Arquivo mensais:maio 2015

BRICS sapateiam sobre os EUA na América do Sul

Por Pepe Escobar | Via redecastorphoto

Os presidentes Cristina Kirchner e Vladimir Putin em reunião recente.

Começou em abril/2015, com uma leva de acordos entre Argentina e Rússia, assinados durante a visita da presidenta Cristina Kirchner a Moscou.

E continuou com um investimento de US$ 53 bilhões, acertado enquanto o premiê chinês Li Keqiang visitava o Brasil, na primeira parada de mais uma ofensiva comercial pela América do Sul – e completado com uma doce metáfora: Li viajou num vagão fabricado na China, que trafegará por uma nova linha de metrô no Rio de Janeiro que estará operante para os Jogos Olímpicos de 2016.

Onde estão os EUA em tudo isso? Em lugar algum. Não estão. Aos poucos, passo a passo, mas inexoravelmente, países membros do grupo BRICS, a China e em menor medida também a Rússia – trabalharam para, nada menos que, reestruturar o comércio e a infraestrutura por toda a América Latina.

Incontáveis missões comerciais chinesas abordaram essas praias, sem descanso, mais ou menos como os EUA fizeram entre a Iª e a IIª Guerra Mundial. Numa reunião crucialmente importante em janeiro, com empresários latino-americanos, o presidente Xi Jinping prometeu encaminhar US$ 250 bilhões para projetos de infraestrutura, nos próximos dez anos.

Grandes projetos de infraestrutura na América Latina estão sendo financiados por capital chinês – exceto o porto de Mariel, em Cuba, financiado pelo BNDES do Brasil, e cuja operação ficará a cargo da operadora de portos PSA International Pte Ltd., de Cingapura. A construção do Canal da Nicarágua – maior, mais largo e mais profundo que o do Panamá – começou ano passado, por empresa construtora de Hong Kong, e deve estar concluído em 2019. A Argentina, por sua vez, obteve empréstimo de US$ 4,7 bilhões dos chineses, para construir duas barragens hidrelétricas na Patagônia.

Entre os 35 acordos comerciais firmados durante a visita de Li ao Brasil, estão um financiamento de US$ 7 bilhões para a gigante estatal brasileira do petróleo, Petrobras; foram negociados 22 jatos comerciais da Embraer, comprados pela Tianjin Airlines por US $1,3 bilhão; e vários outros acordos envolvendo a mineradora brasileira Vale. Os investimentos chineses devem ir, de algum modo, para recuperação e reparos do horrendo sistema brasileiro de rodovias, ferrovias e portos; os aeroportos estão em melhor estado, porque foram recuperados antes da Copa do Mundo de futebol, ano passado.

PM chinês, Li Keqiang e a Presidenta Dilma Rousseff.

A estrela dos acordos, foi, sem dúvida, a mega ferrovia de 3.500 quilômetros de extensão, de US$ 30 bilhões, prevista para ligar o porto de Santos no Brasil ao porto peruano de Ilo, no Pacífico peruano, cortando a Amazônia. Logisticamente, é absoluta necessidade para o Brasil, abrindo uma via até o Pacífico. Quem mais ganhará serão inevitavelmente os produtores de – de minério de ferro a soja em grãos – que exportam para a Ásia.

A ferrovia Atlântico-Pacífico pode ser projeto extremamente complexo – envolvendo questões de todo tipo, das ambientais a questões de terras, até a preferência que tem de ser dada na construção a firmas chinesas, sempre que os bancos chineses decidem sobre estender suas linhas de crédito. Mas dessa vez está resolvido. Os suspeitos de sempre estão – e o que mais poderiam estar? – preocupados.

A política oficial do Brasil, desde os anos Lula, tem sido atrair grandes investimentos chineses. China é o principal parceiro comercial do Brasil, desde 2009; antes, foram os EUA. A tendência começou com produção de alimentos, agora passa para investimentos em portos e ferrovias, e o próximo estágio será transferência de tecnologia. O Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS, e o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura liderado pela China (BAII), do qual o Brasil é membro fundador chave, fará, sem dúvida alguma, parte do mesmo quadro.

O problema é que essa massiva interatuação comercial e de negócios, entre todos os BRICS se intercruza com processo político dos mais complexos. As três grandes potências da América do Sul – Brasil, Argentina e Venezuela – vêm enfrentando repetidas tentativas de “desestabilização”, coisa dos suspeitos de sempre, que regularmente denunciam a política externa das presidentas Dilma Rousseff e Cristina Kirchner e do presidente Nicolás Maduro, enquanto os mesmos suspeitos de sempre continuam a ansiar pelos bons velhos tempos quando esses países viviam sob dependência de Washington.

Com diferentes graus de complexidade – e disputas internas – Brasília, Buenos Aires e Caracas estão enfrentando simultaneamente complôs contra a ordem institucional. Os suspeitos de sempre já nem tentam dissimular a distância diplomática quase total em que estão, em relação aos Três Grandes sul-americanos.

Venezuela, sob sanções dos EUA, é considerada ameaça à segurança nacional dos EUA – ideia que não presta nem como piada ruim. Kirchner tem estado sob implacável assalto diplomático – para nem falar dos fundos abutres norte-americanos que atacam a Argentina. E com Brasília, as relações estão praticamente congeladas desde setembro de 2013, quando Rousseff suspendeu visita que faria a Washington, como resposta a ações de espionagem da Agência de Segurança Nacional dos EUA contra a Petrobras e também contra a própria presidenta.

