‘A criação da Telesur demonstrou que podemos ter uma visão latino-americana própria’

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Via Adital

A Agência de Notícias Prensa Armenia entrevistou, recentemente, o jornalista uruguaio e fundador do canal Telesur Aram Aharonian para falar sobre o seu novo livro “La internacional del terror mediático. Vernos con nuestros propios ojos” [A internacional do terror midiático. Vermo-nos com nossos próprios olhos, em português], na qual aborda o papel dos meios e do jornalismo a partir de uma perspectiva latino-americana.

Aram Aharonian trabalhou com Eduardo Galeano, Rodolfo Walsh, Paco Urondo, Juan Gelman e Miguel Bonasso, entre outros.

Por que elegeste como figura simbólica “a guerra” para representar “a guerra simbólica”, “batalha ideológica” ou os meios hegemônicos como “unidades militares”?

Primeiro, porque esta é a mesma luta: o que mudou foram as armas. Guerra convencional, guerra de guerrilhas, guerra cultural: o inimigo é o mesmo, a utopia continua sendo a mesma. O que muda é o cenário, os ferros. O inimigo antes – há quatro décadas – usava as forças armadas para impor um modelo político, econômico e social (com mortos, desaparecidos, torturados). Hoje, não necessita de baionetas nem de tanques; basta o controle dos meios massivos de comunicação. E assim nos bombardeiam com informação, publicidade, entretenimento (séries de televisão, jogos cibernéticos, por exemplo), 24 horas por dia, com sua mensagem e imagem única, na sala ou no dormitório das nossas próprias casas.

Hoje, o campo de batalha é simbólico. Estamos em plena batalha cultural: a guerra por impor imaginários coletivos se dá através dos meios cibernéticos, audiovisuais, gráficos. E, para lutar essas batalhas pela democratização da palavra e da imagem, das nossas sociedades, é preciso aprender a usar essas novas armas, as câmeras, Internet, microfones…

Tanto neste livro como no anterior “Vernos con nuestros propios ojos. Apuntes sobre comunicación y democracia [Vermo-nos com os nossos próprios olhos. Apontamentos sobre comunicação e democracia, em português] propõe a necessidade de construir uma cultura contra-hegemônica nos termos de Gramsci, ainda que não subalterna, que possa competir, qualitativamente, com a cultura hegemônica. Referente à construção de novos meios, é possível levar adiante esses projetos sem os orçamentos das grandes empresas? O Estado pode ser uma resposta?

Dói-me dizer isso, mas, a partir dos movimentos sociais, a partir da imprensa alternativa, há uma queixa permanente pela falta de recursos… e, muitas vezes, o que faltam são ideias, criatividade, trabalho coletivo, complementação.

Muitas vezes, a partir do campo popular, nos queixamos que não temos os recursos das empresas transnacionais… mas creio que, em geral, os fracassos vêm por falta de ideias (e não de dinheiro), por falta de convencimento no projeto coletivo (ou ausência deste) e pela grande dificuldade que temos para nos juntarmos: todos querem ser protagonistas, ainda que seja de um meio marginal, mas protagonistas. Com ideias, com criatividade, podemos conseguir os recursos e levar adiante projetos massivos; o dinheiro não produz ideias nem criatividade, e muito menos no caminho da democratização da comunicação e da informação.

Debe ser dever dos Estados fomentarem a recomposição dos espaços públicos, da formação de comunicadores populares, do fomento (não falo de financiamento) dos meios populares. Se não formamos nossa juventude nestes princípios democráticos, difícilmente podemos manter a esperança no futuro. Recuperar nossa memória histórica significa saber de onde viemos, para saber para onde vamos. Um povo que não sabe quem é, quais são suas raízes, dificilmente pode mudar seu futuro, e este lhe será imposto sempre de fora. Recuperar a memória nostalgicamente é eminentemente retrógrado, é a ancoragem no denuncismo, na resistencia per si, no chororô.

Sua frase “vermo-nos com nossos próprios olhos” faz referência a que os latino-americanos “sempre nos vemos com outros olhos, com olhos estrangeiros”. A fundação da Telesur, em seu momento, foi uma solução para essa problemática?

