Arquivo mensais:junho 2015

Uruguai e acordos comerciais com a UE: acomodando o traseiro na poltrona “em duas velocidades”

Por Fernando Moyano | Via Correio da Cidadania

Walter Cancela, embaixador uruguaio na União Europeia, disse na segunda-feira, primeiro de junho, que o Mercosul não planejou um acordo “em duas velocidades” com a União Europeia ((UE), ou, seja, deixando de lado a Argentina por dois anos), senão um acordo “dos quatro sócios, porque a UE tem mandato para negociar com o bloco do Mercosul, não em separado”.
No dia seguinte, foi anunciado que ele seria removido de seu cargo porque suas declarações haviam incomodado o presidente Tabaré Vázquez, ao mesmo tempo em que não o incomodaram os insultos do ministro da Defesa aos organismos de Direitos Humanos.

“Da política exterior cuida o presidente”, disse o chanceler da República, e acrescentou que buscariam rapidamente um substituto porque as negociações começam já. “Se a Argentina decidir não participar, o resto do bloco seguirá adiante”, disse o ministro da Economia, há alguns dias, e que isso foi acordado com Dilma Rousseff na recente visita de Tabaré a Brasília. (parece decidir também sobre a política internacional do Brasil).

Vinte e quatro horas depois, os mesmos hierarcas dizem que não demitiram Cancela, mas apenas o “colocaram sob observação”. Ao mesmo tempo, o ex-presidente José Mujica disse que a solução para a América Latina não virá do comércio com a Europa, que está em “situação complexa e cheia de incertezas”.

Para entender alguma coisa, vamos à raiz do problema.

A debilidade relativa congênita da classe dominante uruguaia a aproxima periodicamente do poder imperial. Desde a incipiente burguesia colonial de Montevidéu, “a muito fiel e conquistadora”, que em 1806 recuperou para a coroa espanhola a Buenos Aires invadida. Ou a “independência” do Uruguai em 1825-28, de costas para o projeto federal artiguista, por decisão de Sua Majestade Britânica. E a infame Tríplice Aliança de 1865 para invadir e destroçar o Paraguai, acabando com sua resistência contra a penetração imperialista. De brinde, esta guerra nos deixou um exército uruguaio formado com um rejunte de mercenários e essa condição se prolonga até as “missões de paz” de hoje.

Nossa única redenção possível é a integração latino-americana. “O Uruguai não pode seguir marcha somente pelos trilhos uruguaios. Os do Uruguai insular. O Uruguai que está morto. Que não tem possibilidades de desenvolvimento autônomo… Esse caminho está condenado à frustração. o Uruguai não pode, por si só, adquirir sua independência”, afirmava o jornalista e político Carlos Quijano, fundador e diretor do Marcha (antigo semanário).

Mas qual integração? “A integração dos desenvolvimentistas não é a nossa”, acrescentava Quijano. O capitalismo periférico dependente define uma competência especial entre as burguesias coloniais da região, uma disputa por um melhor lugar na vassalagem da estrutura colonial. O espaço que ganha uma, perde a outra, e essa competência servil degrada a todas em benefício do centro imperial.

A cenoura é buscar um desenvolvimento por via capitalista para “alcançar o Primeiro Mundo” em uns trinta anos, aproveitando as possíveis oportunidades no comércio mundial (agora o chamam de “país inteligente”). Essa integração seria coordenar as ofertas para esse mercado e aceitar por igual os capitais e os produtos externos. Mas sem interação produtiva sempre há o limite da competência em chegar aos mesmos objetivos por vias particularistas.

O suposto desenvolvimento por imitação do caminho dos países europeus e EUA nos últimos trezentos ou quatrocentos anos, é impossível. Isso foi claramente demonstrado, faz tempo, por autores como o marxista uruguaio Vivian Trías.

Já não é mais possível uma acumulação primitiva pela exploração das colônias e superexploração do trabalho, como na revolução industrial. Reformar a atual distribuição da terra já não significa uma remoção do feudalismo, um modo de produção inferior; agora é preciso quebrar a concentração de terras em mãos do agronegócio transnacional, impossível por pura e simples competição capitalista.

Hoje o excedente econômico é levado pelo imperialismo, que conta com o monopólio financeiro, potência militar, acesso aos recursos naturais, meios de comunicação e tecnologia. Em vez de uma burguesia autônoma como na decolagem capitalista na Europa, as nossas são subsidiárias do capitalismo globalizado, vivem em seu interstício e não podem, nem buscam, ser outra coisa.

O que faz um governo como o da Frente Ampla? Se o que busca é gerir o capitalismo, assuma a lógica capitalista. Sentado na poltrona, traseiro e cérebro se moldam.

O que pode fazer um pequeno país capitalista, periferia da periferia, como o Uruguai? Se saltar da panela, cai no fogo.

Cada vez que alguma crise cria dificuldades, o governo proclama que os capitais podem vir para cá porque o Uruguai baixa os panos; cada vez que algum outro governo da região tenta sequer uma pequena negociação ou resistência, aqui se prestam ao papel de fura-greves para mostrar “responsabilidade”. E anunciam que o Uruguai está “blindado” e, mais ainda, sairá beneficiado pelas dificuldades dos vizinhos. Com o gorro em mãos, pedindo moedas.

Mas acaba passando o que é previsível para qualquer um, menos para essa equipe econômica. As dificuldades da região pendem sobre o Uruguai, porque esses países são mercados do Uruguai. Deles, vêm muitos investimentos de capital, divisas e são sócios em obras de infraestrutura. É o dilema do prisioneiro. Se mandar em cana o teu cúmplice, é possível que vás antes dele.

Entre servir ao império ou ao sub-império, para alguns é preciso “se abrir ao mundo” para ver se assim se vendem serviços aos países centrais, e para outros é melhor vender na região a ideia de um porto de águas profundas entre todos. Todas as opções dentro do capitalismo, porque por algo estão sentados na poltrona.

Deslocar-se entre Argentina e Brasil, no Uruguai, é como vir a reinventar a roda. Armar intrigas entre eles para ver se pescamos algo, talvez dê um pão para hoje. Mas com certeza traz fome para amanhã. Porque qualquer império proferirá sempre resolver com os maiores, por mais que possa tirar desta “terra sem nenhum proveito”.

Um país inteligente não merece um governo estúpido. Não é de estranhar que em tantas voltas pelo labirinto, alguém se incomode que outro diga uma verdade simples e modesta.

Nestas condições, nesse contexto inabalável do capitalismo, quais dessas “duas velocidades” é a solução? Simples, não há solução.

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Fernando Moyano, uruguaio, é membro da revista Alfaguara e fundador da Coordenação pela Retirada das Tropas do Haiti.

Tradução de Raphael Sanz, do Correio da Cidadania.

Redução da pobreza na América Latina se deve, principalmente, a melhores salários

Via Diário de Pernambuco

O acentuado aumento do preço das commodities na última década ajudou a elevar os salários das pessoas menos favorecidas na América Latina e no Caribe, mas não implicou em melhores oportunidades de emprego. Somando-se a isso, os salários nos países não exportadores de matérias-primas da região aumentaram bem menos ou, em realidade, foram reduzidos.

Estas são as principais conclusões do novo relatório do Banco Mundial, Trabalhando para acabar com a pobreza na América Latina e no Caribe: trabalhadores, empregos e salários, lançado nesta quarta-feira (03) no Conselho das Américas. O estudo, que faz parte da série Poverty and Labor Brief (Informe sobre a Pobreza e o Trabalho), também apresenta os mais recentes índices de desigualdade de pobreza e renda para a região usando pesquisas comparativas domiciliares e de mão de obra.

O relatório mostra que, após mais de uma década de contínuo declínio, 2013 foi o terceiro ano seguido marcado pela estagnação da desigualdade. À medida que o crescimento per capita desacelerou, o mesmo ocorreu com a redução da pobreza, em comparação com a primeira década do século 21.

