Arquivo mensais:junho 2015

Thor Batista perdeu o sono, mas não foi pelo ciclista atropelado

Por Marcos Sacramento | Via DCM

Thor Batista revelou em entrevista à revista GQ a fase difícil pela qual passou, quando teve pensamentos suicidas e usou antidepressivos. O leitor afobado poderia considerar a morte do ciclista Wanderson Pereira dos Santos o motivo da angústia do herdeiro de Eike Batista.

Só que não. A pressão que caiu sobre os deltoides do rapaz de 23 anos e 100 quilos foi a bancarrota das ações da empresa do seu pai.

“Eu lembro do dia em que uma analista do Itaú soltou um relatório sobre os números de produtividade da OGX. Li aquilo e liguei pro meu pai, que estava em Minas. Falei: “Pai, amanhã vai ser um ‘barata voa’” – essa é uma expressão que nós usamos para descrever movimentação atípica de uma ação. Com o relatório do Itaú dando previsões pessimistas para a OGX, eu imaginava que as ações iriam cair muito. E não foi por menos. No dia seguinte a gente acordou com a OGX caindo 40% “, diz Thor.

“Foi literalmente o pior ano da minha vida. Antidepressivo, remédio pra dormir, tarja preta…” O ano da crise foi 2013. O acidente foi em março do ano anterior.

Em março de 2013, Wanderson, 30 anos, saiu de casa no início da noite para comprar ingredientes do bolo de aniversário da esposa. Ao passar pelo km 101 da rodovia Rio-Juiz de Fora, na região de Duque de Caxias, foi atingido pela Mercedes SLR McLaren de Thor. Ele estaria em alta velocidade.

No dia seguinte ao acidente, Eike foi ao Twitter e defendeu o filho à maneira de quem só enxerga o próprio umbigo: culpando a vítima. “Foi ele que fez, a imprudência do ciclista poderia ter causado três mortes”, escreveu.

O filho do então bilionário chegou a ser condenado criminalmente pelo acidente, mas a defesa recorreu e conseguiu a absolvição em fevereiro deste ano.

Agora ele dá entrevista falando de planos para o futuro e de veleidades como ganho massa muscular. A revista, claro, nem tocou no assunto do acidente.

Thor diz que vai investir em uma bebida energética para concorrer com o Red Bull. “O bom da minha fórmula é que ela dispensaria o uso do álcool e não teria todos os malefícios que outros produtos trazem, além da impossibilidade de dirigir. Você pode tomar e dirigir. Essa minha receita promove energia física e mental, euforia e o mais interessante: intensifica o orgasmo. O efeito dura cinco horas, é bem bacana. Meu pai já experimentou”.

Em um ato falho, ele se lembra dos perigos do trânsito mas se esquece do rapaz atropelado. O recado ali é óbvio. No mundinho paralelo dos bilionários falidos, atropelar e matar um trabalhador negro e pobre não é razão grave o suficiente para perder o sono.

Justiça do Rio revoga prisão de três PMs do caso Amarildo

Via Folha de S. Paulo

O Tribunal de Justiça do Rio revogou a prisão de três militares envolvidos no caso do desaparecimento e morte do pedreiro Amarildo de Souza. Entre eles, está o ex-comandante da UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) Rocinha, major Edson Santos.

Santos é acusado, com outros dois policiais, de corrupção ativa de testemunhas do caso. Além dele, também tiveram a prisão revogada o tenente Luiz Felipe de Medeiros e o soldado Newland de Oliveira Silva Júnior.

Segundo o TJ, os dois oficiais continuarão detidos por responderem a outro processo pelo crime de tortura, também no caso Amarildo.

Para a juíza Ana Paula Monte Figueiredo Pena Barros, a liberdade dos réus não irá atrapalhar o andamento do processo.

O ajudante de pedreiro Amarildo de Souza desapareceu em 14 de julho de 2013, após ter sido detido por policiais militares na porta de sua casa, na favela da Rocinha, e levado à UPP da comunidade.

Ele teria sido submetido a tortura e morrido no local. Seu corpo nunca foi encontrado.

O inquérito instaurado pela PM apontou o envolvimento de 29 militares no crime.

O major Edson dos Santos afirmou, em entrevista à Folha em janeiro deste ano, que é inocente.

A reportagem tentou contato por telefone com os advogados dos outros dois policiais, mas não foi atendida.

