Arquivo mensais:maio 2015

Carta em defesa do Brasil, da Democracia e do Trabalho

Via Carta Maior

O Fórum 21, organização da sociedade civil constituída em dezembro de 2014, organizou uma Carta em defesa de temas caros a todos nós. A comissão final de redação foi formada por Luiz Gonzaga Belluzzo, Ladislau Dowbor, Leda Paulani, Reginaldo Moraes e por Pedro Paulo Zahluth Bastos. A Carta tem apoio dos movimentos sociais abaixo listados que também apoiaram o manifesto lido no Senado Federal na semana do dia 18 de maio de 2015 pelo senador Lindberg Farias. A Carta amplia os temas do manifesto para discutir outras reformas populares e conclama as forças de esquerda para formar uma frente para defendê-las. Clique aqui para assiná-la.

O pacto político e social da Constituição de 88 está sob um ataque de exceção. Contra a política, contra os partidos, especialmente do campo da esquerda, contra os movimentos sociais.

Este ataque representa a maior ofensiva organizada pelas forças políticas da direita e pelo oligopólio da mídia conservadora, desde 1968.

A luta contra a corrupção, que deveria atingir de forma indistinta e igual quem viola a legalidade e desmoraliza a política e o Estado, está sendo instrumentalizada por setores conservadores e foi colocada a serviço de um projeto autoritário de restauração de uma democracia restrita e de redução das funções públicas do Estado.

Parte da direita não hesita em clamar pela intervenção militar, como se o Brasil fosse uma república bananeira, e as nossas forças armadas fossem feitoras dos interesses do capital financeiro. Promovem a contra-reforma política para manter o financiamento empresarial de campanhas eleitorais e partidos políticos e buscam terceirizar o Banco Central, pretendendo sua “independência” em relação ao Estado e sua submissão total à especulação globalizada.

Agendam a redução da maioridade penal e organizam ataques às conquistas das mulheres, negros e homossexuais. Incitam o ativismo judicial seletivo, antidemocrático, para desestabilizar o pacto político de 1988.

A direita e o grande empresariado promovem agora uma reforma penosa aos trabalhadores, para universalizar a terceirização, com um ataque severo às conquistas laborais do século passado. Aprovada, terá como efeito mais grave maior precarização das relações de trabalho e a redução de salários.

- A democracia: reforma política e dos meios de comunicação

No Brasil, a luta pela democratização da política assume, hoje, duas formas principais.
Primeiro, a luta contra o financiamento empresarial de campanhas eleitorais e dos partidos políticos.
Segundo, a luta contra o controle plutocrático dos meios de comunicação, desrespeitando dispositivo constitucional que veda o monopólio e oligopólio.

Contra a decadência do sistema político, as esquerdas e as forças comprometidas com a democracia e com o avanço social precisam se unir em torno da reforma política e pela democratização dos meios de comunicação.

Unir-se pela verdadeira liberdade de imprensa, que implica no direito à livre circulação da opinião, normalmente censurada pelos oligopólios, e pela transparência e democratização das concessões para rádios e TVs, que hoje são feitas no subsolo da política nacional.

As duas reformas são fundamentais para controlar o papel que o dinheiro exerce como agente corruptor da democracia.

No que concerne à reforma política, o principal mecanismo de democratização de campanhas eleitorais e prevenção contra a corrupção é o bloqueio do financiamento empresarial de campanhas e partidos políticos.

No que tange à reforma dos meios de comunicação, para limitar o poder do dinheiro é necessário limitar a propriedade e o controle, em uma mesma área, de órgãos de comunicação controlados por um mesmo grupo empresarial.

O controle de grupos milionários e de políticos sem escrúpulos sobre meios de comunicação confere vantagens políticas que pervertem a cláusula democrática e deformam as eleições.

A agenda destas reformas nos unifica, imediatamente, no seguinte: a) proibição do financiamento dos partidos e das campanhas eleitorais por empresas; b) a limitação do número de veículos de comunicação, por grupo empresarial, em uma mesma área geográfica.

- A democratização do desenvolvimento econômico e a rejeição da austeridade

Apesar da crise global, os defensores do projeto neoliberal não desanimam na defesa dessa utopia direitista e dos interesses que ela atende.

Seu ataque quer atingir o que diferenciou, no mundo, o desenvolvimento brasileiro na última década: a expansão de salários e direitos sociais; a formação de um mercado interno ampliado pelo aumento do consumo popular; a recuperação de alguma capacidade de planejamento estatal; a rejeição do projeto de integração subordinada à globalização neoliberal.

A direita emparedou o Governo da Presidenta Dilma Rousseff em função da dominação que o dinheiro exerce na formação da opinião, por meio dos oligopólios da mídia, aproveitando os erros cometidos na formação dos preços públicos, na manutenção de alguns subsídios, combinados com a elevação das taxas de juros e a retração do investimento público.

Todo ajuste ortodoxo de corte neoliberal se assenta em dois pilares: juros elevados e restrições orçamentárias para investimentos em infraestrutura e para programas de combate às desigualdades sociais e regionais.

O “ajuste” ? como proposto no Brasil – não toca nas desigualdades de patrimônio e renda, penaliza principalmente os trabalhadores e camadas sociais vulneráveis, fragiliza as forças progressistas diante do avanço das forças conservadoras.

O nosso “ajuste” deve ser outro. Deve garantir o crescimento com a ampliação dos investimentos para combater desigualdades sociais, regionais e gargalos produtivos. Deve potencializar um projeto de nação democrática e justa: a democratização da estrutura tributária brasileira é essencial para que o desenvolvimento soberano e inclusivo receba a contribuição dos que podem contribuir mais.
Nesse sentido, o Imposto de Renda deve ser reduzido para trabalhadores e camadas médias, mas majorado, progressivamente, para grandes salários e lucros distribuídos.

A tributação da riqueza acumulada deve contar com Imposto sobre as Grandes Fortunas e Grandes Heranças.

Finalmente, deve ser veementemente repelida a proposta de eliminar a independência do Banco Central em relação aos bancos que deve regular.

Depois do repúdio do povo brasileiro durante a campanha presidencial à proposta de um Banco Central “Independente” (em relação ao governo eleito), reavivá-la no Congresso Nacional é uma atitude que denota um enorme afastamento dos representantes do povo em relação aos interesses da maioria da nação.

A agenda mínima de reformas que nos unifica, imediatamente, quanto ao desenvolvimento, fundamenta-se no seguinte: rejeição da austeridade que é inepta para a retomada do crescimento; redução das taxas de juros; retomada do investimento público; reestruturação imediata do Imposto de Renda, com aumento das alíquotas para os muito ricos; taxação de Grandes Fortunas e Grandes Heranças; programa de largo alcance e qualidade técnica para combater a sonegação de impostos, políticas que devem ser debatidas na cena pública democrática, tanto no Parlamento como na relação direta do Governo com a sociedade.

