Arquivo mensais:junho 2015

Nova comitiva de senadores terá agenda intensa na Venezuela

Via Agência Senado

Os senadores Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM), Telmário Mota (PDT-RR), Lindbergh Farias (PT-RJ) e Roberto Requião (PMDB-PR) terão uma intensa agenda nesta quinta-feira (25). Eles compõem a comitiva externa do Senado que visita a Venezuela e viajaram ao país vizinho nesta quarta-feira (24), em um avião da Força Aérea Brasileira (FAB). O objetivo da visita, segundo Lindbergh, é conversar com representantes do governo e da oposição para entender a situação política atual da Venezuela. A comitiva também vai defender a democracia, com a realização de eleições livres e isentas.

Logo no início da manhã, a comitiva de senadores vai se reunir com o Comitê de Familiares Vítimas das Guarimbas – como são chamadas as ações de guerrilha na Venezuela. Está prevista para as 13h uma reunião com partidos de oposição. As legendas oposicionistas acusam o governo do presidente de Nicolás Maduro de tomar posições antidemocráticas e limitar a liberdade de imprensa. Logo depois, às 15h, os senadores vão se encontrar com representantes do Ministério Público e da Defensoria Pública.

Para as 17h, está prevista a última reunião oficial do dia. A comitiva vai se encontrar com o presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello, e com a ministra de Relações Exteriores, Delcy Rodrigues. Ao fim do dia, os senadores retornam para o Brasil.

A constituição de uma comitiva para visitar a Venezuela foi aprovada pelo Plenário do Senado na semana passada. O requerimento pedia a verificação in loco da situação política, social e econômica da Venezuela. O presidente do Senado, Renan Calheiros, disse esperar que a comitiva tenha uma recepção civilizada. Segundo o presidente, a comitiva atual representa o Senado, assim como a comitiva anterior.

Esta é a segunda comissão de senadores que visita a Venezuela em duas semanas. Na quinta-feira passada (18), um grupo de senadores desembarcou no país vizinho com a intenção de conversar com presos políticos. No entanto, a van que conduzia os senadores foi parada por manifestantes. Depois do incidente, a comitiva enfrentou problemas no trânsito e teve de voltar ao aeroporto, sem cumprir a missão.

No retorno ao Brasil, os senadores criticaram a Venezuela e o governo brasileiro – que, segundo eles, não apoiou a comitiva de forma devida. O senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP) chegou a dizer que os parlamentares brasileiros foram para uma “arapuca armada pelo governo venezuelano”, com a cumplicidade do governo brasileiro. Como reação, os senadores integrantes da comitiva anunciaram ações que visam a exclusão da Venezuela do Mercosul.

A senadora Ana Amélia (PP-RS) apresentou um voto de repúdio – que foi enviado à Venezuela, mesmo sem ter o apoio da maioria dos colegas. A constituição de outra comissão também foi motivo de discussão entre os senadores. Para Aécio Neves (PSDB-MG), a nova comitiva é “chapa branca”. Na visão de Lindbergh, porém, a comissão anterior teve um papel incendiário na Venezuela e atuou com um viés político, de olho na política interna do Brasil.

“Queremos ter uma posição equilibrada. A última coisa que queremos é que a Venezuela entre em uma guerra civil”, afirmou Lindbergh.

Urgência nas discussões sobre a água

Por Júlio Ottoboni | Via Envolverde

Um dos maiores especialistas em sensoriamento remoto do país e chefe do departamento de distribuição de imagens de satélites do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Paulo Roberto Martini, alerta para o agravamento da crise hídrica e a necessidade premente de água voltar as agendas em todos os setores da sociedade, principalmente dos poderes públicos.

“Toda abordagem feita até agora é que entraremos num quadro mais agudo, é preciso voltar o tema para as agendas e tomar decisões sem desvios políticos ou econômicos”, observou o pesquisador.

Martini é geógrafo por formação acadêmica, além de ter especialização em Remote Sensing Technology pela Remote Sensing Technology Center Of Japan Restec, em Política e Planejamento Estratégico pela Escola Superior de Guerra e mestrado em Sensoriamento Remoto pelo Inpe. Além de ser um dos mais antigos funcionários do instituto e coordenador do projeto Panamazônia.

