Régis Debray de hoje: “Somos todos corruptíveis”

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Por FC Leite Filho | Via Café na Política

Fujo ao noticiário maçante das manifestações deste domingo e das insossas reações do governo Dilma. Encontro conforto e alguma sensatez em… imaginem quem? Em Régis Debray, o filósofo francês de esquerda que, aos 24 anos, se meteu de corpo e alma nas guerrilhas de Che e de Fidel na América Latina. Depois, evoluiu para posições mais conservadoras e consentâneas, muito próprias do europeu e do filho de família rica que é. Mas, hoje, aos 75 anos, aprimora o conhecido feeling do arguto filósofo e pensador de sua época, para radiografar nossa atualidade.

Ele foi acusado, creio que, injustamente, de fornecer informações que teriam culminado no fuzilamento do herói Che Guevara, em 1968. Dou-lhe, no entanto, um desconto, e prefiro compreender suas circunstâncias de então. Na época,o autor consagrado do livro-bomba “Revolução na Revolução”, tinha caído prisioneiro nas garras de uma das ditaduras mais sanguinárias na Bolívia, a do homem do general ligado å CIA, René Barrientos. Condenado a 30 anos, ainda passou quase quatro detrás das grades, antes de ser libertado pelas pressões internacionais, à frente Jean Paul Sartre e Charles De Gaulle, em 1970.

Vamos então ao Debray de 2015, em pleno Rio de Janeiro, onde esteve falando sobre globalização. “Ainda elegante” e “com olhos azuis sagazes”, como relata o entrevistadora Ruth Aquino, o ex-revolucionário dá suas opiniões, numa entrevista bem escondida, na edição desta semana da Época. Debray, muito diferente, é claro, do jovem professor que chamava os camponeses a pegar em armas para derrubar as oligarquias, transmite uma postura fria, senão cínica, da conjuntura latino-americana e europeia, mas profundamente realista e consequente, no meu modesto juízo.

Do alto de sua vivência nas selvas inóspitas da Bolívia, Chile, Venezuela, de sua amizade com Fidel e Che, ambos ainda jovens como ele, de um casamento com a escritora venezuelana Elizabeth Burgos, depois como assessor do presidente François Miterrand, e, ultimamente, como teórico e analista dos meios de comunicação, sobre os quais escreveu seus últimos livros, Régis Debray tira algumas conclusões que chocam por uma certa crueza. Resposta dele a uma pergunta muito recorrente na nossa mídia corporativa e suas falsas preocupações éticas – “o que dizer dos eleitores de Lula e Dilma que prometeram governos incorruptíveis”. Sua resposta:

“Depende do tipo de corrupção: do dinheiro ou das promessas? A corrupção moral na política não é só comum, é indispensável”. Ele ainda exemplifica que, “numa democracia, a única maneira de chegar ao poder é fazendo promessas. Todas as campanhas eleitorais são mentirosas. Prometer é enganar”. E adverte: “Envolver-se com a política é o mesmo que se preparar para uma desilusão. A política, por definição, é uma decepção”.

À pergunta piegas de se “não há políticos que não se deixam corromper”, Debray é ainda maias cáustico: “O incorruptível, na França, era (…) Robespierre (1758-1794). E ele era o terror. Mas não só. Defendeu a abolição da escravatura nas colônias francesas, por exemplo. Mas ao mesmo tempo mandou matar na guilhotina milhares de pessoas. E se intitulava “o incorruptível”.

Por esta e outras coisas, sua conclusão, neste ponto, é decididamente cínica: “A realidade é a corrupção. Somos todos corrompidos de uma maneira ou de outra. A única forma de se manter incorruptível é permanecer dentro de seu quarto. Se você sai à rua e ainda por cima assume o poder, já faz concessões, assume compromissos. Para transformar o mundo, é preciso entrar nele”.

Régis Debray ainda é cético quanto à democracia: “O povo tornou-se impotente”, diz. Já não tem ascendência sobre o seu destino. A elite tecnocrata no poder não está nem aí para o voto popular, porque decide o que mais lhe convém”.

O veterano militante (ainda?) declara que a esquerda está morta, pelo menos na Europa: “Lá”, exemplifica, “a esquerda interfere apenas nos assuntos marginais da sociedade, como a legalização da maconha ou do casamento homossexual… A social-democracia foi engolida pelo sistema financeiro. E a extrema esquerda é fraca e sem voz”. No final, concede à esperança, quando faz este alerta: “O que não pode morrer é a necessidade de se manter à esquerda. O homem não pode deixar de sonhar. Não pode sucumbir à dominação do dinheiro e da força”. E encerra, abrindo uma exceção para a América Latina, onde diz encontrar “um certo frescor ou radicalismo”.

Uma ideia sobre “Régis Debray de hoje: “Somos todos corruptíveis”

  1. Pierre Bedouch

    J´ai connu Regis Debray en 1966 à Guajara Mirim (Rondonia – Brésil) et Guyara Merim (Bolivie, de l´autre côté du fleuve,). Regis était avec un jeune qui a eu un accident (se baignant, il a mis le pied sur une raie, a du être opéré et a du rester un mois a Guyara, Bolivie, en repos) . A l´époque j´étais prêtre et je les ai visités plusieurs fois (5 ou 6 sans doute, il suffisait de traverser le fleuve qui sépare Brésil et Bolivie)… Nous avons longuement parlé… et à la fin j´ai su qu´il était en contact avec le Ché…
    50 ans se sont passés,… aujourd´hui je suis marié, vivant dans l´Etat de Minas Gerais… à la retraite comme prof de Maths et de Physique. Les rencontres que j´ai eu avec Régis m´ont bien marqué, et j´aimerais avoir son adresse(ou son e-mail) pour correspondre. Pouriez vous me donner son e- mail (ou lui communiquer mon e-mail: p.bedouch@uol.com.br). D´avance je vous remercie. Pierre Bedouch

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