- Participação direta da cidadania nas decisões sobre políticas públicas

A Constituição Brasileira abre a possibilidade de participação direta da cidadania (art. 14) e a Lei de Responsabilidade Fiscal (LC 101/1999) recomenda que os governos procedam discussões públicas sobre o Orçamento.

Esses preceitos ainda não se materializam em instituições e práticas efetivas. Consultas públicas, plebiscitos e referendos não devem ser eventos raros em uma democracia ampliada.

É necessário construir mecanismos que efetivem a participação direta e desenvolvam a democracia na definição de políticas públicas, prioridades orçamentárias e formas de financiá-las que ampliem a justiça social.

- Pela defesa da democracia, do trabalho e da soberania nacional

Diante do avanço da direita, é necessário pensar hoje não apenas na estabilidade e na governabilidade democrática, mas na defesa de um programa mínimo que unifique as forças sociais comprometidas com a defesa da democracia, do trabalho e da soberania nacional.

Para construir, debater e defender esse programa, é fundamental a constituição gradual de uma Frente Democrática pelas Reformas Populares. Uma Frente que aponte, nos processos eleitorais e nas lutas sociais, para uma nova governabilidade com base programática.

A formação desta Frente é uma tarefa política de toda a esquerda, com participação ampla da sociedade civil não organizada em partidos e membros de partidos.

Lutamos há décadas pela democracia contra as mesmas forças do atraso que, hoje, querem voltar a limitá-la. Lutemos em conjunto para que a democracia brasileira supere a nova ameaça reacionária, e atenda progressivamente aos anseios do povo brasileiro por menores desigualdades, mais direitos e oportunidades de vida digna.

Se concordar com seus termos, por favor subscreva este documento por meio da Petição Pública.

ENTIDADES:

Adere (Articulação dos Empregados Rurais de Estado de Mg)
Associação de Mulheres de Viamão Maria Quitéria – Presidenta: Joice Dutra
CUT Nacional – Central Única dos Trabalhadores – Executiva Nacional
Coletivo Brasil de Comunicação Social Intervozes
Centro de Estudos de Mídia Alternativa Barão de Itararé
Consulta Popular
Federação das Mulheres Gaúchas – FMG – Presidenta: Adriana Damasceno
Feremg (Federação dos Empregados Rurais Assalariados do Estado de Minas Gerais
Levante Popular da Juventude
Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Campo –MTC
MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra
Nação Hip Hop Brasil
Observatório da Mulher
Sindicato dos Assalariados Rurais da Região Sul De Minas Gerais
Sindicato dos Assalariados Rurais de Conceição Do Rio Verde Mg
Sindicato dos Assalariados Rurais de Guapé
Sindicato dos Assalariados Rurais de Tres Corações Mg
Sindicato dos Assalariados Rurais e Eloi Mendes
Sindicatos dos Assalariados Rurais de Carmo de Minas
UNE – União Nacional dos Estudantes

ASSINAM ESTE DOCUMENTO:

Alfredo Saad Filho – Professor Associado – Universidade de Londres; ex- Senior Economics Affairs Officer da UNCTAD (ONU)
André Vitor Singer – Professor Associado – USP
Boaventura de Souza Santos – Centro de Estudos Sociais (Universidade de Coimbra) e University of Wisconsin-Madison
Emir Sader – Prof. da UFRJ, UERJ e USP
Fábio Konder Comparato – Advogado, escritor e jurista
Jorge Mattoso – Professor Doutor da UNICAMP; ex-presidente da Caixa Econômica Federal
José de Felippi Jr – Secretário Municipal da cidade de São Paulo
Juarez Tavares – Jurista, Prof. Titular da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e Professor visitante da Universidade de Frankfurt
Ladislau Dowbor – Professor Titular – PUC
Leda Paulani – Professora Titular – USP; ex-Presidenta da Sociedade Brasileira de Economia Política
Leonardo Avritzer – Professor Titular da UFMG, ex-presidente da Associação Brasileira de Ciência Política
Lindbergh Farias – Senador (PT-RJ)
Luis Carlos Bresser-Pereira – Ex-Ministro da Fazenda, da Administração Federal e Reforma do estado, e de Ciência e Tecnologia, Professor da FGV-SP
Luiz Gonzaga Belluzzo – Professor Titular – UNICAMP
Marcio Pochmann – Professor Titular – UNICAMP; presidente da Fundação Perseu Abramo; Ex-Presidente do IPEA
Niemeyer Almeida Filho – Professor Titular – Universidade Federal de Uberlândia – Presidente da Sociedade Brasileira de Economia Política
Paulo Pimenta – Deputado Federal, Presidente da Comissão de Direitos Humanos
Paulo Teixeira – Deputado Federal do PT
Pedro Paulo Zahluth Bastos – Professor Associado – UNICAMP, ex-presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores em História Econômica
Pedro Estevam Serrano – Professor da PUC/SP
Randolfe Rodrigues – Senador pelo PSOL-AP
Reginaldo Moraes – Professor Titular UNICAMP e Fundação Perseu Abramo
Rosa Maria Marques – Professora Titular – PUC – SP
Samuel Pinheiro Guimarães – ex-Ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos, ex-secretário-geral do Ministério das Relações Exteriores
Sebastião Velasco e Cruz – Professor Titular – UNICAMP
Tarso Genro – Ex-governador – RS, Ex-ministro da Educação, da Justiça e das Relações Institucionais
Vagner Freitas – Presidente da CUT Nacional
Vanessa Petrelli Corrêa – Professora Titular – Universidade Federal de Uberlândia; Ex-Presidenta do IPEA
Virgínia Barros – Presidenta da União Nacional dos Estudantes (UNE)
Wadih Damous – deputado federal PT/RJ e ex presidente da Ordem dos Advogados do Brasil do Rio de Janeiro

