Arquivo mensais:agosto 2015

Termômetro da conjuntura política #4

Por Rennan Martins | Vila Velha, 31/08/2015

Canoa furada. Após um período de silêncio constrangedor em relação ao presidente da Câmara, Eduardo Cunha, o senador tucano, Aécio Neves, se pronunciou. O neto de Tancredo sustentou que o deputado carioca não terá condições de presidir a Câmara caso o STF aceite a denúncia apresentada contra ele pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Tal distanciamento indica a desarticulação entre Cunha e o principal partido da oposição, evidenciando que é questão de tempo a perda do até agora sólido apoio que o peemedebista possui no parlamento.

Pesos e medidas. A oposição estranhou o fato do procurador-geral, Rodrigo Janot, ter pedido o arquivamento de ação contra a campanha de Dilma Rousseff, pedindo-o imparcialidade nas investigações. Esqueceram-se que este mesmo procurador pediu o arquivamento das investigações contra Aécio Neves e Antonio Anastasia, tucanos de alta plumagem. Seria imparcialidade mesmo o que pediram? Se por isento entendem alguém como o ministro Gilmar Mendes, certamente não seria o caso.

No dos outros. A Confederação Nacional da Indústria e seu vice-presidente, Paulo Skaf, estavam bastante contentes com o ajuste fiscal antes da reoneração da folha de pagamento para as empresas e a proposta de recriação de um imposto nos moldes da antiga CPMF. Após tais acontecimentos, os industriais ficaram tão descontentes que chegaram a pedir a saída do ministro da Fazenda, Joaquim Levy. A guinada se deu por razão simples. Enquanto o ajuste cobrava sua conta só no bolso dos trabalhadores o alto empresariado estava satisfeito, mas depois que foram chamados a contribuir, o tempo fechou. No dos outros é refresco.

Anunciado. Este articulista avisou, ainda em novembro do ano passado, quando do anúncio de Joaquim Levy para a Fazenda, que o ajuste fiscal não daria certo e ainda por cima desmobilizaria a base social do governo, isolando politicamente o Planalto. Pois bem, o líder do governo no senado, Delcídio Amaral (PT-MS), avisou que enviará projeto de lei que prevê deficit primário também nas contas de 2016. Temos então que o ajuste não será bem-sucedido, tendo trazido somente desgaste político e social por conta das medidas de austeridade.

Sem demagogia. O ex-presidente do STF, Joaquim Barbosa, rasgou o verbo em palestra proferida no 7º Congresso Internacional de Mercados Financeiro e de Capitais. Defendeu o fim do financiamento de campanhas por empresas, alegando que tais recursos “fomentam essas relações profanas de conveniência”, disse ainda que o Tribunal de Contas da União (TCU) não passa de um “playground de políticos fracassados”, não possuindo qualquer autoridade para abrir procedimento de impeachment contra um presidente. Em tempos de cinismo escandalizante é sempre bom alguém botar os devidos pingos nos i’s.

Muro. Um dia após anunciar a saída da articulação política do governo, o vice-presidente Michel Temer recuou dizendo que não poderia fazê-lo de uma vez por ter responsabilidades para com o país. Temer sabia que seu colega de partido, Eduardo Cunha, entenderia sua saída da articulação como sinal verde para abertura dos procedimentos de impeachment, então fez que ia e ficou. Ora, essa postura é o mais perfeito retrato do peemedebismo, que faz questão de manter o governo fraco, lotear o Estado, creditar os ônus da crise ao PT e despontar como o partido conciliador e capaz de resolver os desafios nacionais.

A partir de Baiano, MPF tenta achar rastro da propina até Cunha

Por José Casado | Via O Globo

O senhor tinha contas bancárias na Suíça? — quis saber o juiz. O réu se resguardou, exercendo o direito de não responder.

— Vou lhe mostrar um documento dessas contas que é um cartão de assinatura… Eu peço para o senhor dar uma olhadinha. É um documento datado de 23 de setembro de 2005…

Fernando Antonio Falcão Soares, alagoano de nascimento, Baiano para os amigos, acabara de completar 48 anos de idade, dos quais oito meses numa cela do Complexo Médico de Pinhais (PR), onde só vê a luz do dia pelo retângulo de barras de ferro incrustadas a dois metros do chão. Balbuciou um “Ok” enquanto recebia o documento bancário.

— Essa assinatura do lado do nome Fernando Antonio Falcão Soares é do senhor?

Absteve-se de explicar.

— Consta um débito nessa conta para uma outra, chamada Pentagram Energy Corporation. O senhor sabe quem que é o titular dessa conta Pentagram?

O simbolismo geométrico do pentagrama numa conta bancária suíça sob suspeita pode sugerir a dissimulação de cinco nomes, cinco sílabas ou apenas cinco letras de um nome. Sem resposta, seguiu-se outra relação de empresas, cujas denominações em inglês (Falcon, Hawk etc.) remetem à lembrança da ave de cabeça pequena, bico forte, curvo, e garras vigorosas.

— O senhor tem alguma predileção por nomes de aves de rapina?

Falcão (ou Baiano) esboçou raro sorriso, e repetiu:

— Permaneço em silêncio.