Qualificação não lhe falta fazer uma série de alertas, já que acompanha com grande interesse a escassez de chuvas no sudeste do país, em particular na região de São Paulo. Segundo ele, as imagens de satélites mostram que o volume de água está diminuindo há alguns anos, inclusive a cor da água, que é um indicativo para os especialistas na leitura e interpretação das imagens.

“Quando o reservatório está cheio, a cor da água aparece preta na imagem. Mas quando está mais rasa a cor predominante é azul turquesa, agora quando surge completamente branca é que a água está completamente poluída”, explicou.

Atualmente as represas estão divididas, pelas imagens de satélites, entre brancas e azuis. As águas se tornam esbranquiçadas nas imagens de satélites pela presença de um espécie de planta monofilética, que se espalha com uma velocidade muito grande em águas poluídas. Martini lembra que o declínio da qualidade da água da represa Billings ocorreu no começo dos anos 2000, quando sua superfície ficou totalmente clara.

“É preciso repensar esse processo todo da água, mas num regime de urgência, não temos mais tempo para postergações”, observou o pesquisador, que há exatos 20 anos efetuou uma série imensa de cálculos para estabelecer que o Rio Amazonas era o maior em extensão em todo mundo. E foi além, que o derretimento das neves eternas naCordilheira dos Andes poderia ser um indicativo que o complexo do Amazonas estava em seu apogeu hídrico.

O pesquisador do Inpe pede não só atenção para a questão do aquecimento global, já que cerca de 80% da população mundial se diz “muito preocupada” com os efeitos da mudança climática. De acordo com pesquisas recém divulgadas, embora esse alerta tenha chegado até as pessoas, menos da metade delas apoia um imposto sobre o carbono para diminuir as emissões.

O levantamento realizado em 79 países de forma simultânea teve seus resultados publicados no site da “World Wide Views on Climate and Energy”.

Aquecimento das águas atlânticas

Martini também apresenta um situação que tem afligido os meteorologistas e climatologistas. A formação, até o momento inexplicável, de grandes piscinas de água quente na porção mais ao sul do Oceano Atlântico. Essa alteração no gradiente térmico da Temperatura da Superfície do Mar (TSM) tem impedido a chegada das frentes frias até o continente, que são responsável por grande parte das chuvas em São Paulo.

“Eu tento pegar indicadores geológicos como esses aquecimentos do Atlântico Sul, como depósitos aluvionares marinhos com mais de 12 mil anos e mais novos, entre 8 e 7 mil anos, quando o mar cobriu a enseada de Santos e grande parte do litoral, até Marajó”, comentou sobre um possível estudo sobre um possível ocorrência histórica.

Essa subida dos níveis dos mares se deu pelo aquecimento global, queda no volume das calotas polares e consequência aumento da água liquefeita, além da expansão física da água aquecida. Os estudos iniciais nos aluviões nas áreas costeiras não apresentam ainda correlação com a mudança no regime de chuvas e, consequentemente, o nível das represas atuais, embora isso possa ser comprovado com pesquisas mais aprofundadas.

“Esses aquecimentos anormais do Atlântico precisam ser estudados, pois a estiagem que ocorreu se deu também por esse fenômeno. As massas de ar frio não conseguem chegar até a porção continental, onde acaba encontrando um gradiente térmico mais quente e provoca as chuvas. Essas piscinas de água quente estão bloqueando a entrada das frentes e com isso ocorre a estiagem. Mas é cedo ainda para termos qualquer prognóstico sobre esse fenômeno”, afirmou Martini.

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Júlio Ottoboni é jornalista e especialista em jornalismo científico.

Quem juntará os cacos do Brasil?

Por Tereza Cruvinel | Via Brasil 247

Prossegue em marcha batida a depredação do Brasil para livrá-lo de Dilma, da volta de Lula e de governos do PT. O juiz Moro forçou a mão para justificar a prisão dos presidentes das duas maiores empreiteiras mas quem se arrisca a dizer isso? Este foi apenas um estrépito agudo dentro do bombardeio contínuo das estruturas políticas e econômicas do país. O governo tragado pela vertigem dos problemas, alguns criados por ele mesmo, ministra antitérmicos para uma infecção que se generaliza. A oposição, ao invés de se apresentar como alternativa responsável para o próximo rodízio, lança coquetéis molotov. O Congresso, enquanto isso, disputa nacos de orçamento e segue em sua agenda regressiva. Não sobrou ninguém, nenhuma espécie de “bom senso futebol clube” para fazer um chamado à razão. E depois do crash, quem juntará os cacos do Brasil espatifado para recomeçarmos?