Aderbal Farias Magalhães – Professor aposentado UNICAMP
Airton Paschoa – Escritor
Altamiro Borges – Centro de Estudos Barão de Itararé
André Biancarelli – Professor Doutor – UNICAMP
Andrei Koern – USP
Antonio Lassance – Cientista Político
Breno Altman – Jornalista
Camilo Vannuchi – Jornalista
Carlos Punkusfeld – Professor da UFRJ
Celio Hiratuka – Professor Doutor – UNICAMP
Célio Turino – Historiador e escritor
Edson Aparecido da Silva – Sociólogo
Esther Bermerguy de Albuquerque – Consultora
Eva Gonçalves Magalhães – Professora aposentada da UNICAMP
Fábio Sá e Silva – research fellow, Harvard Law School
Fernando Augusto Mansor de Mattos – Professor Doutor – UFF
Flavio Wolf Aguiar – Escritor, Prof. aposentado da USP
Gonzalo Berron – Cientista Político
Ivana Jinkings – Diretora da Boitempo
Jean Tible – Professor da USP
João Feres Junior – Editor do Manchetômetro e prof. da UERJ
Joaquim Ernesto Palhares – Jornalista
José Augusto Valente – Especialista em Logística e Transporte
José Luiz Del Roio – Militante Político
Laurindo Leal Filho – USP
Laymert Garcia dos Santos – Prof. da USP
Léa Maria Reis – Jornalista
Leneide Duarte-Plon – Jornalista
Luiz Alexandre Lara – Arquiteto Urbanista
Luiz Renato Martins – ECA-USP
Magda Barros Biavaschi – Desembargadora aposentada do TRT4
Marcos Aarão Reis – Jornalista
Mari Perusso – coordenadora bancada estadual PT –RS
Maria Goretti Nagime Baros Costa – Advogada
Maria Inês Nassif – Jornalista
Maria Luiza Flores da Cunha Bierrenbach – Procuradora do Estado de SP
Maria Marta Azzolini – Psicanalista
Maria Rita Bicalho Kehl – Psicanalista, jornalista, ensaísta, poetisa e crítica literária
Maria Rita Garcia Loureiro – FGV/SP
Martônio Mont’Alverne Barreto Lima – Prof. Titular na UFC
Nilce Aravecchia Botas – Prof. da FAU USP
Ofélia Lopes – Prof. Aposentada Jorge Luiz Souto Maior – Professor Faculdade Direito USP
Pedro Rossi – UNICAMP
Rachael Moreno – Consultora
Reginaldo Mattar Nasser – Chefe do Departamento de Relações Internacionais da PUC-SP e Prof. do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP, UNICAMP e PUC-SP)
Ricardo Musse – Prof. da USP
Rodrigo Vianna – Jornalista
Rubem Leão Rego – UNICAMP
Sonia Irene Silva do Carmo – Professora universitária aposentada
Valdizar Pinto do Carmo – Jornalista aposentado
Waldir Quadros – Ex-Professor da UNICAMP – Atual Coordenador do curso de Relações Internacionais – FACAMP
Walquiria Leão Rego – UNICAMP

Uma empresa, dois jornais. Um abismo

Por Sylvia Debossan Moretzsohn | Via Observatório da Imprensa

Quem pensa que os jornais produzidos por uma mesma empresa falam sempre a mesma língua, diferindo apenas na linguagem adotada de acordo com o seu “público-alvo”, teve uma surpresa diante do abismo entre O Globo e o Extra na cobertura do assassinato do médico Jaime Gold, que pedalava pela Lagoa Rodrigo de Freitas, um dos cartões postais do Rio, no início da noite de terça-feira (19/5). Sobretudo porque, no mesmo dia, dois jovens – um adolescente de 13 e um rapaz de 24 – foram assassinados durante uma operação da Polícia Civil no morro do Dendê, na Ilha do Governador. O médico morreria na madrugada seguinte, depois de horas na mesa de cirurgia.

Na quinta-feira (21/5), O Globo destacava na primeira página o “crime na Lagoa” e a “tragédia anunciada”, dedicando-lhe nada menos do que cinco páginas internas. A suíte das mortes no Dendê mereceram apenas duas colunas espremidas no meio de outra página interna, ainda assim assinadas – como na véspera – por um repórter do Extra.

No mesmo dia, o Extra fez bem diferente: expôs no alto da primeira página o “crime bárbaro na Lagoa”, mas destacou o apelo: “Só não se esqueçam de Gilson e Wanderson”, os dois rapazes mortos. Logo abaixo, justificou: “Como em qualquer lugar do mundo, crimes em pontos turísticos têm maior repercussão. Mas, no Dendê, mães choram mortes de seus filhos em ação da polícia e esperam que caso não caia no esquecimento”. A justificativa servia também para descartar, de maneira sucinta e didática, a eterna discussão sobre o valor da vida – e, consequentemente, da morte – conforme a região geográfica e o status social.

No dia seguinte, o abismo continuou: enquanto O Globo anunciava a prisão de um adolescente suspeito de matar o médico, enfatizava a sua ficha corrida (“16 anos e 15 crimes”), retomava, em editorial, a carga a favor da redução da maioridade penal e publicava uma charge que chegava ao cúmulo de comparar os ciclistas na Lagoa aos prisioneiros do Estado Islâmico, o Extra escancarava a manchete: “Sem família, sem escola”, apontando as “duas tragédias antes da tragédia”. O texto-legenda abaixo da foto, que ocupa metade da página e mostra o garoto conduzido por policiais, fala das 15 passagens pela polícia, da ausência do pai, da mãe, catadora de latas, indiciada por deixar o filho com fome na rua, e do abandono da escola.

Curiosamente, a reportagem do Globo ia no mesmo sentido de apontar a trajetória de transformação “da criança pobre em suspeito de um brutal assassinato”, mas a edição sugeria o contrário: parecia que a “escalada da crueldade” destacada na manchete da página interna dizia respeito à escolha do rapaz pelo mundo do crime.

No sábado (23/5), o Extra voltava a destacar na primeira página o caso da “tragédia antes da tragédia”, para tratar da situação da escola onde o rapaz estudava. Logo abaixo, noticiava o corte de verbas para a educação. No dia seguinte, sem o mesmo destaque, mostrava que 95% dos jovens infratores não haviam completado o ensino fundamental e citava o crescimento do número de apreendidos: 8.380 durante o ano passado, segundo o Instituto de Segurança Pública, “uma média de 23 por dia”. Um índice que tende a crescer: se “nos quatro primeiros meses do ano passado, 2.445 menores foram detidos, neste ano o número chega a 3.141 – um aumento de 28%”.

Enquanto isso, no mesmo dia, O Globo recorria a “especialistas” para tentar traçar o perfil psicológico desse tipo de criminoso e destacava a fala de uma psicóloga sobre a “impunidade”, ignorando os números divulgados pelo Extra. No dia seguinte (segunda, 25/5), destacava mais um ataque com faca – uma tentativa de assalto num ônibus –, o oitavo em oito dias, como se vivêssemos uma onda desse tipo de crime, e voltava a incentivar a aprovação do projeto de lei que criminaliza o uso de armas brancas, como se fosse uma medida simples: bastaria pensar em quantas pessoas utilizam facas em situações banais do cotidiano – o vendedor de coco verde, o sujeito que promove um churrasco numa praça –, a não ser que a ideia seja também criminalizar essas atividades.

Já o Extra voltava a investir no selo “A tragédia antes da tragédia” e recuperava a história do menino franzino detido com um colega após roubar um cordão de ouro, em março, e fotografado de costas por um policial, numa delegacia. Dois meses depois, continua fora da escola, cometendo pequenos delitos pelas ruas.

Desagradar o público

Mantive neste artigo o título de minha primeira publicação no Facebook a respeito desse tema por causa do debate que se seguiu: muitos elogiavam a atitude do Extra mas muitos também faziam pouco caso dela, seja porque enxergavam ali algum objetivo oculto – afinal, trata-se de um jornal “da Globo” –, seja porque entendiam que cada publicação se dirigia a seu público, e por isso seria perfeitamente natural a diferença de enfoque.