Semana passada, dez dias depois desse interrogatório, ele recebeu uma sentença de 16 anos e quatro meses de prisão — similar à aplicada pelo Supremo Tribunal Federal à empresária Katia Rabello, acionista do Banco Rural, por lavagem de dinheiro no caso do mensalão.

“A prova aqui é documental, clara como a luz do dia”, escreveu o juiz Sérgio Moro, indicando a extensa documentação recebida da Justiça suíça sobre as transações de Fernando Baiano, reconhecido como operador financeiro de líderes do PMDB em negócios na Petrobras.

Baiano teve a pena agravada num dos processos porque até o último dia 17 não havia revelado o destino de metade do dinheiro embolsado como “consultor” num negócio de US$ 1,2 bilhão da Petrobras com os grupos Samsung Heavy Industries (Coreia do Sul) e Mitsui (Japão), para compra de dois navios-sonda. “A única consultoria efetivamente prestada foi a de negociar e pagar propina”, registrou Moro, indicando provas de que o custo da corrupção estava embutido no valor dos contratos.

O Ministério Público Federal segue o rastro deixado por Baiano nas praças financeiras de Estados Unidos, Grã-Bretanha, Espanha, França, Japão, China e Uruguai. Apenas pela operação de venda dos navios-sonda à Petrobras, Baiano recebeu cerca de US$ 30 milhões, que repassou para contas de diferentes empresas situadas em paraísos fiscais.

DINHEIRO LOCALIZADO NA SUÍÇA

Dividiu o dinheiro com o ex-diretor Internacional da Petrobras Nestor Cerveró e o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), segundo a denúncia já formulada pelo Ministério Público. Já foram localizados pouco mais de US$ 14 milhões, com auxílio das promotorias da Suíça e da França.

Estão em investigação no exterior outras contas usadas na lavagem da propina paga diretamente por Júlio Camargo, agente do estaleiro coreano Samsung, que construiu os navios para a Petrobras. Os documentos ainda não foram apresentados ao MP brasileiro.

Parte do dinheiro foi lavada em Nova York. Deverá resultar em processo criminal nos EUA. Júlio Camargo sacou US$ 3 milhões de uma conta que mantinha no banco Merrill Lynch.

Camargo estava numa “emergência”, confessou em juízo, para pagar subornos a Baiano e a Eduardo Cunha, que, nesse caso, eram parceiros do diretor da área Internacional da Petrobras.

Havia uma pendência de US$ 15 milhões. Baiano insistia na cobrança, enquanto o deputado Cunha pressionava na Câmara, induzindo órgãos públicos a investigar supostas irregularidades nas empresas que Camargo representava.

Em setembro de 2011, reuniram-se num escritório do Leblon: “Ele (Cunha), extremamente amistoso, dizia que ele não tinha nada pessoal contra mim, mas que havia um débito meu, e que isso estava atrapalhando”, contou Camargo, no tribunal.

NEGOCIAÇÕES AVANÇAM

O acúmulo de evidências acabou estimulando Fernando Baiano a avaliar o futuro no presídio de Pinhais, no Paraná, já que ele está vinculado a outros processos por corrupção na Petrobras, um deles no Supremo Tribunal Federal. Na segunda quinzena de julho, Baiano começou a negociar um acordo de colaboração com os procuradores da Operação Lava-Jato.

Mostra-se disposto a contar a história de um alagoano que, durante a década passada, trocou a parceria com operadores cariocas, como Jorge Luz, pela exclusividade no agenciamento de interesses obscuros de líderes do PMDB. As conversas entre Baiano, advogados e procuradores federais avançam, assim como as do ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró.

Uma das condições apresentadas pelos advogados era uma significativa redução das penas. Acabou registrada por escrito pelo juiz na sentença da semana passada. Moro se referiu às gestões para o acordo: “Tem este juízo notícia de que Nestor Cerveró e Fernando Soares estariam negociando um acordo de colaboração com o Ministério Público Federal”.

Na sequência, disse ainda: “Esclareço que a presente sentença condenatória não impede essas negociações e a concessão de eventuais benefícios legais aos condenados, caso de fato se ultime algum acordo de colaboração (…). As normas legais são flexíveis o suficiente para permitir benefícios até amplos mesmo após uma condenação criminal.”

A lei da delação premiada abre a possibilidade até de perdão judicial, ainda que esse tipo de benefício não esteja previsto no acordo com o MPF. Na sentença, Moro fez questão de explicitar a garantia de que Baiano, como Cerveró, sequer precisaria se submeter a acareações com quem vier a denunciar.

Brasil, pátria enferma

Por Geniberto Paiva Campos | Brasília, agosto de 2015

“A natureza parece feita de antipatias. Sem algo para odiar, acabaríamos perdendo o próprio ímpeto do pensamento e da ação”. (*)

1. Mais de uma década sob governos progressistas, eleitos democraticamente, qual enfermidade acomete a gentil pátria amada?

A grande imprensa ou a mídia hegemônica, porta voz do Neoliberalismo, colocou o Brasil num círculo de ferro, impondo uma pauta negativa e que impacta o futuro e a felicidade da sua população. Estaríamos irremediavelmente enfermos, condenados ao mais retumbante fracasso, desde que governados por partidos progressistas, fora da ortodoxia neoliberal. Quais as causas dessa doença, aparentemente incurável?

