Por Rennan Martins | Vila Velha, 31/08/2015

Canoa furada. Após um período de silêncio constrangedor em relação ao presidente da Câmara, Eduardo Cunha, o senador tucano, Aécio Neves, se pronunciou. O neto de Tancredo sustentou que o deputado carioca não terá condições de presidir a Câmara caso o STF aceite a denúncia apresentada contra ele pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Tal distanciamento indica a desarticulação entre Cunha e o principal partido da oposição, evidenciando que é questão de tempo a perda do até agora sólido apoio que o peemedebista possui no parlamento.
Pesos e medidas. A oposição estranhou o fato do procurador-geral, Rodrigo Janot, ter pedido o arquivamento de ação contra a campanha de Dilma Rousseff, pedindo-o imparcialidade nas investigações. Esqueceram-se que este mesmo procurador pediu o arquivamento das investigações contra Aécio Neves e Antonio Anastasia, tucanos de alta plumagem. Seria imparcialidade mesmo o que pediram? Se por isento entendem alguém como o ministro Gilmar Mendes, certamente não seria o caso.
No dos outros. A Confederação Nacional da Indústria e seu vice-presidente, Paulo Skaf, estavam bastante contentes com o ajuste fiscal antes da reoneração da folha de pagamento para as empresas e a proposta de recriação de um imposto nos moldes da antiga CPMF. Após tais acontecimentos, os industriais ficaram tão descontentes que chegaram a pedir a saída do ministro da Fazenda, Joaquim Levy. A guinada se deu por razão simples. Enquanto o ajuste cobrava sua conta só no bolso dos trabalhadores o alto empresariado estava satisfeito, mas depois que foram chamados a contribuir, o tempo fechou. No dos outros é refresco.
Anunciado. Este articulista avisou, ainda em novembro do ano passado, quando do anúncio de Joaquim Levy para a Fazenda, que o ajuste fiscal não daria certo e ainda por cima desmobilizaria a base social do governo, isolando politicamente o Planalto. Pois bem, o líder do governo no senado, Delcídio Amaral (PT-MS), avisou que enviará projeto de lei que prevê deficit primário também nas contas de 2016. Temos então que o ajuste não será bem-sucedido, tendo trazido somente desgaste político e social por conta das medidas de austeridade.
Sem demagogia. O ex-presidente do STF, Joaquim Barbosa, rasgou o verbo em palestra proferida no 7º Congresso Internacional de Mercados Financeiro e de Capitais. Defendeu o fim do financiamento de campanhas por empresas, alegando que tais recursos “fomentam essas relações profanas de conveniência”, disse ainda que o Tribunal de Contas da União (TCU) não passa de um “playground de políticos fracassados”, não possuindo qualquer autoridade para abrir procedimento de impeachment contra um presidente. Em tempos de cinismo escandalizante é sempre bom alguém botar os devidos pingos nos i’s.
Muro. Um dia após anunciar a saída da articulação política do governo, o vice-presidente Michel Temer recuou dizendo que não poderia fazê-lo de uma vez por ter responsabilidades para com o país. Temer sabia que seu colega de partido, Eduardo Cunha, entenderia sua saída da articulação como sinal verde para abertura dos procedimentos de impeachment, então fez que ia e ficou. Ora, essa postura é o mais perfeito retrato do peemedebismo, que faz questão de manter o governo fraco, lotear o Estado, creditar os ônus da crise ao PT e despontar como o partido conciliador e capaz de resolver os desafios nacionais.
