Impulsionados pelo relevante artigo O PT e seu governo ignoraram que sem ideologia não há hegemonia, os colaboradores da Associação Desenvolvimentista Brasileira travaram um notável debate sobre a influência da ideologia nas massas e o quão estratégico é, principalmente em tempos de crise, ter um discurso e projeto sólidos e coerentes objetivando respostas eficientes e eficazes para os problemas socioeconômicos carentes de resolução.
Confira:
Gustavo Santos – Sua análise está ótima, mas acho que peca apenas por vincular o PT a um certo social-desenvolvimentismo.
Os petistas jamais aceitaram essa pecha, nem hoje, muito menos antes de virarem governo.
Social-desenvolvimentista era o Brizola e seu antecessor, Vargas.
O PT na verdade, foi criado para ser uma alternativa ao social-desenvolvimentismo.
O PT é o social-anti-estatismo-trostiskista-católico.
André Luís – Mas houve alguma revisão no partido depois que chegou ao poder.
Gustavo Santos – Na prática no segundo mandato do Lula houve alguma abertura para políticas um pouco desenvolvimentistas, mas o PT não incorporou isso em sua ideologia oficial.
André Luís – O problema é que no Brasil, falta quem ocupe este espaço, quem traz no sangue os ideais dos grandes sociais desenvolvimentistas brasileiros, o Requião é um dos poucos que nos restam, mas tem poucos seguidores. Esta é uma preocupação dos desenvolvimentistas, como nos unirmos para trazer de volta para os governos os ideais desenvolvimentistas?
Gustavo Santos – O problema é que o império mandou a mídia fingir que não existe mais desenvolvimentismo, que é coisa jurássica…
Heldo Siqueira – Na verdade a oposição (ou o império) entende que é a ideologia que mantém a hegemonia e é muito eficiente em defender sua ideologia. Trata-se da ideologia da maximização econômica. E a estratégia de defesa dessa ideologia é cínica: i) argumenta-se que os mercados trazem a eficiência econômica; => o interlocutor mostra que não é o caso em mercados oligopolizados; => ii) o defensor da ideologia argumenta que a iniciativa privada deve ser livre para dispor de seus próprios recursos; => o interlocutor mostra que liberdade não é um conceito absoluto; => i) argumenta-se que os mercados trazem a eficiência econômica.
O problema é que em algum momento a esquerda brasileira acreditou nesse discurso de eficiência econômica e não consegue pensar em visões alternativas que concatenem o debate pelo lado da esquerda abrangendo conjuntamente: i) liberdade econômica; e ii) eficiência econômica.
Gustavo Santos – É verdade, a esquerda (o PT) acreditou sim no discurso da eficiência econômica, mas só porque o PT é um completo vazio ideológico em questões econômicas e de Estado.
Atenágoras Oliveira – A esquerda brasileira não! O PT, o PC do B, e as alas “legítimas” do PDT e do PSB!
Já o PCB, o PSTU e a esquerda do PSOL, sem falar em muitos militantes sem partido, não caíram nessa não. Podemos ser muito poucos, muito pequenos enquanto coletivos, mas nos tire fora dessa!
André Luís – Na verdade, quais os partidos brasileiros que tem uma visão clara sobre questões econômicas ou de estado, a direita tem aquele discurso velho da década de 90, ou com um liberalismo que não se aplica nem nos Estados Unidos. Os economistas de direita que tem visão de Estado ou econômica são colocados de lado, talvez com a única exceção do Delfim. Antigamente havia um pensamento estratégico e econômico de direita e que ocupou o governo depois do golpe militar, queira ou não, goste ou não, havia um pensamento dinâmico de direita até a década de 80.
A esquerda pode ter visão em outros campos, mas na economia ou na estratégia ele é muito vesgo e até ingênuo, ninguém hoje defende um projeto como Celso Furtado, Inácio Rangel ou Maria da Conceição Tavares.
Existem economistas que pulam de um lado para o outro, Beluzzo, Bresser etc. são pessoas que tem conhecimento de economia, ou estratégia, mas eles são muito pendulares.
Vivemos hoje, talvez o maior período de mediocridade ideológica desde a idade média.
Heldo Siqueira – Quando falo que a esquerda aceitou a ideologia da eficiência econômica eu quero dizer que aceitou sem questioná-la. Não se trata de negar a possibilidade de cálculo econômico ou de calcular estratégias mais eficientes de desenvolvimento. Quero dizer que aceitou a ideologia da eficiência econômica sem propor melhoramentos que incluíssem alternativas econômicas mais complexas que as propostas pelos ditos liberais (que não passam de colonizados).
Por trás do liberalismo brasileiro não está o capitalismo, mas o patrimonialismo. É a liberdade da minoria econômica escravizar o povo. A esquerda brasileira não conseguiu desenvolver um discurso liberalizante que incluísse a maioria da população, ficando nas críticas pontuais.
Flavio Lyra – Em nenhum momento cheguei a afirmar que o PT tivesse aceitado a ideologia social-desenvolvimentista. Ao contrário, ao PT sempre faltou uma ideologia que servisse de contraponto ao neoliberalismo. O germe da ideologia social desenvolvimentista em realidade não chegou a desabrochar. O que o PT e seus governos fizeram, salvo um curto período do governo Dilma, foi aceitar a ideologia liberal-dependente, proveniente do Consenso de Washington e tentar dentro de seu arcabouço realizar uma política social. Isto só funcionou num período curto, quando a demanda chinesa de matérias primas estava em forte expansão. Foi exatamente por falta de ideologia que o PT deu com os burros n’água e não está sendo capaz sequer de manter a base popular que se beneficiou das ações realizadas na área social. O PT conseguiu chegar ao poder e manter-se no governo por quatro anos, mas sem afirmar qualquer hegemonia, pois sem ideologia só poder haver apoio popular superficial e nas conjunturas favoráveis. Na crise, só com hegemonia é possível sustentar o apoio na sociedade civil.