A lista de possibilidades é ampla: problemas econômicos e financeiros; a política; a frágil infra estrutura; a corrupção sem controle; a incompetência generalizada; a crise, transformada em condição permanente e insolúvel. Quando falta assunto, a inflação, a ameaça do desemprego, o PIB baixo ou “pibinho” ocupam a cena. São previsões imutáveis, infalíveis, a se acreditar no que divulga, diuturnamente, a grande imprensa, há mais de 10 anos. A grave crise internacional do capitalismo é convenientemente omitida.

Dependendo da lente dos óculos com os quais vê a realidade, o cidadão desinformado escolherá a causa ou a explicação que melhor se ajusta à sua crença. E essa escolha irá orientar o tratamento. A corrupção generalizada aparece como a preferida. Trata-se de uma decisão fácil. Afinal, quem seria a favor da corrupção?

A realidade tornou-se apenas um detalhe. Importa, antes de tudo, a ficção criada e sustentada pelos órgãos de comunicação, influenciando a disputa política. Os quais cumprem seu papel de partido líder oposicionista insistindo em divulgar, impunemente, verdades que ainda não aconteceram. E que, provavelmente, não irão, jamais, acontecer. Isso, antigamente, tinha nome. E é, seguramente, uma forma lamentável de corrupção.

Trata-se de uma guerra de comunicação, na qual só um dos lados, a oposição ao governo progressista, dispõe de pesada artilharia midiática, utilizada em batalhas desiguais. Assimetria que não se mostrou suficiente para vencer eleições presidenciais. Mas que, sub-repticiamente, inoculou na população o vírus da desconfiança na política e nos políticos. Um perigoso efeito colateral de um discurso sem o argumento contraditório, essencial na disputa política.

2. Quais as consequências dessas batalhas midiáticas no dia a dia dos brasileiros? Na consciência e no comportamento político dos cidadãos de todas as classes sociais? Afinal, trata-se de mais de dez anos de um bombardeio incessante, sem um contraditório efetivo por parte do lado progressista. O discurso político retrógrado tornou-se hegemônico, avassalador. Pior, assumidamente, perigosamente neofascista. E enganador.

Em disputa, o futuro do Brasil. Em risco, a soberania nacional. O conflito Esquerda x Direita se acirrou no país, de tal modo, que um governo reeleito democraticamente se vê, de repente, cercado por forças estranhas. E estas, não o deixam governar. Inconformadas com a derrota nas urnas, buscam pretextos para retomar o poder através do Golpe, para impor, novamente, um programa político e econômico na contramão dos interesses nacionais.

Meio século após o Golpe Militar que durou 21 anos, e da conturbada vivência da Guerra Fria, está reinstalado um clima de instabilidade política e de incertezas no Brasil. O qual somente interessa aos que apostam na criação do caos institucional, artificialmente criado para atender aos seus propósitos inconfessáveis.

3. Qual o vírus inoculado no organismo nacional, capaz de gerar o ódio e a intolerância, preparando o retorno a formas arcaicas de fazer política que se imaginava superadas?
Talvez seja o vírus da infantilização política. O qual impede a formação da cidadania consciente. Criam-se legiões de sujeitos acríticos. Desobrigados de pensar e construir um pensamento próprio. “– eu não preciso pensar, eles pensam por mim”.

Como consequência, as pessoas passam a marchar e bater panelas. Movidas pelo ódio e pela intolerância irracional a um grupamento político. A grupos étnicos. À diversidade. Sem uma noção clara dos seus objetivos. Deixando perplexos os pesquisadores de insuspeitos institutos de aferição de opinião pública, ao ouvir incoerências e disparates políticos dos participantes das marchas.

O problema é saber aonde conduz esse tipo de comportamento. Quais as consequências, eventualmente trágicas, para o desenvolvimento e a consolidação da democracia e da liberdade num país carente desses valores como permanentes na consciência nacional. Afinal, como criar, embora com algum retardo, o discurso político alternativo?

4. A Guerra da Comunicação pode ser o front decisivo, a mãe de todas as batalhas, no confronto entre Esquerda x Direita. Foi inicialmente respondida pelo lado progressista, há aproximadamente 10 anos, através da Internet. A partir daí iniciou-se, espontaneamente, a guerra de guerrilhas travada pelos blogueiros, com muita coragem, inteligência e bom humor. Apelidados, pejorativamente, pelas vozes da Direita de “blogueiros sujos”/BS e perseguidos por inúmeros processos judiciais, os BS se mantiveram firmes em sua disposição contestatória, numa Guerra nas Estrelas onde jamais foram vencidos. E já têm reservado seu lugar na História, como decisivos soldados na luta pela Verdade e pela Democracia.

Com a rápida evolução dos meios eletrônicos de comunicação, a Guerra nas Estrelas prossegue. Torna-se essencial, no entanto, que as forças progressistas ocupem o seu espaço em outros meios eletrônicos de comunicação, como o Rádio e a TV.

