Arquivo mensais:maio 2015

Jacques Wagner representa Brasil em desfile na Rússia e lembra parceria estratégica dos países

Por Sandro Fernandes | Via Opera Mundi

Presidente Dilma Rousseff não foi ao evento devido a compromissos pessoais, mas enviou uma carta endereçada ao mandatário russo, Vladimir Putin.

O ministro da Defesa do Brasil, Jaques Wagner, participou neste sábado (09/05), em Moscou, da solenidade em comemoração aos 70 anos da vitória dos aliados na Segunda Guerra Mundial. O ministro representou o Brasil no evento. A presidente Dilma Rousseff não foi ao evento devido a compromissos pessoais, mas enviou uma carta endereçada ao mandatário russo, Vladimir Putin.

Em conversa com jornalistas, Wagner destacou a cooperação técnico-militar entre o Brasil e a Rússia, lembrando que os dois países têm uma parceria estratégica.

Questionado sobre a possibilidade de exercícios militares do Exército russo no território brasileiro, Wagner disse não haver limitações no relacionamento entre os países. “O Brasil não tem nenhum tipo de limitação do ponto de vista do relacionamento. A nossa diplomacia é independente. No geral, nós fazemos operações conjuntas com o guarda-chuva institucional da ONU. O Brasil não tem tradição de fazer exercícios conjuntos bilaterais se não forem com esta cobertura da ONU, mas eu não vejo nenhum impedimento de que a gente venha a fazer algum exercício conjunto com a Rússia”, afirmou.

Desfile do Dia da Vitória em Moscou foi chamado pelo Kremlin de “maior da história”. Agência Efe

A imprensa russa noticiou recentemente que o governo do país pode colaborar com o Brasil na questão da segurança, após a experiência com megaeventos adquirida durante os Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi.

O ministro disse que não dispensa colaborações e que, “se há experiências que podem ser aproveitadas, elas têm que ser aproveitadas”. Citando a França, ele lembra que “os terroristas estão usando expedientes e atitudes absolutamente inimagináveis um tempo atrás”. Para Wagner, os últimos episódios de terrorismo no mundo indicam que “nenhum país pode dizer que está completamente preparado”.

Militarmente, a cooperação entre a Rússia e o Brasil já está sendo afetada por questões conjunturais nos dois países. “A coisa mais palpável que tem de aquisição brasileira é dos carros antiaéreos russos, mas houve atraso por causa do aperto fiscal”. Segundo Wagner, o pedido de oferta de preço (aos russos) deve ser feito em breve, mas não é provável que a compra seja efetuada antes dos Jogos Olímpicos.

Dia da Vitória

O ministro Jaques Wagner é filho de imigrantes poloneses judeus e conta que sua família perdeu parentes na Segunda Guerra Mundial. “O Dia da Vitória, num mundo conturbado como está hoje, cada dia tem que ser mais lembrado”, afirmou.

Jaques Wagner viajou hoje para Paris, onde fica até quarta-feira (20/05), antes de voltar para o Brasil.

Petrobras quer concluir obras no Comperj e refinaria no Nordeste o quanto antes

Via Correio do Brasil

Funcionários do Comperj estão com salários e outros benefícios atrasados

A conclusão de refinarias em Pernambuco e no Rio de Janeiro estará prevista no Plano de Negócios 2015-2019 da Petrobras a ser divulgado até junho, mas ainda há incertezas sobre quando e como serão efetivados os investimentos para o encerramento das obras nas unidades envolvidas no escândalo de corrupção, de acordo com uma fonte próxima à companhia. A finalização da Refinaria do Nordeste (Rnest), também conhecida como Abreu e Lima, e do Comperj dependerá do fôlego da estatal para aportes e da disponibilidade de empreiteiras, uma vez que as maiores estão proibidas de fechar novos contratos com a petroleira em razão dos desvios apontados pela Polícia Federal.

Eventuais investidores interessados em ter uma fatia minoritária nos ativos de refino –ainda que a política de preços de combustíveis no Brasil seja pouco estimulante para um sócio privado– também poderiam ajudar na conclusão dos projetos, disse a fonte, que está envolvida na elaboração do plano.

– As duas (refinarias) estão no plano, e o timing depende de algumas variáveis – afirmou a fonte, na condição de anonimato, sem dar detalhes sobre investimentos projetados para 2015-2019.

Procurada, a Petrobras não comentou imediatamente o assunto.

No balanço do ano passado, a companhia anunciou redução de mais de 44 bilhões de reais no valor de seus ativos, com a Rnest e o Comperj respondendo por cerca de 70% dessa desvalorização, e a empresa citando diversos problemas, como falha no planejamento dos projetos. A estatal ainda contabilizou perdas de R$ 6,2 bilhões de reais por corrupção em 2014. Apesar dos atrasos e dos bilhões já gastos na Rnest e no Comperj, os projetos estarão no plano de negócios porque, com eles, a Petrobras ficará muito próxima de ter a autossuficiência em refino.

A refinaria no Rio de Janeiro está com mais de 80% das obras concluídas e poderá agregar até 200 mil barris de capacidade, disse a fonte. Já o segundo trem de refino da Rnest – o primeiro foi inaugurado em 2014 – também fará parte do plano de negócios, com previsão de agregar 115 mil barris/dia de processamento.