Principais determinantes da redução da pobreza

“Nos últimos anos, a força dos avanços sociais na América Latina e no Caribe se dissipou”, afirmou Louise Cord, diretora para a América Latina e o Caribe das Práticas Globais de Combate à Pobreza do Banco Mundial. “Com a desaceleração dos preços das commodities, é essencial duplicar os esforços regionais para promover um crescimento mais inclusivo e reduzir a pobreza. Este relatório enfatiza a necessidade de aliviar as restrições enfrentadas pelos pobres quanto à sua participação no mercado de trabalho e continuar ampliando o seu acesso à educação de alta qualidade e aos setores de maior produtividade.”

O estudo conclui que a pobreza na América Latina e no Caribe, definida como a subsistência com menos de 4 dólares por dia, diminuiu de 25,3% em 2012 para 24,3% em 2013, e a extrema pobreza (2,50 dólares por dia) caiu de 12,2% para 11,5%. O avanço na redução da pobreza, mesmo em ritmo mais lento, não foi uniforme: a América Central e o México apresentaram um desempenho inferior ao de outras subregiões.

Os rendimentos proporcionados pelo mercado de trabalho foram os principais determinantes da redução da pobreza na América Latina. Desde o início dos anos 2000, os salários dos trabalhadores não qualificados – com maior probabilidade de serem mais desfavorecidos e cujas famílias respondem pela metade dos pobres da região – cresceu de modo significativo na maior parte do continente latino-americano e mais rápido do que em outros grupos, desempenhando um importante papel na redução da pobreza da região. Em média, os trabalhadores não qualificados se beneficiaram de aumentos anuais acima de 4% na sua renda laboral, enquanto os menos qualificados (com educação fundamental completa, mas não o ensino médio) e os trabalhadores qualificados registraram um crescimento de 2% em suas remunerações.

Por outro lado, a participação no mercado de trabalho da mão de obra não qualificada e dos cidadãos mais desfavorecidos – os 40% em situação mais vulnerável – não representou um fator determinante na redução da pobreza. Apesar dos avanços na educação, a participação da força de trabalho %u2012 empregados ou ativamente em busca de ocupação %u2012 não cresceu, com a exceção das mulheres em idade laboral, tendo-se observado uma queda entre os homens não qualificados na região. De modo geral, a participação no mercado de trabalho dos homens e mulheres em idade ativa, situados entre os 40% em pobreza extrema, caiu 1,6% entre 2003 e 2013, enquanto aumentou 4,4% para os trabalhadores entre os 60% em situação de pobreza.

Disparidades para ingressar no mercado de trabalho

“As razões por trás dessas disparidades para ingressar no mercado de trabalho podem ser as mais variadas e vão desde um aumento das famílias chefiadas por mulheres a uma expansão das transferências condicionais de renda, que fazem com que os trabalhadores estejam dispostos a esperar mais para conseguir empregos melhor remunerados”, salientou Cord. “Mas também poderia significar que está se tornando mais difícil para os homens não qualificados encontrar trabalho.”

O relatório atesta que as melhorias na qualidade dos empregos dos trabalhadores não qualificados foram relativamente pequenas. O deslocamento desses trabalhadores para setores mais produtivos ou para empregos de melhor qualidade foi relativamente insignificante em toda a região. Em lugar disso, fatores externos, especificamente a alta do preço das commodities, foram associados aos aumentos de salários na região. Os países exportadores de matérias-primas da América do Sul apresentaram ganhos reais de salário em todos os setores e níveis de qualificação %u2012 não apenas no comércio %u2012 enquanto nos países onde não ocorreu um aumento acentuado do preço das commodities, os salários estagnaram ou caíram em todos os setores e competências.

Em toda a região, os governos contribuíram para o aumento de renda da mão de obra e a melhoria dos resultados do mercado de trabalho implementando diferentes programas e políticas como o fornecimento de creches e a educação na primeira infância para ampliar a participação da mão de obra feminina, os programas de treinamento, os incentivos à formalização e a legislação do salário mínimo.

O estudo mostrou que, se for estabelecido corretamente, o salário mínimo pode atuar como um forte indicativo para salários mais elevados mesmo no setor informal, representado em sua maioria pelos menos favorecidos. No entanto, se o seu valor for fixado em um nível muito baixo ou muito alto, poderá reduzir o seu efeito nos setores formal e informal.

Fonte: Organização das Nações Unidas (ONU)

Uma nova crise no horizonte: Entrevista com Martin Wolf

Por Robinson Borges | Via Valor Econômico

O passado é um país estrangeiro, mas o futuro pode não ser tão distante. Quem alerta é Martin Wolf, 69 anos, colunista do “Financial Times” e uma das vozes mais influentes no debate econômico global. Para ele, uma nova crise financeira internacional não só está no horizonte, como pode ser ainda mais grave do que a iniciada em 2007. “Pode muito bem acontecer de as maneiras como as economias responderam à crise ­ em particular o afrouxamento fiscal e a expansão de crédito ­ terem criado fragilidades substanciais no longo prazo”, diz Wolf, que já foi economista do Banco Mundial e é professor da Universidade de Nottingham, no Reino Unido.

O grande problema, em sua análise, é que os países de alta renda, epicentro da crise no fim da década passada, não estão em um curso sustentável. Wolf parte da premissa de que a resposta à turbulência financeira fez apenas o mínimo necessário para “pôr de novo o show na estrada”. Ou seja: as lições do passado não fazem parte da preocupação presente dos formuladores econômicos como deveriam fazer, com reformas essenciais e radicais. “Nós aprendemos muito desde então, mas não o suficiente para evitar que essa experiência tão dolorosa se repita”, afirma. Esse é o foco de “As Transições e os Choques: O que Aprendemos – E o que Ainda Temos de Aprender ­- Com a Crise Financeira”, seu mais recente livro que a Companhia das Letras acaba de lançar no mercado brasileiro.

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista que Martin Wolf concedeu ao Valor, por telefone, de Londres.

Valor: O senhor não está otimista em relação ao que aprendemos com a crise financeira e diz que não estamos em um curso sustentável. Na sua avaliação, uma nova turbulência na economia é inevitável?

Martin Wolf: O setor financeiro é, em aspectos fundamentais, igual àquele que causou a crise, embora não em seus detalhes. Além disso, continuamos confiando no crescimento da demanda com base no endividamento. E esse é o objetivo das políticas monetárias que estamos adotando. Ainda há grandes desequilíbrios entre poupança e investimento no mundo. Para mim, portanto, é muito provável que a combinação desses três fatores gere uma nova crise financeira. Há outro fator: a maioria das economias continua com níveis de endividamento altíssimos. Há grandes dívidas privadas e públicas no mundo desenvolvido. Não houve muita desalavancagem. Não diria quando nem em sonho [risos]. Será daqui a muitos anos e vai depender de muitas coisas, mas a chance de haver uma nova crise é bem significativa.

Valor: Poderia ser pior que a de 2007/ 2008?

Wolf: É possível. Em primeiro lugar, é bem provável que os níveis de endividamento total sejam substancialmente maiores do que eram em 2007. Em segundo, a capacidade dos governos de reagirem aumentando drasticamente seus déficits fiscais certamente seria mais limitada, porque os níveis de endividamento serão maiores. Por fim, há uma probabilidade razoável, que depende do momento, de que as taxas de juros ainda estarão muito baixas. Lembre­se que, antes da crise, as taxas de juros dos bancos centrais dos países desenvolvidos eram de 5% ou 6%. Se as taxas anteriores à próxima crise forem de 2%, 3% ou mesmo 4%, não terão muito o que cortar. Por todas essas razões, é perfeitamente possível imaginar que a próxima crise será pior.

Valor: Janet Yellen, presidente do Fed (Federal Reserve, o banco central dos EUA), declarou que pode aumentar as taxas de juros neste ano. Seria o primeiro aumento desde 2006. Qual será o impacto para o mundo e especialmente para países emergentes como o Brasil?