“Matar a cobra com veneno de cobra”, uma expressão muito usada pelo deputado Ulisses Guimarães, se aplica, perfeitamente, à atual guerra estelar: ou seja, enfrentar as forças conservadoras no seu próprio campo. É de baixíssima qualidade a Televisão e o Rádio produzidos pelo partido líder do conservadorismo brasileiro.

Getúlio Vargas ousou combater os jornalões inimigos da década de 1950, com a criação da ÚLTIMA HORA. Ainda é o momento de “ousar lutar, ousar vencer” as batalhas eletrônicas da guerra da comunicação. O campo de luta da Internet é uma fonte de aprendizado de táticas da guerrilha da comunicação. É hora de partir para o Rádio e a TV. Como fazê-lo? Com inteligência e ousadia e planejamento estratégico. Este o desafio.

O novo Congresso Brasileiro, recém empossado, a nova fábrica de leis dos conservadores, foi eleito para fazer o Brasil retornar ao século 19. Qualquer lei de regulação das comunicações, neste momento, terá trânsito complicado, senão impossível. Vide o resultado do projeto de Reforma Política. Resta pois o campo de batalha difícil, complexo, da comunicação eletrônica.

Os dados estão lançados. Vamos à luta.

(*) – William Hazlitt, in “Sobre a Arte de Odiar”, 1882 – citado por t.j.clark , 2013

CPIs de Cunha fecham o cerco contra o PT, mas blindam parlamentares

Por Afonso Benites | Via El País

Comissão da Petrobras mira Dirceu e Vaccari. A do BNDES quer convocar Lula.

Luciano Coutinho, na CPI do BNDES. / ANTONIO CRUZ (AG. BRASIL)

O PT é o foco. É dessa forma que duas das principais Comissões Parlamentares de Inquérito (CPI) instaladas na Câmara dos Deputados com o apoio do presidente da Casa, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), têm atuado nos últimos dias. A da Petrobras mira diretamente o partido ao convocar o ex-ministro José Dirceu e o tesoureiro afastado da legenda João Vaccari Neto para deporem na próxima semana. O ex-presidente Lula também pode ser chamado, segundo requerimento de um dos integrantes. A do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) pretende atingir os dois governos petistas ao intimar para esclarecimentos todos os presidentes do banco estatal desde 2003, entre eles  Guido Mantega, que foi o ministro da Fazenda por quase nove anos. Juntas, as duas querem, de alguma maneira, chegar ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que nesta sexta-feira admitiu, pela primeira vez, que poderia voltar a participar de uma disputa presidencial em 2018. O deputado Alexandre Baldy (PSDB-GO) anunciou neste domingo (30) que vai apresentar requerimento na segunda para convocar Lula.

A CPI da Petrobras vai interrogar boa parte dos que estão ao redor de Lula e representam ou representaram o partido que ele ajudou a fundar. Além de Dirceu e de Vaccari, estão previstos depoimentos do megaempreiteiro Marcelo Bahia Odebrecht, da construtora Odebrecht, e de Alexandrino Alencar, o diretor dessa mesma empresa que foi flagrado em um grampo Polícia Federal conversando com Lula sobre o BNDES. A Odebrecht é uma contumaz doadora eleitoral de vários partidos, inclusive do PT. Já Alencar era um dos representantes da empreiteira mais próximos ao ex-presidente, sendo ele o responsável por organizar as viagens internacionais que o petista fez a convite da construtora.

“No momento que atravessamos, o PT é um alvo permanente em todas as frentes políticas. E na CPI não seria diferente”, analisou Luiz Sérgio, deputado petista pelo Rio de Janeiro e relator dessa comissão da Petrobras.

Ao mesmo tempo, nenhuma das duas CPIs tem o objetivo de expor, punir ou ao menos investigar com maior profundidade deputados ou senadores que já foram citados em esquemas criminosos como o que desviou ao menos 6 bilhões de reais da Petrobras e foi descoberto pela operação Lava Jato. Nenhum dos 23 deputados nem dos 13 senadores (entre eles os presidentes das duas Casas de leis, Eduardo Cunha e Renan Calheiros) que estão na ativa serão chamados para se explicar na CPI da Petrobras. É o que garante o relator Luiz Sérgio.

“A Câmara já tem um foro criado para investigar os deputados, que é a Corregedoria, que envia as informações para a Comissão de Ética. Se nas investigações encontrarmos irregularidades de parlamentares, comunicamos a Corregedoria, mas não vamos nos aprofundar nessa questão porque não podemos pedir a cassação de nenhum mandato”, explicou.

A semelhança entre as duas CPIs é que elas são comandadas por peemedebistas fiéis aliados de Cunha, Hugo Motta (PB) e Marcos Rotta (AM), e relatadas por membros da base governista. A principal diferença entre elas é que a primeira trabalha em cima de fatos públicos, a maioria descobertos pela operação Lava Jato, enquanto a outra se baseou em suposto uso político de recursos do banco estatal para financiar obras no Brasil e no exterior.

“As denúncias que temos são apenas suposições de irregularidades. Começamos um trabalho do zero”, explicou o relator da CPI do BNDES, José Rocha (PR-BA). Apesar de ser o responsável pelo relatório que vai nortear o trabalho dessa comissão, Rocha viu uma manobra de Cunha para lhe tirar poder. Foram criadas quatro subcomissões, sendo que três delas foram entregues a oposicionistas que atacam diretamente o Governo Dilma Rousseff.