A fonte também confirmou que não mais haverá complexo petroquímico no Comperj. No início de fevereiro, a petroquímica Braskem já havia indicado desistência do projeto. O plano de investimento para os próximos cinco anos da Petrobras, atualizado anualmente, que sempre projeta a maior parte dos aportes para a área de Exploração & Produção, também virá menor que o anterior, disse a fonte, sem detalhar.

Uma boa medida disso é intenção da Petrobras no próximo leilão de áreas exploratórias do governo, em outubro, quando a empresa terá uma atuação “precisa” e “não será megalomaníaca”, disse a fonte. Normalmente, a petroleira domina tais licitações.

Investidores

Para concluir a Rnest e a unidade de refino em obras no Rio de Janeiro, a Petrobras cogita a possibilidade de fechar parcerias com investidores nacionais e estrangeiros. Nas próximas semanas, duas missões de China e Japão estarão no país para estudar oportunidade de investimentos no Brasil, incluindo ativos da Petrobras, disse a fonte. Afetada pela corrupção, queda do preço do barril de petróleo e um endividamento crescente, a estatal tem agora um plano de desinvestimentos em 2015 e 2016 mais agressivo, de cerca de US$ 13 bilhões.

– Se aparecer um interessado nesse investimento, o que permitiria sobra de caixa para outros projetos, vamos fazer essa parceria. Poderíamos dar 10% ou 20% de uma refinaria, por que não? – questiona.

Um investidor privado de fora do Brasil para a área de refino, porém, certamente teria mais interesse em atuar no país com uma política mais transparente de reajustes de combustíveis e que reflita cotações de mercado. A nova diretoria da estatal, no entanto, tem evitado fazer comentários detalhados sobre os preços administrados do governo.

Projetos e pagamentos

O “timing” para o andamento de Comperj e Rnest esbarra na capacidade de investimentos e também nos prestadores de serviço acusados de envolvimento no esquema de sobrepreço em projetos e pagamentos de propinas. Dependendo do andamento das investigações e dos acordos de leniência entre empreiteiras e governo, além das decisões judiciais, a Petrobras poderia recorrer a empresas de fora do país, caso fornecedores locais continuem impedidos de realizar negócios com a estatal, em função dos casos de corrupção. E a fonte acrescenta:

– Há dois problemas para esses projetos: capacidade de investimento e problema de fornecedor. Quando os fornecedores vão fazer acordo com a Justiça e vão estar novamente habilitados para continuar? O outro problema é: em não havendo acordo de leniência, há no mercado fornecedor capacitado para continuar?.

A ideia da estatal, superadas as adversidades, é primeiro finalizar a obra do Comperj e depois concluir a obra da refinaria de Pernambuco, que já está em operação com seu primeiro trem de refino.

Produção

A queda na produção mensal de petróleo da Petrobras nos primeiros meses deste ano, na comparação com o mês anterior, tem chamado a atenção do mercado e de analistas sobre a capacidade de recuperação e de geração de caixa da Petrobras. No entanto, disse a fonte, os dados negativos do primeiro trimestre se devem a paradas programadas e não programadas de plataformas, que não comprometem a meta prevista para este ano.

– Isso é comum, tem parada programada, não programada, mais ou menos dias úteis… Mas está tudo muito bem planejado e dentro da ideia de crescimento da produção este ano de pelo menos uns 3%. Dificilmente isso vai ter alteração – adicionou.

A meta da companhia divulgada no início do ano é de um crescimento de 4,5% na produção de petróleo no Brasil em 2015 ante 2014, com variação de 1 ponto percentual para mais ou para menos. Em 2014, a produção da nacional de petróleo da Petrobras somou 2,034 milhões de barris/dia, crescimento de pouco mais de 5% ante 2013 – após dois anos seguidos de queda na extração anual – com a colaboração do pré-sal.

De acordo com a fonte, a produção no pré-sal já chegou a atingir o pico de 808 mil barris/dia de óleo equivalente (boe, petróleo e gás), e a tendência é expansionista, com possibilidade de se atingir 1 milhão de barris até 2016.

A questão alemã

Por Pepe Escobar | Via Janela do Abelha

Reuters/Rainer Jensen

Setenta anos depois do final da 2ª Guerra Mundial, e 25 anos depois da queda do Muro de Berlim, a Alemanha está outra vez em surto de ‘sturm und drang’ [lit. tempestade e ímpeto], mas dessa vez sem que praticamente ninguém, nem no leste, nem no oeste, dê-se conta do que está acontecendo.

Sem esforço sério de detonação de mitos, é impossível discernir o que pode ser interpretado como nova tentativa, discreta, de alcançar a hegemonia.[1]

Ao contrário de um mito atualmente muito propagandeado pela “think-tankelândia” norte-americana, a Berlim política, sob a chanceler Merkel, não é mediadora entre EUA ainda hegemônicos e uma Rússia dita “agressiva”.

