Arquivo mensais:junho 2015

Com maior percentual de crianças, Região Norte tem pior cobertura de saneamento

Por Yara Aquino | Via Agência Brasil

Com maior percentual de crianças, Região Norte tem pior cobertura de saneamentoMarcelo Camargo/Arquivo Agência Brasil

A maior proporção de crianças e adolescentes do país está concentrada na Região Norte, que tem a pior cobertura de saneamento básico e de acesso à água tratada do país. Cerca de 40% da população que vive na Região Norte são compostos por crianças e jovens até 18 anos. Eles convivem com uma realidade em que 67% dos domicílios não têm rede de esgoto ou fossas sépticas e 45% não têm rede de água.

Os dados fazem parte do Censo de 2010 e estão na publicação Cenário da Infância e Adolescência no Brasil 2015, divulgado hoje (10) pela Fundação Abrinq – Save the Children. O livro de bolso reúne para consulta números e estatísticas de órgãos como o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e os ministérios da Educação e da Saúde em áreas como moradia, violência, mortalidade infantil, acesso a creches, cultura e lazer.

“Temos divulgações separadas de dados de diversas áreas e ao vê-los reunidos e detalhados conseguimos enxergar como as vulnerabilidades sociais combinadas afetam de forma significativa a infância”, disse a administradora executiva da Fundação Abrinq, Heloísa Oliveira.

O Nordeste tem 34% da população de crianças e adolescentes e é a segunda região com pior acesso a esgotamento sanitário – 54% dos domicílios não têm rede de esgoto. “Os números mostram que essa combinação de vulnerabilidades afeta de maneira mais significativa as crianças do Norte e Nordeste”, ressalta Heloísa Oliveira.

Em relação ao acesso à educação, a taxa de cobertura de creches, por região, em 2012, também deixa o Norte em desvantagem. Essa taxa mostra a razão entre o número de crianças em idade escolar (até 3 anos) e o número de matrículas nessa etapa do ensino. Na Região Norte, a taxa de cobertura é de 8%, a menor entre as cinco regiões do país. A melhor cobertura está no Sudeste, com a taxa de 31%.

No Norte também está a maior taxa de distorção idade-série nos ensinos médio e fundamental. A publicação apresenta dados de 2013 mostrando que, na região, 31% dos estudantes do fundamental e 45% do médio estavam matriculados em séries não condizentes com sua idade. O melhor cenário está na Região Sudeste com percentuais de 14% e 21%, respectivamente.

Paraná: Operação prende amigo pessoal de Beto Richa e busca primo

Via Revista Fórum

Ambos são acusados de envolvimento em um esquema de sonegação de tributos no fisco paranaense, que, segundo os investigadores, pode ter desviado até R$ 500 milhões.

Em nova fase, a Operação Publicano, deflagrada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Paraná, cumpriu, na última quarta-feira (10), 68 mandados de prisão preventiva, dos quais 50 eram contra auditores fiscais. Entre os alvos estão um amigo pessoal e um familiar do governador Beto Richa (PSDB).

O grupo é acusado de participar de um esquema de sonegação de tributos no fisco paranaense. Os fiscais e auditores investigados são acusados de cobrar propina de empresários que tinham dívidas com a Receita e então quitar o débito sem que o estado recebesse o dinheiro. As operações ilegais podem ter lesado o erário em até R$ 500 milhões.

Entre os detidos, estão o ex-inspetor-geral de Fiscalização da Receita Estadual Márcio de Albuquerque Lima, parceiro de corridas automobilísticas de Richa, apontado pelo Ministério Público como o líder da quadrilha. Já o empresário Luiz Abi Antoun, primo do governador, não foi localizado e é considerado foragido. No início deste ano, Antoun chegou a ser preso por envolvimento em esquema de fraude de licitações (leia maisaqui), mas foi solto uma semana depois. Desde então, o governo do Paraná tem se esforçado para distanciá-lo da imagem de Richa – que diz ser apenas um “parente distante” do empresário.