A crise ainda vai piorar, ninguém sabe quanto vai durar nem aonde vai chegar. Neste ambiente, quem se arriscará a investir no Brasil?, perguntou o presidente da Mercedes Benz em entrevista ontem à Folha de S. Paulo. A presidente discutiu com seus ministros os efeitos nefastos das prisões sobre os leilões de concessões à iniciativa privada, a mais concreta iniciativa do governo para reanimar a economia. O ajuste fiscal de Levy vai sendo comido pelo Congresso e a crença dos agentes econômicos em seus efeitos se reduz.

O governo tem razão para temer pelo futuro das concessões. Se o juiz Moro já apresenta como uma das razões para a prisão dos dirigentes de Odebrecht e Andrade Gutierrez o risco de reiterarem “práticas  corruptas”, quem vai querer enfiar a mão nesta cumbuca? Amanhã poderão ser acusados de terem vencido os leilões valendo-se de tráfico de influência ou pagamento de propinas. Moro foi longe. Prejulgou condutas empresariais em leilões que ainda nem estão marcados. Que nome tem isso senão presunção de culpa, embora a Constituição garanta a presunção da inocência até prova em contrário? Prova, e não delação premiada, disse o ministro Fachin, mas suas palavras caíram no grande vazio.

Os graúdos da superestrutura do poder não brigam sozinhos. Têm suas legiões, que estão por aí trocando socos verbais na Internet. Estamos a um passo das lutas corporais, como se viu no congresso do PT em Salvador, onde compareceram os ativistas de direita. Um deles, declarando que lá estava “para pegar o Lula”.

“Pegar o Lula” é a utopia dos adversários do PT, que poderiam estar se qualificando para ganhar o próximo round nas urnas. Poderiam estar minando o governo Dilma mas não detonando o país. Poderiam estar sangrando o PT mas não destruindo a crença que ainda resta na política e na democracia, da qual serão vítimas amanhã.

Pegar Lula é removê-lo da disputa de 2018 criminalizando sua atuação a favor de empresas nacionais, agindo como “mascate do Brasil”, como ele mesmo dizia quando era presidente e levava caravanas de empresários em suas viagens pelo mundo. Por tudo que representou sua presidência – na criação de um país socialmente mais decente e na projeção internacional de uma nação mais altiva seria aposta muito alta na autoflagelação nacional. Mas está em curso, e a inércia dos que poderiam defendê-lo, como o governo e o PT, ajudam a explicar seus recentes desabafos. Mas eles também só produzem mais manchetes para a mídia, dedicada a abrir todas as caixas de maldição.

Metri: Prejuízos decorrentes do projeto do senador José Serra sobre o Pré-Sal

Por Paulo Metri

Faço uma estimativa dos prejuízos que serão causados à nossa sociedade se o projeto de lei (PL) 131 de autoria do senador José Serra sobre o Pré-Sal vier a ser aprovado. Sei que esta estimativa é baseada em algumas suposições, o que a torna um evento não determinístico. No entanto, as suposições feitas são o que, em inglês, chamam de “educated guess”, correspondente ao nosso “chute em direção ao gol”, que pode raspar a trave ou entrar no gol. Por outro lado, é válido fazer esta estimativa para mostrar a ordem de grandeza do prejuízo que Serra propõe.

Segundo a Associação dos Engenheiros da Petrobras (AEPET), já foram descobertos, no Pré-Sal, 60 bilhões de barris. Todos os “barris” citados neste texto referem-se a “barris recuperáveis”. Sobre estas descobertas, os modelos de exploração e demais parâmetros já estão definidos nas leis e respectivos contratos existentes. O projeto do senador, se aprovado, só trará repercussão no que ainda deve vir a ser descoberto nesta área. Assim, a primeira suposição a ser feita é sobre quantos barris restam a descobrir.