A realidade é que Berlim, pelo menos por enquanto, dá mais a impressão de cantar pela música de Washington – com mínimas variações – enquanto açoita a Rússia. É o caso, mesmo que se considerem os sólidos laços de energia/comércio/negócios com Moscou (a Alemanha importa 1/3 de todo o gás natural que consome; e empresas/indústrias/conglomerados alemães investiram pesadamente na Rússia).

Diferente também de um segundo mito muito difundido, a Berlim política não está interessada em “estabilidade” nas fronteiras orientais da Europa, mas, isso sim, quer ali a mais inconteste vassalagem. A incansável integração da Europa Oriental à União Europeia, liderada por Berlim, foi estratégia para abrir novos mercados para as exportações alemãs, assim como para erguer uma proteção intermediária entre Alemanha e Rússia. Quanto aos estados do Báltico, já são vassalos; a Alemanha é a principal parceira comercial dos três.

Também nada há que comprove mais um mito, de que Berlim não poderia levantar as sanções – contraproducentes – que impôs a Moscou, enquanto a ‘segurança’ da Europa Central e da Europa Oriental não estiver ‘garantida’. A verdade é que a Alemanha, se pudesse, preferiria ter total controle político/econômico sobre toda a periferia do que foi a URSS.

Quanto à União Europeia, agora afundada em ambiente tóxico, varrida pela ‘austeridade’, pós-democrática e anti-igualitarista, sem saída à vista, a Alemanha já reina ali, politicamente e economicamente.

Deutschland sob controle?

Nas brumas do atual pântano intelectual em que se debate a União Europeia, para citar Yeats “aos melhores falta convicção, e os piores estão cheios da mais apaixonada intensidade”. – Considerados os esquálidos ideólogos neoliberais, que se escafedem pelos cantos, agarrados às suas sinecuras naquele kafkiano templo de mediocridade que é Bruxelas – até um Diógenes moderno teria dificuldade para encontrar observador bem informado, capaz de dar conta do jogo alemão.

Daí a luminosa exceção que é o historiador e antropólogo Emmanuel Todd, autor do ensaio seminal Depois do Império, de 2002, onde faz sua impiedosa cartografia do declínio dos EUA. Em longa entrevista em 2014 a Les Crises-interview, sobre a Alemanha, Todd manda a bolinha geopolítica à estratosfera.

Todd preocupa-se profundamente com a disfunção do ocidente – manifesta, para ele, em a Europa estar “virtualmente em guerra com a Rússia”. Vê a fixação ansiosa, doentia, do ocidente, contra a Rússia, como a tentativa de encontrar um bode expiatório, ou, melhor, “a criação de um inimigo, necessário para o ocidente poder mostrar alguma, qualquer, mínima racionalidade, coerência. A União Europeia foi criada contra a URSS; não vive sem a Rússia no papel de inimigo inventado.”

Angela Merkel, chanceller alemã (Reuters/Hannibal Hanschke)

Mas, por trás da UE, lá está o negócio verdadeiro: o projeto alemão, que Todd identifica como um projeto de poder, levado adiante para “comprimir a demanda na Alemanha, escravizar os países do sul, devorados pela dívida, pôr a trabalhar os europeus do leste, atirar uns poucos amendoins ao sistema bancário francês.” E esse projeto de poder só abrir a escandalosa porta que dá passagem ao “imenso potencial da Alemanha para irracionalidade política” – tema muito proeminente agora, com todos aqueles plágios de queda do Reich.

Todd identifica o que Lacan chamaria de o grande não dito europeu (“não enunciado”): “A chave para que os EUA controlem a Europa, herança da vitória de 1945, é controlarem a Alemanha.”

Mas atualmente esse controle vem-se dissolvendo, embora caoticamente, e isso significa “o começo da dissolução do império norte-americano.” E o declínio imperial – visível em incontáveis declinações – leva Todd a conclusão explosiva: a verdadeira ameaça contra os EUA, muito mais perigosa que a Rússia – “que é externa ao império” – é a Alemanha.

E quanto à ameaça da Alemanha contra a Rússia? Para Todd não há dúvida alguma de que as populações de idioma, cultura e identidade russos estão sendo atacados no Leste da Ucrânia com “aprovação e apoio” da União Europeia – o que é fato. Ao mesmo tempo, interpreta o “silêncio” russo sobre isso, “como no caso do que fazem a França e os EUA [no leste da Ucrânia], recusa a ver a realidade”, mas como ato de boa diplomacia: “os russos precisam de tempo. O autocontrole dos russos, o profissionalismo, são dignos de admiração.” Agora, tente encontrar esse tipo de leitura na empresa-mídia europeia infestada pela CIA.

Sai a “Europa”, entra em cena a Alemanha

Por tudo isso, o que Todd está dizendo aqui, em essência é que “está emergindo um novo cara-a-cara entre dois grandes sistemas: o do continente-nação EUA, e esse novo império alemão, império político-econômico cujo povo chama o próprio país de ‘Europa’, por força do hábito.” Ah, sim, o que Todd diz faz perfeito sentido.