A Agência de Segurança Nacional dos EUA pode ter vazado informação sensível com o objetivo de desestabilizar a agenda de desenvolvimento do Brasil – que inclui, no caso da Petrobras, a exploração das maiores reservas de depósitos de petróleo (o “pré-sal”) encontradas até aqui, nesse jovem século XXI.

O que se está desenrolando é absolutamente crucial, porque o Brasil é a segunda maior economia da América (depois dos EUA); é a maior potência comercial e financeira da América Latina; abriga o ex-segundo maior banco de desenvolvimento do mundo, o BNDES, posto que agora lhe foi tirado pelo banco dos BRICS; e também é sede da maior empresa da América Latina, Petrobras, também das maiores gigantes mundiais de energia.

Petrobras -Edifício sede, RJ-Brasil.

A pressão violentíssima que está sendo feita contra a Petrobras parte essencialmente de acionistas norte-americanos – que atuam como abutres, dedicados a fazer sangrar a empresa e a arrancar lucros da hemorragia, aliados a lobbyistas que abominam o status da Petrobras como exploradora prioritária dos depósitos do pré-sal.

Em resumo, o Brasil é a maior fronteira soberana que resiste contra a dominação hegemônica ilimitada das Américas. É claro que o Império do Caos está incomodado.

A parceria estratégica sempre em transformação que liga as nações BRICS foi recebida em círculos de Washington não só com incredulidade, mas com medo. É praticamente impossível para Washington causar dano real à China. – Muito mais “fácil”, comparativamente se atacar o Brasil ou a Rússia. Ainda que a ira de Washington concentre-se essencialmente contra a China – que se atreveu a construir negócio após negócio no antigo “quintal dos EUA”.

Mais uma vez, a estratégia dos chineses – bem como dos russos – é manter a calma e exibir perfil de “ganha-ganha”. Xi Jinping reuniu-se com Maduro em janeiro para fazer – e o que mais seria? – negócios. Reuniu-se com Cristina Kirchner em fevereiro para fazer o mesmo, exatamente quando especuladores preparavam-se para lançar mais um ataque contra o peso argentino. Agora, aí está a visita de Li à América do Sul.

Desnecessário dizer, os negócios entre América do Sul e China só fazem crescer. Argentina exporta alimentos e soja em grão; Brasil idem, e mais petróleo, minérios e madeira; Colômbia vende petróleo e minérios; Peru e Chile, cobre e ferro; Venezuela vende petróleo; Bolívia, minérios. China exporta principalmente produtos manufaturados de alto valor agregado.

Desenvolvimento chave a observar é o futuro imediato do Projeto Transul, proposto pela primeira vez numa conferência dos BRICS, ano passado no Rio. Em resumo, é uma aliança estratégica Brasil-China que conecta o desenvolvimento industrial brasileiro ao fornecimento de metais para a China; a crescente demanda chinesa – estão construindo nada menos que 30 megalópolis até 2030 – sendo suprida por companhias brasileiras ou sino-brasileiras. Agora, afinal, Pequim apôs ao projeto o seu selo de aprovação.

Por tudo isso, o Grande Quadro permanece inexorável no longo prazo; as nações BRICS e sul-americanas – que convergem na União das Nações Sul-Americanas, UNASUL – estão também apostando numa ordem mundial multipolar, e num processo de independência continental.

Muito fácil ver o quanto tudo isso está a oceanos de distância de uma Doutrina Monroe.

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Pepe Escobar é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Rede Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, e Al-Jazeera.

Câmara aprova criação do banco dos Brics

Por Lucas Pordeus Leon | Via Rádio EBC

Assinado em julho do ano passado, o acordo para criação do banco do Brics foi aprovado nessa quinta-feira (21) pelo Plenário da Câmara dos Deputados. O Brics é o grupo formado pelo Brasil, China, Rússia, Índia e África do Sul.

O objetivo do banco é financiar projetos públicos ou privados de infraestrutura e de desenvolvimento sustentável dos membros do bloco e de outras economias emergentes. O banco também poderá fornecer assistência técnica.

O relator do projeto, deputado Raul Jungmann, do PPS/PE, explica que o banco é uma alternativa ao FMI, Fundo Monetário Internacional, e ao Banco Mundial.

O banco vai ser aberto a qualquer país membro das Nações Unidas. Mas os sócios-fundadores vão manter um poder de voto conjunto de pelo menos 55%. No total, o acordo autoriza o banco a operar com um capital de US$ 100 bilhões.

O deputado do PSB do Piauí, Heráclito Fortes, alerta que é preciso cumprir os compromissos.

A Câmara ainda aprovou nessa quinta-feira (21) um acordo de ajuda financeira entre os Brics. O Decreto permite que um dos países seja socorrido pelos demais em casos de não conseguir honrar compromissos internacionais. Os projetos do banco e da ajuda financeira agora seguem para o Senado.

 

Crise hídrica. Uma fatalidade climática ou ela foi construída? Entrevista especial com Humberto Miranda

Via IHU

“Se considerarmos o mesmo nível de ‘exportação de água’ hoje, para uma população de 200 milhões de habitantes, estaríamos exportando 560 litros de água/ano por habitante”, diz o economista.