Outra característica da CPI da Petrobras é que ela tem sido usada desde fevereiro deste ano para tentar desmentir delatores que entregaram os políticos, como Eduardo Cunha, acusado de achaques para receber propinas milionárias. A comissão até contratou uma empresa de investigação, a Kroll, por 1 milhão de reais, para levantar informações sobre os personagens chaves que desencadearam a operação Lava Jato: o doleiro Alberto Youssef, o lobista Julio Camargo, que denunciou Cunha, o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, o ex-gerente Pedro Barusco, o empresário Augusto Mendonça, o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto, entre outros.

Até o momento, não conseguiram êxito. Pelo contrário. Na semana passada, durante uma acareação entre dois desses colaboradores, os réus Alberto Youssef, doleiro operador do esquema, e Paulo Roberto Costa, ex-diretor de abastecimento da Petrobras, foram reavivadas informações de que outros políticos estariam envolvidos nos desvios da estatal, entre eles, o oposicionista PSDB, como o ex-senador Sergio Guerra (morto em 2014) e o senador Aécio Neves, informação que o partido refuta. Youssef chegou a travar um diálogo curioso com o deputado Celso Pansera (PMDB-RJ), que integra a CPI, quando este lhe perguntou sobre as reclamações do doleiro, de que estaria sofrendo intimidações de membros da comissão.

Pansera insistiu, durante o depoimento ao vivo, que Youssef dissesse a quem ele se referia. “Olha, é Vossa Excelência”, respondeu Youssef, citando requerimentos feitos pelo deputado para convocar as filhas do delator para a CPI. “Vossa Excelência sabe que as minhas filhas nunca foram investigadas, elas nunca participaram de nenhum esquema fraudulento, ou tiveram contas-fantasma ou qualquer coisa que seja. Mas Vossa Excelência insiste nisso, em me intimidar e desvirtuar a situação”, continuou Youssef. “Vossa Excelência sabe que está errado. Eu estou aqui para elucidar situações sobre a Petrobras, e contratos que eu participei, para colaborar com a verdade. O deputado reagiu dizendo que se sentia ameaçado.

Agora, a CPI corre contra o tempo para terminar. “Se não acabarmos a CPI no prazo previsto (23 de outubro) corremos o risco de ela se voltar contra si própria, como aconteceu na acareação da última semana”, disse Luiz Sergio.

Já a do BNDES, segundo o relator, não quer ser tão midiática. “Não queremos que ela seja usada como palanque político. Temos de nos prender aos critérios técnicos. Senão, não vamos chegar a lugar nenhum”, avaliou José Rocha.

Influência política

Na semana que passou, o economista Luciano Coutinho, que há quase oito anos preside o BNDES, foi à CPI que investiga o banco e negou qualquer interferência política na escolha das empresas financiadas no Brasil e no exterior. A suspeita surgiu por conta de empréstimos para empreendimentos na Venezuela, em Cuba e em países africanos. Também por conta de falsos rumores de que um dos filhos de Lula, Fábio Luís Lula da Silva (o Lulinha), seria sócio da JBS-Friboi, uma das empresas que mais recebeu recursos do BNDES nos últimos anos. Requerimentos tentando convocar Lula e seu filho para deporem nesta comissão chegaram a ser apresentados, por deputados, mas não prosperaram até o momento.

Por outro lado, antes mesmo de ser convocado pela CPI, Coutinho já havia se colocado à disposição dos deputados para esclarecer qualquer dúvida dos parlamentares. A estratégia é se mostrar o mais transparente possível. A mudança de comportamento do BNDES ocorreu apenas neste ano, depois que surgiram os rumores de que o banco seria o próximo alvo da Polícia Federal, o que não ocorreu até agora. Foi só em 2015 que o BNDES começou a publicar parte das informações referentes às empresas financiadas.

Outra alteração no cenário político-econômico foi a inesperada movimentação de parte do alto empresariado brasileiro. Três congressistas da base dilmista ouvidos pela reportagem disseram que, em princípio, surpreenderam-se com as manifestações de apoio a um pacto pela governabilidade assinado no início do mês pelas federações das indústrias do Rio de Janeiro e de São Paulo, assim como comemoraram a aproximação da presidenta com representantes de algumas das principais empresas nacionais. Nas últimas duas semanas, por exemplo, Rousseff se reuniu com empresários em Pernambuco, Ceará, Bahia e recebeu lideranças empresariais em Brasília. A razão, na opinião desses parlamentares, seria o temor de terem seus nomes expostos de maneira negativa pela CPI do BNDES. Afinal, boa parte deles foi financiada pelo banco público.

Pezão e o elitismo racista no Rio de Janeiro

Via Diário Liberdade

Neste fim de semana, o governo estadual do Rio de Janeiro adotou medidas que chocaram a diferentes setores da população.

A Polícia Militar fez operações em áreas da zona sul carioca, parando ônibus e detendo jovens, menores de idade, oriundos de favelas e demais áreas do subúrbio carioca, que tinham as praias como destino (1).