A nova disputa pelo Pré-Sal

Por Mauro Santayana | Via AEPET

Os jornais voltam a anunciar que se discute, dentro e fora do governo, o fim da atuação da Petrobras como operadora exclusiva do pré-sal, com fatia mínima de 30%.

Alegam, entre outras coisas, seus adversários que seria inviável para a Petrobras continuar a explorar o petróleo do pré-sal com a baixa cotação atual do barril no mercado global, quando a produção oriunda dessa área cresceu 70% em março e se aproxima de 500 mil barris por dia.

Ora, se a Petrobras, que acaba de ganhar (pela terceira vez) o maior prêmio da indústria internacional de exploração de petróleo em águas marinhas, o OTC Distinguished Achievement Award for Companies, Organizations and Institutions, nos EUA, justamente pelo desenvolvimento de tecnologia própria para a extração do óleo do pré-sal em condições extremas de profundidade e pressão, estaria tendo prejuízo na exploração desse óleo, porque as empresas estrangeiras, a quem se quer entregar o negócio, conseguiriam ter lucro como operadoras, se não dispõem da mesma tecnologia?

Se a Petrobras explora petróleo até nos Estados Unidos, em campos como Cascade, Chinook e Hadrian South, onde acaba de descobrir reservas de 700 milhões de barris, em águas territoriais norte-americanas do Golfo do México, porque tem competência para fazer isso, qual é a lógica de abandonar a operação do pré-sal em seu próprio país, onde pode gerar mais empregos e renda com a contratação de serviços e produtos locais, e o petróleo é de melhor qualidade?

A falta de sustentação dessa tese não consegue ocultar seus principais objetivos. Se quer aproveitar uma “crise” da qual a empresa sairá em poucos meses (as ações com direito a voto já se valorizaram 60% desde janeiro; o balanço foi apresentado com enormes provisões para perdas por desvios de R$ 6 bilhões, que delatores “premiados”, cuja palavra foi considerada sagrada em outros casos, já negaram que tenham ocorrido; a produção e as vendas estão em franco crescimento) para fazer com que o país recue no regime de partilha de produção, de conteúdo nacional mínimo, e na presença de uma empresa nacional na operação de todos os poços, para promover a entrega da maior reserva de petróleo descoberta neste século para empresas ocidentais, como a Exxon, por exemplo, que acaba de perder, justamente para a Petrobras, o título de maior produtora de petróleo do mundo de capital aberto.

Como ocorreu na década de 1990, cria-se um clima de terror para promover a entrega de uma das últimas empresas sob controle nacional ao estrangeiro.

Enquanto isso não for possível, procura-se diminuir sua dimensão e importância, impedindo sua operação na exploração de reservas que são suas, por direito, situadas em uma área que ela descobriu, sozinha, graças ao desenvolvimento de tecnologia própria e inédita e à capacidade de realização da nossa gente.

Diálogos Desenvolvimentistas: O imperialismo, o “livre-comércio” e o PT

No diálogo que transmitimos abaixo, fruto da discussão do último artigo escrito pelo economista Flavio Lyra intitulado O fracasso da via liberal-dependente, o autor e a também economista e doutora em políticas públicas, Ceci Juruá, fazem um importante debate em que analisam os objetivos do imperialismo, a doutrina mistificadora do livre-comércio e a inserção que os governos petistas fizeram do Brasil nesse contexto de alta desregulação do capitalismo.

Confiram:

Ceci Juruá - Realmente os países considerados centrais tem objetivos de longo prazo.

1- Garantir o acesso aos recursos naturais indispensáveis ao aproveitamento econômico e ao sucesso de suas próprias políticas. A baixo custo, é claro.

2- Garantir um campo seguro para aplicação e multiplicação de seus excedentes financeiros.

Daí a defesa do livre comércio e da livre circulação de capitais, esta é a ideologia básica, fundamental, cuja hegemonia no espaço mundial depende de muitos e muitos outros fatores. Porque não se trata de uma ideologia generosa, de solidariedade universal, nem de benefício recíproco. Aparentemente, e só aparentemente, tais objetivos são realizados através da “livre” competição, não tão livre porque se dá entre atores desiguais, desiguais em matéria de capacidade de aproveitamento de oportunidades econômicas e políticas.