A partir da crise hídrica que já afeta alguns estados brasileiros, devem ser feitas as seguintes questões: “Por que chegamos a esse ponto? A quem interessa a crise da água? É uma fatalidade climática ou ela foi construída?”, sugere Humberto Miranda em entrevista concedida à IHU On-Line por e-mail.

Ele lembra que embora a agricultura tenha demandado um uso expressivo de água com a expansão do agronegócio, a “chamada ‘crise hídrica’, por seu turno, tem mais a ver com o urbano: indústria e urbanização”.

De acordo com ele, o consumo de água industrial e o uso doméstico apresentam uma situação mais complexa, porque estão relacionados “às formas de produção intensivas em recursos naturais (desperdiçam/degradam) ou às características específicas de um segmento em franco crescimento, como o de bebidas alcoólicas e não alcoólicas”. Para fabricar apenas um litro de bebida, por exemplo, são gastos entre 1,5 e 3 litros de água.

Contudo, pontua, a expansão urbana é o ponto “mais grave de todos” quando se analisam as causas do desperdício de água. “A questão central está no ritmo de crescimento das manchas urbanas. Esse é um dado mais estrutural e que não se resolverá tão cedo, mas poderá ser o calcanhar de Aquiles da crise das águas urbanas”, frisa. E acrescenta: “O avanço do capital imobiliário, através da valorização/especulação do uso/ocupação dos solos e na disputa pela localização vantajosa contribui vigorosamente para essa expansão”.

Humberto Miranda é graduado em Ciências Econômicas pela Universidade Estadual de Feira de Santana – UEFS, mestre e doutor pelo Instituto de Economia da Universidade de Campinas – Unicamp. Atualmente é professor da Unicamp e pesquisador do Centro de Estudos de Desenvolvimento Econômico – CEDE e desenvolve estudos e pesquisas na área de Desenvolvimento Econômico, Espaço e Meio Ambiente, com ênfase na questão regional e urbana.

Confira a entrevista:

IHU On-Line – Como o fato de a economia brasileira ser uma economia que depende da exportação de commodities impacta na crise hídrica que estamos vivendo?

Humberto Miranda - Numa matéria do jornal O Globo de 11/09/2012, intitulada “Brasil exporta cerca de 112 trilhões de litros de água doce por ano”, fez-se uma estimativa aterradora. Se considerarmos o mesmo nível de “exportação de água” hoje, para uma população de 200 milhões de habitantes, estaríamos exportando 560 litros de água/ano por habitante. Só que não adianta individualizar o problema. Essa informação se refere ao setor agroexportador, mas não sabemos ainda o quanto isso tem afetado ou impactado o abastecimento humano. Também não se trata de cada um de nós reduzirmos o consumo individual, que tem efeito no curto prazo. Isso ajuda até certo ponto, mas os limites são mais dramáticos. Trata-se de perguntar: por que chegamos a esse ponto? A quem interessa a crise da água? É uma fatalidade climática ou ela foi construída?

IHU On-Line – Qual é o custo para o Brasil da exportação de água via commodities? Qual é o impacto econômico desse processo de exportação de água?

Humberto Miranda - Vamos, em primeiro lugar, separar as coisas. A questão da exportação de commodities tem a ver com a forma como o Brasil foi resolvendo a vulnerabilidade externa, fragilizado pela falta de crescimento industrial e com sérios gargalos na infraestrutura. Dada tal exigência exportadora, fomos expandindo o agronegócio. Só que as características de nossa agricultura tropical obrigam um elevado gasto de água/hectare em determinadas culturas que necessitam de irrigação em larga escala e em mais intervalos de tempo. Uma técnica conservacionista como a do Plantio Direto, utilizada na cultura de grãos (soja), em que há maior preocupação conservacionista dos solos e das águas, foi introduzida muito tempo depois da substituição do modelo de modernização agrícola subsidiado pelo Estado que vigorou nos anos de 1970 e entrou em crise nos 1980.

Aquele modelo era desperdiçador de recursos naturais e incentivava o desmatamento provocando sérios processos de erosão dos solos. Foi um modelo que intensificou a degradação ambiental (poluição, desmatamentos, perda de solos e águas, etc.). Com a crise da dívida externa e as restrições à expansão do financiamento (e do crédito agrícola em particular), houve uma redução dos subsídios na agricultura e isso fez com que o custo aumentasse para o empresário rural. A solução seria construir um modelo mais conservacionista. Todavia, a preocupação não era necessariamente com os impactos ambientais, mas como a queda dos investimentos e prejuízos ao empresário rural, que viu sua lucratividade cair rapidamente.

“A transposição do Rio São Francisco, por exemplo, seria hoje um problema ou uma solução?”

Pós-1990, com a ascensão da chamada “agricultura verde”, os agricultores foram convertendo seus sistemas de produção. O apelo conservacionista é funcional ao novo modelo de agricultura quanto à diminuição do uso de defensivos (“venenos”) nas lavouras, mas não perdeu suas características centrais de ser concentrador de terra, degradador de recursos naturais e promotor de relações de trabalho precárias ou de baixa qualificação/remuneração. Essa é a questão. Não é apenas porque a água é utilizada para produzir soja ou para matar a sede do gado ou como um insumo, etc., mas porque ela é disputada por grupos econômicos (agroindustriais) poderosos e desperdiçada por falta de controle público.