Sobre a teoria conspiratória, não vale a pena argumentar, inclusive porque é inútil enfrentar convicções, embora sempre valha a pena dizer que as intenções importam muito menos do que o resultado. Mas é necessário desfazer a lógica do outro raciocínio, por dois motivos fundamentais: primeiro, porque um jornal precisa fazer jornalismo, e isso significa frequentemente desagradar o seu público. Se um jornal diz apenas o que seu público quer ouvir, ele o aliena: é preciso apresentar-lhe as contradições da sociedade e não alimentar a ilusão de que é possível viver numa bolha, de que os malfeitores são uma espécie alienígena que vem atacar os cidadãos “de bem” e que basta trancafiá-los – ou exterminá-los – para passarmos a desfrutar de um mundo harmonioso como o de um anúncio de margarina.

Segundo, porque uma olhada nos comentários no site e, principalmente – dado o volume incomensuravelmente maior –, na página do jornal no Facebook seria suficiente para verificar que, se um jornal deve responder às expectativas de seu público, o Extra fez exatamente o contrário. É o que dá o nó nesse raciocínio canônico. Mercadologicamente, seria uma insensatez. Mas, jornalisticamente, era o que precisava ser feito.

A propósito, a entrevista com o diretor de redação do jornal, Octavio Guedes, publicada neste Observatório (ver “‘Jornalismo não é concurso de Miss Simpatia’”), ajuda a esclarecer vários pontos dessa polêmica. Afinal, não é de hoje que o Extra se comporta assim. A perseverar nessa linha, dará uma excelente contribuição para o jornalismo, mas terá embates diários tanto com uma parcela significativa de seu público quanto com a crítica externa, que também recusa a hipótese de discutir questões sociais diante de crimes bárbaros. (Esses, a propósito, devem ter ficado satisfeitos com a reação das nossas autoridades: o prefeito a dizer que “criança, menor, praticando crime é problema de polícia”, num brilhante retorno aos tempos da República Velha, e o secretário de Segurança a afirmar que é inadmissível uma situação dessas num lugar como a Lagoa Rodrigo de Freitas, o que, de tão simplório, dispensa comentários).

Desarmar o ódio de classe

O que o Extra fez foi tentar demonstrar que nada é “simples assim”, como tantos gostam de pensar para se livrar rapidamente de qualquer ameaça de questionamento às suas próprias certezas. Foi tentar lançar luz para além do imediatamente visível e chamar a atenção para a necessidade de compreender como se cultiva a exclusão que, muito previsivelmente, explode em violência. Nem sempre, é claro, porque não há relação automática de causa e efeito: mas justamente por isso é preciso entender que as reações humanas são variadas e, muitas vezes, surpreendentes. Sobretudo na adolescência, sabidamente uma fase extremamente turbulenta para qualquer um.

Daí, aliás, o equívoco do raciocínio no qual a pessoa se toma como referência para o comportamento alheio, no melhor estilo do líder que não pede a seus comandados nada que ele mesmo não seja capaz de fazer, como se todos estivessem em pé de igualdade: “Se eu passei por dificuldades e não roubei nem matei, por que alguém faria isso?”

Seria possível indagar, como fez há muito tempo a juíza Maria Lúcia Karam, “por que os indivíduos despojados de seus direitos básicos, como ocorre com a maioria da população de nosso país, estariam obrigados a respeitar as leis”. Ou lembrar da observação da socióloga Vera Malaguti Batista, também há muito tempo, a respeito da surpresa diante da crueldade de casos como o do ataque na Lagoa: “Por que achar que ‘eles’ se importam conosco? ‘Nós’ não nos importamos com ‘eles’”.

Entender as raízes do ódio de classe – o ódio, não a luta, necessária e incontornável em qualquer sociedade de classes, e que se expressa nas mais variadas formas – é o primeiro passo para desarmá-lo. Por que, então, a rejeição ao debate? Por que confundir a atitude do jornal com uma tentativa de defender, justificar ou vitimizar o agressor?

O outro lado, e mais outro

Entretanto, ao falar nas “duas tragédias antes da tragédia”, o Extra acaba assumindo, implicitamente, que o adolescente detido é de fato culpado: afinal, teria sido ele a provocar a tragédia da morte do médico. Pode ser, mas não há nada mais comum, na rotina policial, do que pegar o primeiro suspeito, ainda mais se tem uma ficha recheada, para exibi-lo e dar uma satisfação rápida ao público, em crimes de grande repercussão. Também as informações sobre a mãe do rapaz, que o teria negligenciado, aparentemente não procedem. O que não retira a força da denúncia sobre a ausência de apoio familiar – afinal uma mulher que sustenta sozinha quatro filhos como catadora de recicláveis enfrenta dificuldades inimagináveis para quem jamais viveu essa situação –, mas altera o julgamento que se pode fazer dessa mãe.

Reportagem da Agência Brasil (24/5, ver aqui) dá essa outra versão, ao finalmente entrevistar Jane Maria da Silva e apresentá-la como uma ativista do Fórum Social de Manguinhos, no dia de lançamento da cartilha “Manguinhos tem fome de direitos”. Um vídeo compartilhado no Facebook, realizado em setembro do ano passado, mostra a participação dela num encontro promovido regularmente pelo pessoal da Fiocruz – no caso específico, para tratar do impacto das obras do PAC na saúde dos moradores, e o que se diz ali, em menos de 20 minutos, sintetiza a enormidade dos problemas a se enfrentar: como tantas carências se conectam, num manancial de pautas que poderia e deveria alimentar a imprensa sensível às questões sociais.

A intervenção de Jane está na altura do décimo minuto do vídeo. É evidentemente a pessoa mais cansada, mais abatida, com mais dificuldade de se expressar, em comparação com a fluência das demais moradoras. Vista hoje, a intervenção dela ganha outro sentido: só agora, diante da prisão de um dos seus filhos, é que podemos entender o peso de sua preocupação com a falta de oportunidade de estudo, trabalho e lazer para os jovens infratores. Porque sofria isso na pele, seu filho era um deles.

De quem é a culpa?

Mas ainda que não fosse assim. Ainda que essa mulher fosse como a mãe do menino Y., de 12 anos, que o Extra levou agora novamente para a primeira página (ver aqui), o menino apreendido há dois meses, que conseguiu se safar de ser encaminhado para um abrigo porque enganou as autoridades dizendo que tinha 6 anos, e convenceu, de tão franzino que era.

Vejamos este trecho da reportagem:

“No dia em que foi detido – e, segundo ele, agredido pelos PMs –, foi liberado após sua mãe ir buscá-lo na delegacia. Dependente química, a mulher, de 26 anos, tem outros dois filhos e acabou de voltar à favela depois da quarta internação em clínicas de reabilitação. O pai de Y. morreu, vítima de tuberculose, há dez anos. Encontrar o menino na casa onde moram seus irmãos, sua mãe e seu avô, um pedreiro de 55 anos, é improvável: às vezes dorme numa quadra de futebol no alto do morro ou nas ruas, outras – como ontem – só chega em casa às 6h, depois de voltar “chapado” do baile funk da favela”.

