Arquivo mensais:junho 2015

Pezão e a prisão do menor inocente

Por Elio Gaspari | Via Folha de S. Paulo

A demofobia leva o governador do Rio a endossar um preconceito que ronda sua biografia.

A sorte abandonou o governador Luiz Fernando de Souza, o Pezão, quando ele comentou a prisão dos três menores acusados de terem matado o médico Jaime Gold enquanto pedalava na lagoa Rodrigo de Freitas. O doutor disse o seguinte:

“Nenhum dos três é inocente. Todos possuem anotações criminais, e o importante é que a polícia está prendendo.”

Parecia uma simples constatação, mas embutia uma empulhação. Um dos três menores, precisamente aquele que a polícia capturara em apenas 72 horas numa operação aparentemente exemplar, seria inocente do crime de que o acusaram. Seis testemunhas estão dispostas a depor mostrando que ele estava em outro lugar na hora do crime. Se isso fosse pouco, outro menor, confesso, apresentara-se à polícia inocentando-o.

O adolescente tem mais de uma dezena de anotações criminais, nenhuma delas por lesões corporais. É negro, favelado e infrator. Portanto, seria capaz de tudo. Pezão transformou uma solução –a detenção, mais tarde, de pelo menos um criminoso confesso– num problema: a tentativa de justificar uma acusação contra um inocente.

Como disse o próprio governador “pode ter havido engano, erros acontecem”. Foi aí que a sorte lhe faltou. No mesmo dia o Superior Tribunal de Justiça autorizara a quebra do seu sigilo telefônico para que se investigue a procedência de denúncia do “amigo Paulinho”, que o colocou na frigideira dos 40 políticos envolvidos na Operação Lava Jato. Segundo o ex-diretor da Petrobras, na campanha eleitoral de 2010, quando “Pezão” elegeu-se vice-governador na chapa de Sérgio Cabral, cinco empreiteiras teriam despejado R$ 30 milhões no caixa dois dos candidatos. O governador, como o menor, repele a acusação.

Na métrica que Pezão usou em relação ao jovem preso, “pode ter havido engano, erros acontecem”. Se a polícia do Rio já tivesse reconhecido o erro, tudo bem, mas isso ainda não havia sido feito. Resta outro ponto: o menor “tem anotações criminais”. Pezão também. Em 2013 foi condenado a pagar uma multa de R$ 14 mil por improbidade administrativa na compra de uma ambulância quando era prefeito de Piraí. Decisão de primeira instância; só pode ser considerada definitiva depois que o recurso do réu for apreciado.

Muita gente acredita que um menor infrator é capaz de tudo. Também há muita gente que, sem esperar pelo devido processo judicial, já condenou os 40 políticos que entraram na lista do procurador-geral Rodrigo Janot. Quando se viu arrolado na investigação, o próprio Pezão, com bons motivos, queixou-se dessa conduta irracional: “Fui julgado e condenado”.

Após análise, delegado conclui que sociedade aceita violência policial

Por Maria Luisa Barros | Via O Dia

Orlando Zaccone analisou 308 autos de resistência e descobriu que todos foram arquivados pelo Ministério Público.

Rio – Em uma década e meia, as ações policiais registradas nos inquéritos como ‘autos de resistência’, aqueles em que os agentes alegam legítima defesa, mataram 12.594 pessoas em todo o Estado do Rio. É como se, nesse período, a população fluminense tivesse travado 14 Guerras das Malvinas — conflito entre argentinos e britânicos que terminou com a vitória da Inglaterra e um saldo de 907 mortos.

Na guerra urbana carioca não há vencedores. Todos perdem, sobretudo os jovens negros das periferias. Foi o que constatou o delegado da Polícia Civil Orlando Zaccone, que também é doutor em Ciência Política, a partir de um trabalho investigativo para a sua tese de doutorado que deu origem ao livro ‘Indignos de vida: a forma jurídica da política de extermínio de inimigos na cidade do Rio de Janeiro’.

Delegado estuda 308 autos de resistência e conclui que sociedade aceita violência policial. Foto: Agência O Dia

Para provar que o Estado criou um sistema que legitima a violência como forma de punição, o mestre em Ciências Penais esmiuçou 308 autos de resistência ocorridos entre 2003 e 2009. Descobriu que todos foram arquivados a pedido do Ministério Público e que, em apenas um caso, uma viatura policial havia sido atingida por disparos de arma. Do total, 99% foram engavetadas em menos de três anos.

Ao analisar o perfil das vítimas, Zaccone observou que 75,6% dos autos de resistência aconteceram dentro de favelas. A maior parte das vítimas (78%) era negra ou parda. Em 60,7% dos processos nos quais os mortos eram maiores de idade, foi anexado ao processo a folha de antecedentes criminais da vítima.

Segundo ele, esses indícios reforçam a ideia de que o governo, a sociedade e o Judiciário , através de promotores e juízes, sustentam uma política que aprova as execuções policiais contra aqueles que, por supostamente estarem envolvidos no crime, não teriam direito à vida. “A Justiça peca por omissão. O promotor ao fazer o arquivamento omite indícios de execução”, denuncia o delegado.