Servindo-se de um conceito de ciência política cunhado pelo antropólogo belga Pierre van den Berghe, Todd qualifica o sistema alemão como “dominação não igualitária”; qualquer igualdade que reste ali concerne exclusivamente aos dominantes, por exemplo, aos cidadãos alemães. Bem-vindos, pois, à democracia Herrenvolk – “democracia para o povo dos senhores”.[2]

Todd argumenta a favor de sua hipótese destacando que o dinamismo da economia alemã baseia-se nos ex-satélites da URSS: “Parte do sucesso de nossos vizinhos alemães repousa sobre a evidência de que os comunistas sempre cuidaram muito bem a educação popular. Deixaram atrás de si não só sistemas industriais obsoletos, mas também populações notavelmente bem educadas.”

Por isso, ao “anexar” as populações de Polônia, República Tcheca, Eslováquia, Hungria etc., significou que a Alemanha reorganiza sua base industrial servindo-se de trabalho barato. Mas, sim, há um imenso “se”: Todd acredita que a Alemanha pode também “anexar” uma população ativa de 45 milhões na Ucrânia, “com seu bom nível de formação e treinamento herdado ainda do período soviético.”

Nada sugere que possa acontecer assim. Moscou já deixou perfeitamente claro que aí há uma linha vermelha inultrapassável. Além do mais, “Ucrânia” é estado fracassado, em desintegração terminal, hoje, na verdade, colônia de facto do FMI, que tem, como único “atrativo” para o “ocidente”, suas ricas terras agricultáveis a serem saqueadas por Monsanto & comparsas.

“Ele não viu que a Alemanha se aproximava”

A coisa começa a ficar realmente divertida, quando Todd examina a confusão total em que estão metidos “os geopolitólogos norte-americanos clássicos”, em tudo que tenha a ver com “tradição ‘europeia’”. Falava, evidentemente, sobretudo, do famoso Dr. Zbig “Grande Tabuleiro de Xadrez” Brzezinski: “obcecado contra a Rússia, ele não viu que a Alemanha se aproximava.”

Todd observa, corretamente, como o Dr. Zbig “não percebeu que os militares norte-americanos, ao estender a OTAN até os estados do Báltico, até a Polônia (…) estavam, de fato, recortando um império para a Alemanha, de início, só império econômico, mas agora já império político.” E, paralelamente ao que venho examinando já há anos, Todd sugere que “a extensão da OTAN para o leste pode, no fim, trazer uma espécie de versão B do pesadelo, para Brzezinski: a reunificação da Eurásia, independente dos EUA.”

O final, com suspense, é para ser saboreado como o melhor Armagnac: “Fiel às suas origens polonesas [Zbig] temia só uma Eurásia sob controle russo. Agora está exposto ao risco de passar à história como mais um daqueles poloneses absurdos que, de tanto que odeiam a Rússia, promoveram a grandeza da Alemanha.”

Por enquanto, a Alemanha política – embora não os homens da indústria – escolheram continuar subjugados por EUA/OTAN como a chanceler Merkel parece estar promovendo, com seu cerco à Rússia.

Palácio Reichstag, instalação da casa legislativa Bundestag. (Reuters/Fabrizio Bensch)

Como Todd observa com acerto, a Alemanha dolorosamente ergueu sua hegemonia sobre a União Europeia sobre a noção de que uma cesta disparatada de nações proveria Berlim com a economia de escala para derrubar seu principal concorrente industrial, os EUA. Mas a Alemanha não tem energia – nem petróleo nem gás. O fornecimento que lhe vem da África e do Oriente Médio é inerentemente instável.

E assim se chega a mais um cenário que circula entre os que Bauman chamou de “elites nômades da modernidade líquida”, não nos think-tanks nem nas agências ocidentais de inteligência.

Segundo esse cenário, em vez de uma União Europeia tentando trabalhar com a Rússia, o que há é Berlim tentando minar Moscou para, no fim, passar a mão no controle financeiro sobre os imensos recursos russos: de volta àqueles bons velhos tempo do capitalismo de desastre de Yeltsin, quando tudo desabava em total colapso, menos a extração de recursos naturais da Rússia.

Afinal de contas, o “Novo Grande Jogo” tem a ver, sobretudo, com o controle dos recursos naturais de petróleo, gás e outros, da Rússia e da Ásia Central. Serão controlados por frentes de oligarcas supervisionados pelos seus patrões em Londres e em New York? Ou serão controlados pelo estado russo? E, depois de a Rússia ter sido subjugada, então os “-stões” da Ásia Central, principalmente a república do gás, o Turcomenistão, também estará exposta para entrar no jogo alemão.

Mas por enquanto é jogo de sombras. Merkel só faz declarar platitudes sobre o cessar-fogo de Minsk – quando todos os atores sérios sabem que Kiev trai o acordo diariamente. Berlim trabalha nas coxias para manter a bordo os proverbiais “atores relutantes” –Itália, Grécia, Hungria –, com sanções contra a Rússia, enquanto faz constar que faz o que pode para conter as histéricas Polônia e Lituânia.

Merkel sabe perfeitamente bem que os EUA processam grande parte de sua guerra de drones a partir da Alemanha, e que a inteligência alemã espiona os franceses para a Agência de Segurança Nacional dos EUA, a Comissão Europeia e até a indústria alemã.