Pensemos então em como as coisas se reproduzem. Recordemos o quase-monólogo de Anna Magani em Mamma Roma, de Pier Paolo Pasolini:

Sabe por que meu marido, o pai de Ettore, era um canalha? Porque a mãe era agiota e o pai, ladrão.

E por que a mãe era agiota e o pai, ladrão?

Porque o pai da mãe era um carrasco e a mãe da mãe uma mendiga. A mãe do pai, uma cafetina e o pai do pai, um dedo-duro.

Todos miseráveis, eis por quê! Se fossem ricos, seriam pessoas de bem.

E então, de quem é a culpa?

Pasolini tocava como poucos o cerne das questões, com imagens despojadas e eloquentes: Roma, a cidade brilhante lá no fundo, e em primeiro plano a aridez da periferia, os prédios degradados, os campos de terra em que a adolescência desgarrada do pós-guerra jogava bola, fumava, se drogava e se perdia. Também como no iraniano Filhos do paraíso: a tentativa de manter a dignidade na mais absoluta carência, as casas pobres e o pequeno comércio, como se aquela fosse a imagem de Teerã, e de repente o pai resolve buscar trabalho como jardineiro e leva o filho na garupa da bicicleta e começa a pedalar pelo centro de edifícios luminosos de vidro e pelas zonas residenciais de ruas arborizadas e mansões exuberantes. Uma beleza que se torna opressiva pelo contraste com a vida em que tudo é falta.

“Até quando?”, perguntamos, chocados com a morte estúpida na Lagoa. Sim: até quando esse abismo?

***

Sylvia Debossan Moretzsohn é jornalista, professora da Universidade Federal Fluminense, autora de Repórter no volante. O papel dos motoristas de jornal na produção da notícia (Editora Três Estrelas, 2013) e Pensando contra os fatos. Jornalismo e cotidiano: do senso comum ao senso crítico (Editora Revan, 2007).

O Moderno e o PT; complementos e análise

Por Marcelo Barbosa | Via Algo a Dizer

Após o êxito de seus governos, o PT precisa oferecer um projeto de nação ao país. Caso não consiga, a legenda poderá cumprir a paráfrase de Lévis-Strauss, passando à decadência antes de atingir o apogeu.

Concebido em aberta ruptura com a esquerda de tradicional implantação ao fim da década de 1970 – leia-se comunistas e trabalhistas – o PT nasceu de costas para o Estado e de frente para a sociedade civil. As questões capazes de mobilizar a legenda de Lula poucas vezes coincidiram com aquelas formuladas pelas agremiações conduzidas então por personalidades como Prestes, João Amazonas ou ainda Brizola. Com isso, toda uma rica agenda de lutas anterior ao marco da eclosão do ciclo das greves do ABC paulista, a partir de 1979, derivou para um papel secundário. Guardada no baú das relíquias, a questão nacional, sobretudo o papel do Estado no combate aos vários níveis de subdesenvolvimento do país, cedeu protagonismo ao avanço de uma pauta democrática essencialmente compreendida como cidadania econômica: aumento de salário, acesso a terra, direito a moradia, entre outros itens afins. A idéia de construir o moderno com base no rompimento com as formas de dependência de nossa periferia à dominação dos países centrais, pedra de toque das concepções de construção do moderno da velha esquerda, encontrou pouco eco no interior do petismo.

Para o chamado PT das origens, nenhum sentido podia ser extraído da indagação acerca da busca do moderno em uma sociedade de extrema concentração de renda, cuja passagem para o capitalismo monopolista de Estado demandara a instalação de uma ditadura civil-militar, em 1964. Perseguindo essa ótica, empréstimo ao pensamento uspiano – de Florestan Fernandes a Chico de Oliveira, entre muitos outros – o Novo e Velho apareciam perfeitamente fundidos e entrosados na paisagem social brasileira. Eram molares da mesma engrenagem. No caso brasileiro, a obtenção do posto de 6ª economia mundial surgira sem a necessidade de ajustar contas com as instituições pré-capitalistas existentes, aí incluído o latifúndio. Em outras palavras, o moderno já predominava em nossas relações sociais a reboque das tendências à urbanização e industrialização. E mais. O desenvolvimento capitalista deflagrado nesse processo tornara mais agudas as desigualdades de classe, região e renda, em todo território nacional. Conclusão: o tempo para a conquista de objetivos intermediários como as reformas de base se esgotara. A luta pela conquista do socialismo vibrava na ordem do dia.

A projeção dos pais fundadores do PT previa atitudes como o repúdio às alianças com o chamado centro político, estando interditada, ainda, a possibilidade de apoio a qualquer coalizão de natureza pluriclassista. A esquerda social caminharia antes só que mal acompanhada. De preferência, exaltando os valores da democracia de base, da nitidez ideológica e da crítica à trajetória republicana brasileira. Ação política? A única legítima consistiria na intervenção de baixo para cima, por meio dos instrumentos da vida associativa, a exemplo dos sindicatos e das Comunidades Eclesiais. Mais revolucionário na retórica que na prática, essa modalidade de petismo das origens deu forma a um grupo de práticas voltadas para a exaltação ao chamado “poder local”, procedimento de evasão à real disputa do poder, mas que permitiu o acúmulo de forças da legenda nas conjunturas de grande instabilidade verificadas durante os primeiros anos do processo de redemocratização.

Os saudosistas do modelo de militância partidária presente na infância da atuação do PT defendem com ardor a atitude empreendida pela legenda naqueles anos de formação. Por óbvio, promovem comparações. Com alguma procedência, apontam o processo pelo qual o petismo se manteve unido e em crescimento ao longo das décadas de 1980 e 1990, ao mesmo tempo em que a esquerda tradicional caminhava para a divisão e a perda de prestígio. O problema desse argumento, no fundamental correto, reside na sua insuficiência: se o PT encarnasse apenas a crítica aos contingentes da esquerda que o precederam, nem de longe poderia cumprir um papel de destaque na vida pública brasileira. Ou seja, já em seus primeiros anos, vicejavam no terreno da cultura política do PT as sementes de uma visão mais assente à complexidade de uma sociedade de traços contraditórios como a nossa.

Personagem de sua própria história, o PT fez coexistir em seu projeto inúmeras identidades*. Algumas dessas caracterizações, com vida curta. Outras vieram para ficar e firmaram-se no acervo de experiências empreendidas pelo partido. Entre essas florações, uma classe de propostas que, diferindo da primeira das constelações teóricas formuladas pela agremiação, exibia algum grau de diálogo com a questão proposta ao início deste texto. Por esse ângulo, construir o moderno requeria o enfrentamento das oligarquias patrimonialistas, o estamento parasitário responsável pelo atraso e a desigualdade de nossa formação social, presente desde o período colonial. Em tal narrativa, o ponto de equilíbrio da atuação da esquerda devia se deslocar para o combate à corrupção. Impunha-se, nessa ótica, atacar o método pelo qual as elites decadentes se apropriavam – e se apropriam – das funções do Estado para reproduzir seus interesses particulares, entravando assim o acesso ao poder das camadas comprometidas com a democratização da vida pública, tais como o proletariado moderno e o empresariado produtivo.