Alguns jovens foram encaminhados ao Centro Integrado de Atendimento à Criança e ao Adolescente (Ciaca). A alegação oferecida pelo governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) é que a ação policial visava “impedir crimes, como os arrastões”. Ao que tudo indica, o ficcional futuro projetado pelo filme “Minority Report” está se desenhando no Rio de Janeiro.

A arbitrariedade das ações e a pseudojustificativa apresentada pelo governador dão uma amostra da cosmovisão de sociedade esposada pela trupe peemedebista. Uma cidade em que negros e pobres são concebidos enquanto criminosos potenciais e que o direito de ir e vir, uma dimensão elementar dos direitos individuais e do direito à cidade, é tolhido por uma perspectiva elitista e racista de sociedade.

Forçoso é registrar que tal concepção política e social, que impera no Rio de Janeiro, foi tecida décadas a fio por diferentes atores individuais e coletivos: nos anos 1950/60 pelo lacerdismo (acusado de matar mendigos e notabilizado pela remoção de favelas, quando teve seu líder à frente do governo – 1961-65). Nos anos 1980-90, pelas suas “viúvas”, organizadas e estimuladas pelo PMDB de Moreira Franco e pelas Organizações Globo.

Sobretudo durante os anos de governo trabalhista de Leonel Brizola (1983-1986 e 1991-1994), a orientação do Estado era radicalmente distinta, assim como a cosmovisão política e social que prevalecia no Rio. Isso para enorme apreensão e desgosto dos lacerdistas e globoteleguiados elitistas, hoje possivelmente satisfeitos com as “realizações” do PMDB de Pezão.

Brizola, célebre por empreender iniciativas que visavam inibir a violência policial contra as populações pobres e faveladas, assim como integrar a cidade – via ligação de ônibus e ênfase orçamentária na educação pública –, no máximo, colocou a PM para organizar filas de ônibus na zona sul e para solicitar aos jovens que colocassem a blusa, de modo a terem acesso ao transporte coletivo.

Como então jovem morador da zona norte que era, assinalo por experiência e memória próprias. Se hoje tivesse 16 anos, provavelmente estaria me vendo também constrangido pela repressiva e abusiva ação inconstitucional do governo. O garoto suburbano de ontem se solidariza e se identifica com os meninos e as meninas da periferia de hoje.

Triste quadro. Pezão e seu PMDB instalam o verdadeiro terror cotidiano contra as populações faveladas – por intermédio das UPPs –, reduzem continuamente os investimentos em educação, fechando mais de 200 escolas de ensino médio, nos últimos anos. Têm operado com um verdadeiro desmonte das escolas técnicas e das universidades estaduais. À juventude destinam apenas a repressão, o terror policial e a segregação racial e geográfica. A desesperança, eis o que Pezão tem a oferecer aos jovens cariocas e fluminenses.

É lastimável ver a que ponto a antiga capital federal – autorepresentada e representada por outros estados da Federação como o “bumbo da Nação”, o espelho de uma cidade que se preocupava em construir um País soberano e popular – pode estar sujeita a um governo tão medíocre e reacionário, norteado por práticas racistas e elitistas. Infelizmente, talvez hoje o Rio de Janeiro seja um microcosmo que espelha nocivas forças latentes ou em ascensão no Brasil.

Roberto Bitencourt da Silva – doutor em História (UFF) e professor da FAETERJ-Rio e da SME-Rio.

(1)Saiba mais:

EBC: http://www.ebc.com.br/noticias/2015/08/pezao-diz-que-retirada-de-jovens-de-onibus-e-para-impedir-crimes-nas-praias

Extra: http://extra.globo.com/noticias/rio/pm-aborda-onibus-recolhe-adolescentes-caminho-das-praias-da-zona-sul-do-rio-17279753.html

Embrapa faz trabalho de inteligência estratégica para monitorar uso da terra na Amazônia

Via Sputnik Brasil

Maurício Lopes, presidente da Embrapa, fala com exclusividade para a Sputnik Brasil sobre os trabalhos desenvolvidos pela instituição e o foco voltado para a Região Amazônica.

A Embrapa – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária está completando 42 anos de existência, destacando-se sempre com projetos no Brasil e no exterior que levam ao desenvolvimento agrário e à sustentabilidade e conservação ambiental no país.

Segundo o presidente da Empresa, o engenheiro-agrônomo e geneticista vegetal Maurício Lopes, a Embrapa sempre teve como foco desenvolver um modelo de agricultura baseado em ciência, voltado para a realidade do mundo tropical no qual o Brasil se insere e preocupado com as questões ambientais e o impacto no meio ambiente.

Das 46 unidades da instituição espalhadas pelo país, Lopes destaca o trabalho de pesquisa de sustentabilidade que acontece na Região Amazônica:

“A Embrapa trabalha na verdade para todos os biomas do Brasil. Temos unidades em todos os Estados amazônicos e uma preocupação muito grande com a conservação e o manejo dos recursos naturais na Amazônia. Recentemente, temos desenvolvido um trabalho intenso de inteligência territorial estratégica para todas as regiões brasileiras, mas com uma ênfase muito grande na Região Amazônica. Estamos aplicando tecnologias de monitoramento por satélite para acompanhar a dinâmica do uso da terra na Amazônia. Nas áreas amazônicas onde a agricultura é uma atividade importante – como no Pará, em parte do Acre, no norte do Estado de Mato Grosso, a região da Amazônia Legal – nós temos feito um esforço muito grande de disseminação de práticas sustentáveis agrícolas e de agropecuária que respeitem as particularidades e fragilidades deste bioma tão importante para o Brasil e para o mundo.”