De acordo com o MP, 13 empresas têm envolvimento com o escândalo.  A Justiça aceitou as denúncias feitas contra 62 pessoas, entre as quais estão auditores fiscais da Receita Estadual, 15 empresários, “laranjas”, contadores, auxiliares administrativos, funcionários públicos, um policial civil e um administrador de empresas.

*Com informações de O Estado de S. Paulo

Em alusão a Venezuela, declaração da Celac-UE ‘rechaça medidas unilaterais’, mas não cita EUA

Por Vanessa Martina Silva | Via Opera Mundi

Documento final da reunião de cúpula entre os blocos também exalta retomada do diálogo entre Washington e Havana e pede fim do bloqueio econômico à ilha.

Aprovada por unanimidade, a declaração final da 2ª Cúpula Celac-UE (Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos e União Europeia), encerrada nesta quinta-feira (11/06) exalta a retomada do diálogo entre Cuba e Estados Unidos para a normalização das relações entre o países e condena o bloqueio econômico e financeiro imposto pelos EUA à ilha. O texto final do encontro diplomático também aborda o tema das sanções aplicadas pelo país norte-americano à Venezuela, mas sem mencionar textualmente os Estados Unidos.

Foto oficial com todos os participantes da cúpula entre sul-americanos e europeus

Considerado o ponto sensível antes do encerramento da cúpula, o tema das sanções norte-americanas contra a Venezuela foi citado no documento final, mas sem mencionar explicitamente os Estados Unidos. O ponto 20 da Declaração de Bruxelas diz:

Reiteramos nosso rechaço às medidas coercitivas de caráter unilateral e efeito extraterritorial que são contrárias ao direito internacional, reafirmamos nosso compromisso com a resolução pacífica das controvérsias. Tomamos nota da Declaração Especial da Celac sobre as ações unilaterais contra a República Bolivariana da Venezuela de 29 de janeiro de 2015 e do comunitário solidário da Celac de março de 2015.

A reunião diplomática em Bruxelas gerou expectativas sobre a inclusão ou não de uma mensagem direta de repúdio à posição de Washington. Entre os países latino-americanos, especialmente os da Alba (Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América) — formada por Venezuela, Cuba, Bolívia, Nicarágua, República Dominicana, Equador, Antígua e Barbuda e São Vicente e Granadinas. O rechaço às sanções foi, inclusive, frisado pela presidente Dilma Rousseff, ao discursar durante a cúpula. Dessa forma, o documento final diz que o bloco tomou conhecimento da posição Celac — que condena os EUA —, mas não expressa textualmente uma posição de consenso.

Reaproximação Cuba-EUA

De forma mais contundente, os 61 chefes de Estado e de governo e ministros latino-americanos e europeus presentes ressaltaram, no documento, o apoio à retomada das relações entre Estados Unidos e Cuba. “Acolhemos com satisfação o anúncio feito em 17 de dezembro pelos presidentes de Cuba e dos Estados Unidos sobre o restabelecimento das relações diplomáticas. Neste contexto, contamos que se deem todos passos necessários para o rápido fim do embargo”.

O documento reafirma ainda as “conhecidas posições de rechaço às medidas coercitivas de caráter unilateral, assim como a aplicação das disposições extraterritoriais da Lei Helms-Burton. Ditas medidas provocaram consequências humanitárias indevidas para o povo cubano e estão prejudicando o desenvolvimento legítimo de laços comerciais entre Cuba, a UE e outros países”.

Por sua parte, a Argentina comemorou a inclusão no texto final do respeito “à integridade territorial”. Para o país, tal declaração é “fundamental porque inclui o conflito de soberania com o Reino Unido”, como afirmou o chanceler argentino, Héctor Timerman, em alusão à disputa que seu país trava com a nação europeia em torno da soberania das ilhas Malvinas.