Com vistas a demarcar suas posições, esses setores do petismo buscaram distinguir seus pontos de vista da parcela moralista e influenciada pela mídia monopolista. Com acerto, preferiam não ser confundidos com o fenômeno tratado pela ciência política brasileira pela designação de “udenismo”. Não à toa, adotaram a defesa de uma pauta liberal no que refere aos costumes, com ênfase na liberação das drogas ou ainda, a titulo de ilustração, a defesa da descriminalização do aborto – nada obstante uma certa presença de militantes católicos nestas correntes de opinião. Mantendo a coerência, jamais esconderam a sua solidariedade às chamadas “minorias” que, na realidade, conformam grandes maiorias no vasto mosaico das relações sociais presentes no país: mulheres, negros, grupos LGBT, índios, ambientalistas, quilombolas, entre outros.

Plural como as próprias camadas médias donde retira força, esse segmento do petismo, de igual maneira, nos últimos anos, cresceu a ponto de espalhar sua influência para a fora da legenda da estrela, fecundando o debate entre áreas do PSOL e da Rede Sustentabilidade, da senadora Marina Silva. Até mesmo no interior do governo Dilma tais tendências assumiram papel de destaque na produção de ideias: a mais influente entre muitas, a denúncia da “governabilidade” baseada no pacto PT-PMDB, fonte de paralisia (sic) e renúncia ao enfrentamento com os setores ditos conservadores do patronato político brasileiro. Fortemente vinculado à política, a prática desses agrupamentos pouco freqüenta o tema econômico. De uma maneira geral, pouco tem a dizer, por fora da abstração de princípio, sobre a contradição que cinde a qualquer sociedade capitalista: o antagonismo entre capital e trabalho.

Por fim, esse inventário, bastante ligeiro, por sinal, das respostas oferecidas pelo PT sobre o tema da construção do moderno, não deve omitir a referência a um terceiro quadro de referências. Fenômeno recente, tal posição conta pouco mais de uma década. Sua principal atitude se enuncia na busca pela recuperação (seletiva) de alguns de elementos da cultura política anterior à fundação do partido de Lula. Sem renegar as respostas fornecidas pelo PT das origens – repita-se a afirmação da identidade socialista, para uns ou a denúncia do patrimonialismo, para outros – essa nova síntese supõe: forçar a passagem ao moderno implica resolver a questão social. Cumpre, assim, impulsionar a unidade e a capacidade de mobilização das forças comprometidas com a luta pela erradicação da desigualdade no país, marca constitutiva do atraso de nossa formação social desde sempre. Inspirado no pensamento de autores como Celso Furtado, Darcy Ribeiro, Nelson Werneck Sodré e Ignácio Rangel, entre outros, mas ao mesmo tempo incorporando contribuições atuais como as de Conceição Tavares e Theotonio dos Santos, apenas para citar dois autores em atividade, esse reforço de ideias à matriz original petista, pelo que tudo indica, tem por objetivo o aprofundamento contínuo dos espaços de democracia política na sociedade. Mas, não apenas isso.

Trata-se, igualmente, de transformar o atual caráter das instituições de Estado, colocando-as a serviço dos objetivos de um projeto de nação capaz de garantir a todos os brasileiros o exercício dos direitos e garantias individuais e, sobretudo coletivos, em boa parte previstos no texto da Constituição da República, de 1988. Caminho brasileiro para o socialismo, a implantação desse projeto nacional, de natureza não autárquica – porque aberto à integração com a América Latina e África – impõe, no caso do PT, o manejo de três ferramentas: um frente de centro-esquerda, um programa de reformas estruturais e uma estrutura partidária democrática e transparente.

(*) As reconstituições do debate de ideias no interior do PT, nos termos propostos neste texto, atêm-se a linhas gerais. Limitam o escopo da questão a um só tema: as estratégias de combate ao atraso estrutural do país. Outros tópicos geraram diferentes tipos de clivagem, conforme o caso das controvérsias acerca das formas de construção partidária, só para citar um dos contenciosos mais polêmicos. Por certo, outras sensibilidades em relação ao moderno existiram – e persistem existindo – no interior da agremiação. Sendo certo, ainda, que há contingentes na estrutura partidária completamente alheios a este tipo de problema teórico. Para estas áreas – presentes, em maior ou menor grau, em todas as tendências partidárias – trata-se apenas de reproduzir a presença da legenda como máquina arrecadadora de votos. Os impasses verificados pelo anseio de definição de uma cultura política adequada não tiram o sono desse tipo de militância já há muito perpassada pela deformidade burocrática.

Gustavo Santos - Esse é um bom texto e mostra bem o maior problema do PT, desde seu início é um partido mais focado na forma/ética (decisões a partir da base, democracia interna, respeito a diversas correntes, respeito aos 10 mandamentos na forma de fazer política) do que em conteúdo (objetivos políticos a serem conquistados): modelo econômico, reformas de base, protecionismo econômico, anti-imperialismo, direitos trabalhistas rígidos, típicas do velho trabalhismo (o único conteúdo/objetivo comum no PT foi combater a desigualdade).

Porém, como a forma sempre depende das circunstâncias, ela sempre será conspurcada em algum momento. por isso a grave crise do partido em razão do “mensalão” por uma questão de forma/ética cristã, e pouca crise no partido quando ele mudou os objetivos ao abraçar desde o primeiro mandato uma política econômica neoliberal e que só um pouco rejeitada pela Dilma nos seus primeiros 2 anos, antes de voltar atrás e novamente abraçar o neoliberalismo.

Um movimento político que foca mais em forma/ética do que em conteúdo/objetivos está sempre destinado ao colapso por contradição e dificuldade de manter realizações. Estou certo?

Adriano Benayon - As considerações de Marcelo Barbosa até podem ser interessantes, explicam algumas das coisas que o PT tentou ser e outras que ele sequer jamais tentou ser, como um partido controlador de governo em um país soberano.

Mas o fato é que o PT perdeu sua oportunidade histórica, se é que a teve um dia. Simplesmente eleger o presidente da República não significa governar. A herança dos últimos sessenta anos é muito pesada.

Ora, a característica de todos os governos que se sucederam em todo esse tempo – inclusive quando a sucessão foi de civis a militares, ou inversamente – é que nenhum deles foi de ruptura: tolerou-se sempre a supremacia das transnacionais, do capital estrangeiro e a financeirização, com o predomínio dos banqueiros, subordinados ao capitalismo central angloamericano.

Ora, não existe meia soberania,nem 1/5, nem outra fração de soberania. Ela existe ou não existe. O “governo” que se submete a pressões geralmente preside a seu fracasso. O PT já entrou mantendo as corruptíssimas privatizações, trazidas pelo pacote de leis de 1990 pelo facinoroso Collor e aplicadas pelo indescritível FHC.