Após alguma insistência, geólogos tendem a citar faixas de valores para as reservas adicionais do Pré-Sal. Um ex-diretor da Agência Nacional do Petróleo (ANP) disse, na época da descoberta do Pré-Sal, que poderiam existir até 300 bilhões de barris na área. Pode-se dizer, em posição equilibrada, que ainda existem 90 bilhões de barris no Pré-Sal a serem descobertos.

Assim, o prejuízo a ser causado pelo projeto Serra é obtido da comparação da exploração de 90 bilhões de barris pelo modelo de partilha atual e pelo modelo de partilha com as modificações do PL 131. Detalhando, as alternativas que estão sendo comparadas são as seguintes. Na primeira, representada pelo modelo existente, todas as áreas do Pré-Sal ainda não leiloadas seriam arrematadas por consórcios ou pela Petrobras sozinha. E, na hipótese de serem arrematadas por consórcios, estes teriam a Petrobrás como integrante, com no mínimo 30% de participação, e como operadora dos mesmos.

Ainda nesta alternativa, as rodadas de leilões seriam realizadas bem espaçadas para permitir à Petrobrás acumular lucros que seriam reinvestidos no negócio, minimizando a necessidade de empréstimos e de venda de ativos. Notar que não há pressa para se explorar o Pré-Sal, pois o país já tem seu abastecimento garantido pela própria Petrobrás por mais de 20 anos.

No modelo flexibilizado de Serra, a Petrobrás seria só mais uma petrolífera, que disputaria áreas do Pré-Sal, e só seria operadora quando conseguisse formar um consórcio em que estivesse nesta posição e ele saísse vitorioso do leilão. Embutido neste modelo está o conceito de que ela arrematar uma área ou uma petrolífera estrangeira a arrematar, para a sociedade brasileira, é a mesma coisa, o que não é verdade.

Na alternativa Serra, as rodadas de leilões seriam bem frequentes, para retirar a Petrobras destes leilões pela incapacidade de investir freneticamente. Assim, as petrolíferas estrangeiras estariam prontas para formarem cartéis e arrematarem áreas, o que é impedido quando a Petrobrás é uma das contendoras. Também, em geral, a ganância leva as petrolíferas estrangeiras a produzir em ritmo acelerado para maximizar o lucro, e não para retirar o máximo de energia do campo, transformando-se, assim, em uma produção predatória, o que a Petrobrás não faz.

Teremos que diferenciar os prejuízos numericamente estimáveis daqueles que não são. Nos prejuízos quantificáveis, está a redução da arrecadação de royalties. Este tributo, em um período de tempo, é proporcional à receita que é função da produção no período e o preço de transação do petróleo na época. Se a Petrobras não for a operadora única de todos os contratos do Pré-Sal, mesmo sabendo da existência da empresa do Estado brasileiro Pré-Sal Petróleo S.A. (PPSA), que, pela lei no 12.351, tem a incumbência de gerir os contratos de partilha da produção, há a possibilidade de a produção ser declarada com um valor menor que o real, exatamente para se pagar menos royalties e, também, gerar menos lucro, o que leva a uma menor contribuição para o Fundo Social.

Não tenho conhecimento de nenhum esquema de fraude na medição da produção. Estou falando aqui sobre a vulnerabilidade para roubos de modelos de organização do setor. No modelo proposto por Serra, a Petrobrás é tirada da condição de operadora única, quando, com ela, se pode ter o modelo mais confiável de apuração do valor da produção. Ela é a única empresa que não anseia pela maximização dos lucros dos empreendimentos. Assim, ela não tem a tentação de subavaliar a produção.

A corrupção

Neste ponto do desenvolvimento dos argumentos, sempre observam: “Mas a corrupção foi flagrada nela, recentemente”. O que aconteceu, lá, foi a descoberta que alguns dos seus executivos a roubavam para satisfazer a quem lhes nomeou para seus cargos e a si próprios. Roubos em empresas privadas por seus executivos também acontecem, mas não são divulgados porque os controladores das empresas roubadas, não querendo mostrar fragilidade ao mercado, penalizam os ladrões e não divulgam os ocorridos.

Outra tradicional contraposição trazida ao debate é que a responsável por garantir medições corretas para os volumes produzidos é a ANP, que pertence ao governo. Acontece que ela, assim como muitas das agências reguladoras do nosso país, foi cooptada, desde que foi criada, pelas empresas a serem reguladas e, no caso específico, pelas petrolíferas estrangeiras. Se isto não fosse verdade, ela não sugeriria tantas rodadas de leilões de nenhum interesse social. Não teria também determinado no edital de Libra o percentual ridículo do lucro líquido a ser remetido para o Fundo Social. É claro que estas agências têm para suas ações antissociais o beneplácito do governo.