Wolf: Não sei quando o Fed vai aumentar os juros e Yellen também não [risos]. Posso estar errado, porque é uma decisão delicada. No entanto, acho que a economia dos EUA está mais fraca do que o Fed imagina e a inflação, mais baixa, em virtude da força do dólar e do crescimento do déficit em conta­corrente, que parece estar acontecendo e é parcialmente compensado pela queda no preço do petróleo. Há mais um fator: o Fed, diferentemente do Bank of England ou do BCE [Banco Central Europeu], não gosta de inverter sua direção. Acho que não aumentará as taxas se não estiver certo de que pode continuar na mesma direção. Acredito que, quando as taxas subirem, subirão lentamente e sem saltos. Talvez o primeiro aumento seja para 0,5 ponto [da taxa atual de 0,25%], o que é muito, muito baixo. Também acredito que todos dão como certo que vai acontecer dentro de mais ou menos um ano. Se isso for verdade, o impacto sobre o resto do mundo não deverá ser grande. Por outro lado, já tivemos experiências em que coisas parecidas aconteceram e não perceberam qual seria a extensão do impacto. Houve choques nos mercados de títulos e subitamente os retornos dos títulos começaram a subir mais do que todos esperavam. Isso pode acontecer, mas o impacto seria temporário. É importante que os responsáveis por economias como a do Brasil, onde há grande quantidade de empréstimos em dólares, observem sua fragilidade sistêmica cuidadosamente, mas imagino que os bancos centrais competentes tenham analisado isto, porque há riscos.

Valor: O senhor acha que não se fez muito para melhorar a regulação das instituições financeiras. Por que as reformas realizadas não foram suficientes e como deveriam ser feitas para reduzir o risco de pânico?

Wolf: Minha tese é de que elas são complexas e é difícil saber como vão funcionar. Além disso, as reformas provavelmente não foram suficientemente abrangentes para tornar os bancos robustos nas circunstâncias relevantes. Uma das afirmações que faço no livro, talvez não tão claramente quanto gostaria, é que a causa dessa crise foi um choque relativamente pequeno. Não foi um choque gigantesco. Foram perdas geradas por contratos de hipoteca pelo mundo ­ principalmente, mas não só, nos EUA ­, mas que causaram um caos tremendo. Para mim, isso mostra que a capacidade de absorção de choques pelo setor bancário era muito limitada. Se analisarmos o verdadeiro coeficiente de alavancagem dos bancos, ou seja, a quantidade de capital que detêm em relação à dívida, ou a relação dívidacapital, essa relação ainda é de mais ou menos 20:1, portanto eles não têm uma capacidade muito grande de suportar perdas de capital.

Valor: Embora considere imperfeito, o ex­vice presidente do Fed Alan Blinder diz­se otimista com relação ao ato Dodd­Frank para mitigar a vulnerabilidade do sistema…

Wolf: Acho que o Dodd­Frank foi uma boa tentativa de tornar o sistema, tal como é hoje, um pouco mais seguro. Se alguém dissesse: “Temos de manter o mesmo sistema, mas fazer todas as modificações possíveis para torná­lo mais seguro”, o resultado seria o Dodd­Frank, um conjunto de regras muito complicadas. E, sob ela, uma quantidade enorme de regras detalhadas será produzida. Conversei com pessoas do Banco Central [Fed] que estão céticas quanto à sua eficácia. Também temos de lembrar que, com o passar do tempo, os bancos farão lobby para modificar os regulamentos. A qualidade das ações das organizações reguladoras, em geral, será inferior à dos bancos, porque pagam muito menos [aos técnicos]. Acho razoável presumir que, embora as regras sejam bem intencionadas, sua eficácia é desconhecida e essas regras serão diluídas. Estou menos confiante do que Alan Blinder. Claro que ele pode estar certo, e espero que esteja. No entanto, já consigo ver, no Congresso, pressões para que se volte atrás, de maneira potencialmente perigosa, a fim de permitir maior liberdade em áreas das finanças que podem ser arriscadas. A maioria das pessoas não entendeu nada sobre a gravidade da crise de 2007 e 2008, e isso inclui a maioria dos economistas.

Valor: O senhor mostra que a atividade bancária ficou ainda mais concentrada em um número pequeno de bancos internacionais depois da crise. Esse cenário faz as instituições financeiras continuarem grandes demais para falir?

Wolf: Minha resposta instintiva é que sim. Talvez mais ainda do que antes. Muitos esforços foram dispendidos na chamada resolução e na capacidade de absorção de perdas, incluindo a possibilidade de converter dívida em capital próprio. Se houver uma nova crise, talvez seja possível evitar o resgate a grandes instituições financeiras. Acho que se só uma ou duas instituições tivessem dificuldades, seria possível sanar a situação sem ter de resgatá­las. Minha preocupação é a seguinte: se algumas instituições muito grandes enfrentassem dificuldades, seria bem provável que muitas outras enfrentassem dificuldades ao mesmo tempo ­ em parte porque ainda são interligadas demais para falir. Se isso acontecesse, seria uma crise sistêmica. Nesse contexto, o processo de resolução poderia ser muito mais difícil do que se pensa. Os credores dessas instituições teriam de ser resgatados. A melhor maneira de eliminar “o grande demais para falir” seria elevar o capital acionário requerido das instituições financeiras mundiais e sistematicamente importantes.

Valor: Em uma de suas colunas o senhor escreveu que a saída dos gregos do euro seria um pesadelo. Quais seriam os impactos dessa decisão para a região do euro, a Grécia e até mesmo o resto do mundo?

Wolf: Causaria, obviamente, uma crise na Grécia, o que seria um grande problema geopolítico. A pergunta sobre o impacto sobre o resto da zona do euro é difícil de responder. No curto prazo, provavelmente seria relativamente pequeno, porque eles têm os meios para lidar com pânicos e o risco de qualquer fuga de capital. Além disso, os outros países estão em condições diferentes das da Grécia. Diria, entretanto, que isso só se aplica ao curto prazo. Minha maior preocupação é o longo prazo. Uma vez que fique claro que é possível deixar a zona do euro, terá de haver um sistema cambial muito mais complicado do que a união monetária. Sempre que um país tiver problemas, não haverá amparos muito bons, e as pessoas vão começar a especular sobre uma nova saída, o que vai exigir uma ação coordenada e gigantesca do BCE e dos demais governos para lidar com essa especulação sobre uma saída. Custará muito, muito caro e terá um efeito grande sobre os bancos e a capacidade dos governos de se financiarem. O resultado pode ser uma crise muito, muito grave para qualquer país, porque, em essência, a especulação será desestabilizadora, em vez de estabilizadora numa crise. Se a saída da Grécia for permitida, isso poderá mudar toda a natureza do contrato europeu. Embora, no curto prazo, muitos dos países que não querem ajudar a Grécia achem que isso convencerá sua população a não votar em políticos populistas, no longo prazo há o perigo de que, uma vez que a saída aconteça, a união monetária perca credibilidade.

Valor: O senhor diz que a Europa tomou uma decisão precipitada e cometeu um grande erro ao adotar medidas de austeridade em 2010, com medo do déficit fiscal e da grande crise.