Maurício Lopes destaca ainda que ao longo da história da Embrapa um dos projetos mais importantes realizados pela Empresa foi tornar fértil o solo brasileiro:

“A transformação dos solos tropicais, que são naturalmente pobres e muito ácidos, em solos férteis foi uma das grandes contribuições da Embrapa. Há 30 anos nós tivemos o desafio de construir a fertilidade dos nossos solos. Essa é uma grande contribuição da Embrapa, em especial para a expansão da agricultura na região central do Brasil, que é a região da savana brasileira, conhecida como Cerrado do Brasil.”

Outra conquista mencionada pelo presidente da Embrapa foi a tropicalização de sistemas de produção animal e vegetal:

“Grande parte das espécies utilizadas pela agricultura brasileira vieram de outras partes do mundo, muitas delas de climas temperados. Portanto, não eram adaptadas à realidade brasileira, como a soja, que veio da Ásia, de uma região de clima mais frio, muito diferente do clima brasileiro. Hoje a soja é perfeitamente adaptada às várias regiões do Brasil. E temos também uma pecuária com raças animais e pastagens plenamente adaptadas à realidade brasileira.”

A terceira grande vertente de contribuições da Embrapa destacada por Maurício Lopes foi o desenvolvimento de uma grande plataforma de práticas sustentáveis, como o plantio direto realizado com a proteção dos solos.

“Em grande parte dos solos brasileiros não é preciso arar e revolver o solo todo ano. Nós plantamos sob uma proteção de palha, que fica sobre o solo, e isso tem um impacto muito grande na conservação desse recurso natural. Desenvolvemos práticas de fixação biológica de nitrogênio, que elimina a necessidade de aplicar esse fertilizante em sua forma química no solo. São bactérias que são inoculadas na semente e que fixam o nitrogênio do ar. Apenas este ano essa tecnologia economizou para o Brasil cerca de R$ 12 bilhões.”

Atualmente, a Embrapa está desenvolvendo o que Maurício Lopes considera a próxima grande revolução da agricultura tropical, que são os sistemas integrados:

“A integração de lavoura com pecuária e com floresta. Sistemas mistos. Essa será a próxima revolução, a chamada intensificação sustentável da nossa base de recursos naturais.”

No âmbito internacional, a Embrapa tem um programa de cooperação bem estruturado, como a parceria científica há quase duas décadas com instituições nos Estados Unidos, França, Alemanha, Reino Unido, Coreia do Sul, China e, em breve, no Japão. Tem ainda forte cooperação técnica com países da África e da América Latina, priorizando a transferência de tecnologia e capacitação para que o Brasil possa compartilhar com países no cinturão tropical do globo as tecnologias e os conhecimentos gerados para a agricultura tropical.

Democracia fiscal e tributária para financiar saúde popular irrita burguesia especuladora

Por César Fonseca | Via Independência Sul-Americana

A burguesia financeira e industrial brasileira teme e reage radicalmente à cobrança de imposto sobre movimentação financeira, como é o caso da extinta CPMF(Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira), a ser ressuscitada em forma de CIS(Contribuição Intefederativa para Saúde), porque ela introduziria no sistema tributário nacional o conceito de justiça tributária como fator fundamental de combate à desigualdade social.

Pagaria mais imposto quem mais realiza movimentação financeira; pagaria menos quem movimenta menos.

Lógica cartesiana.

Essa movimentação, por sua vez, introduz, no sistema tributário, simplificação completa de procedimentos.

Assim que o imposto é arrecadado, imediatamente é repassado ao tesouro nacional, que, por sua vez, realiza sua transferência, também, automática, para os demais entes federativos, de acordo com regras institucionais.

Aumenta, extraordinariamente, a relação transparente entre governo e contribuinte, fortalecendo mútua confiança e credibilidade da sociedade nos poderes públicos.

A administração da arrecadação ficaria muito mais barata com introdução da simplificação tributária e consequente eliminação da burocracia, contribuindo, para redução de déficits públicos.

Tudo fica mais explícito, fortalecendo confiança nas instituições democráticas do Estado de Direito.
Ao pagar o tributo, o contribuinte estará fazendo sua própria declaração de imposto.

Pagou, declarou.

Configura-se relação de responsabilidade entre fisco e contribuinte.

Da mesma forma, abertura e fechamento de negócios se tornam simplificados ao extremo.

Ao abrir uma empresa, o empresário já estará pagando e declarando imposto.

Torna-se impossível a sonegação.

Ao fechá-la, devido a circunstâncias variadas, não estará, igualmente, em débito com o fisco, nem sujeito aos trâmites burocráticos, que implicam despesas com multas, juros, mora etc, se existem débitos etc.

Se se paga e se declara automaticamente não há resto a pagar nem a declarar.