Portanto, ela jamais antagonizará diretamente Washington – porque o que ela mais teme são os atlanticistas alemães, enquanto repete que Putin e o Kremlin viveriam “num mundo diferente”. Berlim e Moscou continuam a falar-se diplomaticamente, mas o humor tende ao silêncio qualificado.

O novo excepcionalismo

Todd é um dos poucos que afinal começam a fazer soar os sinos de alarme. Como ele próprio formula: “A cultura alemã é não igualistarista, o que torna difícil para os alemães aceitarem um mundo de iguais. Quando sentirem que são os mais fortes, os alemães receberão muito mal qualquer recusa a obedecer, dos mais fracos; para os alemães, esse tipo de recusa é antinatural, antirracional.”

Mais uma vez, estamos no reino do excepcionalismo, mas agora com o problema extra dessa tendência dos alemães, que historicamente sempre causou tumulto, à irracionalidade política. O novo lebensraum [ambiente circundante] remixado pode revolver em torno de uma usina de exportação sempre em expansão – que se agregará ao comércio global, servindo-se de mão de obra bem educada e barata. Quando o Reich desintegrou-se, em doideira maior que a vida há 70 anos, o novo pacto realizava um sonho. Como diz Todd, há hoje “dois mundos industriais desenvolvidos”, os EUA e “esse novo império alemão”

Para ele, a Rússia é “questão secundária” e ele ainda não examinou o longo jogo da China. Portanto, ele não está focado – como eu estou – nos muitíssimos movimentos rumo à integração da Eurásia. Mas o que captura a atenção de Todd é também um thriller para muito tempo, “um futuro completamente diferente para os próximos vinte anos, que não é o conflito Oriente-Ocidente”: a Alemanha cresce; e EUA e Alemanha inevitavelmente colidirão, tudo outra vez. Afinal, parece que a história se repete mesmo como farsa (letal).

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Traduzido do inglês pelo coletivo Vila Vudu, publicado originalmente em: http://rt.com/op-edge/256985-germany-merkel-eu-russia-nato/

[1] Sobre o mesmo assunto, ver também 8/5/2015, “Novo livro de Jean-Luc Mélenchon e o arenque de Bismark” [Le Hareng de Bismarck. Le poison alemand [O arenque de Bismark. O veneno alemão], Paris: Plon, 2015 [artigo traduzido em redecastorphoto (NTs)].

[2] “[Melhor falar de] democracia Herrenvolk, ou seja, de democracia que vale somente para o ‘povo dos senhores’” [Domenico Losurdo, em resistir.info].

Professores no Brasil estão entre mais mal pagos em ranking internacional

Via BBC Brasil

Para consultoria, salário de professor no Brasil deveria ser quase três vezes maior (Foto: Tânia Rêgo/ABr)

O Brasil é o lanterninha em um ranking internacional que compara a eficiência dos sistemas educacionais de vários países, levando em conta parâmetros como os salários dos professores, as condições de trabalho na escola e o desempenho escolar dos alunos.

O ranking é de setembro do ano passado, mas volta à tona no momento em que o governo paranaense aprova uma redução nos benefícios previdenciários dos professores do Estado.

A votação da lei elevou as tensões e levou a um tumulto no qual pelo menos 170 pessoas ficaram feridas após a repressão policial de um protesto de professores em Curitiba. Os professores paranaenses estão em greve desde sábado (25 de abril).

Em São Paulo, professores da rede estadual estão em greve desde 13 de março, reivindicando reajuste salarial e melhores condições de trabalho.

O estudo internacional foi elaborado pela consultoria Gems Education Solutions usando dados dos mais de 30 países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e alguns emergentes, como o Brasil.

Nele, o país aparece como um dos últimos em termos de salário pago aos professores, por exemplo.

O valor que os educadores brasileiros recebem (US$ 14,8 mil por ano, calculado por uma média de 15 anos e usando o critério de paridade de poder de compra) fica imediatamente abaixo do valor pago na Turquia e no Chile, e acima apenas de Hungria e Indonésia.

Os salários mais altos são na Suíça (US$ 68,8 mil) e na Holanda (US$ 57,8 mil).

Os professores brasileiros também são responsáveis por mais estudantes na sala de aula: 32 alunos, em média, para cada orientador, comparado com 27 no segundo lugar, o Chile, e menos de 8 em Portugal.

Combinando fatores como estes com o desempenho dos alunos – entre os piores entre os países pesquisados – a consultoria coloca o sistema educacional brasileiro como o mais ineficiente da lista.

“Nossas conclusões sugerem que o Brasil deveria cuidar do salário dos professores para alcançar o objetivo da eficiência educacional”, diz o relatório.

Para a consultoria, a meta seria um salário quase três vezes maior que o atual.

Deficiências no gasto

Os dados mais recentes da OCDE mostram as debilidades no gasto educacional brasileiro.

Segundo a organização, o gasto do governo brasileiro com educação cresceu rapidamente desde o ano 2000, atingindo 19% do seu orçamento em 2011 – a média da OCDE foi de 13%.

O gasto público com educação chegou a 6,1% do PIB brasileiro, acima da média da OCDE de 5,6%, e à frente da proporção de outros latino-americanos como Chile (4,5%) e México (5,2%).

