Por Dóris de Castro e Roger Amarante | Via Crítica da Economia

A política econômica de Joaquim Levy, ministro da Fazenda, tem a mesma cara da sua chefa Dilma Rousseff, presidenta do Brasil. Totalmente sem caráter. Muda de acordo com o freguês. Querem mais uma prova? Para socorrer as grandes montadoras globais de veículos instaladas no país, que não param de enviar lucros acumulados para suas matrizes, o governo resolveu na data de ontem empanturrá-las com uma montanha de recursos públicos. Assim sendo, a novíssima política econômica ressuscita de uma só tacada duas práticas da velha política anticíclica de Guido Mantega, ministro da Fazenda anterior, repetidamente execradas por Joaquim: os incentivos financeiros setoriais e o uso de bancos públicos para impulsionar o crédito. Tudo aquilo que até um dia antes o impoluto ministro chamava de “práticas protecionistas criminosas que levaram ao descalabro das contas públicas”.
Joaquim amantegou-se na velocidade do overnight. De um dia para o outro. A “novíssima matriz econômica” de Dilma Levy presenteia as multinacionais alemãs, estadunidenses, japonesas, etc., com quase 15 bilhões de reais, através de créditos altamente favorecidos da Caixa Econômica Federal e do Banco do Brasil para capital de giro e pagamentos de fornecedores. “Para dar um respiro para elas”, justifica o governo. Para realizar este ato tão generoso, a parte da Caixa (5 bilhões) será composta principalmente de recursos dos trabalhadores (FGTS e FAT) depositados na instituição. Desta “pedalada” em cima da poupança dos trabalhadores nada se falará na imprensa livre dos moradores da Avenida Paulista.
O ministro afirma textualmente que “essas linhas de crédito são operações de mercado, de interesse dos bancos, e não vai afetar o ajuste fiscal”. Duas coisas, pelo menos, que não batem com essa novilíngua do ministro. Primeiro, parece que ele se esqueceu de avisar o seu patrão, o Bradesco e demais comparsas da quadrilha organizada na Federação dos Bancos Brasileiros (Febrabam) desta “grande oportunidade de mercado” que os bancos públicos estão aproveitando sozinhos. Não era ele também que garantia que doravante “o setor financeiro privado deveria ocupar o espaço de financiador de investimentos no país?” Ideias fantasiosas para pintar de rosa um sistema bancário privado impotentemente inútil para financiamento da produção, seja ela industrial ou agrícola. Isso é que é realmente estrutural – uma palavra que os economistas monetaristas gostam de usar para se referir aos problemas fiscais do país.
Segunda coisa que não bate com a afirmação do ministro de que a medida desta semana não vai afetar o seu ajuste fiscal. Acontece que esta decisão manteguiana até a raiz tromba com a política monetarista do Banco Central (e do famigerado ajuste fiscal, off course) que optou por restringir radicalmente o crédito na economia via elevação da taxa de juro. A decisão da Fazenda dinamita de fato a política de metas para a inflação do BC, levando-o a perder o controle das chamadas expectativas inflacionárias. Para terminar: se é para distribuir financiamentos baratos, é preciso derrubar os juros do BC e assim favorecer toda a economia. Como diria Stanislaw Ponte Preta, ou se restabelece a moralidade, ou nos locupletemos todos.