Há necessidade de um rápido parêntese para facilitar o entendimento do leitor. Toda a estrutura de funcionamento do governo foi modificada nos anos 1990, quando princípios neoliberais e entreguistas foram introduzidos e nunca mais foram modificados. Por isso, nos deparamos, de tempos em tempos, com alguns destes entulhos do passado. Enquanto eles existirem, o grau de soberania do país permanecerá baixo.

Por outro lado, a PPSA não irá inibir a subavaliação da produção, por esta estatal ser chefiada, hoje, por pessoas, que, até há pouco tempo, trabalhavam em petrolíferas estrangeiras ou em fornecedores estrangeiros do setor. Mais uma vez, não critico as pessoas que estão, hoje, nesta estatal. Critico o modelo de organização do setor, que permite a nomeação de pessoas para cargos-chave de controle, que deveriam ser declaradas impedidas in limine, porque os interesses dos seus novos cargos conflitam com os interesses das empresas nas quais trabalhavam até recentemente.

Assim, ao serem produzidos os 90 bilhões de barris, que ainda serão descobertos, suas medições poderão atestar somente em torno 81 bilhões, com uma “perda” de nove bilhões, ou seja, 10% do volume total. Este é um valor estimado, que representa “um chute plausível” do que pode ser escondido. Como esta eventual fraude ocorreria durante a vida útil do campo, tal petróleo será comercializado a diversos preços, podendo ser tomado, como média, US$ 100 por barril. Então, a fraude da subavaliação da produção poderá ser de US$ 900 bilhões em 35 anos. Como o royalty é 15% sobre a receita, neste caso, o royalty desviado será de US$ 135 bilhões em 35 anos. O modelo proposto pelo Serra permite esta fraude, o que é barrado pela Petrobrás no modelo atual.

Outro momento em que pode ocorrer fraude é no cálculo do custo da produção do petróleo, que irá influir sobre o lucro líquido e, assim, influenciará o valor a ser remetido para o Fundo Social. Em tese, esta fraude pode ser quantificada por fiscais competentes, mas, sem muitos dados, sua estimativa é difícil de ser feita. Como as petrolíferas estrangeiras trabalham basicamente com seus tradicionais fornecedores do exterior, a entrega de faturas superfaturadas pode ocorrer sem dificuldade e, depois, o acerto de contas pode ser feito, através das matrizes, no exterior. Assim, o Fundo Social, uma idéia nobre para dar função social ao aproveitamento do Pré-Sal, tende a se tornar inócuo.

“Esquecimento” do valor geopolítico

Prejuízos acarretados pelo projeto do senador José Serra não quantificáveis são muitos. Primeiramente, é preciso estar consciente que seu projeto irá “inundar” a área do Pré-Sal com petrolíferas estrangeiras. Elas, que estão com dificuldade para aumentar suas reservas, graças ao petróleo brasileiro, conseguirão garantir seus futuros. Além disso, elas só compram plataformas de petróleo no exterior, pois, após 20 anos do término do monopólio estatal, nenhuma destas empresas comprou uma única plataforma no Brasil, enquanto a Petrobrás, desde o governo Lula, só as compra aqui.

A encomenda de desenvolvimentos tecnológicos e a contratação da engenharia pelas empresas estrangeiras ocorrem com entidades do exterior. As multinacionais não têm interesse de abastecer o Brasil com derivados, exportando totalmente o petróleo produzido por elas, sem nenhum valor agregado e, ainda mais, sem pagarem o imposto de exportação, por se beneficiarem da lei Kandir.

Muito mais poderia ser acrescentado ao já extenso artigo. No entanto, desejo só dizer que o petróleo não vale unicamente por ser um energético com milhares de usos e o setor de transporte, em escala mundial, ser dependente dos seus derivados. Petróleo significa também poder político para nações que o detêm soberanamente. O projeto do senador Serra esquece por completo este valor do petróleo, pois, ao entregá-lo a firmas estrangeiras, o Estado brasileiro perde o poder geopolítico.