Uma das ausências mais sentidas no evento foi do presidente cubano, Raúl Castro, que esteve representado pelo vice, Miguel Díaz-Canel. Agência Efe

Outro aspecto comemorado é “a necessidade de ter mais previsibilidade na reestruturação da dívida soberana”. O país enfrenta uma disputa internacional com os chamados fundos abutres, que não aceitaram negociar a reestruturação da dívida soberana com os argentinos.

Os líderes europeus também elogiaram a declaração da Celac que proclama a região como Zona de Paz e a decisão regional de resolver as controvérsias de maneira pacífica.

O texto pede também reforço do diálogo político, especialmente em desafios como a mudança climática, a agenda para o desenvolvimento e a luta contra as drogas.

Além disso, a União Europeia anunciou um reforço dos fundos para a América Latina em setores ambiental, energético e de pequenas e médias empresas e abordou o enfoque para a cooperação centrada na transferência de tecnologia, ciência, educação através de programas como o Erasmus+, que financiará o deslocamento de seis mil estudantes e professores.

Prefeitura de Itu suspende contrato com concessionária privada de água

Por Maria Martin | Via El País

Crianças captam água em uma bica de Itu, em outubro de 2014. / VICTOR MORIYAMA

Município declara intervenção administrativa de até 180 dias para fiscalizar gestão.

A Prefeitura de Itu, município do interior paulista que tornou-sesímbolo de revolta contra a falta de água em São Paulo, acaba de dar um duro golpe à concessionária responsável pelo abastecimento hídrico dos seus 155.000 habitantes. O prefeito Antonio Tuíze (PSD) decidiu pela intervenção administrativa na concessiónaria Águas de Itu, do Grupo Bertin pela falta de transparência na gestão da empresa e para garantir o abastecimento de água. “Acabou o relacionamento amigável entre o poder concedente, que é a prefeitura, e a concessionária. Com essa intervenção, nós vamos fazer uma auditoria contábil e fiscal em toda a empresa”, disse o prefeito à imprensa. O interventor nomeado pelo prefeito, Elso Marques, vai assumir temporariamente, até 180 dias, a gestão dos serviços e as obras de saneamento na cidade.

Durante a estiagem do ano passado, na mais grave crise de água pela que passou o município, os moradores sofreram um rodízio de dez meses que se traduziu em severos cortes de abastecimento de até semanas em alguns bairros, houve protestos violentos e os caminhões-pipa passaram a ser escoltados pela polícia. Itu é um dos 304 municípios brasileiros que delegou sua gestão de água total ou parcialmente a uma empresa privada.

Se a auditoria da Prefeitura concluir que os investimentos que entraram na Águas de Itu não foram aplicados diretamente na cidade, o prefeito afirma que pode chegar até a caducidade do contrato e à extinção da concessão da controladora, com quem foi assinado um contrato de 30 anos em 2007. Em agosto, conforme noticia o portal G1, a prefeitura já havia anunciado que um novo grupo iria assumir o abastecimento de água no município, a Águas do Brasil, que iria criar a concessionária Águas da República. As negociações se sucederam mas, em novembro, um novo anúncio informava que a empresa havia desistido de comprar o direito à prestação dos serviços da atual concessionária e Águas de Itucontinuaria com a gestão.

Se a Prefeitura resolver cancelar seu contrato com a companhia e não houver mais interessados em assumir o serviço, Itu poderia ser o primeiro município do Brasil em remunicipalizar seu serviço de abastecimento. A recuperação da gestão pública da água é considerada uma tendência global que, desde 2000, vem se repetindo em 235 cidades, como Paris, Berlim ou Buenos Aires.

A intervenção é mais um desdobramento do atrito que protagonizam a companhia e a Prefeitura durante esta crise hídrica. O último enfrentamento veio por conta do reajuste da tarifa e que deve ser decidido na Justiça. A concessionária havia anunciado um aumento de 11% mas a Prefeitura o rebaixou, por meio de decreto, a 4,4%.

