Para entender como funciona o neoliberalismo – Essa força estranha

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Geniberto Paiva Campos | Brasília, agosto de 2015

1.Junho de 2013 tornou-se uma data marcante, definitiva, no calendário político brasileiro.

As marchas de junho continuam a desafiar os estudiosos da nossa realidade. Se não eram os “vinte  centavos” que movia os manifestantes, do que se tratava, verdadeiramente? Vários textos, ensaios e livros foram publicados após esses estranhos eventos sem,  entretanto, lograr até hoje explicações plausíveis. Sequer aceitáveis.

Ousando um pouco, afinal são acontecimentos bem recentes, seria possível fazer as devidas ilações entre algumas manifestações aparentemente desconexas dos últimos 2 anos no Brasil, estabelecendo uma ordem cronológica e, talvez, uma sequência política entre as Marchas de Junho>>a Copa do Mundo de Futebol l>> as Eleições Gerais de 2014 >> e a atual Crise Política.

Qual a lógica que uniria esses eventos, aparentemente tão díspares em sua natureza?

É legítima a impressão, para quem observa mais atentamente esses acontecimentos, de que o Brasil tornou-se uma espécime (hamster?) na qual se aplicam experimentos de um Laboratório de Pesquisa Política, cuja sede está situada fora das suas fronteiras. E que essas experiências são patrocinadas pelo Capitalismo Neoliberal, tendo como objetivo conter – “na lei ou na marra” – a continuidade de uma proposta política, econômica e social, em curso livre no país desde 2003, liderada pelo Partido dos Trabalhadores/PT. O qual consegue manter uma improvável, porém duradoura coalizão política com partidos de diferentes estratos sociais. Promovendo mudanças perceptíveis na estratificação social do país, com mais inclusão e fortes avanços na área educacional. Conquistas sociais que desagradam profundamente o neoliberalismo.

2. Arrefecida a onda do “Mensalão”, um conúbio da Grande Imprensa com elementos do Judiciário, com o qual se imaginou destruir a força política e eleitoral do PT, pregando no partido o selo da Corrupção, criminalizando seus quadros dirigentes, alguns deles presos após serem julgados em processos criminais no mínimo discutíveis. Todo esse esforço sem grandes resultados eleitorais a comemorar. A partir desse ponto novos e mais agudos experimentos foram gerados nos laboratórios neoliberais.

Junho de 2013, segunda metade do governo da presidente Dilma Roussef, marca o início da implementação das novas estratégias de ataque originadas no Laboratório Neoliberal:

a)- em primeiro lugar, colocar “povo” nas ruas, desde o início dos tempos uma característica das organizações de esquerda. (Tradição somente quebrada nos idos de 1964¸com as “Marchas Da Família). Que a partir daquele momento não mais seria uma exclusividade das chamadas forças progressistas e da classe operária. À falta de uma bandeira/mensagem mobilizadora, organizou-se a marcha contra o aumento recém concedido de vinte  centavos nas passagens dos ônibus urbanos. Talvez um simples pretexto, não uma causa. Na ausência de outro chamamento, era o que havia disponível. E funcionou. Para espíritos crédulos, dispostos a marchar pelas ruas, qualquer tema tinha a sua relevância. Foi este, talvez, o movimento inicial em defesa das teses neoliberais.

Assumido inicialmente pelo Governo como movimento político reivindicatório, os líderes das “Marchas de Junho” foram convidados a dialogar, visando o atendimento dos itens expostos em sua pauta. Foi aí que ficou evidente: a real motivação do movimento: era alguma coisa difusa, que não ousava dizer a que vinha. Para que os eventos não arrefecessem o entusiasmo foi introduzida, então, de forma temerária, a violência gratuita e sem direcionamento, através dos chamados “black blocks”, contra prédios públicos e comerciais. Os sociólogos e teóricos de ocasião, acionados, atribuíram uma característica “anarquista” às manifestações. O que deve ter feito Bakunin e Proudhon se revirarem em seus túmulos. Sem conseguir adquirir um ritmo e uma bandeira política efetiva, sem palavras de ordem, sem uma motivação clara, as Marchas de Junho foram se esvaindo. Já nos seus estertores, por pressão junto a um amedrontado Congresso Nacional, o Movimento conseguiu a aprovação da “PEC 37”,  sobre a qual a maioria dos manifestantes não tinha a menor ideia do que tratava. O “Movimento Passe Livre” ficou pendurado, solto no ar. Sem discurso e sem rumo. Era necessário criar outros experimentos.