Porém, o gasto do Brasil com a educação pública foi o segundo menor de todos os países da OCDE e parceiros – US 3.066, contra uma média de US$ 9.487. O país ficou em 34º no ranking de 35 países da organização.

O filantrocapitalismo, ou como os ricos herdarão a Terra

Por Guillermo Hernández Banderas | Via IHU

O filantrocapitalismo, categoria na qual se encaixa a figura de George Soros (foto), foi aceito na sociedade atual como substituto da redistribuição da riqueza por parte do Estado. Assim, vê-se numa perspectiva mais que positiva a atuação deste tipo de figura, independentemente das consequências econômicas que tenham provocado.

Atualmente, é comum ver nos meios de comunicação figuras econômicas como Bill GatesWarren Buffet ou George Soros sendo apresentados como grandes filantropos. Este tratamento, tão somente com estas três figuras, nos concede uma miríade de exemplos suficientes para realizar estudos de grande envergadura, embora este não seja um deles. Trata-se de três das 10 pessoas mais ricas do mundo e, por conseguinte, três dos maiores produtores de desigualdade mundial neste momento de crise sistêmica. Mas há uma figura que pode ser destacada acima das demais: a de George Soros. A razão principal é que Soros foi discípulo direto de um dos mais importantes filósofos e cientistas do século XX, Karl PopperSoros, por sua vez, também produziu bibliografia acadêmica, embora, evidentemente, não no mesmo nível do seu mestre.

Confere-se a George Soros, de origem húngaro-judaica e de nacionalidade estadunidense – uma série de ocupações, de financista a filósofo, de magnata a escritor. É, atualmente e segundo a Forbes, o 10º indivíduo mais rico do mundo com mais de 24 bilhões de dólares em um contexto no qual as 80 pessoas mais ricas do mundo possuem o equivalente às 3,5 bilhões de pessoas mais pobres, ou seja, a metade da população mundial. O que dá um resultado de cerca de 200 milhões de pobres por cada um desses 80 indivíduos mais ricos do mundo.

Esta fortuna tem três marcos fundamentais que o próprio Soros reconhece em sua obra A crise do capitalismo global, que são: a quebra do Banco da Inglaterra em 1992, a crise financeira no mercado asiático em 1997 e a crise do rublo na Rússia em 1998. Todas elas provocadas intencionalmente pelo próprio Soros, como ele mesmo reconhece, com métodos provavelmente imorais, e como também afirmam analistas financeiros tanto privados como públicos.

Por outro lado, a Real Academia Espanhola define filantropo como a “pessoa que se distingue pelo amor aos seus semelhantes e por suas obras pelo bem da comunidade”. Se este conceito for cotejado com os três acontecimentos previamente enumerados, não há a necessidade de uma análise profunda para ver que se está incorrendo em um paradoxo. Mas esta atitude por parte dos meios de comunicação tem um objetivo muito claro: legitimar ações, provavelmente imorais, dos mais ricos do mundo e, além disso, gerar um marco cognitivo e discursivo que leve o consumidor destes meios de comunicação a vincular as grandes fortunas ao trabalho caritativo em grande escala. Em suma, criar a concepção de que estes personagens produzem igualdade no longo prazo, e não desigualdade. Mas, se estudarmos as três crises provocadas por Soros e suas consequências, esta concepção não se sustenta.

As três crises de Soros

  • Quebra do Banco da Inglaterra, em 1992

Em uma época em que os hedge funds não eram conhecidos, Soros, em 24 horas – a quarta-feira negra –, foi capaz de ganhar um bilhão de dólares mediante a especulação financeira de divisas. A Inglaterra encontrava-se em um momento de fragilidade econômica, motivo pelo qual Soros decidiu agir em benefício próprio, e a ordem que ele deu em sua fundação foi a de ir à jugular. As consequências diretas foram a perda de mais de 3,3 bilhões de libras dos contribuintes na Inglaterra. As consequências indiretas para a sociedade, muito mais complexas de se analisar, repercutiram nas posteriores privatizações de serviços públicos e cortes em políticas sociais. Assim, Soros diz textualmente sobre a sua atuação na falência: “Se tivesse que me ver confrontado com indivíduos e não mercados, não teria podido esquivar o problema moral de escolher entre duas alternativas. Bendigo o céu por ter me guiado para os mercados financeiros nos quais nunca tive que manchar as mãos” (Toussaint, 2002, p. 144).

  • Crise asiática de 1997

Nesta crise Soros agiu com uma técnica similar àquela empregada na Inglaterra cinco anos antes, mas desta vez naMalásia. Aquele que fora o primeiro ministro malaio em 1997, Mahathir Bin Mohamad, apontou Soros como responsável pela crise monetária de seu país e pela posterior queda das economias do sudeste asiático. Posteriormente, a crise se estenderia a países como a TailândiaCoreia do SulIndonésia ou Filipinas. Assim,Maricela Reyes López afirma em seu livro Impacto social da crise financeira e econômica na Ásia que o impacto social que esta crise teve foi fundamentalmente sobre as camadas mais vulneráveis da sociedade. Ela indica como nestes países se produz um aumento generalizado do desemprego – somente em 1998, assinalou a Organização Internacional do Trabalho, o total de desempregados aumentou em 10 milhões de trabalhadores –, ao mesmo tempo que o da taxa de pobreza, que atingiu níveis anteriores a 20 anos, como assinalou o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. Diante desta situação e as acusações de MahathirSoros, em uma entrevista concedida aJennifer Hewett, em novembro de 1997, respondeu: “Se houve alguma vez um homem que se encaixasse no estereótipo do conspirador judeuplutocrático do mundo sionista bolchevique, este homem sou eu”.