Wolf: Houve vários fatores na zona do euro: um aperto fiscal substancial, um pânico na concessão de empréstimos a diversos governos, alguns deles muito importantes, como o da Itália e da Espanha. Portanto, as taxas de juros dispararam. O setor bancário se desintegrou, por isso, o custo do capital para as empresas privadas ficou muito, muito alto e houve um volume significativo de fuga de capital. A zona do euro enfrentou uma série de problemas, além de um enorme desequilíbrio na conta­corrente, que tinha de ser eliminado ­ e muito rápido, porque era difícil manter o financiamento ­ e vários outros problemas, um dos quais era a austeridade fiscal, que dificultava a solução dos demais. É uma das razões pelas quais o PIB da zona do euro ainda não voltou ao nível anterior à crise. Foram oito anos perdidos de PIB. Alguns países, como Espanha e Itália, levarão ainda mais tempo ­ 10, 11 ou 12 anos para voltar ao nível pré­crise. É quase como a década perdida da América Latina, da qual você, sendo brasileiro, deve se lembrar [risos]. É claro que eles são países mais ricos do que o Brasil é e era, então têm uma proteção muito maior. O desemprego chegou a taxas incrivelmente altas, quase 30% na Espanha, cerca de 15% na Itália. É uma crise incrivelmente cara e a reação foi muito fraca.

Valor: Alguns sinais são mais positivos hoje…

Wolf: As coisas melhoraram. Sob a gestão de Mario Draghi, o BCE fez coisas notáveis para recuperar o sistema financeiro, com a união bancária também apoiada pelo governo, o que é muito importante. Eliminaram o risco de fragmentação do euro em grande medida, exceção feita à Grécia. Iniciaram um enorme programa de QE [afrouxamento quantitativo], que reduziu ainda mais as taxas de juros e de câmbio. Além disso, certa ou errada, a contração fiscal praticamente acabou. Não vai haver mais austeridade. Foi muito difícil, mas acabou. A zona do euro está começando a crescer, muito fraca e lentamente. Minha resposta para sua pergunta lá atrás é: entre outras coisas, a austeridade fiscal custou muito à Europa, mas agora, oito anos depois da crise, está começando a ser deixada para trás. Também poderia dizer, é claro, que as taxas de endividamento cresceram enormemente, isso porque sob certos aspectos, a austeridade não foi totalmente bem­sucedida. A economia se contraiu e foi muito ruim para as receitas e, portanto, para o déficit fiscal.

Valor: De que maneira o novo modelo de crescimento chinês, mais voltado ao aumento do consumo interno, afeta a economia internacional?

Wolf: Acho que está ficando cada vez mais evidente que a China está em processo de transição para um modelo novo de crescimento, que provavelmente será muito mais lento. É uma grande transição e é de particular importância: o crescimento chinês foi uma das principais razões pelas quais a economia mundial se manteve em movimento, apesar de os países desenvolvidos estarem em crise. Um dos aspectos mais notáveis com relação a essa crise no mundo desenvolvido ­ embora tenha tido um efeito importante sobre os países emergentes, incluindo o Brasil ­ é que seu impacto foi muito menor do que teria sido há 30 anos. Se os países desenvolvidos tivessem entrado numa crise dessas na década de 1980, teriam causado devastação no mundo emergente. O papel da China é muito importante.

Valor: Mas qual será o efeito da desaceleração econômica chinesa sobre os emergentes?

Wolf: Em parte, isso depende de quais commodities esses países estão exportando. O impacto negativo mais forte é sobre as matérias­primas industriais. Obviamente, houve um forte efeito, entre outras coisas, sobre o petróleo, que é importante para vários países emergentes. Acho que a demanda chinesa por alimentos importados vai crescer bastante, porque estão tentando promover o consumo interno. Se continuar crescendo, é provável que a população compre mais alimentos, que serão importados, ao que me parece. Pode não ser tão ruim para o Brasil, mas acho que o boom das commodities acabou. O Brasil e outras economias que dependem muito de commodities ­ economias desenvolvidas como Canadá e Austrália, pequenos emergentes como o Chile e emergentes muito pobres na África ­ terão de diversificar suas economias e imaginar outros motores de crescimento. A China também aprimora a qualidade de seus produtos e vai concorrer mais com a indústria de países como o Brasil e de países desenvolvidos. É um desafio enorme. O Brasil terá de repensar o seu caminho para o desenvolvimento.

Valor: O senhor já disse que o Brasil precisa recorrer à reindustrialização para isso.

Wolf: Sim. O Brasil terá de recorrer à reindustrialização e às exportações industriais. Será muito salutar, mas pode ser difícil. Estive no Brasil há alguns anos e acho que a era do boom das commodities criou uma falsa explosão de crescimento no país. Levou as pessoas a acreditarem que estavam fundamentalmente melhores do que estavam de fato. Neste momento, o desempenho econômico indica que as previsões são piores do que a realidade. Acredito que vocês vão melhorar nos próximos anos ou talvez no ano que vem. Mas acho que o crescimento real do Brasil é de 3% ou talvez 3,5%. Muitas mudanças estruturais são necessárias para elevar essa taxa.

Valor: No curto prazo o Brasil passa por um ajuste fiscal duro e, ao mesmo tempo, o Banco Central está aumentando as taxas de juros…

Wolf: Sim, são ajustes macroeconômicos de curto prazo. Acho que os principais problemas são estruturais, um nível incrivelmente baixo de poupança nacional, o que torna o país dependente demais da poupança externa e, em particular, do capital estrangeiro, o que, por sua vez, gera um grau de instabilidade. O nível de poupança nacional precisa aumentar. Isso implica aumento da poupança privada. Acho também que, para um país com esse nível de desenvolvimento, é quase certo que os impostos e gastos públicos são altos demais. O Brasil está fora da curva nesse sentido. Acho que prejudica a rentabilidade e o investimento. A distribuição de renda é um problema muito grande, você sabe bem disso. Tenho a impressão de que o governo do PT melhorou isso. Distribuição de renda melhor é uma fonte de dinamismo importante e de ganho na qualidade do capital humano no longo prazo. Também é relevante aprimorar e promover qualidade na indústria e serviços por meio de políticas de ciência e tecnologia muito ambiciosas. Já foi feito um pouco nessa área, mas é possível fazer muito mais: envolver os jovens com ciência e tecnologia e fazer do Brasil uma potência maior. Nessas áreas é que me concentraria, no longo prazo, para elevar a taxa de crescimento sustentável do Brasil. Creio eu que o Brasil pode se tornar um país avançado na próxima geração, e acho que essa é uma ambição realista.

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“As Transições e os Choques: O que Aprendemos — E o que Ainda Temos de Aprender — Com a Crise Financeira”. Martin Wolf, Tradução de Otacílio Nunes, Companhia das Letras, 478 págs., R$ 64,90.

EUA preparam envio de equipamento militar pesado para o leste da Europa

Por Rita Dinis | Via Observador

AFP/Getty Images

Equipamento militar deverá equipar um total 5 mil soldados no leste da Europa e Báltico.

O Departamento de Defesa dos EUA está a preparar o envio de equipamento militar pesado para vários países do Báltico e Europa de Leste, num gesto inédito desde os tempos da Guerra Fria. São milhares de tanques, veículos de combate de infantaria e outras armas pesadas que podem ser utilizadas por até 5 mil soldados. O objetivo, segundo afirmaram as autoridades norte-americanas este fim de semana, é tranquilizar os aliados e evitar novas agressões, no seguimento das intervenções russas na Ucrânia.

Se a proposta for aprovada ao mais alto nível – falta o aval do secretário de Defesa Ash Carter e da Casa Branca -, será a primeira vez desde o fim da Guerra Fria que os EUA estacionam equipamento militar nos mais recentes Estados-membros da NATO, que antes estavam integrados na esfera de influência soviética. E será apenas comparável ao que os EUA mantiveram no Kuwait por mais de uma década depois da guerra do Golfo em 1991.

A proposta do Pentágono, cujos detalhes e prazos ainda não são conhecidos, passa por colocar na Estónia, Letónia e Lituânia material bélico suficiente para cerca de 150 soldados em cada país, sendo que para a Polónia, Roménia, Bulgária e “possivelmente” Hungria a quantidade já seria maior: equipamento para cerca de 750 soldados, em cada país.

