Brasil, pátria enferma

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Por Geniberto Paiva Campos | Brasília, agosto de 2015

“A natureza parece feita de antipatias. Sem algo para odiar, acabaríamos perdendo o próprio ímpeto do pensamento e da ação”. (*)

1. Mais de uma década sob governos progressistas, eleitos democraticamente, qual enfermidade acomete a gentil pátria amada?

A grande imprensa ou a mídia hegemônica, porta voz do Neoliberalismo, colocou o Brasil num círculo de ferro, impondo uma pauta negativa e que impacta o futuro e a felicidade da sua população. Estaríamos irremediavelmente enfermos, condenados ao mais retumbante fracasso, desde que governados por partidos progressistas, fora da ortodoxia neoliberal. Quais as causas dessa doença, aparentemente incurável?

A lista de possibilidades é ampla: problemas econômicos e financeiros; a política; a frágil infra estrutura; a corrupção sem controle; a incompetência generalizada; a crise, transformada em condição permanente e insolúvel. Quando falta assunto, a inflação, a ameaça do desemprego, o PIB baixo ou “pibinho” ocupam a cena. São previsões imutáveis, infalíveis, a se acreditar no que divulga, diuturnamente, a grande imprensa, há mais de 10 anos. A grave crise internacional do capitalismo é convenientemente omitida.

Dependendo da lente dos óculos com os quais vê a realidade, o cidadão desinformado escolherá a causa ou a explicação que melhor se ajusta à sua crença. E essa escolha irá orientar o tratamento. A corrupção generalizada aparece como a preferida. Trata-se de uma decisão fácil. Afinal, quem seria a favor da corrupção?

A realidade tornou-se apenas um detalhe. Importa, antes de tudo, a ficção criada e sustentada pelos órgãos de comunicação, influenciando a disputa política. Os quais cumprem seu papel de partido líder oposicionista insistindo em divulgar, impunemente, verdades que ainda não aconteceram. E que, provavelmente, não irão, jamais, acontecer. Isso, antigamente, tinha nome. E é, seguramente, uma forma lamentável de corrupção.

Trata-se de uma guerra de comunicação, na qual só um dos lados, a oposição ao governo progressista, dispõe de pesada artilharia midiática, utilizada em batalhas desiguais. Assimetria que não se mostrou suficiente para vencer eleições presidenciais. Mas que, sub-repticiamente, inoculou na população o vírus da desconfiança na política e nos políticos. Um perigoso efeito colateral de um discurso sem o argumento contraditório, essencial na disputa política.

2. Quais as consequências dessas batalhas midiáticas no dia a dia dos brasileiros? Na consciência e no comportamento político dos cidadãos de todas as classes sociais? Afinal, trata-se de mais de dez anos de um bombardeio incessante, sem um contraditório efetivo por parte do lado progressista. O discurso político retrógrado tornou-se hegemônico, avassalador. Pior, assumidamente, perigosamente neofascista. E enganador.

Em disputa, o futuro do Brasil. Em risco, a soberania nacional. O conflito Esquerda x Direita se acirrou no país, de tal modo, que um governo reeleito democraticamente se vê, de repente, cercado por forças estranhas. E estas, não o deixam governar. Inconformadas com a derrota nas urnas, buscam pretextos para retomar o poder através do Golpe, para impor, novamente, um programa político e econômico na contramão dos interesses nacionais.

Meio século após o Golpe Militar que durou 21 anos, e da conturbada vivência da Guerra Fria, está reinstalado um clima de instabilidade política e de incertezas no Brasil. O qual somente interessa aos que apostam na criação do caos institucional, artificialmente criado para atender aos seus propósitos inconfessáveis.

3. Qual o vírus inoculado no organismo nacional, capaz de gerar o ódio e a intolerância, preparando o retorno a formas arcaicas de fazer política que se imaginava superadas?
Talvez seja o vírus da infantilização política. O qual impede a formação da cidadania consciente. Criam-se legiões de sujeitos acríticos. Desobrigados de pensar e construir um pensamento próprio. “– eu não preciso pensar, eles pensam por mim”.

Como consequência, as pessoas passam a marchar e bater panelas. Movidas pelo ódio e pela intolerância irracional a um grupamento político. A grupos étnicos. À diversidade. Sem uma noção clara dos seus objetivos. Deixando perplexos os pesquisadores de insuspeitos institutos de aferição de opinião pública, ao ouvir incoerências e disparates políticos dos participantes das marchas.

O problema é saber aonde conduz esse tipo de comportamento. Quais as consequências, eventualmente trágicas, para o desenvolvimento e a consolidação da democracia e da liberdade num país carente desses valores como permanentes na consciência nacional. Afinal, como criar, embora com algum retardo, o discurso político alternativo?

4. A Guerra da Comunicação pode ser o front decisivo, a mãe de todas as batalhas, no confronto entre Esquerda x Direita. Foi inicialmente respondida pelo lado progressista, há aproximadamente 10 anos, através da Internet. A partir daí iniciou-se, espontaneamente, a guerra de guerrilhas travada pelos blogueiros, com muita coragem, inteligência e bom humor. Apelidados, pejorativamente, pelas vozes da Direita de “blogueiros sujos”/BS e perseguidos por inúmeros processos judiciais, os BS se mantiveram firmes em sua disposição contestatória, numa Guerra nas Estrelas onde jamais foram vencidos. E já têm reservado seu lugar na História, como decisivos soldados na luta pela Verdade e pela Democracia.

Com a rápida evolução dos meios eletrônicos de comunicação, a Guerra nas Estrelas prossegue. Torna-se essencial, no entanto, que as forças progressistas ocupem o seu espaço em outros meios eletrônicos de comunicação, como o Rádio e a TV.

“Matar a cobra com veneno de cobra”, uma expressão muito usada pelo deputado Ulisses Guimarães, se aplica, perfeitamente, à atual guerra estelar: ou seja, enfrentar as forças conservadoras no seu próprio campo. É de baixíssima qualidade a Televisão e o Rádio produzidos pelo partido líder do conservadorismo brasileiro.

Getúlio Vargas ousou combater os jornalões inimigos da década de 1950, com a criação da ÚLTIMA HORA. Ainda é o momento de “ousar lutar, ousar vencer” as batalhas eletrônicas da guerra da comunicação. O campo de luta da Internet é uma fonte de aprendizado de táticas da guerrilha da comunicação. É hora de partir para o Rádio e a TV. Como fazê-lo? Com inteligência e ousadia e planejamento estratégico. Este o desafio.

O novo Congresso Brasileiro, recém empossado, a nova fábrica de leis dos conservadores, foi eleito para fazer o Brasil retornar ao século 19. Qualquer lei de regulação das comunicações, neste momento, terá trânsito complicado, senão impossível. Vide o resultado do projeto de Reforma Política. Resta pois o campo de batalha difícil, complexo, da comunicação eletrônica.

Os dados estão lançados. Vamos à luta.

(*) – William Hazlitt, in “Sobre a Arte de Odiar”, 1882 – citado por t.j.clark , 2013

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