Mas tais objetivos de longo prazo, funcionais à formação de impérios, são permanentemente ajustados a contextos e a conjunturas diferenciados. As políticas dos States, por exemplo, variaram bastante entre as décadas 1950/1960 e 1980/1990. Nesse último período, foram propostas inovações institucionais mais adaptadas a um novo regime de acumulação – a financeirização -, ou a mundialização do capital como escreveu François Chesnais. O novo regime de acumulação, em escala planetária, passou a ditar as mudanças necessárias na periferia. Ou seja, às mudanças no centro do império deveriam corresponder mudanças na periferia. É isto que precisamos estudar, nós os brasileiros.

Nesse sentido o artigo do Fiori foi brilhante. É a primeira vez que um acadêmico do seu porte, coloca com tanta clareza os acordos firmados por FHC e sua troupe. Não estava escrito, aquele não era necessariamente nosso destino, havia outras alternativas. Á direita e à esquerda. No período 1990 a 1995 ocorreram as grandes traições, à revelia da Nação. A principal arma de guerra do império foi econômica – a dívida externa e a hiperinflação a ela vinculada. Mas também a mídia e a desmoralização de todos, entre nós, que não estivessem de acordo com os planos imperiais. E ainda, a corrupção, as ameaças, e a conspiração do silêncio em torno dos desafetos. Enquanto não conhecermos em detalhes o plano e os instrumentos, e as medidas estratégicas e táticas da época, estaremos fortemente desguarnecidos culturalmente para enfrentar os verdadeiros inimigos do desenvolvimento brasileiro. Mas não basta conhecer, é preciso divulgar e fazer um trabalho – difícil – de “deslavagem” cerebral.

Se abandonamos o economicismo, veremos que as vantagens comparativas existem. Claro que elas existem. E foram utilizadas contra nós. O resultado aí está. Não adianta muito falar em modelo e mudança de modelo, se desconhecemos o modelo nos seus detalhes. Salvo aliança divina (?) a mudança do modelo exigirá guerra/revolução (quem está apto ou disposto?) ou hábil diplomacia e unidade nacional. Cada país, cada Nação, tem o seu próprio caminho, não há fórmulas mágicas para se atingir tal objetivo.

Dizer que a única alternativa é a intervenção estatal assemelha-se quase a dizer que não há alternativa em situações onde o Estado esteja capturado, ou de mãos atadas frente a uma rede de compromissos internos e internacionais. Nas condições atuais, falar nessa única alternativa não seria uma maneira de espalhar a desesperança ?

Também não considero que os governos do PT fizeram remendos. Fizeram o que foi possível na época frente a uma sociedade desaparelhada para o enfrentamento com os reais inimigos da Pátria. Eles são humanos, pessoas iguais a nós. Em matéria de política internacional não há bola de cristal. Foram até bem corajosos, ousados, em matéria dos enfrentamentos possíveis – as relações com Cuba, Irã, Rússia, China, Mercosul e Unasul. Lamentável seria não reconhecermos isto, pousando apenas como vítimas em lugar de reconhecer, valorizar, prestigiar alguns avanços realizados. Há um ditado popular brasileiro, que aprecio muito – quem não valoriza o que tem a perder vem.

Flavio Lyra - Suas observações têm sido muito pertinentes e, no pior dos casos, merecedoras de algum tipo de escrutínio. Confesso-lhe que ando contrariado com a atuação de Dilma. Depois do esforço realizado em favor de sua eleição e da defesa de seu mandato esperava mais dela. Não em termos de solução dos problemas, mas de comunicação com a base social que a apoiou e que está perplexa com as medidas adotadas. Seu silêncio é anti-democrático e despolitizante. A meu ver, Dilma continua achando que com decisões na cúpula vai sair do atoleiro político em que se encontram ela e o país.

Quanto à falta de alternativas que menciono no texto, sinceramente não vejo outra que a mencionada, embora seja muito consciente da “abertura da História”. Gostaria muito de saber se tem alguém vislumbrando alguma outra alternativa que tenha um mínimo de viabilidade no médio prazo. Como não tenho encontrado nada a respeito, fixo-me na mencionada, já que estou convencido de que a via liberal-dependente esgotou-se como rumo para os interesse da classe trabalhadora, no Brasil e no mundo capitalista. Não me atrevo sequer a falar numa via socialista, pois acho que ainda estamos muito distantes disto ou de algo assemelhado.

