Por Cyro Andrade

Chang se propõe explicar onde estão o joio e o trigo de teorias econômicas, campo aberto à proliferação de impurezas.
Quantas pessoas não versadas no vocabulário de economistas são capazes de dizer o que é superávit primário? Ou a conta de transações correntes? Ou política monetária macroprudencial? Testes de conhecimento básico podem encabular muita gente posta à prova numa mesa em que se converse sobre a problemática brasileira. Mas não é dessas particularidades semânticas, que se podem resolver no Google chamado ao tablet, que trata o livro de Ha-Joon Chang. São outros os significados, muitas vezes ocultos, de que ele fala. Este professor de economia em Cambridge escreve para dar roupagem vulgar, ao alcance de não iniciados, a assuntos que economistas (não todos) costumam vestir com brilhos de enganador cientifismo ou camuflar em esoterismos de linguagem hermética.
O leitor é levado para um nível de informação, de caráter entre prático e filosófico, que é suficiente, segundo Chang, para o cidadão comum armar-se de argumentos e participar do debate econômico em termos que lhe são facultados na democracia – ou seja, não conta apenas o que, em outros regimes, o especialista diz, e ponto. Por que economia é essencialmente política, e ética. Não é uma ciência. Não cabe, então, dizer que esta ou aquela teoria é certa ou errada, como se faz na física ou na química. E justamente por isso existem tão variadas linhas de pensamento econômico. E por isso também é perfeitamente possível que não economistas possam formar seus próprios juízos a respeito de questões econômicas. Bastaria que tenham algum conhecimento sobre o essencial das teorias (em grau que, ao ver de Chang, se encontra em seu livro) e os olhos abertos para os pressupostos políticos e éticos, claros ou presumíveis, que as informam (recurso óptico que, pode-se deduzir da leitura, um tanto de treino cívico e o senso comum proporcionariam).
Chang garante que seu livro – no qual tenta explicar “como pensar, em vez de o que pensar” – pode ser lido com pleno proveito por qualquer pessoa que tenha, pelo menos, instrução secundária. Exagera, com certeza, na amplitude da generalização, qualquer que seja o hemisfério de residência do público que tem em vista, mesmo que esteja ao norte do Equador. Mas acerta ao sugerir que o desejável encontro de leigos e sapientes para troca de opiniões será impossível se depender – como acontece hoje e por isso praticamente só economistas se fazem ouvir -, de competências matemáticas e (supostamente) científicas que permitiriam a compreensão de literatura econômica pelos intelectualmente desarmados.
“Em qualquer profissão que envolve alguma competência técnica – seja economia, medicina ou consertar encanamentos – o jargão que facilita a comunicação entre os profissionais dificulta sua comunicação com as pessoas de fora. Todas as profissões técnicas têm um incentivo para parecerem mais complicadas do que realmente são, para poderem justificar os elevados honorários que seus praticantes cobram” [por serviços prestados]. Ressalve-se: competências maiores, seja em que ramo for, merecem recompensa à altura, do mesmo naipe em que certamente se encaixam as pretensões de economistas com o nível do próprio Chang, por exemplo, em seu mercado de trabalho. Aliás, a meritocracia não é assunto estranho aos interesses da pesquisa acadêmica.
O que há, então, é um mercado de ideias, com vendedores e compradores – estes, em grande número, incautos. Contudo, os consumidores leigos podem se mostrar até mesmo capazes de julgamentos de qualidade superior aos dos que trabalham os entendidos no lado da oferta, diz Chang, porque estão mais ligados à realidade e são menos inclinados a turvações ideológicas e capcioso estreitamento de focos de avaliação. Em seu livro, ele dedica espaços generosos à fortificação de posições de quem esteja à procura de luzes para o debate com informações sobre o “mundo real”, além de explicar fundamentos de diferentes escolas de economia – algumas das quais são chamadas indevidamente de escolas, o que ele também explica de passagem.
A realidade visitada no livro significa também abrangência geográfica (que alcança aspectos da vida econômica brasileira). E apresenta-se ainda a realidade pelo ângulo da economia compreendida como permanente disputa política, sem lugar para “verdades objetivas”, lugar de jogo de interesses em que se constroem outras realidades, inclusive as supostas em políticas de governo. Mais uma razão para o cidadão interessado em participar do debate econômico – possibilidade que lhe é oferecida de várias formas, inclusive na condição de eleitor – perguntar sempre, como recomendava Marco Tulio Cicero (106 a.C – 43 a.C.) e agora faz Chang em seu livro: “Cui bono?” (a quem isso beneficia?).
Chang propõe-se ser um explicador que se explica a si mesmo, de modos declarados ou implícitos, em seus artigos, palestras e livros (mais de 20), como um economista defensor do pluralismo para fins intelectuais e práticos. Opõe-se, portanto, ao pensamento único, que, longe de ser uma casualidade, é coisa professada já em salas de aula, cravado em currículos oficiais. Chang não gosta, por exemplo, de Gregory Mankiw, o americano professor de economia em Harvard que enriqueceu como autor de um dos livros-texto mais populares de todos os tempos, sucesso só comparável, talvez, ao feito de Paul Anthony Samuelson com seu “Economics”, publicado incontáveis vezes desde a primeira edição, em 1948. Mankiw é citado por Chang como um cínico que paira acima de platitudes éticas, capaz de revelar-se assim em artigo publicado em 2006 (“The macroeconomist as scientist and engineer”): “Os economistas gostam de fazer pose de cientistas. Sei disso porque muitas vezes eu mesmo faço isso. Quando leciono para a graduação, conscientemente descrevo o campo da economia como uma ciência, de forma que nenhum aluno comece o curso pensando que está embarcando numa empreitada acadêmica inconsistente”.
Até a ciência, no entanto, pode padecer de inconsistências, enquanto cientistas procuram, em seus laboratórios, o norte do consenso que afinal deverá consagrar o saber definitivo. A economia, porém, é sempre política e assim constitui um convite permanente à pluralidade. Desenvolve-se também por via do conhecimento experimental, de “laboratório”, mas tem complexidades que escapam ao fórceps de modelos econométricos em que se procure enfiar a realidade. Chang tem razão: “Como todos os grandes romances e filmes, o mundo econômico real é povoado por personagens complexos e falhos, tanto indivíduos quanto organizações. Teorizar sobre eles deve envolver, naturalmente, certa generalização e simplificação, mas as teorias econômicas dominantes vão longe demais ao simplificar as coisas.”
“Economia – Modo de Usar”. Por Ha-Joon Chang. Tradução: Isa Mara Lando e Rogério Galindo. 461 págs., R$ 37,90 (Portfolio-Penguin).