Assisti a uma palestra recentemente, na qual o orador falou sobre o uso dado pela Noruega ao seu petróleo do Mar do Norte com grande impacto social, o que trouxe uma melhoria considerável no IDH deste país. O mesmo não acontecerá com o Brasil se o projeto Serra passar. Deste modo, a diferença que existe entre a Noruega e o Brasil é o grau de conscientização política do povo. Um congressista norueguês, mesmo que quisesse, não apresentaria um projeto análogo ao do Serra lá, dado o grau de constrangimento a que seria submetido.

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Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia e colunista do Correio da Cidadania.

Brics querem alternativa ao SWIFT

Por Igor Rozin | Via Gazeta Russa

Nova estrutura protegeria países de decisões arbitrárias tomadas por aqueles onde sob cuja jurisdição se encontra sistema atual. Foto: Shutterstock/Legion Media

Emergentes negociam a criação de um sistema de mensagens financeiras independente após boatos de que Rússia seria de sistema existente.

Os países do Brics estão discutindo a criação de um sistema análogo ao SWIFT (Sociedade para Telecomunicações Financeiras Interbancárias Globais), que hoje reúne mais de 8,3 mil organizações bancárias e clientes corporativos em mais de 208 países para trocar mensagens financeiras. A informação é do vice-ministro dos Negócios Exteriores russo, Serguêi Riabkov.

A ideia de se criar uma estrutura independente surgiu após uma onda de boatos sobre a exclusão da Rússia do sistema como forma de endurecimento das sanções ocidentais. Apesar de analistas financeiros não acreditarem nessa possibilidade, o Banco da Rússia está levando a sério a discussão sobre a criação de um sistema alternativo.

“Os ministros das Finanças [dos países do Brics] estão discutindo todo um conjunto de questões, inclusive a temática da organização dos sistemas de pagamentos e as perspectivas da crescente transição dos pagamentos para moedas nacionais.  A questão de usar ou não o SWIFT existe, mas estamos tratando, de qualquer forma, da possibilidade de se criar um sistema de pagamentos multilateral, no formato de uma união que poderia prover grande independência e, mais exatamente, criaria uma certa garantia para os países contra riscos ligados a resoluções arbitrárias nessa esfera, que poderiam ser tomadas pelos países em cuja jurisdição se encontram os sistemas de pagamentos operantes”,  disse Riabkov.

“Os crimes não são explicados pela variável ‘idade’”: Entrevista com Vitor Amorim de Angelo

Por Rennan Martins | Vila Velha, 24/06/2015

O ano de 2015, marcado pela ascensão de um Congresso Nacional dos mais conservadores da história brasileira. Com a Câmara presidida por Eduardo Cunha, o que se vê é o avanço e apoio a propostas controversas e retrógradas, tais como a terceirização, o Parlashopping, a dita “cristofobia”, e, como não poderia deixar de ser, a redução da maioridade penal.

Prevista para ir a plenário no próximo dia 30, a PEC 171 teve relatório aprovado que prevê a redução da maioridade de 18 para 16 anos nos casos de crime hediondo. A despeito dessa restrição, o que se vê são congressistas apartados da sociedade e surdos as opiniões dos especialistas da área, travando um debate guiado basicamente por clichês de programa sensacionalistas.

Diante dessa conjuntura, o Blog dos Desenvolvimentistas entrevistou o professor e doutor em ciências sociais, Vitor Amorim de Angelo. Conhecido nas redes sociais após memorável aula de política dada em pleno estúdio da Rede Globo, Vitor nos lembra que 70% dos países fixam a idade penal em 18 anos, diz que a imprensa espetaculariza os menores infratores a fim de fazer lobby pela redução e ressalta que entre 1990 e 2013 aumentamos em 500% a população carcerária sem ao menos chegar perto de reduzir os índices de criminalidade.

Confira a íntegra:

No que consiste a proposta de redução da maioridade penal em discussão no Congresso? Por que há tanta aderência a ela na sociedade?