Na visão dele, a polícia mata, mas não mata sozinha. “A sociedade aplaude quando a violência é dirigida aos ‘matáveis’. Quando essa ação transborda e atinge outros inocentes, essa mesma sociedade não tolera e exige a punição do policial”, critica.

O delegado Zaccone observou que 75,6% dos autos de resistência ocorreram em favelas. E a maior parte das vítimas (78%) era negra ou parda. Foto: Matias Maxx / Semsemente / Divulgação

Mais que a pena de morte

Em 2011, 676 pessoas foram executadas nos 20 países que mantêm a pena de morte. No mesmo ano, ocorreram 961 mortes em ações policiais nos estados do Rio e São Paulo. Na série histórica das mortes por autos de resistência, segundo dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), o pior índice ocorreu, em 2007. Naquele ano, às vésperas da instalação das primeiras Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), 1.330 pessoas morreram no estado em ações policiais. Nos anos seguintes, esse tipo de ocorrência caiu.

Em 2014, chegou a 584. Os números ainda superam os casos registrados nos anos 90. Naquela década — auge da chamada ‘gratificação faroeste’ — os homicídios decorrentes de intervenção policial eram inferiores a 400 casos no ano.

“Discordo quando dizem que as mortes por autos de resistência diminuíram depois das UPPs. A bem da verdade, os índices apenas retornam para os níveis da década de 90”, diz o delegado Zaccone.

Pela legalização de todas as drogas

Na opinião do delegado Orlando Zaccone, a redução da violência no Rio de Janeiro só tem uma saída: a legalização da produção, do comércio e do consumo de todas as drogas ilícitas, inclusive de tipos mais letais, como a cocaína. “No dia em que a cocaína for oferecida no mercado, ninguém vai buscar o crack. Ele desaparece. É o mesmo que acontece com o álcool, uma droga lícita. Quem vai comprar cerveja não autorizada no camelô, se pode levar uma cerveja de qualidade?”, defende o delegado.

Como porta-voz da Law Enforcement Against Prohibition (Leap) do Brasil — entidade que prega o fim da proibição às drogas — Zaccone lembra que o país está perto de alcançar a marca de 600 mil presidiários nas penitenciárias brasileiras. “Somos a terceira nação que mais encarcera no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos e da China”, enfatiza.

Mais de 60% das detenções de mulheres estão ligadas ao tráfico de drogas. “Na maioria dos casos, elas são presas servindo de ‘mulas’, ou seja, fazendo o transporte das drogas ou levando pequenas quantidades para os companheiros na prisão”, constata Orlando Zaccone.

De acordo com a Leap, composta por agentes da lei como juízes e delegados, os elevados índices de homicídios dolosos no Rio — mais de 4 mil por ano — têm estreita relação com o combate às drogas. Resultam de guerras entre facções por pontos de vendas, cobranças de dívidas e ações policiais.

Este e outros pontos polêmicos estão no livro que será lançado na próxima quinta-feira no Circo Voador, na Lapa, às 19h. O evento terá participação de mães que perderam filhos em ações policiais, além de shows, debates e exposição de fotos.

 

 

“Operação Impensável”: Em 1945 os ‘aliados’ já tinham planos secretos contra a Rússia soviética

Por Yuriy Rubtsov | Via Pravda

No final de maio de 1945 Josef Stálin ordenou que o Marechal Georgy Zhukov deixasse a Alemanha e viesse a Moscou. Stálin estava preocupado com as ações dos aliados britânicos. Stálin observara que as forças soviéticas desarmavam os alemães e os enviavam a campos de prisioneiros; mas os britânicos, não. Em vez de desarmar e prender os alemães, os britânicos estavam cooperando com eles e lhes permitiam manter a capacidade de combate. Para Stálin, a única explicação para esse comportamento era que os britânicos planejassem usar depois aqueles soldados alemães. Stálin sabia que a atitude dos britânicos era flagrante violação do acordo entre governos, segundo os quais tropas que se rendessem tinham de ser desarmadas e imediatamente desmontadas.

A inteligência soviética pôs as mãos (e os olhos) no telegrama secreto que Winston Churchill enviara ao marechal-de-campo Bernard Montgomery, comandante das forças britânicas. O telegrama ordenava que Montgomery recolhesse as armas e as conservasse disponíveis para serem devolvidas aos alemães, caso a ofensiva soviética continuasse.

Seguindo instruções de Stálin, Zhukov condenou duramente as atividades dos britânico no Conselho de Comando dos Aliados (União Soviética, EUA, Reino Unido e França). Disse que a história registrava poucos exemplos de tamanha traição e descaso com compromissos assumidos entre nações que tinham, ou se haviam comprometido a ter, status de aliadas. Montgomery rejeitou a acusação. Poucos anos depois admitiu que recebera ordens para fazer exatamente o que Zhukov acusara os ingleses de terem feito e que as executara. Como soldado, não tivera alternativa.

Disputava-se batalha feroz nos arredores de Berlim. Dessa vez, Winston Churchill disse que a Rússia Soviética convertera-se em ameaça mortal para o mundo livre. O primeiro-ministro britânico queria que se criasse um novo front no leste, imediatamente, para conter a ofensiva soviética. Churchill vivia obcecado pela ideia de que, depois de derrotado o exército nazista alemão, a União Soviética já surgia como nova ameaça.