(Entretanto, o saldo político das atabalhoadas “Marchas de Junho” não foi desprezível: houve a queda da popularidade da presidente Dilma Roussef, um objetivo não declarado, mas importante para os pesquisadores do Laboratório Neoliberal;  ficou clara a percepção de que gente na rua, mesmo sem uma pauta definida, incomoda os políticos de todos os partidos;  a partir daquelas estranhas manifestações, as ruas passaram a ser compartilhadas por outros grupos de manifestantes tendo,  daí em diante, outros “donos”).

b) nos radares do “Laboratório”, surgiu uma nova e excelente oportunidade: a Copa do Mundo de Futebol, a ser realizada em 2014, no Brasil, o país do futebol, cinco vezes campeão mundial da modalidade. Problemas de mobilidade urbana, custos do transporte coletivo nas cidades foram convenientemente esquecidos. Cabia agora mostrar aos crédulos brasileiros, ingênuos defensores dos sagrados direitos de lucro da Elite, que os “gastos da Copa”, exorbitantes e superfaturados, estavam a desviar recursos da Saúde e da Educação. Já nas festas de final de ano de 2013, apareceram inesperadamente nas concentrações populares, pequenos grupos de rapazes, gritando: – “NÃO VAI TER COPA!”, para o legítimo espanto de cidadãos que ainda acreditavam, com orgulho, que havia sido uma boa ideia, uma conquista, a realização de um evento de tal magnitude no Brasil. Os cientistas do “Laboratório” acreditavam ser possível reverter, mesmo com riscos, esse e outros sentimentos de orgulho nacional.  Com engenho e arte poderia ser recriado o “complexo de vira-latas”.  Esta a aposta dos pesquisadores.

Teve início, então, um movimento contrário à realização do torneio de futebol. Usando de todos os meios de comunicação disponíveis, e de vastos recursos financeiros, foi dada a largada do “Não Vai Ter Copa”.  Mesmo com o risco de afetar profundamente o sentimento de orgulho dos brasileiros pela sua Pátria  e pelo Futebol, a decisão tomada pelos pesquisadores foi a de fazer sim, o movimento. Começou,  então,  pesado bombardeio midiático demonstrando todas as desvantagens da realização da Copa: a situação dos hospitais públicos; as obras dos estádios e da infraestrutura de apoio logístico não estariam concluídas a tempo; os aeroportos não suportariam a demanda de passageiros dos voos doméstico e internacionais; e por fim, a ameaça de invasão dos estádios pelos manifestantes contrários à realização da Copa. Sem dar tempo à população para uma avaliação mais sensata de tais argumentos, persistia o bombardeio, agora com vídeos profissionais nos quais moças e rapazes  brasileiros, falando um inglês perfeito, e com legendas em português, alertavam para as imensas desvantagens do torneio para o país. E alertavam: “- não discutam, não argumentem. Apenas repitam as mensagens. Eles vão acabar aprendendo.” Como sabemos, a organização da Copa foi perfeita.  A seleção brasileira, no entanto, deu vexame na semifinal, e foi goleada pela  Alemanha por  7×1. Um placar estranho em jogo estranhíssimo. Tudo porque os pesquisadores entenderam que, caso o Brasil conquistasse, em casa, o hexacampeonato mundial, a presidente Dilma seria reeleita no pleito de outubro próximo, já visível nos seus radares.