Tenho procurado ser compreensivo sobre as limitações do PT e do seus governos, pois sei muito bem das dificuldades e barreiras que enfrentam em nossa sociedade conservadora. Também, não deixo de reconhecer a coragem e o discernimento que tiveram para realizar algumas mudanças. Mas, não posso deixar de ser muito crítico em relação às condutas individualista e mesmo primárias dos petistas escolhidos para o Poder Legislativo e o Executivo, com muitos dos quais convivi durante mais de três anos na Liderança do Governo no Senado. O derretimento atual já era previsível para quem acompanha de perto a vida política do país. Fizemos muito menos do que seria possível, em decorrência da improvisação e falta de rumos que caracterizou os governos do PT. Escrevi vários textos a respeito, que foram considerados pessimistas por gente do governo que achava que a classe trabalhadora tinha chegado ao Paraíso. Assisti de muito perto a administração de Palloci no MF, com sua equipe herdada de FHC. Depois, ainda vejo Palloci como coordenador da campanha de Dilma. Dá para esperar algo de sério em favor mudanças efetivas no país, sob a influência de Palloci?. Participei da elaboração do Programa do PT, que depois Palloci jogou na lata de lixo, ao preparar a Carta aos Brasileiros, documento de rendição à continuidade da política econômica do PSDB.

Enfim, acho que a hora é de pleitear mudanças e de realizar autocrítica e não de justificar os erros cometidos, que foram muitos e cujo preço o povo está começando a pagar, sem sequer poder identificar quem são seus inimigos de classe, pois o PT e seus governos se especializaram em disfarçar a polarização que de fato existe no país, transmitindo a impressão todos trabalhamos para os mesmos objetivos.

Deveríamos nos preparar para um colapso dos Estados Unidos ao estilo soviético?

Por Antonio Gelis-Filho | Via Carta Maior

Deveríamos nos preparar para um colapso dos Estados Unidos ao estilo soviético? A resposta, por diversas razões, é sim.

A longa sequência de insucessos econômicos e geopolíticos dos Estados Unidos desde a virada do século recebeu agora mais um elemento: a ameaça de um atentado nuclear no solo norte-americano, feita dias atrás pelo Estado Islâmico. Absurdo? Até prova em contrário (que, esperamos, nunca venha) sim, é um absurdo completo. Mas o ponto aqui é menos a inimaginável possibilidade da concretização do atentado que a despreocupação com que a ameaça foi feita. Obviamente, o Estado Islâmico não teme os Estados Unidos. E por que deveria? Após decapitar reféns norte-americanos, após ver no campo de batalha soldados iraquianos, supostamente muito bem treinados por instrutores americanos, fugindo da luta, após capturar uma enorme quantidade de material bélico americano e após quem sabe quais outros fatos ainda mais assustadores que nunca se tornaram conhecidos fora do terreno de operações, a horda terrorista pode se dar ao luxo de ameaçar com um ataque nuclear aquela que é, ao menos no papel, a maior potência mundial.

O Estado Islâmico expressa, com sua usual violência extrema, aquilo que já é percebido pela maior parte do mundo: os Estados Unidos parecem ter atingido um ponto de não-retorno em seu declínio. A Rússia lutou – e venceu – uma guerra não declarada contra o Ocidente na Ucrânia; a China agora ocupa sua “Crimeia marítima”, as ilhas do Mar do Sul da China onde constrói e militariza ilhas artificiais em atóis reclamados por várias nações, mas que ela considera como parte de seu território. Os protestos e advertências dos Estados Unidos contra tais movimentos chineses são tratados por Beijing com o desprezo que é tratado o zumbido de um pernilongo inconveniente. A recuperação econômica norte-americana prometida pela enésima vez no final do ano passado revelou-se na verdade uma retração econômica de 0,7% no primeiro trimestre de 2015, em valores anualizados. Após tantos falsos anúncios de recuperação econômica, após todos os fracassos geopolíticos, após os sinais de decomposição do tecido social do país com os tumultos em Ferguson e Baltimore contra a brutalidade policial, talvez tenha chegado a hora de fazermos a pergunta impensável: deveríamos nos preparar para um colapso dos Estados Unidos ao estilo soviético?