Essa é a razão pela qual Londes quis que Berlim fosse tomada por forças anglo-norte-americanas. Churchill quis também que os norte-americanos libertassem a Checoslováquia e Praga com a Áustria controlada pelos aliados, todos sob as mesmas condições.

Já em abril de 1945, Churchill dera instruções para que o Grupo de Planejamento Conjunto das Forças Armadas Britânicas planejasse a Operação Impensável [orig. Operation Unthinkable], nome de código de dois planos relacionados de um conflito entre os aliados ocidentais e a União Soviética. Os generais receberam ordens para traçar meios para “impor à Rússia a vontade dos EUA e do Império Britânico”. A data hipotética marcada para o início da invasão, pelos aliados, da Europa hipoteticamente tomada pelos soviéticos, seria 1º de julho de 1945. Nos últimos dias da guerra contra a Alemanha de Hitler, Londres deu início a preparativos para apunhalar a União Soviética pelas costas.

O plano previa guerra total para ocupar as partes da União Soviética que tiveram significado crucial para o esforço de guerra, e assestar assim golpe decisivo, que tiraria das forças armadas soviéticas a capacidade para defender-se.

O plano incluiu a possibilidade de as forças soviéticas recuarem com profundidade para dentro do próprio território, tática que já havia sido usada em guerras anteriores.

O Alto Comando Britânico considerou esse plano militarmente irrealizável, porque as forças soviéticas superavam as forças aliadas na proporção de três para um – na Europa e no Oriente Médio, onde o plano previa que se travassem os combates. As unidades alemãs entravam nessa conta como tentativa de equilibrar a correlação de forças: por isso Churchill tanto precisava de que os prisioneiros alemães continuassem em prontidão para combater.

O Gabinete de Guerra concluiu:

“O Exército Russo desenvolveu um Alto Comando capaz e muito experiente. O exército é incomensuravelmente mais forte, vive e se movimenta em escala muito mais leve de manutenção que qualquer exército ocidental, e usa táticas firmes, baseadas sobretudo na pouca importância atribuída às baixas, para alcançar o objetivo. O equipamento foi rapidamente aprimorado durante a guerra e hoje é bom. Sabe-se o suficiente sobre esse desenvolvimento, para dizer que com certeza absoluta o exército soviético não é inferior aos das grandes potências. A facilidade que os russos mostraram para desenvolver e aprimorar equipamento e armas existentes, e para produzi-los em massa foi realmente muito impressionante. Já se sabe até que houve casos de os alemães terem copiado traços básicos de armamento russo.”

Os planejadores britânicos chegaram a conclusões pessimistas. Disseram que qualquer ataque seria “imprevisível” e que a campanha seja “longa e cara”. Na verdade, o relatório dizia “Se vamos iniciar guerra contra a Rússia, temos de estar preparados para guerra total, que seria longa e cara”. A superioridade numérica das forças do campo soviético deixavam poucas possibilidades de sucesso.

A avaliação, assinada pelo Comandante do Estado-maior das Forças Conjuntas, dia 9/6/1945 – na próxima 4ª-feira serão 70 anos! – concluía:

“Estaria além de nossas capacidades alcançar sucesso rápido, mas sempre limitado, e estaríamos comprometidos em guerra longa, contra todas as probabilidades de sucesso. E essas probabilidades convertem-se em pura fantasia, se os americanos cansarem, ficarem indiferentes e deixarem-se arrastar pelo ímã da guerra no Pacífico.”

O primeiro-ministro recebeu rascunho do plano dia 8 de junho. Por mais que o enfurecesse, Churchill teve de se conformar, ante a evidente superioridade do Exército Vermelho. Mesmo com a bomba atômica já incluída no inventário militar dos EUA, o novo presidente dos EUA Harry Truman também teve de aceitar o argumento e a conclusão.

Na sequência, em reunião com o ministro de Relações Exteriores da URSS Vyacheslav Molotov, Truman pegou o touro pelos chifres. Fez ameaça mal disfarçada de que se poderiam aplicar sanções econômicas contra a União Soviética. Dia 8 de maio, o presidente dos EUA ordenou que se reduzissem significativamente, sem qualquer notificação prévia, a venda e a entrega de suprimentos. Chegou a ponto de fazer retornar às bases nos EUA, todos os navios norte-americanos que já estavam a caminho da URSS.

Algum tempo passou, e a ordem foi cancelada, ou a URSS não entraria na guerra contra o Japão, algo de que os EUA muito precisavam. Mas as relações bilaterais haviam sido feridas para sempre.

O memorando assinado pelo secretário de Estado em exercício Joseph Grew dia 19 de maio de 1945, dizia que a guerra contra a URSS era inevitável. Ordenava ‘endurecer posições’ nos contatos com a URSS. Segundo Grew, recomendava-se iniciar imediatamente os combates, antes que a URSS conseguisse recuperar-se da guerra e restaurar seu vastíssimo potencial militar, econômico e territorial.