O mercado olha para o produto e não para o manejo dos solos e das águas. Por exemplo, a soja orgânica no Brasil é certificada e valorizada no mercado internacional, mas as técnicas de manejo ainda prejudicam o solo (revolvem o solo com mais frequência e há maior perda superficial dos solos que no Plantio Direto). No caso da criação de animais, estimulada pelo poder dos grandes frigoríficos dos grupos JBS (FriBoi) e Marfrig, muitos córregos estão sendo fechados impedindo que as águas alimentem os rios. Os rios estão sobre perdas de água. Essa água é “exportada” nas carnes e nos grãos. Esta é a situação do Centro Oeste hoje, que sofre uma progressiva e acelerada degradação em seus recursos naturais. Ninguém pergunta: quanto de água se exporta? Então, a questão é anterior à crise da água atual. Então é um problema que já existia e que foi agravado nos anos 2000 em diante.

IHU On-Line – O crescimento rápido e desordenado das populações urbanas, marcado pelas desigualdades sociais e também pela negligência com o meio ambiente, pode agravar a crise hídrica? De que maneira?

Humberto Miranda - A chamada “crise hídrica”, por seu turno, tem mais a ver com o urbano: indústria e urbanização (expansão urbana). As estimativas, em geral, dizem que o uso doméstico, o industrial e o agrícola da água, respectivamente, são de 10%, 20% e 70%. Tenho chamado atenção para o fato de que, no caso da agricultura (emineração), esse uso é muito concentrado por usuário e o nosso modelo de agricultura irrigada precisa ser totalmente revisto, tanto no que tange à legislação ambiental/recursos hídricos quanto à eficiência econômica e ao acesso/uso privilegiados dos grandes demandantes. A transposição do Rio São Francisco, por exemplo, seria hoje um problema ou uma solução? A meu ver, seria um problema, porque as nascentes do rio no Sudeste (Minas Gerais) foram comprometidas pela falta de chuvas e de manejo inadequado das águas.

No caso do consumo de água pela indústria e do uso doméstico (serviços de abastecimento), a situação é mais complexa porque está relacionada às formas de produção intensivas em recursos naturais (desperdiçam/degradam) ou às características específicas de um segmento em franco crescimento, como o de bebidas alcoólicas e não alcoólicas. Para fabricar um 1 litro de bebida não alcoólica, por exemplo, gastam-se entre 1,5 e 3 litros de água. Gostaria de ver os critérios de eficiência ambiental e certificação sendo aplicados nessa indústria, porque elas têm garantia de atendimento à sua demanda firme de água. Existem medidas de caráter econômico-ambiental que poderiam perfeitamente ser usadas nesses casos.

Expansão urbana e especulação imobiliária

O caso do modo de expansão urbana é o mais grave de todos. Desperdício de água na cidade pelos grandes usuários (grupos econômicos e bairros de elite) é algo comum: lavagem de calçadas e de automóveis com água potável deve ser tratado como crime ambiental. São segmentos das classes médias sem compromisso ambiental que cometem esses atos, são empresas sem noção do valor dos recursos hídricos, que precisam ser multadas para mudar de comportamento. O uso humano/residencial da água não é respeitado. Quando a Sabesp diminui a pressão da água, penaliza a população pobre em benefício dos usuários mais abastados ou com recursos para ir à justiça cobrar o que é de direito de todos, mas que está sendo individualizado. Porém, a questão central, a meu ver, está no ritmo de crescimento das manchas urbanas. Esse é um dado mais estrutural e que não se resolverá tão cedo, mas poderá ser o calcanhar de Aquiles da crise das águas urbanas.

“A nossa crise não é propriamente de falta d’água, mas do colapso do sistema de abastecimento”

As cidades de hoje crescem além de seus limites e tornam-se conturbadas rapidamente. Os incentivos ao uso do transporte individual em detrimento do público também estimulam essa expansão, inclusive porque boa parte da classe média alta mora em condomínios fechados, nos limites da cidade ou afastados destes. O avanço do capital imobiliário, através da valorização/especulação do uso/ocupação dos solos e na disputa pela localização vantajosa contribui vigorosamente para essa expansão. Empresas como MRV e Cyrela ganham mais na valorização dos terrenos que nas construções em si. O prédio ou a casa construída é seu custo fixo barateado ao máximo. O terreno sujeito à especulação é seu superlucro.

Nesse processo, a população está perdendo o direito à cidade e o acesso ao abastecimento de água também. Deslocada para longe do lugar de trabalho, torna-se ainda mais carente de serviços de infraestrutura. Tanto é que, proporcionalmente, o ritmo de crescimento da mancha urbana tornou-se mais acelerado que o ritmo de crescimento da população urbana, que continua superconcentrada nas grandes cidades.

Com o avanço da especulação imobiliária na última década, o espraiamento da cidade puxado pela valorização dos terrenos favorece os impactos aos solos e às águas. A ampliação da infraestrutura e dos serviços é garantida desigualmente. Por isso que a cidade cresce expulsando moradores para perto de mananciais, piorando as condições de captação de água em quantidade e qualidade adequadas. Estima-se que só em São Paulo um milhão de pessoas ocupem essas áreas de preservação permanente. Culpam os ocupantes, mas não culpam os interesses especulativos que não desocupam prédios vazios nos centros urbanos em flagrante desrespeito à função social da propriedade.