A relação contribuinte-receita é, em última análise, dada, apenas, pela movimentação financeira.
Cairia por terra tremenda injustiça tributária caracterizada pela regressividade tributária existente hoje no Brasil.

A regressividade, expressão genuína da injustiça tributária, promove, substancialmente, a desigualdade social: são mais altos os impostos cobrados sobre os produtos consumidos pelos mais pobres do que sobre aqueles adquiridos pelos mais ricos.

Da mesma forma, os mais ricos pagam menos impostos do que os mais pobres, porque dispõem de dinheiro para pagamento de advocacia tributária, por meio da qual exercitam, à larga, o instituto da elisão fiscal, que reduz tributos a pagar.

Uma sonegação disfarçada de legalidade.

Um Lázaro Brandão, dono do Bradesco, por exemplo, paga menos imposto do que um assalariado, que trabalha no caixa do supermercado SuperMaia.

O pobre paga, por dentro, o imposto alto incidente sobre o arroz e feijão que come; já o rico paga tributo insignificante sobre comidas e bebidas caras, importadas que o dinheiro da riqueza lhe faculta etc.

Entretanto, se muda o critério de cobrança, em que Lázaro, que ganha mais, paga mais, e o José, do caixa do armazém, que ganha menos, paga menos, todos, portanto, pagam de acordo com suas possibilidades.

O resultado lógico desse sistema universal de cobrança de imposto sobre movimentação financeira é, naturalmente, ampliação da base de arrecadação.

A nova CPMF/CIS representa decisão de tirar dos agiotas para dar aos mais pobres que não têm na saúde os recursos suficientes para serem atendidos pelo SUS. O mesmo acontece com os setores da educação, transporte, infraestrutura, indústria, cultura, saneamento desporto, lazer previdência etc, etc. Os interesses dos bancos garantidos pela Constituição em seu artigo 166 predominam sobre todos os demais interesses sociais. Trata-se, portanto, de mais um capítulo da luta de classes em marcha no Brasil, marcado pela extrema desigualdade social que o mapa acima preparado pela Auditoria Cidadã da Dívida comprova à larga.

Se todos pagam, numa base de arrecadação maior, aumenta o ingresso de tributos no caixa do tesouro em obediência à maior justiça tributária e à menor desigualdade social.

Mais justiça tributária, combatente da desigualdade social, representaria, por sua vez, poderoso estímulo ao empreendedorismo, graças à vantagem simplificadora e transparente tanto para abrir como para fechar empresas, sem burocracia, sem despesas e sem pendências e complicações fiscais.

A relação governo-estados ganharia outro conteúdo: o resultado da arrecadação ficaria no destino das mercadorias e não na origem delas.

Haveria maior e melhor distribuição espacial da renda, pondo fim, portanto, à guerra fiscal.

A ressurreição da CPMF/CIS – com a qual o governo pretende arrecadar R$ 80 bilhões – poderia não apenas representar solução para a saúde como oportunidade fundamental para promover democracia fiscal e tributária desenvolvimentista.

Bastaria permitir ao contribuinte pessoa jurídicada direito de escolha para pagamento de imposto, livremente, negociado entre contribuinte e receita federal.

A experiência poderia começar pelas micro e pequenas empresas(95% sobre o total do universo econômico nacional, responsável por 45% da arrecadação), com cobrança de alíquota de 5% sobre todas as transações financeiras realizadas por elas.

Por que não dar ao empresário direito de escolha na questão tributária, pagando com uma só alíquota a totalidade do débito fiscal, livrando-o dos demais recolhimentos contidos no cipoal tributário esquizofrênico e antieconômico, inviabilizador da competitividade nacional no plano global?

Quem quiser ficar submetido ao sistema tributário atual, complicado, burocrático, regressivo, injusto etc, tudo bem; quem não desejar, que possa optar, negociando com a Secretaria da Receita Federal alíquota única de impostos, eliminadas todas as demais, a partir da celebração de acordo.

Resultado positivo eventual dessa experiência poderia representar efeito demonstração para ser ampliado às demais empresas, médias e grandes, no médio e longo prazo.

No ambiente da modernização completa das atividades produtivas pautadas pela universalização do dinheiro eletrônico como moeda de troca, as possibilidades de cobrança de imposto único sobre transações financeiras vão se tornando não apenas necessárias, mas absolutamente indispensáveis.

Trata-se de tendência irrefreável do controle econômico e social democrático em nome do interesse público.

A predominância do interesse público, tornado imperativo categórico pelas próprias circunstâncias econômicas, decorrentes da modernização das relações de troca, seria a motivação maior democraticamente estabelecida.

Em nome da justiça tributária, do combate à desigualdade social, a cobrança do imposto sobre circulação financeira fixa predominância do interesse público sobre o interesse privado.

É esse interesse privado – expresso numa minoria de meia dúzia de grandes bancos(Itaú, Bradesco, Santander, HSBC, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e outros), responsáveis por movimentar, segundo pesquisa do BC, R$ 1,7 trilhão de depósitos, em regime de oligopólio bancário – que resiste à cobrança da nova CPMF/CIS.

Eis a expressão genuína da nova luta de classes em cena com a decisão da presidenta Dilma Rousseff de ressuscitar nova CPMF/CIS.