c) As forças  Neoliberais investiram pesadamente nas eleições de 2014. Tinham como certa a vitória oposicionista no pleito presidencial. Assim garantiam pesquisas confiáveis dos cientistas do “Laboratório”. O pleito foi para o 2º turno. Mas a vitória, mais uma vez, foi do campo progressista. A presidente Dilma Roussef ganhou por uma diferença de mais de 3 milhões de sufrágios. Resultado que gerou perplexidade, revolta e inconformismo nas hostes neoliberais.

d) A derrota, no entanto, não foi assimilada. Já que dentro da Lei ( ou do Voto) a vitória não se concretizou, ficou evidenciado o risco concreto de maiores avanços na área social no novo mandato. Criando condições para a consolidação do projeto progressista e a perda do controle político da Elite na política econômica, vital para os seus objetivos estratégicos. Tornou-se essencial acionar o “plano B”, isto é, tomar o poder na “marra”. Através de recursos fora da Legalidade e das Normas Constitucionais. Seriam, portanto, acionados os testes de campo com novos tipos de manipulação política. Elaborados a partir de algumas constatações “científicas” dos pesquisadores, imediatamente acionadas: – a elite brasileira reaprendeu a marchar pelas ruas e avenidas. Sempre aos domingos; – a elite brasileira também aprendeu a bater panelas: uma barulhenta maneira de impedir a fala do “inimigo”; – finalmente, a elite brasileira retomou o gosto pela “política”. Desde que isso signifique reassumir a hegemonia do discurso e do exercício do Poder, direito adquirido, há séculos, no Brasil ,por quem sempre teve condições: a Elite. Um pequeno problema no entanto havia sido colocado:  se não houvesse a imediata troca do comando político do Brasil, o que fazer com essa elite solta nas ruas (a “massa cheirosa” batizada pela jornalista da  Folha de SP), movida pelo ódio político ideológico, semeado ao longo de anos pelos meios de comunicação? A mais perigosa e imprevisível forma de ingrediente do jogo político, comprovada historicamente desde as primeiras décadas do século 20 na Europa e que resultou no Nazifascismo, na II Guerra Mundial e numa prolongada Guerra Fria? Parece que esse “pequeno problema” não ocupou a mente dos pesquisadores. Foi assumido como uma espécie da dano colateral do jogo. Ou da Guerra Santa contra o petismo. E a favor do Rentismo.

3. A quem cabe a palavra  de sensatez nesta segunda quinzena de agosto? Onde estão os líderes, vá lá os escassos estadistas, capazes de fazer o país retornar à racionalidade? Todos dormindo em berço esplêndido? Tal como a orquestra do Titanic, absorta na execução da partitura musical, enquanto o navio prosseguia sua rota em direção ao abismo? E os velhos políticos que lutaram contra o regime autoritário, vestem agora a camisa neoliberal e incitam o Golpe?

A força estranha do Neoliberalismo enfeitiça e imobiliza todos. Admitem-se várias coisas, exceto impedir a inexorável trajetória de lucro, acumulação e desigualdade do Capitalismo Rentista e do seu filho mais dileto, o Neoliberalismo. Cada vez mais possuído de um estranho sintoma: a impossibilidade de convívio com a Democracia. O horror ao Voto e aos programas sociais. Insistindo em transformar o Brasil em uma república de bananas. Liquidar a soberania do país, para fazer os lucros obscenos fluírem para as suas contas nos paraísos fiscais.

O que falta agora para se fechar o ciclo? A edição do Ato Institucional nº 1 – com a chancela do Congresso Nacional e da Rede Globo – decretando a vigência de um novo regime autoritário, nazifascista em seus fundamentos? (Exagero? Leiam com atenção as faixas e os cartazes das marchas da Elite. Lembrem-se do aviso recente dos banqueiros e dos donos da mídia: “- Parem com o Golpe!”).   BEM VINDOS À BARBÁRIE, SENHORAS E SENHORES.

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