Trata-se, segundo o New York Times, do mais proeminente gesto conjunto dos EUA e da NATO no sentido de reforçar e reafirmar as forças na região do leste europeu e de, ao mesmo tempo, enviar uma mensagem clara ao presidente russo Vladimir Putin de que os EUA vão mesmo defender os seus aliados junto à fronteira russa. Certo é que, desde a inclusão dos países bálticos na aliança da NATO, em 2004, que os EUA e outras potências ocidentais têm evitado armazenar equipamento militar ou enviar tropas de forma permanente para o leste europeu, uma vez que procuravam sempre tentar chegar a várias formas de parceria com a Rússia.

No fundo, a iniciativa supõe a admissão de que a administração Obama não prevê um fim próximo para as tensões na Ucrânia, que começaram em março de 2013 e se arrastam desde então.

De acordo com um porta-voz do Pentágono Steven Warren, citado pelo New York Times, a decisão sobre “se e quando” vai ser dada a ordem para colocar o equipamento no local ainda não está tomada: “O Exército norte-americano continua a ponderar e a conversar com os seus aliados sobre qual será a melhor localização para depositar tal material”, disse. O prazo, contudo, é limitado, já que a ideia é ter o plano aprovado antes da reunião dos ministros da Defesa da NATO a realizar este mês em Bruxelas, esclareceu um alto responsável norte-americano que falou ao jornal de Nova Iorque sob condição de anonimato.

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Texto adaptado pela redação do Blog dos Desenvolvimentistas a fim de retirar trechos imprecisos e tendenciosos, puramente propagandistas das visões norte-americanas.

‘A China sabe o que quer, mas o Brasil não’, avalia economista sobre acordo entre os dois países

Por Luiza Bulhões Olmedo e Jaqueline Silveira | Via Sul 21

Professor de economia e de Relações Internacionais da UFRGS, André Cunha acompanha o avanço da China como principal parceiro comercial de boa parte do mundo e avalia acordo analisa acordo com o Brasil. Foto: Guilherme Santos/Sul21

Professor de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), André Cunha acompanha o avanço da China como principal parceiro comercial de boa parte do mundo, inclusive do Brasil. Recentemente, os dois países assinaram um acordo de US$ 50 bilhões, considerado um grande negócio pelo governo brasileiro. Contudo, o economista é cauteloso ao analisar os prós e contras da parceria com a China. Na opinião de Cunha, o governo federal não tem uma visão estratégica, ao contrário da China, de modo que a parceria pode não se tornar um bom negócio para a economia brasileira.  Ele também criticou o fato de não se discutir os grandes temas do futuro do país e de o Congresso se preocupar com coisas menores, sem entrar nessa sua pauta. Confira os principais trechos da entrevista concedida ao Sul21:

Sul21 - O crescimento chinês alavancou juntamente grandes produtores agrícolas, como o Brasil. Quais as consequências de ter a nossa economia tão atrelada ao ciclo econômico chinês?

André Cunha – O processo de ascensão da China é caracterizado por um crescimento muito forte nos últimos 30 anos. E com o avanço da internacionalização chinesa de 2001 para cá, quando a China entra na OMC (Organização Mundial do Comércio), ela vai se convertendo no principal parceiro comercial de boa parte do resto da humanidade. Uma dimensão que se destaca dessa internacionalização é a demanda chinesa por recursos naturais, até para dar sustentação ao seu crescimento. Então, notamos que de 2002 até meados de 2011, 2012 tem uma elevação muito grande do preço dos recursos naturais, e também um aumento da demanda quantitativa associada a essa elevação de preços. Isso contribui de fato positivamente para países que são produtores e exportadores de recursos naturais, os países da América do Sul são um exemplo disso. Para países da América Central e do Norte, como o México, já é outra coisa. Metade da África que exporta recursos naturais e energia, beneficia-se desse processo; já quem importa recursos naturais se prejudicou, porque os preços subiram. De 2012 pra cá, os preços estão refluindo mais em alguns segmentos de commodities e menos em outros. (Commodities são essas mercadorias, principalmente minérios e gêneros agrícolas, com características uniformes que são produzidas em larga escala e comercializadas em nível mundial, de modo que seus preços são definidos no mercado internacional).

Uma característica para economias como a brasileira, que tem uma estrutura de produção diversificada, é que na medida em que vão dependendo de commodities, ficam mais expostas às oscilações de demandas e de preços. Na medida em que os preços deixam de ser favoráveis, a economia brasileira vai perdendo o dinamismo do ponto de vista de comércio exterior. A principal dificuldade é a excessiva especialização na produção e na exportação em uma economia que já era diversificada, o que remete a um processo que eu chamo de regressão. Nós estamos voltando à condição a que ficamos décadas tentando superar, que é a condição de uma economia primário-exportadora. De alguma forma, o Brasil está voltando a ter uma economia mais instável, que depende mais dos estímulos externos. O Brasil emerge no começo dos anos 1980 como o 8º maior parque industrial do mundo. Aliás, o Brasil produzia mais produtos industriais que todos esses países asiáticos juntos. E hoje, o Brasil recuou bastante nesse processo. Nós tínhamos quase 3% da produção mundial de manufaturas e hoje temos pouco mais de 1,5% dessa produção. A China, ao contrário: está crescendo pela diversificação produtiva e pela diversificação do seu comércio exterior. O Brasil está se especializando em recursos naturais.

“(…) O Brasil produzia mais produtos industriais que todos esses países asiáticos juntos, e hoje o Brasil recuou bastante nesse processo.”

Sul21 – Isso pode ser prejudicial para economia do Brasil futuramente?

Cunha – Nada é bom e ruim em si. É bom o Brasil ser competitivo, ser exportador de recursos naturais? É bom, mas o problema é ser só isso. Na medida em que o Brasil vai se especializando só nisso, na minha avaliação, isso reduz potencial de crescimento. Por quê? Quando a renda mundial cresce, a demanda por recursos naturais cresce, mas menos rapidamente do que a demanda de produtos industrializados. Ou seja, se o mundo cresce e eu estou especializado em recurso natural, a procura pelos meus bens cresce, mas menos rapidamente do que quando eu cresço, e compro produtos sofisticados. Esse é um processo que muitos chamam de regressão, porque o Brasil já foi isso quando era uma fazenda de café. Depois, deixou de ser, e agora está voltando. A indústria está perdendo participação no PIB (Produto Interno Bruto), o comércio exterior depende de poucos produtos: basicamente minério de ferro e soja, e isso para um país como o Brasil é difícil. O Brasil não é uma economia pequena e especializada, como o Chile, por exemplo, então, para nós, isso é problemático. Não estou dizendo que é ruim exportar soja ou minério de ferro. O problema é exportar soja para importar o resto. Não ter uma estrutura diversificada, isso é ruim, e é o que está acontecendo, infelizmente.

“Não estou dizendo que é ruim exportar soja ou minério de ferro, o problema é exportar soja para importar o resto.”

Sul21- Como funciona a política cambial chinesa, e como ela contribui nesse processo?

Cunha – A política chinesa tem evoluído ao longo do tempo, atualmente eles procuram administrar o processo de valorização de sua moeda. Acho que um pouco da tua pergunta é se a China manipula ou não o valor de sua moeda. Eu alguma medida, sim. O que a China usa é uma estratégia mercantilista. Qual é o país que ascendeu internacionalmente que não usou a estratégia mercantilista antes? Todos usaram. A Inglaterra foi mercantilista, os Estados Unidos foram mercantilistas, o Japão, a Alemanha, em certa etapa do seu processo de ascensão. Então nesse processo o que a China evita é a entrada de dólares toda vá para o mercado. Se fosse toda para o mercado, o preço do Renminbi (Yuan Renminbi -moeda chinesa) desabaria mais rapidamente e prejudicaria sua estratégia exportadora. E eles vêm administrando isso.