Judiciário

O judiciário é incompetente nessa questão porque privilegia o direito de propriedade em detrimento do que estabelece o Estatuto da Cidade e a Constituição Federal. Dessa maneira, o crescimento das áreas de ocupação irregular e a dificuldade de ampliar a rede de abastecimento d’água contribuem para o espraiamento da cidade e isso encarece o investimento público e compromete a rede de águas que não dá conta. Há sucateamento, vazamentos, falta de manutenção, “gatos”, etc. As parcerias público-privadas nem sempre dão conta da cidade como um todo e privilegiam áreas com maior retorno econômico.

Por outro lado, nossa rede urbana é muito concentrada. Grandes cidades localizadas em áreas metropolitanas e outras grandes cidades situadas fora do espaço metropolitano tornaram-se um problema. Grosso modo, em cerca de 610 grandes cidades brasileiras estão concentrados 130 milhões de brasileiros, aproximadamente, sendo que, nas demais, quase cinco mil cidades, concentram-se algo em tono dos 70 milhões de brasileiros. A questão do abastecimento de água nas cidades onde as manchas urbanas se expandem num ritmo maior se tornou extremamente grave e a dificuldade de realizar saneamento ambiental (água e esgoto) em cidades dispersas num vasto território encontra dificuldades.

A maioria dos municípios nem sequer acessa recursos financeiros disponíveis (verba federal) do fundo de saneamento. Poucos usam o dinheiro. Ademais, apesar de haver uma legislação própria para a gestão de áreas metropolitanas, não se veem iniciativas governamentais para lidar com o problema das “águas urbanas”, falta d’água, preservação de mananciais ou combate a enchentes de forma efetiva. A cisterna que capta água da chuva foi uma solução de suma importância para as áreas rurais do Nordeste, mas nenhuma iniciativa apropriada às cidades foi proposta. São iniciativas individuais que predominam ao estilo “salve-se que puder”. Na verdade, seria preciso criar uma novainfraestrutura urbana para lidar com o problema das águas, bem como reduzir a impermeabilização dos solos urbanos, aumentar as áreas verdes para, ao menos, amenizar a situação e, no caso de São Paulo, parar de fazer viadutos nas zonas de vale e realizar a abertura de córregos. São medidas que não exigem novas construções, mas que não são feitas. Os governos atendem aos interesses das empreiteiras, mas não dos cidadãos.

IHU On-Line – Quais as diferenças entre crise hídrica e crise de abastecimento? Em que momento a crise hídrica pode nos levar a uma crise de saneamento?

Humberto Miranda - O problema desencadeado agora no estado de São Paulo, em especial, é mais uma crise de abastecimento do que crise hídrica. Não falta água no Brasil. A idade da pedra, como disse o economista Delfim Netto, não acabou por falta de pedra. A nossa crise não é propriamente de falta d’água, mas do colapso do sistema de abastecimento, da má gestão e das “aventuras hídricas” da Sabesp, que protegeu seus investidores e não a população (usuários). A Sabesp acabou de distribuir dividendos para seus acionistas nos EUA em meio à crise. Atribuir o problema a uma fatalidade (estiagem prolongada) é uma forma de evitar as explicações.

Esta crise é, a meu ver, eminentemente urbana, porque é de abastecimento humano nas áreas territorialmente mais concentradas de pessoas e que sofrem com o ritmo de crescimento da mancha urbana onde ela ocorre de maneira mais dramática. Se do ponto de vista do desperdício ou do gasto, a agricultura e a indústria utilizam muito mais água que o consumidor residencial, do ponto de vista urbano a situação é mais grave e pode levar a conflitos sérios porque interesses econômicos estão sendo privilegiados em detrimento do abastecimento da população, salvo os casos em que a água deve ser garantida prioritariamente, como nos hospitais. Portanto, o problema tem suas implicações urbanas como as centrais, além do fato de nossa agricultura ser mesmo “exportadora de água”.

Indicador de valores sonegados no país chega à marca de R$ 200 bilhões em 2015

Via Jornal do Brasil

Soma inclui desvios de caixa-dois, uso de laranjas e dinheiro da Operação Zelotes.

Pelo menos R$ 200 bilhões em impostos deixaram de ser pagos ao governo 2015, segundo o site Sonegômetro, que faz uma estimativa do quanto o país perde com sonegações por ano. A campanha, organizada pelo Sindicato Nacional dos Procuradores da Fazenda Nacional (Sinprofaz) inclui também os desvios de dinheiro deflagrados pela Operação Zelotes, além de prejuízos com “laranjas” e caixa dois. Quantia corresponde a 25% do que já foi pago pelos brasileiros em impostos de janeiro a maio.

Com painel instalado no Largo da Carioca, no Centro do Rio de Janeiro nesta quinta e sexta-feiras (21 e 22), a campanha passa por diversas capitais alertando para os males que o desvio de impostos pode causar ao país. Apenas os valores deste ano, ressalta Heráclio Camargo, presidente da Sinprofaz, já somam mais que o dobro do que o governo pretende arrecadar com o projeto do ajuste fiscal, que gira em torno de R$ 80 bilhões.

Site do Sonegômetro atingiu a marca de R$ 200 bi em desvios às 19h56 desta quinta.