A companhia diz não conhecer detalhes sobre as intenções da Prefeitura, mas afirmou, por meio de nota, que tem agido de “forma correta não só na efetivação dos investimentos – mais de 150 milhões de reais – mas especialmente no respeito à população”.  A empresa afirmou também que, nos últimos três anos, não conseguiu autorização para praticar “os reajustes previstos no contrato de concessão, o que gerou envolvimento da Justiça, que decidiu que atualizar os valores das tarifas tem mérito e não contraria qualquer cláusula contratual”.

A Águas de Itu, que garante que nunca houve qualquer irregularidade na concessão, completou seu posicionamento lançando uma alfinetada à gestão municipal. “O ato de intervenção de hoje teve cenas agressivas, que colocaram em risco colaboradores da concessionária”. Questionada sobre o que estabelece o contrato de concessão diante uma possível rescisão por parte da Prefeitura, a companhia não respondeu.

Enquanto o conflito se resolve nos bastidores, os relatos de falta de água voltam a ocupar as conversas nas ruas de Itu. Depois de alguns meses de respiro, graças às chuvas de verão, um novo inverno sem nada nas torneiras ameaça se repetir.

A farra do juros altos

Por Rogerio Studart | Via Brasil Econômico

Na maioria dos casos em que foi implementada conjuntamente com choque de juros, a austeridade fiscal se demonstrou técnica e/ou politicamente insustentável.

Quase todos os membros do grupo das 20 maiores economias (o G-20) têm mantido políticas de juros baixos nos últimos anos. O argumento é quase sempre o mesmo: em economias com baixo crescimento e inflação, elevar os juros não faz sentido. Afinal, depois de quase sete anos de crise ainda prevalece uma enorme incerteza que tem paralisado o investimento, mantido a produção abaixo do potencial, e debilitado a recuperação dos salários médios no mercado de trabalho. A elevação dos juros nesse quadro só transformaria um relativo pessimismo dos agentes em uma certeza: a de que o custo do financiamento para consumidores e investidores seria mais elevado, e de que a demanda futura continuaria andando de lado. Nada disso pode contribuir para a recuperação do investimento e da produção.

Há outras ponderações, levantadas somente nas entrelinhas dos relatórios oficiais. Por um lado, mesmo em países que não têm dificuldade em captar recursos no mercado, uma elevação dos juros geraria uma considerável degradação do quadro fiscal, dado o espetacular crescimento da dívida nos últimos anos. Por outro, se ocorresse nos Estados Unidos, ou outra economia de moeda forte, o efeito sobre o mundo de um aumento dos juros poderia ser devastador: uma possível reversão dos fluxos no sentido dos Estados Unidos, imprevisíveis flutuações cambiais e riscos de liquidez para as economias mais endividadas em dólares. Em suma, o risco seria gerar uma “profecia autorrealizável”, levando uma situação frágil de recuperação em um quadro de menos emprego, menos investimento e perda de espaço fiscal. Isso explica porque nenhum governo quer apostar em saltos nos juros, e porque mesmo o conservador Fundo Monetário Internacional praticamente pediu aos Estados Unidos que evitassem qualquer aumento de juros agora.

Neste quadro, parece surpreendente o Brasil simultaneamente aumentar os juros de longo prazo cobrados pelo BNDES (a TJLP) e a taxa básica de rolagem da divida publica (a Selic). Evidentemente não faltam argumentos a favor da farra dos juros altos no Brasil — todos apontando para as especificidades do nosso país, e todos com contradições analíticas.

No caso dos juros de longo prazo cobrados pelo BNDES (a TJLP), tenho lido argumentos distintos. Um é fácil de entender: ao aumentar a TJLP, supostamente diminui-se o subsídio a um crédito parcialmente financiado com recursos do Tesouro para o BNDES — uma contribuição para a austeridade. Porém, também se argumenta que uma redução do papel do BNDES no apoio ao investimento produtivo terminará por aumentar as fontes privadas, contribuindo para uma eventual queda dos juros de longo prazo e um aumento do investimento produtivo. Essa equação só fecha com muita boa vontade; por exemplo, se supormos que sejam declinantes as expectativas de juros; ou que o investimento produtivo aumentará simplesmente pelo aumento da confiança gerada, supostamente, pela redução da intervenção publica. Mas alguém acredita que o Banco Central começará a reduzir os juros no futuro próximo, ou conhece casos de que o investimento tenha aumentado em quadros de incerteza em alta e com aumento do custo de financiamento de longo prazo?