O problema do Brasil não é a China, o problema é o Brasil. Nós não temos estratégia para nada, nem para nos desenvolvermos, nem para lidarmos com ascensão chinesa. O que a China quer conosco, a China sabe. O que o Brasil quer com a China, o Brasil não sabe. Não temos uma estratégia para isso, então esse é o problema. O problema do Brasil não é a política cambial chinesa, o problema é que o Brasil não tem política cambial. O Brasil usou o câmbio como âncora para estabilizar preços, para combater a inflação. Faz 20 anos que faz isso. O real é valorizado e isso está matando a indústria. Minha perspectiva não é anti-chinesa, pelo contrário A China está ascendendo e já é a maior economia do mundo em poder de compra e a segunda em valores correntes de mercado, e é o nosso principal parceiro comercial. O que nós vamos fazer com isso? Essa é a questão.

“O problema do Brasil não é a China, o problema é o Brasil. Nos não temos estratégia para nada, nem para nos desenvolvermos, nem para lidarmos com ascensão chinesa.”

Sul21 – Com a crise internacional de 2008, e o fim do boom das commodities, o que muda na relação entre Brasil e China? 

Cunha – Durante o período de boom das commodities, não só o Brasil, como os países exportadores de recursos naturais em geral, tiveram um choque favorável nos termos de intercâmbio. Os preços daquilo que a gente exporta, dispararam; e os preços daquilo que importamos, como as manufaturas, estavam moderados.  E a China contribui nas duas pontas: importando as commodities e exportando suas manufaturas baratas. Agora, esse negócio reverteu, e a gente está crescendo menos em função disso. Parte do efeito da crise internacional ainda existe e agora até aumentou. O crescimento da China está reduzido, assim como a especulação no mercado de commodities. Parte do excesso de liquidez mundial voltou para os Estados Unidos, para comprar ativos financeiros, especialmente ações, dos Estados Unidos. Tudo isso contribui para a mudança dos preços das commodities. Como nós estamos muito dependentes desses preços, crescemos menos. Parte das nossas dificuldades tem a ver com isso, com a reversão desse ciclo. Quando o ciclo vai, eu vou, quando o clico cai, eu paro. Isso é uma economia dependente e reflexa. De lá pra cá, nós estamos patinando em parte por isso.

Sul21 – A nova onda de investimentos chineses, como desse anúncio recente de mais de US$ 50 bilhões, tem sido visto por muitos como uma grande oportunidade para o Brasil neste momento de crise. Mas o senhor vê com cautela esse acordo, então como avalia os reflexos para nosso cenário econômico?

Cunha – Temos de separar em duas coisas. Nós estamos numa situação em que a economia está em contração, o PIB terá uma queda neste ano, nós temos um governo com pouco apoio da sociedade, sem apoio no Parlamento, encurralado. Sem capacidade de reação, sem capacidade de propor uma estratégia de crescimento para o país, de ter uma agenda positiva para o país.  Então, os chineses surgem, nesse momento, e não é só aqui, como nossa a grande saída. Eles vêm para a América Latina fazendo acordos, comércio, investimentos no momento em que a América Latina está com grandes dificuldades. A China pode dinamizar nossa economia? Até pode, mas eu seria um pouquinho mais cauteloso. Não vai ser uma coisa imediata, da noite para o dia. Tem esse fundo que, supostamente, a Caixa Econômica Federal vai administrar, de US$ 50 bilhões, para investir em infraestrutura. Vamos ver quando o dinheiro chegar, como o dinheiro será usado. Isso não vai gerar efeito de curto prazo.

Esses projetos chineses são fundamentalmente de infraestrutura para canalizar a produção de recursos naturais do Brasil para ser vendido na China. É aquela ferrovia para ligar o Rio ao Peru, que vai contribuir para o avanço na destruição da Floresta Amazônica. Tudo isso para vender soja e minério de ferro. Soja e minério de ferro não desenvolvem um país como o Brasil, com 8,5 milhões de km² e com 200 milhões de habitantes. Vender soja para importar iPhone: isso não vai desenvolver o Brasil. Isso vai dar dinheiro para quem produz soja, dinheiro para quem importa iphone, e vai concentrar renda, porque não terá renda para todo mundo. Mas insisto, a culpa não é dos chineses, os chineses nos trazem uma grande oportunidade, agora a gente não sabe o que fazer com isso. Este governo não tem estratégia e os anteriores também não tinham. Os chineses têm: eles querem mercado consumidor, eles querem acesso a recursos naturais, eles querem trazer seus investimentos e seus trabalhadores, porque eles têm de criar emprego. Eles têm agenda e nos estamos frágeis.

“Vender soja para importar iPhone: isso não vai desenvolver o Brasil”

Sul21- O senhor disse que, neste momento, a economia está frágil. Mas há alguns setores da economia brasileira que podem ser beneficiados pela aproximação chinesa?

Cunha – Há promessas diversas. Vamos pensar na construção de ferrovias: o Brasil tem problema de infraestrutura, tem de investir em infraestrutura e o Estado não tem dinheiro suficiente para investir em infraestrutura, nossas empreiteiras estão quebradas, esse é um momento ruim. Uma coisa seria, por exemplo, se esses investimentos fossem feitos pela Odebrecht, a Camargo Corrêa. Não estou aqui defendendo as empreiteiras. Empreiteira tem de fazer obras, não pode se meter na política, não pode financiar campanha. Nós temos de moralizar esse negócio, mas temos de preservar essas empresas. O Brasil está num processo um pouco catártico, que a gente compreende, mas daqui a pouco não terá mais empresas. Se esse investimento chinês fosse realizado por empresas brasileiras, por nossas construtoras, se eu internalizo a produção de locomotivas e demando aço produzido aqui dentro, se encadeio com a estrutura produtiva, isso gera um resultado potencialmente positivo.

O fato é que se não conseguir encadear para dentro, esse investimento simplesmente vai ser para isso: um corredor para pegar a soja aqui e levar para lá. O cara da soja vai ganhar, o do minério de ferro vai ganhar. Isso agrega pouco dentro do país. Então, depende como é que nós vamos fazer. Como nós estamos frágeis e sem estratégias, o risco do resultado líquido na ponta não ser tão bom como se promete não é pequeno. Se nós tivéssemos estratégia, se o governo tivesse capacidade de impor uma agenda, se conseguisse agregar a sociedade, agregar o empresariado nacional, que também está enlouquecido neste momento, aí os ganhos poderiam superar as perdas. Principalmente os ganhos com o setor produtivo industrial. Seria extremamente benéfico para o Brasil que empresas chinesas se instalassem e produzissem locomotivas aqui com agregação de valor no Brasil, partes, peças e componentes sendo produzidos também aqui, encadeando com o que tem no país, usando as construtoras brasileiras, ia ser uma maravilha. Agora se vai ser assim, não sei. Temos que ver o que vai acontecer.

“Empreiteira tem de fazer obras, não pode se meter na política, não pode financiar campanha. Nós temos de moralizar esse negócio, mas temos de preservar essas empresas.”

Sul21 - Dentre os investimentos anunciados está uma ferrovia que ligará o Atlântico ao Pacífico. Qual o impacto desse empreendimento para o Brasil? 

Cunha – Pode ser positivo, pode ser negativo. Qual é o impacto ambiental que vai ter isso? A própria legislação ambiental que foi aprovada recentemente reduz a capacidade do governo central de regular e joga a responsabilidade para os governos locais, isso é trágico! Como é que vai funcionar esse encadeamento com os setores produtivos locais? Eu não li nada desses documentos, em geral esses acordos são cartas de intenções, como uma coisa muita bonita. Como é que funcionou isso lá no passado? Qual foi o país que aceitou uma situação passiva como essa, de ser mero fornecedor de recursos naturais e de mercado consumidor, e que tenha se desenvolvido? Nenhum. Se isso fosse bom, a China teria feito e não fez isso. A China atraiu investimentos, as empresas que foram para lá tinham de transferir tecnologia, era o que o Brasil tinha de estar fazendo, mas não é isso que está sendo feito. Para desenvolver o Brasil, esses projetos de infraestrutura teriam de ter outra lógica, outro encadeamento. Mas o que temos é um Estado sem estratégia, e neste momento em crise política e com um empresariado que também não tem a capacidade de enxergar ali adiante. Muita gente vai ganhar, uma parte do empresariado virou o que no passado se chamava de burguesia importadora. Não produz mais aqui, simplesmente importa. Então, essa estratégia da China interessa porque eles vão ganhar dinheiro importando, não vão produzir no Brasil. Por que isso? Porque o dólar está muito barato ao longo dos anos, então é mais fácil importar do que produzir aqui porque a estrutura tributária é uma loucura, porque o ambiente de negócio é horrível. Um Estado que não tem estratégia não corrige esses problemas, que não foram corrigidos nos últimos 30 anos.