A resposta, por diversas razões, é sim. Isso não significa que tal colapso seja inevitável ou mesmo provável. Mas o fato de ser possível e as potenciais consequências gigantescas de tal evento faz com que preparar-se para ele, ao menos como cenário estratégico, seja aconselhável para qualquer governo responsável. E por que tal colapso é possível? A explicação está nas razões que mantêm o país unido. Os Estados Unidos não foram construídos ao longo de linhas étnicas, algo que tende a manter as estruturas nacionais unificadas mesmo em tempos de crise. Também não há uma predeterminação geográfica: sua fronteira com o Canadá é quase inteiramente artificial. Na verdade, os Estados Unidos são uma polity artificial, e não uma que surgiu historicamente de forma mais ou menos espontânea. É o resultado de um plano de expansão muito bem-sucedido. E esse é o único e essencial fator unificador do país: sucesso. A insurreição Confederada no século XIX já deixava claro que o potencial físsil do país é grande. Mas o retumbante sucesso do projeto americano desde então criou um monstro que se alimenta de sucesso. E esse monstro agora está faminto. A despeito de toda retórica em torno dos ideais de liberdade, a razão que leva a maioria dos imigrantes ao país é uma só: progresso material. O que poderá manter o país unificado quando esse progresso já não for uma possibilidade razoável? Á medida que o cobertor revelar-se cada vez mais curto, as elites locais dos estados mais ricos terão incentivos para não mais bancarem os estados mais pobres. O culto do sucesso, essa verdadeira “religião secular” dos americanos e que foi responsável pela longa e rica trajetória do país, será então o combustível para seu possível fracionamento.  É tentador imaginar que as Forças Armadas do país evitariam tal colapso. Inicialmente isso poderia ser verdade, mas o enfraquecimento econômico, a partir de certo ponto, também ameaçaria os interesses da corporação, e livrar-se daquilo que então poderia ser visto como o “peso morto” dos estados mais pobres garantiria mais, e não menos, poder àqueles que conseguissem controlar as forças armadas. O fracionamento poderia então facilmente escapar ao controle destes. Algo assim aconteceu na União Soviética.

Um hipotético colapso dos Estados Unidos seria muito mais perigoso para o mundo do que foi o colapso da União Soviética. Esta fora construída em torno de um núcleo histórico extenso, a Rússia. Isso permitiu que o colapso seguisse linhas historicamente pré-definidas. O mesmo foi verdade para as outras repúblicas soviéticas. Elas já possuíam uma vida institucional dentro da União Soviética, portanto as linhas de desintegração já estavam desenhadas. Onde essas linhas não estavam claras, a dissolução foi seguida de conflitos. Abkhazia e Ossétia do Sul lutaram pela independência contra a Geórgia; Armênia e Azerbaijão lutaram pelo controle de Nagorno-Karabakh e Nakhichevan; a Moldávia dividiu-se em dois; Ucrânia e Rússia disputariam o controle de Sebastopol. Esses conflitos permanecem até hoje sem resolução ou agravaram-se. Como imaginar o que poderia acontecer nos Estados Unidos, um país onde se estima que o número de armas de fogo nas mãos de civis pode chegar a 200 milhões? É pouco provável que tal hipotética fragmentação seguisse as linhas estaduais. Se por um lado é verdade que alguns estados norte-americanos possuem uma longa história e riqueza suficiente para tomarem conta de si mesmos, é também verdade que muitos deles foram destacados de enormes territórios de forma mais ou menos arbitrária. As muitas linhas retas que definem as fronteiras de vários estados do oeste comprovam esse fato. Muitos desses estados não possuem saída para o mar e dependeriam de outros para exportarem o que quer que produzissem. E muitos condados na fronteira com o México possuem uma enorme população mexicana ou mexicano-americana, que naturalmente buscaria proteção no país do sul em caso de colapso.

Ademais, o colapso soviético ocorreu durante tempos economicamente róseos para o Ocidente. Absorver economicamente os fragmentos da União Soviética foi algo natural, e até mesmo empolgante. Mas mesmo considerando-se o sucesso econômico atual da China, tal possibilidade não existiria hoje, em uma economia mundial em condições muito piores.

Outra razão para temermos e nos prepararmos para tal contingência é o “império” formado por centenas de bases militares norte-americanas espalhadas pelo mundo, frequentemente muito mais bem armadas que os governos locais. Quem as administraria e como? As lições do colapso soviético aqui não são fonte de otimismo.

E temos ainda o maior de todos os problemas: quem cuidaria do enorme arsenal nuclear norte-americano? Diferentemente daquilo que ocorreu na União Soviética, onde Moscou possuía poder suficiente sobre as forças estratégicas soviéticas para garantir o controle sobre elas durante o colapso, nada nesse estilo existe nos Estados Unidos.