As contradições analíticas se complicam mesmo quando se justifica o aumento da Selic. Sabemos todos que o Brasil passa por um momento de “resistência inflacionaria”, e que é preciso domar o dragão para dentro da meta de 4,5% estabelecida para o Banco Central. Sim, a inflação está alta há muito tempo, e deve ser contida. Mas sabemos também que o Brasil ainda sofre de problemas de inércia inflacionária, o que explica parcialmente porque quando ela atinge um certo patamar, reduzi-la não é elementar; e que a aceleração inflacionária foi parcialmente causada pelo choque de correção dos preços públicos. Ao provocar um novo choque de preços, as autoridades deveriam considerar um período maior para restabelecer uma trajetória no sentido da meta. Mas não: com frequência, as autoridades repetem ainda que os reajustes continuarão e que isto não afetará a trajetória de volta para a meta. Ora, neste caso, a única forma que resta para combater um potencial aumento do patamar da inflação será gerando uma enorme recessão. Fica a suspeita de que a questão deixou de ser diminuir o consumo, mas simplesmente retirar o consumidor do mercado — e pela porta de saída, ou seja, pelo desemprego.

Outro argumento que leio com frequência é que a “austeridade monetária” deve acompanhar a fiscal para gerar rápida recuperação da credibilidade, manter o grau de investimento e, portanto, da retomada do crescimento. O argumento sobre a relação entre a credibilidade e “as duas austeridades” parece simplesmente ignorar o que todo o mundo sabe: um aumento dos juros afeta o custo de rolagem da dívida, deprime a atividade econômica e, portanto, reduz a arrecadação de impostos. Invariavelmente termina por gerar ainda maior pressão por medidas politicamente insustentáveis em conjunturas recessivas: cortes de gastos públicos mais profundos e/ou aumento de tributos. Por esta razão, na maioria dos casos em que foi implementada conjuntamente com choque de juros, a austeridade fiscal se demonstrou técnica e/ou politicamente insustentável. E não nos iludamos com o fato de que os investidores e agências de rating olhem agora com bons olhos a vontade das autoridades econômicas em “cortar na própria carne”: a experiência tem sido que, no fim das contas, eles querem mesmo é saber se manterá a trajetória de queda da dívida pública.

Se os argumentos pela farra dos juros altos estiverem certos, só poderemos contar com a retomada do crescimento e do emprego em 2016 ou 2017. Isso não é uma perspectiva nada boa para a maioria das famílias brasileiras, com exceção talvez das que irão desfrutar dos R$ 90 bilhões adicionais da conta total de R$ 400 bilhões pagos sobre os títulos do Tesouro. Se não forem acertados … bem, nem quero imaginar.

Dica de leitura: “Economia – Modo de Usar”

Por Cyro Andrade

Chang se propõe explicar onde estão o joio e o trigo de teorias econômicas, campo aberto à proliferação de impurezas.

Quantas pessoas não versadas no vocabulário de economistas são capazes de dizer o que é superávit primário? Ou a conta de transações correntes? Ou política monetária macroprudencial? Testes de conhecimento básico podem encabular muita gente posta à prova numa mesa em que se converse sobre a problemática brasileira. Mas não é dessas particularidades semânticas, que se podem resolver no Google chamado ao tablet, que trata o livro de Ha-Joon Chang. São outros os significados, muitas vezes ocultos, de que ele fala. Este professor de economia em Cambridge escreve para dar roupagem vulgar, ao alcance de não iniciados, a assuntos que economistas (não todos) costumam vestir com brilhos de enganador cientifismo ou camuflar em esoterismos de linguagem hermética.