Sul21 – Então, talvez o Brasil possa não aproveitar esse abundante capital chinês e ainda colocar em xeque nosso setor industrial? 

Cunha – O setor industrial vem em queda há 30 anos, antes de a China ascender. A China não determinou isso, mas esse processo tende a se aprofundar. A aproximação com a China, se fosse usada estrategicamente pelo governo e pelo setor empresarial, poderia ajudar a reverter esse processo. Agora, no curso que as coisas estão andando, o risco de aprofundar um processo que já existia é enorme. Neste momento, eu atribuiria maior probabilidade, porque a história não está fechada, a isto. O que discute o Congresso Nacional? É manter financiamento privado, é distritão, é distritinho. Quais são os temas estratégicos futuros do Brasil? Nenhum, zero. O governo encurralado, a sociedade não apoiando. Enquanto os caras estão batendo panela, os chineses chegam e tomam conta. E eles (chineses) estão fazendo o jogo deles. A sociedade não enxerga, a mídia não coloca essas questões, todo dia se abre o jornal e só se vê escândalo, a gente não vê isso sendo discutindo pela sociedade. As nossas possibilidades de futuro estão se decidindo nessas questões. Da forma como está, o risco do Brasil é de perder mais do que ganhar. Isso não quer dizer que não tenha gente que vai ganhar muito dinheiro.

“Enquanto os caras estão batendo panela, os chineses chegam e tomam conta.”

Sul21 – Como a relação do Brasil com os vizinhos latino-americanos é afetada pela presença da China no subcontinente?

Cunha – Historicamente, o Brasil vendeu manufaturas. Para quem é que nós vendemos automóveis, geladeiras? Para os vizinhos, onde a gente consegue alguma competitividade. O Mercosul nos protege, temos a tarifa externa comum, temos acordo automotivo. Acontece que esse processo de integração é um processo problemático, de muitas disputas. O Brasil e nossos vizinhos estão quase em permanente instabilidade, ou política ou econômica. Por poucos períodos de tempo a gente consegue respirar, ter uma certa tranquilidade. E agora nós estamos sem dinheiro. Se o governo central brasileiro não tem dinheiro para pagar os terceirizados que fazem prestação de limpeza nas universidades – tá todo mundo pedalando, todo mundo -, quanto mais para bancar um projeto estratégico para financiar exportações para os vizinhos. E se o Brasil não tem dinheiro para financiar suas exportações para a Argentina, a China tem. Os chineses fizeram um projeto grande lá na Argentina. O Brasil está de joelhos, no chão, não tem estratégia, não tem governo.

Uma parte da América Latina já decidiu o que vai fazer. A Aliança do Pacífico é México, Colômbia, Chile, Peru e esses caras vão para onde? Vão para a Ásia. Tem um acordo Transpacífico, com Estados Unidos, China e vários outros. O mundo está se movimentando e nós estamos aqui, parados. Renan Calheiros (Presidente do Senado) dando recado, Eduardo Cunha (presidente da Câmara dos Deputados) dizendo que não vai, discutindo coisinhas, cargo aqui, cargo ali, e o mundo indo, e a gente parado. A gente não faz nada de estratégico que possa gerar resultados efetivos a longo prazo. As exportações brasileiras estão relativamente perdendo Market share. Nós tínhamos 60%, 70% do mercado de calçados na Argentina, esse mercado cresceu porque a renda cresceu, por causa da dinâmica chinesa. Mas as exportações brasileiras pra Argentina crescem menos do que esse mercado e os chineses conseguem avançar. Isso está acontecendo em vários lugares. Esse é o efeito deslocamento do comércio (os mercados crescem, mas a fatia brasileira diminui) então isso está dificultando.

Vamos comparar Estados Unidos e China: quando os EUA estabeleceram a estratégia da ALCA (Área de Livre Comércio das Américas), que é baseada na integração do comércio, houve uma reação aqui. E o Mercosul era um elemento central dessa reação. Por que a ALCA não aconteceu? Era no período do Fernando Henrique Cardoso, que em tese tinha um maior alinhamento com os Estados Unidos, em tese era um cara mais liberal e poderia aderir a esse projeto. Por que isso não aconteceu? Porque o Brasil concorre com o EUA em agronegócio. Não era tão claro que íamos ganhar com essa integração comercial, aí houve uma reação e parou. E agora a China?  Ela tem complementaridade e, nessa medida, vai ampliando espaço e nossos países passam a depender mais gravitacionalmente da economia chinesa. E, portanto, passam a ter relações mais fugazes entre eles, inclusive pelo comércio. Hoje, as economias da América Latina, principalmente da América do Sul, estão muito mais vinculados à China do que ao próprio EUA. A China entra onde há vácuo: África, América Latina, onde não bate de frente com os EUA. Nota 10 para eles, estão fazendo direitinho o jogo.

“O Brasil e nossos vizinhos estão quase em permanente instabilidade, ou política ou econômica, por poucos períodos de tempo a gente consegue respirar, ter uma certa tranquilidade e agora nós estamos sem dinheiro.”

Sul21- E qual seria a diferença fundamental entre a relação que temos hoje com a China e a que tivemos um dia com os Estados Unidos?

Cunha – No Brasil, a forma como nos estruturamos enquanto nação, a nossa economia, a própria colonização, se deram a reboque no processo de desenvolvimento da Europa, da sua industrialização. Nós nos tornamos satélites, principalmente do ponto de vista econômico, embora tivéssemos, a partir do Século XIX autonomia política formal. Não éramos colônias formalmente, mas economicamente estávamos dependentes. Esse modelo primário exportador gera isso: nós vendemos recursos naturais, importamos manufaturas, crescemos menos, a nossa tecnologia não se desenvolve, a sociedade concentra riqueza. Quando o desenvolvimento é baseado em recursos naturais, quem é que tem acesso à riqueza? Quem controla a terra. Isso dificulta o processo de desenvolvimento em geral, ainda que hajam exceções. A ascensão da China recoloca essa questão para nós em função da nossa complementaridade. Não significa dizer que a China, conscientemente, deseja nos tornar uma colônia formal ou do ponto de vista estritamente econômico. Trata-se de um processo que tende a acontecer pela nossa complementaridade econômica com a China. A partir dos anos 1930, com a Segunda Guerra Mundial, a disputa EUA x União Soviética na Guerra Fria, abriu-se uma janela para que nossos países se industrializassem, se urbanizassem, se diversificassem. Esse contexto da Guerra Fria abriu espaço para nossa ascensão.

A ascensão da China nos remete ao modelo anterior porque nós não temos estratégia. Insisto, se tivéssemos, aproveitaríamos de outra forma. A diferença fundamental é que a China representa uma força gravitacional, como se estivéssemos fisicamente atraídos por um corpo estelar e entramos nessa órbita. Com os EUA, a diferença é que nós concorremos com o agronegócio, nós temos economias que concorrem mais entre si. Nós não somos área estratégica para os EUA, que está mais preocupado com a Ásia, o Oriente Médico; a América Latina está lá. De alguma forma, o interesse dos EUA pra cá diminuiu. A China chegou em meio a esse vácuo de liderança local, com Estados nacionais relativamente fracos e instáveis, e ela com enorme apetite de internacionalização.