Apenas a Operação Zelotes, deflagrada no início deste ano pela Polícia Federal, foi responsável por desviar 10% deste valor, com estimativas de sonegações em torno de R$ 19 bilhões. “Com certeza uma parte dos desvios (da Zelotes) está computado na estimativa. Entretanto, o crime é resultado de anos de sonegação, e devem ter feito parte das outras edições do Sonegômetro, que existe desde 2013″, afirma Heráclio.

Os criadores do indicador enfrentam uma dificuldade constante de mensurar valores subtraídos através de crimes fiscais, mas utilizam de elaborada metodologia para que a estimativa seja a mais precisa. Os especialistas utilizam de dados de contas bancárias, pesquisas de orçamento domiciliar e comportamento do contribuinte, além de métodos indiretos como estimativas sobre a economia informal. Mesmo com esses valores, “o estudo trata-se de uma estimativa conservadora”, explica o presidente da Sinprofaz. No ano passado, o valor sonegado apontado pelo site atingiu a marca de R$ 502 bilhões.

Comparado com outro site de medição, o Impostômetro, que aponta a quantidade de impostos pagos pelos brasileiros anualmente, o valor sonegado corresponde a 25% das contribuições arrecadas em 2015 (cerca de R$ 800 bilhões).

R$ 160 bi escoados com a lavagem de dinheiro

O sindicato revela que, dos R$ 200 bilhões registrados pelo Sonegômetro, do início do ano até agora, 160 bilhões foram escoados com as operações de lavagem de dinheiro. Por isso, ao lado do Sonegômetro, também está posicionada a Lavanderia Brasil, peça publicitária em formato de uma máquina de lavar gigante, que simboliza os valores sonegados com artifícios da lavagem de dinheiro no país.

O objetivo do ato público é chamar a atenção da população para a falta de investimentos na carreira dos procuradores da Fazenda Nacional, responsável pela recuperação dos tributos federais e combate à sonegação fiscal. Com a recuperação desses valores para os cofres públicos, essa atividade dos procuradores poderia evitar, por exemplo, os aumentos reiterados de impostos que recaem sobre a população brasileira. “O investimento na Procuradoria Geral da Fazenda da União (PGFN) traz um retorno imediato ao governo e à sociedade. O órgão  devolve aos cofres públicos 20 reais para cara real investido na procuradoria”, afirma o presidente do Sinprofaz, Heráclio Camargo.

20 bilhões recuperados em 2014

Só em 2014 foram recuperados mais de 20 bilhões pela Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN), com base na perícia e na capacidade de trabalho dos procuradores. “Acreditamos que dobrando o orçamento da Procuradoria da Fazenda Nacional, reverteríamos muito mais dezenas de bilhões de reais para os cofres públicos, evitando o corte de direitos trabalhistas, sociais, a elevação dos combustíveis e as novas ameaças de elevação de tributos”, destaca Heráclio Camargo.

Procuradores entregam 319 pedidos de exoneração na AGU e PGFN

Com o objetivo combater, mais efetivamente, a sonegação e a corrupção na seara tributária e exigir melhores condições de trabalho, os procuradores da Fazenda Nacional entregaram, nesta quinta-feira (21), 319 pedidos de exoneração dos cargos de chefia ocupados até então. Ao todo, a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN) conta com 340 cargos de confiança.

Além desta decisão que foi tomada em assembleia na última segunda-feira (18), outros 1553 procuradores da Fazenda Nacional já assumiram compromissos de não assumirem esses cargos que ficarão vagos. Com isso, a adesão atinge quase 90% de adesão da carreira.

OCDE: desigualdade aumenta em países ricos, mas cai na América Latina

Por Daniela Fernandes | Via BBC

Redução de desigualdade de renda de países da América Latina foi destaque de estudo

A desigualdade de renda continua aumentando nos países ricos, mas caiu na América Latina na última década, afirma um estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), publicado nesta quinta-feira.

“Ao longo das últimas três décadas, a desigualdade de renda aumentou na maioria dos países da OCDE, atingindo em alguns casos altas históricas”, diz o relatório In it together – Why less inequality benefits all (Juntos nisso – Por que menos desigualdade beneficia a todos, em tradução literal).

Hoje, nos países da OCDE, os 10% mais ricos ganham 9,6 vezes mais do que os 10% mais pobres. Nos anos 80, a proporção era de sete vezes mais e, na década de 2000, de 9,1.

A partir de meados dos anos 2000, as desigualdades de renda também aumentaram em grandes economias emergentes, como China, Rússia, Indonésia e África do Sul.

Já a maioria dos países da América Latina, “particularmente o Brasil”, vem reduzindo, desde o final dos anos 90, as diferenças de renda, afirma a organização.

A OCDE, que reúne 34 países, a grande maioria economias industrializadas, ressalta, no entanto, que a queda na desigualdade de renda na América Latina desacelerou a partir de 2010.

“A trajetória da América Latina contrasta com as dos países da OCDE, onde a desigualdade de renda tem aumentado desde o início dos anos 80″, disse à BBC Brasil Horácio Levy, analista de políticas sociais da organização.

“Houve, a partir do início dos anos 2000, uma queda generalizada da desigualdade na América Latina. Essa redução não ocorreu de forma tão acentuada em outras regiões”, diz Levy.

“Dessa vez o bolo cresceu, com o crescimento econômico, e foi melhor dividido. É um fato novo na realidade latino-americana”, afirma o analista.