  • Crise do rublo de 1998

Após os dois precedentes previamente explicados, a figura de Soros já era das mais reconhecidas e influentes no mundo das finanças. Este decidiu afirmar que os mercados financeiros russos se encontravam na fase terminal e que era necessário desvalorizar o rublo entre 15% e 25%. Apenas alguns poucos dias depois, o rublo caiu 31%, o que levou o vice-diretor do Fundo Monetário InternacionalStanley Fisher, a culpar o mesmo Soros por esta desvalorização monetária. A especulação levada a cabo pelos mercados financeiros e patrocinada por Soros fez com que a bolsa caísse 20% e a Rússia teve que pedir um empréstimo de 22,6 bilhões de dólares. Mas, afora o aumento de preços – a inflação era de 300% – ou a quebra de bancos, a importância fundamental residiu na drástica redução do nível de vida da população russa. Assim, uma das conclusões que o próprio Soros tirou desta crise foi que não importa absolutamente se tens razão ou não: o que importa é quanto dinheiro ganhas quando tens razão e quanto dinheiro perdes quando estás equivocado.

O filantrocapitalismo

Está claro que se alguém estuda a figura de George Soros e depois ouve o tratamento dado pela mídia, como o El PaísEl MundoABCLa RazónLa Vanguardia ou mesmo o jornal Público, ou publicações econômicas como El Econónimo ou Expansión, não pode, ao menos, colocar-se a possibilidade de que existem interesses além do direito à informação. A postura nos meios de comunicação do estado espanhol é simplesmente unânime diante deste tipo de figura. A capacidade crítica, fundamental para o exercício da atividade jornalística, é nula, não existe. Mas isso deve ter uma explicação.

A explicação baseia-se na aceitação do filantrocapitalismo como substituição da redistribuição da riqueza por parte do Estado, inclusive como substituto da partilha em base à discriminação positiva nos países anglo-saxões. O termo filantrocapitalismo foi cunhado por Matthew Bishop, editor do The Economist, em seu livro Filantrocapitalismo: como os ricos podem salvar o mundo. A estratégia consiste no investimento conjunto das pessoas mais ricas do mundo para maximizar os lucros destas inversões sociais. A esta estratégia já se uniram relevantes multimilionários como, além do próprio SorosBill e Melinda GatesMark ZuckerbergGeorge Lucas e Mellody HobsonDave Goldberg eSheryl SandbergPaul E. SingerJeff SkollPaul AllenRichard e Joan BransonSteve Bing e John Caudwell, entre outros. Em princípio, de onde venha o dinheiro que posteriormente será investido não parece representar nenhum problema de coerência teórica nem ética. Esta forma de agir também lhes proporciona uma melhora na sua imagem pessoal e investimentos em responsabilidade social corporativa para suas empresas, holdings, fundações…

Soros investe na Espanha

Para finalizar, é necessário informar que, desde o começo de 2014, George Soros começou a se interessar pelo investimento especulativo na Espanha. A entrada de Soros deu-se logo no mais alto nível das finanças na Espanha, e em menos de dois anos já investiu 500 milhões de euros no Banco Santander, 400 milhões de euros na recente privatização (OPV) da AENA, no negócio das energias renováveis da ACS, uma parceria com Florentino Pérez, 200 milhões de euros na Endesa e 175 milhões no Bankia. Mas a Espanha sofre uma crise econômica, social e cultural sem comparação desde a Guerra Civil espanhola, devida, em sua maior parte, à bolha imobiliária no mercado espanhol e que explodiu em 2008. Agora, com os preços da habitação em patamares mínimos, começam a receber investimentos especulativos. Assim, Soros já possui 3% da FCC, das irmãs Koplowitz, e um investimento de ao menos 700 milhões de euros.

Por outro lado, foi criado um fundo imobiliário, a Azora, uma empresa de investimentos na qual investiu outros 500 milhões de euros e cuja equipe também assessora, que é composta, entre outros, por representantes do Goldman Sachs, assessores esses, por sua vez, responsáveis pela atual crise mundial.

Diante da ausência de mudanças estruturais nesta crise sistemática, a solução parece ser deixar entrar capital de referências da especulação mundial com um longo passado na produção de falências em outras zonas geopolíticas. Assim, uma futura quebra devida à especulação com as mesmas bases que produziram a atual crise, não seria, em nenhum caso, uma hipótese absurda. Figuras como a de Soros, que exemplifica perfeitamente a elite extrativa, são consideradas como necessárias para uma saída “coerente” e “suave” da crise e não como as principais causadoras da mesma. Caso esta lógica reinar, a próxima crise terá características similares à atual. Mas, neste caso, se partirá de um nível inferior das condições materiais objetivas das classes trabalhadoras.