Consiste em reduzir a idade mínima para a imputação de pena a quem cometer determinados atos tipificados como crimes, para os quais existe alguma pena. Hoje, esta idade é de 18 anos. Antes disso, o adolescente pode ser responsabilizado, mas não julgado como um adulto. Ou seja, entre 12 e 18 anos, no Brasil, o adolescente pagar, sim, por suas infrações. Mas jamais com cadeia, o que ocorre apenas depois dos 18. A proposta em discussão é baixar essa idade para 16 anos. Em linhas gerais, boa parte da sociedade – mais de 80%, segundo as últimas pesquisas – tem a percepção de que isso diminuiria, automaticamente, os alarmantes índices de criminalidade. Há várias origens para essa percepção. A cobertura midiática sobre determinados casos em que efetivamente há participação de menores de 18 anos contribui muito nesse sentido. A capa de uma edição recente da revista Veja é um exemplo acabado dessa superestimação, mediatizada, da contribuição do adolescente para o aumento da criminalidade no Brasil. Contudo, quando observamos o percentual dessa participação, então vemos que uma parte insignificante desse grupo etário está envolvido em crime contra a vida, como homicídio e latrocínio. Segundo dados da ONU, são precisamente 0,013%. Nada. A décima parte de 1%. O problema é que essa exceção é diuturnamente associada à impunidade. Pega-se crimes bárbaros, que existem, claro; generaliza-se esses crimes; e, na sequência, afirma-se que esse adolescente ficará impune – esta é uma palavra-chave – por que o Estatuto da Criança e do Adolescente não permite ao juiz tratá-lo como o criminoso que a sociedade enxerga nele.

No que se baseiam os defensores da redução da maioridade? Que dados dispõem para defendê-la?

Vitor Amorim de Angelo, em entrevista ao ES TV

Aqui, a questão não são dados, mas percepções. Por onde quer se que se olhe, objetivamente falando, não haveria nem porquê discutir o assunto. Se fosse apenas por dados, a redução da maioridade não passaria, como possivelmente ocorrerá. Mas, em se tratando de percepção, acredita-se que isso será eficaz para diminuir a criminalidade no país. Não só não será, como trará outras consequências agora ignoradas ou secundarizadas. Por exemplo, o aumento de uma população carcerária já excedente em milhares de presos.

Existe alguma relação entre a idade penal e os índices de violência? Qual fatia de criminalidade é realmente proveniente dos menores?

Em estatística se aprende isso: uma coisa é correlação, outra é causalidade. Pode-se correlacionar quaisquer variáveis possíveis. Todavia, o quanto uma explica a ocorrência da outra é uma questão totalmente diferente. Os crimes não são explicados pela variável “idade”, menos ainda pela idade que vai de 16 a 18 anos, como se, pegando essa faixa, a lei fosse punir aqueles que cometem boa parte dos crimes e ficam impunes, diminuindo, dessa forma, a criminalidade no país.

Os países que reduziram a maioridade penal obtiveram que resultados? Como se situa o debate sobre essa questão em termos internacionais?

Não, não obtiveram. Mais de 70% dos países do mundo fixam a maioridade em 18 anos, como o Brasil, hoje.

Que efeitos a redução da maioridade teriam sobre o sistema penal e carcerário? O que aconteceria com o novo contingente de jovens incorporado?

Seriam incorporados à população carcerária. Hoje, nós temos mais de 500 mil presos no Brasil. De 1990 a 2013, essa população cresceu mais de 500%. No entanto, os crimes não diminuíram. Estamos entre os países que mais prendem em todo o mundo. A redução da maioridade só vai acelerar este processo, sem que tenhamos conseguido resolver outros, como, por exemplo, as condições em que este cidadão é preso. Sim, porque ele é cidadão, não um animal. Até pelos animais se tem mais respeito. Nossos presos, porém, são invisíveis. O que faremos é jogar parte dos nossos adolescentes nesse submundo, invisível, que é o das prisões, cujo índice de reincidência, hoje, é superior a 70%. Não se imagina que dali sairá alguém transformado para melhor, certo?

As políticas punitivistas são eficazes na redução dos índices criminais? Qual a relação entre elas e a reincidência?

Isoladamente, não. Ou seja, simplesmente prender, não. Nesse sentido, as se ignorar todas as outras questões em jogo, produzimos um sistema falido cuja reincidência é altíssima. O que torna este sistema caro e inútil, a bem da verdade, tendo em vista o que produz para a sociedade.

Quais países conseguiram, efetivamente, reduzir a criminalidade entre a juventude? Que políticas adotaram?