Sul21 – No âmbito das Relações Internacionais, fala-se muito da cooperação Sul-Sul. Nesse sentido, o que representa a parceria com a China?

Cunha – Este termo, para mim, não se aplica para as relações sino-brasileiras. Como é que eu chamo a China, que é a maior economia do mundo em paridade de poder de compra, a maior população do mundo, uma potência nuclear, de parceria Sul-Sul? Isso é um eufemismo. Não existe Sul-Sul nessa relação. A relação Brasil-China é uma relação Norte-Sul, tal qual a relação Norte-Sul foi historicamente. Assimétrica, de dependência. Então, não é uma relação Sul-Sul. É a mesma coisa dizer que a relação dos espanhóis com os maias foi Sul-Sul. Não. Isso é para a retórica oficial. O Brasil é o espelho reverso da China. A China avança, se diversifica, investe em infraestrutura, qualifica os recursos humanos, é potência nuclear, tem elevada autonomi. O Brasil é o contrário: não cresce, a produtividade não cresce, não investe em gente. Aí é o reverso. Como é que eu vou chamar isso de Sul-Sul? O Brasil é grande, mas é grande e não tem força.

“Não existe Sul-Sul nessa relação. A relação Brasil-China é uma relação Norte-Sul, tal qual a relação Norte-Sul foi historicamente”.

Crise pra quem? Bradesco quer comprar HSBC por US$ 4 bi – à vista

Via Sul 21

O HSBC comunicou, nesta terça-feira (9), em documento enviado à Bolsa de Valores de Hong Kong, que encerrará suas atividades no Brasil e na Turquia. Uma corrida para comprar as operações do banco britânico no Brasil teria começado. Segundo o jornal O Globo, o Bradesco estaria disposto a pagar até US$ 4 bilhões à vista.

No momento em que se propaga pelo País o apocalipse econômico, usado como justificativa para um pacote de ajustes enorme, que ataca direitos trabalhistas e transfere o “prejuízo” para o trabalhador, é assustador que um banco consiga desembolsar tamanho aporte financeiro em uma única operação.

Ainda de acordo com o jornal O Globo, Itaú e Santander também se interessam em adquirir as operações do HSBC no Brasil. Caso o Bradesco compre o HSBC Brasil, passaria a ter R$ 1,18 trilhões em ativos. Que crise.

A filial suíça do banco é acusada de ter facilitado a sonegação de impostos para clientes, dos quais, mais de oito mil brasileiros. Entre os  correntistas brasileiros estavam políticos, empresários da mídia e artistas.

O fim das operações no Brasil e na Turquia vai gerar 25 mil demissões nos dois países e mais 25 mil espalhadas em agências pelo resto do mundo. O HSBC vai priorizar suas atividades na Ásia, principalmente na China.

Não é ajuste, mas mera concentração de riqueza

Por Rennan Martins | Vila Velha 12/06/2015

Os que acompanham ainda que superficialmente a política brasileira sabem que a presidente Dilma reelegeu-se com uma plataforma bem diversa da ora praticada em seu segundo mandato. O aprofundamento das mudanças não veio, e o que se vê é um governo que capitulou em quase todas as frentes no intuito de manter a governabilidade. Nesse ínterim, os espaços foram ocupados pela reação e o Planalto acaba por ter o comando, mas não o poder.

Acuada pela hostilidade enorme do Mercado, Dilma entregou a mais importante pasta de um governo, a Fazenda, ao ferrenho monetarista Joaquim Levy, com a incumbência de realizar o ajuste fiscal. Pois bem, aí está ele no contingenciamento de quase R$ 70 bilhões, nas restrições a direitos trabalhistas e de seguridade social, e no endurecimento das regras de financiamento dos bancos públicos.

Ocorre que, diferentemente das contas domésticas, uma economia nacional funciona em outra dinâmica. Quando se corta gastos que iriam para a base da pirâmide social – de pessoas que gastam tudo que recebem por serem pobres e não terem espaço para poupar – o efeito é a queda da demanda global efetiva, ou seja, o consumo e comércio popular deprimem, levando consigo a arrecadação dos impostos que bancaria o próprio ajuste. O resultado é algo como o cachorro correndo atrás do rabo. Corte de gastos que diminuem a demanda e arrecadação, que redundam em mais cortes para cumprimento da meta fiscal, aprofundando ainda mais a recessão. Esse é o cenário de países como Espanha e Grécia.

No caso brasileiro há uma particularidade que aumenta a contradição. Concomitante a austeridade fiscal o BACEN aumenta consideravelmente a taxa básica de juros da economia, Selic. De dezembro do ano passado até agora, os juros básicos saltaram 2,5%, alcançando incríveis 13,75% na última reunião do Copom. Essa subida eleva consideravelmente os gastos com o serviço da dívida, o que anula todo o esforço de contingenciamento e cortes. É o que constata o economista e ex-diretor do BACEN, Carlos Thadeu de Freitas. Em artigo publicado ontem (11) no Brasil Econômico, lemos que:

(…) os juros incidentes sobre a dívida aumentaram expressivamente, alcançando R$ 146 bilhões no quadrimestre de janeiro a abril — quase a metade do serviço da dívida do ano anterior (R$ 311 bilhões) e um aumento nominal de 82% em relação ao primeiro quadrimestre de 2014.

Enquanto isso, na União Europeia, o mesmo Mercado esperneia, mas por motivo inverso. No velho mundo os dealers fazem birra e chantageiam por afrouxamento quantitativo, que é basicamente a criação de dinheiro público pelos Estados Nacionais e transferência para o setor financeiro privado, os bancos. Por lá os países estão bem mais endividados que o Brasil, e curiosamente não há histeria em torno da deterioração fiscal e crescimento da dívida pública.

Numa perspectiva global, o que se apresenta é a transferência bruta, pura e simples, dos recursos que anteriormente iriam para a população, ao sistema financeiro internacional. Quando o Banco Central do Brasil aumenta os juros e o governo corta gastos, ou quando o Banco Central Europeu reforça o afrouxamento quantitativo e as nações europeias cortam gastos, o que acontece é a transferência direta de dinheiro público para os gordos cofres do cartel financeiro.

Temos então, nas palavras da ex-auditora da Receita Federal e coordenadora do movimento Auditoria Cidadã da Dívida, Maria Lúcia Fatorelli, “um mega esquema de corrupção institucionalizado”, o sistema da dívida pública. Em entrevista a CartaCapital, explana ela que:

Depois de várias investigações, no Brasil, tanto em âmbito federal, como estadual e municipal, em vários países latino-americanos e agora em países europeus, nós determinamos que existe um sistema da dívida. O que é isso? É a utilização desse instrumento, que deveria ser para complementar os recursos em benefício de todos, como o veículo para desviar recursos públicos em direção ao sistema financeiro. Esse é o esquema que identificamos onde quer que a gente investigue.

O sistema da dívida é sintoma e prova cabal de que o capitalismo financeiro desregulado se vê as voltas com a dura realidade de que é incapaz de produzir riqueza e prosperidade, tendo por isso passado a usar de sua influência corruptora para simplesmente parasitar os Estados Nacionais e seus povos.

As políticas de desregulação e liberalização dos mercados, em seu tempo, promoveram e promovem concentração absurda de riquezas. Não é por acaso que a Oxfam, ONG britânica especializada em desigualdade, diz que em 2016 o 1% mais rico da população mundial deterá mais de 50% de toda a riqueza existente.

A desigualdade crescente e o crescimento da pobreza ameaçam a democracia liberal e o capitalismo, pois, os extremamente ricos terão que, cada dia mais, recorrer a força e violência para conter a maioria desprovida de recursos, o que nos arrastará a um regime autocrata e oligárquico, sujeito a desestabilização e derrubada por crescentes revoltas populares. Será que a elite global continuará patrocinando a própria ruína?