O leitor é levado para um nível de informação, de caráter entre prático e filosófico, que é suficiente, segundo Chang, para o cidadão comum armar-se de argumentos e participar do debate econômico em termos que lhe são facultados na democracia – ou seja, não conta apenas o que, em outros regimes, o especialista diz, e ponto. Por que economia é essencialmente política, e ética. Não é uma ciência. Não cabe, então, dizer que esta ou aquela teoria é certa ou errada, como se faz na física ou na química. E justamente por isso existem tão variadas linhas de pensamento econômico. E por isso também é perfeitamente possível que não economistas possam formar seus próprios juízos a respeito de questões econômicas. Bastaria que tenham algum conhecimento sobre o essencial das teorias (em grau que, ao ver de Chang, se encontra em seu livro) e os olhos abertos para os pressupostos políticos e éticos, claros ou presumíveis, que as informam (recurso óptico que, pode-se deduzir da leitura, um tanto de treino cívico e o senso comum proporcionariam).

Chang garante que seu livro – no qual tenta explicar “como pensar, em vez de o que pensar” – pode ser lido com pleno proveito por qualquer pessoa que tenha, pelo menos, instrução secundária. Exagera, com certeza, na amplitude da generalização, qualquer que seja o hemisfério de residência do público que tem em vista, mesmo que esteja ao norte do Equador. Mas acerta ao sugerir que o desejável encontro de leigos e sapientes para troca de opiniões será impossível se depender – como acontece hoje e por isso praticamente só economistas se fazem ouvir -, de competências matemáticas e (supostamente) científicas que permitiriam a compreensão de literatura econômica pelos intelectualmente desarmados.

“Em qualquer profissão que envolve alguma competência técnica – seja economia, medicina ou consertar encanamentos – o jargão que facilita a comunicação entre os profissionais dificulta sua comunicação com as pessoas de fora. Todas as profissões técnicas têm um incentivo para parecerem mais complicadas do que realmente são, para poderem justificar os elevados honorários que seus praticantes cobram” [por serviços prestados]. Ressalve-se: competências maiores, seja em que ramo for, merecem recompensa à altura, do mesmo naipe em que certamente se encaixam as pretensões de economistas com o nível do próprio Chang, por exemplo, em seu mercado de trabalho. Aliás, a meritocracia não é assunto estranho aos interesses da pesquisa acadêmica.

O que há, então, é um mercado de ideias, com vendedores e compradores – estes, em grande número, incautos. Contudo, os consumidores leigos podem se mostrar até mesmo capazes de julgamentos de qualidade superior aos dos que trabalham os entendidos no lado da oferta, diz Chang, porque estão mais ligados à realidade e são menos inclinados a turvações ideológicas e capcioso estreitamento de focos de avaliação. Em seu livro, ele dedica espaços generosos à fortificação de posições de quem esteja à procura de luzes para o debate com informações sobre o “mundo real”, além de explicar fundamentos de diferentes escolas de economia – algumas das quais são chamadas indevidamente de escolas, o que ele também explica de passagem.

A realidade visitada no livro significa também abrangência geográfica (que alcança aspectos da vida econômica brasileira). E apresenta-se ainda a realidade pelo ângulo da economia compreendida como permanente disputa política, sem lugar para “verdades objetivas”, lugar de jogo de interesses em que se constroem outras realidades, inclusive as supostas em políticas de governo. Mais uma razão para o cidadão interessado em participar do debate econômico – possibilidade que lhe é oferecida de várias formas, inclusive na condição de eleitor – perguntar sempre, como recomendava Marco Tulio Cicero (106 a.C – 43 a.C.) e agora faz Chang em seu livro: “Cui bono?” (a quem isso beneficia?).