Os militares receberam impulso dos políticos. Em agosto de 1945 (a guerra contra o Japão ainda não terminara), o mapa dos alvos estratégicos dentro da URSS e Manchúria foi apresentado ao general L. Groves, chefe do programa nuclear dos EUA. O plano indicava 15 das maiores cidades da URSS: Moscou, Baku, Novosibirsk, Gorky, Sverdlovsk, Chelyabinsk, Omsk, Kuibyshev, Kazan, Saratov, Molotov (Perm), Magnitogorsk, Grozny, Stalinsk (provavelmente, Stalino – a atual Donetsk) e Nizhny Tagil. Cada alvo vinha acompanhado de descrições: geografia, potencial industrial e alvos a atingir primeiro. Washington abriu novo front: dessa vez, contra seu aliado.

Londres e Washington imediatamente esqueceram que haviam combatido lado a lado, ombro a ombro, com a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Esqueceram também todos os compromissos que haviam assumido nas conferências de Yalta, Potsdam e São Francisco.

“Operação Impensável” é o nome de um plano inicial de guerra feito pelo governo britânico em 1945. Tal operação consistia na invasão da então União Soviética por forças militares britânicas, poloneses exilados, americanos, e até alemães recém rendidos. Dada a superioridade do poder militar da União Soviética, os demais ‘aliados’ optaram por não executar tal operação”.

Petrobras, sua história e a soberania: Entrevista com Wladmir Coelho

Por Rennan Martins | Curitiba, 08/06/2015

A Operação Lava-Jato desencadeou uma série de mudanças no rumo da gestão da Petrobras. Independente ou não da intencionalidade, o fato é após o escândalo a estatal tomou um rumo ainda mais pró-mercado, algo deveras providencial a certos interesses internacionais.

O enfraquecimento das políticas de desenvolvimento e soberania ora apoiadas na Petrobras deu-se num contexto nebuloso em que uma campanha midiática denuncia os mal feitos ao mesmo tempo que apresenta como única solução intensificar as medidas entreguistas e privatistas.

A fim de situar o debate em termos diversos, porém fundamentais para compreensão do real propósito da empresa, o Blog dos Desenvolvimentistas entrevistou Wladmir Coelho, Historiador, Mestre em Direito, Conselheiro e pesquisador da Fundação Brasileira de Direito Econômico, e autor do blog Política Econômica do Petróleo. Coelho faz uma importante retrospectiva histórica do petróleo e sua relação com o desenvolvimento econômico brasileiro, relembra que os interesses contrários a soberania nacional não descansam e é taxativo quando aponta que o modelo de partilha é também uma forma de financiamento do oligopólio transnacional do petróleo.

Confira a íntegra:

Como você caracteriza a gestão petista da Petrobras? A retórica nacionalista é condizente com a prática?

A criação da Petrobras representou uma ruptura com o modelo econômico de base colonial encarnando, esta empresa, os sentimentos de independência econômica cuja representação maior encontra-se na figura de Tiradentes.

A Inconfidência de Minas Gerais passou para a história como um movimento em defesa das recursos minerais – simbolizado no ouro – permanecendo este aspecto como espécie de fundação do nacionalismo no Brasil.

Assim qualquer movimento de base nacionalista em nosso país, necessariamente, apresenta em sua estrutura a defesa da utilização do ouro, minério de ferro ou petróleo como forma de alcançar a independência econômica.

No início do século passado Arthur Bernardes, Pandiá Calógeras, Monteiro Lobato e outros tantos quando falavam em nacionalismo entendiam a necessidade de uma legislação voltada para o controle brasileiro do setor mineral.

Veja que a Petrobras resulta de uma longa história iniciada no final do século XVIII e sua criação efetivou-se graças a mobilização de diferentes setores da sociedade que assumiam a condição de herdeiros deste sentimento nacionalista e, desta forma, o dever de concretizar a independência econômica do Brasil.

A Petrobras nasceu da mobilização popular contra o controle dos grupos internacionais que impediam a exploração do petróleo nacional. O povo brasileiro, de forma ousada, criou uma empresa para quebrar um gigantesco oligopólio que controlava, ou ainda controla, a produção mundial.

Sabemos que estes mesmos grupos internacionais jamais desistiram de desviar a Petrobras de sua missão. Sempre agiram manipulando dados e informações a começar pelo relatório Link cujo teor apontava a inviabilidade comercial da exploração do petróleo em terra no Brasil.

A ditadura militar, ao internacionalizar a Petrobras e criar o chamado contrato de risco, seguido do governo de Fernando Henrique Cardoso que jogou no lixo 300 anos de lutas pela emancipação econômica do Brasil, anulando o monopólio estatal do petróleo, representam o tamanho da disputa que ainda temos a nossa frente.

Quanto ao atual governo observo que o discurso nacionalista em defesa da Petrobras foi abandonado. O ministro das Minas e Energia, Eduardo Braga, advoga sem o menor pudor a redução do chamado conteúdo nacional – e vejam que nossa Constituição desde 1995 apresenta-se bastante flexível em relação a definição de empresa nacional – isso sem falar do desespero de sua excelência em efetivar o mais rápido possível os leilões.

Vamos juntando ao tema o chamado desinvestimento cujo verdadeiro nome é venda de partes da Petrobras. A todo momento surge o fantasma da entrega de campos de produção em território nacional para a satisfação dos lucros de acionistas residentes do outro lado do Atlântico. Esta prática não apresenta características nacionalistas.