Entrou submetido aos banqueiros, entre cujas virtudes – se há alguma – não está nem o patriotismo nem o sentido social, nem a capacidade de construir o desenvolvimento econômico e tecnológico.

Nos últimos 60 anos o Brasil assiste a uma série – aparentemente interminável – de períodos de crescimento, seguidos de crises, cada vez mais graves, pagando preço cada vez mais alto em termos de recursos naturais dilapidados e em termos de substância cultural, social e tecnológica.

Nem importa mais saber quem é o culpado pelo desastre presente, em que não só o PT está desacreditado, mas tudo que se associe a esquerda ou simplesmente a política.

Por enquanto, o PT fica condenado a continuar na presidência da República, colhendo a reprovação granjeada com o modo de governar segundo as agências de Estado criadas pelo PSDB, com as infraestruturas insuportáveis e caras, com a preferência pelas rendas de agiotas, com os escandalosos subsídios às transnacionais etc., num contexto em que a supressão dos direitos humanos e sociais é apenas o “a cereja no bolo”, e a abjeta palhaçada da reforma política dos políticos dá o toque final de mau gosto no que é uma apoteose da injustiça, também representada pelo Judiciário e outras instituições de um regime do qual muito pouco se aproveita.

Weber Figueiredo - Crítica afiada, Adriano, no entanto, minorada por medidas de alcance social imediatos adotadas pelo PT, mas nunca perenes, posto que, realmente, os governos Lula e Dilma não atacaram as sanguessugas, causas das mazelas econômicas e sociais. Inserir os pobres no orçamento da União foi bom, mas não resolve.

Semelhante a uma febre, baixada com antitérmico, mas sem debelar a infecção.

***

Marcelo Barbosa é advogado, doutor em Literatura Comparada pela UERJ e diretor-coordenador do Instituto Casa Grande.

Gustavo Santos é doutor em economia e funcionário do BNDES.

Adriano Benayon é doutor em economia pela Universidade de Hamburgo.

Weber Figueiredo é doutor em engenharia e professor do CEFET-RJ.

O contragolpe de Eduardo Cunha: Câmara aprova financiamento empresarial a partidos

Via Revista Fórum

O presidente da Casa quebrou o acordo que havia feito ontem – quando os parlamentares rejeitaram o financiamento privado – e colocou para votação nova emenda que torna constitucional a doação de empresas a partidos políticos.

A votação da noite desta quarta-feira (27) foi muito contestada. Isso porque na noite da terça-feira (26), a proposta que tornava constitucional as doações de empresas a candidatos em campanhas eleitorais foi derrotada em plenário. Como se tratava de uma proposta de emenda constitucional, era necessário que conseguisse 308 votos, tendo atingido somente 264 votos, com 207 contrários e 4 abstenções.

O presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ) afirmou hoje, de forma contrária ao que havia dito ontem, que o regimento obriga a votação do texto-base do relator da Comissão Especial se nenhuma emenda for aprovada antes. Assim, permitiu a apresentação de novas emendas aglutinativas, entre elas a proposta pelo deputado federal Celso Russomanno (PRB-SP), que permite o financiamento empresarial a partidos políticos. Dessa maneira, Cunha conseguiu virar o jogo e a Casa aprovou a emenda por 330 votos a favor e 141 contra. Houve uma abstenção.

Parlamentares viram na atitude do presidente da Câmara uma espécie de contragolpe. “Entendemos que houve manifestação da Casa de que o financiamento por empresas foi rejeitado. Qualquer outro tema que traga isso de volta é matéria vencida”, se manifestou o líder do PT Sibá Machado (AC). “O PCdoB não concorda em reabrir o debate sobre financiamento empresarial”, disse a líder do partido Jandira Feghali (RJ).

Ex-jurista do Banco Mundial revela como a elite domina o mundo

Via Diário Liberdade

Karen Hudes, ex-informante do Banco Mundial, despedida por ter revelado informação sobre a corrupção no banco, explicou com detalhes os mecanismos bancários para dominar nosso planeta.

Karen Hudes (foto), graduada pela escola de Direito de Yale, trabalhou no departamento jurídico do Banco Mundial durante 20 anos. Na qualidade de ‘assessora jurídica superior’, teve suficiente informação para obter uma visão global de como a elite domina o mundo. Desse modo, o que conta não é uma ‘teoria da conspiração’ a mais.

De acordo com a especialista, citada pelo portal Exposing The Realities, a elite usa um núcleo hermético de instituições financeiras e de gigantes corporações para dominar o planeta.

Citando um explosivo estudo suíço de 2011, publicado na revista ‘Plos One’ a respeito da “rede global de controle corporativo”, Hudes enfatizou que um pequeno grupo de entidades, em sua maioria instituições financeiras e bancos centrais, exerce uma enorme influência sobre a economia internacional nos bastidores. “O que realmente está acontecendo é que os recursos do mundo estão sendo dominados por esse grupo”, explicou a especialista com 20 anos de trabalho no Banco Mundial, e acrescentou que os “capturadores corruptos do poder” também conseguiram dominar os meios de comunicação. “Isso é permitido a eles”, assegurou.

O estudo suíço que mencionou Hudes foi realizado por uma equipe do Instituto Federal Suíço de Tecnologia de Zurique. Os pesquisadores estudaram as relações entre 37 milhões de empresas e investidores de todo o mundo e descobriram que existe uma “super-entidade” de 147 megacorporações muito unidas e que controlam 40% de toda a economia mundial.

Contudo, as elites globais não controlam apenas essas megacorporações. Segundo Hudes, também dominam as organizações não eleitas e que não prestam contas, mas, sim, controlam as finanças de quase todas as nações do planeta. São o Banco Mundial, o FMI e os bancos centrais, como a Reserva Federal Estadunidense, que controla toda a emissão de dinheiro e sua circulação internacional.

O banco central dos bancos centrais

A cúpula desse sistema é o Banco de Compensações Internacionais: o banco central dos bancos centrais.

“Um organização internacional imensamente poderosa da qual a maioria nem sequer ouviu falar controla secretamente a emissão de dinheiro do mundo inteiro. É o chamado Banco de Compensações Internacionais [Bank for International Settlements]. Trata-se do banco central dos bancos centrais, localizado na Basileia, Suíça, mas que possui sucursais em Hong Kong e na Cidade do México. É essencialmente um banco central do mundo não eleito, que tem completa imunidade em matéria de impostos e leis internacionais (…). Hoje, 58 bancos centrais em nível mundial pertencem ao Banco de Compensações Internacionais, e tem, em muito, mais poder na economia dos Estados Unidos (ou na economia de qualquer outro país) que qualquer político. A cada dois meses, os banqueiros centrais se reúnem na Basileia para outra ‘Cúpula de Economia Mundial’. Durante essas reuniões, são tomadas decisões que atingem a todo homem, mulher e criança do planeta, e nenhum de nós tem voz naquilo que se decide. O Banco de Compensações Internacionais é uma organização que foi fundada pela elite mundial, que opera em benefício da mesma, e cujo fim é ser uma das pedras angulares do vindouro sistema financeiro global unificado”.