Países como a Alemanha, por exemplo, tem adotado cada vez mais práticas socioeducativas do que punitivas, pura e simplesmente. O caminho para o Brasil seria esse. Aprofundar o ECA, em vez de tomá-lo como instrumento de impunidade, é que seria a alternativa para o Brasil.

Para velhos jornais, crime de sonegação não é notícia

Por Luís Humberto Rocha Carrijo | Via Outras Palavras

Por que a mídia dá tão pouco destaque à Operação Zelotes, que flagrou fraudes fiscais de mega-empresas? Que interesses levam editores, em certos casos, a não cobrar o Judiciário?

O escândalo do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais — Carf –, que pode superar 19 bilhões de reais, recebe uma cobertura muito acanhada da imprensa brasileira, apesar de sua magnitude e implicações de toda ordem. Dentro do ponto de vista jornalístico, não há nada que justifique um tratamento tão desinteressado e desatento por parte das redações. Ao contrário, os vultosos desvios de recursos da Receita, com a participação de personagens graúdos do PIB nacional (bancos e empresas, boa parte, grandes anunciantes), fundamentam os princípios do que é notícia, pelo menos em veículos que praticam jornalismo em sua mais ampla definição — corajoso e isento, dedicado a informar a população.

Inúmeros fatos novos, que merecem uma investigação jornalística profunda, recebem, ao contrário, coberturas episódicas. A imprensa ignora que há o risco de a investigação não chegar a um resultado efetivo. Em operações de caráter semelhante, essa fase já teria resultado em prisões preventivas, por exemplo. A mídia ignora também a inexplicável morosidade do Poder Judiciário, que não autoriza medidas invasivas, a fim de levantar provas contra a corrupção. Dentro dos critérios puramente jornalísticos e de interesse da sociedade, o que diferem os escândalos de corrupção envolvendo políticos, como a Operação Lava Jato, daqueles que atingem apenas empresas, como a Operação Zelotes?

A literatura de comunicação de massa é pródiga em episódios que mostram a imprensa interferindo até em resultados judiciais. Do outro lado da moeda, outros atores atuam com a intenção de esvaziar o “buzz” dos eventos. Há casos de a administração pública agir privando as redações de conteúdo sobre fatos, até levá-los ao esquecimento com a inanição de dados e novidades. No Brasil, é a ausência deliberada de notícias sobre certos temas, como sobre crimes tributários, que leva à inação da Justiça e à consequente impunidade dos envolvidos. Como não é incomodado pela imprensa, o Judiciário continua pouco comovido com o bilionário prejuízo causado por grandes empresas aos cofres públicos. A imprensa, com essa atitude, torna-se cúmplice e comete uma fraude contra sua audiência, tomando empresado a frase do proeminente jornalista Peter Oborne sobre a postura do Daily Telegraph em relação à cobertura noticiosa do Swissleaks.

Enquanto na Suécia os jornais colocam a ética até mesmo acima das leis, no Brasil seus pares usam seu poder seletivo para cobrir fatos conforme interesses políticos e financeiros. A imprensa brasileira, nesse sentido, continua primitiva e longe dos ideais do que seja uma mídia livre e imparcial. O grave é que os veículos passam ao público a percepção de que são fiscais da sociedade, preocupados com o bem-estar e a lisura. Um ato sofisticado de cinismo.

As redes sociais ainda estão longe de ter a força e a influência para mobilizar a sociedade em torno de assuntos áridos. A ação conjunta e contínua de veículos alternativos e blogs de contestação mostra-se, por enquanto, incapaz de provocar uma reação popular e em rede em condições de mudar o estado das coisas. A população reage na medida proporcional em que é vítima direta, aguda, constante, objetiva e simplificada da opressão e da carência. As pessoas, no Brasil, pobres de educação política e leitura, não conseguem fazer conexões tão distantes e complexas.Ou seja, se não está na grande imprensa, é como se não existisse.

Por também serem “invisíveis” para a imprensa, sofrem do descaso público as parcelas mais vulneráveis da sociedade, que saem às ruas em movimentos reivindicatórios por acesso aos bens sociais. Mas como as mobilizações se dão na periferia, longe dos olhos da classe média e da elite, elas são ignoradas pela imprensa, deixando o Estado em situação confortável para manter seu desprezo pelas camadas populares.