Completo dizendo o seguinte: Desde o início da discussão a respeito da forma de exploração do pré-sal apontei o grave erro presente no modelo que oferecia a Petrobras a condição de operadora ficando, todavia, com apenas 30% de controle dos blocos. A empresa nacional transformou-se em financiadora dos oligopólios.

A Petrobras não foi criada para “concorrer” com os oligopólios petrolíferos, sua missão não é oferecer ganhos ao mercado internacional de ações e sim garantir à autossuficiência nacional protegendo a economia dos ataques especulativos representados na condição pendular dos preços do petróleo.

De que forma o pré-sal insere o Brasil no mapa geopolítico? Quem são os maiores interessados em nossas reservas petrolíferas?

 

Wladmir Coelho

As reservas petrolíferas brasileiras sempre estiveram na mira dos oligopólios do petróleo. No início do século XX a Standard Oil controlava, em nosso país, vastas áreas com potencial produtivo e graças à existência de uma legislação permissiva que impedia a pesquisa e consequente exploração do petróleo brasileiro.

A estratégia para impedir a exploração do petróleo nacional completava-se quando inúmeros geólogos, quase sempre ligados a Standard Oil, negavam através de relatórios “científicos”, a existência de reservas petrolíferas, em condição de exploração comercial, em território brasileiro.

Temos ainda a conhecida subserviência da grande imprensa nacional aos interesses dos oligopólios internacionais. Monteiro Lobato, ao defender a criação de empresas nacionais de exploração petrolífera, foi atacado duramente em artigos do jornal O Globo, nos quais era acusado de louco a inconsequente. Também não podemos nos esquecer que durante muitos anos a ESSO brasileira foi responsável pelo programa jornalístico de maior audiência no rádio, o Repórter Esso.

Voltando a geopolítica devemos lembrar que no período em questão os Estados Unidos eram os maiores produtores de petróleo do mundo e lutavam para garantir o preço que atendia aos interesses, principalmente, da Standard Oil. Preço e volume da produção, naturalmente.

Este fato como sabemos sofreu alterações nos anos 70 quando verificou-se uma crescente dependência dos EUA do petróleo originário do Oriente Médio. Este aspecto nunca agradou os responsáveis pela elaboração da política de defesa estadunidense, preocupados com a instabilidade política da região. Instabilidade, diga-se de passagem, decorrente, em grande parte, em função da manutenção de governos favoráveis aos Estados Unidos.

Somado ao fato instabilidade política em nossos dias a quantidade de petróleo encontrado em áreas de fácil acesso, os chamados campos tradicionais, revelam evidente queda restando a exploração nas profundezas oceânicas ou regiões de clima extremo como o Ártico.

O curioso deste momento consiste no retorno dos Estados Unidos a condição de grande produtor mundial de petróleo graças a polêmica exploração do xisto. Verifica-se com clareza uma movimentação dos EUA no sentido de controlar áreas com potencial produtivo.

Vejamos o caso do Canadá cuja economia encontra-se em franca desorganização em função de sua recente dependência da exportação do petróleo de xisto – algo próximo dos 90% de sua produção – aos Estados Unidos.

Devemos ainda acrescentar o México, as tentativas de isolamento da Venezuela acusada de ameaça a segurança nacional dos Estados Unidos. Qual ameaça? Simples. A Venezuela levanta-se contra os acordos comerciais que ignoram a soberania nacional.

O pré-sal de forma evidente encontra-se nos planos da chamada segurança energética dos Estados Unidos. No mínimo temos uma enorme quantidade de petróleo nas profundezas do oceano e sua eventual exploração representa o poder de intervenção no mercado internacional e consequente aumento do poder econômico brasileiro.

A utilização deste patrimônio como produto de simples exportação atenderá diretamente aos interesses de sempre e diminui o peso, a importância geopolítica do Brasil. Precisamos utilizar melhor o poder econômico decorrente da exploração petrolífera e para este fim devemos repensar o formato atual da Petrobras.

Como a Operação Lava Jato está influenciando a Petrobras? Quais são os impactos mais significativos?

Petróleo e corrupção sempre andaram juntos. As maiores empresas petrolíferas compraram governos e quando encontravam alguma resistência oficial promoviam, ou promovem, golpes de estado, assassinatos.

Esta prática inclui os países de origem, bastando para este fim verificar a ligação entre petróleo e indústria da guerra nos Estados Unidos ou Inglaterra, acrescidos os recentes escândalos ligados a exploração do xisto cujo resultado nefasto encontra-se nos prejuízos ao meio ambiente e a saúde dos moradores de áreas de exploração.

A Petrobras foi criada em oposição aos métodos mercadológicos dos oligopólios, portanto não deveria permanecer na condição de mais uma empresa ou concorrente destas. Este projeto é uma triste herança da ditadura acrescida da ficção neoliberal dos anos 90.

O tempo todo a grande imprensa aponta como “salvação” da Petrobras a sua total submissão as regras do chamado mercado. Não, este caminho mostrou-se prejudicial aos interesses do povo brasileiro.

A submissão da Petrobras ao mercado implica na aceitação pura e simples de sua associação aos interesses dos oligopólios que em nome do lucro passam a ditar a política econômica da empresa. A Petrobras nasceu para combater este modelo.

É possível que se aproveitem da repercussão dos escândalos para promover políticas privatizantes?

