de alterar trajetos e estações, a múlti francesa, em conluio com outros forncedores, reduziu o mobiliário do conjunto, sem desconto correspondente no preço do contrato, o que sugere um saldo capaz de lubrificar o bom entendimento entre bolsos corporativos, partidários e individuais.

Lembra a dinâmica investigada na Lava Jato?

Estamos diante de algo maior, portanto.

Maior que a particularidade da corrupção real e intrínseca às relações entre metrô de São Paulo, Alstons & Siemens, ou da Petrobras, Odebrechts & Camargos e casos equivalentes urbi et orbi.

Aos ingênuos e espertos, que embarcam o ‘gigantismo estatal’ na lista dos demônios a serem calcinados na fornalha de Curitiba, cabe esclarecer: a tragédia nos coloca diante de um ‘intervencionismo’ às avessas.

Qual?

Aquele em que o oligopólio subordina a sociedade a seus interesses, possibiidade magnificada a partir do tsunami neoliberal dos anos 70/80.

Foi esse o divisor que restringiu as ferramentas e a capacidade de planejamento do Estado, e de tal modo, que afogou a agenda do desenvolvimento deixano margem mínima à implementação do que se pactua nas urnas, sobretudo quando as promessas dos partidos progressistas a seus eleitores.

A correia local dessa engrenagem é a mesma que agora pega carona na Lava Jato para retornar ao poder e terminar o serviço intensificado a partir de 1995, com a chegada de FHC ao Planalto.

A saber: reverter direitos sociais e trabalhistas; comprimir ganhos reais de salário, esfacelar o pleno emprego, implodir o poder de barganha sindical e, o mais importante de tudo, retomar as grandes privatizações do patrimônio público brasileiro.

Que ninguém se iluda, ainda restam alvos suculentos que justificam a ofensiva em curso da ganância escudada na ideologia privatista.

Entre eles, o Banco do Brasil, o BNDES, a Caixa Federal, a Previdência Social, o SUS e a joia da coroa deste e de todos os tempos: o pre-sal, cuja mastigação vem sendo amaciada por Serra, novo postulante ao comando desse ciclo de predações

Aquilo que já foi feito e está presente no DNA da corrupção que agora se combate,pode ganhar assim potencia máxima ao final desse processo, se consumado o assalto conservador.

Um Estado ainda mais fraco, diante de um mercado desregulado ainda mais forte, com governantes adicionalmente reféns de seus interesses, fará com que cada cabeça cortada hoje pelas mãos justiceiras de Moro se reproduza amanhã em dobro, como a serpente Hidra nos doze trabalhos de Hércules.

Não, não é uma jabuticaba brasileira.

Trata-se de um roteiro constitutivo do capitalismo atual, existindo inclusive uma régua técnica para medir esse paradoxo acentuado pela hegemonia neoliberal.

A ‘razão de concentração de mercados’, esse o nome, indica o quanto um setor da economia é dominado pelos seus quatro maiores atores corporativos -cartéis virtuais ou potenciais.

Hoje essa dinâmica concentradora se alastra por quase todas as áreas econômicas e em todo o globo.

Razões sistêmicas, associadas às derrotas e recuos da esquerda mundial, reforçaram esse movimento de expansão e concentração do capital em nosso tempo, coagulado em uma dominância financeira cada vez mais autônoma, densa e abrangente

A mutação do capital em grandes massas de liquidez, ademais de configurar uma etapa superior de dominação sobre a economia e a sociedade (exacerbada pela livre mobilidade dos fluxos especulativos) atende também a uma necessidade estrutural da economia.

A formação de grandes fundos é um requisito indispensável à escala dos financiamentos requeridos pelo agigantamento dos projetos de infraestrutura, dos planos de universalização de serviços e, cada vez mais, das exigências de enfrentamento dos desequilíbrios climáticos (gigantescos planos de reciclagem energética, prevenção de desastres climáticos etc).

Essa agregação de grandes massas de capitais teria que ser feita por alguém.

Que ela ocorra por meio de cartéis dilapidadores ou se dê pela subordinação ao planejamento democrático do Estado –através de bancos de desenvolvimento como o BNDES e o dos Brics– eis a disjuntiva crucial da luta pelo desenvolvimento em nosso tempo.

A crise de 2008 mostrou para onde vai a coisa quando os mercados ficam livres –‘autorregulados’– para manipular a variável financeira, a serviço de estripulias especulativas, dissociadas de parâmetros estratégicos,produtivos e sociais.

As experiências sucessivas de enfrentamento das grandes crises capitalistas, desde 1929, evidenciam, em contrapartida, a necessidade incontornável de um poder de coordenação, capaz de alocar esses recursos de forma a coloca-los efetivamente a serviço da sociedade.

Todo o desafio brasileiro hoje gira em torno desse nó górdio: como e quem vai organizar o passo seguinte do desenvolvimento do país?

O escândalo da Laja Jato reflete –além da subjacente deformação irradiada pelo financiamento eleitoral— a carência de um pacto democrático para a coordenação das forças de mercado.

Na sua ausência criou-se o limbo.

Nele floresceu a endogamia dos interesses rapinosos de carteis, burocratas e políticos.

A punição exemplar é uma parte do antídoto.

Mas a questão do desenvolvimento subjacente à Lava Jato, definitivamente, não é um caso de polícia.

A mitologia da faxina alardeia que a purga atual fará emergir um capitalismo saneado, capaz de equacionar as tarefas e desafios brasileiros no século XXI.

Essa subestimação da capcidade regeneradora da Hidra reflete a crença neoliberal na existência de um ponto de equilíbrio intrínseco aos mercados, que dispensaria o poder de indução, coordenação e harmonização do Estado na arquitetura do desenvolvimento.

A concentração capitalista em todo o globo reduz a uma miragem essa mística a partir do qual a república de Curitiba se avoca em parteira de um novo Brasil.

O país real continua à espera de uma repactuação política que devolva ao Estado, à justiça e aos mercados o papel de ferramentas da sociedade a quem cabe o comando sobre o seu destino e o de seu desenvolvimento.