Essas são razões suficientes para que os tomadores de decisões políticas nas potências mundiais ascendentes preparem cenários lidando com a situação, ainda improvável, mas de maneira alguma impossível, de um colapso norte-americano ao estilo soviético.

Ajuste Levy pode tornar nossa dívida impagável

Por Ceci Juruá | Rio de Janeiro, 02/06/2015

Noticia sobre a questão grega no Le Monde de hoje ressalta o papel de linha dura do FMI, como era nos anos 1950 e 1980, e seu “bate-bola” com a chanceler alemã. Devemos seguir com atenção o caso grego pois é caso exemplar em que a dívida, aceitável em um primeiro momento, rapidamente se tornou impagável, por conta da taxa de juros e da recessão que abateu a Europa.

Imaginem o que poderá acontecer com o Brasil se tivermos 5 anos de recessão (por hipótese, crescimento zero na média dos 5 anos) enquanto a taxa de juros dispara. Fiz um cálculo rápido. Tomemos um pib de 100 e uma dívida de 55 (divida bruta, de 55% do pib); ao fim de 5 anos o pib permanece em 100, pois a hipótese é de crescimento zero; mas a dívida bruta, que era de 55 não permanece em 55, ela vai saltar para quase 100, se os juros forem simplesmente rolados, não pagos e acrescidos à dívida publica. Isto é, como diz a grande lição : SEMPRE QUE A TAXA DE JUROS FOR MAIOR DO QUE O CRESCIMENTO DO PIB, HÁ O RISCO DE ELA SE TORNAR IMPAGÁVEL. Em menor ou maior prazo, dependendo do diferencial das taxas.

Será este o futuro que os chicago’s boys nos reservam? E, por falar nisso, o que veio fazer no Brasil Mme. Lagarde, que aqui esteve há uma semana, justamente em ocasião em que o Congresso debatia o ajuste Levy?

Banco do Brics promete crédito à Grécia

Via Gazeta Russa

Em encontro com vice das Finanças russo, ministro da Reforma Industrial, do Meio Ambiente e da Energia grego confirmou o interesse do país em se tornar membro do Novo Banco do Desenvolvimento do Brics.

Ministro da Reforma Industrial, do Meio Ambiente e da Energia da Grécia, Panagiotis Lafazanis Foto: EPA/Vostock-photo

Em encontro com vice das Finanças russo Serguêi Stortchak, ministro da Reforma Industrial, do Meio Ambiente e da Energia da Grécia, Panagiotis Lafazanis, confirmou o interesse do país em se tornar membro não fundador do Novo Banco do Desenvolvimento do Brics, de acordo com comunicado divulgado pela assessoria de imprensa do cabinete grego.

O documento afirma ainda que Stortchak teria falado sobre a possibilidade de o novo banco conceder crédito a projetos de desenvolvimento na Grécia.

Ainda em maio, Stortchak, que é representante da Rússia no banco do Brics,  sugeriu ao premiê grego Alexis Tsipras a possibilidade de o país se tornar membro da instituição.

Anteriormente, o vice das Finanças russo havia anunciado que a entrada da Grécia não seria discutida até a realização da cúpula do grupo em Ufá, em julho deste ano.

“Lafazanis e Stortchak analisaram o progresso e os próximos passos na questçao do financiamento da companhia grega que participará da construção do gasoduto [que levará gás russo à Europa]. Os bancos comerciais russos mostraram interesse em participar do projeto de financiamento, que é apoiado pelo governo russo. Lafazanis ressaltou a importância de tal crédito, que poderia ser usado visando ao desenvolvimento”, diz o comunicado.

Lafazanis também reiterou o interesse da Grécia em participar como membro não fundador do Novo Banco de Desenvolvimento do Brics, que será de vital importância ao país. No encontro, discutiram-se os passos que poderão ser dados nesse sentido.

“Stortchak confirmou que a Rússia, que no momento preside o Brics, decididamente apoia o pedido da Grécia de participar no novo banco. Ele também anunciou que a contribuição da Grécia pela participação como parceira do novo banco não será alta, e que a Grécia pode usar financiamento do banco para o desenvolvimento assim que sua criação estiver concluída”, lê-se no documento.

O acordo para a criação do Novo Banco do Desenvolvimento do Brics foi assinado em junho de 2014 na cúpula de Fortaleza.