Eduardo Galeano dizia que não existe nenhuma fórmula para mudar a realidade se não se começar a vê-la como ela é. Isso, para poder transformá-la, é preciso começar por assumi-la. Estivemos por 520 anos cegos de nós mesmos. Seguimos apegados em que “já está tudo inventado” e, também por isso, continuamos copiando modelos estrangeirizantes (demonstrando que ainda não pudemos nos desligar do colonialismo cultural) e fazendo uma comunicação reativa (e não pró-ativa) à agenda que nos impõem os meios hegemônicos.

Não sabemos quem somos, como somos, o que queremos comunicar. E assim sempre vamos ser reativos, não nos vemos em nossos próprios espelhos.

A criação, ou mais bem, a colocação em andamento da Telesur, há 10 anos, demonstrou que sim podemos ter uma visão latino-americana própria, que isso não estava limitado às grandes corporações transnacionais. E, a partir daí, começamos a ter um olhar contra-hegemônico, alternativo à mensagem única. Não é uma solução, é um caminho. E, hoje, sabemos que de nada serve ter 100, 1 mil emissoras telesur a mais, se não temos novos conteúdos, de acordo com a nossa própria agenda informativa, cultural e política, porque senão estaremos condenados a ver “El Chavo del Ocho” [Chaves] pelo resto da nossa vida…

Levando em conta o seu trabalho na Fundação para a Integração Latino-Americana, acredita que a aliança entre meios contra-hegemônicos pode ser um dos pilares na construção de uma nova comunicação?

Diante de tudo é preciso romper com o verso de que alternativo significa marginal: é totalmente o contrário, porque para ser alternativo (à mensagem hegemônica) é preciso pensar no massivo, com meios massivos ou com redes de meios populares. Mas, para isso, é necessário ter um projeto comum, sobre princípios comuns, que permita produzir e compartilhar conteúdos em qualquer das plataformas que programemos.

As chamadas redes sociais, as novas tecnologias são apenas ferramentas, para por aí irradiar as mensagens em qualquer plataforma. Em uma primeira avaliação, parece que vai ganhando a ideia cultural capitalista do individualismo.

Creio que uma das bases para ter meios com público é fabricar novos conteúdos, fazer bancos de conteúdos – audiovisuais, sonoros, gráficos, jogos cibernéticos –, que estejam à disposição dos meios populares, para que estes não se vejam obrigados a repetirem os enlatados da anti-cultura.

Neste livro, mencionas as “notícias virtuais” e a desfasagem do contraste com a realidade, que termina desmentindo essas notícias. É nessa desfasagem que se constróem as operações midiáticas? Como funciona, nesses casos, a dinâmica de ferramentas, como o Twitter, em que a informação circula em tempo real, levando em conta o que propõe no final de “La internacional del terrorismo mediático”, quando postulas que, nas redes sociais, não se utilizam as fontes?

A única verdade e a realidade, dizia Perón. Mas a realidade é o que nos mostra a televisão, convertida em difusora de espetáculos – com sua dose de banalização e de espetacularização – e não de informação? Os meios ficaram nas mãos de conglomerados empresariais, que manipulam a informação, alheios a todo conceito de ética, à sua vontade em função dos seus interesses corporativos (políticos, econômicos, financeiros, políticos, religiosos), em nosso continente pelo menos em aliança com as mais reacionárias forças políticas, muitas vezes, para desestabilizar nossos governos populares, com a finalidade de restaurar a velha ordem conservadora e neoliberal.

Hoje parece que não nos interessa se uma notícia é verdad, mas se “me agrada”. A instanteneidade da informação e a falta de corroboração da mesma, a mentira, a montagem (caso Guerra do Golfo 1 e bombardeio de Bagdá, por exemplo) criam imaginários coletivos, verdades virtuais, que só o tempo e/ou o contraste pessoal com a realidade, conseguem desmontar. Democratizar a informação e a comunicação é apostar no pluralismo (não pela mensagem e a imagem únicas), a diversidade…

Com a massificação da Internet surgiu uma necessidade pela imediatez informativa. Um meio alternativo pode aspirar a satisfazer e cumprir com essa dinâmica sem contar com uma estrutura econômica? Pode-se competir com as agências internacionais? A construção de meios para segmentos muito específicos é uma solução para esse problema?

