Diálogos Desenvolvimentistas: O imperialismo, o “livre-comércio” e o PT

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No diálogo que transmitimos abaixo, fruto da discussão do último artigo escrito pelo economista Flavio Lyra intitulado O fracasso da via liberal-dependente, o autor e a também economista e doutora em políticas públicas, Ceci Juruá, fazem um importante debate em que analisam os objetivos do imperialismo, a doutrina mistificadora do livre-comércio e a inserção que os governos petistas fizeram do Brasil nesse contexto de alta desregulação do capitalismo.

Confiram:

Ceci Juruá - Realmente os países considerados centrais tem objetivos de longo prazo.

1- Garantir o acesso aos recursos naturais indispensáveis ao aproveitamento econômico e ao sucesso de suas próprias políticas. A baixo custo, é claro.

2- Garantir um campo seguro para aplicação e multiplicação de seus excedentes financeiros.

Daí a defesa do livre comércio e da livre circulação de capitais, esta é a ideologia básica, fundamental, cuja hegemonia no espaço mundial depende de muitos e muitos outros fatores. Porque não se trata de uma ideologia generosa, de solidariedade universal, nem de benefício recíproco. Aparentemente, e só aparentemente, tais objetivos são realizados através da “livre” competição, não tão livre porque se dá entre atores desiguais, desiguais em matéria de capacidade de aproveitamento de oportunidades econômicas e políticas.

Mas tais objetivos de longo prazo, funcionais à formação de impérios, são permanentemente ajustados a contextos e a conjunturas diferenciados. As políticas dos States, por exemplo, variaram bastante entre as décadas 1950/1960 e 1980/1990. Nesse último período, foram propostas inovações institucionais mais adaptadas a um novo regime de acumulação – a financeirização -, ou a mundialização do capital como escreveu François Chesnais. O novo regime de acumulação, em escala planetária, passou a ditar as mudanças necessárias na periferia. Ou seja, às mudanças no centro do império deveriam corresponder mudanças na periferia. É isto que precisamos estudar, nós os brasileiros.

Nesse sentido o artigo do Fiori foi brilhante. É a primeira vez que um acadêmico do seu porte, coloca com tanta clareza os acordos firmados por FHC e sua troupe. Não estava escrito, aquele não era necessariamente nosso destino, havia outras alternativas. Á direita e à esquerda. No período 1990 a 1995 ocorreram as grandes traições, à revelia da Nação. A principal arma de guerra do império foi econômica – a dívida externa e a hiperinflação a ela vinculada. Mas também a mídia e a desmoralização de todos, entre nós, que não estivessem de acordo com os planos imperiais. E ainda, a corrupção, as ameaças, e a conspiração do silêncio em torno dos desafetos. Enquanto não conhecermos em detalhes o plano e os instrumentos, e as medidas estratégicas e táticas da época, estaremos fortemente desguarnecidos culturalmente para enfrentar os verdadeiros inimigos do desenvolvimento brasileiro. Mas não basta conhecer, é preciso divulgar e fazer um trabalho – difícil – de “deslavagem” cerebral.

Se abandonamos o economicismo, veremos que as vantagens comparativas existem. Claro que elas existem. E foram utilizadas contra nós. O resultado aí está. Não adianta muito falar em modelo e mudança de modelo, se desconhecemos o modelo nos seus detalhes. Salvo aliança divina (?) a mudança do modelo exigirá guerra/revolução (quem está apto ou disposto?) ou hábil diplomacia e unidade nacional. Cada país, cada Nação, tem o seu próprio caminho, não há fórmulas mágicas para se atingir tal objetivo.

Dizer que a única alternativa é a intervenção estatal assemelha-se quase a dizer que não há alternativa em situações onde o Estado esteja capturado, ou de mãos atadas frente a uma rede de compromissos internos e internacionais. Nas condições atuais, falar nessa única alternativa não seria uma maneira de espalhar a desesperança ?

Também não considero que os governos do PT fizeram remendos. Fizeram o que foi possível na época frente a uma sociedade desaparelhada para o enfrentamento com os reais inimigos da Pátria. Eles são humanos, pessoas iguais a nós. Em matéria de política internacional não há bola de cristal. Foram até bem corajosos, ousados, em matéria dos enfrentamentos possíveis – as relações com Cuba, Irã, Rússia, China, Mercosul e Unasul. Lamentável seria não reconhecermos isto, pousando apenas como vítimas em lugar de reconhecer, valorizar, prestigiar alguns avanços realizados. Há um ditado popular brasileiro, que aprecio muito – quem não valoriza o que tem a perder vem.

Flavio Lyra - Suas observações têm sido muito pertinentes e, no pior dos casos, merecedoras de algum tipo de escrutínio. Confesso-lhe que ando contrariado com a atuação de Dilma. Depois do esforço realizado em favor de sua eleição e da defesa de seu mandato esperava mais dela. Não em termos de solução dos problemas, mas de comunicação com a base social que a apoiou e que está perplexa com as medidas adotadas. Seu silêncio é anti-democrático e despolitizante. A meu ver, Dilma continua achando que com decisões na cúpula vai sair do atoleiro político em que se encontram ela e o país.

Quanto à falta de alternativas que menciono no texto, sinceramente não vejo outra que a mencionada, embora seja muito consciente da “abertura da História”. Gostaria muito de saber se tem alguém vislumbrando alguma outra alternativa que tenha um mínimo de viabilidade no médio prazo. Como não tenho encontrado nada a respeito, fixo-me na mencionada, já que estou convencido de que a via liberal-dependente esgotou-se como rumo para os interesse da classe trabalhadora, no Brasil e no mundo capitalista. Não me atrevo sequer a falar numa via socialista, pois acho que ainda estamos muito distantes disto ou de algo assemelhado.

Tenho procurado ser compreensivo sobre as limitações do PT e do seus governos, pois sei muito bem das dificuldades e barreiras que enfrentam em nossa sociedade conservadora. Também, não deixo de reconhecer a coragem e o discernimento que tiveram para realizar algumas mudanças. Mas, não posso deixar de ser muito crítico em relação às condutas individualista e mesmo primárias dos petistas escolhidos para o Poder Legislativo e o Executivo, com muitos dos quais convivi durante mais de três anos na Liderança do Governo no Senado. O derretimento atual já era previsível para quem acompanha de perto a vida política do país. Fizemos muito menos do que seria possível, em decorrência da improvisação e falta de rumos que caracterizou os governos do PT. Escrevi vários textos a respeito, que foram considerados pessimistas por gente do governo que achava que a classe trabalhadora tinha chegado ao Paraíso. Assisti de muito perto a administração de Palloci no MF, com sua equipe herdada de FHC. Depois, ainda vejo Palloci como coordenador da campanha de Dilma. Dá para esperar algo de sério em favor mudanças efetivas no país, sob a influência de Palloci?. Participei da elaboração do Programa do PT, que depois Palloci jogou na lata de lixo, ao preparar a Carta aos Brasileiros, documento de rendição à continuidade da política econômica do PSDB.

Enfim, acho que a hora é de pleitear mudanças e de realizar autocrítica e não de justificar os erros cometidos, que foram muitos e cujo preço o povo está começando a pagar, sem sequer poder identificar quem são seus inimigos de classe, pois o PT e seus governos se especializaram em disfarçar a polarização que de fato existe no país, transmitindo a impressão todos trabalhamos para os mesmos objetivos.

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