Chang propõe-se ser um explicador que se explica a si mesmo, de modos declarados ou implícitos, em seus artigos, palestras e livros (mais de 20), como um economista defensor do pluralismo para fins intelectuais e práticos. Opõe-se, portanto, ao pensamento único, que, longe de ser uma casualidade, é coisa professada já em salas de aula, cravado em currículos oficiais. Chang não gosta, por exemplo, de Gregory Mankiw, o americano professor de economia em Harvard que enriqueceu como autor de um dos livros-texto mais populares de todos os tempos, sucesso só comparável, talvez, ao feito de Paul Anthony Samuelson com seu “Economics”, publicado incontáveis vezes desde a primeira edição, em 1948. Mankiw é citado por Chang como um cínico que paira acima de platitudes éticas, capaz de revelar-se assim em artigo publicado em 2006 (“The macroeconomist as scientist and engineer”): “Os economistas gostam de fazer pose de cientistas. Sei disso porque muitas vezes eu mesmo faço isso. Quando leciono para a graduação, conscientemente descrevo o campo da economia como uma ciência, de forma que nenhum aluno comece o curso pensando que está embarcando numa empreitada acadêmica inconsistente”.

Até a ciência, no entanto, pode padecer de inconsistências, enquanto cientistas procuram, em seus laboratórios, o norte do consenso que afinal deverá consagrar o saber definitivo. A economia, porém, é sempre política e assim constitui um convite permanente à pluralidade. Desenvolve-se também por via do conhecimento experimental, de “laboratório”, mas tem complexidades que escapam ao fórceps de modelos econométricos em que se procure enfiar a realidade. Chang tem razão: “Como todos os grandes romances e filmes, o mundo econômico real é povoado por personagens complexos e falhos, tanto indivíduos quanto organizações. Teorizar sobre eles deve envolver, naturalmente, certa generalização e simplificação, mas as teorias econômicas dominantes vão longe demais ao simplificar as coisas.”

“Economia – Modo de Usar”. Por Ha-Joon Chang. Tradução: Isa Mara Lando e Rogério Galindo. 461 págs., R$ 37,90 (Portfolio-Penguin).

Ex-esquerdistas na direita, ex-direitistas na esquerda: tempo de farsa e oportunismo

Por Bob Fernandes | Via Facebook

Essa semana, na Bahia, o PT faz Congresso Nacional no 10º aniversário do chamado “mensalão”, escândalo que levou vários dos seus à cadeia.

Em julho o PSDB renovará a Executiva Nacional. Aos 17 anos do chamado “mensalão tucano”, que dorme numa gaveta em Minas. Sem ser julgado, assim como seus demais escândalos.

PT e PSDB somam 20 anos no poder central. Ambos têm avanços para mostrar. E ambos, em maior ou menor grau, devem refletir sobre graves erros que cometeram.

O PT, que tem a Presidência, para manter-se no Poder valeu-se de usos e costumes que criticava antes de chegar ao Poder. E não apenas.

Ao errar e não fazer autocrítica profunda e pública, o PT permitiu que algumas das piores porções da sociedade se apoderassem da hegemonia na narrativa e nas ações políticas.

E tem erro que é obra conjunta: ambos partidos se envolveram num longo processo de desqualificação mútua e sem limites.

Processo binário que arrastou o país a um pós-debate paralisante e medíocre, onde predomina o que há de pior.

Não por acaso a truculência ignara em relação à Política, a usos e costumes, aos cães beagle, aos imigrantes haitianos…a quase todo e qualquer assunto.

O avanço do fundamentalismo e peemedebização é obra ampla e conjunta, de muitos.

Eduardo Cunha e Renan Calheiros comandam o Congresso ao mesmo tempo em que são investigados. Isso diante do silencio cúmplice e revelador das ruas, panelas e mídias tantas.

O governo faz o contrário do que pregou na campanha enquanto a oposição vota contra o que pregava… É tempo de cínicos e oportunistas em amplos setores.

Tempo dos que corrompem e se fazem de vítima ou denunciam a corrupção alheia… E sempre é Tempo dos que pregam capitalismo pendurados no Estado.

É tempo de farsas e oportunismo. Por isso, tantos que há poucos anos ou décadas posavam na esquerda hoje se servem e se empanturram nos extremos da direita.

Por isso, vários que serviram a direita mais extrema até há pouco hoje faturam pela esquerda.