Mais do que uma necessidade surgiu a possibilidade da imediatez, o que muito poucas vezes significa veracidade. Mas, quando essa realidade virtual se repete até o cansaço, sem possibilidade de ter outra versão dos acontecimentos, é a demonstração da imposição de uma mentira, distante da realidade-real. E quanto dura uma primícia? Quando surgiu a Al Jazeera, havia informação alternativa que davam aos meios ocidentais, cartelizados, sobre o Oriente Médio, quando surgiu a Telesur, a CNN em espanhol não pode seguir invisibilizando e ocultando as realidades latino-americanas.

Sim, temos outro problema: muito mais da metade das imagens que usam as nossas televisões provém das transnacionais da informação que, desse modo, impõem sua agenda e seus interesses. E ainda, na América Latina, a maior parte da informação que circula sobre a nossa região, provém também de agências noticiosas transnacionais ou de meios ocidentais, e alguns até cristãos. Por isso, a necessidade de nos vermos com nossos próprios olhos.

A principal rubrica de exportação dos EUA não são as armas, mas os conteúdos, com os quais nos bombardeiam – através da informação, da publicidade e das chamadas indústrias culturais (séries, ficção) – 24 horas por dia: a nova arma mortal não difunde isótopos radioativos, se chama meios de comunicação de massas, que impõem imaginários coletivos, isso que algunos querem chamar de guerra de quarta geração.

Seguindo com o conceito do jornalista Carlos Fazio, chama “terrorismo midiático” um “entrelaçamento de estratégias políticas, econômicas, sociais e psicológicas, que buscam criar realidades fictícias, medos coletivos e converter mentiras em verdades que permitam manipular a sociedade, de acordo com o conflicto e o inimigo em questão”. Qual é o papel do jornalista, dos redatores e dos editores nesses casos, levando em conta que, hoje, cada jornalista é seu próprio meio de alguna forma a ter seus próprios seguidores no Twitter ou blogs pessoais?

A nossa academia, a latino-americana (em geral) está ancorada nos anos 1970, quando o pensamento latino-americano sobre comunicação e informação era dos mais avançados. Há mais de 40 anos. E não se produziram novas teorias e nossas universidades seguem recitando os velhos textos, descontextualizados, obviando a nova realidade latino-americana e de cada um dos nossos países, esquecendo o pensamento crítico, para nos devolver a cada ano milhares, milhares e milhares de comunicadores e jornalistas com um título universitário, sem conhecimento da sociedade a qual devem prestar serviço e, muitas vezes, sem a suficiente profissionalização no uso das ferramentas disponíveis, hoje.

Para entender bem isso, devemos partir da base que os proprietários dos meios são conglomerados econômicos, que os usam para imporem seus interesses. Que um jornalista, no melhor sentido da palavra, é um trabalhador, como um carpinteiro ou um médico: que poucos entendem a função social do jornalista, que temos que abater velhos paradigmas, como a objetividade, a imparcialidade, a neutralidade; nenhum meio de comunicação (comercial, estatal, popular, público) é objetivo, mas responde a uma linha editorial. O que é imoral é travestir-se de objetivo para impor seus interesses.

Em sua ampla trajetória, trabalhaste com muitos jornalistas que, hoje, são considerados exemplos dessa profissão e, por sua vez, são reconhecidos por sua militância política, e a forma de imbricar ambas as questões. Gostaria que nos diga algumas palavras sobre eles e sobre como é vista, hoje, a relação do jornalismo com a militância política.

Trabalhei junto com jornalistas do quilate de Carlos Quijano (Marcha), Eduardo Galeano e Carlos María Gutiérrez (Época, PL), Neiva Moreira (Cuadernos e Ahora), em Montevidéu; Juan Gelman, Paco Urondo, Rodolfo Walsh, Jarito Walker, Quique Raab, Cogote Bonasso, Pablo Piacentini, Pablo Giusani, Zelmar Michelini… em Noticias e Informaciones: Tito Paoletti, Ernesto Ponsati, e tantos outros em La Voz, na Argentina; com Blankito, na Colômbia; com tantos companheiros enamorados do processo bolivariano na Venezuela e com aqueles “loucos” que se somaram à utopia da Telesur… o que dá a pauta do velho que estou. Desde aqueles primeiros anos 1960 até hoje, a luta continua sendo a mesma: a democratização da informação e da comunicação, para que todos tenham voz e imagem, pela construção dessa nova comunicação, a partir de baixo, ombro a ombro, lado a lado, consciente de que a única coisa que se constrói a partir de cima… é um poço.

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