Gini

O atual coeficiente Gini – indicador que mede a desigualdade de renda e que vai de 0 a 1 (quanto mais alto, maior é a desigualdade) – na média dos países da OCDE é de 0,32. O do Brasil é 0,55. O do México é 0,48 e, o do Chile, 0,51.

Segundo dados da OCDE, o coeficiente Gini médio de 22 países da organização em meados dos anos 80 era de 0,29. Ou seja, houve um aumento de quase 11% no índice, o que implica crescimento da desigualdade.

No Brasil, o coeficiente Gini passou de 0,6 em meados dos anos 90 para 0,55, uma queda de cerca de 8%.

O aumento das desigualdades de renda nos países desenvolvidos já havia sido destacado pelo economista francês Thomas Piketty em seu livro O Capital no Século XXI, que se tornou um best-seller internacional.

A OCDE afirma que a desigualdade de renda nos países ricos não aumentou apenas em períodos de crise, mas também durante “bons momentos econômicos”, com crescimento.

“O aumento da desigualdade está tão profundamente incorporado em nossas estruturas econômicas que será difícil reverter isso”, afirma o estudo, o terceiro sobre o tema realizado pela organização desde 2008.

Mudanças no mercado de trabalho

Um dos principais fatores que explicam o aumento da desigualdade nos países da OCDE são as mudanças ocorridas no mercado de trabalho, decorrentes da globalização, de avanços tecnológicos e de reformas regulatórias.

Pessoas qualificadas em setores com alta demanda, como tecnologia da informação ou finanças, tiveram aumentos substanciais dos ganhos, diz o relatório.

Já os empregos com baixa qualificação, que sofreram a concorrência direta de países emergentes com mão de obra bem mais barata, não tiveram o mesmo ritmo de evolução.

“O perfil da demanda de trabalho mudou muito nos países da OCDE nos últimos 30 anos. As pessoas com maior nível de formação conseguiram se adaptar e manter a qualidade do emprego”, disse Levy à BBC Brasil.

“Os empregos pouco qualificados foram os mais penalizados. A diferença salarial entre trabalhadores mais qualificados e os com menor nível de formação aumentou muito nos países desenvolvidos”, diz o analista.

Além disso, a crise financeira a partir de 2008, seguida pela crise econômica, aumentou o desemprego em vários países. Hoje, nos países da OCDE, um terço dos empregos são temporários ou de meio período.

Na América Latina, o principal fator que explica a redução das desigualdades é justamente a diminuição das diferenças salariais entre trabalhadores com alto e baixo nível de formação, o que ocorreu, afirma o estudo, em razão do maior acesso à educação nesses países.

“Os gastos na área de saúde e educação também aumentaram, o que teve impacto importante na redução das desigualdades na região”, diz o analista da OCDE.

Cientistas políticos e sociólogos se posicionam contra a possibilidade do “distritão”

Via Associação Brasileira de Ciência Política

Começou a circular na madrugada desta quinta-feira mensagem entre pesquisadores e estudantes da área de Ciência Política que busca apresentar um posicionamento ao Deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), atual Presidente da Câmara dos Deputados. O documento afirma que caso o “distritão” passe na votação da Câmara na próxima semana, este seria um “retrocesso institucional”. O sistema eleitoral por distritos é apenas um dos muitos itens da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) da Reforma Política, sendo talvez um dos temas mais polêmicos junto com o financiamento de campanha.

Confira a íntegra do documento com as assinaturas coletadas até o início da tarde de hoje:

Ao Excelentíssimo Senhor Deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), Presidente da Câmara dos Deputados (Brasília, DF)

Nós, estudiosos da ciência política brasileira, vimos por meio desta manifestar posição contrária à adoção do modelo de sistema eleitoral denominado “distritão”, que será objeto de votação no plenário da Câmara dos Deputados, no dia 26 de maio de 2015.

A introdução do distritão nas eleições para a Câmara dos Deputados, Assembleias Legislativas e Câmaras de Vereadores representará um verdadeiro retrocesso institucional. Com o fim do voto de legenda e da transferência de votos dentro das agremiações partidárias, os candidatos correrão por conta própria, a título individual, enfraquecendo os partidos políticos e potencializando o personalismo na corrida eleitoral. Além disso, diferentemente do atual modelo, milhões de votos serão jogados fora, visto que somente serão válidos os votos dos eleitos.

Ao que tudo indica, o distritão acarretará o aumento dos custos das campanhas eleitorais, pois, sem incentivo algum para a cooperação dentro dos partidos, os candidatos necessitarão de maior exposição individual. Ademais, facilitará o renascimento de oligarquias regionais e contribuirá para a diminuição da qualidade da representação política, ao proporcionar maiores condições de vitória a concorrentes sem experiência parlamentar.

Se a necessidade de uma reforma política surge do diagnóstico de que os partidos são frágeis, a adoção do distritão parece ter como objetivo fragilizá-los ainda mais, interessando a certos segmentos da classe política profissional, em particular àqueles com maior facilidade para dispor de vultosos recursos para suas campanhas. Nesse sentido, observamos com preocupação a possibilidade de sua implantação e reiteramos nossa posição contrária à sua propositura.