Segundo Hudes, a ferramenta principal de escravizar as nações e Governos inteiros é a dívida.

“Querem que sejamos todos escravos da dívida, querem ver todos os nossos Governos escravos da dívida, e querem que todos os nossos políticos sejam adictos das gigantes contribuições financeiras que eles canalizam em suas campanhas. Como a elite também é dona de todos os principais meios de informação, esses meios nunca revelarão o segredo de que há algo fundamentalmente errado na maneira como funciona nosso sistema”, afirmou.

O perigoso deslumbramento de Moro

Por Paulo Nogueira | Via DCM

Tratamento de celebridade vicia

Moro tem um problema.

Ele virou prisioneiro, como tantas outras pessoas que ele mandou para a cadeia na Lava Jato.

A única diferença é que ele é prisioneiro de si mesmo.

É o que podemos chamar de MJB, Maldição de Joaquim Barbosa.

JB construiu uma reputação de Batman e logo se tornou ídolo do que há de mais obscuro, reacionário e primitivo na sociedade brasileira.

Desde o começo, os progressistas viram com desconfiança, e depois com franca antipatia, a transformação de JB num justiceiro.

Hoje, merecidamente, ele é abominado e desprezado por todas as correntes de esquerda. Não é um sentimento limitado aos petistas, ao contrário do que JB gostaria.

Moro é o novo JB.

Quem realmente está com ele? Basta ver a triunfal recepção que integrantes do ultradireitista MBL lhe ofereceu numa recente passagem por São Paulo.

Flores, gritos histéricos, pedidos de selfies, nada faltou.

Pausa para registrar o objetivo da visita a SP. Era para prestigiar o lançamento de um livro do qual ele escreveu, com a mulher, o prefácio.

É um livro sobre o médico tarado que se aproveitou de tantas mulheres que buscavam engravidar. O autor é, ele mesmo, um representante do atraso do atraso mental, Claudio Tognolli, pena de aluguel de Lobão, Tuma Jr e outros dinossauros.

Não poderia haver causa menos nobre para pisar em solo paulistano.

Mas está claro que ele se viciou na adulação, no espaço interesseiro que a mídia lhe dá, exatamente como JB.

Agora repare nos efeitos da MJB.

O que acontecerá com Moro caso ele passe a agir racionalmente, sem promover o tipo de justiça partidária antipetista que tem sido sua marca?

A festa vai acabar.

Aconteceu com Aécio. Bastou a ele dizer que impeachment não é coisa para tratar agora para a ultradireita pular em seu pescoço.

O MBL postou uma mensagem agressiva no Facebook quase no tom com que se refere ao PT.

Até o Batman do Leblon se sentiu animado a deixar sua Gotham City imaginária para gravar um vídeo em que Aécio é reduzido a nada.

E Aécio não fez mais que engavetar o impeachment.

Moro, caso aja como juiz de verdade, vai enfrentar a mesma situação. Será imolado em praça pública pelos mesmos que hoje querem erguer estátuas para ele.

Sua vaidade extrema – que outra coisa poderia fazê-lo aceitar um prêmio da Globo num evidente deslize ético para um magistrado? – fará tudo para manter o tratamento de celebridade recebido por alguns e intensamente repercutido pela imprensa.

Era um personagem desconhecido, de alcance local, e agora ele está se empanturrando com a glória nacional.

Não é fácil lidar com isso, e muito menos renunciar aos holofotes, que fatalmente se transformarão em pedras caso Moro saia da linha, a exemplo do que ocorreu com Aécio, o “Arregão”.

É a Maldição de Joaquim Barbosa.

Depois de alguns anos de hibernação, a retomada neoliberal

Por Márcio Pochmann | Via RBA

Depois de autorizar entrada de dinheiro estrangeiro na saúde e a formação de oligopólios no ensino privado, Legislativo tenta, com a lei da terceirização, fazer o país andar para trás.

Projeto da terceirização seria a maior e mais profunda reforma neoliberal do trabalho

Após sua hibernação por mais de uma década, o neoliberalismo vem registrando sinais recentes de seu reaparecimento. Para ser introduzido ainda no início dos anos 1990, durante a passagem do governo Sarney para o de Collor de Mello, o neoliberalismo contou com três condições fundamentais. A primeira, provocada pela recessão econômica no início da década de 1990, que buscou enfraquecer seus opositores, como os sindicatos, diante da inexorável elevação do desemprego e da redução no poder aquisitivo dos salários.

A segunda condição foi revelada pelos constrangimentos impostos pela revisão do papel do Estado através das transferências de funções públicas ao setor privado viabilizadas pela privatização de empresas estatais e corte generalizado no gasto público. A terceira condição ocorreu constituída pela implementação de várias medidas de flexibilização das regras nas áreas financeira, comercial, produtiva e trabalhista.

Essas três condições estruturadoras do neoliberalismo dos anos 1990 no Brasil encontram-se, guardada a devida proporção, retomadas no período recente, o que pode contribuir, ao que parece, para a reversão da posição governamental que até então se movia majoritariamente contrária. Inicialmente, pelo reaparecimento de um novo quadro recessivo, capaz de alterar a trajetória positiva de elevação no nível de emprego e de ampliação salarial. Na sequên­cia, a abertura para o crescimento da presença do setor privado em paralelo à contenção do Estado em ­algumas atividades.

Exemplo disso pode ser observado pela aprovação da legislação que incentiva a entrada de capital estrangeiro na saúde, responsável, até o momento, pela aquisição de quase meia centena de hospitais no país. Um movimento comparável localiza-se também na educação, com o estabelecimento de oligopólios privados no ensino superior e participação importante do capital estrangeiro. A contenção no gasto público em todos os níveis imposta pela retomada do programa de austeridade fiscal permanente, assim como a possibilidade de haver novas rodadas de concessões no serviço público, pode apontar para uma nova fase de apequenamento do Estado no Brasil.

Por fim, o atual vigor legislativo expresso pelo rápido avanço da pauta patronal e antilaboral estabelecida pela condução de votações sobre a terceirização e o Simples trabalhista. De um lado, o projeto de lei da terceirização tal como apresentado poderá representar o rebaixamento das condições de trabalho e remuneração dos empregados não terceirizados ao precarizado já vigente entre os terceirizados.

Em síntese, o trabalhador terceirizado no Brasil recebe remuneração que equivale, em média, à metade da percebida pelo empregado não terceirizado. Além disso, a rotatividade do terceirizado é duas vezes maior que a do empregado não terceirizado. De outro lado, o encaminhamento das proposições estabelecidas em torno do projeto do Simples trabalhista poderá permitir redução sensível na proteção que o empregado assalariado possui por meio da Consolidação das Leis do Trabalho. Ou seja, a maior e mais profunda reforma neoliberal do trabalho que o Brasil conhecerá.