A banalidade do golpe e a estratégia de Cunha

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Por Rennan Martins | Vila Velha, 07/08/2015

Interesses Aécio e Cunha convergem no atual cenário.

Como se fossemos uma República das Bananas, articulistas, grandes jornais e políticos oportunistas discutem sem qualquer cerimônia os caminhos do impeachment, que, sem qualquer base jurídica, não passa de um repugnante golpe de Estado. Os cruzados da moralidade – alheia, para si e os seus, não – podem se apoiar em diversos malabarismos retóricos, mas, no fundo, sabem do papel que prestam e como a história os retratará.

No momento, o que fazem as figuras oposicionistas de destaque é calcular qual dos meios lhe renderia mais dividendos políticos. Entre os tucanos há considerável divergência de interesses. Enquanto para Serra e Alckmin interessa sangrar o governo até 2018, para Aécio Neves é hora de acelerar pela via da impugnação das contas de campanha e consequente convocação de novas eleições.

Reportagem da Folha informa que o PSDB ofereceu jantar ao presidente do senado, Renan Calheiros, onde discutiram a conjuntura, o agravamento do cenário econômico e a questão do golpe. Nela também podemos ler que é consenso entre Renan, Aécio, Serra e Tasso, considerarem irresponsabilidade da Câmara a aprovação da pauta-bomba, que acelera a implosão do governo. Creem os tucanos que o mais sábio a se fazer é esperar as manifestações do próximo dia 16 e o julgamento das contas no TCU. Ora, se nem o caprichoso Aécio Neves está açodado, porque tanta pressa?

Por mais que se tracem diversos meios para a derrubada de Dilma, há um fator pouco lembrado que define por onde se encaminharão os golpistas, liderados por um ensandecido presidente da Câmara. Não esqueçamos que, além do ódio que Cunha tem pelo PT, seu interesse imediato é deter a Procuradoria-Geral da República, que prepara contra ele uma robusta denúncia. Aí reside o motivo da ânsia e é também onde converge os interesses de Cunha e Aécio.

Somente derrubar Dilma Rousseff não retiraria os poderes da PGR, muito menos faria desaparecer as provas já colhidas. Temer como presidente não significa, necessariamente, que os processos sumiriam. A PGR continuaria onde está, pronta para denunciá-lo. Esta condição força o peemedebista a aderir a tese de novas eleições dos demotucanos. Com sua megalomania já conhecida, Cunha entende que precisa assumir a presidência pelos noventa dias de prazo para eleições, e deles usar para defenestrar a PGR e o MPF. Só assim salvaria o próprio pescoço.

Instalando um sem número de CPI’s e aprovando a pauta-bomba a toque de caixa, Eduardo Cunha faz grossa cortina de fumaça, contando, é claro, com o estardalhaço da mídia e as bravatas de seus aliados. Precisa que a sensação de crise se agrave nesses próximos dias, a tal ponto, que ao chegar o julgamento das contas de campanha pelo TSE, o máximo de histeria esteja represado, com uma população que rejeite não só Dilma mas a chapa eleita. Não é por acaso, portanto, seus reiterados avisos de que é oposição e o fato de ter se reunido com os editores do jornal O Globo na última segunda. Corrobora ainda o discurso emocionado e temeroso de Temer pela unificação nacional.

Todavia, o caminho está longe de ser simples e se engana quem acha que o MPF assistirá passivamente a uma eventual investida contra seus poderes. A ironia disso tudo é o fato do notório desapreço pelo PT por parte dos procuradores da Lava-Jato, liderados por sua excelência, Deltan Dallagnol, contribuir sobremaneira para o poderio de uma figura implacável que não poupará esforços para os submeter. A ira santa dos jovens concurseiros parece não ser tão competente quando o assunto é cálculo político.

Uma ideia sobre “A banalidade do golpe e a estratégia de Cunha

  1. Manusdei Aurich

    Iniciam-se com Putsch constitucional os repugnantes golpes agora em voga na América Latina. Primeiro, o aliciamento de figuras execrandas nas mais variadas instituições do chamado “Alto Escalão”, geralmente vivem à sombra de Gross Chévaux Baptisés, fáceis de reconhecê-los logologo.
    Tanto em Tegucigalpa como em Assunção o método foi idêntico, tão mais idêntico como a participação do alto clero do crepuscular Ratzinger na arquitetura imoral dos dois Putsch. Zelaya, de pijama, na alta madrugada, é despachado para o pátio do aeroporto de Costa Rica. Obra militar, em conluio com o supremo tribunal hondureño e os fascistas da Assemblea Nacional, à frente seu presidente. Em Asunción não foi de maneira menos vergonhosa. Em rápida manobra “constitucional” ilegal pois ilegítima – não há legalidade sem legitimidade, princípio jurídico basilar, fundamental na Lei Maior, o senador presidente da Casa declara impedido o bispo presidente Fernando Lugo. Quadro parecido com o que se pretende pintar do lado de cá na terra de Itaipu, pedra rolante. Mas alto lá, a pedra é bem mais pesada e certeira! A ver.

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