Os inimigos da Petrobras nunca descansaram. Com ou sem escândalo a empresa sempre foi atacada, ora como incompetente, argumento usado desde a ditadura quando foi introduzido a primeira quebra do monopólio através dos contratos de risco ou “dinossauro” estatal, mesmo que nunca tenha funcionado nesta condição, que impedia a livre concorrência e consequente preços baixos para o combustível. Este discurso foi moda nos anos 90 durante o período de Fernando Henrique Cardoso.

No fim do ano passado, uma comissão de procuradores foi aos EUA e assinou com o Banco Mundial um acordo de cooperação nas investigações da Lava Jato. Este tipo de movimentação é comum? É possível dizer que o Banco Mundial tenha influência no andamento dos processos?

O Banco Mundial constitui instrumento poderoso para a implantação e manutenção das políticas neoliberais. Sua atuação contra a Petrobras é bastante conhecida. Um exemplo:

O processo de privatização da Petrobras nos anos 90 recebeu amplo apoio do órgão financeiro em questão. Diga-se de passagem o financiamento do gasoduto da Bolívia ao Brasil apresentava como condição primeira a presença dos oligopólios de sempre, naturalmente para beneficiarem-se da estrutura construída com o endividamento dos dois países sul-americanos.

Há diferenças significativas entre o regime de partilha e o de concessões? Em sua visão, qual é o mais vantajoso e por que?

Os dois entregam o petróleo. Os dois reduzem a Petrobras a condição de financiadora dos oligopólios de sempre e apresentam em sua base as formas para garantir a simples exportação de matéria prima.

Quando o governo adotou o modelo de partilha apresentou como a melhor forma do mundo associando este ao sucesso da exploração petrolífera da Noruega. Naquele país, afirmava o antigo colaborador da ditadura Edison Lobão, o Estado criou uma empresa para administrar os contratos e aplicava ou guardava os recursos para uso futuro em um fundo de ações.

Não foi bem assim. A Noruega, durante o auge da exploração no Mar do Norte, estatizou todo o processo e aplicou, sem destinar ao mercado de ações, os recursos diretamente e principalmente em políticas de bem-estar social.

Somente no início dos anos 2000, como forma de garantir o apoio da União Europeia a exploração do petróleo do Ártico, disputado inclusive com a Rússia, a Noruega aceitou compartilhar parcela da exploração nacional com empresas privadas.

O mais vantajoso para o Brasil é suspender o modelo atual e em questão o seguinte: Qual a vantagem de destinarmos trabalho e recursos financeiros para criarmos uma indústria de exportação de matéria prima?

Considerando que a cada dia se torna mais barato o uso de outras fontes de energia, você vê o petróleo perdendo seu valor estratégico? A soberania sobre as jazidas continuará sendo questão de alta relevância?

Sabemos todos da existência de fontes alternativas de energia, todavia a utilização destes recursos representam novos desafios. Um exemplo: A transformação de alimentos como o milho ou soja em matéria prima para combustíveis.

Temos ainda uma estrutura empresarial e industrial totalmente dependente do petróleo, que apesar do evidente declínio de áreas tradicionais para exploração ainda apresenta-se como forma mais viável, do ponto de vista econômico, como forma de energia.

Devemos ainda acrescentar que o petróleo é também matéria prima para parcela considerável das mais variadas formas de indústria. Temos petróleo em quase tudo atualmente.

Agora, precisamos entender que um país no estágio histórico e econômico como o Brasil deve pensar ou repensar sua matriz energética considerando novas ou alternativas fontes de energia. Contudo este fato não reduz a relevância do controle das áreas com potencial petrolífero.

Em relação as tensões internacionais. Em que regiões se espera um acirramento pelo controle das jazidas de petróleo e derivados? Que sinais desses conflitos já se manifestam?

Primeiro as regiões disputadas economicamente entre a China e Estados Unidos. Neste caso temos os países da Ásia Central. Existe ainda a tensão da China, principalmente, com o Japão relativa ao controle e acesso ao Mar do Sul da China, uma região com grande potencial petrolífero.

Nesta disputa pelo controle da Ásia Central temos ainda os interesses da Rússia cuja influência nesta região relativa a exploração petrolífera tem origem na era soviética, e devemos acrescentar nesta disputa o Irã um grande fornecedor da China que constitui limites com as áreas disputadas no centro asiático.

Os sinais destes conflitos manifestam-se, dentre outros, no processo de recriação ou rearmamento do exército japonês, na política de isolamento da Rússia, além dos acordos comerciais envolvendo os países do Pacifico.

Quanto a América Latina, verifica-se a clara oposição dos Estados Unidos aos países que apresentam resistências a assinatura dos famosos acordos comerciais com cláusulas de renúncia a soberania.

Que posição o Brasil deveria assumir, daqui pra frente, em relação a Petrobras e ao tabuleiro geopolítico internacional?

Não há outro caminho a não ser a retomada do projeto que criou a Petrobras. Defendo o retorno do monopólio da empresa desta vez apoiado na estatização do processo. A Petrobras empresa de capital mista revela-se fragilizada e neste ponto vou recorrer novamente à história:

O processo que resultou na criação de uma empresa mista detentora do monopólio não foi o desejo dos brasileiros durante a campanha do Petróleo é Nosso. A defesa de uma empresa estatal estava presente, inclusive, através do projeto dos empresários de Minas Gerais, elaborado a partir dos estudos do professor Washington Albino e intitulado Tese Mineira do Petróleo.