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Tradução: André Langer

Para mais informações:

SOROS, George. A crise do capitalismo global. Rio de Janeiro: Campus, 1999.

TOUSSAINT, Eric. A bolsa ou a vida. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2002.

Zelotes: Se bancos pagassem dívidas, questão fiscal seria resolvida, diz senador

Via Jornal do Brasil

Otto Alencar (PSD-BA) chama atenção para débito de R$ 565 bi em processos no Carf.

Se apenas uma pequena parte das grandes empresas e bancos do país com dívida junto à União pagasse seus débitos, o ajuste fiscal proposto pelo governo federal não seria mais necessário, alerta o senador Otto Alencar (PSD-BA). Levantamento feito por ele aponta que entre os processos que tramitam no Carf — alvo da Operação Zelotes da Polícia Federal — de cobrança em impostos e multas, 780 processos são referentes a empresas que devem mais de R$ 100 milhões, um montante de R$ 357 bilhões, bem mais do que se pretende economizar com os ajustes fiscais. Para o senador, o Carf precisa ser extinto, ou pelo menos reformado, já que sua configuração permite a interferência direta de interesses de empresas e bancos privados, justamente os maiores devedores.

O Carf deveria ser um conselho para negociar dívidas com a Receita, contudo, tem servido para outros fins, alertou o senador em entrevista à TV Senado. O conselho, criado em 2008 por Medida Provisória, é um órgão paritário, ou seja, é compostos por membros do Fisco, auditores fiscais; e por representantes dessas empresas, advogados tributaristas na maioria dos casos.

“Se somente as empresas da Avenida Paulista resolverem pagar o que devem ao erário, resolve o ajuste fiscal”, ressaltou o senador, chamando a atenção para os 780 processos que representam uma dívida de R$ 357 bilhões em impostos e multas. “Esse conselho nunca julgou os grandes (empresários e banqueiros), postergou as decisões de julgamento dos atos de infração o tempo inteiro, tanto é que resultou na Operação Zelotes.”

Os 4.295 processos de dívidas inferiores a R$ 100 milhões somam R$ 125 bilhões; os 13 mil de dívidas inferiores a R$ 10 milhões, R$ 43 bilhões; e os 93 mil processos inferiores a R$ 100 mil, R$ 9 bilhões. “Só que estava se cobrando só para os pequenos, para os grandes fazia recurso, não avaliava recurso, e ficava nessa situação.”

O Ministério da Fazenda abriu consulta pública sobre a proposta de reforma do Regimento Interno do Carf, que recebe sugestões até segunda-feira (11). De acordo com o presidente do Carf, Carlos Alberto Freitas Barreto, em comunicado sobre a ampliação do prazo da consulta pública, que seria encerrada nesta segunda-feira (4), a consulta já teve elevado nível de adesão.

Sem conteúdo local, Brasil volta a ser colônia

Por Rogério Lessa | Via AEPET

A perspectiva de “flexibilização” das regras de exploração do pré-sal, que ameaça diretamente a política de conteúdo local, está no centro das preocupações dos industriais do estratégico segmento de bens de capital. A Abimaq (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos) saiu em defesa dos fornecedores brasileiros, criticando o aceno dado pelo ministro Eduardo Braga, de Minas e Energia, favorável aos interesses estrangeiros. “Se o governo abandonar a política de conteúdo local estará condenando o país ao papel de mero exportador de commodities e de gerador de riquezas em outros países, como acontece com Venezuela ou Nigéria”, afirmou o presidente da Abimaq, Carlos Pastoriza, ao jornal Brasil Econômico.

O Instituto de Estudos para o Desenvolvimento da Indústria (Iedi) também manifestou preocupação com o desempenho da indústria, há anos mergulhada numa crise estrutural de graves proporções.  No primeiro trimestre de 2015, o setor registrou seu segundo pior resultado negativo desde 2003, quando o IBGE iniciou a medição da produção pela atual metodologia. O pior resultado foi registrado em 2009, no auge da crise financeira global. “O ajuste da economia brasileira está levando a indústria para uma situação desastrosa”, resume o instituto paulista em seu último informativo.

A crise da indústria vem andando a passos largos e se agravou com relação a 2014. No primeiro trimestre deste ano, a produção industrial caiu mais do que nos dois últimos trimestres do ano passado (–3,5%, –4,1% e –5,9%, respectivamente, no terceiro e quarto trimestres de 2014 e primeiro trimestre deste ano). “Por serem mais dependentes de expectativas sobre o futuro e por dependerem mais de financiamentos – hoje, uma mercadoria rara e cara –, os setores de bens de capital (–18,0%) e de bens duráveis (–15,8%) são aqueles cuja produção recuou mais fortemente nos primeiros três meses deste ano”, comenta o Iedi, ressalvando que a crise é generalizada e afeta também os setores de bens intermediários (–2,8%) e de bens semi e não duráveis (–5,9%).

“Se os números do primeiro trimestre apontam para um primeiro semestre muito ruim para a indústria nacional, o cenário que vai se configurando é de que dificilmente este quadro será revertido nos seis últimos meses de 2015”, conclui o Iedi.