Assinam o documento (até o momento):

Adalberto Cardoso (IESP-UERJ)
Adriano Codato (UFPR)
André Luiz Coelho (ECP-UNIRIO)
Armando Boito (DCP-UNICAMP)
Bernardo Ricupero (DCP-USP)
Bruno Pinheiro Wanderley Reis (DCP-UFMG)
Carolina de Paula (pós-doutoranda no IESP-UERJ)
Carlos Melo (INSPER)
Carlos Pereira (FGV-Rio)
Cláudio Gonçalves Couto (FGV-SP)
Clayton Mendonça Cunha Filho (pós-doutorando no IREL-UnB)
Emerson Urizzi Cervi (UFPR)
Fabiano Guilherme Mendes Santos (IESP-UERJ)
Fabrício Pereira da Silva (ECP-UNIRIO)
Filomeno Moraes (UNIFOR)
Guilherme Simões Reis (ECP-UNIRIO)
Jawdat Abu El-Haj (DCS-UFC)
João Paulo Saraiva Leão Viana (DCS-UNIR)
José Maurício Domingues (IESP-UERJ)
Josênio Parente (UECE; UFC)
Katiuscia M. Galhera (doutoranda em Ciência Política na UNICAMP)
Leonardo Avritzer (DCP-UFMG)
Luciana Veiga (ECP-UNIRIO)
Manoel Leonardo Santos (DCP-UFMG)
Manuel Domingos Neto (UFF)
Marcia Ribeiro Dias (ECP-UNIRIO)
Maria do Socorro Braga (UFScar)
Maria Hermínia Tavares de Almeida (USP; CEBRAP)
Marcelo Borel – (doutorando em ciência política no IESP-UERJ)
Oswaldo E. do Amaral (DCP-UNICAMP)
Paulo Roberto Neves Costa (UFPR)
Rachel Meneguello (DCP-UNICAMP)
Vinicius Valentin Raduan Miguel (DCS-UNIR)

Cunha barra votação contra shopping na Câmara e é comparado a Stálin

Via O Tempo

Desde que assumiu o comando da Câmara, em fevereiro, Cunha tem dado sequência ao projeto de ampliar a estrutura da Casa.

Diante disso, aliados incluíram na medida provisória que trata da tributação sobre produtos importados um artigo que deixa clara a possibilidade de a Câmara.

A possibilidade de a Câmara dos Deputados abrigar um shopping causou nova polêmica nesta quarta-feira (20). Protagonista da ideia, o presidente da Casa, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), barrou uma votação que poderia inviabilizar a empreitada e acabou sendo criticado por governistas e oposicionistas, que prometem recorrer à Justiça.

Desde que assumiu o comando da Câmara, em fevereiro, Cunha tem dado sequência ao projeto de ampliar a estrutura da Casa, construindo um novo auditório, novos gabinetes, mais estacionamentos e um centro comercial.

Diante disso, aliados incluíram na medida provisória que trata da tributação sobre produtos importados um artigo que deixa clara a possibilidade de a Câmara recorrer a uma parceria público-privada para realizar as obras.

Isso apesar de o tema não ter nenhuma relação com o teor da MP, o que é conhecido no jargão legislativo como a prática do “enfiar um jabuti” nos projetos.

O texto da MP foi aprovado na terça (19), mas o PSOL havia apresentado um “destaque” (emenda que retira artigos dos projetos aprovados), que seria votado nesta quarta para tentar derrubar o “jabuti”.

Cunha, porém, anunciou momentos antes da votação que o “destaque” do PSOL não seria votada já que o partido expulsou o deputado Cabo Daciolo (RJ), encolhendo de cinco para quatro parlamentares e, com isso, perdendo a prerrogativa regimental de apresentar esse tipo de emenda.

A decisão, classificada como muito mais política do que técnica por deputados, foi criticada por governistas e pela oposição, que até então têm se mostrado alinhada com Cunha.

“Só aprovamos o texto principal porque ficou claro que hoje votaríamos o ‘jabuti’ da construção do shopping”, reclamou o deputado Alessandro Molon (PT-RJ). “Se essa PPP for firmada, será ilegal”, emendou o deputado Glauber Braga (PSB-RJ).

Líder da bancada do PSOL, o deputado Chico Alencar (RJ) disse que a afirmação de Cunha de que o “destaque” do PSOL deixou de exigir lhe lembrou Josef Stálin -uma menção à prática da extinta União Soviética de apagar de fotos dirigentes que haviam caído em desgraça dentro do regime.

Alencar também classificou a manobra de Cunha de “espúria” e de ser arquitetada por uma “assessoria de sabujos”. Silvio Costa o acusou de querer ser dono da Câmara. “O senhor tem que retirar esse ‘jabuti’, esse seu shopping-center mal-assombrado”, discursou Silvio Costa (PSC-PE).

Cunha, que presidia a sessão, se limitou a defender tecnicamente sua decisão e a pedir respeito em relação aos funcionários.

Além do PSOL e do PT, o PPS também disse que irá recorrer ao STF (Supremo Tribunal Federal). O PSDB também criticou a decisão de Cunha.

Os defensores da construção do shopping, que rejeitam o termo, não se manifestaram na sessão. Na terça, o primeiro-secretário da Casa, Beto Mansur (PRB-SP), defendeu o projeto afirmando que há uma antiga reivindicação dos parlamentares por melhoria na infraestrutura da Casa.

“Essa história de shopping é uma mentira, não vamos ter loja Louis Vuitton aqui dentro, não vamos ter lojas de shopping. Vamos ter escritórios, restaurantes, agências de turismo, de aviação”, disse, na ocasião.