Neste projeto revelava-se com clareza a criação de uma empresa petrolífera estatal como elemento-chave para a garantia da autossuficiência energética e utilização do poder econômico decorrente desta exploração em beneficio do projeto nacional de desenvolvimento.

Diante dos problemas que hoje vivemos incluindo os fatos sobre corrupção, relações internacionais e crise econômica mundial devemos, no mínimo, criar condições para a discussão da questão do petróleo no Brasil.

O orçamento e a greve nas universidades federais

Por Soraya Smaili | Via Carta Capital

Que o momento atual venha com a possibilidade de um planejamento permanente dirigido a um processo de médio e longo prazo.

O anúncio do início da greve coincidiu com um já esperado informe sobre os cortes que viriam no orçamento

Na última semana, nos deparamos com o início do movimento grevista dos docentes e técnicos-administrativos das Universidades e Instituto Federais. O anúncio da greve coincidiu com um já esperado informe sobre os cortes que viriam com o decreto orçamentário, como parte da proposta de ajuste fiscal.

Tal ajuste depende de diversas ações, entre as quais o contingenciamento dos gastos da união, que recebeu um corte de 69 bilhões de reais anunciado no dia 22 de maio. Dentre os ministérios mais afetados estão o da Saúde e o da Educação, este último recebendo um corte de 9,4 bilhões de reais.

Por outro lado, uma análise das pautas dos técnicos e dos professores que mobilizaram os movimentos e iniciaram a greve mostra que existe uma preocupação comum. Que os cortes não afetem o funcionamento das universidades e de seus hospitais universitários.

No mês anterior, os leitores de nossa coluna tomaram conhecimento do Fórum em Defesa da Educação Pública, em que inúmeros reitores e entidades da educação e da ciência e tecnologia solicitaram o não corte no orçamento da educação, bem como da ciência e tecnologia. Este manifesto foi entregue ao ministro da Educação em mãos, após reunião da Andifes (Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior), no dia 12 de maio.

Em seguida, o ministro anunciou aos reitores que o custeio das Universidades Federais não sofreria corte, o que foi comemorado por nós como um dos resultados de nossas proposições e da agenda positiva em relação à educação pública. Após 26 de maio o orçamento de custeio passou a ser liberado, promovendo um grande alívio no sistema e gerando a expectativa de que os recursos continuem garantindo as atividades regulares.

A partir da organização propositiva e do trabalho de muitos, embora com mecanismos diferentes de mobilização, o debate e a atuação dos diversos setores da Educação solicitam que o Ministério tenha um olhar cuidadoso para as universidades federais. Existe uma enorme preocupação com o acúmulo de compromissos firmados, contratos e obras, dos quais dependem não só o funcionamento das universidades, mas também a consolidação da enorme expansão realizada nos últimos oito anos.

O País deve manter o crescimento de suas universidades para atender mais jovens, formar mais professores e se preparar para atingir as metas do Plano Nacional de Educação (PNE), que depende fortemente das instituições públicas de ensino superior. O desenvolvimento destas garantirá maior produção de tecnologia, pois elas detêm a capacidade de produzir os avanços das engenharias, da medicina e saúde e do conhecimento humano.

Devemos nos dirigir resolutamente ao amplo projeto de formação de professores da rede, aos programas de extensão, bem como ao desenvolvimento continuado de profissionais tanto pela via presencial como por meio da tecnologia do ensino à distância.

Que o momento atual possa abrir novas negociações que tenham em vista o atendimento de curtíssimo prazo como a garantia do custeio das universidades, conforme anunciado pelo ministro. Porém, que venha também com a possibilidade de um planejamento permanente dirigido a um processo de médio e longo prazo. Que haja um esforço contínuo e unificado em torno de estratégias conjuntas entre docentes, técnicos, estudantes e reitores, e que possibilite atingir condições mais adequadas e menos limítrofes de trabalho e de ensino.

A continuidade do projeto de uma Educação Pública de Qualidade não depende só da garantia do que está em funcionamento com base no orçamento atual. Depende também do fortalecimento das ações para que se possa realizar mais. Para isso, esperamos que os investimentos continuem, para que a expansão pública continue, para que mais profissionais possam ser formados, mais pacientes possam ser atendidos nos hospitais universitários públicos e para que a produção de tecnologia seja dirigida para benefício da sociedade. Temos uma enorme capacidade instalada, vamos em busca da expansão continuada e com sustentação.

Câmara retoma votação da reforma política e deve analisar projeto do ajuste

Por Iolando Lourenço | Via Agência Brasil

A Câmara dos Deputados tem uma semana com muitos desafios e embates nas votações em plenário de temas polêmicos que tratam do ajuste fiscal e da reforma política. Nas comissões especiais, não será diferente. Serão apresentados pareceres como o que trata da redução da maioridade penal de 18 para 16 anos. Além disso, estão previstos depoimentos de funcionários da Petrobras e de empresários e a votação de requerimentos de convocação e também de acareações.

Nas sessões ordinárias de plenário, os deputados devem votar o projeto de lei do Poder Executivo que modifica as regras da desoneração da folha de pagamentos, reduzindo os incentivos às empresas beneficiadas. O projeto, com as medidas provisórias (MP) 664 e 665 – já aprovadas pelo Congresso –, faz parte das medidas de ajuste fiscal do governo. Outras matérias poderão ser incluídas na pauta de votações das sessões ordinárias da Câmara.

Em sessões extraordinárias, já que a pauta das ordinárias está trancada pelo projeto de mudança nas regras da desoneração, os deputados vão retomar a votação de pontos da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 182/2007, que trata da reforma política. A votação de alguns temas considerados complexos foi adiada para esta semana, por acordo de lideranças partidárias.

Entre os assuntos da reforma que ainda dependem de votação estão: o tempo de mandado dos eleitos, a coincidência das eleições e a cota para as mulheres na Câmara. Outros temas a serem apreciados pelos deputados estão o fim do voto obrigatório e data da posse do presidente da República, que hoje ocorre no dia 1º de janeiro.

Na quarta-feira (10), o relator da PEC 171/93, que trata da redução da maioridade penal, deputado Laerte Bessa (PR-DF), deverá apresentar seu parecer. Ele já anunciou que o relatório deve ser favorável à redução da maioridade penal. Bessa quer votar o parecer na comissão no próximo dia 17, uma vez que o presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), anunciou que pretende colocar a proposta em votação no plenário da Câmara ainda neste mês.

A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Petrobras pretende ouvir nesta semana os depoimentos de 14 pessoas. O mais esperado é o do empresário Júlio Faerman, ex-representante comercial da empresa holandesa SBM Offshore no Brasil. Faerman é suspeito de ter feito pagamento de propinas a ex-diretores da Petrobras em troca de contratos com a empresa. O depoimento deverá ser na terça-feira (9).

Nesta segunda, a CPI pretende ouvir sete funcionários da Petrobras que tiveram participação nas obras das refinarias Abreu e Lima, em Pernambuco, e Henrique Lage (Revap), em São José dos Campos (SP). Na quarta-feira, os deputados da CPI vão tomar depoimentos de seis funcionários de segundo e terceiro escalão da estatal, envolvidos em processos de licitação, compras e comunicação da empresa.

EUA aprovam ampla reforma nos programas de espionagem massiva

Via AFP

Os Estados Unidos aprovaram nesta terça-feira uma reforma nos programas de inteligência que reduz os poderes da Agência de Segurança Nacional (NSA, na sigla em inglês), particularmente os relacionados à coleta maciça de dados telefônicos, autorizada após os atentados de 11 de setembro de 2001.

A reforma, denominada “USA Freedom Act” (Lei da Liberdade dos EUA), foi confirmada pelo Senado e enviada ao presidente americano, Barack Obama, que a sancionou imediatamente.

A Lei da Liberdade tem como objetivo limitar o programa da NSA de coleta de metadados das chamadas telefônicas (com indicações de hora, duração e número discado), a mais criticada das medidas de espionagem colocadas em vigor no âmbito da “Patriot Act” (Lei Patriótica).

“Fico feliz que o Senado finalmente tenha aprovado a Lei da Liberdade. Ela protege as liberdades civis e nossa segurança nacional”, declarou Obama após a votação.

“Meu governo trabalhará rapidamente para garantir que nossos profissionais de segurança nacional tenham todas as ferramentas necessárias para seguir protegendo o país”.

A Casa Branca havia pedido aos congressistas uma rápida aprovação das medidas de limitação dos poderes da NSA.

Funcionários de alto escalão do governo criticaram duramente o Congresso, controlado pelos republicanos em ambas as Câmaras. De acordo com o Executivo, os legisladores colocaram a segurança nacional em risco ao permitir que programas de vigilância e segurança caducassem a partir de domingo.

O longo processo de votação mostrou as divisões entre republicanos e democratas e se transformou em uma incomum oportunidade de pressionar os republicanos sobre questões de segurança nacional.

Politicamente, a aprovação da reforma representa uma vitória para Obama.

A reforma vai transferir os dados fornecidos até agora para as companhias de telecomunicações, visando a amenizar os temores sobre a vigilância dos americanos por parte do governo.

Em junho de 2013, a dimensão dos poderes de espionagem da NSA foi revelada pelo ex-analista da agência Edward Snowden, que revelou uma compilação em massa de dados individuais. Hoje, Snowden vive refugiado na Rússia.

Snowden: uma reforma ‘histórica’

Falando por videoconferência em um ato realizado pela Anistia Internacional, em Londres, Snowden qualificou de “histórica” a reforma que reduz os poderes da NSA.

“Isto é significativo, é importante e, na verdade, histórico”, comemorou Snowden.

O ex-analista disse estas palavras antes da votação definitiva pelo Senado americano e assegurou que o programa de vigilância maciça “foi repudiado, não apenas pelos tribunais, mas pelo Congresso”.

“Pela primeira vez na história recente, apesar das declarações do governo, o público tomou a decisão final”, acrescentou.

“Se espionamos tudo, não entendemos nada”, disse Snowden à audiência, referindo-se à enorme quantidade de dados que a NSA consegue obter legalmente com as comunicações dentro do país.